quinta-feira, 29 de novembro de 2018

INTRODUÇÃO À EXEGESE BÍBLICA [Resenha]


GORMAN, Michael J. Introdução à Exegese Bíblica. Rio de Janeiro, RJ: Thomas Nelson Brasil, 2017. 320p.


Muita coisa tem surgido no campo de estudos bíblicos desde a publicação original deste livro. Houve descobertas arqueológicas e rumores de novos achados (ossuários e tumbas entre os mais notáveis), bem como novos embates na guerra bíblica, especialmente sobre a interpretação de determinados aspectos éticos. Algumas novas traduções têm surgido e certas metodologias de estudo da Bíblia foram renovadas ou aperfeiçoadas.

Entretanto, sem dúvida, o mais importante desenvolvimento no campo de estudos bíblicos desde o começo do século 21 é a volta (ou melhor, a retomada) da interpretação teológica das Escrituras. Esse desenvolvimento expressa um profundo desejo da parte de muitos estudiosos e teólogos de explorar e articular formas de interpretação bíblica que considerem o texto bíblico primário como um texto teológico, como veículo de revelação divina e de direção. Para muitos dos que estão fora do círculo teológico, mas dentro da Igreja (e talvez até mesmo fora dela), tal enfoque é totalmente evidente e natural. Contudo, para muitos que fazem parte do meio cristão, os anos de exposição à interpretação não teológica fizeram com que a leitura das Escrituras parecesse quase anormal, e aqueles de nós que estão tentando mudar esse viés estão cientes dos desafios enfrentados à medida que tentamos avançar na tarefa de conduzir de forma adequada uma interpretação teológica bíblica.

De acordo com as informações da introdução deste livro, houve uma revisão e ampliação da primeira edição, especialmente nos capítulos um e oito, a interpretação teológica recebe maior atenção nesta edição, contando com a mais significativa mudança: a considerável expansão e renomeação do capitulo oito. Esse capítulo é agora chamado não meramente de Reflexão, mas "Reflexão: Interpretação teológica". 

Três pontos sobre essas mudanças precisam ser apresentados aqui.

Primeiramente, a interpretação teológica não possui um método ou metodologia exegética particular. Os exegetas podem e fazem — uso de uma variedade de métodos. O autor afirma aqui que a sua metodologia é bastante eclética, mas majoritariamente sincrônica, como discutida no primeiro capítulo.

Em segundo lugar, o oitavo capítulo, revisado, é maior e mais teórico do que a maioria dos demais capítulos, e é propositadamente dessa forma por causa do tema. O capítulo apresenta sugestões praticas, mas o faz dentro de uma estrutura mais desenvolvida e não como uma "colcha de retalhos".

Em terceiro, apesar de a extensa discussão da interpretação teológica estar próxima do fim do livro, os leitores não deveriam concluir que a interpretação teológica seja uma reflexão tardia ou que ocorre somente depois de o "trabalho real" da exegese crítica ou cientifica (histórica e literária) tiver sido concluído. Em vez disso, a interpretação teológica envolve uma atitude, um modus operando e uma finalidade (tetos) que permeia todo o processo. Em suma, a interpretação teológica implica em ler o texto escriturístico tão rigorosa e cuidadosamente quanto possível, empregando as melhores metodologias disponíveis, porque os intérpretes teológicos acreditam que durante e depois do processo eles podem ouvir Deus falar no texto e através dele.

Esse aumento da ênfase na interpretação teológica não nega de forma alguma os aspectos históricos e literários básicos de uma exegese sólida que qualquer intérprete da Bíblia deve levar em consideração. De fato, mesmo os intérpretes que não estão comprometidos com uma leitura teológica do texto bíblico poderão tirar proveito da abordagem básica e do método recomendado neste livro. Isso quer dizer que, se alguém considera a interpretação teológica como um caminho importante, e outro a vê como uma sobremesa desnecessária, há certos ingredientes numa degustação exegética que são comuns a todos os leitores criteriosos da Bíblia, e esses ingredientes se constituem nos blocos de construção tanto deste livro quanto de qualquer outro bom método exegético.

