segunda-feira, 19 de agosto de 2019

MEMÓRIAS DO SUBSOLO [Resenha]


FIODOR, Dostoiévski. Memórias do Subsolo. São Paulo, SP: Editora 34, 2000.


SINOPSE - Escrito na cabeceira de morte de sua primeira mulher, numa situação de aguda necessidade financeira, “Memórias do subsolo” condensa um dos momentos mais importantes da literatura ocidental, reunindo vários temas que reaparecerão mais tarde nos últimos grandes romances do escritor russo.

Aqui ressoa a voz do homem do subsolo, o personagem-narrador que, à força de paradoxos, investe ferozmente contra tudo e contra todos - contra a ciência e contra a superstição, contra o progresso e contra o atraso, contra a razão e a desrazão; mas investe, acima de tudo, contra o solo da própria consciência, criando uma narrativa ímpar, de altíssima voltagem poética, que se afirma e se nega a si mesma sucessivamente.

Não é por acaso que muitos acabaram vendo neste livro uma prefiguração das ideias de Freud acerca do inconsciente. O próprio Nietzsche, ao lê-lo pela primeira vez, escreveu a um amigo: "A voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites".


ENREDO [1] - Considerada uma das primeiras obras existencialistas do mundo, Memórias do subsolo apresenta um compêndio das memórias de um empregado civil aposentado que vive em São Petersburgo. O pequeno romance, mais caracterizado como uma novela, é dividido em duas partes. A primeira intitulada "O Subterrâneo", contendo 11 capítulos; a segunda, "A Propósito da Neve Derretida", possui 10 capítulos.

Este personagem, que não menciona seu nome em nenhum momento, encena na primeira parte do romance um grande monólogo com a intenção de "comover" de alguma forma seu leitor. O subsolo é uma analogia ao subconsciente humano. É no subsolo que se encontram pensamentos e ideias que queremos esconder de todos, até de nós mesmos, e são esses pensamentos que comandam nossos atos.

Na segunda parte há três episódios que relatam de uma forma concreta como o nosso anti-herói é encurralado socialmente pelos discursos e ações de uma sociedade dominada pelo despotismo.

O texto é um exemplo do chamado “fluxo de consciência”, recurso literário que transcreve o complexo processo de pensamento de um personagem, com o raciocínio lógico entremeado com impressões pessoais momentâneas e exibindo os processos de associação de ideias.


O CONTEXTO [2] - Publicado em 1864, Memórias do Subsolo é um relato do “homem do subsolo”, um personagem-narrador que investe ferozmente contra tudo e contra todos. Em um primeiro momento, lemos o monólogo do narrador destilando seu ódio ao pensamento racionalista que começava a influir sobre a Rússia; na segunda parte do livro, o escárnio dá lugar a uma narrativa muito comum em Dostoiévski, a busca pela redenção por meio da culpa.

A novela abre a fase do escritor rumo à sua maturidade. Conforme destacado na orelha do livro, escrita pelo crítico Manuel da Costa Pinto, nesse livro “o escritor materializa sua visão abissal dos conflitos morais, psicológicos e sociais, que se interpenetram caoticamente de modo a destacar, como única medida do mundo, o desejo humano de salvação diante da morte”. No entanto, nesse caminho rumo à maturidade, dois pontos são de extremo interesse.

O primeiro deles é sua reclusão. Em 1849, Fiódor Dostoiévski foi preso por participar do Círculo de Petrachévski, um grupo de intelectuais que discutia a política russa. Junto do escritor, quinze outros foram condenados à pena de morte. No momento da execução, em 22 de dezembro, vendados e aguardando o fuzilamento, os presos ouviram a leitura do perdão do tsar. Ao invés de morrer, Dostoiévski é condenado a cumprir quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria. Nessa época ele já tinha escrito Gente Pobre e O Duplo, em 1846, um sucesso e um fracasso de vendas, respectivamente.

O segundo ponto é um pouco mais complexo e está ligado ao posicionamento ideológico e filosófico do escritor. Quando a Rússia perde a Guerra da Criméia e assina o tratado de Paris, em 1856, o país entra numa grande crise econômica. Como saída para solucionar esse problema, o tsar se vê obrigado a fazer uma série de propostas trabalhistas, arquitetônicas, econômicas e culturais para tentar modernizar a Rússia, principalmente do ponto de vista intelectual e geográfico.

Dentre as medidas tomadas, são famosas a proibição da mão de obra servil, que inseriu a Rússia no sistema econômico europeu, e a Urbanização de São Petersburgo e Moscou, que possibilitou o florescimento da indústria e atraiu os camponeses sem emprego (além disso, as outras reformas, como a trabalhista, a do alistamento militar e a do sistema judiciário, são tratadas em outras obras de Dostoiévski).

Como a França e a Inglaterra foram os grandes patrocinadores do processo de modernização russa, as influências culturais, como o Marxismo e o Ateísmo, germinaram e dividiram a intelectualidade: de um lado, o grupo de revolucionários que abraçava as mudanças culturais; do outro, intelectuais conservadores que via uma descaracterização da natureza do povo russo nesse processo.

Dostoiévski fazia parte do grupo dos conservadores, defendia o movimento pótchvienitchestvo. Com raiz na palavra potchva, que significa solo, a corrente exaltava as qualidades do camponês russo e tentava politizá-lo. Além disso, o escritor acreditava que o crescente ateísmo não se adequava ao espírito russo, naturalmente devoto e religioso. É daí que surge um elemento tão comum em suas obras a partir de Memórias do Subsolo: o conflito entre a razão, que vinha importada da Europa, e a fé cristã, supostamente natural do povo russo.

A partir daí, podemos destacar a ambiguidade presente no homem do subsolo. Ao mesmo tempo em que está ligado à aristocracia russa patriarcal deslocada do cenário agrário devido aos impactos do capitalismo, o personagem-narrador traz um acúmulo de coisas negativas, serve como porta-voz das críticas de Dostoiévski ao racionalismo, à mentalidade positivista e à porção anti-humanista presente no desenvolvimento burguês da Rússia.

A novela também tem uma forte carga filosófica. Segundo Boris Schnaiderman, Memórias do Subsolo também apresenta o conteúdo filosófico que permeia a produção de Dostoiévski. Devido à dramaticidade, à carga emocional e ao importante papel da introspecção, o pesquisador norte-americano W. Kaufman considerou Memórias do Subsolo como “a melhor introdução do existencialismo”.

Inspirando-se em Hegel, Dostoiévski representa a “consciência cindida” de quem começava a ingressar no sistema capitalista. Como afirmado ao longo de toda a narrativa, o personagem infame está ciente de seu caráter desprezível. A cena do diálogo com Lisa, uma prostituta que encontra num bordel clandestino, é o ápice do escárnio retratado. “A cena toda é uma representação assombrosa da dissonância entre o ético e o estético: a bela pregação [literária, conforme dito pelo narrador-personagem] sai dos lábios de um pregador que não tem nada de belo”, afirma Boris Schnaider em seu texto “Dostoiévski: a ficção como pensamento”, citando o crítico R. G. Nazirov.

Os textos literários, jornalísticos e filosóficos se confundiram ao longo de toda a obra de Dostoiévski. Nesse livro, é possível notar traços de influência do escritor na prosa moderna que fez com que Otto Maria Carpeaux o definisse como o mais poderoso escritor do século XIX ou XX.

Logo no começo, é possível notar a instituição do subterrâneo como um lugar metafórico para os conflitos internos. Além disso, como afirma Schnaiderman na introdução, “aquela subjetividade agressiva e torturada do narrador-personagem, o seu discurso alucinado, sua veemência desordenada, o fluxo contínuo de sua fala, que parece estar sempre transbordando, pode ser ouvido por trás da obra de muitos escritores da modernidade”.


SOBRE O AUTOR [3] - Dostoiévski, sem sombra de dúvidas, é considerado um dos maiores romancistas não só do século XIX, mas até hoje no século XXI sua obra é atual pela forma como explora a psicologia humana. Seus personagens não são feitos de papel, são feitos de sangue. Nietzsche, por exemplo, (e aqui cito uma passagem tirada do belíssimo prefácio de Boris Schnaiderman, tradutor do livro) escreveu a Overbeck, seu amigo, uma carta sobre as impressões que lhe causou “Memórias do subsolo” e disse: “(...) A voz do sangue (como denominá-la de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites”.

Dostoiévski é um condenado a imortalidade. Philip Roth em toda a sua obra, Scorcese em seu filme Taxi Drive, Wood Allen em “Crimes e pecados”, Nelson Rodrigues e seus personagens malévolos e muitos outros, que não vêm à memória neste momento, não teriam sido os mesmos sem a existência deste gênio incontrolável, instável, esse Hamlet moderno e rancoroso, habitante de Saint Petersburgo: Dostoievski. Um escritor que dispensa grandes apresentações.

Otto Maria Carpeaux (retirado também do prefácio de Boris Schnaiderman) disse o seguinte a respeito de Dostoiévski: “Existem poucos escritores cuja obra tenha sido tão tenazmente mal compreendida como a de Dostoievski. Dostoiévski é, senão o maior, decerto o mais poderoso escritor do século XIX; ou do século XX, pois sua obra constitui o marco entre dois séculos de literatura. Literariamente, tudo o que é pré-dostoiévskiano é pré-histórico; ninguém escapa a sua influência subjugadora, nem sequer os mais contrários”.

“Memórias do Subsolo” é o aquecimento para o colosso que veio a seguir, “Crime e Castigo”. E pasmem, senhores leitores aqui deste espaço, para essa minha vergonha que revelarei a todos vocês, essa autocrítica fruto de uma negligência, imprevidência e descuido. Ainda não li “Crime e castigo”.


SOBRE O LIVRO - Vamos à história? “Memórias do subsolo” é composto de duas partes. A primeira parte é uma confissão, um monólogo que revela para o grande público seus pensamentos mais íntimos. Ele ridiculariza, ri de si mesmo, e provoca a todos a reagirem contra ele. Pois bem, o autor fictício de “Memórias do subsolo”, que escreve na primeira pessoa, afirma logo de cara que ele tem as características do anti-herói.

“Sou um homem doente... Um home mau. Um homem desagradável.”

Escrito por um aposentado burocrata do governo de quarenta anos, vivendo com um servo a quem despreza, aponta suas flechas para uma plateia imaginária, a que ele se refere como “você” ou “meus senhores”. Alternadamente ele insulta e se humilha diante deles, (deles quem?). Das ideias ocidentais do progresso, das ideologias do egoísmo racional, do utilitarismo, dos pensadores alemães, como Kant “do bem e do belo”, dos socialistas de sua época, em outras palavras, de todas as suas influências.

Quando o narrador diz que dois mais dois é igual a quatro, este é um fato matemático, mas os homens não funcionam dessa forma, ou seja, matematicamente. A parte racional do homem civilizado é apenas uma maquiagem, ou seja, o homem é composto de ambos: do racional (dois mais dois são quatro) e do irracional. Se os homens funcionassem de forma puramente racional, eles seriam previsíveis. E o homem é um ser imprevisível.

“O que suaviza pois em nossa civilização? A civilização elabora no homem apenas a multiplicidade de sensações e... absolutamente nada mais. E através do desenvolvimento dessa multiplicidade, o homem talvez chegue ao ponto de encontrar prazer em derramar sangue.”

“... Pelo menos, se o homem não se tornou mais sanguinário com a civilização, ficou com certeza sanguinário de modo pior, mais ignóbil que antes. Outrora, ele via justiça no massacre e destruía, de consciência tranquila, quem julgasse necessário; hoje embora consideremos o derramamento de sangue uma ignomínia, assim mesmo ocupamo-nos com essa ignomínia, e ainda mais que outrora” (pgs. 36 e 37)

O narrador revela-se incapaz de tomar decisões ou agir com confiança. Ele explica que essa incapacidade é devido à sua “hiperconsciência”, ou seja, ao seu grau intenso de consciência, capaz de imaginar as consequências de suas ações. Essa hiperconsciência faz com que ele perceba em si que é um fraco, mesquinho e covarde, compreendendo que não pode usufruir os prazeres da vida. Tudo isso faz com que ele se retire do mundo e migre para o seu subsolo, evitando fantasias sobre a vida e ao mesmo tempo sendo incapaz de fazer algo produtivo para si mesmo.

Essa amargura por inação acaba criando em torno de si uma quantidade imensa de dúvidas e questões não resolvidas, metade desespero, metade crença. Ele está consciente que está enterrado vivo no seu subsolo durante quarenta anos nesse estado de hiperconsciência e desesperança duvidosa, no inferno dos desejos insatisfeitos. E à medida que lemos, vamos chegando perto desse pântano autogerado e impenetrável.

Na segunda parte do livro, “A propósito da neve molhada”, o narrador revela dois incidentes em de sua vida pessoal que foram importantes para ele. O primeiro, com um oficial e o segundo, com uma prostituta. Ele conhece um oficial por acaso em uma situação social que lhe dá um empurrão, ele se sente humilhado. Ele passa anos de sua vida trabalhando uma maneira de retaliar esse empurrão. Ele imagina todas as situações possíveis de encontros. Até que um determinado dia esse oficial aparece e eles se chocam. O narrador considera-se vingado e o oficial não deu a mesma importância que o narrador deu, ou seja, para o oficial nada de importante aconteceu.

