domingo, 29 de dezembro de 2019

COMO LER LIVROS [Resenha]


De acordo com os professores Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, as escolas não ensinam as competências de leitura de alto nível necessárias para se desfrutar tanto de livros informativos como instrucionais. Você também precisa dessas habilidades para lidar com livros que vão além da sua compreensão. Esses mesmos livros, segundo os autores, garantem os insights mais profundos e duradouros. Adler e Van Doren delineiam uma abordagem sistemática para ajudar você a construir e sustentar novas capacidades de leitura. Estas habilidades vão ajudar você a se conectar às obras mais difíceis, complexas ou de níveis múltiplos. Para os autores, um livro “consiste da linguagem escrita por alguém com o objetivo de comunicar algo para você”. [1]

Um livro que ensina como ler livros. A proposta do autor, um dos maiores tomistas das últimas décadas, era necessária na época e, ainda mais, se faz necessária hoje. Uma rápida reflexão sobre o tema e pode-se concluir que há muito tempo as pessoas leem mal, quando leem.

A leitura do livro, do começo ao fim, é agradável. O autor tem uma escrita suave, direta e simples. No decorrer dos capítulos pode-se encontrar um ou outro termo ou palavra que não esteja presente no vocabulário popular, mas o uso de um dicionário é praticamente dispensável.

O livro divide-se em quatro partes.

(1) leitura elementar ou rudimentar, sugere que a pessoa se alfabetizou, aprendeu os rudimentos de arte de ler e recebeu o treinamento básico para a leitura; nesse nível a pergunta-chave a ser respondida é “O que a frase diz?”.

(2) leitura inspecional ou pré-leitura, tem como fator principal o tempo, pois essa leitura pressupõe determinado período no qual temos de ler certos trechos para extrair o máximo do livro; é a arte de folheá-lo sistematicamente, examinando sua superfície. As perguntas-chave são: “O livro é sobre o quê?”, “Qual é a estrutura do livro” e “Que tipo de livro é este?”.

(3) leitura analítica, é aquele em que a atividade é mais complexa e sistemática, quando comparada aos anteriores; depende das dificuldades do livro a ser lido e pode exigir muito ou pouco do leitor; trata-se da leitura completa, a melhor possível num período de tempo ilimitado. Ela suscita muitas perguntas, segundo o tipo de livro que se tem em mãos (elencadas na Parte 2 do livro).

(4) leitura sintópica, é o tipo mais complexo, e também pode ser encarado como uma leitura comparativa, pois implica muitos livros, ordenados em relação a um assunto determinado. Vai além da comparação, pois habilita o leitor a fazer uma análise que talvez não esteja em nenhum dos livros. É o nível mais ativo, trabalhoso e, portanto, o mais compensador de leitura.

Após ler esse livro, algumas conclusões e indagações surgem. O primeiro ponto, já citado no primeiro parágrafo, é que as pessoas leem muito mal. Ainda mais nos dias de hoje, onde a leitura precisa ser algo rápido. O segundo ponto é como a escola, nos moldes atuais, atrofia ainda mais a nossa habilidade prévia de ler, o que implica anos mais tarde em universitários analfabetos funcionais. Adler, como um tomista renomado, traz a proposta de se resgatar a tradição de ler bem. Embasado em uma filosofia vilmente esquecida, o tomismo, ele traz uma estrutura de reflexão sobre a ação que não vemos hoje em dia. Dificilmente alguém lerá esse livro e não refletirá sobre seus próprios hábitos de leitura da próxima ver que tatear um livro. [2]

No final do livro, encontramos uma lista de leituras recomendadas. A lista está em ordem alfabética de acordo com o nome do autor e a obra ou obras indicadas. Há também exercícios e testes referentes aos quatro níveis de leitura. Os testes são bem completos e acredito que devam ajudar realmente. Não fiz nenhum!

O livro traz muita informação. Impossível não aprendermos algo. Um livro para ser lido e estudado muitas vezes ao longo da vida. Recomendo para quem quer aperfeiçoar seus níveis de leitura, para quem quer estudar melhor, para quem faz algum curso e para quem quer pesquisar algo.[3]
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ADLER, Mortimer J. Como ler livros: um guia clássico para a leitura inteligente. São Paulo, SP: É realizações, 2010.


Créditos
[1] https://www.getabstract.com/pt/resumo/como-ler-livros/26123
[2] https://medium.com/@raulfoliv/resenha-do-livro-como-ler-livros-do-autor-mortimer-adler-bd016bbc1610
[3] https://www.lelendolido.com.br/2016/04/resenha-34-como-ler-livros-mortimer-j.html

PAULO, O PRÍNCIPE DOS PREGADORES [Resenha]


A história narrada neste livro mostra que Deus pode transformar o amargo em doce, o pobre em rico, o pior em melhor. Antes de sua conversão, Paulo alcançou a reputação de maior inimigo da Igreja, distinguindo-se acima de todos os seus correligionários na perseguição da Igreja em Jerusalém (At 8.3; 9.1,2; 22.5; 26.10). Ao tornar-se uma nova criatura (2 Co 5.17), tornou-se o maior defensor do evangelho, principal mestre do cristianismo e príncipe dos pregadores itinerantes.

Por outro lado, mesmo antes de seu encontro com Jesus Cristo, Deus usara o que tinha de pior em Saulo de Tarso para fazer o melhor em prol do seu Reino. O grande Semeador permitiu a perseguição para semear a Palavra de Deus, espalhando pregadores de Jerusalém por toda parte (At 8.1-4; 11.19).

A obra apresenta uma abordagem, ao mesmo tempo historiográfica, teológica e inspirativa, centrada na conduta de Paulo como pregador do evangelho e no conteúdo de sua mensagem. Conduta esta que foi resultado do testemunho de vida e morte de Estevão, juntamente com o encontro que Saulo teve com Deus, tornando-o, hoje, o príncipe dos pregadores itinerantes.

O livro possui, além dos agradecimentos e prefácios, sete capítulos, onde o autor O autor escreve uma análise do conteúdo dos sermões registrados desse pregador-modelo. O autor chama a atenção o fato de apenas uma de suas 7 pregações ter sido dirigida ao público cristão, a de Mileto, aos presbíteros de Éfeso (At 20.17-38). Isso evidencia bem o foco ministerial desse apóstolo dos gentios, que pregava muito mais a pagãos que a cristãos.”

Paulo: o príncipe dos pregadores é o sexto de uma série de sete livros que se baseiam nas marcas de sete personagens neotestamentários – João Batista, Pedro, Estêvão, Filipe, Barnabé, Paulo e Jesus Cristo. Estes estudos buscam identificar qualidades de cada um deles, mas, principalmente, descobrir aquela que era compartilhada por todos.
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ZIBORDI, Ciro Sanches. Paulo, o príncipe dos pregadores. Rio de Janeiro, RJ: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2019. 268p.

PAULO, O ESPÍRITO E O POVO DE DEUS [Resenha]


Lançada por Vida Nova, esta obra do erudito pentecostal Gordon Fee, resumo de sua grande obra “God’s Empowering Presence” [A presença capacitadora de Deus] “sem as mais de setecentas páginas de exegese” (como diz o autor), é fundamental na área da pneumatologia paulina.

O autor afirma que Para Paulo, a presença do espírito como experiência e realidade viva é uma questão fundamental para a vida cristã, do início ao fim. O segredo do sucesso dos primeiros crentes na cultura em que estavam inseridos estava nas “boas-novas” centradas na vida, na morte e na ressurreição de Jesus assim como na experiência com o Espírito, que fez da obra de Cristo uma realidade poderosa naquelas vidas. Para que a igreja seja eficaz em nosso mundo pós-moderno, precisamos procurar restabelecer a perspectiva de Paulo: o Espírito como a volta da presença pessoal do próprio Deus entre nós, experiencial e capacitadora, que nos dá condições de viver como povo radicalmente escatológico no mundo atual, enquanto esperamos a consumação.

Em sua análise o autor afirma que atualmente o Espírito Santo tem sido deixado á margem tanto da ala pentecostal como da ala tradicional histórico, mostrando assim que a comunidade da fé não está seguindo as pegadas da Igreja Primitiva que viveu sobre a direção do Espírito Santo.

Para Fee o sucesso da Igreja Incipiente não estava na sua metodologia, mas na presença do Espírito Santo que os fortalecia para a boa obra de Cristo. Gordon Fee nos convida então para lermos novamente os escritos do Apóstolo Paulo e identificarmos o papel decisivo do Espírito Santo em sua vida e pensamento, bem como na vida de suas igrejas.

O livro, além do prefácio e introdução, contém quinze capítulos. No final há um apêndice polêmico sobre “Paulo, o batismo do Espírito e o batismo em água”. O livro é um convite feito pelo autor para revisitarmos os escritos de Paulo, com o fim de observar o papel fundamental do Espírito na vida e no pensamento do apóstolo, bem como na vida de suas igrejas.

Ainda que não concorde com algumas questões periféricas do argumento de Fee, este é, com certeza, um dos livros mais importantes que li sobre a doutrina do Espírito Santo. A ênfase de Fee na obra do Espírito na comunidade é revigorante, assim como sua compreensão trinitária da teologia do apóstolo Paulo. Que o Espírito Santo continue a agir com poder, para a glória do Pai e do Filho e a renovação da igreja!
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FEE, Gordon D. Paulo, o Espírito e o povo de Deus. São Paulo, SP: Vida Nova, 2015. 256p.

