terça-feira, 14 de agosto de 2018

AS COISAS DA TERRA: ESTIMAR A DEUS AO DESFRUTAR DE SUAS OBRAS [Resenha]


RIGNEY, Joe. As Coisas da terra: Estimar a Deus ao Desfrutar de Suas Obras. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2017. 288p.


O livro está dividido 12 capítulos recheado de assuntos palpitantes, trazendo a nossa mente de que toda boa dádiva vem das mãos do Pai, de que as bênçãos de Deus devem levar-nos à adoração e à generosidade e de que a paixão pela glória de Deus é tão grande quanto o mundo. E cada um desses assuntos é traduzido para o leitor com uma capacidade didática muito inteligente.

O livro é rico em citações de nome de autores que fazem a história da teologia protestante. Embora Joe Rigney informa que a teologia de Jonathan Edwards moldou o seu pensamento, que C. S. Lewis aparece em quase metade de um dos capítulos deste livro e que Douglas Wilson é o responsável pela “centelha da ideia deste livro” [p.31], o que observamos é que lista de nomes citados é bem maior do que esta – Agostinho, John Piper, Spurgeon e para quem gostou do livro “Notas da xícara maluca”, Rigney faz citação de N. F. Wilson. Temos ainda J. R. R. Tolkien, Calvino, Chesterton e muitos outros.


Vamos à análise de cada capítulo deste maravilhoso livro.


CAPÍTULO 1 - O primeiro capítulo chama-se “A glória do Deus trino” e toda a ênfase recai sobre o tema da Trindade. Esta doutrina que para muitos é um tema altamente complexo, aqui ela é examinada com muita precisão e de forma muito didática. O autor expõe essa doutrina por meio de dois modelos teológicos. O modelo psicológico é baseado no pensamento de Agostinho e na teologia de Jonathan Edwards e sobretudo fundamentado no Evangelho de João. “Remontando a Agostinho e encontrando espaço considerável na teologia de Jonathan Edwards, ele sustenta que na divindade há Deus em sua existência direta (Pai), Deus como autorreflexo ou contemplação de si mesmo (Filho), e o amor de Deus e o gozo de si mesmo (Espírito Santo). Ou, mais uma vez, há Deus, a ideia de Deus de Deus, e o amor de Deus pela ideia de si mesmo” [p.40]. 

E o mais importante que isto é bíblico e demonstrado claramente no Evangelho de João. O modelo familiar é o modelo mais direto, pois a Bíblia o endossa explicitamente. “O modelo familiar nos ajuda a reconhecer a plena igualdade de cada pessoa da divindade, porque cada membro tem um papel importante e crucial a desempenhar na obra da redenção. O Pai escolhe um povo para si e envia o Filho. O Filho obedece ao Pai e realiza a obra que lhe foi dada, renunciando à própria vida a fim de comprar o povo de Deus. O Espírito é enviado pelo Pai e pelo Filho (Jo 14.16; 16.7), o penhor de nossa herança (Ef 1.14), e de fato consiste na soma de todas as boas dádivas que Deus comprou para nós (Mt 7.11; Lc 11.13)” [p.43].


CAPÍTULO 2 – Este capítulo chama-se “O autor e sua história” e Rigney explora o fato de como Deus se relaciona com a sua criação. As Escrituras ensinam que Deus criou o mundo ex-nihilo, do nada. Apenas falou e trouxe a criação à existência. Gênesis 1 enfatiza o poder de Deus na criação e João começa seu livro com o relato trinitário da criação. O modo perfeito de relacionar com sua criação é a sua “providência” Rigney escreve: “Deus não só criou o mundo do nada, no princípio, ele também sustenta do nada a cada momento de sua existência. Todas as coisas foram criadas pelo Filho de Deus (Cl 1.16), e tudo subsiste nele (Cl 1.17). Isso também acontece no momento da enunciação. “[Ele sustenta} todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.3). Se parasse de falar, o mundo deixaria de existir” [p.52].

Em seguida, somos conduzidos a um outro aspecto empolgante: A onipresença de Deus. Fundamentado neste atributo divino ele levanta a questão da soberania divina e liberdade humana e afirma: “A Bíblia faz pouco esforço para reconciliar a soberania de Deus e a responsabilidade humana. Apenas ensina de forma clara e farta que ambas são verdadeiras. Os autores bíblicos parecem ter a mesma mentalidade de Charles Spurgeon, que, quando questionado como reconciliava soberania e liberdade, dizia: ‘Nunca tento reconciliar amigos’” [p.55-56].

Neste capítulo, Rigney faz menção de um assunto complexo. A questão do mal no mundo criado por Deus. Pois, compreender o mundo como a história de Deus fornece categorias importantes para confrontar o problema do mal. Se o mundo é uma história, então a presença do mal é fundamentalmente um exemplo de tensão narrativa. Rigney, escreve: “Deste modo, podemos ver com mais clareza o raciocínio de Deus em permitir e ordenar a existência do mal. Deus ordena o mal pela mesma razão que Lewis criou a Feiticeira Branca – para que Aslam tivesse algo que vencer. O mal existe para que o bem possa triunfar. A morte existe para que possa ser lançada no inferno (Ap 20.14). E isso de maneira alguma minimiza a perversidade ou o horror do mal. Deus é soberano, e o mal é real” [p.63-64].

Este capítulo é concluído mostrando Deus como o autor, o protagonista e personagem principal da sua criação. E o entendimento disto começa com a auto revelação de Deus a Moisés em Êxodo 3. “Deus se revela de duas maneiras: Como EU SOU O QUE SOU (3.14) e como ‘Senhor’ (Yahweh) (3.15), o nome pelo qual será lembrado por todas as gerações” [p.65]. Pois bem, o nome Yahweh, destaca a relação de Deus com sua criação, a realidade de que ele é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó (Ex 3.15). O nome memorial de Deus vincula-o ao mundo que criou e particularmente com seu povo da Aliança. Ela é Yahweh, um Deus compassivo, clemente, longânimo e grande em misericórdia e fidelidade (Ex 34.6).