Outro acréscimo importante nesta edição é a inclusão de um tão necessário artigo sobre exegese de um texto do Antigo Testamento da Bíblia hebraica. Outras alterações nesta edição são relativamente menores, porém significativas: alterações em alguns exercícios, esclarecimentos e/ou preparação relativos a diversos temas, e especialmente a adição de novos recursos. O propósito deste livro bem como seu público-alvo permanecem os mesmos: Introdução à exegese bíblica oferece a estudantes e ministros uma abordagem não apologética de exegese construída sobre uma sólida base teórica.


PRINCÍPIOS E PROPÓSITOS DESTE LIVRO

1. Este livro é sobre princípios, fundamentos. Elaborado para estudantes, professores, pastores e outros que desejam refletir e escrever com seriedade sobre a Bíblia, o livro começou como um guia para que seminaristas aprendessem a fazer uma análise cuidadosa do Novo Testamento para suas aulas, exames de ordenação e pregação. Primeiramente apresentado para classes e grupos de estudos de preparação para exames de ordenação na Igreja Presbiteriana (alguns dos quais falharam em sua primeira tentativa no exame, em geral porque não tinham um método claro!), o material se tornou uma ferramenta simples e útil para o aprendizado, e então se transformou em um breve, guia prático para a exegese bíblica.

2. Este livro é um trabalho totalmente revisado, embora os princípios básicos do método tenham permanecido os mesmos, ainda que o AUTOR tenha incorporado novas informações a partir do campo [sempre dinâmico] jamais estático da interpretação bíblica. É importante que o AUTOR afirma que muitos estudantes ainda falham nas provas de exegese, e segundo ele, uma prova disto é que muitas pregações atuais revelam ignorância dos princípios básicos de exegese.

3. Este livro é oferecido, assim, para ser usado em diversos níveis e de muitas maneiras. Os conceitos e método para estudantes que estão iniciando o estudo da Bíblia em faculdades, universidades, programas de teologia e seminários. Para esses estudantes, são recomendados tanto a discussão do método quanto os exercícios práticos no fim de cada capítulo. Este livro e útil como leitura introdutória ou estudo paralelo de um curso sobre a Bíblia como um todo ou qualquer parte dela, e pode ainda ser estudantes como leitura independente ou obra de referência. Seu uso não requer, mas também não se opõe, ao conhecimento dos idiomas originais da Bíblia.

4. Para os estudantes mais experientes e os pregadores ordenados, a discussão de um método claro e lógico para o estudo da Bíblia pode lhes oferecer algo que eles não têm encontrado em outras fontes. Muitos eruditos bíblicos usam algo parecido com o método apresentado neste livro em suas próprias reflexões, escritos e aulas, mas para o AUTOR essa estratégia muitas vezes não É comunicada de forma metódica aos estudantes. E aqui ele afirma: “Minha experiência, tanto com pastores quanto com seminaristas, tem confirmado essa percepção. Além disso, muitos manuais de exegese publicados são bastante detalhistas e complexos para que a maioria dos estudantes e pregadores possa fazer uso deles regularmente. Este livro sugere como ler o texto bíblico cuidadosamente, não importa se alguém está preparando um debate em classe, um trabalho de exegese, ou aventurando-se no púlpito. Assim, e pode ser usado como obra de referência em classes ou seminários de estudos bíblicos, exegese ou homilética. Para pregadores experientes este livro poderá apresentar não somente sugestões sobre como pregar o texto, mas também oferecerá conselhos (ou lembretes) sobre como ler o texto com mais responsabilidade” [p.19].


ADVERTÊNCIAS SOBRE ESTE LIVRO

O AUTOR faz três advertências a aqueles que tomarão a decisão de ler este livro:

Primeiramente, embora os elementos ou passos sejam simples, o domínio do processo é difícil. Exige muito trabalho, com muitas tentativas e erros — mas o trabalho difícil será compensador.

Em segundo lugar, não desejo criar a expectativa de que creio que o método apresentado neste livro seja a única forma de pensar ou escrever sobre a Bíblia. Há muitos outros caminhos que podem ser usados pelo intérprete moderno. O método apresentado aqui é uma análise básica, mas criteriosamente histórica, literária e teológica de um texto relativamente curto, cujos princípios, porém, podem ser aplicados na leitura de toda a Escritura (e de quase tudo o mais) em geral. Este método foi escolhido como o ponto de partida para uma grande variedade de leitores; ele pode ser também útil para aqueles que desejam suplementá-lo com outras estratégias interpretativas.