DEUS E O DINHEIRO [Resenha]


Especialistas em finanças desenvolvem argumentos sobre os benefícios da generosidade. Com base em sete princípios bíblicos, especialistas em finanças desenvolvem argumentos a partir das convicções cristãs. Na obra “Deus e o Dinheiro”, John Cortines e Gregory Baumer, ex-alunos da Harvard Business School, trazem uma profunda e reveladora abordagem sobre os benefícios da generosidade.[1]

Por que a generosidade faz tão bem a quem pratica? Quais frutos ela pode produzir na vida de quem oferece bens com espontaneidade e alegria? Diversos estudos de pesquisadores renomados já comprovaram que indivíduos comprometidos com o bem-estar dos outros são mais felizes do que aqueles que focam apenas em si próprios.

Os autores discutem as raízes bíblicas da generosidade. Aliando conhecimento teórico, pesquisas e a sabedoria das Escrituras e do meio financeiro, os autores apontam princípios bíblicos fundamentais sobre dinheiro e doação que surpreendem pela simplicidade e instigação. À medida que desenvolvem seus argumentos, os autores transformam o conceito de generosidade de mera obrigação moral para um estilo de vida prazeroso e pleno de significado existencial. “Realizamos o levantamento no outono de 2014, como parte dos requisitos de uma matéria cursada na Harvard Business School, chamada “Deus e o dinheiro” […], sintetizamos nossas descobertas em uma estrutura para a generosidade que planejamos usar em nossa vida. Esperamos que ela demonstre ser edificante e libertadora também para outros, pois, nosso objetivo final é oferecer uma abordagem factível para tomar decisões reais acerca do acúmulo de riquezas e a decisão de doar, usando como firme fundamento o ensino de Deus sobre o assunto.” (p.19-20)

Por meio do próprio testemunho pessoal, John e Gregory revelam como mudaram sua perspectiva em relação ao acúmulo de bens e compartilham diretrizes para que os leitores não apenas doem radicalmente, mas o façam com responsabilidade. A cada capítulo, eles oferecem ferramentas que viabilizam a fácil definição do orçamento para gastos do cotidiano e a sábia administração dos recursos. Além disso, explicam como qualquer pessoa pode economizar para o futuro, seja para a aquisição de uma propriedade, a aposentadoria, o ensino superior, entre outras situações.

Realista e altamente revelador, o livro também traz insights para que o leitor possa discernir quando fazer doações generosas e quando guardar para o futuro. “Ao escrever este livro, nosso objetivo foi permanecer fiéis às Escrituras, e procuramos mencionar versículos bíblicos relevantes sempre que possível. Esperamos que o resultado seja algo que honre o melhor da cultura à nossa volta, dialogue com a sociologia e a filosofia, siga as Escrituras e, por fim, desafie profundamente o coração de cada cristão” (p.15).

Além do profundo embasamento bíblico, o novo título também é enriquecido com tabelas, gráficos, teste financeiro criado pelos escritores e uma série de dados e ilustrações claras a fim de ajudar toda e qualquer pessoa a descobrir o que significa honrar a Deus com sua riqueza, mostrando-lhe como romper o poder do capital sobre si. Sem dúvidas, esse livro é esclarecedor e um verdadeiro manual de administração e vida cristã para ser aplicado no dia a dia.

O livro possui dez capítulos distribuídos em três parte: fundamentos, estruturas e passe adiante. Os capítulos estão repletos de lições extraídas da Bíblia. Os autores fazem estudos de casos modernos e maneiras práticas de aplicar os ensinamentos elucidados. Deus e o Dinheiro oferece uma visão contundente do que as Escrituras Sagradas dizem sobre dízimo, fé, riqueza e mordomia cristã.
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CORTINES, John. Deus e o dinheiro: como descobrimos a verdadeira riqueza na Harvard Business School. São Paulo. SP: Mundo Cristão, 2019. 272p.


Créditos

sábado, 28 de dezembro de 2019

A ÚLTIMA NOITE DO MUNDO [C. S. Lewis]


INTRODUÇÃO

O livro é constituído por sete ensaios espirituosos e lúcidos, onde o grande escritor, pensador, teólogo popular e apologista cristão C.S. Escritos entre os anos 1952 e 1959, Lewis aborda diversas questões religiosas intrigantes e complexas. Os ensaios desse belo livro editado pela Thomas Nelson Brasil mostram a versatilidade de temas que Lewis pode discorrer. A série começa falando sobre oração, segue comentando a crença, trata sobre intelectuais, retoma o personagem Maldanado das Cartas, discorre sobre o sentido atual do trabalho, comenta a possibilidade de vida e fé fora do planeta e, por fim, medita sobre a Última Noite. A proposta do livro “A última noite do mundo” é dar ao leitor uma possibilidade de ver trechos de seu trabalho intelectual, apologético e literário. Uma experiência que passa por boa parte daquilo que a produção de Lewis nos legou. [1]

“A eficácia da oração” publicado em 1959 depois de citar testemunhos de orações respondidas, ele traz uma questão interessante: as respostas de oração acontecem porque se ora, ou pensar dessa forma se resume numa infantilidade ou imaturidade religiosa? É porque uma oração se parece atendida que ela é real e eficaz? Ele magnificamente responde: “Mas, mesmo se todas as coisas pelas quais as pessoas oram acontecer, o que não ocorre, isso não provaria o que os cristãos chamam de eficácia da oração”. Define sintomaticamente essa ideia assumindo a máxima: “Oração é um pedido”.

“Sobre a obstinação na crença” (1955) versa sobre a fé cristã e o crer científico e a diferença entre ambos. E porque tem que ser assim. Esse documento foi escrito para o Clube Socrático de Oxford e é um argumento apologético brilhante. O autor vai falar sobre a razão de acreditarmos em Deus. Assim como um médico vê um homem e diz acreditar que ele tenha sido envenenado, até examiná-lo e tirar o "acredito" da jogada, assim nós acreditamos na existência de Deus pois temos fatos pessoais que nos provam a existência dEle, Eu acredito que o computador que escrevo existe porque estou vendo ele, acredito que minha irmã existe porque conheço ela, mas não apenas acredito, eu sei que existem, e esse saber vem de experiências pessoais e conhecimento adquirido. Então nossa obstinação na crença da existência de Deus, não é porque levamos em consideração a possibilidade, mas porque temos uma certeza a respeito disso.[2]

“Lírios que apodrecem” (1955) trata da intelectualidade, principalmente da ideia de que intelectuais são mais refinados que outros homens (Lewis prova que não é assim). A “carientocracia”, ou o domínio dos sábios, é um perigo para a humanidade. Os governos políticos tampouco devem ser carientocratas, porque “a cultura é uma qualificação ruim para uma classe governante, pois não qualifica os homens para governar[...]” O artigo segue mostrando os perigos para a futura geração, pois a escola, desde as séries básicas, está contaminada com a ideia de “cultura progressista”, produzindo apenas hipócritas. Um artigo bastante denso e extenso, um dos que mais gostei. [3]

“Maldanado propõe um brinde” (1959) para mim, embora muito conhecido, mas, o que Lewis faz em “Maldanado propõe um brinde” não é um exercício de futurologia, apesar de utilizarmos a hipérbole que leva a conclusão de algo sobrenatural, mas sim a apurada percepção da transformação da educação na Inglaterra. Uma educação formatada para os fracos, que logo cruzou o atlântico e causou a desgraça completa da nossa civilização. Em seu discurso para os demônios estreantes, Maldanado ainda prescreve uma via de acesso rápido para a concretização dessa “Educação democrática”, quando diz: “É claro que isso só aconteceria se toda a educação se tornasse estatal” (LEWIS, P.83, 2018). Não nos surpreende constatar que essa é justamente a nossa realidade. Uma educação completamente aparelhada pelo Estado, que quando não faz às vezes fornecedor, atua como concessor. E aqui nem vamos aprofundar as discussões sobre as dificuldades maquinadas pelo “Estado babá” para impedir a educação privada, a exemplo dos empecilhos criados pelo STF ao Homeschooling.[4]

“Boa obra e boas obras” (1959). Em “Boa obra e boas obras” temos o abandono que há nas atividades realizadas. Seja pela dificuldade de ver um sentido real para o trabalho, seja pela péssima qualidade do que é feito. Tudo tem data de validade programada para pouquíssimos anos, é a nossa obsolescência programada: nenhuma obra, hoje, é boa o suficiente para a vida.

“Religião e foguetes” (1958) O interesse da implicação cósmica da ideia de redenção cristã permeia esse texto. Escrevendo em 1958, portanto 20 anos após o início da publicação do primeiro livro da trilogia, Lewis procurou responder brevemente acerca da “absurda arrogância, crer que fomos privilegiados com exclusividade” nesse vasto universo. Lewis especula sobre os seguintes temas: (1) existem animais em outro lugar além da Terra? (2) Se existirem, algum desses animais teria o que chamamos de “alma racional”? (3) se existirem espécies, e espécies racionais, além do homem, algumas ou todas elas, como nós caíram? (4) Se todas elas ou algumas delas tenha caído, foi-lhes negada a Redenção pela Encarnação e Paixão de Cristo? (5) se soubéssemos (mas não sabemos) as respostas a 1, 2 e 3 – e além disso, se soubéssemos que a Redenção por uma Encarnação e uma Paixão foi negada a criaturas necessitadas -, é certo que esse é o único modo de Redenção que é possível? O questionamento final é “se existe vida inteligente - além dos humanos - no universo, então o cristianismo é absurdo e paroquial na sua ideia de que o homem é importante para Deus”. Artigo extremamente perspicaz e indispensável a todo cristão.

“A Última Noite do Mundo” (1952) versa sobre a relutância que existe hoje em falar sobre a segunda vinda de Cristo. A questão principal não é a vergonha que os cristãos sentem com os falsos pregadores que já anunciaram o fim do mundo diversas vezes, e sim que a nossa pregação tem sido contaminada pelo pensamento moderno de que a humanidade está evoluindo. Lewis rebate esses pensamentos e levanta outras questões apologéticas importantes sobre a inerrância das Escrituras. [5]


CONCLUSÃO Ora, todos os ensaios nos levam a ótimas reflexões sobre nossa relação com nós mesmos, com o próximo e com Deus. A exigência de uma resposta para a oração; ou a loucura do trabalho impensado e alienado; a condição humana frente a criação e a possibilidade de ação missionária fora do planeta.