O segundo incidente ocorre após uma festa para a qual ele não fora convidado. Ninguém o queria lá, mas ele permanece só de maldade. Desprezado por todos os convidados, que se retiram para outro lugar sem convidá-lo, diz para si que pretende desafiar um dos homens para um duelo e sai a procura desse homem. Acaba conhecendo Lizza, uma prostituta. Mas fico por aqui.

“Memórias do Subsolo” é uma acusação da insuficiência humana e de sua racionalidade, e ao mesmo tempo é uma forma desesperada do próprio narrador de querer se encaixar nesse mundo que ele tanto despreza. O resultado disso tudo? Um livro perturbador, que se agarra em um imaginário fio da esperança solitariamente, sabendo que ele nunca será encontrado, apenas encontrará os males psicológicos assombrando egos esbofeteados. Podemos chegar à conclusão no final desse desabafo de sentirmos luto por nós mesmos, devida à nossa própria insuficiência, e sermos convidados pela vida a habitar os nossos subsolos. Mas caberá a você, leitor, a decisão.

Um livro genial. “Memórias de um subsolo” é um livro que merece um lugar de honra na sua estante.


NOTAS - Transcrevo abaixo, alguns trechos da obra “Memórias do subsolo” ou “Notas do subterrâneo”, dependendo do tradutor, do célebre escritor [e psicólogo] russo Fiódor Dostoiévski.

“Ah! Senhores! É possível que eu me considere extremamente inteligente pela única razão de que, em toda a minha vida, nunca pude começar nem acabar fosse o que fosse. Não passo pois de um tagarela, de um tagarela inofensivo, de um impertinente como nós todos. Mas que fazer, senhores, se o destino de todo homem inteligente é tagarelar, isto é, derramar água em uma peneira?” [p.30-31]

“Que faremos então desses milhões de fatos que atestam os homens, tendo embora perfeita consciência do seu interesse, o relegam a segundo plano e enveredam por um caminho totalmente diferente, cheio de riscos de acasos? Não são, entretanto, forçados a isso; mas parece que querem precisamente evitar a estrada que se lhes indicava, para traçar livremente, caprichosamente, uma outra, cheia de dificuldades, absurda, mal reconhecível, obscura. É que essa liberdade possui a seus olhos mais atrativos que seus próprios interesses… O interesse! Que é o interesse? Vós vos empenhais em me definir com toda a exatidão em que consiste o interesse do homem? Que direis vós se um belo dia se vem a descobrir que o interesse humano, em certos casos, pode ou mesmo deve consistir em desejar não uma vantagem, mas um mal? Se é assim, se esse caso se pode apresentar, então tudo desmorona. Que pensais disso? Tal caso pode se apresentar?” [p.33]


“Com licença! Vamos nos explicar; não é com jogos de palavras que se pode esclarecer a questão. O que faz a singularidade dessa coisa, desse interesse, é que ele destrói todas as nossas classificações e altera todos os sistemas edificados pelos amigos do gênero humano para a felicidade do homem. Em uma palavra, é um embaraço, um obstáculo. Mas, antes de vos apontar essa coisa, quero me comprometer pessoalmente, e afirmo então com altivez que todos esses belos sistemas, que todas essas teorias que pretendem explicar à humanidade em que que consistem seus interesses normais, a fim de que ela se torno logo virtuosa e nobre no seu esforço para atingir ditos interesses, declaro que tudo isso não passa de logística. Sim, pura logística!” [p.35]

“(…) O sangue corre em borbotões, alegremente mesmo, como champanha. Vede nosso século XIX (…) Então, em que é que a civilização nos adoça? A civilização não faz mais que desenvolver em nós a diversidade das sensações… nada mais. E, graças ao desenvolvimento dessa diversidade, é muito possível que o homem acabe por descobrir uma certa volúpia no sangue. (…) Mas se a civilização não tornou o homem mais sanguinário, tornou-o sem dúvida mais sordidamente, mais covardemente sanguinário. Antigamente, o homem considerava que tinha o direito de derramar sangue, e era com a consciência bem tranquila que destruía o que bem lhe parecia. Hoje, embora considerando a efusão do sangue uma ação condenável, nem por isso deixamos de matar, e mais frequentemente ainda do que antes. (…)” [p.36]

“Que sabe a razão? A razão não sabe senão o que aprendeu (…), ao passo que a natureza humana age com todo o seu peso, por assim dizer, com tudo o que ela contém em si, consciente e inconscientemente; acontece-lhe cometer disparates, mas vive.” [p.41]

“Em uma palavra, pode-se dizer tudo da história universal, tudo o que se apresentar à imaginação mais desregrada. Mas é impossível dizer que ela é racional; equivocar-vos-eis desde a primeira sílaba. E, ademais, eis ainda o que se passa constantemente: homens aparecem, sensatos e de bons costumes, filantropos, cujo fim é levar uma existência racional e honesta, a fim de agirem pelo exemplo sobre seus semelhantes e de lhes provarem que é possível viver sabiamente. Mas que acontece, então? Sabe-se que grande número desses amantes da sabedoria acabam, mais cedo ou mais tarde, por trair suas ideias e se comprometem em escandalosas histórias. Pois bem! Eu vos pergunto: o que se pode então esperar do homem, desse ser dotado de qualidades tão estranhas?” [p.43]

“(…) quereis libertar o homem de seus antigos hábitos e corrigir lhe a vontade segundo os dados da ciência e conforme o senso comum. Mas como sabeis que o homem pode e deve ser corrigido? De onde concluístes, que a vontade do homem deve necessariamente ser educada? Em uma palavra: por que pensais que essa educação lhe é realmente útil?” [p.45]

“(…) Ora, senhores, “duas vezes dois igual a quatro” é um princípio de morte e não um princípio de vida. (…) / É verdade que o homem não se ocupa senão da procura desses “duas vezes dois igual a quatro”; atravessa oceanos, arrisca a vida em sua perseguição; mas quanto a encontrá-los, quanto a apanhá-los realmente – juro-vos que tem medo, pois ele se dá conta de que, uma vez encontrados, nada mais tem a fazer. (…) Tenta aproximar-se do fim, mas, tão logo o atinge, não está mais satisfeito; e isso é verdadeiramente bem cômico. Em uma palavra: o homem é construído de uma maneira muito cômica, e tudo isso faz o efeito de um trocadilho. Mas, seja como for. “duas vezes dois igual a quatro” é uma coisa bem insuportável.” [p.47]

“Um homem decente e cultivado não pode ser vaidoso sem uma ilimitada exigência em relação a si mesmo e sem se desprezar, em certos momentos, até o ódio. Mas, quer desprezando, quer colocando as pessoas acima de mim, eu baixava os olhos diante de quase todos que encontrava.” [p.57]

“Em casa, o que mais fazia era ler. Tinha vontade de abafar com impressões exteriores tudo o que fervilhava incessantemente. E, quanto a impressões exteriores, só me era possível recorrer à leitura. Naturalmente, ela me ajudava muito: perturbava-me, deliciava-me, torturava.” [p.61]

“O amor é um mistério de Deus e deve ser oculto de todos os olhares estranhos, aconteça o que acontecer. Deste modo, tudo é mais santo, tudo é melhor. Eles se respeitarão mais um ao outro, e muita coisa baseia-se no respeito mútuo.” [p.112]



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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A OPERAÇÃO DO CARISMA E O EXERCÍCIO DO PODER [Resenha]


CORREA, Marina. A operação do carisma e o exercício do poder: a lógica dos ministérios das igrejas Assembleias de Deus no Brasil. São Paulo: Recriar, 2018. 372p.


O LIVRO E A SUA AUTORA



O LIVRO [1] – O livro de Marina Correa preenche uma lacuna no conhecimento sobre os “ministérios” da Igreja Evangélica Assembleia de Deus. De início fica claro para o leitor que já não é mais possível falar sobre essa igreja no singular: as Assembleias são muitas igrejas sob um mesmo nome.

Marina desvela a maneira como esses ministérios são organizados e a lógica que preside as relações entre eles. Mostra-nos como, ao mesmo tempo em que fazem parte da mesma instituição, eles são ciosos de seu poder e autonomia.

Os ministérios acabam se constituindo em forma organizativa das Assembleias de Deus capaz de acomodar os interesses de suas lideranças, garantindo-lhes um espaço de atuação e poder de forma relativamente independente uns dos outros. Ao mesmo tempo, por meio das convenções, esses ministérios mantem entre si laços estreitos de reconhecimento mútuo e solidariedade, no sentido sociológico da palavra.

Para o observador externo, com pouco conhecimento e vivencia dessa denominação pentecostal, poderia parecer que a maneira como as Assembleias de Deus se organizam e se constituem, é muito fluida e porco institucionalizada. Em parte dessa percepção é verdadeira, mas Marina mostra como que subjaz por trás dessa fluidez uma maneira muito racional de manter a coesão entre as igrejas baseada na busca incessante do consenso.

Marina Costa é pesquisadora dessa igreja pentecostal. Seus estudos tem contribuído, ao lado de outros, para tornar o Grupo de Estudos do Protestantismo da PUC de São Paulo, um locus de acumulação de conhecimento sobre as Assembleias de Deus e a vertente pentecostal no Brasil.


A AUTORA – Maria Aparecida Oliveira dos Santos é doutora e mestre em Ciências da Religião, na área de concentração Religião e Sociedade pela PUC – SP e professora e pós-doutoranda (PNPD/-CAPES) pela Universidade Federal de Sergipe. Sua pesquisa de pós-doutoramento versa sobre a temática “As sucessões familiares das Igrejas Assembleias de Deus no Brasil; Pesquisadora do Pentecostalismo Brasileiro”.

Marina é especialista nas Igrejas Pentecostais das Assembleias no Brasil. Em parceria com a Universidade Federal da bahia (UFBA) pesquisa os impactos sociais do Pentecostalismo nas Comunidades Quilombolas nos estados da Bahia e Sergipe. Ela é graduada em Direito em Sociologia, e é membra do Grupo de Pesquisa: Rede Latino-Americana de Estudos Pentecostais (RELEP).


PREFÁCIO - O paradigma pentecostal constitui um dos fenômenos mais expressivos da tradição cristã no século XX, senão da própria religião que resiste com seu carisma às pressões teóricas e prática dos tempos modernos, sobretudo à previsão tida como certa: de que as religiões cederiam lugar as estruturas e aos significados construídos pela nova racionalidade laica e científica. O pentecostalismo é uma forma de re-construção do cristianismo em uma sociedade cada vez mais plural (que acolhe novas expressões religiosas), de uma cultura cada vez mais científica (que produz como reação afirmações de mentalidades míticas), de uma sociedade centrada no do bem-estar (que inclui em suas realizações também as ofertas simbólicas), enfim, de um sistema individualizado (que se afina com as tradições e práticas religiosas privatizadas). Trata-se de uma construção moderna no sentido dialético do processo, na medida em que reproduz em suas representações e práticas as dinâmicas modernas centradas na individualidade e, ao mesmo tempo, nega e resiste aos dinamismos racionalizadores que tendem a eliminar a leitura mítica do mundo e as intervenções mágicas no mesmo. Ofertas de visões e práticas pré-modernas produzidas dentro das diversidades inerentes a modernidade e operadas por meio de dinâmicas sócio-culturais modernas.

Nesse mesmo contexto, o pentecostalismo tem sido também um fenômeno de resistência, criatividade e expansão do cristianismo em confronto nítido com as tradições clássicas reproduzidas em suas burocracias hegemonicamente estabelecidas no ocidente. Um caso de religião popular frente à erudita, de religião carismática frente à racionalizada ou, ainda, de religião sectária frente às institucionalizadas. Parece certo que se pode ver nessa vertente cristã de muitos ramos – ao menos nos grupos mais tradicionais - um cristianismo centrado no sujeito, no emocional, no prático, no mágico e, em boa medida, na participação popular, ao menos do ponto de vista da celebração do culto e do acesso aos ministérios e funções eclesiais. E vale lembrar que os pentecostais não somente constituíram comunidades confessionais numerosas e diversificadas no decorrer no século passado, como também forneceram suas referências práticas e teóricas para as próprias igrejas históricas, incluindo o catolicismo, onde tomou forma como movimento que tem sabido conservar suas características fundamentais, porém hospedados dentro dos dogmas, da moral, da organização e da liturgia dessas tradições. A liberdade religiosa e o pluralismo, da parte das sociedades modernas, e a própria pluralidade pastoral, da parte das igrejas históricas, ofereceram as condições para tal expansão e adaptação pentecostal nessas esferas e escalas já consolidadas. A fé nos dons do Espírito Santo se fez democracia nas igrejas e movimentos pentecostais, chamando para suas comunidades os mais desvalidos e conferindo-lhes a cidadania negada pela sociedade anônima e pelas liturgias e hierarquias instituídas das igrejas históricas, sobretudo no contexto das grandes cidades para onde massas rurais migraram e se acomodaram, em todos os aspectos, no tempo e no espaço refeitos por uma sociedade em mudança.