CAPÍTULO 3 – Criação como comunicação este é o tema deste capítulo. Rigney já começa mostrando o seu propósito: “Deus construiu um sistema de símbolos que comunica continuamente sua presença na natureza e na história. Ele [citando Jonathan Edwards] escreve: ‘Tipos são uma espécie de linguagem, por assim dizer, em que Deus costuma falar conosco’” [p.72]. Isso é muito reto, pois a própria Escritura nos manda ler o ‘mundo’ para termos entendimento. “Na verdade, a Escritura nos manda ler o mundo dessa forma. “Olhai as aves do céu” (Mt 6.26). “Olhai os lírios do campo” (Mt 6.28). “Vai ter com a formiga” (Pv 6.6). Há lições divinas nos campos e sementes, na areia e na rocha, nos odres e nas figueiras. Assim, devemos, como disse Calvino, procurar ler a criação com os espetáculos da Escritura” [p.72]. Contudo, este tipo de leitura só pode ser feito por um “nascido de novo” e uma “nova criatura”. As páginas das Escrituras transbordam de tipologias, analogias e metáforas criacionais para ajudar-nos a compreender o mistério glorioso e inefável do Deus Triúno. “Esta é a glória da realidade criada: um veículo adequado para comunicar a vida divina” [p.33].


CAPÍTULO 4 – Este capítulo discorre sobre o nosso papel neste grande drama. O que significa ser criatura, uma personagem no teatro de deus, chamado a existência do nada e de algum modo capaz de relacionar-se com o autor de maneira real, pessoal e profunda? Dito de outro modo, o que quer dizer ser criado a imagem de Deus? A criação do homem no livro de Gênesis é digna de consideração e atenção cuidadosa. Primeiro, Deus fez o homem com um corpo que sente para sentir prazer. Se observarmos, veremos que depois que criou o homem, “do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvore agradáveis à vista e boas para alimento.” Em seguida, Deus viu que algo em sua criação não estava bom – a solidão de Adão. No entendimento de Deus a solidão de Adão “era um defeito, e Deus em sua bondade age para remediar essa falta. Observe o seguinte: Deus age. Ele satisfaz a necessidade. Deus dá vida, ar e todas as demais coisas (incluindo a companhia). Mas, ele projetou-nos de tal modo que satisfaria alguma de nossas necessidades por meio de outras pessoas” [p.95]. Adão encontrou uma esposa. Encontrou algo bom. Este é um favor do Senhor, que deve ser expresso. O raio da glória de Deus acerta a sensibilidade dele, e ele (de forma lenta e proposital) rastreia o raio até sua fonte, provando a dádiva por causa do doador. Contudo precisamos entender que Deus deu ao homem todas as provisões não tão somente para o gozo e prazer. Todas as dádivas foram dadas para a missão. Rigney diz que ser feito a imagem e semelhança de Deus é uma vocação, algo que somos chamados a fazer e para ser.

“A vocação do homem corresponde a um papel triplo de sacerdote (que guarda o santuário e cuida dele trabalhando), rei (exercendo domínio sobre a criação como mordomo que se preocupa por manter a casa a funcionar de acordo com o planejado pelo grande proprietário que é Deus) e profeta (dando nomes às coisas através de uma obediência a Deus e conhecimento dele, juntando-se a ele na construção na cidade-templo). Os seres humanos têm um valor derivativo (na medida que a vida que têm lhes é dada por Deus) e inerente (na medida em que, quando Deus dá uma coisa, realmente a dá).”[1]

Reconhecer o valor bíblico da criação para nosso contentamento é para o cumprimento da missão divina é glorioso. Mas é precisamente o valor e a riqueza evidentes da criação que criam alguma das tensões sentidas quando chega o momento de valorizar a Deus. Pois se a criação é valiosa, então ela tem o potencial de tornar-se um substituto de Deus – em termos bíblicos, um ídolo [p.101].


CAPÍTULO 5 - O quinto capítulo chama-se “A solução evangélica da idolatria” e quer tratar da questão de como nós devemos relacionar com os dons de Deus. “Quando amamos Deus suprema e plenamente, somos capazes de integrar a nossa alegria em Deus e a alegria nos seus dons, recebendo os dons como dardos da sua glória” [pág. 99].

É interessante que o Rigney já no início do capítulo faz referência a uma das frases célebres de Calvino. Ele escreve: “É verdade que o nosso coração é uma fábrica de desejos projetada por Deus, mas o tonamos uma fábrica de ídolos, produzindo com rapidez a falsa adoração como se fosse o nosso trabalho” [p.111]. Calvino escreveu: “E não só isso, mas também que os seres humanos, quase que um a um, têm tido seus próprios deuses. Porque, como à ignorância e às trevas se adicionam a temeridade e a petulância, dificilmente um só se achou que não fabricasse para si um ídolo ou imagem no lugar de Deus... Do que é lícito concluir que o coração do homem é, por assim dizer, uma perpétua fábrica de ídolos” [2]

Rigney estabelece dois modos de ver o relacionamento de Deus com suas dádivas. A primeira é uma abordagem comparativa, em que Deus e suas dádivas são separados e colocados próximos um dos outros para determinar o que é mais valioso. Na visão comparativa, segundo Rigney, colocamos Deus num dos pratos da balança, e as dádivas dele no outro, para ver qual é mais pesado, valioso e glorioso. O que se observa, é que comparada a Deus, toda a criação não é senão pó. Uma vez que todo o sistema da criação é como nada e inexpressivo em comparação com o Criador infinitamente glorioso, se estamos pensando de forma comparativa, então devemos desejar só a Deus e não suas dádivas. Ele é digno de toda a consideração, todo o valor, amor, deleite e toda a afeição. Rigney agora traz a segunda abordagem: “quando amamos a Deus suprema e plenamente, como capazes de integrar nossa alegria em Deus e em suas dádivas, recebendo as dádivas como raios de sua glória. O amor supremo a Deus orienta nossas afeições, ordena nossos desejos e integra nosso amor” [p.115]. Portanto, quando amamos a Deus de maneira suprema, somos livres para amar a criação como criação (e não como Deus). Porque a excelência divina está de fato presente nas dádivas, somos livres para desfrutar delas por causa dele. As dádivas divinas tornam-se vias para desfrutarmos dele, raios da glória que rastreamos até a fonte.