A vida do homem não se pauta mais no temor da última noite. Enquanto cada vez mais a posição científica de ver o mundo mácula até mesmo a fé, muitos caem no fanatismo das seitas apocalípticas e vivem de marcações e remarcações do fim dos dias. Viver em meio ao mundo sabendo que prestará contas de tudo é aquilo que nos direciona ao eterno. É o que nos faz atuar em nosso teatro sem medo da aproximação do autor da peça.

A melhor lição que podemos tirar desses ensaios é: viver procurando fazer bem qualquer coisa, desde a oração ao trabalho científico. Porque será assim que não haverá medo da última noite do mundo.[6]
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LEWIS, C. S. A última noite do mundo. Rio de janeiro, RJ: Thomas Nelson Brasil, 2018. 144p.


Créditos 

[1] Tobias Goulão. https://medium.com/@tobiasgoulao/%C3%BAltima-noite-do-mundo-73ec3fbe47eb
[2] Rudimar Baroncello. https://hiattos.blogspot.com/2019/08/opiniao-ultima-noite-do-mundo-c-s-lewis.html
[3] Silvia Schigueo. https://www.facebook.com/C.S.LewisFrases/posts/1080332388804669/
[4] Reação Adventista. https://reacaoadventista.com/2018/10/01/c-s-lewis-previu-a-diabolica-pedagogia-do-oprimido/
[5] Silvia Schigueo. https://www.facebook.com/C.S.LewisFrases/posts/1080332388804669/
[6] Tobias Goulão. https://medium.com/@tobiasgoulao/%C3%BAltima-noite-do-mundo-73ec3fbe47eb

BARNABÉ - O PREGADOR DE FÉ O OBRAS [Resenha]


Esse personagem é quase sempre citado nas pregações apenas como companheiro de Paulo ou um homem que ajudou esse apóstolo, etc., mas nunca como alguém fundamental para a expansão do Reino de Deus.

O autor deste livro, porém, além de resgatar o personagem em foco, faz-nos perceber algo que, geralmente, passa despercebido: Barnabé era pregador! E mais: ele foi um dos sete pregadores mais importantes do Novo Testamento! Isso mesmo! Barnabé foi um dos poucos mensageiros de Deus textualmente chamados de “cheios do Espírito Santo” (João Batista, Jesus Cristo, Pedro, Barnabé, Estêvão, Filipe e Paulo).

Barnabé era um homem cheio de fé, que demonstrava essa confiança inabalável por meio de obras. Ao examinar este livro, chamou-me a atenção o fato de ele ser o primeiro crente da Igreja Primitiva a vender uma propriedade e entregar o dinheiro aos apóstolos em benefício dos pobres. Que exemplo para nós, haja vista os muitos mercadores da fé, falsificadores da Palavra de Deus, que se aproveitam da credulidade dos incautos para subtrair seus recursos e bens.
Sem dúvida, o apóstolo Paulo é o principal personagem do Novo Testamento depois do Senhor Jesus, pois, além de suas 13 epístolas, metade do livro de Atos dos Apóstolos é dedicada a ele. Ao lado desse personagem neotestamentário, qualquer um, por mais eminente que seja, parecerá ter papel secundário. Por isso, o autor desta obra estimula-nos a ver Barnabé com uma lente diferente, desvencilhando-o, o quanto possível, de Paulo, responsável por eclipsá-lo.

Não é tarefa fácil distinguir o brilho de uma lâmpada quando ela está ao lado de outra. No entanto, quando as separamos, podemos notar que ambas iluminam. A lâmpada de Paulo tinha uma capacidade de iluminação mais ampla que a de Barnabé. Afinal de contas, o apóstolo dos gentios recebeu um chamado especial do Senhor Jesus, que era o de levar o nome de Cristo “diante dos gentios, e dos reis, e dos filhos de Israel” (At 9.15).

Por outro lado, essa lâmpada só brilhou com tamanha intensidade porque Barnabé, em três momentos pelo menos, agiu como um autêntico filho da luz. Primeiro, ele apresentou o então Saulo aos apóstolos quando ninguém acreditava nele. Depois, estando este esquecido em Tarso, na Cilícia, chamou-o para trabalhar em Antioquia da Síria. Por fim, durante a primeira viagem missionária, trabalhou e deixou seu amigo trabalhar, jamais se sentindo melindrado por causa do seu crescimento ministerial.

Nessa viagem, aliás, houve um momento decisivo na Panfília: quando João Marcos resolveu desertar. Barnabé — até então o líder da expedição — era parente do rapaz e podia ter dito a Paulo: “Vamos voltar, meu amigo. É muito trabalho para fazer sem um auxiliar mais jovem. Além disso, é muito perigoso para o rapaz voltar sozinho”. Mas o que ele fez? Humildemente, ele entendeu que o Espírito Santo estava alçando seu amigo à liderança naquele momento e, assim, manteve-se fiel a Deus até o fim.

Por ocasião do concílio em Jerusalém, após essa primeira expedição missionária, consta que “toda a multidão se calou e escutava a Barnabé e a Paulo, que contavam quão grandes sinais e prodígios Deus havia feito por meio deles entre os gentios” (At 15.12). Qual nome aparece primeiro? O de Barnabé, que, naquela ocasião, foi o principal orador dentre os representantes da igreja antioquena. Ninguém perde o protagonismo por ser humilde!

Como todas as obras da presente série, Barnabé: O Pregador de Fé e Obras tem sete capítulos. O primeiro gira em torno da generosidade altruísta de nosso pregador-modelo. No segundo, discorro sobre seu protagonismo, especialmente na Igreja de Antioquia da Síria, que se tornou o maior centro irradiador do evangelho no primeiro século.

No terceiro capítulo, trato das principais qualidades de Barnabé, especialmente aquela que o credenciou a fazer parte da seleta lista dos sete principais pregadores do Novo Testamento: cheio do Espírito Santo. No quarto, abordo sua chamada específica de cumprir a Grande Comissão bem longe dos círculos judaicos.

O quinto capítulo tem uma abordagem sobre seu apostolado. Ele era um apóstolo mesmo? Ou Lucas quis dizer que há dois níveis de apostolado, sendo que Barnabé pertence a uma categoria inferior à de Paulo? No sexto, esse assunto continua sendo enfocado, mas a ênfase recai sobre o importante episódio em Listra, onde Barnabé e Paulo foram chamados pelo povo da cidade de Zeus e Hermes.

No último capítulo, há várias controvérsias, a começar pela que envolveu Barnabé, Paulo e Pedro em Antioquia da Síria. Depois, a ocorrida por ocasião do concílio de Jerusalém. Finalmente, a grande desavença que desfez a dupla dinâmica (Barnabé e Paulo), mas resultou em duas expedições missionárias e permitiu a ascensão de dois jovens obreiros fundamentais para a propagação do evangelho: Timóteo e João Marcos.
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ZIBORDI, Ciro Sanches. Barnabé: o pregador de fé e obras. Rio de Janeiro, RJ: Casa Publicadoras das Assembleias de Deus, 2019. 159p

A PRÁTICA DA PIEDADE [Resenha]


É surpreendente que o clássico de Lewis Bayly sobre a piedade, A prática da piedade: diretrizes para o cristão andar de modo que possa agradar a Deus, não tenha sido reimpresso neste século [XX] até agora. Nos séculos XVII e XVIII esta obra era o livro inglês de devoção lido mais universalmente, depois de O peregrino. O próprio Bunyan atribui o início da sua vida espiritual, em certa medida, à leitura atenta deste manual sobre a piedade. Um pastor puritano se queixou de que o seu rebanho considerava a sua autoridade igual à da Bíblia!

A obra de Bayly, A prática da piedade, está repleta de diretrizes puritanas, práticas, para a busca de um viver santo. O autor começa a sua obra com “uma simples e clara descrição de Deus [em] Sua essência, em Sua Pessoa e em Seus atributos”. Ele trata da doutrina sobre Deus como uma base para a piedade, e da graça divina como fundamento de toda e qualquer graça de que nós, pecadores, necessitamos. O restante do volume trata dos motivos, das condições e dos objetivos da piedade.

Bayly dispõe a sua obra em torno dos dois destinos da humanidade. Ou viajamos pelo caminho largo rumo à destruição, ou, pela graça divina, estamos no caminho estreito que conduz à vida eterna. Ele descreve acuradamente o nosso miserável estado natural. O pecador impenitente tem a miséria como a sua companheira constante – uma condição miserável na infância, na juventude e principalmente na vida adulta e na velhice. Do trágico cenário do inferno como um lago sem fundo reservado para os que morrem não regenerados, Bayly se volta para as inefáveis glórias do céu. Ele confessa que o contraste o estonteava tanto que ele não conseguia continuar segurando a pena. Salientando a necessidade do novo nascimento e de um santo viver, ele conclui: “Trate de conseguir imediatamente o óleo da piedade para a lâmpada da sua conduta, para que esteja em contínua prontidão para se encontrar com o Noivo”.