Em terceiro lugar, obviamente este livro não tem a pretensão de substituir obras mais detalhadas sobre interpretação bíblica, gêneros literários específicos ou da área de hermenêutica. Estou convencido, no entanto, de que a difícil tarefa de fazer exegese e interpretação bíblica está se tornando tão complexa, com uma variedade interminável de novos métodos e metodologias (para não mencionar novas descobertas históricas), que muitos estudantes e pregadores são tentados a abandonar a ideia de se tornar "eruditos ou até mesmo leitores mais aprofundados em sua leitura e uso da Bíblia. Quando isso acontece, estudantes e pregadores — sem citar as igrejas e o público em geral — haverão de sofrer (e já sofrem) imensas perdas. Este livro é deliberadarnente simplificado (mas não simplista), não para restringir o estudo profundo, mas para estimulá-lo e, ao mesmo tempo, prevenir desastres em salas de aula e no púlpito. Meu objetivo, portanto, é simples e direto: ajudar a prevenir a falta de instrução em exegese entre leitores comuns, professores e pregadores do texto bíblico.

O livro possui além dos agradecimentos e introdução, três partes. Cada parte é constituída de capítulos fazendo um total de onze e finaliza com quatro apêndices. Sobre os capítulos é importante dizer que sempre terminam com um resumo, sugestões práticas e propostas para estudo adicional e prático. E como sempre fazemos, iremos trabalhar este capítulo a capítulo. 



PARTE 1: ORIENTAÇÃO

Capítulo 1: A Tarefa

Exegese, uma palavra derivada do verbo grego “levar para fora”, é uma cuidadosa análise histórica, literária e teológica do texto. Alguns chamariam de “leitura acadêmica” e a descreveriam como uma forma que “verifica o sentido do texto por meio do registro mais completo e sistemático possível dos fenômenos textuais, lidando com as razões que são expostas a favor ou contra um específico entendimento dele. [p.26]

Exegese é investigação das muitas dimensões, ou tramas, de um texto em particular. É o processo de fazer perguntas ao texto, questões que são muitas vezes provocadas pelo próprio texto. Exegese é diálogo. Um diálogo com leitores vivos e mortos, mais ou menos instruídos, ausentes ou presentes. É um diálogo sobre textos e seus contextos, sobre palavras sagradas e suas reinvindicações – e as alegações que outros fizeram sobre elas. Exegese é arte. Com certeza, há certos princípios e passos a seguir, mas saber o que perguntar ao texto, o que refletir e o que dizer sobre ele jamais pode ser realizado com total certeza ou feito apenas com o método. Ao contrário, um exegeta precisa não somente de princípios, regras, trabalho duro e habilidades de pesquisador, mas também ter intuição, imaginação, sensibilidade e fazer aquelas descobertas que o beneficiem por acaso. A tarefa da exegese requer, portanto, enorme energia intelectual e também espiritual. [p.27-28]

Há três abordagens para a exegese: sincrônica, diacrônica (histórico-crítica) e existencialista (que inclui tanto perspectiva teológicas quanto ideológicas). O método defendido neste livro é eclético e integrado, mas dá prioridade à abordagem sincrônica, com um objetivo final teológica. Ele destaca a importância dos contextos.

Os setes elementos de exegese e os passos para escrever um trabalho de exegese são: (1) Pesquisa (preparação para a leitura ou introdução); (2) Análise contextual (do contexto histórico e literário do texto); (3) Análise formal (da forma, estrutura e movimento do texto); (4) Análise detalhada; (5) Síntese (6) Reflexão; (7) Aprimoramento e ampliação da exegese.

Exegetas perspicazes preparam sua própria exegese cuidadosa inicial do texto antes de consultar os especialistas.


Capítulo 2: O Texto

Os estudantes devem escolher uma passagem para exegese que seja do seu interesse e que componha uma unidade completa, com extensão viável e que tenha começo e fim bem estabelecidos.

No que diz respeito a tradução da Bíblia é importante que se compreenda que cada tradução é uma interpretação, um tipo de exegese simplificada. A tarefa de uma tradução é dificultada por vários fatores complicadores característicos da linguagem. As duas abordagens básicas de tradução são equivalência formal e equivalência funcional.