Este movimento – do teste comparativo à vida integrada – é precisamente como resolveremos a tensão criada pelas passagens bíblicas que nos ordenam não colocar a mente nas coisas da terra (Cl 3.1-4; Fp 3.19). dada a realidade objetiva de Deus


CAPÍTULO 6 - O sexto capítulo chama-se “Os ritmos da piedade” e trata da questão de como devemos viver na prática uma existência orientada para Deus e que afirma a bondade da sua criação. Para Rigney “piedade é a tentativa de viver com fidelidade a partir da famosa exortação bíblica em 1 Coríntios 10:31: “Quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus” [p.136]. Assim, a piedade é um movimento da alma em direção a Deus de tal maneira que nossos pensamento, afeições e ações terminem, em última instância, nele.

Rigney classifica dois tipos de piedade, as quais ele denomina de piedade direta e piedade indireta. (1) A primeira envolve o nosso foco consciente e intencional no próprio Deus (através de atividades como a oração, a leitura da Palavra, o culto, e outras que significam devoção simples). “A marca da piedade direta é que nossos pensamentos e intenções estão concentrados particular e diretamente no próprio Deus, uma vez que a ele nos dirigimos e com ele comungamos” [p.139]. (2) A segunda envolve um foco subconsciente em Deus enquanto nos empenhamos no mundo que ele criou (e pode ser qualquer atividade desde comer uma refeição a jogar futebol). “A marca da piedade indireta é que nosso pensamentos e intenções estão concentrados primária e fundamentalmente no mundo de Deus e em tudo que nele há” [p.139]. Desta forma, o gozo intenso das dádivas divinas servem e aumentam a piedade direta ao criar categorias mentais, emocionais e espirituais para nosso gozo em Deus.

Portanto, uma forma de relacionar estes dois tipos de piedade é criando um ritmo regulares de piedade direta e indireta, envolvendo-nos de maneira plena com o mundo de Deus e em seguida focando com frequência – e de forma direta e proposital – nossos pensamentos, intenções e afeições no Deus Triúno.

Ao acrescentar a noção de ritmos da piedade direta e indireta, nos ajudam a entender como o gozo das dádivas de deus e um amor supremo por Deus podem ser mutuamente benéficos e frutíferos. Se integrarmos de forma adequada nossa alegria em Deus e nosso deleite em suas dádivas, então nosso gozo das dádivas deve enriquecer e aumentar nosso amor ao próprio Deus, e nosso ao próprio Deus deve enriquecer nosso gozo de suas dádivas. Ou, em termos rítmicos, temporais, a piedade direta acentua nossa piedade indireta, e a piedade indireta acentua nossa piedade direta. Uma serve à outra dando algo e protegendo de algo.


CAPÍTULO 7 - O sétimo capítulo chama-se “Nomeando o mundo” e trata da questão da cultura, de nos relacionarmos não tanto com o que Deus fez na criação mas de nos relacionarmos com aquilo que fazemos da criação de Deus. Em todos os capítulos anteriores, Rigney nos incentiva a gozar de todas as coisas que Deus fez e nos faz uma pergunta interessante: “Mas e quanto a desfrutar das coisas que nós fizemos? Podemos aplicar esse paradigma à forma com desfrutamos da literatura, arte, música, televisão, dos filmes (bem como dos móveis, das roupas e da arquitetura)? E quantos às outras formas de atividade humana? Receber o alimento como dádiva é diferente de jogar beisebol (ou assistir a um jogo de beisebol)? 

A forma como o autor define a cultura, a partir da Escrituras é algo bastante edificante. Ele afirma que uma parte fundamental da vocação do homem encontra-se em Gênesis 1.28, passagem geralmente chamada “o mandato cultural”. Neste ponto o autor entende que Deus patrocina que desenvolvamos os recursos naturais da terra através da ciência e tecnologia. A cultura é, nesse sentido, um cultivo, um desenvolvimento daquilo que Deus fez, como que adornando o mundo (Criação + Esforços Criativos Humanos = Cultura). Partindo desta afirmativa, a cultura abrange mais que apenas “as artes” – pintura, escultura, literatura e música. Na verdade, incorpora todas as facetas da atividade humana – do trivial ao erudito, do mais baixo ao mais elevado. Refere-se ao desenvolvimento da atividade humana – a produção cultural – e aos produtos culturais daí resultantes. 

Portanto, dentro do mandato cultural, o autor nos leva a um assunto bastante interessante é que a forma como o homem dá nome a todos os animais. O autor chama isso de “nomeação fiel”. “Nessa passagem, Deus dá a Adão o privilégio de nomear os animais e a mulher. Nomear parece envolver o princípio de realidade e o princípio de criatividade. Em outras palavras, nomear envolve, de um lado, o plano de deus, o propósito e a intenção da criação; de outro, o reconhecimento do plano de Deus pelo homem e o avanço do de Deus por este ato de nomear” [p.166]. Construir uma cultura é um dos modos essenciais de participarmos da natureza triúna de Deus, colaborando através do mandato cultural na tarefa de nomear e encher o mundo da glória de Deus. 

Para concluir este capítulo, o autor levanta uma questão muito séria - a questão do mal e do pecado na cultura. “Tudo que deus criou é bom, mas agora está maculado pelo pecado e pela rebelião. Dada a presença difundida do mal e do pecado na cultura e na produção cultural, como podemos apreciá-la e não ser contaminados? O mundanismo é a maldade da cultura rebelde não são transmitidos a nós?” [p.173]

O autor nos mostra algumas observações importantes a seguir neste aspecto: (1) A existência do mal não impede o nosso prazer na criação. (2) A existência do mal é pedagógica por contraste com o que é bom. (3) Deus comunica coisas boas através de coisas más do mundo. (4) Temos reações emocionais complexas à criação e à cultura (que provam a nossa capacidade de lidar com o mal). (5) Há uma diferença entre distinguir o que é mau e deliciarmo-nos no que é mau. (6) A existência do mal nos objetos culturais permite-nos crescer em obediência bíblica, aborrecendo esse mal. (7) Devemos reconhecer que o nosso envolvimento cultural pode servir de pretexto para nos dedicarmos ao mal representado na cultura.


CAPÍTULO 8 – Este capítulo tem como título “Desejando o que não é Deus”. Aqui Rigney faz um relato de suas experiências com o propósito de ilustrar várias dimensões e cotidiano da vida para que entendamos que podemos perfeitamente desfrutar de tudo que Deus nos dá sem cometer idolatria. O mundo ao nosso redor é algo que Deus usa para transmitir algo acerca dele e o nosso cotidiano, inclusive as coisas mais simples da vida, quando feitas para a glória de Deus nos induz a santidade. 