A parte restante do tratado de Bayly é dedicada a mostrar como obter e manter a prontidão para o segundo advento de Cristo. Primeiro ele aborda esta prontidão negativamente, mostrando como vencer sete obstáculos: ensino errôneo, o pobre exemplo de pessoas proeminentes, a paciência de Deus em protelar a aplicação de castigo ao pecador, o erro de presumir a misericórdia de Deus, a companhia de ímpios, o medo da piedade (como se ela tornasse os seus possuidores deprimidos) e a ilusão de uma vida longa. Positivamente, Bayly passa então a salientar como se deve cultivar a piedade nas seções restantes da sua obra (do capítulo 5 ao 17). Ele nos dá sábio conselho sobre as disciplinas espirituais da oração, da leitura da Bíblia, da meditação, do cântico de salmos, da guarda do Sabbath [isto é, do santo repouso semanal], do cristão como mordomo de Deus, da celebração da Ceia do Senhor e do andar diário com Deus.

Não obstante a ocasional tendência de Bayly de promover um tipo de meditação altamente introspectiva, que pode conduzir à melancolia que ele procurava evitar, sustentamos que este é um livro muito útil, pondo às claras o estreito caminho que adentramos pela conversão e que conduz à vida eterna. Nós diríamos de Bayly o que Calvino disse de Lutero: “Sejamos imitadores das suas qualidades excelentes, e não dos seus excessos”. Certamente, uma das grandes marcas de excelência de Bayly é o seu esforço para reunir aproximadamente 2 mil textos para dar apoio bíblico à prática da piedade que ele nos recomenda.

À semelhança de Calvino, Bayly escreveu a sua maior obra para promover a piedade. Nem Calvino nem Bayly ficava embaraçado quanto ao conceito, quanto à prática e quanto ao dever da piedade no temor de Deus. Embora detestassem a falsa piedade, que promove autoengano e legalismo, tanto os reformados (exemplificados por Calvino) quanto os puritanos (exemplificados por Bayly) estavam plenamente persuadidos de que se deve empregar “piedade” primariamente num sentido positivo. Eles ficariam estupefatos ante o embaraço demonstrado por muitos protestantes evangélicos contemporâneos que sucumbiram ao uso pejorativo da piedade pela sociedade. Muito frequentemente eles têm deixado que a nossa sociedade secular defina os termos de significação sagrada.

Nunca nos embaracemos com relação à piedade genuína – Deus sabe que temos necessidade de maior porção dela em nossa vida pessoal, em nossas famílias e em nossas igrejas! Será melhor que nos embaracemos e nos envergonhemos por permanecermos em nossa impiedade no pensamento, na conversa e nas ações

Acompanhado pela bênção do Espírito, este livro tem potencial para muito benefício. Se fosse levado a sério, o livro A prática da piedade serviria como o toque de sinos pela morte de todos os ramos do leviano antinomismo e das formas do “fácil fideísmo” do arminianismo; ele nos impeliria a Cristo, desejosos de santidade, confessando com Paulo: “Miserável homem que eu sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! De modo que, com a mente, eu próprio sou escravo à Lei de Deus; mas, com a carne, da lei do pecado. Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, que não vivem segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 7.24-8.1).

Leia A prática da piedade lentamente, com meditação, com oração, e, recomendo, anualmente. Pergunte a si mesmo repetidamente: “Estaria pondo em prática o conselho bíblico deste sábio escritor espiritual? Estaria eu buscando santidade – a santidade sem a qual homem nenhum agradará a Deus nem será recebido para o gozo das glórias eternas de um céu santo?”

O livro possui 17 capítulos, onde o autor, como já foi enfatizado antes, dá orientações sobre como devemos guiar nossos pensamentos, as nossas palavras e as nossas ações em tempos de saúde e em tempos de enfermidade e aflição. Provê diretrizes para nos protegerem do desespero e do medo da morte. Em suma este é um livro acerca de como viver bem e de como morrer bem.
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BAYLY, Lewis. A prática da piedade: diretrizes para o cristão andar de modo que possa agradar a Deus. São Paulo, SP: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2017. 384p.

EXAMINANDO AS ESCRITURAS [Resenha]


“Examinando as Escrituras”, publicado pela Mundo Cristão, é um instrutivo e edificante recurso dedicado a todos que desejam crescer no conhecimento da Palavra de Deus. Na obra, Charles R. Swindoll, chanceler do Seminário Teológico de Dallas, apresenta um método consistente e confiável para o estudo e a interpretação das verdades bíblicas, oferecendo insights que ajudarão o leitor a entender a abrangência, a importância e a beleza da mensagem de Deus.

Algumas observações importantes sobre este livro. Ao longo da obra, Swindoll convida o leitor a explorar mais profundamente os ensinamentos do livro sagrado. Por meio de três estágios, ele expõe um passo a passo seguro para quem deseja examinar as Escrituras de forma adequada, evitando erros.

O primeiro estágio, o autor chama de – “ENCONTRAR COMIDA – contém dois capítulos, onde o autor apresenta um panorama para a compreensão da história básica da Bíblia.

Após a familiarização com o livro, no segundo estágio – PREPARAR A REFEIÇÃO – com seis capítulos, o autor desenvolveu um método que ao longo dos anos tem ajudado milhares de pessoas a redescobrirem o prazer na leitura da Bíblia Sagrada. Ele apresenta uma técnica consistente e confiável para o estudo e a interpretação bíblica e oferece explicações que ajudarão o leitor a entender a abrangência e a importância da Palavra. Portanto, nesse segundo estágio, Swindoll ensina seu método de ensino dividido em 4 etapas: observação, interpretação, correlação e aplicação.

No último, - SERVIR O BANQUETE – com três capítulos, ele explica que, após compreender a Palavra, é hora de compartilhar esse conhecimento com outras pessoas. Com um conteúdo curioso e altamente inspirador, o livro traz um verdadeiro banquete para quem quer fortalecer a fé e compartilhá-la com grande alegria e confiança.

É um livro teológico, mas, escrito de forma muito didático, pois vem ainda com diversos exercícios práticos que facilitam o aprendizado. Examinando as Escrituras é um recurso dedicado a todos que desejam se aprofundar no conhecimento bíblico, seja o pastor, o líder de ministério ou o leitor que busca um método eficaz para seus momentos de reflexão e estudo.
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SWINDOLL, Charles R. Examinando as Escrituras: redescubra o alimento que nutre a alma. São Paulo, SP: Mundo Cristão, 2019.224p.

COMO SER UM CONSERVADOR [Resenha]


 “Como ser um conservador” apresenta e investiga a visão conservadora em relação ao nacionalismo, ao socialismo, ao capitalismo, ao liberalismo, ao multiculturalismo, ao ambientalismo e ao internacionalismo, entre outros “ismos”. Ainda que se possa discordar de suas ideias, é inegável que o livro propõe de forma inteligente debates indispensáveis sobre o mundo em que vivemos hoje e sobre as escolhas que somos obrigados a fazer, tanto no plano teórico das esferas de valor quanto no plano das questões práticas, que afetam diretamente o nosso futuro e a nossa qualidade de vida. 

Ilustrando a tese (do historiador do socialismo Robert Conquest) de que “todo mundo é de direita nos assuntos que conhece”, Scruton conta, por exemplo, como seu pai, um operário filiado ao Partido Trabalhista, era extremamente conservador em relação aos valores e modos de vida da zona rural onde cresceu.
O livro é surpreendente, por vários motivos.

O primeiro deles é que eu já havia lido os seus livros “O que é Conservadorismo” (1980) e “Pensadores da Nova Esquerda” (1986), publicados pela É Realizações, e achei que esta nova obra, de 2014, seria um “remake” ou um aprofundamento, notadamente daquela de 1980. Puro engano...

O segundo é que Roger Scruton escreve hoje muito melhor do que antes e agora conta com uma tradução à altura. Tudo está bem claro e as várias notas do tradutor ajudam o leitor brasileiro a desvendar certas particularidades do ambiente anglo-americano, que é o foco da análise da perspectiva conservadora promovida por Scruton, tornando a leitura muito mais dinâmica do que a das outras obras mencionadas.

O terceiro motivo é que Scruton não apenas elabora capítulos sóbrios e bem construídos sobre as verdades do nacionalismo, do socialismo, do capitalismo, do liberalismo, do multiculturalismo, do ambientalismo, do internacionalismo e do próprio conservadorismo, culminando com uma avaliação dura e cativante das esferas de valor, ou seja, o cerne do pensamento conservador. Antes disso tudo ocorrer, ele inicia o livro nos mostrando dois capítulos extremamente “íntimos”, contando sua trajetória e sua vida familiar, notadamente sua relação com Jack Scruton, seu pai, o que é coisa rara de se ver num filósofo “made in britain” como ele.

O quarto motivo diz respeito em relação ao debate econômico, Scruton é um crítico severo do continuado declínio cultural e econômico que resulta do ideal de se alcançar uma sociedade nova e igualitária em que todos teriam o mesmo (ou seja, coisa nenhuma). Ele afirma que, em países que almejam a riqueza e o desenvolvimento, a figura mais importante não é o administrador, mas o empreendedor (outra palavra que, na prática, ganhou um sentido pejorativo no Brasil) – isto é, aquele que assume e enfrenta os riscos de produzir riqueza. Segundo o autor, a ideia do Estado como uma figura paterna benigna, que aloca de forma eficiente os ativos coletivos da sociedade para o lugar onde são necessários “e que está sempre presente para nos retirar da pobreza, da doença ou do desemprego” é uma ilusão, que não foi aprovada no teste da realidade. E isso por um motivo muito simples: por mais que um governo seja competente em matéria de distribuição (o que já é difícil), não se pode distribuir uma riqueza sem que existam as condições para criá-la.