Estudantes que não conhecem os idiomas originais deveriam usar a melhor versão possível, preferencialmente uma tradução de equivalência formal como base para seu trabalho exegético. Lembrando que as Bíblias de estudo são um importante auxílio, embora todas tenham suas limitações.

Observação importante. Os capítulos 3 a 9 deste livro introduzem, cada um deles, um elemento em particular da exegese. Teoricamente, ao dominar um desses capítulos, o leitor até poderia executar esse aspecto exegético mesmo numa ilha deserta. Leitores que aprendem todo o processo exegético se qualificam como exegetas autônomos. Algumas sugestões sobre o processo são apresentadas no capítulo 10. O capítulo 11 trata da ampliação e do refinamento de cada elemento específico do processo exegético, com o uso de outros recursos e ferramentas. Em outras palavras, o capítulo 11 é para aqueles que retornaram da ilha deserta para a civilização e novamente dispõem de biblioteca, computador, colegas de leituras e outros recursos disponíveis.



PARTE 2: OS ELEMENTOS

Capítulo 3: Pesquisa

A cuidadosa leitura e análise de qualquer texto, seja um livro, ensaio ou poema, requer uma pesquisa inicial do conteúdo do documento. Essa pesquisa prepara o leitor, alertando-o a respeito dos aspectos importantes do texto em consideração no processo de leitura atenta. É válido também para a leitura da Bíblia. Esse pequeno (porém importantíssimo capítulo) introduz algumas simples estratégias para a pesquisa sobre uma passagem escolhida em seu contexto. Importantes sugestões para dar suporte a essa parte do processo exegético são encontradas na seção 3 do capítulo 11. 

Vejamos aqui um resumo deste capítulo: O processo inicial da pesquisa e questionamento do texto no seu contexto oferece ao leitor um “reconhecimento do terreno” e encoraja a busca de observações preliminares e perguntas para a investigação. A pesquisa inicial inclui assumir uma pressuposição sobre o significado do texto.

Certamente, em exegese, um pressuposto deve ser trabalhado e refinado (ou, ocasionalmente, até mesmo descartado!) no decorrer de um trabalho criterioso, e substituído por algo bem estudado, claramente articulado e (em um trabalho escrito) convictamente apresentado como tese.

A introdução de um trabalho escrito de exegese, finalizado na conclusão do processo exegético, apresenta a tese da dissertação à luz dos resultados do processo exegético.


Capítulo 4: Análise Contextual: o contexto histórico, literário e canônico do texto.

As pessoas e as comunidades são constituídas, principalmente, por três coisas: (1) Os eventos significativos que vivenciam (pessoal ou indiretamente através de histórias) e repassam; (2) Os relacionamentos públicos e individuais nos quais estão envolvidas; (3) Os valores que adotam, conscientemente ou não. Esses três aspectos da vida humana – nossos contextos histórico, sociopolítico e cultural – são também, obviamente, aspectos da vida nos “tempos bíblicos”. De todos os elementos de exegese, a compreensão dos contextos histórico, social e cultural, o contexto histórico é o aspecto mais difícil para os não acadêmicos (e mesmo para os acadêmicos). [p.90-91]

Costuma-se dizer que um texto sem contexto é um pretexto – uma desculpa para que a suposição de alguém possa ser confirmada pelo texto. Em outras palavras, muitas interpretações equivocadas da Bíblia são devidas à negligência do contexto literário. Para compreender uma passagem, você precisa tentar ver se ela se encaixa numa unidade literária (ou várias) mais ampla do que naquela em que ocorre: por exemplo, o capítulo, a seção do livro bíblico e o livro como um todo. O contexto literário, portanto, envolve os contextos (plural). O texto é muitas vezes semelhante ao centro de vários círculos concêntricos, cada um deles representando uma seção maior do livro bíblico. Esses contextos são geralmente considerados próximos ou imediatos, contextos restrito e amplo. [p.95]