“Não podemos imaginar o que Deus tem reservado para nós. Nossa mente ainda não é grande o suficiente. Nosso coração ainda não é largo o bastante. Nem olhos viram nem ouvidos ouviram. E a única maneira de preparar-nos para as glórias vindouras é espremer o que Deus nos tem dado agora. Se ao final receberemos o riso do céu, devemos fielmente apreciar a música que podemos ouvir agora" [p,182-183]


CAPÍTULO 9 – Este capítulo tem como título “Sacrifício, abnegação e generosidade”. O propósito deste capítulo é mostrar por que celebrar as boas dádivas não atrapalha os esforços missionários, não subverte o chamado bíblico à abnegação nem corta a raiz da generosidade radical. Na verdade antes do fim deste capítulo, é propósito de Rigney, nos mostrar que chamar as pessoas a desfrutar de tudo que Deus com fartura dá, aliás, fazer avançar a missão de Deus entre as nações e fortalecer uma generosidade sacrificial, de mãos e corações abertos.

“Como exatamente desfrutar de Deus em tudo e de tudo em Deus promove a paixão divina pela glória do evangelho de Cristo entre os povos do mundo?” [p.204]

(1) O chamado a desfrutar das boas dádivas por amor a ele lembra-nos de um dos propósitos centrais da Grande Comissão, a saber, ensinar as nações a obedecer tudo que Jesus ordenou (Mt 28.20). “Por isso a proclamação fiel do evangelho deve incluir uma teologia sólida da bondade das dádivas divinas na criação. Se Deus está chamando as nações a conhece-lo como ele se revelou em sua Palavra e no mundo, então o elemento central do discipulado das nações deve ser ensiná-las a observar e a apreciar a beleza e a glória do Deus trino na natureza, no alimento, na família, em tudo. Portanto, como nós, os povos e nações do mundo devem aprender a honrar o doador ao desfrutar da forma correta de suas dádivas” [p.206].

(2) Onde quer que levemos o evangelho, vamos encontrar pessoas idolatras que abusam do mundo de Deus, adorando e servindo à criatura em lugar do criador. Portanto, se faz necessários missionários que ensinem aos povos que “a terra é do Senhor e sua plenitude, toda a criação de Deus é boa e deve ser desfrutada, que devemos pensar com profundidade em tudo que é verdadeiro, honrado, justo, puro, amável, louvável e excelente” [p.207]

Para desfrutar das coisas e ao mesmo tempo promover a paixão divina pela glória do evangelho, exige de cada cristão genuíno aquilo que Rigney chama de Abnegação Bíblica, ou seja, “Renunciar algo bom por causa de algo melhor”.

Vejamos como Rigney conceitua a abnegação bíblica?

(1) A abnegação bíblica é a renúncia voluntária de coisas legitimas por causa de Cristo e de seu reino.
(2) A abnegação bíblica se torna algo paradoxal (C. S. Lewis), pois os cristãos celebram a criação porque foi feita por Deus, mas lidam com a criação, com limitações, pois entendem que ela não é Deus.
(3) A abnegação bíblica é uma das principais formas pelas quais estabelecemos a supremacia de Deus em nossa vida, pois Cristo é “incomparavelmente melhor” do que tudo o mais que há no mundo.
(4) A abnegação bíblica é um tipo de morte. Deus nos deu desejos a fim de que fossem realizados, exatamente como nos deu vida para que a pudéssemos viver. Portanto, renunciar ao desejo é morrer, tomar a cruz nos ombros e seguir na estrada do Calvário.
(5) A abnegação bíblica sempre está acompanhada de “audaciosas promessas de galardão” (Mc 10.29-30). (6) A abnegação bíblica se dá com o coração alegre, mesmo enquanto negamos a nós mesmos. 

Depois de ter conceituado teologicamente o termo “abnegação bíblica”, Rigney faz uma pergunta: “O que então podemos dizer acerca da abnegação bíblica em relação as boas dádivas (incluindo riquezas) divinas?” Antes de aprofundar neste assunto, ela fala sobre as riquezas e afirma 

“Três coisas sobre o exercício prático de vivermos a auto-negação num mundo de coisas boas. (1) Na Bíblia prosperidade ou riqueza é mais do que dinheiro. (2) A prosperidade é uma coisa boa na Bíblia. É um sinal de bênção vinda de Deus.  (3) Mas na Bíblia a prosperidade também é uma coisa perigosa. Como qualquer outra coisa boa que se coloque no lugar de Deus, a prosperidade pode tornar-se uma idolatria. E a Bíblia é clara ao dizer que a prosperidade pode mesmo impedir-nos de entrar no Céu. Comparada com outras coisas, há muitos mais avisos da Bíblia acerca deste risco em particular. A prosperidade torna-se um braço missionário óbvio. As quantidades podendo variar, refletem sempre que a qualidade não varia (dar é parte fundamental de receber)”. [3]


CAPÍTULO 10 – Este capítulo tem como título “Quando o tempo de guerra dá errado”. Neste capítulo Rigney continua a focar na riqueza ao explorar a natureza e os desafios de viver em estilo de vida radical, de “tempos de guerra”. Vamos entender porque “Tempos de Guerra”. Esse termo, é explicado por John Piper sobre como os cristãos devem viver as suas finanças. Diz ele: “Jesus pressiona-nos para um estilo de vida de tempo guerra que não valoriza a simplicidade pela simplicidade, mas que valoriza a austeridade do tempo de guerra por aquilo que ela consegue produzir pela causa da evangelização do mundo” [p.230-231]. Todo este capítulo é fundamentado em experiências do próprio Rigney: “permitam-me apresentar um desafio com que deparei ao procurar viver esse tipo de estilo de vida” [p.232]. 

Rigney teve a experiência de fazer um estilo de vida de economia de tempo de guerra com o coração errado. Diz ele que é fácil prescindir de coisas que não valorizamos e, a partir daí, produzirmos arrogância espiritual. No fundo, era um caso de ser sovina sob a aparência de estratégia espiritual. E para evitar tal atitude ele afirma que o caminho é a gratidão. “Gratidão sem medida. Ação de graças profusas e transbordante. Sem culpa. Sem vergonha. Sem autorreprovação por ter nascido nos Estados Unidos ou por ter tido as oportunidades que tive” [p.234]. Essa gratidão tem uma fundamentação bíblica. (1) Paulo nos diz que temos de dar graça sempre e por tudo, Ef 5.20; (2) Ser grato pelo lugar que nasce, pois Deus é quem determina os limites da habitação de todos os homens na terra, At 17.26; (3) Paulo nos ensina o segredo para viver em fartura e abundância, Fp 4.13-13. “Um dos maiores desafios para os Cristãos do Ocidente é aprender a encarar a nossa abundância sem precedentes com a força fornecida por Cristo e não pela riqueza” [p.235]. 