Scruton atesta, com menção explícita aos grandes austríacos Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek, é que “a propriedade privada e as trocas voluntárias são características necessárias de qualquer economia de grande escala”, elementos indispensáveis para as sociedades em que pessoas são dependentes de outras, inteiramente desconhecidas, a fim de que haja “coordenação econômica”. Scruton ressalta a crítica austríaca ao cálculo de preços no socialismo, a partir da consciência de que o conhecimento necessário à atividade econômica está disperso na sociedade e não pode ser concentrado em mãos de um poder centralizado, disposto a um planejamento que, fatalmente, se torna tirânico e ineficaz. Com base em Hume, Adam Smith, Burke e Oakeshott, Scruton vê na interação de uma ordem legal e uma economia de mercado, não nascidas de um planejamento racional central, mas do seio livre da própria sociedade através dessa ordem espontânea, o melhor caminho que, se eventualmente está degradado, em boa medida isso seria “resultado da interferência estatal”, sendo, “por certo, improvável ser por ela solucionada (essa degradação)”.

Atacando a teoria ingênua – ou criminosa – de que o socialismo se utiliza para sustentar o agigantamento do Estado, Scruton lembra que esse mesmo Estado “cria renda sobre os ganhos dos pagadores de impostos e a oferece aos seus clientes privilegiados”, criando-se assim, em alguns países, uma nova “classe do ócio”, que se ancoraria no restante da sociedade para se sustentar. Não soa familiar? Na visão de Scruton, a maior falácia presente no socialismo é a visão da vida em sociedade como “aquela em que todo sucesso de um é o resultado do fracasso de outrem”. Essa percepção estúpida do processo de geração de riquezas fica clara na célebre frase de outro conservador britânico, Winston Churchill, que define o socialismo como “a filosofia do fracasso, o credo da ignorância e o Evangelho da inveja”.

Depois, já em ritmo de conclusão, ele aponta várias questões práticas que ficam como um retrato da nossa conturbada época e como os valores conservadores podem ajudar o mundo a sair desse mato sem cachorro em que se meteu.

Ao final, no magistral último capítulo, denominado “uma despedida: impedir o pranto mas admitir a perda”, Roger Scruton faz uma mescla perfeita entre os valores do conservadorismo, a defesa da religião, da educação, da família e como a cristandade trata a perda de uma forma que nunca havia me ocorrido pensar antes, tudo isso mesclado com extremo conhecimento sobre arquitetura, arte, beleza, política, filosofia.
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SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. Rio de Janeiro: Record, 2015.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

AS 5 LINGUAGENS DO PERDÃO [Resenha]


“Amar é nunca ter de pedir perdão”. Essa frase, ainda na moda, é do filme Love Story, de 1970. Trata-se de uma inversão de valores, pois tomar a iniciativa de pedir perdão é demonstração de respeito, carinho, maturidade espiritual e psicológica. Mas como saber o jeito certo de se desculpar? Como ter certeza de que o pedido de perdão transmitirá sinceridade e sensibilizará a parte prejudicada?

Em As cinco linguagens do perdão, os experientes conselheiros Gary Chapman e Jennifer M. Thomas abordam com competência este delicado e importante processo nos relacionamentos: o pedido de perdão — talvez o mais difícil, por envolver humildade e coragem, além de imprevisibilidade do resultado. Eles analisam dezenas de casos e relatos, apontam as principais barreiras, identificam as cinco áreas de maior sensibilidade das pessoas e oferecem orientação prática para obter a cura pessoal e o restabelecimento das relações

Fruto de intensas pesquisas sobre a importância de pedir perdão de maneira efetiva, “As Cinco Linguagens do Perdão” trazem maneiras de reconstruir relacionamentos desgastados e uma curiosa constatação: o perdão não tem o mesmo significado para todas as pessoas. Isso acontece porque os seres humanos possuem diferentes “linguagens” para pedir desculpas.

Os autores afirmam que “nosso objetivo é que, ao ler este livro, você consiga ouvir uma voz e dois corações batendo juntos no esforço de transmitir uma mensagem que ambos acreditamos ter enorme potencial de intensificar relacionamentos conjugais.”

O livro, além dos agradecimentos, introdução, apêndice, questionários e notas, possui doze capítulos, divididos em duas partes. Na primeira metade desta obra, contem cinco capítulos onde são identificados e descritos cada uma das cinco linguagens do amor na hora de pedir perdão. Na outra metade, o leitor vai encontrar conceitos que podem fortalecer relacionamentos no casamento, na criação de filhos, nas interações familiares, no namoro e até no ambiente de trabalho.

Sobre os autores:
Gary Chapman escreveu quase duas dezenas de livros, vários deles publicados em língua portuguesa pela Editora Mundo Cristão, entre os quais As cinco linguagens do amor, obra que já alcançou marcas históricas de vendagem e ocupa há anos as posições mais privilegiadas das listas de best-sellers cristãos.

Jennifer M. Thomas é Ph.D. em Psicologia Clínica pela Universidade de Maryland e membro da Associates in Christian Counselling, organização especializada em aconselhamento cristão. Realizou pesquisas em várias áreas do relacionamento familiar, profissional e social.
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CHAPMAN, Gary. As 5 Linguagens do Perdão. São Paulo, SP: Mundo Cristão, 2019. 208p.

CALVINO, GENEBRA [Resenha]


Jean-Marc Berthoud, erudito teólogo e filósofo calvinista, nos presenteia nesta obra com uma visão perspicaz sobre Calvino, sua vida, formação, e o papel dele na propagação da fé reformada na França do século XVI. Calvino mantinha uma estratégia diferente e mais eficaz para disseminar as boas novas do Evangelho. Ele não estava interessado apenas em enviar pregadores, mas em estabelecer igrejas com estrutura verdadeira e disciplina eclesiástica. Como nos lembra Berthoud, as chamadas “igrejas organizadas” poderiam desempenhar todas as funções de uma verdadeira igreja: “ensinar, alimentar e dirigir de maneira fiel a assembleia local dos crentes”.

As lutas enfrentadas na cidade de Genebra para a implementação das verdades do Evangelho na vida diária de seus habitantes, as crises politico-religiosas e a luta contra os interesses pessoais e escusos dos inimigos da fé apenas fortaleceram a resolução do reformador sobre a necessidade da criação de uma cultura moldada pelos valores e centrada no Criador.

A pregação sistemática de Calvino e a existência da Academia de Genebra serviram de molde para a formação de pastores e seu envio às igrejas reformadas da França. A demanda era grande, pois literalmente milhares de igrejas reformadas foram organizadas em poucos anos. Por sua vez, elas se tornaram o berçário de pregadores, missionários e novas plantações de igrejas. Na visão de Calvino, essa era a melhor forma de contribuir para o avanço do Reino de Deus e de sua glória.

O livro além do prefácio, introdução e conclusão, tem oito capítulos, divididos em duas partes: (1) na primeira temos um breve panorama da vida de Calvino, o contexto e as origens da Reforma Francesa e presença de Calvino em Genebra; (2) o trabalho eclesiástico na França, o envio de missionários para França, formação dos pastores e a pregação de Calvino e o último capítulo com um título palpitante: “A soberania de Deus e a pregação do Evangelho”.

Esse livro é um bom lembrete a respeito da pregação que virou o mundo de cabeça para baixo na Idade Moderna. Uma pregação que pode (e deve) fazer o mesmo em nossos dias. Deus é soberano e isso não significa que não devamos anunciar seu Evangelho; antes, significa que ele pode usar os nossos parcos recursos para a expansão do seu Reino, para que a glória seja somente dele. E ele prometeu fazê-lo.
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BERTHOUD, Jean-Marc. Calvino, Genebra e a propagação da Reforma na França do século XVI. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2017. 146p.

O QUE ESTÃO ENSINANDO AOS NOSSOS FILHOS? [Resenha]


Um dos maiores desafios que os cristãos enfrentam neste século é a rápida secularização da sociedade ocidental e o crescimento do número de céticos, ateus e agnósticos entre os jovens. Pesquisas recentes no Brasil e no exterior mostram que mais da metade dos jovens cristãos que ingressam nas universidades abandonam sua fé, ficam confusos ou se tornam desigrejados. No Brasil, em especial, onde o número de jovens nas universidades praticamente dobrou na última década, este desafio se sente de forma ainda mais intensa, particularmente pelo fato de que a ascensão econômica entre os evangélicos implica em um número maior deles nas universidades.

A universidade passou a representar, depois do Iluminismo, um desafio à fé dos jovens cristãos ingressantes, com sua visão naturalista de mundo, influenciada pelo evolucionismo e pelo marxismo, abrindo uma dicotomia que antes não existia entre fé e ciência.

A relevância da educação escolar cristã reside aqui, em ser capaz de oferecer aos jovens não somente um ensino de qualidade como também uma visão cristã de mundo que os ajude a interagir, de maneira crítica, com a visão naturalista ateia-marxista que hoje domina os meios acadêmicos.

Na presente obra, Solano Portela mostra esta importância e a necessidade de se enfatizar a educação escolar cristã. O livro contém o desenvolvimento do pensamento do autor sobre o tema, cujo interesse e pesquisas remontam à publicação do livreto originalmente publicado pela Editora FIEL, “Educação Cristã?”, publicado em meados dos anos 1980. Alicerçado em uma cosmovisão cristã, o autor apresenta diversos ensaios sobre o cenário atual no campo educacional, abordando o construtivismo, o perigo dos livros didáticos, mostrando a diferença de uma verdadeira educação cristã. Apresenta, também, a didática de Cristo, a questão da cultura e educação, culminando com uma proposta aos educadores cristãos de uma pedagogia redentiva.

Com a clareza e a riqueza de informações que caracterizam o seu estilo de escritor, Solano Portela nos oferece uma visão ampla do campo aberto para a educação escolar cristã no Brasil e os desafios que a mesma enfrenta, encorajando-nos a investir nela como um mandato que os cristãos receberam de Deus.

O livro é dividido em três grandes partes que relatam: a) O Cenário: como se encontra o atual cenário da educação no Brasil, tanto secular quanto religiosa, principalmente orientada pelas teorias construtivistas; b) O Contraste: a plausibilidade da educação escolar cristã como uma alternativa; c) A Proposta: uma proposição para o desenvolvimento de uma pedagogia para a educação escolar cristã, chamada de “Pedagogia Redentiva”.