No caso do Brasil, o pentecostalismo adquire feições próprias e se adapta em sua longa e consolidada tradição católico-popular como mais uma opção de religiosidade leiga, centrada no milagre, organizada na irmandade e capaz de falar a linguagem dos pobres, marcadamente estruturada na oralidade. Nascida entre os pobres e, desde esse lugar social, político e cultural, as igrejas pentecostais re-produziram entre nós aqueles ideais da santidade expressos sensivelmente nos dons do Espírito, de forma que uma afinidade eletiva entre os dois universos populares produziu frutos diversos nas inúmeras igrejas por aqui fundadas, sobretudo quando as tradições católicas rurais se esfacelavam longe de seus contextos vitais nas periferias dos grandes centros urbanos e suspiravam por meios políticos e institucionais de sobrevivência. As respostas às necessidades materiais e espirituais, indistintamente interligadas, oferecidas pelas representações e práticas religiosas populares disponíveis e de acesso irrestrito puderam continuar, agora com novos laços de sociabilidade, com novas referências culturais e com novos agentes. Nesse sentido, o pentecostalismo constitui mais um fenômeno de continuidade e ruptura religiosa no âmbito de uma sociedade em processo de transformação. E é no seio dessa mudança social mais ampla que podemos entender as suas próprias mudanças internas, do ponto de vista quantitativo (crescimento e diversificação) e qualitativo (processos de organização). Também, nesse mesmo processo é forçoso observar os modos próprios de sobrevivência do carisma do status nascendi em franca negociação com esquemas racionalizadores que inevitavelmente ocorrem na igreja, na medida em que se torna mais ampla (mais complexa) e, por conseguinte, mais pública (mais socialmente adaptada). O carisma original vai sendo mantido na base da igreja, marcadamente popular e portadora de dons individuais, enquanto uma elite assume cada vez mais o comando geral pelas vias da legitimidade tradicional ou racional/legal.

A Igreja Pentecostal Assembleia de Deus nasceu nesse tempo e percurso históricos e, como um ramo que se transforma em tronco, tornou-se a maior igreja pentecostal brasileira. O mapa de sua expansão e recriação acompanha o mapa dos movimentos migratórios brasileiros que terminaram por compor a saga dramática da urbanização que lançou as massas a sua própria sorte. Nesse sentido, se poderia dizer que os pentecostalismos brasileiros são sujeitos coletivos que escreveram a sua maneira e com seus recursos simbólicos, políticos e, até mesmo, econômicos a história atabalhoada e injusta da urbanização brasileira. Participam, evidentemente, como agentes que ao mesmo tempo resistem e reproduzem essas contradições sociais e políticas mais amplas como uma "empresa dos pobres" que em um primeiro momento se mantém como comunidades de resistência em torno de seus carismas e, em seguida, se afirma como grandes empresas cada vez mais legitimas do ponto de vista político e mais eficientes do ponto de vista econômico-administrativo. Essa saga racionalizadora expressa de modo muito preciso como o pentecostalismo tem conseguido institucionalizar-se, mantendo vivas suas dinâmicas carismáticas fundadoras, já não como uma memória registrada e controlada por ortodoxias legitimas, como no caso das igrejas históricas, mas como uma práxis que permanece viva e operante e que, em boa medida, sustenta todo o edifício institucionalizado, não somente no aspecto simbólico, mas também político e econômico.

A igreja Assembleia de Deus é a maior denominação pentecostal no Brasil. Esse tamanho expressivo não resulta evidentemente do acaso e, na ótica da ciência, de uma contabilidade de responsabilidade divina. Certamente, para além das condições históricas favoráveis sinalizadas acima, sua lógica organizacional foi um fator decisivo para tamanho crescimento. A organização em ministérios preservou sua unidade, não obstante a fragmentação institucional fosse tão natural à eclesiologia das tradições protestantes. De fato, a unidade assembleiana agregou sob sua sigla não somente uma enorme diversidade de pequenas igrejas em grande medida autônomas, alinhadas ou não a um Ministério, como possibilitou a manutenção de muitas delas sob a proteção institucional de um Ministério e, evidentemente, sob a guarda forte das Convenções. Foi o caminho de institucionalização inventado, mesmo que de forma espontânea, que permitiu a expansão do carisma assembleiano, lançado em terras brasileiras pelos missionários suecos no início do século XX.

Estou convencido de que a lógica dos Ministérios constituiu uma relação orgânica entre organização-teologia, política-pastoral, finanças-serviços ou, em termos weberianos, entre carisma-instituição, que controlou com relativo equilíbrio as divergências de todas as ordens, no momento em que a igreja se expandia para além da força do carisma dos fundadores e, na implacável rotina da história, as lutas pelo poder simbólico ou material esteve presente. Evidentemente, a organização em ministérios não somente cresceu quantitativamente numa árvore genealógica quase indecifrável, na medida em que as igrejas se expandiam, como também adquiriu sofisticação administrativa, vindo a constituir uma rede complexa e, ao mesmo tempo organizada de igrejas, semelhante ao que constituem as franquias do mercado atual.

E a organização ministerial não somente acolhe sob suas proteções pastoral e financeira as pequenas iniciativas eclesiais que eclodem pela força selvagem dos carismas religiosos populares, nascidos sem eira nem beira, como também sustenta uma espécie de "poder carismático local que permite o exercício político-eclesial de "sujeitos menores, como as mulheres ou os menos letrados, dentro das suas igrejas afiliadas, ao menos até que a autonomia financeira as faça independentes e venham a constituir-se como Ministério próprio.


O livro contém, além do prefácio e introdução, 4 capítulos com um conteúdo histórico e sociológico que o leitor a conhecer profundamente a história da maior denominação pentecostal da América Latina. Como todas as nossas resenhas, iremos trabalhar de conformidade a estrutura do livro, capítulo à capítulo, extraindo pequenos parágrafos e fazendo resumos. O nosso propósito é fomentar no leitor o desejo pela leitura e apresentar a estrutura do sumário e citações pontuais do livro.


1. DA HISTÓRIA AO MITO - O conteúdo deste capítulo está dividido em cinco tópicos principais, visando estabelecer os eventos que influenciaram o início das Assembleias de Deus (ADs) no Brasil. O primeiro tópico apresenta um breve histórico do pentecostalismo, objetivando contextualizar o surgimento das igrejas ADs dentro desse movimento religioso. Em seguida, o tópico “As práticas pentecostais suecas”, que tencionava fazer um levantamento da trajetória dos pentecostais escandinavos e sua transição entre a Igreja Batista no Brasil. Destaca-se, ainda, a figura de Lewi Pethrus, pastor sueco que teve participação ativa no início do movimento pentecostal na Suécia, e que futuramente seria considerado um dos missionários mais importantes nas Assembleias de Deus no Brasil.

O início do nome da AD é pormenorizado no terceiro tópico: “Missionário escandinavo versus norte-americanos”. Um dos aspectos diferenciais das Assembleias de Deus no Brasil em relação a outras igrejas pentecostais é justamente sua origem sueca. Seus dois fundadores, Vingren e Berg, trouxeram para o Brasil as características do movimento do seu país, como a informalidade nas escolas bíblicas, cursos mais curtos para o serviço na igreja conferências anuais para obreiros. Apesar de não haver profundas diferenças teológicas entre o pentecostalismo norte-americano e o escandinavo, é importante ressaltar que os suecos não inseriram a doutrina dispensacionalista na Assembleia de Deus. A partir dos anos 1950, os brasileiros adotaram os costumes dos missionários americanos, o que ocasionou uma maior sistematização e burocratização na rotina da igreja.

O quarto tópico – “A história do nome Assembleia de Deus” - aborda os fatos mais interessantes na busca pelo nome da denominação. A data de fundação da AD no Brasil é 1911, e o nome Assembly of God só foi adotado oficialmente pelas igreja nos Estados Unidos em 1914. Ao contrário de ser uma decisão hierárquica e unilateral dos fundadores, como pôde (e pode) ser visto em diversas igrejas brasileiras, as Assembleias de Deus norte-americanas contaram com uma eleição em 1912. Resolveu-se, então, usar a mesma nomenclatura nas igrejas fundadas sob o advento do pentecostalismo, mesmo sem haver vínculos financeiros e administrativos entre elas, o que veio a possibilitar às ADs' brasileiras usarem a mesma nomenclatura, sem precisar oferecer justificativas prévias às igrejas norte-americanas.

Finalmente, o quinto tópico – “O mito fundante da Assembleia de Deus” - elabora uma breve biografia de Gunnar Vingren e Daniel Berg, os fundadores suecos da igreja no Brasil. A epopeia desses missionários envolveu uma série de eventos considerados sobrenaturais. Primeiramente, podem ser encontrados relatos dessa natureza na infância de ambos. Posteriormente, os dois foram batizados com o Espírito Santo, passaram a manifestar dons carismáticos, inclusive o dom de cura divina. Em 1910, uma revelação espiritual foi responsável pela missão evangelística, o que culminou com a chegada de ambos, conjuntamente, à cidade de Belém do Pará, quando teve início a Assembleia de Deus no Brasil.


2. DO MITO À HISTÓRIA - No capítulo anterior, a autora apresentou “da história ao mito”, oferecendo uma história sagrada narrada como um acontecimento factual, que pode ser interpretada de várias maneiras. Neste capítulo, em oposição ao anterior, a autora fala “Do Mito à História”, estabelecendo uma leitura a respeito do mito construído, para descrever as outras faces das igrejas Assembleias de Deus no Brasil. Aqui é abordado sua origem, seu destino e suas transformações em diversos momentos, apontando outros pontos de vista.

Este capitulo faz um levantamento histórico da Assembleia de Deus no Brasil. O primeiro tópico. “Assembleia de Deus, igreja sueca com “jeitinho brasileiro””, trabalhará com a bibliografia a respeito da chegada dos missionários ao Brasil e os primeiros anos da formação da denominação. Mesmo antes de viajarem para o Brasil, Gunnar Vingren e Daniel Berg tiveram problemas sérios com as congregações batistas dos Estados Unidos. Já em Belém, os suecos seriam considerados responsáveis por enganos e cisões dentro da Primeira Igreja Batista do Para.

O tópico seguinte. “Expansão das ADs”, identificará algumas conexões entre o crescimento da igreja e o desenvolvimento industrial brasileiro. O ciclo da borracha, no início do século XX, transformou a região amazônica com a intensa migração de trabalhadores do Norte e do Nordeste. Após este período e o rápido encerramento do ciclo da borracha, as migrações tiveram como destino o Sul e o Sudeste do pais. Entre os migrantes estavam pastores e membros da Assembleia de Deus, que levaram a sua mensagem para as regiões mais populosas do Brasil.

No item Rumo a “institucionalização através da matriz sueca”, retrataremos a vinda de mais missionários suecos no período da Primeira Guerra Mundial. Com este novo fluxo humano, iniciaram-se as primeiras contribuições financeiras da igreja sueca para o Brasil. Serão apresentados também os modelos de governo da Assembleia de Deus, a criação da Convenção Nacional e as suas funções.

Ainda será tratado o “ministério feminino” dentro denominação. Vingren defendia a participação ativa das mulheres na comunidade, enquanto outro missionário, Nystron, sustentava que as mulheres cabia apenas o testemunho. Como síntese das duas posições, a Assembleia de Deus desenvolveu a ideia de que a mulher deveria ser vista como auxiliadora, seja no trabalho missionário, seja no trabalho educacional, negando-lhe a autoridade pastoral.

No item “Cisão dentro da AD”, será levantada a biografia de Manoel Higino de Souza, o primeiro pastor a deixar as ADs e fundar sua própria igreja com outro nome. Também falaremos a respeito da história de vida de Paulo Leivas Macalão, segundo pastor a se desligar oficialmente à Assembleia de Deus e o primeiro a fundar um ministério autônomo dentro da própria denominação, o Ministério Assembleia de Deus Madureira. A partir dessas primeiras cisões assembleianas, posteriormente, ocorreram novas cisões e, a partir de então, outros ministérios surgiram com mais independência, funcionando sem nenhum vínculo com os demais. Com isso, os ministérios ganharam fortalecimento administrativo, representado pela figura do pastor presidente - termo criado pelo próprio Macalão na década de 40, desencadeando o maior desafio dentro das ADs: a questão da fragmentação. Atualmente, as Assembleias de Deus fragmentam-se facilmente. Além da fragmentação dentro dos grandes ministérios, ainda existe o problema da pulverização, com o surgimento de inúmeras igrejas pequenas que formam uma grande rede chamada "Assembleia de Deus". Cada qual conta com uma liderança independente, o que torna cada vez mais difícil compreender a sua lógica de funcionamento e a questão do poder.

No tópico CGADB: “Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil) Associação de pastores ou de igrejas”, será tratada a história e os principais aspectos da convenção assembleiana. Apesar de funcionar desde a década de 1930, somente cerca de cinquenta anos depois a CGADB passou a concentrar influência e poder dentro da estrutura assembleiana. Sua primeira eleição para presidente aconteceu em 1996. Desde então, a CGADB é liderada pelo pastor José Wellington Bezerra da Costa.

No último item. “Aparelhos de divulgação”, são identificadas as mídias utilizadas pelas Assembleias de Deus em sua expansão externa e também na comunicação interna entre lideranças e membros. São relacionadas as principais ações em jornais, rádio e televisão, além da atuação da editora Casa Publicadora das Assembleias de Deus.