Somado ao contexto literário, o texto também tem um contexto retórico. A retórica é a arte efetiva (e, portanto, muitas vezes persuasiva) de falar e escrever. De acordo com Cícero, o propósito da retórica é o ensino, o prazer, e mexer com ouvintes e leitores. Assim, o contexto retórico faz referência ao lugar da passagem na estratégia global do documento no sentido racional, artístico e/ou influência e persuasão emocional. O contexto histórico é uma função do contexto literário, porém é mais que isso. Analisar o contexto literário significa perguntar onde o texto está localizado; analisar o contexto retórico significa perguntar por que o texto está aí situado. [p.96]

Para aqueles que leem a Bíblia teologicamente, um dos contextos dentro dos quais um texto deve ser considerado é a própria Bíblia, ou cânon, como um todo – o contexto canônico. Isso não quer dizer que os intérpretes teológicos devam ignorar o contexto histórico e literário, mas que eles podem suplementar os expandir esses contextos ao ver o texto como parte de um livro chamado Bíblia. Se decidir levar em consideração o contexto canônico, é importante fazer as seguintes perguntas: (1) Que papel (caso exista) esse texto e/ou temas primários e personagens desempenham no restante das Escrituras? (2) Qual é, especificamente, a relação (caso exista) entre esse e outros textos no outro Testamento (Antigo ou Novo)? (3) Com quais outras passagens bíblicas ou temas seu texto se harmoniza ou se relaciona? (4) Com quais outros textos bíblicos ou temas seu texto parece estar em conflito? Pode essa tensão ser resolvida? (5) Isso significa considerar que o contexto canônico permite ao exegeta colocar textos bíblicos em diálogos uns com os outros. [p.98-99]

Um texto sem contexto – um texto isolado de seus variados contextos (plural) – é potencialmente uma arma perigosa. Uma exegese responsável reconhece a dificuldade em descobrir esses contextos tanto históricos quanto sociais, culturais, literários, retóricos ou canônicos, mas se recusa a desistir da tarefa. As alternativas para se empenhar num trabalho complexo requerido por esse elemento de exegese são muito custosas.


Capítulo 5: Análise Formal: forma, estrutura e movimento do texto.

A análise formal começa com a questão da forma literária da passagem – a que espécie ou tipo de escrita ela pertence. Especialistas em estudo da Bíblia e outros eruditos usam vários termos para se referir a que tipo de literatura o texto pertence: forma literária, estilo, gênero e até mesmo subgênero. Portanto, a análise formal de um texto deve levar em consideração sua forma literária, sua estrutura (divisões e subdivisões) e seu movimento do começo ao fim. Há princípios específicos de interpretação apropriados para cada forma de literatura e gênero. [p.103]

A descoberta de uma estrutura, esquema ou padrão organizacional em um texto é uma arte. Existe apenas uma “resposta certa”, uma forma correta de esboçar um texto: duas pessoas podem discernir dois diferentes padrões, mas igualmente legítimos no texto. É importante saber, entretanto, que há diversos padrões de estruturas comuns que ocorrem em muitos textos bíblicos; na verdade, eles ocorrem também em muitos textos fora da Bíblia. Padrões comuns de estrutura geral incluem repetição, contraste ou antítese, paralelismo, inclusio e quiasmo.

Em acréscimos aos padrões estruturais genéricos que podem ocorrer em algum texto, muitos gêneros literários seguem certa forma de padrões regulares, Ou seja, algumas formas e gêneros literários tem padrões estruturais comuns para gênero, incluindo grande abrangência de gêneros como o discurso e a narrativa retórica, bem como modalidades específicas, como histórias de milagres. Alguns formatos gerais nos quais um texto se move do começo ao fim incluem descrição, explanação, repetição, lógica, catálogo e comparação/contraste.

“Em um trabalho escrito de exegese, é útil igualmente para o escritor e para o leitor se o documento incluir um esboço breve, que indique o conteúdo básico de cada uma das partes que um estudante discirna no texto. O esboço deve ser seguido por uma breve exposição do movimento do texto. Esse esboço de uma passagem bíblica se torna a súmula para a análise detalhada do texto, que é o próximo passo do trabalho. Embora a consideração da forma, estrutura e movimento exijam muito tempo de estudo e preparação, devem ocupar um espaço relativamente pequeno dentro do trabalho. De outra forma (e isso é um problema comum), ele se torna repetitivo. Entretanto, se você fez um bom trabalho analisando a estrutura e o movimento do texto, você já terá feito quase metade do trabalho – porque já foi forçado a começar a análise detalhada” [p.119].