A primeira parte faz uma avaliação bastante pertinente do Construtivismo e sua influência na educação brasileira nas últimas três décadas. Nesta seção o autor demonstra que a proposta pedagógica predominante na educação brasileira é muito mais do que uma metodologia de educação e que não pode ser tomada como algo neutro e estéril para ser aplicado em qualquer contexto. Antes, é uma filosofia que contém uma série de contradições fundamentais com os princípios da fé cristã que encontramos nas Escrituras. Os conceitos fundamentais de Piaget, Emília Ferreiro e de vários pensadores brasileiros são avaliados à luz dos conceitos bíblicos da epistemologia e de seu sistema de valores. Dentre seus 20 capítulos, encontramos vários temas que incluem a avaliação de alguns materiais didáticos e suas filosofias anticristãs. A seção serve como um chamado à reflexão por parte dos pais, educadores e escolas cristãs que querem de fato promover uma educação de excelência que tenha fundamentos numa cosmovisão bíblica sobre a vida e o mundo.

A segunda parte do livro labora sobre a educação escolar cristã como uma alternativa, partindo do princípio de que a Bíblia nos apresenta uma visão unificada da vida que deve servir como base para a educação praticada pelo cristianismo em geral e pelas escolas cristãs em particular. A seção trata de definir o que é a educação escolar cristã, quais são seus parâmetros e como ela se constitui a partir de uma cosmovisão cristã. Neste ponto o autor faz uma descrição da aplicação do conceito de educação cristã escolar para as grandes áreas do conhecimento, demonstrando como cada uma delas deve ser compreendida e ensinada a partir das Escrituras: a matemática, ciência, saúde, geografia, história, sociedade, governo, economia, cultura e arte e tecnologia. Dentre os capítulos encontramos tratados os temas da didática de Jesus, limites, a missão da escola e do educador e seu papel na cultura.

A última parte trata da Pedagogia Redentiva traçando as suas definições e tarefas fundamentais. Trabalhando sobre os principais atores e ideias da pedagogia praticada no Brasil, Solano caminha para uma proposta que avalia os caminhos seguidos até o momento avaliando em que pontos são possíveis o diálogo entre a pedagogia em geral e a proposta de uma pedagogia que leve, de fato, em consideração os pressupostos do cristianismo histórico conforme compreendido a partir das Escrituras. Os principais temas abordados são a complexidade, transversalidade e transdisciplinaridade, individualidade, pilares da educação, construtivismo, pedagogias de Paulo Freire e males sociais. O livro é concluído com uma breve seção que abre o caminho para as próximas pesquisas e desafios que se encontram no caminho dos educadores cristãos brasileiros.
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PORTELA NETO, Francisco Solano. O que estão ensinando aos nossos filhos?: uma avaliação crítica da pedagogia contemporânea apresentando a resposta da educação escolar cristã. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2012.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

A MENTE ESQUERDISTA [Resenha]


A Mente Esquerdista” traz o primeiro exame profundo da loucura política mais relevante em nosso tempo: os esforços da esquerda radical para regular as pessoas desde o berço até o túmulo. Para salvar-nos de nossas vidas turbulentas, a agenda esquerdista recomenda a negação da responsabilidade pessoal, incentiva a auto-piedade, promove a dependência do governo, assim como a indulgência sexual, racionaliza a violência, pede desculpas pela obrigação financeira, justifica o roubo, ignora a grosseria, prescreve reclamação e imputação de culpa, denigre o matrimônio e a família, legaliza todos os abortos, desafia a tradição social e religiosa, declara a injustiça da desigualdade, e se rebela contra os deveres da cidadania.

Dadas as suas metas irracionais, métodos coercitivos e fracassos históricos, juntamente aos seus efeitos perversos sobre o desenvolvimento do caráter, não pode haver dúvida da loucura contida na agenda radical. Só uma agenda irracional defenderia uma destruição sistemática dos fundamentos que garantem a liberdade organizada. Apenas um homem irracional iria desejar o Estado decidindo sua vida por ele, ao invés de criar condições de segurança para ele poder executar sua própria vida. Só uma agenda irracional tentaria deliberadamente prejudicar o crescimento do cidadão em direção à competência, através da adoção dele pelo Estado. Apenas o pensamento irracional trocaria a liberdade individual pela coerção do governo, sacrificando o orgulho da auto-suficiência para a dependência do bem-estar.

O autor escreve: “Meu propósito neste trabalho é estabelecer uma base biológica, psicológica e social para uma forma particular de sociedade humana - a da liberdade ordenada. Eu busco uma teoria da liberdade baseada na natureza humana e nas realidades da condição humana. A partir desta teoria, ataco o paradigma socialista dominante, o estatismo do bem-estar e o relativismo moral da agenda esquerdista contemporânea, como uma distorção patológica dos instintos sociais normais. No curso deste esforço, noto que todas as influências saudáveis de desenvolvimento do nascimento à maturidade melhoram tanto a autonomia como a mutualidade com outros. Adquirir habilidades ocupacionais e sociais como preparação para a vida adulta numa sociedade livre é algo central para esse desenvolvimento. A competência nessas áreas permite a conquista da responsabilidade individual como uma base necessária para a cooperação voluntária, tanto social como econômica. Eu observo, em contraste, que as políticas invasivas da agenda esquerdista nutrem a irresponsabilidade econômica, a dependência patológica e o conflito social. As razões para esses efeitos destrutivos são expostas ao longo do texto” [p.16].

Ele continua “A agenda esquerdista moderna, com suas políticas estatistas de bem-estar, relativismo moral e regulação invasiva, enfraquecem os fundamentos da liberdade, da ordem e da cooperação. Essencialmente socialista/coletivista em seus valores principais, a agenda é fundamentada em grandes equívocos sobre a natureza e a liberdade humanas. Ela compreende erroneamente a natureza biológica, psicológica e social do homem. Ela compreende erroneamente o desenvolvimento do indivíduo e as influências que promovem a competência adulta e a soberania pessoal. Ela compreende erroneamente a maneira pela qual os humanos se relacionam uns com os outros nos domínios econômico, social e político. Estas compreensões errôneas resultam em políticas destrutivas para a liberdade e para a ordem

No coração dos defeitos da agenda esquerdista está uma filosofia de coletivismo que ignora a natureza dos seres humanos como indivíduos. Esta natureza não pode ser ignorada sem consequências terríveis. Uma análise cuidadosa da natureza e da liberdade humanas revela que uma sociedade pode sustentar a liberdade individual, a segurança econômica e a estabilidade social apenas se seus valores e instituições dominantes forem comprometidos com um individualismo racional, embora não radical: que seja definido pela auto-confiança, pela cooperação voluntária, pelo realismo moral e pelo altruísmo. Essas alegações são o assunto deste livro. [p.18-19]

Lyle H. Rossiter estudou medicina e psiquiatria na Universidade de Chicago. Serviu por dois anos como psiquiatra no Exército dos EUA. Especializado tanto em psiquiatria em geral como forense, por mais de quarenta anos diagnosticou e tratou desordens mentais. Grande experiência no campo do diagnóstico e tratamento de doenças mentais e tem prestado consultoria em mais de 2700 casos civis e criminais na Justiça dos EUA.
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ROSSITER, Lyle H. A Mente Esquerdista: As causas Psicológicas da Loucura política. Campinas, SP: Vide Editorial, 2016, 499p.

sábado, 21 de dezembro de 2019

APRENDENDO A VIVER COMO JESUS [Resenha]


Em 2013, a organização Langham Partnership UK and Ireland, sob a liderança de Ian Buchanan, o diretor executivo à época, fez uma campanha para incentivar as pessoas a se tornarem mais semelhantes a Cristo. Na visão da Langham, cristãos e igrejas ao redor do mundo deviam aprofundar-se em maturidade espiritual, e não apenas crescer em números por meio de evangelismo. E isso significa tornar-se mais semelhante a Jesus. Para ele, o amadurecimento acontece quando nos alimentamos da palavra de Deus, especialmente quando ela é pregada com fidelidade e clareza, a fim de exercer impacto relevante na vida e no contexto das pessoas. Portanto, um dos principais objetivos da Langham é elevar os padrões da pregação bíblica.

Decidiu-se que o conteúdo central da campanha consistiria em uma série de estudos bíblicos e de vídeos sobre o fruto do Espírito em Gálatas 5.22-23. Essa escolha se deveu, em parte, ao fato de que John Stott — fundador da organização Langham Partnership, falecido em 2011 — costumava orar todas as manhãs para que Deus, o Espírito Santo, fizesse o fruto do Espírito amadurecer em sua vida. Diante disso, uma vez que Paulo relaciona nove itens em sua descrição do fruto do Espírito, Jonathan Lamb (então diretor de programação da Langham Preaching) teve a ideia de chamar a nova campanha de Nove por Dia: Assemelhando-se a Jesus.

Este é um livro fruto de pregações que você precisa ler com a Bíblia por perto. Em todos os capítulos, o autor investiga um pouco das profundezas e da extensão do contexto bíblico para cada uma das palavras que o apóstolo Paulo menciona no fruto do Espírito. São explorados vários textos bíblicos ao longo do caminho, na expectativa de que esse processo traga enriquecimento e ânimo.

O livro, além do prefácio, introdução e conclusão, possui nove capítulos e cada um é uma exposição do Fruto do Espírito (Amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio). As perguntas no fim de cada capítulo têm por objetivo servir de incentivo para isso, e também fornecer um ponto de partida para discussões em estudos bíblicos em grupo a respeito de cada tema.