3. A ORGANIZAÇÃO INTERNA DOS MINISTÉRIOS DAS ADS NO BRASIL - O presente capítulo foi basicamente construído a partir das observações empíricas e entrevistas realizadas com pastores e com adeptos das igrejas ADs, no sentido de realizar uma discussão sobre as cisões, destacando o crescimento e a autonomia de alguns ministérios que, após passar por cisões, funcionam com a mesma nomenclatura, AD, mas atuam isoladamente, possuindo suas próprias convenções e se relacionando com outros ministérios tão somente por "laços fraternos"; como exemplo pode se citar: O Ministério de Santos, o Ministério de Goiás, o Ministério Vitória em Cristo - este ministério liderado pelo pastor Silas Malafaia é o mais novo a passar pelo processo de cisão, o Ministério de Cordovil (ADMC), RJ, e ainda, a Igreja Evangélica Assembleia de Deus Bereana, Vila Mariana - SP, liderada pelo pastor-presidente, Walter Brunelli. Esta igreja funciona dentro dos padrões modernos das tecnologias e possui um projeto de trabalho diferenciado de outras igrejas ADs, chamado de Células Bereanas. No decorrer deste capítulo serão citados alguns ministérios que já nasceram independentes, é o caso do Ministério da Assembleia de Deus Bom Retiro, SP - objeto de tese de mestrado desta autora (2006), e que serviu de inspiração para esse trabalho.

Dentro dessa perspectiva, o presente trabalho demonstra as características de cada ministério e aponta suas aproximações e distanciamentos entre si. Vimos que esses ministérios trabalham com uma racionalidade administrativa burocrática, visando o crescimento e uma atuação cada vez mais moderna (ou pós-moderna) diante das outras denominações pentecostais. Portanto, pretende-se aqui traçar alguns pontos de convergência, examinando se existe uma lógica de funcionamento dos ministérios assembleianos em suas diferentes formas de funcionamento, a relação entre os pastores associados a esses ministérios e os pastores que estão ligados às convenções da CGADB, a CONAMAD e as convenções independentes; por último, procurar compreender os motivos pelos quais os ministérios autônomos conservam o mesmo nome.

Dessa maneira, as pesquisas empíricas foram realizadas analisando o percurso dos ministérios estudados, levantando a hipótese de que e possível afirmar que os inúmeros ministérios autônomos atuam de maneira isolada, comandados de diversas formas, representados por-um pastor-presidente que coordena as suas redes de congregações e pontos de pregação de acordo com seus ideais, juntamente com sua própria mesa diretora, formada por um corpo de pastores administrativos em suas regiões locais, fortemente investidos do poder econômico, político e religioso.

Assim, diante de alguns resultados levantados nas pesquisas de campo, visa-se demonstrar, por amostragem, o perfil atual dos ministérios das ADs, as cisões, os ministérios independentes e os associados às convenções e seu tipo de funcionamento. Além disso, entender o funcionamento das convenções estaduais e nacionais, o processo de adesão a elas e sua importância e, por meio de gráficos, o panorama dos ministérios e/ ou igrejas desligadas ou autônomas, fazendo uma leitura de cada situação, e a existência de uma lógica de funcionamento entre as igrejas, principalmente pelo fato de, mesmo quando desligadas de formalidades, permanecerem no rol das ADs.

Dentro deste contexto, o conceito e a administração dos ministérios são trabalhados nas igrejas-sede (Ministérios). Após o ano de 1932, as ADs já davam indícios de uma nova estruturação local autônoma. Na ocasião da consolidação do Ministério Madureira, a Convenção Nacional traçou as linhas mestras da atuação espacial da Assembleia de Deus, pois foi a partir dessa consolidação que surgiram terminologias administrativas como campo, igrejas-Sede e invasão de campo. Este tópico também explica a constituição do pastor assembleiano comum e do pastor-presidente.


4. O PODER RELIGIOSO NAS ESTRUTURAS DOS MINISTÉRIOS DAS ADS – O quarto capítulo será construído a partir das análises sociológicas baseadas nas observações empíricas e entrevistas realizadas com os pastores e adeptos das igrejas ADs, no sentido de realizar uma discussão sobre a questão da "lógica" de funcionamento das igrejas e ministérios. Serão analisados o "poder religioso" dessas igrejas, não somente ligado ao poder de ordem jurídica, econômico ou político, mas do poder condicionado "pelas honras sociais que ele acarreta". Também serão analisadas as formas de governo, as estratégias, os mecanismos legitimadores (estancamentos), os sujeitos, os conflitos entre o "carisma, a tradição e a racionalidade" – no sentido weberiano, dos pastores, propondo que esses ministérios estejam se tornando um exemplo de redes de igrejas "Assembléia de Deus". Os discursos utilizados por esses pastores são cada vez mais atuais, dentro da sociedade moderna, como forma de acomodação e permanência viva no campo religioso sem perder a credibilidade conquistada ao logo dos anos.

Por fim, serão vistos os processos socioculturais subjacentes às mudanças religiosas ocorrida nas ADs, no contexto da sociedade moderna urbanizada. As mudanças detectadas no decorrer deste estudo, serão classificadas e analisadas sob a ótica weberiana, teórico central neste trabalho, destacando os tipos de dominação Segundo Weber, "dominação é a probilidade de encontrar obediência a uma ordem de determinado conteúdo, entre determinadas pessoas indicáveis". O autor afirma que nas relações de poder e as suas formas de legitimação, "consiste na presunção de impor a própria vontade a outrem em uma relação social ou não, mesmo contra resistência". O "Poder" estabelece uma dominação e esta dominação cria a "disciplina", gerando uma "obediência pronta, automática e esquemática a uma ordem". A obediência não necessariamente a um comando, mas também o tomar decisões e exercer influências sobre o que é definido, mas envolve uma influência recíproca de dois ou mais elementos, direta ou indiretamente. "Disciplina", portanto, inclui o treino na obediência em massa, sem crítica e sem resistência.

Ainda serão analisadas a questão do poder religioso dos ministérios ADs, observando os discursos dos pastores, a influência e o potencial que o discurso religioso desperta em seus ouvintes, submetendo-os a uma relação direta com Deus. Os pastores estabelecem um canal direito entre Deus e os seus ouvintes, no qual "o locutor é Deus, logo, de acordo com a crença, imortal, eterno, infalível, infinito e todo-poderoso". Esses discursos fizeram com que alguns ministérios, tivessem um aumento significativo de adeptos nos últimos anos - pelo ganho de notoriedade que as figuras carismáticas, carregadas de emocionalidade e persuasão, vem recebendo desses ministérios.


CONCLUSÃO - Depois de ler as 370 páginas desta obra, só tenho algo acrescentar: Adquira o livro clicando na imagem acima.

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[1] Texto do Prof. Dr. Edin Sued Abumansur (PUC-SP). Escrito na orelha do livro.


terça-feira, 13 de agosto de 2019

O SÍMBOLO PERDIDO [Resenha]


BROWN. Dan. O Simbolo Perdido. Rio de janeiro, RJ: Sextante, 2009.


SINOPSE OFICIAL DO LIVRO - “Chamado por seu amigo Peter Solomon para dar uma palestra em Washington, Robert Langdon viaja até a capital americana, mas ao entrar no palco para iniciar a palestra descobre que tudo aquilo foi uma forma de atrai-lo até ali para iniciar uma busca por um antigo portal místico que tornaria possível a Apoteose. (Transformação do Homem em Deus). Robert se vê então forçado a colaborar com Mal`akh, vilão que esquematiza todos os passos de Langdon para que este decifre e revele o segredo da Pirâmide Maçônica (lenda maçônica onde estaria guardados os antigos mistérios da humanidade), para que assim Mal`akh tenha acesso ao poder prorrogado pela lenda dos Antigos Mistérios. No desenrolar da trama Robert recebe ajuda de Katherine Solomon, irmã de Peter, que está sendo mantido refém pelo vilão. Katherine é uma pesquisadora de um novo ramo da ciência, a Ciência Noética e, juntos, vão decifrando os segredos escondidos na Pirâmide e se aproximando cada vez mais do grande Símbolo Perdido, palavra que quando entendida daria ao homem um poder sobre-humano.”


O AUTOR [1] – Dan Brown, nascido em 22 de junho de 1964 em Exeter, New Hampshire, é um autor norte-americano que escreve histórias bem pesquisadas e tramas intricadas. Ele é mais conhecido pela série de Robert Langdon, que inclui como destaque O Código Da Vinci(2003).

Brown frequentou a Phillips Exeter Academy, uma escola preparatória onde seu pai era professor de matemática e, em 1986, se formou em Inglês e Espanhol pela Amherst College, de Massachussets. Depois mudou-se para a Califórnia para tentar seguir carreira como compositor. Embora tenha tido pouco sucesso na indústria musical, escreveu seu primeiro livro, junto de sua esposa, Blythe Newlon, em 1990. 187 Men to Avoid, um guia de sobrevivência em encontros para mulheres, foi publicado em 1995 sob o pseudônimo de Danielle Brown.

Em 1993, Brown se juntou a corpo docente da Exeter como professor de inglês e escrita criativa. Alguns anos depois, o Serviço Secreto dos Estados Unidos foi à escola interrogar um aluno que havia escrito um e-mail em que brincava sobre matar o presidente. O incidente despertou o interesse de Brown em agências secretas de inteligência, formando a base para o seu primeiro thriller, Fortaleza Digital (1998). Focado em organizações clandestinas e criptografia, o livro se tornou um modelo para os próximos trabalhos de Brown. Em seu próximo livro, Anjos e Demônios (2000), ele apresentou Robert Langdon, um professor de simbologia de Harvard. A trama de ritmo acelerado segue os esforços de Langdon para proteger o Vaticano dos Illuminati, uma sociedade secreta formada durante a Renascença que se opunha à Igreja Católica Romana. Embora tenha recebido resenhas positivas, o livro não foi um sucesso de vendas.

Depois de seu terceiro livro, Ponto de Impacto (2001), Brown trouxe Langdon de volta em O Código Da Vinci, um thriller focado em História da Arte, origens do Cristianismo, e teorias arcanas. Tentando solucionar o assassinato do curador do Louvre, Langdon se depara com organizações (Opus Dei e o Priorado de Sião), discute as mensagens escondidas nas obras de Leonardo Da Vinci, levanta a possibilidade de Jesus ter casado com Maria Madalena e se tornado pai, e encontra o Santo Graal. O Código Da Vinci causou muita controvérsia, e muitos teólogos e estudiosos da arte descartaram suas ideias. O livro, entretanto, se tornou incrivelmente popular com o leitores. Em 2009, mais de 80 milhões de cópias haviam sido comercializadas, e suas edições estavam disponíveis em mais de quarenta idiomas. O grande interesse pela história resultou em uma enorme quantidade de livros relacionados e impulsionou as vendas dos livros anteriores de Brown; em 2004, todos os quatro livros apareceram na lista de best-sellers do The New York Times. As adaptações cinematográficas de O Código Da Vinci e Anjos e Demônios estrearam em 2006 e 2009, respectivamente, com Tom Hanks no papel de Robert Langdon.


O LIVRO [2] - Ao iniciar a leitura de “O Símbolo Perdido” tem-se a sensação de que (para aqueles que já leram os outros livros de Dan Brown) a história está se repetindo. Isso, no entanto, não surpreende o leitor mais atento, pois uma das características mais latentes das obras de Dan Brown é justamente a estrutura básica de todas as suas obras, que se repetem (com alguma alteração aqui e ali em cada obra) religiosamente em todos os seus trabalhos. É importante deixar claro, porém, que essa característica não chega a ser um defeito ou uma falta de criatividade do autor, mas sim a simples repetição de uma fórmula que deu muitíssimo certo no estilo literário que o autor segue.

“O Símbolo Perdido” é uma obra relevante em vários sentidos. Acrescenta muito conhecimento ao leitor à medida que o autor descreve as razões que motivam os personagens e o contexto histórico em que a história se desenvolve, incita sua curiosidade (pois quem não correu no “google” para pesquisar sobre as informações mostradas no texto?), é uma obra bem estruturada e mantém de forma natural e fluída a tensão, que cresce com a história até um ponto quase insuportável.

A estrutura da história é outro ponto alto da obra, pois cria as condições de mistério e tensão necessárias que crescem naturalmente ao longo da história e joga o leitor dentro daquele universo repleto de segredos, mentes espetaculares, manipulações e lições históricas que fazem parte da cultura mundial. Uma verdadeira aula de história para aqueles mais curiosos e ávidos por saber mais sobre o mundo.

O desenvolvimento das personagens também é uma característica que enriquece o texto, pois é feita em doses calculadas ao longo da história e fornece ao leitor informações importantes e interessantes a respeito de suas motivações e seus planos, descrevendo meticulosamente cada passo dado de forma a criar na mente do leitor o cenário exato dos acontecimentos. Criando um mosaico aparentemente desconexo de atos, mas que se juntam quase que por mágica para formar um plano bem elaborado e cuidadosamente estruturado. A ambiguidade das personalidades presentes na história também contribui para o clima de tensão, pois o leitor nunca tem certeza de que lado certo personagem está e o que ele pretende com suas ações até que todo o plano geral é revelado.

Assim como nas demais obras de Dan Brown, as inúmeras reviravoltas presentes na história enriquecem a narrativa, impondo ritmo e tensão e criando uma sensação de urgência, prendendo o leitor à narrativa à medida que os segredos são revelados aos poucos. O curto período de tempo no qual a história se passa também contribui para esse ritmo e essa sensação de perigo presente nas sequências, pois a riqueza com que cada ação é descrita fornece base suficiente para aumentar o clima eufórico da ação.