Capítulo 6: Análise detalhada do texto

A quantidade e o caráter de questões a ser consideradas e tratadas ao se fazer a análise detalhada de um texto pode ser impressionante. Não se deve, porém, desistir. Por um lado, como em qualquer outra atividade, a exegese requer prática. Como dizem os franceses para transmitir a ideia de que a prática leva à perfeição: “É forjando que alguém se torna um ferreiro”. Ou: É somente fazendo exegese que alguém se torna um exegeta. [p.146]

Neste capítulo aprendemos que a exegese envolve uma atenção balanceada entre o quadro maior e a atenção aos detalhes. É importante escolher cuidadosamente que detalhes serão analisados. Há certas perguntas básicas a respeito de detalhes que devem ser feitas para cada texto em relação a palavras-chave, imagens, aspectos literários, componentes das frases, apelos à tradição, fontes, elementos narrativos e retóricos, tom e humor, assim como a relação das partes com o todo.

O processo exegético é um círculo hermenêutico que se move para frente e para trás, das partes menores para o todo. Palavras-chave e imagens num texto são como as variáveis desconhecidas de uma equação; o significado depende do contexto e da relação com os demais elementos. 

A análise cuidadosa da frase em um texto, e a função de cada frase, é parte essencial no processo exegético. A exegese inclui atenção para identificar qualquer fonte usada pelo texto e como elas são usadas. A exegese também deve abordar a intertextualidade, tanto literária quanto cultural, ou o fato de os textos ecoarem tanto em outros textos quanto em realidades extratextuais. A análise detalhada dos textos narrativos inclui atenção ao enredo, desenvolvimento do personagem e o “mundo da narrativa” do texto.


Capítulo 7: Síntese

Sintetizar é juntar vários elementos numa espécie de um todo unificado. Sintetizar, então, é um ato disciplinado e criativo de integração. Ao formular uma síntese da passagem, você está juntando tudo o que tiver pensado ou dito a respeito dela. No entanto, você não está fazendo simplesmente um resumo; está propondo uma conclusão acerca do significado essencial do texto, em relação ao propósito ou função, depois de tê-lo entendido. Em termos literários, você está procurando dizer algo sobre o tópico e o tema do texto – tanto o próprio tema quanto sua tendência ou perspectiva sobre o assunto. Voltando ao seu pressuposto inicial, você está agora transformando sua pressuposição e a cuidadosa análise numa coerente leitura do texto como um todo. [p.150]

Uma síntese expressa criativamente uma conclusão bem concebida, bem desenvolvida e bem defendida, feita por um intérprete, sobre o significado e a função de um texto. Essa síntese será exclusiva para o intérprete que a apresenta. Em um trabalho escrito de exegese, ela é o somatório do argumento e da ponte para a reflexão teológica.

Vejamos um resumo deste capítulo: Sintetizar não é meramente fazer um resumo, e sim, um ato criativo do desenvolvimento de uma conclusão sobre o significado e função de um texto. Várias características de um texto podem fornecer sugestões quanto ao seu assunto principal e por razões variadas, incluindo o caráter inerente do próprio texto, seu significado pode ser ambíguo. E finalmente, por ser a exegese uma arte (um ofício com uma inerente dimensão subjetiva), assim como uma ciência (técnica), e porque cada texto bíblico é multifacetado, um texto tem uma variedade de formas legítimas de leitura; ele possui uma limitada, embora não infinita, polivalência.


Capítulo 8: Reflexão: Interpretação teológica. O texto hoje.

A reflexão sobre um texto bíblico dificilmente começa pelo seu final. O processo exegético é, naturalmente, um processo de reflexão do começo para o final. Após a análise cuidadosa e a síntese terem sido feitas, você está melhor capacitado para pensar de forma mais adequada e sistemática sobre o significado do texto. Nesse ponto, a pergunta mais importante passa de "por quê?" Para e então?