Portanto, ao aceitar o convite do teólogo Christopher J. H. Wright em Aprendendo a viver como Jesus, você iniciará uma jornada pelos ensinamentos do apóstolo Paulo sobre o fruto do Espírito e descobrirá como reorientar sua vida tendo Jesus como modelo.
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WRIGHT, Christopher J. H. Aprendendo a viver como Jesus: um novo olhar sobre o fruto do Espírito. São Paulo, SP: Mundo Cristão, 2019. 192p.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A PREGAÇÃO APAIXONADA DE MARTYN LLOYD-JONES [Resenha]


Esta série, Um Perfil de Homens Piedosos, destaca personagens-chave na incessante procissão de homens da graça soberana. O propósito desta série é examinar como eles utilizaram os dons e as habilidades dados por Deus para impactar seu tempo e promover o reino do céu. Sendo corajosos seguidores de Cristo, seus exemplos são dignos de serem imitados hoje.

Este volume enfoca o homem considerado o maior responsável por restabelecer a pregação expositiva em grande parte da igreja no século XXI, Martyn Lloyd-Jones. Este expositor que arrebatava almas ministrou na Capela de Westminster, Londres, e apresentou uma nova geração aos Puritanos, ao Grande Despertamento e à Teologia Reformada. Foi Lloyd-Jones que revitalizou a pregação bíblica, numa época em que o ímpeto espiritual de muitos púlpitos da Inglaterra era notavelmente ausente. O “Doutor” se destacava em seu púlpito estratégico, pregando com uma força espiritual que por muito tempo esteve ausente da igreja. Lloyd-Jones se firma como exemplo do que Deus pode fazer por meio de um homem que honra e difunde a sua Palavra. Ele é digno de nossa consideração nas páginas deste livro.

O livro, além da apresentação e conclusão, possui nove capítulos onde o autor enfoca a vida e pregação desse homem incrível. O autor no final de sua apresentação escreve “Oro para que Deus o utilize para acender um fogo na sua alma, para cumprir o seu chamado sobre a sua vida. É chegada a hora de homens fiéis a Deus se erguerem em púlpitos por todo o mundo para pregar a Palavra. A necessidade nunca esteve maior. Num dia que clama por igrejas que cedam ao espírito da era, e usa o entretenimento para atrair as multidões, a primazia da pregação bíblica deve ser restaurada onde quer que o povo de Deus se reúna para adorar. Como foi no tempo de Lloyd-Jones, assim permanece hoje a necessidade de pregadores como arautos da Palavra, no poder do Espirito Santo, a fim de alimentar o rebanho e evangelizar os perdidos.”

Portanto, que a vida e ministério de David Martyn Lloyd-Jones sirva como inspiração para à nossa alma e que nos entreguemos àquilo que Deus o chamou a fazer. Nenhum sacrifício será grande demais a fim de cumprir as boas obras que ele nos tem dado a realizar.
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LAWSON, Steven. A pregação apaixonada de Martyn Lloyd-Jones. São José do Rio Preto, SP: Fiel, 2016. 164p.

ORDEM E PROGRESSO [Resenha]


São as muitas as histórias de pessoas, igrejas e empresas que têm ápices de crescimento, mas falham em dar continuidade a momentos favoráveis de graça e favor. As ondas de oportunidades passam e, por uma série de fatores, vêm quedas, crises ou estagnação. Tudo o que deixa legados consistentes passa por trabalho, organização e intencionalidade. Não há sorte que cause a construção de sucessos. Neste livro, o autor escreve de forma brilhante princípios que explicam essa lei natural – a “lei da ordem e do progresso” que nos ensina que para terminar bem, precisamos antes, gerar ordem.

Algo interessante sobre as leis da natureza é que uma pessoa pode até não acreditar nelas, mas isso não faz com que deixem de funcionar. Posso insistir que não creio na lei da gravidade, mas não me arriscarei em me jogar em buraco fundo! A lei da ordem e do progresso traz este princípio dos Céus, que se aplica de forma tão formidável na terra. Assim como o plantio e a colheita, quem planta ordem, colhe abundância. Este livro lhe ensinara a refletir como esta verdade é mais influenciadora do que você imagina, seja em seus relacionamentos familiares, hábitos, vida ministerial e carreira.

É fato que Deus ama e abençoa a todos, proporcionando milagres e respostas grandes às nossa necessidade. Deus não faz acepção de pessoas, mas Ele certamente diferencia postura e decisões. O autor nos mostra como obedecer em fé nos leva a viver o milagre que nos confere abundância e graça.

O livro possui dois prefácio e um deles foi escrito por Luciano Subirá e uma breve história da bandeira brasileira. O livro tem 14 capítulos que está dividido em três partes: (1) Princípios da Ordem, (2) As Cincos leis da Ordem e (3) A prática da ordem e progresso. Com bom humor, forte base bíblica e uma linguagem prática, você não deixará de ler este livro sem sentir-se desafiado a aprimorar pelo menos uma área de sua vida. Pois quanto maior a ordem, maior abundância, pois Deus compartilhou conosco seu poder criativo.
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PHILIP, Murdock. Ordem e progresso: passos simples para atingir um destino extraordinário. Rio de janeiro, RJ: Luz às Nações, 2018. 174p.

domingo, 15 de dezembro de 2019

A ILHA MISTERIOSA [Resenha]


Muitos consideram Júlio Verne um autor a frente de seu tempo. Talvez o mais correto fosse categorizá-lo com um viajante do tempo que por algum motivo escolheu o século XIX para viver e escrever os sucessos que mesmo após um século, continuam a moldar a literatura e a ciência. A Ilha Misteriosa é a prova de que Verne continuará nos influenciando por muitas e muitas gerações.

Escrita em 1874, a história começa com a fuga de cinco yankees abolicionistas do Norte) que haviam sido feitos prisioneiros pelos separatistas (do Sul), durante a Guerra Civil Americana, num balão que os próprios separatistas haviam construído. A companhia de fugitivos é formada por Ciro Smith, um engenheiro ferroviário e oficial do exército da União; Neb, corajoso e fiel servo afro-americano de Smith; o marinheiro Bonadventure Pencroft; Herberto Brown, jovem protegido de Pencroft e filho do seu capitão já morto; e o jornalista Gedeon Spilett, repórter do New York Herald.

Após voarem, durante vários dias, debaixo de uma tempestade, Smith cai ao mar e desaparece, e os restantes fugitivos acabam por se despencar no Pacífico, sobre um ilhéu vulcânico não cartografado e aparentemente desabitado. A Ilha Lincoln, assim batizada em honra do republicano Abraham Lincoln, era dividida em dois lados, um dos quais era árido, demonstrando erupção antiga do vulcão. O outro lado era coberto por espessa floresta. Os colonos, pois colonizaram a ilha até então desconhecida, construiram ali uma civilização, com tudo que há direito, e enfrentaram diversos perigos, tais uma invasão de piratas à ilha, em que sempre contaram com uma ajuda misteriosa.

A história já conhecida do público em geral, conta com a adaptação irretocável de Clarice Lispector no lançamento feito pela Editora Rocco. Embora centenária, a leitura acontece de maneira fluída e muito divertida, a escrita de Verne é instigante, permitindo ao leitor juntar as pistas deixadas ao longo da obra e preparar-se para um desfecho empolgante que expande ainda mais a mitologia criada por Verne em outras obras.

O interessante é notar como Verne transforma sobreviventes de um acidente em colonizadores da misteriosa ilha, homens que com a sua inteligência são obrigados a passar por etapas de desenvolvimento em que a sociedade já deixou para trás, como a agricultura, criação de ferramentas, etc.

O único ponto negativo (se é que pode ser considerado desta forma) é o excesso de detalhes em situações que poderiam ser explicadas de maneira mais simplória, mas isso é apenas um pequeno fato a se constatar de uma obra que completa 145 anos em 2019.

Por fim, A Ilha Misteriosa mostra-se um ótimo livro de entrada para aventuras fantasiosas dotadas de mistério e explicações científicas, uma leitura que poderia ser complicada mas flui de maneira dinâmica, permitindo que Verne continue servindo de inspiração para o cinema, ciência e tecnologia.

Não é a toa que A Ilha Misteriosa já tenha sido adaptado para o cinema diversas vezes, a mais recente com o astro Dwayne Johnson (The Rock) em 2012, num filme que arrecadou quase US$ 350 milhões.

E embora nenhuma obra cinematográfica tenha ficado no mesmo nível de escrita de Verne, há de se comemorar ainda que o livro traga de volta aquele que é seu personagem mais conhecido: Capitão Nemo.
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VERNE, Júlio. A ilha misteriosa. Rio de Janeiro, RJ: Editora Rocco, 2007. 296p.

sábado, 14 de dezembro de 2019

CÓDIGO DE HONRA [Resenha]


Caráter não é nada mais do que a soma dos princípios que carregamos e que norteiam nossas decisões e atitudes na vida. São os atributos intelectuais e morais, bons ou maus, que nos definem como indivíduos. O bom caráter se refere à virtude, à ética, à autodisciplina e ao conjunto de qualidades da pessoa. Também se refere à moralidade que adotamos. Quando uma pessoa apresenta bom caráter, ela se recusa a negar os seus princípios, não importa o que os outros digam ou façam. A Bíblia diz que esse tipo de caráter, reto, é muito precioso aos olhos de Deus. Esse é o caráter que o Senhor aprova.

Deus nos chama para viver por princípios, e não por sentimentos. A emoção nunca pode se sobrepor à razão, para que não violemos os princípios pelos quais Deus exige que vivamos.

Por maior que seja o preço a se pagar para desenvolver um caráter aprovado, a recompensa sempre valerá a pena, pois nada de bom pode ser prazeroso e durável sem um bom caráter. Se hoje você busca excelência no caráter, lembre-se de que ela é resultado de perseverança e posicionamento em períodos árduos, quando você é moldado pela rejeição, pelas pressões e pelas dificuldades que edificaram seu caráter. Talvez muitas pessoas querem viver o que você vive, mas quantas estariam dispostas a pagar o preço que você pagou para chegar ao patamar de caráter que alcançou?