A partir daí, Rigney conta-nos a sua experiência em ter nascido na nação mais rica do mundo e todas as suas adversidades na universidade, no amor e casamento. A estratégia da economia de tempo de guerra para o cristão tem de se saldar em resultados espirituais. Isto quer dizer que poupo não para provar que consigo viver sem alguma coisa, mas para provar que contribuo para que outros vivam com mais, neste caso, com o evangelho. Viver com uma economia de tempo de guerra é acerca de viver para o mais, e não de viver para o menos.

Na conclusão deste capítulo, Riney nos chama a atenção que o ponto principal é enfatizar a complexidade de viver com fidelidade num mundo de riqueza. Devemos receber as riquezas de coração aberto e entender que tudo que Deus nos dá tem um objetivo – a generosidade radical. Devemos buscar ser tão generosos com os outros quanto Deus tem sido conosco. Em síntese, como disse antes, receber de graça, dar de graça.

CAPÍTULO 11 – Este chama-se “Sofrimento, morte e a perda das boas dádivas”. Rigney começa nos lembrando que a Bíblia é um livro de sofrimento, de Gênesis 3 a Apocalipse 20. Perdem-se esposas. Perdem-se maridos. Perdem-se filhos. Perde-se riqueza. Perdem-se casas. Perdem-se reputações. Perde-se saúde. Perdem-se vidas. E esse tipo de sofrimento e perda é prometido aso seguidores de Jesus (2 Tm 3.12; At 14.22). Então, um livro sobre desfrutar das dádivas divinas simplesmente deve enfrentar a inevitabilidade da perda. 

O capítulo está dividido em sete tópicos: 

(1) Comer, beber e alegra-se debaixo do sol. As dádivas divinas são passageiras e vamos em qualquer momento ter que administrar a perda. Mas, quando compreendemos a nossa condição de criaturas finitas e olhamos para único pastor que é infinito e eterno e que cuida de cada um dos seus filhos, então somos libertos para beber, comer, alegra-nos e desfrutar a vida com pessoas que amamos, todos os dias de nossa vida enigmática, porque esta é nossa porção e Deus aprova. 

(2) Como o sofrimento põe prova nosso gozo integrado. Quando Rigney fala de gozo integrado, ela chama-nos à relação integrada entre Criador e as suas dádivas. Isso significa que devemos encarar a perda de modo a honrar a Deus tanto em tê-las quanto em perde-las. Para isso, devemos começar a reconhecer que o sofrimento involuntário é um teste e inevitável de nosso amor integrado e desejos ordenados (Sl 73.35-36; 2 Tm 4.16-18; Sl 27.10; Jó 1.21).

(3) Integração na ausência. O sofrimento de fato sublinha o valor supremo, decisivo e infinito de Deus acima de todas as coisas boas que ele provê. Mas a presença da abordagem comparativa não abole a integração entre dádivas e doador. A integração continua, mesmo na ausência da dádiva. O coração pode expandir-se quando a dádiva está presente, e pode expandir-se quando a dádiva está ausente, as vezes de modos que só são possíveis por meio das perdas.

(4) Vivenciando uma grande perda. A confiança de Jó na bondade soberana de Deus para com ele não o leva aceitar estoicamente a perda de tudo que achava precioso. Ele não trata a perda de seus filhos com leviandade. Rasgou seu manto. Rapou a cabeça. Lançou-se a terra. Lamentou, e chorou, e adorou a Deus entre as lágrimas. E o interessante é o termo usado por Rigney – Luto Bíblico – “No entanto, por mais que nosso luto possa entregar-se ao pranto e à revolta, o luto bíblico jamais amaldiçoa ao Senhor, que dá e toma de volta segundo seus propósitos bons e sábios. A alegria integrada transforma-se em lamento e luto quando coisas preciosas são arrancadas de nossos braços. E, ao fazê-lo, até mesmo os sofrimentos e perdas mais terríveis expandem nossa alma, alargam nosso coração além do que pensamos que possa suportar a fim de que descansemos mais profundamente no Deus que será sempre e para sempre a nossa porção” [p.260].

(5) Gratidão sempre e por tudo. A verdadeira gratidão permanece, mesmo quando as dádivas são suprimidas. A gratidão recebe alegremente tudo que Deus dá, acolhendo o que é bom com satisfação e as dificuldades com um profundo senso de “entristecidos, mas sempre alegres”. A gratidão sabe que Deus é honrado na acolhida alegre de dádivas maravilhosas e na profunda e inabalável satisfação em Deus quando essas dádivas maravilhosas se vão. E a gratidão ama demonstrar o mérito e o valor do doador de toda boa dádiva e de profunda compaixão.

(6) Como a alegria integrada enfrenta a morte. Perder uma das grandiosas dádivas divinas pode parti-nos o coração. Perder várias delas, como Jó, pode lançar-nos em aflição. Mas, o que faremos quando somos confrontados com a perda de todas as coisas boas? Que faremos quando a realidade da morte posa sobre nós? Em nosso leito de morte, a alegria integrada busca a engrandecer a Deus, quer pela vida, quer pela morte (Fp 1.20). Deus nos está preparando para sermos homens e mulheres espirituais e encarnados. Ou seja, Deus está nos preparando para viver em corpos animados e transformados pelo Espírito Santo, como aconteceu com Jesus na ressurreição. A morte leva embora nossos prazeres terrenos, e então a ressurreição restaura-os em profusão. A integração celestial excede a capacidade da mente humana de saber. “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram [...] o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1 Co 2.9).

(7) Qual é a nossa maior recompensa? Podemos dizer que em última instância é o próprio Deus. O que nos sustenta nos momentos mais sombrios e desencadeia os maiores sacrifícios por causa do amor é a presença santa e permanente de Deus com seu povo aperfeiçoado, transformado e encarnado em sua cidade-reino gloriosa e inabalável por toda a eternidade, no mundo que não terá fim. Essa é a nossa esperança.