Esse estágio, ou dimensão de exegese, embora evitado por alguns leitores, é realmente o elemento final apropriado desse processo. Grandes obras de arte (incluindo literatura religiosa) inevitavelmente convidam ao envolvimento. Elas possuem uma capacidade inerente de inspirar a imaginação e criar novas possibilidades de pensar e viver. O objetivo final da exegese, a "direção" do texto, é a consideração cuidadosa do convite do texto à imaginação, ao pensamento e especialmente à comunidade que chama a Bíblia de "Escrituras" — um texto sagrado e uma mensagem divina. Neste capítulo é observado alguns possíveis objetivos para essa reflexão sobre o texto e uma ampliação do entendimento de exegese para incluir o que agora é chamado de exegese teológica da interpretação bíblica.

Este capítulo contém mais teoria e teologia do que a maior parte dos outros capítulos deste livro. Isso é necessário para prover um apropriado fundamento e uma estrutura para o trabalho prático — para o qual há também numerosas sugestões na última parte deste capítulo.

Um resumo deste capítulo, pode ser apresentado desta forma: Existem cinco posturas interpretativas básicas ou hermenêuticas: antipatia, apreciação ou não descomprometimento, discernimento ou investigação, suspeição e aceitação ou fé. Uma hermenêutica da confiança é a hermenêutica operativa da interpretação teológica. Está fundamentada em certos princípios teológicos que enfatizam convicções como a origem divina, universalidade e unidade da Escritura como mensagem divina em palavras humanas. 

Uma hermenêutica teológica é também uma hermenêutica missional — uma leitura com a finalidade de discernir e participar da missão de Deus no mundo. 

A consideração dos dois horizontes, do passado e do presente — reflexão e aplicação ou apropriação —, é um elemento essencial de um processo completo da leitura, mas a aplicação não deve ser feita descuidada ou prematuramente.

É importante fazer as perguntas certas em relação a um texto, ao considerar seu significado mais amplo, mais profundo ou contínuo. Para as pessoas de fé, a questão essencial é: "Que afirmações sobre Deus e sobre suas reivindicações para nós o texto apresenta?" Pessoas de fé procuram realizar, envolver-se ou tornar-se uma exegese viva do texto — participar da história divina contada peIas Escrituras. Isso é feito de forma criativa e fiel, mas, às veze também até de modo crítico.


Capítulo 9: Aprimoramento e ampliação da Exegese

Um dos pressupostos fundamentais deste livro é que a exegese pode e deve ser feita por alguém que não é especialista. O aluno, professor ou pastor não precisa ter um doutorado em estudos bíblicos para fazer uma excelente exegese. Tal suposição não significa, porém, que recursos apropriados devam ser negligenciados ou que o trabalho de guias especializados possa ser ignorado. Os "recursos de compartilhamento" e o campo da erudição bíblica podem e devem informar o próprio trabalho do aluno ou do pregador se esse trabalho for responsável. E preciso que haja colegas na investigação, parceiros no diálogo, bem como instrumentos artísticos.

Qualquer pessoa que já tenha consultado mais de um comentário sobre um texto bíblico sabe que os estudiosos muitas vezes discordam do significado da passagem. O exegeta não especialista não pode e não deve, portanto, tomar cada frase de um comentário como um "evangelho". Ao contrário, cada informação deve ser lida com critério e de modo crítico, em diálogo com seu próprio trabalho e com quaisquer outros recursos disponíveis. O trabalho de qualquer pessoa pode ser tão válido quanto o de um comentarista. Uma cuidadosa interpretação do texto, contestada, informada e refinada pelo trabalho dos estudiosos, é o objetivo deste passo no processo exegético.

Portanto, pessoas que fazem bons trabalhos de exegese consultarão os recursos e contribuições compiladas por especialistas, pois é possível obter contribuições acadêmicas através de notas e bibliografias em várias fontes e através de diversos tipos de recursos bibliográficos.



PARTE 3: SUGESTÕES E RECURSOS

Capítulo 10: A exegese e o exegeta – Erros a evitar, descobertas a fazer.

Até agora, temos visto neste livro os sete elementos que compõem o processo de exegese — lendo cuidadosamente e analisando um texto bíblico — defendido neste livro. Agora está pronto para escolher uma passagem a qual vai estudar e analisá-la em detalhes. Inicialmente, porém, algumas palavras finais de cautela e encorajamento.