No entanto a narrativa, que se fixa no real e na cultura mundana para basear a história, às vezes peca pelos excessos e até mesmo bizarrices ao longo da história, fazendo com que o desenvolvimento dos fatos e a importância que a história tem, justamente por se tratar de assuntos que supostamente são reais, se distancie da realidade ao narrar situações que dificilmente poderiam ocorrer ou que soam quase impossíveis considerando o local onde acorrem e os tipos das personagens envolvidas. Esses fatos, mesmo que sejam poucos, tiram um pouco o sentido de veracidade da história e contribui para classificar “O Símbolo Perdido” como um simples, mas bem estruturado, romance sobre os segredos da maçonaria e das sociedades secretas existentes nos EUA e não como uma referência sobre o assunto, mesmo que esse não seja o objetivo do autor.

Outro ponto importante a ser destacado na história diz respeito alguns detalhes sobre as manobras do vilão que são deixadas de lado, talvez, porque o autor não achasse importante para a história, mas que, de certo modo deixa algumas pontas soltas. Exemplo disso é o modo como o vilão consegue se infiltrar na fraternidade sem deixar suspeitas e de que modo ele conseguiu atingir o mais alto grau da hierarquia maçônica.

A ciência noética, conceito novo para os leitores e desconhecido para a grande maioria, também é abordada de uma maneira superficial e subestimada, pois apenas os conceitos que seriam aproveitados pela história são expostos e este, expostos de maneira precária pelo autor, deixando dúvidas sobre os resultados da pesquisa e qual razão teria a existência de um laboratório milionário superequipado com tecnologia de ponta, visto que boa parte da pesquisa foi sequer citado.

O laboratório de ciência noética criado por Brown também se distancia de algo crível, pois sua concepção o torna praticamente surreal e, nas notas não é citado se ele é real ou não, deixando mais dúvidas sobre a noética do que esclarecendo sua importância na ciência moderna e até mesmo para a história.

No entanto Dan Brown merece crédito também por tentar se distanciar de suas demais obras ao acrescentar elementos inéditos em "O Símbolo Perdido" e colocar Robert Langdon em situações cada vez mais perigosas e improváveis, levando seu personagem ao limite em algumas ocasiões.

"O Símbolo Perdido" é um livro fantástico, intenso, interessante e fascinante. Aborda temas conhecidos, mas que se escondem debaixo de lendas e teorias, e prende o leitor de uma forma completamente honesta, incitando a imaginação a cada página e dando uma lição histórica a cada capítulo, permeados com momentos de tensão, desespero e ação. É um livro que vale a pena ser lido, entendido e apreciado. E, mesmo que tenha alguns defeitos e tropeços, não deixa de ser uma brande obra de ficção baseada na realidade.


O PRÓLOGO

Casa do Templo
20h33

O segredo é saber como morrer. Desde o início dos tempos, o segredo sempre foi saber como morrer. O iniciado de 34 anos baixou os olhos para o crânio humano que segurava com as duas mãos. O crânio era oco feito uma tigela e estava cheio de vinho cor de sangue. Beba, disse ele a si mesmo. Você não tem nada a temer.

Como rezava a tradição, ele havia começado aquela jornada vestido com os trajes ritualísticos de um herege medieval a caminho da forca, com a camisa frouxa deixando entrever o peito pálido, a perna esquerda da calça arregaçada até o joelho e a manga direita enrolada até o cotovelo. De seu pescoço pendia um pesado nó feito de corda - uma "atadura", como diziam os irmãos. Nessa noite, porém, assim como os companheiros que assistiam à cerimônia, ele estava vestido de mestre.

O grupo que o rodeava estava todo paramentado com aventais de pele de cordeiro, faixas na cintura e luvas brancas. Em volta do pescoço usavam joias cerimoniais que cintilavam à luz mortiça como olhos espectrais. Muitos daqueles homens ocupavam cargos de poder lá fora, mas o iniciado sabia que suas posições mundanas nada significavam entre aquelas paredes. Ali todos eram iguais, irmãos unidos pelo juramento compartilhando um elo místico.

Correndo os olhos pelo impressionante grupo, o iniciado se perguntou quem, no mundo exterior, seria capaz de acreditar que todos aqueles homens pudessem se reunir em um mesmo lugar... Principalmente naquele lugar. O recinto parecia um santuário sagrado do mundo antigo.

A verdade, porém, era ainda mais estranha.

Estou a poucos quarteirões da Casa Branca.

Aquele edifício colossal, situado no número 1.733 da Rua 16 Noroeste, em Washington, D.C., era a réplica de um templo pré-cristão - o Templo do Rei Mausolo, o primeiro mausoléu... Um lugar para onde se era levado após a morte. Diante da entrada principal, duas esfinges de 17 toneladas montavam guarda ao lado das portas de bronze. O interior era um labirinto de câmaras ritualísticas, corredores, alcovas secretas, bibliotecas e até mesmo um compartimento contendo os restos mortais de dois corpos humanos. O iniciado havia aprendido que cada cômodo daquele edifício guardava um segredo, mas sabia que nenhum deles ocultava mistérios mais profundos do que a câmara colossal, na qual se encontrava agora, ajoelhado, segurando um crânio nas mãos.

A Sala do Templo.

Sua forma era a de um quadrado perfeito. E o ambiente era sombrio e grandioso. O teto altíssimo se erguia a surpreendentes 30 metros, sustentado por colunas monolíticas de granito verde. Ao redor da sala, fileiras de cadeiras russas de nogueira escura, estofadas com couro de porco trabalhado à mão, estavam dispostas em níveis. Um trono de 10 metros de altura dominava a parede oeste, e um órgão escondido ocupava o lado oposto. As paredes eram um caleidoscópio de símbolos antigos... Egípcios, hebraicos, astronômicos, alquímicos e outros ainda desconhecidos.

Nessa noite, a Sala do Templo estava iluminada por uma série de velas minuciosamente posicionadas. Seu brilho fraco era complementado apenas por um facho de luar que entrava pela ampla claraboia do teto jogando luz sobre o elemento mais surpreendente da sala - um imenso altar feito de um bloco maciço de mármore belga preto polido, situado bem no meio do recinto quadrado.

O segredo é saber como morrer, lembrou o iniciado a si mesmo.

– Chegou a hora - sussurrou uma voz.

O iniciado deixou seu olhar subir até o rosto do distinto personagem vestido de branco à sua frente. O Venerável Mestre Supremo. O homem, de quase 60 anos, era um ícone norte-americano, estimado, robusto e dono de uma fortuna incalculável. Seus cabelos outrora escuros estavam ficando grisalhos, e o semblante conhecido refletia uma vida inteira de poder e um vigoroso intelecto.

– Preste o juramento - disse o Venerável Mestre, com uma voz suave feito a neve. - Complete sua jornada.

A jornada do iniciado, assim como todas as daquele tipo, havia começado no grau 1. Naquela noite, em um ritual parecido com este de agora, o Venerável Mestre o vendara com uma faixa de veludo e pressionara uma adaga cerimonial contra seu peito nu, indagando:

– Você declara seriamente, pela sua honra, sem influência de motivações mercenárias ou quaisquer outras considerações indignas, candidatar-se de forma livre e espontânea aos mistérios e privilégios desta irmandade?

– Sim - Havia mentido o iniciado.

– Então que isso seja um estímulo à sua consciência - alertara o mestre -, bem como a morte instantânea caso algum dia você venha a trair os segredos que lhe serão revelados.

Na época, o iniciado não sentira medo. Eles jamais saberão meu verdadeiro motivo para estar aqui.

Nessa noite, porém, uma atmosfera de ameaçadora solenidade pairava na Sala do Templo, levando-o a rememorar todos os avisos severos recebidos durante a jornada, ameaças de punições terríveis caso ele algum dia revelasse os antigos segredos que estava prestes a conhecer: garganta cortada de orelha a orelha... Língua arrancada pela raiz... Entranhas removidas e queimadas... Espalhadas aos quatro ventos... Coração retirado do peito e jogado aos animais selvagens...

– Irmão - disse o mestre de olhos cinzentos, pousando a mão esquerda no ombro do iniciado. - Preste o juramento final.

Tomando coragem para dar o último passo de sua jornada. - O iniciado endireitou o corpo e voltou sua atenção para o crânio que segurava nas mãos. À fraca luz das velas, o vinho cor de carmim parecia quase negro. Um silêncio sepulcral reinava na sala, e ele podia sentir os olhos das testemunhas cravados nele, à espera que prestasse o juramento final e se unisse àquele grupo de elite.

Hoje à noite, pensou ele, entre estas paredes, está acontecendo algo que nunca aconteceu antes na história desta irmandade. Nem sequer uma vez em séculos.

Ele sabia que aquilo seria a faísca... E que lhe daria um poder inimaginável. Cheio de energia, respirou fundo e repetiu as mesmas palavras pronunciadas antes dele por incontáveis homens espalhados por todo o mundo.

– Que este vinho que agora bebo se transforme em veneno mortal para mim... Caso algum dia eu descumpra meu juramento de forma consciente ou voluntária.

Suas palavras ecoaram no espaço oco. Então, o silêncio foi total.

Firmando as mãos, o iniciado levou o crânio à boca e sentiu os lábios tocarem o osso seco. Fechou os olhos e o inclinou, bebendo o vinho em goles demorados, generosos. Depois de sorver tudo até a última gota, abaixou o crânio.

Por um instante, pensou sentir os pulmões se contraírem e seu coração começou a bater descompassado. Meu Deus, eles sabem! Então, com a mesma rapidez que havia surgido, a sensação passou.

Um agradável calor começou a percorrer seu corpo. O iniciado soltou o ar, sorrindo consigo mesmo enquanto observava o homem de olhos cinzentos que não desconfiava de nada e que acabara de cometer o erro de deixá-lo entrar para o círculo mais secreto de sua irmandade. Você logo perderá tudo o que lhe é mais precioso.

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[1] Biografia de Dan Brown, publicado originalmente e disponível in: <https://rededeleitores.com/2017/10/09/biografia-dan-brown/> Acesso 13 agosto 2019.
[2] Resenha originalmente publicada no blog: <http://fanaticreader.blogspot.com/2012/11/critica-o-simbolo-perdido.html>

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A GLÓRIA DE CRISTO [Resenha]


SPROUL, R. C. A Glória de Cristo: Um encontro com a majestade do Senhor dos Senhores. São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2004. 208p.


O AUTOR - Nascido em 1939, na Pensilvânia, EUA, Robert Charles Sproul pode ser considerado um dos teólogos reformados mais proeminentes dos últimos anos. Fundador e presidente da Ligonier Ministries, R. C. Sproul em decorrência de complicações respiratórias faleceu em 14 de dezembro de 2017, aos 78 anos. A nota oficial publicada no site de Ligonier Ministries dizia que o impacto do ministério de Sproul para a história da igreja só poderá ser mensurado futuramente. “Neste momento, sentimos imensa tristeza e profunda perda - a perda de um pastor, um professor, um líder, um irmão em Cristo, um amigo. R. C. agora vê o objeto de sua fé, o Cristo ressuscitado.”

Ordenado na Igreja Presbiteriana Unida antes de se transferir para a Igreja Presbiteriana na América (PCA), Sproul trouxe educação teológica às massas, criando uma ponte entre a escola bíblica dominical e o seminário, através de seu programa de rádio, a revista Tabletalk, palestras, livros e dezenas de artigos. Para a Christianity Today, o legado de Sproul vive em gerações de leigos e líderes reformados. Quando o assunto é Soberania de Deus, ele é considerado a maior referência no assunto.


O LIVRO - Glória. A palavra é rica em significado. Ela coloca os corações dos cristãos no alto. A alma é levada pela contemplação da glória de Deus e de seu Filho Unigênito. Cristo em sua glória é o alvo de nosso louvor e adoração. Como cristãos somos unidos à comunhão dos santos e as hostes celestiais ao rendermos a ele louvor e honra.

O autor afirma que a vida de Jesus foi marcada por humilhações e sofrimento. Sua humanidade lhe serviu de véu, ocultando o esplendor de sua deidade. Mas houve momentos em que sua glória resplandecia. Era como se o vaso de sua natureza humana não tivesse força suficiente para esconder sempre essa glória.

Há uma frase no latim popular que os teólogos do século 16 gostavam de repetir: finitum non capax infinitum. A frase comunica duas ideias. A primeira, que o finito não pode compreender o infinito. Nesse sentido, chama atenção para a incompreensibilidade de Deus. Aponta para as limitações de nossas mentes humanas de abarcar completamente a grandeza de Deus. Na melhor das hipóteses, nossa compreensão de Deus é fraca.

O segundo sentido da frase em latim é que o finito não consegue conter o infinito. Assim foi na encarnação. Embora a plenitude da trindade habitasse em Cristo corporalmente, essa plenitude não poderia se restringir aos limites da natureza humana de Jesus, nem ser sujeita a essa natureza humana.

Este livro não pretende fornecer um exame completo da vida de Jesus, e sim focalizar momentos de sua vida em que a glória dele irrompia e era revelada às pessoas ao seu redor. O livro considera os pontos em que sua humilhação dava lugar à sua exaltação.