CAPÍTULO 12 – Este é o último e chama-se “Abrace sua condição de criatura”. Uma das realidades que mais este livro nos chama a atenção é que devemos abraçar a nossa condição como criatura. Rigney estabelece dois pontos imutáveis.

(1) Deus é fundamentalmente um doador. Rigneu nos chama atenção para o Salmo 16 e a partir desta realidade ele escreve: “Em relação a criação, ele dá a todos os homens a vida, e o ar, e todas as coisas. Ele abre sua mão e satisfaz o desejo de cada coisa viva. Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho a nós, e o Pai se compraz tanto em seu filho que nos deu a ele. O pai e o Filho juntos nos dão o Espírito santo. O Espírito nos dá consolo e graça e poder e a si mesmo em nosso coração e em nosso meio como lugar de sua habitação eterna” [p.272].

(2) A criatura é ser um recebedor. “O grande privilégio do homem é receber tudo que Deus dá de todos os modos que ele dá, e então conhecer essas coisas, e desfrutar dessas coisas, e cantar sobre ele nessas coisas” [p.272]

Portanto, coisas importantes precisamos assimilar e guardar para toda a vida
(a) Abracemos a nossa condição de criatura, pois tudo o que temos é de Cristo
(b) Devemos imitá-lo em sua generosidade compartilhando o nosso tempo, talentos, tesouros e difundir a paixão pela supremacia de Deus em as coisas que temos recebido dele por intermédio de Jesus.
(c) Tenhamos uma vida de gratidão, pois é a nossa resposta à fartura de suas dádivas.
(d) Vivamos com humildade uma vez que só os que reconhecem sua dependência, sua necessidade, e seu prazer na bondade e na benignidade do outro podem ser gratos.
(e) se estamos vivendo um contexto de perda de algo ou de alguém precioso, não devemos nos desanimar é o único consolo, e ele está presente em nossas perdas.

Um livro que foi feito não somente uma leitura. Mas, para quantas leituras forem necessárias.

RECOMENDO
Link para se adquiri o livro
https://editoramonergismo.com.br/products/as-coisas-da-terra

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[1] Tiago Cavaco - https://goo.gl/8spbBV
[2] CALVINO, As Institutas, I.V.12
[3] Tiago Cavaco - https://goo.gl/8spbBV

sábado, 11 de agosto de 2018

O HOMEM ETERNO [Resenha]


CHESTERTON, G. K. O Homem Eterno. Traduzido por Almiro Pisetla. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2010. 326p. 

O Homem Eterno apresenta uma refutação racional, baseada em puro bom senso, da linha mestra da história geral que nos é ensinada há pelo menos um século, talvez mais. Ela vira de ponta cabeça nossas ideias sobre a pré-história, a antiguidade, mitologia, filosofia, religião, Império Romano, modernidade e, principalmente, o papel que os cientistas sociais tiveram em formular as teorias mais absurdas, que compramos como se fossem as coisas mais óbvias da vida. 

Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), escritor londrino, foi um dos maiores defensores do cristianismo em uma época que o ateísmo era uma tendência entre intelectuais. O progresso técnico e o desenvolvimento científico - principalmente após a Revolução Industrial, no século 18 - despertaram no homem um sentimento de controle da natureza e de independência. As críticas à doutrina e aos mistérios do cristianismo não era novidade entre os filósofos. O pensamento estava presente em iluministas como Voltaire (1694-1778). O mundo se deparava com ideias de Friedrich Nietzsche (1844-1900), Sigmund Freud (1856-1939) e Charles Darwin (1809-1882), um período de afirmações polêmicas e chocantes. Foi nesse cenário que Chesterton defendeu a fé e a existência de Deus. O autor exerceu grande influência e chegou a debater o assunto com Bertrand Russell (1872-1970), o ateu mais famoso e ativo da filosofia contemporânea. 

Esta obra teve um impacto profundo na conversão de C.S.Lewis: “li O Homem Eterno de Chesterton e pela primeira vez vi toda a concepção cristã da história exposta de uma forma que parecia ter sentido”. C. S. Lewis escreveu ainda: “Seu humor era do tipo que eu mais gosto – sem “piadas” inseridas numa página como passas num bolo, e menos ainda num tom comum (o que não suporto) de frivolidade e jocosidade” [1]

Um outro fato muito interessante acerca desse livro é o foi uma influência marcante sobre C. S. Lewis, que havia descoberto Chesterton durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto se recuperava num hospital de campanha, na França. Pouco depois foi a obra seminal de Chesterton, O Homem Eterno, que permitiu a Lewis enxergar o panorama de história Cristã que estava colocado diante dele de uma forma que fizesse sentido, uma epifania que foi um marco significativo na jornada de Lewis para a conversão Cristã. Foi, todavia, aquela famosa “longa conversa noturna” entre Lewis, J. R. R. Tolkien e Hugo Dyson em setembro de 1931 que se provou decisiva para a aceitação do Cristianismo por parte de Lewis. O tópico daquela “conversa noturna” foi o que eu chamo de “ a filosofia do mito de Tolkien”, uma compreensão da inestimável verdade a ser descoberta nos mitos e contos de fadas. Foi essa filosofia subjacente que daria forma aos trabalhos de Lewis e Tolkien nos anos que se seguiriam, e desse modo abençoaram a civilização com jóias literárias, tais quais O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Narnia. Embora essa “conversa noturna” seja merecidamente celebrada por ter semeado as sementes de tão belos frutos literários, não é tão amplamente sabido que a “filosofia do mito de Tolkien” é ela mesma um fruto das sementes plantadas por Chesterton na sua obra Ortodoxia, publicada em 1908, quando Tokien tinha dezesseis anos de idade. [2] 

Esta resenha será bem peculiar, pelo fato de que não farei uma análise capítulo a capítulo como costumeiramente faço. Por que? Pelo fato de que tenho em mãos um livro em que um assunto de um capítulo é argumentado em todos os outros. Por isso, resolvi escrever acerca dos assuntos que o livro expõe e acrescentei algumas notas explicativas para que o sentido do texto pudesse ser melhor entendido 


Este livro está dividido em duas partes. 

A PRIMEIRA PARTE tem como título “da criatura chamada homem”, composta por oito capítulos. Nesta primeira parte ele traça uma linha histórica do homem. 