Caráter compromete tudo o que diz respeito a postura, decisões, palavras, ações, atitudes, metas e relacionamentos. Logo, se antes de tudo não consertarmos nosso caráter, experimentaremos inevitavelmente apenas o fracasso. Começaremos a construir, mas destruirão nossa construção; edificaremos algo, e alguém virá e o roubará de nós; concluiremos uma obra e veremos que o esforço foi em vão.

Esta obra trata dos pilares que formam um homem de caráter aprovado, como modo de estimular a reflexão e o autoconhecimento – oferecendo subsídios para essa construção, buscando trabalhar o que está deficiente, preservando o que está bem e aprimorando o que pode ser melhorado.

Além dos agradecimentos, prefácio e introdução, o livro possui 12 capítulos. Os dois primeiros falam acerca do conceito do amor que é a base sobre qual todo caráter excelente se sustenta. Os outros dez capítulos irão abordar sobre os pilares que dão sustentação a um caráter aprovado – Integridade, santidade, serviços bondade, misericórdia, justiça, lealdade, honra e verdade.
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SEIXAS, Rinaldo. Código de honra: 10 virtudes para uma vida relevante. São Paulo, SP: Mundo Cristão, 2015.

UNIDOS PELO CRUZ [Resenha]

 

O reformador francês João Calvino considerava a Carta de Paulo aos Efésios seu livro favorito da Escritura, tendo escrito um comentário e pregado 48 sermões nessa epístola. O reformador escocês John Knox pediu que os sermões de Calvino sobre essa epístola fossem lidos por sua esposa em seu leito de morte. Essa epístola, considerada a joia da coroa dos escritos de Paulo, tem encantado a tantos por nela todos os grandes temas do apóstolo serem desenvolvidos de forma resumida e maravilhosa.

Nesse excelente livro, Wilson Porte Jr. faz uma abordagem temática da Carta de Paulo aos Efésios. Com o cuidado de um artesão teológico e exegético, ele nos traz uma lógica sequência de exposições centradas no eixo da igreja de Cristo, apresentando as bases e implicações práticas desse tema para a nossa vida. É um livro que fala pessoalmente ao leitor e o leva a um exame pessoal do nosso posicionamento perante Deus, elucidando o nosso entendimento de sua igreja. Wilson nos faz apreciar a centralidade da adoração e a majestosa soberania de Deus e o seu plano eterno de redenção do seu povo e nos mostra que é na igreja que encontramos a sublime manifestação coletiva do seu amor. Na igreja desenvolvemos relacionamentos e encontramos paz interior.

O autor escreve: “O conteúdo deste livro foi primeiramente exposto diante da Igreja Batista Liberdade, na cidade de Araraquara, em São Paulo. Minha oração é que a sua leitura o leve para mais perto da cruz e de sua maravilhosa mensagem, poderosa em Deus para unir pessoas de todas a línguas, etnias, tribos e nações em uma só família, a família da cruz.

O livro, além do prefácio, introdução, conclusão e leituras de apoio, possui seis capítulos, escritos com uma linguagem bíblica, clara, provocativa e, ao mesmo tempo, edificante, Wilson oferece uma profunda reflexão sobre o brilho da igreja, brilho que aparece apenas quando a igreja olha para cruz. Pela cruz, Cristo constituiu um povo. A igreja é esse povo, o povo da cruz. Boa leitura!
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PORTE Jr. Wilson. Unidos pela cruz: a mensagem de Efésios para a igreja de hoje. São Paulo, SP: Vida Nova, 2017. 352p.

DEVOCIONAL [Resenha]


A prática devocional diária é um momento muito importante para a vida cristã das pessoa, saber como fazer é ainda melhor. Ter um livro para a prática devocional diária complementa a leitura bíblica e assim, uma dos alicerces do dia a dia de um cristão. Para auxiliar essa prática, muitas editoras editam verdadeiras preciosidades com textos dinâmicos e profundos com a proposta de proporcionar o encontro diário com Deus através do conhecimento e da experiência com as escrituras sagradas e a oração.

Mas, não pense que um livro para devocional diária só pode ser adquirido e usado no início do ano. Hoje você pode adquirir modelos diferentes para cada mês do ano. Os modelos anuais, são grandes oportunidades de uma prática de disciplina. Conheça o modelo e escolha o que mais lhe agrada.

O Devocional de Larry Stockstill é a minha indicação para o seu devocional. É um devocional encorajador de fácil leitura pode ser utilizado a cada dia para renovar a sua fé e fortalecer o seu entendimento de Deus. Os textos inspiradores irão guiá-lo ao longo da Bíblia durante um ano, lembrando-lhe diariamente de que você nunca está sozinho nem sem esperança. Inicie os seus dias com o Devocional Anual e traga o consolo e a alegria de conhecer a Deus para a sua vida o ano inteiro. Eu convido você para embarcar numa jornada comigo este ano através do fabuloso mundo da Bíblia. A sua vida nunca mais será a mesma!
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STOCKSTILL, Larry. Devocional: caminhando diariamente com a Bíblia. Rio de Janeiro, RJ: Editora Luz para as Nações. 2017.

PRISIONEIROS DA MENTE [Resenha]


Augusto Cury em uma entrevista ao Jornal Gazeta do povo, em 19/03/2018, disse algo surpreendente: "Grandes pensadores como Freud, Piaget, Vygostsky, Kant, Hegel, Sartre, entre outros, usaram o pensamento pronto para produzir suas brilhantes teorias, mas não estudaram de maneira sistemática e profunda o próprio pensamento. Então a última fronteira da ciência, que é estudar a natureza dos pensamentos, seus tipos, registros e gerenciamento, não foi investigada, gerando uma lacuna sem precedente na formação do ser humano. Nós não sabíamos, por exemplo, que o registro dos pensamentos e das emoções não dependia da vontade do eu. Ou seja, se eu penso uma ideia perturbadora ou experimento uma emoção fóbica e se o meu eu não age nos primeiros segundos impugnando, discordando, confrontando aquela ideia e emoção angustiante, ela será registrada por um fenômeno chamado fenômeno RAM: registro automático da memória. Ele é um biógrafo implacável e não autorizado do cérebro, arquivando janelas traumáticas, acumulando cárceres da mente humana..."

Prisioneiros da mente é um romance permeado pelo universo psiquiátrico e sociológico, que disseca os cárceres mentais comuns a quase todos nós, mas que dificilmente conseguimos mapear ou desenvolver coragem para verbalizar. Seus protagonistas principais são Theo Fester, um magnata do Vale do Silício, e seus três egocêntricos filhos: Peterson, empresário do setor bancário; Brenda, presidente de uma cadeia de lojas de moda feminina; Calebe, um notável investidor em startups, especialista em ganhar bilhões de dólares — ainda que passando por cima de tudo e de todos.

Theo Fester, o patriarca, é inteligente, ousado e culto, e detesta conviver com pessoas lentas e inseguras. Ao mesmo tempo que é capaz de em segundos demitir um diretor de uma de suas empresas, não hesita em elogiar quem perdeu fortunas, mas ousou andar por caminhos nunca antes percorridos. Para o magnata, vale a máxima: “Quem vence sem riscos triunfa sem glórias”. Filho de um judeu que viveu os horrores dos campos de concentração e que depois de resgatado foi para Nova York, Theo Fester teve de ser, desde a infância, “pai” de seu pai, ajudando-o a abrandar os fantasmas mentais adquiridos pela atroz perseguição nazista.

Na adolescência, Theo Fester foi impelido a empreender para sobreviver. Forjado pelas perdas, pela exclusão social e pelos mais diversos tipos de bullying que sofreu, não se curvou à dor. Suas lágrimas irrigaram sua coragem, sua capacidade de se reinventar, mas também sua raiva. Em vez de se afastar ou perseguir as pessoas que o feriram na juventude, fazia valer outro provérbio: “A maior vingança contra um inimigo é levá-lo a trabalhar para você”. Empregou-as.

Tornou-se um empreendedor mundialmente invejado, entretanto, por fim descobriu que seu maior empreendimento, sua família, estava falido. Ele e seus filhos eram socialmente aplaudidos, mas na essência viviam uma farsa — eram um grupo de estranhos, especialistas em se digladiar, aprisionados pela necessidade neurótica de poder e de ser o centro de todas as atenções.

Iluminado pelo psiquiatra e pesquisador dr. Marco Polo, Theo Fester descobrirá que, de empresários a colaboradores, puritanos a pecadores, celebridades a anônimos, intelectuais a iletrados, todos temos nossos presídios mentais que sustentam egos inflados, fóbicos, depressivos, ansiosos, autopunitivos, intolerantes, mal-humorados, destituídos de resiliência. Foi difícil para ele descobrir que era um bilionário emocionalmente falido e um pai dilacerado.

Em algum momento da vida, os seres humanos que percorrem apenas a superfície de um mísero átomo do imenso espaço, e ainda assim proclamam, como deuses, que sabem tudo, perceberão que se esqueceram de explorar o mais complexo dos mundos: o “planeta” mente. Descobrirão, perplexos, que no cérebro humano há mais cárceres do que nas cidades mais violentas da Terra; que há mais mendigos emocionais morando em belas casas e apartamentos do que a psiquiatria supõe. Somos todos prisioneiros em busca de liberdade, mas muitos morrem encarcerados. Procuram-na em lugares em que ela nunca existiu.
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CURY, Augusto. Prisioneiros da mente: os cárceres mentais. Rio de janeiro, RJ: Harper Collins, 2018. 320p.