O livro contém, além do prefácio, 16 capítulos com um conteúdo edificante. Como todas as nossas resenhas, iremos trabalhar de conformidade a estrutura do livro, capítulo à capítulo, extraindo pequenos parágrafos e fazendo resumos. O nosso propósito é fomentar no leitor o desejo para a compra ou não do livro completo e a nossa proposta é se ter a estrutura do sumário e citações pontuais do livro.


1. GLÓRIA NAS CAMPINAS – Neste capítulo, o autor enfatiza a primeira manifestação da glória de Cristo entre os homens. Ele diz que na noite em que Jesus nasceu houve algo de espetacular. As planícies de Belém tornaram-se o palco de um dos shows de som e luzes mais deslumbrantes de toda a História humana.

O céu irrompera em festa. Quando os pastores de Belém foram visitados pelos anjos estremeceram de medo, contudo, foram advertidos pelo anjo: "Não temais; eis aqui vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor" (Lc 2.10,11).

O anjo declara que esse Salvador-Messias-Senhor "vos nasceu": nasceu para vocês. A participação divina não é um oráculo de julgamento, e sim a declaração de uma dádiva. O Rei recém-nascido nasceu para nós. Quando o coral celestial terminou, os pastores discutiram o assunto entre si. A Palavra nos conta que saíram apressados em busca do lugar do nascimento do Cristo. Ficamos curiosos sobre o que fizeram quanto ao rebanho, se com a pressa e emoção deixaram os animais sem ninguém. Seria inconcebível qualquer pastor responsável fazer isso. Será que deixaram um ou mais de seus companheiros para trás? E se deixaram, como se sentiram aqueles que ficaram, perdendo a maior das aventuras? A Bíblia não fornece respostas a essas perguntas e só podemos imaginar como teria sido.

Logo depois do grande encontro, os pastores voltaram aos seus rebanhos. Foi uma caminhada marcada por adoração e louvor incontido. Esses homens nunca seriam mais os mesmos. Tinham visto com seus olhos e ouvido com seus ouvidos a manifestação da glória de Deus.


2. GLÓRIA NO TEMPLO – Neste capítulo, sobre a Glória no Templo, o autor fala além da circuncisão de Cristo, fala também sobre a presença do Profeta Simeão e da Profetisa Ana. Oito dias depois do nascimento impressionante de Jesus, os pais dele mandaram circuncidá-lo de acordo com os regulamentos estabelecidos na lei judaica.

Quando Jesus é apresentado por seus pais para a circuncisão, vemos sua submissão à Lei da Aliança. Jesus assim se torna herdeiro da aliança de Israel. As sanções da aliança serem colocadas sobre o Filho de Deus indica ao mesmo tempo sua humilhação e sua glória. Nesse momento, ele passa a assumir seu papel de novo Adão, o autor de uma humanidade glorificada. É ele quem está destinado a cumprir a Lei em todos os seus detalhes e ganhar as bênçãos da aliança para seu povo. Justamente onde nós falhamos e nos tornamos infratores da aliança, merecendo a maldição que ela impõe, Jesus, o nosso campeão, é bem sucedido em seu papel de Novo Adão, o supremo guardador da aliança.

Não somos apenas remidos pela morte de Cristo; somos também remidos pela vida de Cristo. Sua morte na cruz revela o nadir, o ponto mais baixo de sua humilhação quando ele toma sobre si a maldição em nosso lugar. Mas essa é apenas parte de sua realização redentora. Não basta termos nossos pecados expiados. Para receber as bênçãos da aliança, precisamos possuir uma retidão real. Necessitamos daquilo que não podemos suprir por nós mesmos. Esse mérito da justiça é ganho para nós pela vida de perfeita obediência de Jesus. Vemos assim que, passando pela circuncisão, Jesus não é apenas parte de um ritual sem sentido; ele está se lançando na estrada da redenção como Novo Adão.


3. GLÓRIA NA SUA INFÂNCIA – Neste capítulo, o autor enfatiza a Glória de Cristo quando surpreendia os teólogos do templo com a sua sabedoria. Ainda neste capítulo o autor trabalha as duas naturezas de Cristo.

Naturalmente, quando Jesus estava no templo, os mestres não sabiam que estavam recebendo Deus encarnado. Mas reconheceram que estavam dialogando com um jovem extraordinariamente dotado. Lucas nos diz que "muito se admirava da sua inteligência e das suas respostas" (Lucas 2.47 NVI). Por que extasiados, maravilhados? Qual era a causa? A convicção da Igreja é que em Jesus nós encontramos aquele que é o Deus homem. Isto é, confessamos que Jesus era vere homo (verdadeiramente homem) e vere deus (verdadeiramente Deus). [p.42]

Ora, é possível que o que surpreendeu os mestres no templo tenha sido mesmo uma mostra de conhecimentos sobrenaturais que o menino Jesus recebeu de sua natureza divina. Mas não é necessário apelar ao divino que havia em Jesus para explicar sua habilidade de extasiar os doutos professores. Isso ele pode ter feito somente pela força de sua perfeita humanidade. [p.44]

Concluímos, então, que essa narrativa sobre Jesus impressionando os mestres no templo revela a glória de sua identidade, de sua missão e, mais claramente, de sua perfeita natureza humana. [p.47]


4. GLÓRIA À MARGEM DO RIO – Para mostrar a Glória de Cristo, primeiramente, o autor trabalha todo o ministério profético de João, o Batista.

Esta é a chave para se entender o batismo de Jesus. Ele se submeteu a um batismo para cumprir toda a justiça, isto é, para fazer tudo que Deus exige. Através do comando profético de João Batista, Deus havia acrescentado uma nova exigência para seu povo da aliança, ou seja, que fossem lavados em preparação para a vinda do reino. Qualquer coisa que fosse exigida de Israel seria exigida do Servo de Israel, que o faria pela nação. Jesus, como Cordeiro de Deus, suporta toda a carga de seu povo, incluindo a exigência do batismo. Para Jesus se tornar nossa justiça, ele tinha de cumprir todos os mandados de Deus.

Aqui no Jordão vemos sua humilhação na disposição de se submeter ao batismo. Contudo, o ato não fica sem um momento subsequente de glória: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.16,17).

Os leitores atuais passam por cima deste relato como se fosse apenas uma nota de acréscimo ao batismo de Jesus. Contudo, o que ocorreu ali foi de importância esmagadora. Com o batismo de Jesus, houve uma abertura do próprio céu. Um sinal visível da glória dele foi dado na forma de uma pomba que descia. Acrescenta-se a isso a voz audível de Deus. Imagine só a reação dos espectadores. Só três vezes o Novo Testamento registra que Deus falou audivelmente. O batismo de Jesus marca um ponto decisivo em sua vida. Agora ele deixa a oficina de carpintaria para assumir as responsabilidades de seu ministério terreno. [p.58]


5. GLÓRIA NO DESERTO (PARTE 1) – Com o propósito de mostrar a Glória de Cristo no deserto, nesta primeira parte, ele mostra o contraste entre Adão e Jesus.

A tentação de Cristo não foi uma charada vazia. Toda a força do inferno estava mobilizada contra a natureza humana de Jesus. Em sua natureza humana, ele sofreu sob o peso da fome, da solidão e todos os outros perigos do deserto. Para termos um retrato da severidade da prova dada a Jesus, observar alguns contrastes entre a experiência dele e a de Adão pode nos ajudar.

O lugar da provação de Adão foi o Éden, um paraíso, um jardim verdejante, com belo ambiente e comida abundante. Adão foi testado com o estomago cheio; Jesus foi testado em meio a um longo jejum.

Adão tinha a Eva. Adão e Eva foram sujeitos ao assalto do mal contra eles enquanto tinham um ao outro em quem encontrar apoio. Jesus enfrentou sozinho o tentador.

Outro contraste entre o primeiro Adão e o Segundo Adão foi a ausência e a presença do costume de pecar. Quando Adão e Eva foram testados, não havia o clima cultural de pecado. Não existia pecado nenhum. Era um ambiente cultural de pureza original. Quando Jesus entrou em sua tentação, ele o fez em um mundo acostumado ao pecado.

A missão quê Jesus recebeu foi de alcançar a obediência perfeita. Nada menos seria suficiente, se era para ele se qualificar como o Cordeiro sem defeito. Quando a carta aos Hebreus declara que "não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas" está nos fazendo lembrar que nosso Salvador foi submetido a uma tentação muito real. Jesus sentiu a força do assalto de Satanás nas profundezas de sua humanidade. [p.67-69]


6. GLÓRIA NO DESERTO (PARTE 2) - Neste capítulo, o autor trabalha o assalto de que Satanás se utilizou para atrair Jesus. Desenvolve uma teologia sobre Satanás e tentação.

Satanás apela à Escritura e sugere que Jesus prove que as Escrituras são verdadeiras, colocando-as sob teste. E quando Jesus repreende Satanás por colocar Escritura contra Escritura. Satanás sugeriu um método de verificar a veracidade da Bíblia usando meios não permitidos na Palavra de Deus. Satanás retoma de novo à questão de Jesus ser Filho de Deus: “Se tu és o Filho de Deus...” Jesus se recusou a comprometer a Escritura. Ele viveu seu próprio ensino de que a Escritura não pode ser transgredida.

Jesus também nos dá uma lição de hermenêutica. Ele não quis nada com uma interpretação bíblica que considerasse um único trecho à parte do todo. Ele não interpretaria um trecho da Escritura de maneira a colocá-la em conflito com outro trecho.

Com a vitória de Jesus na terceira tentação, Satanás deixou-o sozinho, pelo menos por um tempo. Mateus nos oferece o acréscimo de uma informação maravilhosa; “Com isto, o deixou o diabo, e eis que vieram anjos e o serviram” (Mt 4.11). Satanás acabara de tentar a Jesus para provar que anjos viriam cuidar dele numa crise. Nenhum anjo esteve visível durante a tentação. Contudo, uma vez vencida a tentação, os anjos se manifestaram e assistiram às suas necessidades. Seu momento de triunfo sobre o assalto de Satanás foi unido a um momentâneo sabor de glória, indicado pela presença dos anjos ministradores. O Filho de Deus foi alimentado e confortado. Ele estava agora pronto para embarcar no seu ministério terreno. [p.80]


7. GLÓRIA NO CASAMENTO - Neste capítulo, o autor trabalha o papel que os milagres desempenham e qual o seu propósito. Ele afirma, que: O principal objetivo dos milagres na Bíblia é indicar o selo de aprovação de Deus sobre seus mensageiros. O milagre certifica uma pessoa como sendo agente genuíno da revelação. [p.83]

Em seu Evangelho, João usa a palavra "sinais" para indicar os milagres de Jesus. A palavra em si chama atenção para o objetivo dos milagres. Os milagres são chamados de sinais porque significam algo. Eles apontam para além das obras em si em direção a alguma outra coisa, alguma coisa bem maior. Os sinais de Jesus apontam para a verdadeira identidade de Jesus. O primeiro sinal foi no casamento em Caná. (Jo 2.1-11) [p.85]

João resumiu o evento com uma observação importante: “Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (Jo 2.11). João declara que nesse primeiro sinal algo foi revelado ou manifestado sobre Jesus. A palavra usada aqui significa "tornar claro, tomar visível”. Aquilo que estava oculto agora fica à mostra abertamente. O que foi revelado foi a glória de Jesus. Novamente observamos por que João usou a palavra "sinal" para descrever os milagres de Jesus. Essas obras não eram só miraculosas; eram reveladoras. Elas apontavam além de si mesmas para a glória daquele que as realizava. [p.87-88]


8. GLÓRIA NA CONFISSÃO – Nesse capítulo, como todos os demais, o autor sempre faz uma exposição de tema importante da fé cristã. Aqui ele vai falar sobre o significado de termos, tais como Filho do Homem, Messias e Ungido.