Dois erros gerais comuns na utilização desse método de exegese podem ser facilmente evitados se forem conhecidos antecipadamente. Em primeiro lugar, alguns alunos tornam-se tão completamente ligados ao procedimento que acabam perdendo qualquer sentido de ideias originais ou de criatividade. O objetivo do método não é sufocar a criatividade, mas fornecer um meio de investigação disciplinada, bem como de imaginação. Alunos e professores devem sempre empenhar-se em fazer novas perguntas sobre os textos e acerca de si mesmos. O medo desse processo criativo é o que leva, por vezes, os alunos simplesmente a coletar uma série de opiniões de estudiosos, encadeá-las em conjunto e chamar isso de trabalho de exegese. Mesmo quando devidamente documentadas, somente uma série de citações não constitui exegese; a exegese de um texto é a forma de leitura que você faz do texto, embora se trate de uma leitura fundamentada pelos recursos bibliográficos. Não é uma mistura — nem mesmo uma coleção organizada — de fatos, opiniões e possíveis interpretações.

Em segundo lugar, ao escrever trabalhos de exegese, alguns alunos são propensos a se tornar repetitivos. A introdução, esboço, análise, síntese e até mesmo suas próprias reflexões podem ficar muito semelhantes entre si. Isso não precisa acontecer, no entanto, uma vez que cada parte do trabalho da exegese tem seu próprio objetivo e foco. Há uma diferença, por exemplo, entre a discussão do contexto literário e a discussão da forma, estrutura e movimento, e as duas discussões não devem ser redundantes. Além disso, cada seção do trabalho deve levar a interpretação da passagem para um passo adiante; cada parte deve conduzir a compreensão do leitor a um novo nível e não apenas repetir observações e conclusões anteriores.


Capitulo 11: Recursos para exegese

Este capítulo possui uma bibliografia anotada de recursos acadêmicos para ajudar no processo de exegese. Esses recursos são algumas das ferramentas mais importantes e comumente usadas, especialmente para o sétimo elemento, expansão e refinamento da exegese, que são aplicadas a todos os outros elementos. Ao contrário de William Tyndale, no entanto, muitos exegetas contemporâneos não leem, ou já não se lembram do hebraico e grego. Assim, a maioria dos recursos listados a seguir não requerem um conhecimento das línguas originais, embora em alguns casos esse conhecimento possa auxiliar, e em outros seja absolutamente necessário (por exemplo, para usar o NT grego).

Esta parte do livro está dividida em nove seções, correspondendo aos primeiros nove capítulos. Os recursos para o capítulo 9 são principalmente ferramentas bibliográficas e outros livros que apontam recursos adicionais. Alguns deles desafiam a categorização e muitos são úteis para uma variedade de elementos do processo exegético. Os comentários, por exemplo, contêm não só uma exegese detalhada, mas também informações sobre o contexto, sobre a forma e a estrutura, e às vezes sobre o significado contemporâneo de um texto. Todos esses recursos estão conectados como recursos de propósitos múltiplos com o elemento de exegese para o qual eles são mais úteis. 

Para uma lista resumida de recursos da internet, veja o Apêndice D. Não é algo exaustivo, apenas útil. Os exegetas zelosos usarão esses trabalhos para procurar outros recursos, conforme a necessidade. E todos os leitores devem ter cuidado e adequada cautela ao usar esses recursos; todos são benéficos, mas nenhum deles é infalível.


CONCLUSÃO

Para concluir esta resenha, afirmo e RECOMENDO, pois trata-se de uma obra altamente prático e didático, o livro mostra que essa tarefa pode ser facilmente executada por meio de sete subsídios principais: pesquisa, análise contextual, análise formal, detalhamento do texto, síntese, reflexão e expansão e aprimoramento da exegese. Para cada um desses elementos, o renomado e premiado autor Michael J. Gorman fornece uma explicação acessível, sugestões objetivas e úteis — como erros a evitar e descobertas a fazer —, além de exercícios para ajudar o leitor a desenvolver perícia exegética. Para melhorar ainda mais a assimilação do aprendizado e seu desenvolvimento, o autor fornece recursos atualizados da mídia impressa e da Internet para os que desejam prosseguir o estudo em qualquer aspecto da exegese. Os apêndices fornecem exemplos e diretrizes práticas para escrever um acurado trabalho de pesquisa exegética.

Para acessar o link do livro, clique na imagem acima.

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