Nessa linha histórica ele começa pelo “homem da caverna” [cap.1] até “o fim do mundo” ou “o homem moderno” [cap.8]. Nessa trajetória percebe-se o teor apologético do livro, pois ele refuta ideais evolucionistas e ateístas, faz uma análise do desenvolvimento do paganismo e da mitologia, aborda a imaginação fértil dos antropólogos, que inferem mais do que podem sobre o homem pré-histórico, analisa as primeiras civilizações, descompara as tentativas inúteis dos “estudiosos” de “religião comparada”. Ainda nesta trajetória, vemos a construção histórica, antropológica, filosófica, mitológica e, de certa forma, teológica do homem. Mas, como o próprio autor diz, de uma forma popular. Não se aprofunda nos termos científicos ou filosóficos que seriam pouco interessantes. 

A SEGUNDA PARTE - A segunda parte, tem como título “do homem chamado Cristo” que possui seis capítulos. Tem ainda dois apêndices. Apêndice 1 sobre o homem pré-histórico e o apêndice 2 sobre autoridade e exatidão. 

Em uma análise igualmente crítica e inteligente, Chesterton desconstrói as tentativas de explicar naturalmente a origem a preservação do cristianismo até os dias de hoje. Ele trabalha a comparação entre o mártir e o suicida ficar clara. O suicida é o paganismo; ele vive de uma eterna consumação de seus devaneios, como Chronos a devorar sua prole. Ele anda em círculos. Ainda mais evidente quando Chesterton analisa as mitologias orientais; o budismo, o confucionismo, o hinduísmo. Todas essas mitologias possuíam algo que já tinha sido visto antes. O mártir é o cristianismo; Ele veio ao mundo que criou, sabendo que morreria nessa terra. Revirou cada partícula dessa terra purulenta de racionalismo, individualismo, liberalismo, cientificismo e outras gnoses ao se tornar a resposta que o paganismo tanto procurara. O paganismo honesto foi uma busca, como Jasão e os argonautas buscando um objeto místico. O Cristo veio para dizer a todas as criaturas: eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. 


Vamos ao conteúdo do livro: 

A QUESTÃO DO PAGANISMO - Sobre o paganismo ele afirma que é inegável não seja humano; mais do que isso: ele é a maior criação humana. Ele nasce da mitologia. Mitologia é busca. O homem passou a existência buscando. Desde o homem que pintava nas cavernas para representar algo que, podemos supor, fosse um ritual religioso ou um avanço nas teorias existenciais até a construção de monumentais pirâmides e guerras épicas, o paganismo foi uma tentativa de buscar a verdade. O homem pagão tentava explicar a origem do sol e da lua com a honesta alusão de dois filhos de um deus ou um herói que fora divinizado por bravos feitos em épocas bem longínquas. Os gregos com sua filosofia, os romanos com seus heróis e os judeus com seu monoteísmo; todos os homens honestos que andaram sobre essa terra falavam mitologia. 

Mas algo não estava certo; as civilizações, principalmente na Ásia, estavam sincretizando deuses e demônios, para o seu bel prazer em prol de uma resposta que agradasse a todos e a tudo. A decadência do paganismo caíra num segundo paganismo: do culto ao antinatural. Chesterton expõe isso numa ilustração muito bem feita: as tribos canibais não comiam crianças e jovens guerreiros porque eram menos civilizados; eles o faziam porque eram demasiado civilizados. Haviam acreditado em tanta coisa que cultuavam o que não era natural apenas pelo prazer de sê-lo. 

A luta entre o paganismo bom, aquele que se expressa com mitos, e esse paganismo hostil e pestilento é ilustrada no episódio das guerras púnicas. Sob a ótica do autor, Cartago acreditou que seu dinheiro lutaria quando os homens não mais lutariam. Os soldados cartagineses varreram as hordas romanas e o mundo parecia que nunca mais veria um culto decente à Júpiter ou Saturno. Mas Cartago ignorou algo que o paganismo tem que, como fosse da providência divina, permitiria que o cristianismo construísse um novo mundo, a mesma ideia que Virgílio narra em seus poemas e que faz todos termos compaixão e paixão pela queda de Heitor e repulsa pela vitória de Aquiles: a ideia da nobreza em um herói caído. Do martírio. Roma estava morta e ressuscitou. 

Eu seria desonesto se dissesse que Chesterton aniquilou o paganismo de vez. Ele nos deixou ferramentas para tal. Mas, mais do que isso, ele pôs uma cisão eterna: o paganismo foi a maior criação humana e o cristianismo é maior que o paganismo. É conclusão matemática dizer, portanto, que o cristianismo é maior que a humanidade, e ao mesmo tempo é o que tornou os homens, homens de fato. 


O HOMEM NA CAVERNA – Chesterton, com seu estilo humorado, mostra que a história do homem das cavernas é muito mal contada: 

Sempre nos dizem, sem explicações ou argumentos e autoridade, que o homem primitivo brandia um porrete e derrubava a mulher antes de levá-la embora. Mas, com base na analogia com todos os animais, pareceria um recato e relutância quase mórbidos, por parte da madame, sempre insistir em ser derrubada antes de consentir em ser levada embora. E repito que nunca consegui compreender por que, quando o macho era tão rude, a fêmea deveria ser assim tão refinada. O homem das cavernas talvez tenha sido um bruto, mas não há motivo para ele ter sido mais bruto que os brutos. E os amores das girafas e os romances fluviais dos hipopótamos ocorrem sem nada desse estardalhaço ou tumulto preliminares. O homem das cavernas talvez não tenha sido melhor que o urso das cavernas; mas a filhotinha do urso, tão celebrada na hinologia, não é treinada com nenhuma dessas tendências para a condição de solteirona. Em resumo, esses detalhes da vida doméstica das cavernas me intrigam tanto com base na hipótese revolucionária quanto com base na hipótese estática; seja como for, gostaria de analisar suas provas, mas infelizmente nunca consegui descobri-las. [p.28] 


[...] O que se descobriu na caverna não foi um porrete, o horrível porrete com manchas de sangue e marcas entalhadas indicando o número de mulheres golpeadas por ele na cabeça. A caverna não era um aposento de Barba-azul repleto de esqueletos de mulheres abatidas; não estava repleta de crânios femininos enfileirados e todos rachados como ovos. [p.28-29] 

[...] Os antigos poetas épicos pelo menos sabiam contar uma história, talvez uma história inacreditável, mas nunca uma história distorcida, nunca uma história torturada e deformada para adaptar-se a teorias e filosofias inventadas séculos mais tarde. Seria bom que os investigadores modernos descrevessem suas teorias no despojado estilo narrativo dos primeiros viajantes, sem nenhuma dessas longas palavras alusivas repletas de implicações e sugestões irrelevantes. Então talvez conseguíssemos descobrir o que de fato sabemos sobre o homem das cavernas ou, de qualquer modo, sobre a caverna” [p.29]. 