A experiência que Jesus teve em Cesareia de Filipe foi um momento decisivo para o ministério e também foi um evento pivô para seus discípulos. A confusão reinava quanto a sua verdadeira identidade. Em Cesareia de Filipe ele fez uma pergunta de peso aos discípulos: "Quem diz o povo ser o Filho do homem?" (Mt 16.13). A forma com que Jesus coloca essa pergunta é não usual. Ao indagar quais os pontos de vista populares sobre sua identidade, Jesus usa sua autodenominação preferida. Ele não pergunta meramente: Quem dizeis que eu sou?" — Ele acrescenta à pergunta as palavras "o Filho do Homem". Ao identificar-se como o Filho do Homem, Jesus estava afirmando que ele era um ser celestial. Quem mais tarde subiria ao céu foi quem primeiro desceu do céu. O Filho do Homem é uma figura de glória (Dn 7.13-14). Ele chega ao Ancião de dias com as nuvens celestiais de glória. A ele é dada a glória junto com um domínio eterno e um reino inconquistável. O Filho do Homem é o pro metido Rei da Glória do Antigo Testamento. [p.94-95]


9. GLÓRIA NA MONTANHA - É provável que, de toda sua vida, o mais deslumbrante irromper da glória de Cristo tenha ocorrido no Monte da Transfiguração (Mateus 17.1-3). A não ocultação da glória foi testemunhada apenas por três dos discípulos. Pedro, Tiago e João. O texto diz que Jesus foi "transfigurado". O autor divide esse fenômeno em três etapas principais.

a) A Transfiguração: Os escritores do Evangelho dão uma narração viva daquilo que foi visto pelos discípulos. "Seu rosto resplandecia como o sol." Tanto Lucas como Mateus registram que o rosto de Jesus começou a brilhar. Mateus compara o fulgor do brilho com a intensidade do sol. Aqui o Logos divino encarnado manifesta sua própria glória. O que João disse que "vimos" não foi glória refletida, como no caso de Moisés, mas a glória própria do Verbo. João fala da glória do "Unigênito do Pai" - esse "Unigênito" coloca Cristo numa classe à parte. [p. 103-105]

b) O aparecimento de Moisés e Elias conversando com Jesus: Na transfiguração, Moisés e Elias apareceram conversando com Jesus. Os dois são significativos não só por causa do caráter misterioso de suas respeitáveis partidas deste mundo, mas pelo papel que cada um desempenhou no Antigo Testamento. Moisés foi o mediador da Antiga Aliança como Jesus é o Mediador da Nova Aliança. Elias, foi um dos mais importantes de uma longa sucessão de profetas do Antigo Testamento. Moisés e Elias juntos representam a Lei e os Profetas. No Monte da Transfiguração, a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) testemunharam a própria encarnação e personificação do evangelho. [p.108-109]

c) A voz do céu: Os discípulos, então, foram de repente envolvidos pela nuvem da glória de Deus. É bem provável que enquanto estiveram encobertos pela nuvem nada puderam ver senão a refulgência que os envolvia. Nessa situação aterrorizante, a experiência sensorial ultrapassa a visual, passando à auditiva. Eles ouvem agora a voz de Deus o Pai. Assim como Deus falou do céu no batismo de Jesus, assim fala agora novamente, declarando que Jesus é seu Filho amado. Com a declaração vem uma ordem, um imperativo divino: "A ele ouvi". Chegou ao fim esse momento soberano do irromper da glória divina. Terminou a transfiguração pela qual tinha sido ultra passada a divisória entre o finito e o infinito, o temporal e o eterno, o natural e o sobrenatural. Mas a lembrança ficou. Jesus mais uma vez teve de instruir os discípulos a guardarem o assunto em segredo até quando pudesse ser contado: "A ninguém conteis a visão, até que o Filho do homem ressuscite dentre os mortos" (Mt 17.9). [p.111-112]


10. GLÓRIA NA ENTRADA TRIUNFAL – Neste capítulo, o autor trabalha o aspecto profético de Jesus entrar em Jerusalém montado em jumento e o uso da aclamação “Hosana”.

Lucas nos diz que enquanto Jesus entrava na cidade ao som das boas-vindas do povo, seu próprio espírito não era de festa. Quando viu a Cidade Santa, chorou sobre ela e pronunciou um oráculo profético de condenação (Lc 19.41-44). No momento exato em que as multidões o aclamavam como aquele que vem de Deus, Jesus estava consciente de que eles não entenderam na realidade quem ele era, nem o que sua missão compreendia. Ele sabia que sua tarefa redentora ainda continuava oculta aos olhos deles. Eles celebravam a paz, mas nada entendiam do sentido de paz. Para que se estabelecesse a paz suprema, era preciso que Jesus morresse como expiação pelos pecados de seu povo. O Rei de Israel chegara em Jerusalém. O Filho de Davi tornara assunto público sua posição messiânica. As boas-vindas iniciais das multidões foram entusiásticas. Entretanto, o choro de Jesus foi um presságio daquilo que logo aconteceria. Depressa se aproximava a Páscoa e o Cordeiro Pascal estava sendo preparado para ser morto. [p.124-125]


11. GLÓRIA NO CENÁCULO – Neste capítulo o autor trata das duas Alianças (antiga e a nova aliança) e mostra como Jesus, no cenáculo fez a transição de uma para outra. Trabalha o ensino de Jesus sobre o Espírito Santo e a glorificação de Cristo na oração sacerdotal.

O autor afirma que João registra a longa "oração sacerdotal" de Jesus. Na essência dessa oração está o tema da glorificação. A "hora" de Jesus finalmente havia chegado e tomou-se o ponto focai de sua prece (Jo 17.1-5; 20-24). A oração de Jesus trata da glória recíproca. Ele pede diretamente ao Pai que glorifique o Filho. O objetivo do pedido, entretanto, não é buscar seus próprios interesses. O objetivo está claro: que o Filho possa também glorificar o Pai. Jesus, portanto, não está pedindo que algo novo lhe seja acrescentado. Ele pede que lhe seja restaurado aquilo que possuía desde a eternidade. Essa glória eterna tinha ficado encoberta, voluntariamente oculta do público, durante sua encarnação. Sua obra messiânica está prestes a ser completada. Ele olha além da sombra da cruz que se avoluma à sua frente e vê o retomo ao reino da glória do qual viera. Jesus não ora só pela restauração de sua própria glória; ele ora pedindo que aqueles que são dele possam compartilhar na presença de sua glória. Jesus não orou só pelos discípulos que andaram com ele na terra, mas também orou por nós e por todos aqueles que o recebem sinceramente através do testemunho dos apóstolos. [135-136]


12. GLÓRIA NA CRUZ - A morte de Cristo foi tanto uma propiciação como uma expiação pelo pecado. Propiciação significa desviar a ira através de oferta. A ira de Deus foi satisfeita. Sua justiça é cumprida através do sacrifício. Expiação refere-se a cobrir pecados. Pela expiação, nossos pecados são removidos. A expiação satisfaz tanto às demandas do Pai como às necessidades do povo de Cristo. O fato de se realizar tal transação dupla através de uma só Pessoa, em um só evento, é uma questão de glória eterna. [p.142-143]

Na cruz, Jesus não só recebe a maldição de Deus, como torna-se a maldição. Ele é a personificação da maldição. Todos os cursos de maldição convergem sobre Jesus, em seu julgamento e sua morte. Seu julgamento e sentença vieram dos romanos depois que os judeus o tinham mandado "para fora do arraial". Ele morreu pela crucificação, o método romano de execução. Se ele tivesse sido executado sob a lei judaica, ele teria sido apedrejado. Como Paulo observa, citando Deuteronômio, corpos pendurados em árvores eram tidos como contaminados e amaldiçoados. A forma da morte de Jesus, portanto, era amaldiçoada pela Lei dos judeus. [p.150-151]

Onde está a glória em tudo isso? Para Jesus, naquele momento, não havia nenhuma. Mas para nós foi o momento máximo de toda a história do mundo. Em um só momento, o momento no tempo que conteve a mais plena expressão da ira e do juízo divino foi também o momento da expressão máxima de sua gloriosa graça. A justiça do evento é visível no fato de o pecado não ter sido tratado com tolerância, mas com castigo completo e real. A graça é visível no fato de que o castigo foi suportado por um substituto que Deus mesmo providenciou. [p.152]


13. GLÓRIA NA RESSURREIÇÃO - Na cruz Jesus alcançou o ponto mais baixo, o nadir de sua humilhação. A questão que se costuma colocar é: Qual o ponto exato entre a humilhação e a exaltação? A resposta mais frequente que ouvimos para esta questão é: a ressurreição.

As circunstâncias do sepultamento de Jesus apontam para uma transição da humilhação à exaltação. Normalmente, os corpos dos criminosos executados ou ficavam na cruz para ser devorados por abutres ou eram jogados displicentemente no Geena, o depósito de lixo fora de Jerusalém. O Geena servia, para os judeus, como símbolo apropriado do inferno, porque era um lugar de fogo perpétuo. O lixo que ia sendo acrescentado com regularidade ao depósito estava continuamente sendo queimado para que a quantidade diminuísse. Então, o depósito de lixo estava sempre, pelo menos, fumegando. Intercederam pelo corpo de Jesus, para que não sofresse a indignidade de ser jogado nesse monturo (Jo 19.38-42)

A quantidade de aromas que Nicodemos trouxe para ungir o corpo de Jesus foi exagerada. Ela era apropriada para o sepultamento de alguém da realeza. Essa iniciativa, analisada junto com a qualidade do sepulcro, chama a atenção para o cumprimento da profecia de Isaías (Is 53.8-9)

A força desse texto é o fato de que o Servo Sofredor de Israel morreria na companhia dos maus, mas por causa de sua inocência seu túmulo seria com os ricos. A riqueza do sepultamento de Jesus marca uma transição clara da humilhação à exaltação. Tanto Pedro, no dia de Pentecostes, como Paulo, em um sermão em Antioquia, fizeram referência à promessa do Antigo Testamento de que Deus não permitiria que seu Santo visse a corrupto (At 13.34-37) [p.157-159]


14. GLÓRIA NA PARTIDA - Neste capítulo a ênfase do autor é a Ascensão de Cristo. Na ascensão o autor enfatiza três pontos que muito me chamou a atenção: o legado de Jesus, sua função de rei, intercessor e advogado.

O autor escreve: As igrejas cristãs celebram o Natal, a Sexta-Feira Santa e o Domingo da Páscoa. Algumas igrejas também comemoram o Pentecostes. Mas poucas igrejas protestantes dão atenção à comemoração da ascensão de Jesus. Provavelmente, isso reflete uma compreensão inadequada da importância do evento. Em certo sentido a ascensão é o ponto culminante do ministério terreno de Jesus e merece ser colocado no mesmo plano da Sexta-feira Santa, Páscoa e Pentecostes. [p.173]

Continua: Assim como é impensável contemplar a crucificação sem uma ressurreição, também é impensável haver uma ressurreição sem uma ascensão. Se não houvesse existido uma ascensão, não teria existido uma exaltação digna de Cristo. Ele não teria recebido a glorificação prometida pelo Pai. Sem a ascensão, não existiriam o Pentecostes nem a Segunda Vinda. [p.174]

Conclui: Havia algo exclusivo, nunca experimentado antes por aqueles que subiram ao céu. A Ascensão de Jesus foi diferente da ida de Enoque e Elias, por exemplo. Jesus indicou isso em um de seus ensinos: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do homem” (Jo 3.13). Nessa conversa com Nicodemos, Jesus fez menção da qualidade singular de sua ascensão. Outros subiram ao céu, mas ninguém ascendeu no sentido especial em que ele iria. Só aquele que desceu do céu estava qualificado a ascender no sentido especial da palavra. A palavra ascender aqui significa mais do que simplesmente “subir”. Essa é uma; referência especifica para subir a um lugar específico, para fazer uma tarefa específica. Jesus ascendia ao lugar onde seria entronizado como Rei dos reis e Senhor dos senhores. Ele seria colocado à direita do Pai na posição de autoridade cósmica. [p.178-180]


15. GLÓRIA NA VOLTA – O assunto deste capitulo a Segunda vinda de Cristo. Aqui, o autor trabalha todo o aspecto teológico que envolve o arrebatamento da Igreja.

Nenhum de nós foi testemunha ocular das manifestações da glória de Cristo que já estudamos tanto. Todas elas ocorreram há séculos, na distante Palestina. O público desses vislumbres de esplendor consistiu de grupos pequenos de pessoas. Mas demonstração mais magnificente de glória, ainda está por acontecer. Quando ocorrer, será vista por bilhões. Embora o primeiro advento viesse com um pequeno vislumbre da glória, o segundo aparecimento de Jesus será acompanhado de glória em proporções cósmicas. Os sinais visíveis que acompanharão a volta de Jesus são mencionados no Discurso do Monte das Oliveiras. (Mateus 24.27-31) [p.191]

Os fenômenos que aparecerão no céu, na volta de Cristo, são descritos com imagens que foram buscadas no Antigo Testamento. Para aqueles que persistem em não crer, o dia da volta de Cristo será ocasião de grande choro. Mas, para aqueles que o amam, será ocasião de glória. Outra vez, as nuvens de glória serão o veículo que o transportará. [p.192]

Os sons da vinda de Cristo vão incluir uma forte "palavra de ordem", a voz de um arcanjo e o chamado da trombeta de Deus sons característicos de uma proclamação importante. Será como se um alto falante celestial convocasse a terra para prestar atenção. Como o shofar, o chifre de carneiro, era tocado no Israel do Antigo Testamento para convocar a nação a uma assembleia solene e como trombetas eram usadas pelos guerreiros romanos para chamar as tropas à batalha, assim a terra ouvirá a proclamação do alto, para avisar a entrada de Cristo, o Rei. Há pessoas que acreditam que a volta de Cristo incluirá um arrebatamento secreto dos crentes (essa teoria compreende duas voltas distintas de Cristo). A Bíblia indica, entretanto, que seu aparecimento será o segredo mais mal guardado da história. Será um aparecimento público, preparado por maravilhas astronômicas e um glorioso aviso que parte do próprio reino da glória. [p.193]


16. GLÓRIA NA ESTRADA DE DAMASCO – Neste último capítulo, o assunto é sobre a forma com Cristo manifestou a sua glória na conversão de Saulo de Tarso.

O autor escreve: A transformação de Saulo em apóstolo Paulo foi obra de pura graça soberana. A glória que Jesus revelou a Saulo foi retida de Pilatos e Caifás. Saulo não podia apontar a nenhum mérito próprio como motivo dessa visitação da graça. Paulo, conforme seu próprio testemunho, foi o principal dos pecadores. Cristo não esperou que Saulo lhe inclinasse a alma ou se arrependesse antes de se manifestar a ele. Que outros discutam sobre a doutrina da graça irresistível. Paulo não a debateu. Ele foi remido por essa graça. Ele sabia que a graça que ele recebera naquele momento era completamente imerecida e que foi, para ele, irresistível. Como resultado desse encontro, Saulo ficou cego. Existe entre os homens a cegueira para a glória de Cristo. A cegueira de Paulo foi efeito da glória de Cristo. (Atos 9.6-9)

Depois disso, o Senhor apareceu a Ananias e deu-lhe instruções para a cura de Saulo (Atos 9.10-19). Nas instruções que deu a Ananias, Cristo declarou que Paulo era seu instrumento escolhido. Ele escolheu Paulo para ser a principal testemunha aos gentios. Quando Ananias impôs as mãos sobre Saulo, sua vista foi restaurada. Ele ficou cheio do Espirito Santo e capacitado para o ministério que lhe esperava. Depois de Paulo contar ao rei a experiência de sua conversão e de sua ordenação ao apostolado, ele declarou: "não fui desobediente à visão celestial". Essa é a declaração que todo cristão deseja fazer no final da sua vida. Essa é a resposta apropriada à manifestação da glória de Cristo. (At 26.16-19) [p.206-208]


Para concluir, o que temos neste livro é o relato de um encontro com a majestade do Senhor dos senhores. Sabemos que ele foi um bom mestre. Filho de carpinteiro, gentil com as mulheres, amável com as crianças, compassivo com enfermos, cegos e aleijados. Mas precisamos lembrar que ele é o verdadeiro Deus, Rei dos reis, Senhor dos Senhores, o glorioso Filho de Deus. A glória de Cristo inspira temor e adoração.

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quinta-feira, 1 de agosto de 2019

40 DIAS COM OS VINGADORES [Resenha]


MEDEIROS, Eduardo. 40 dias com os vingadores. São Paulo, SP: Editora 1005 Cristão, 2019.


PREFÁCIO – Richarde Guerra

Eles foram chamados em seu lançamento de “Os Heróis mais poderosos da Terra” – e o mais interessante é que o grande poder deles não era a força, a inteligência ou a capacidade de ficarem gigantes. O poder deles se manifestava não nas habilidades individuais das quais cada um poderia desenvolver, mas a novidade era a descoberta de que poderiam fazer ainda melhor juntos. Os vingadores nasceram de uma grande crise que exigiu um esforço conjunto de unidade e estratégia – para quem não sabe, quem batizou a equipe foi a mais singela integrante, a Vespa. Com o passar do tempo, essa equipe de desajustados foi perdendo e ganhando integrantes, mas sempre ensinando a mesma lição: somos tão fortes enquanto formos unidos. A equipe criada por Stan Lee e Jack Kirby até hoje fez o imaginário de varias gerações, e cada pessoa desenvolveu um afeto pelo seu integrante favorito: o arrogante Tony Stark, ou o deslocado Steve Rogers, e até mesmo o impulsivo Thor. Mas o que faz a alegria da galera é no momento em que a coisa fica feia, e eles tem que colocar suas diferenças de lado para juntos salvarem o mundo mais uma vez. É inegável o potencial que esta mitologia moderna tem de nos inspirar e refletir sobre verdades da palavra. E ninguém melhor que meu precioso colega de escrita Eduardo Medeiros, autor do Best-seller “Devocional Pop”, para explorar todo potencial temático que esta neste devocional em suas mãos. Aqui você vai ter a rara oportunidade de experimentar as verdades eternas aliadas aos seus heróis favoritos da casa das ideias. A partir de suas qualidades e defeitos, vamos aprender o que a Palavra fala a respeito de cada um deles, para cada um de nós. A minha oração é que o Senhor Jesus possa falar muito com você durante esses quarenta dias de aventuras e descobertas.


PROPÓSITO - Eduardo Medeiros (Autor)

O autor deste magnifico devocional apresenta três argumentos para mostrar a importância e propósito.

O propósito central deste Devocional é trazer ao leitor, diferentes assuntos da teologia prática e da vida cristã ao longo de sua prática devocional. A ênfase da teologia que envolve cada dia de estudo é a interdenominacional. Ou seja, não consideramos a doutrina ou privilegiamos determinada denominação cristã, mas construímos um texto que pode ser utilizado tanto por protestantes reformados, quanto por pentecostais. Esta experiência surgiu ao longo dos últimos anos de trabalho como professor de teologia para cursos que atendem todas as denominações protestantes, e até mesmo lecionando para alunos não cristãos dessas instituições.

Utilizamos diferentes autores e materiais para construir os 40 textos que compõem este Devocional e a nossa expectativa é que você mergulhe nestes textos com a mesma intensidade que nós mergulhamos quando escrevemos. Embora todos os textos tenham início, meio e fim, o conjunto desta obra aponta para a Soberania de Deus sobre a humanidade, que deve aproveitara graça que lhe foi dada através do sacrifício, morte e ressurreição de Jesus Cristo com responsabilidade. Devemos compartilhar estas boas notícias com todas as pessoas com as quais tivermos uma oportunidade! Por causa Dele, temos a possibilidade da vida eterna e, por isso, doemos lutar todos os dias de nossa vida, levando outros a este encontro por meio do arrependimento genuíno de pecados.

Esta obra está pautada em três premissas básicas, mas muito importantes no contexto bíblico, e explicaremos rapidamente a respeito de cada uma delas.


1. O PAPEL DA CULTURA SECULAR NO REINO DE DEUS

No Novo Testamento temos um interessante diálogo entre o apóstolo Paulo e os intelectuais gregos, no Areópago em Atenas: “Então Paulo levantou-se na reunião do Areópago e disse: "Atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos, pois, andando pela cidade, observei cuidadosamente seus objetos de culto e encontrei até um altar com esta inscrição; AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio” Atos 17:22-23.

Paulo passa um período em Atenas aguardando pela chegada de Silas e Timóteo, que haviam permanecido em Beréia. Ele fica indignado com a idolatria na cidade e, no texto acima, descobre que um dos deuses do panteão grego poderia ser usado para pregar o Evangelho de Cristo. Através de um elemento da cultura local, o apóstolo atingiu o cerne da mensagem da Salvação para aquele povo. O final da sua pregação mostra que, embora alguns tenham zombado dele. outros ficaram intrigados com sua metodologia e desejaram ouvir a Paulo mais uma vez.

Por muitas décadas, os cristãos entregaram o controle, o domínio e o governo de diversas áreas da sociedade ao nosso inimigo. Uma frase típica que ouvimos por muito tempo era que “a política, o dinheiro e a TV são do diabo", demonstrando uma tendência que predominou na igreja brasileira até pouco tempo atrás. Hoje percebemos o resultado deste desinteresse ou falta de entendimento de que o Reino de Deus é muito mais amplo do que as paredes de nossas igrejas locais. A política mergulhada em um caos moral, a programação televisiva transmitindo princípios contrários à Palavra de Deus, e o medo de que os jovens se desviem durante a faculdade levou às posições de influência e cargos de chefia as pessoas que não entendem sobre sabedoria bíblica para liderar pessoas.

Graças a Deus este cenário está mudando, pois temos visto em nosso presente tempo diversos movimentos surgindo, caminhando na contramão deste pensamento. Jovens entendendo que seu chamado é muito maior do que apenas serem salvos da condenação eterna, mas que devem fazer a diferença em sua faculdade trabalho e família. É tempo de restabelecer senhorio de Cristo em nossa sociedade com inteligência e sabedoria. E não mais através de palavras, mas de atitudes que representem o Reino pelo qual trabalhamos como embaixadores.

Acredito ser importante aproximar o Evangelho da sociedade em que estamos inseridos, sem abrir mão dos princípios bíblicos. Esse é um exercício que demanda criatividade e pesquisa, pois é necessário procurar entender o tempo e á cultura em que vivemos. Este livro é uma tentativa de mostrar a possibilidade de aliar aquilo que as pessoas consomem como entretenimento, mas aplicando princípios do Reino Deus. A Cultura não precisa ser inimiga da igreja, quando utilizada em nosso favor com critérios.


2. METODOLOGIA DE ENSINO DE CRISTO

O segundo preceito diz respeito a um recurso didático muito utilizado por Jesus Cristo em Seu ministério terreno, as Parábolas. Gosto muito de uma definição que ouvi certa vez a respeito: ao usarmos uma parábola ou uma alegoria, trazemos conceitos complexos do Reino de Deus para perto das pessoas. Eu separei alguns textos que mostram a importância que Ele dava a estas práticas: “Jesus falou todas estas coisas a multidão por parábolas. Nada lhes dizia sem usar alguma parábola” (Mateus 13:34); “Ele lhes ensinava muitas coisas por parábolas, dizendo em seu ensino” (Marcos 4:2); “Com muitas parábolas semelhantes Jesus lhes anunciava a palavra, tanto quanto podiam receber” (Marcos 4:33).

A sociedade de Jesus no século I era essencialmente agropastoril, portanto, os trabalhadores estavam acostumados a lidar com o campo e com os animais. Cristo os ensinava com elementos que qualquer um dos lavradores, pastores e pescadores conheciam. Por exemplo, uma ovelha perdida, um grão de mostarda, uma moeda, entre outros. Concordo com a premissa de que quanto mais sábio um ser humano é, mais ele consegue traduzir o que precisa ensinar através das mais diversas estratégias, de maneira a ser entendido por aqueles que o ouvem ou leem. Jesus é a Sabedoria encarnada, por isso sua estratégia de ensino era tão eficiente.

Muitos jovens de nossos dias não conhecem um grão de mostarda ou quanto valeria um talento, mas com certeza conhecem o Capitão América, o Homem de Ferro ou o Hulk. Partindo desta ideia, procuramos atualizar o conceito das parábolas para a realidade da juventude do século XXI.

Desta forma, utilizamos o mesmo recurso didático que o Mestre usou, escrevendo parábolas contemporâneas para oferecer uma nova roupagem aos textos bíblicos.


3. APRENDIZAGEM DO LEITOR

Alguém disse certa vez que o ignorante aprende errado, o inteligente com os próprios erros e o sábio com os erros dos outros. Neste sentido tudo em nossa vida é um grande aprendizado. Podemos aprender bons princípios com heróis e podemos aprender o que não devemos fazer quando observamos a conduta dos vilões. De uma maneira, ou de outra, estamos aprendendo.

Esta maneira de enxergar a vida como um grande aprendizado é simplesmente libertadora, pois entendemos que tudo em nossa vida acontece com um propósito de levar ao crescimento e ao amadurecimento. Por Isso, melhor do que excluir ás experiências negativas que tivermos ao longo de nossa caminhada, devemos aprender com elas e seguir em frente, pois conforme o autor de Eclesiastes: “Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu” Eclesiastes3:1.


Estes três elementos: O Papel da Cultura Secular no Reino de Deus, a Metodologia de Ensino de Jesus e a possibilidade de Aprender com diferentes experiências, explicam o mecanismo teórico no qual nos baseamos para a escrita deste livro.

Minha oração é que você encontre muito mais que histórias nas página [deste livro], mas ferramentas úteis para uso em sua vida cristã. Aplique cada texto em sua vida, para que você não se reconheça mais ao término desta leitura, por causa da transformação de vida que você experimentará nestes 40 dias. Espero que você esteja preparado ou preparada para a jornada que se inicia diante de seus olhos! Que ao término deste livro, quando nos reencontrarmos daqui a 40 dias, você esteja diferente, através da transformação e renovação da sua mente. “Todavia, como está escrito: “Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Coríntios 2:9).


O CONTEÚDO

Dia 1 – Capitão América
Dia 2 – Homem de Ferro
Dia 3 – Hulk
Dia 4 – Thor
Dia 5 – Viúva Negra
Dia 6 – Gavião Arqueiro
Dia 7 – Pantera Negra
Dia 8 – Nick Fury
Dia 9 – Homem Aranha
Dia 10 – Doutor Estranho
Dia 11 – Mercúrio
Dia 12 – Feiticeira Escarlate
Dia 13 – Visão
Dia 14 – Homem Formiga
Dia 15 – Vespa
Dia 16 – Maquina de Combate
Dia 17 – Falcão
Dia 18 – Capitã Marvel
Dia 19 – Soldado Invernal
Dia 20 – Agente Coulson
Dia 21 – Senhor das Estrelas
Dia 22 – Groot
Dia 23 – Drax
Dia 24 – Mantis
Dia 25 – Gamora
Dia 26 – Nebulosa
Dia 27 – Rocket
Dia 28 – Heimdall
Dia 29 – Valquíria
Dia 30 – Korg
Dia 31 – Pepper Potts
Dia 32 – Shuri
Dia 33 – Hidra
Dia 34 – Caveira Vermelha
Dia 35 – Hela
Dia 36 – Ronan, o acusador
Dia 37 – Loki
Dia 38 – Ultron
Dia 39 – Thanos
Dia 40 – Stan Lee

No final do temos o que o autor chamou de “Dossiê Vingadores”. Esse dossiê traz as seguintes informações: Os criadores do personagem, quando foram que os mesmos apareceram nos quadrinhos, qual o nome verdadeiro, a religião, as armas que utilizam e quais os poderes e habilidades. Como trata-se de um arquivo ultrassecreto, você vai ter que comprar o livro para saber tudo sobre o seu herói ou vilão preferido.

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