Na verdade, a Bíblia não usa o termo “homem da caverna” ou de “Neanderthal”. De acordo com a Bíblia, não existe algo como homem “pré-histórico”. O termo “pré-histórico” significa “pertencente a uma era anterior aos tempos históricos”. Pressupõe que a narrativa bíblica é uma fabricação porque o livro de Gênesis recorda eventos que antecedem a criação do homem (quer dizer, os primeiros cinco dias da criação – o homem foi criado no sexto dia). A Bíblia é bem clara ao dizer que Adão e Eva eram seres humanos perfeitos no momento de sua criação e que não se desenvolveram em nenhum sentido de formas de vida inferiores. 

Tendo dito isso, a Bíblia descreve um período traumático de reviravolta aqui na terra (o Dilúvio – Gênesis capítulos 6-9), durante o qual toda a civilização foi destruída por completo – com exceção de oito pessoas: Noé e sua família – e os homens foram forçados a recomeçar. É nesse contexto histórico que alguns estudiosos acreditam que homens viveram em cavernas e usaram ferramentas de pedra. Eles não eram primitivos; simplesmente não tinham nada. Certamente eles não eram metade macacos. A evidência fóssil deixa bem claro: os homens das cavernas eram humanos (por isso o termo “homem” das cavernas – homens que viveram em cavernas). 

Chesterton, bate o martelo e afirma que o “homem da caverna” é um mito. 

“Em outras palavras, o homem das cavernas tal qual ele nos é comumente apresentado é apenas um mito, ou melhor, mera confusão; pois um mito tem no mínimo um esquema imaginativo de verdade. Toda essa maneira atual de falar é simplesmente uma confusão e um mal-entendido, que não se funda em nenhuma espécie de evidência científica e é apreciado apenas como desculpa para um estado de espírito anarquista que é muito moderno. Se algum cavalheiro quer bater numa mulher, ele sem dúvida pode ser um grosseirão sem denegrir o caráter do homem das cavernas, acerca do qual não sabemos quase nada a não ser o que se consegue deduzir de algumas inofensivas e agradáveis pinturas numa parede” [p.31].


O HOMEM E AS MITOLOGIAS – Para quem estuda filosofia sabe muito bem que desde os primórdios da sua existência, os seres humanos sempre procuraram maneiras de explicar os fenômenos que se manifestam no mundo. Assim, desenvolveram diferentes maneiras de explicar o mundo a sua volta, criando diferentes formas de conhecimentos tais como os mitos, as religiões e a filosofia. Vejamos as especificidades deles. Os mitos constituem como uma das primeiras formas de conhecimento desenvolvidas pelos homens para explicar os fenômenos naturais e humanos em geral. Baseiam-se, necessariamente, na capacidade dos indivíduos de acreditar em elementos que fantasiam a realidade, ou seja, a alegoria é o elemento a partir do qual o mundo é interpretado pelos mitos. Esta forma de conhecimento integram a tradição de um povo e sua tradição se ocorre de geração em geração através da oralidade. Entre os gregos, por exemplo, fundou-se uma mitologia muito consistente em torno das obras Ilíada e Odisseia, do poeta Homero. 

Quando se afirma que a alegoria é o elemento a partir do qual o mundo é interpretado pelos mitos, Chesterton afirma que a mitologia é poesia e não alegoria. Vejamos como Chesterton refuta as argumentações que tendem a classificar o mito como precursora da religião.

a) Mitologia é poesia e arte - Todo esse assunto mitológico pertence à parte poética dos homens. Requer-se um poeta para criá-lo. Requer-se um poeta para criticá-lo. Há no mundo mais poetas que não-poetas, como se comprova pela origem popular dessas lendas. Mas por alguma razão que nunca vi explicada, apenas a minoria não poética tem permissão de escrever estudos críticos desses poemas populares. Nós não submetemos um soneto a um matemático ou uma canção a um especialista em cálculos; mas acalentamos a ideia igualmente fantástica de que o folclore pode ser tratado como uma ciência. A mitologia é uma arte perdida, uma das poucas artes que estão realmente perdidas; mas é uma arte. [p.107-108] 

b) Mitologia não é alegoria - Os mitos não são alegorias. O teste, portanto, é puramente imaginativo. Mas imaginativo não significa imaginário. Não resulta que seja tudo aquilo que os modernos chamam de subjetivo, e com isso eles querem dizer falso. Todos os verdadeiros artistas, consciente ou inconscientemente, sentem que estão tocando verdades transcendentais; que suas imagens são sombras de coisas vistas através de um véu. Em outras palavras, o místico natural de fato sabe que existe algo ali-, algo por trás das nuvens ou dentro das árvores; mas ele acredita que a maneira de encontrá-lo está na busca da beleza; que a imaginação é uma espécie de encantamento que pode evocá-lo. [p.111] 


O ATEÍSMO – O ateísmo é a doutrina filosófica que admite a não existência de Deus. Segundo o ateísta, não há qualquer prova relativa à realidade de Deus, pois as evidências pressupõem a não existência de qualquer divindade. Com o advento do racionalismo, os filósofos e humanistas seculares passaram a considerar o conhecimento religioso como uma espécie de conhecimento mítico, necessário à humanidade enquanto esta ainda estava em sua gênese. De acordo com a epistemologia, o conhecimento religioso cumpria uma função teleológica, isto é, das causas e dos fins. Como o homem primitivo não sabia explicar as causas dos fenômenos físicos, atribuía a essas manifestações da natureza causas metafísicas ou divinas. No entanto, com a ascensão da ciência e do conhecimento não há qualquer necessidade de Deus ou de divindades para explicar os fenômenos físicos ou a existência do universo. 

Como escrevemos acima, no contexto de Chesterton, as críticas à doutrina e aos mistérios do cristianismo não era novidade entre os filósofos. O pensamento estava presente em iluministas como Voltaire, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Charles Darwin. Era um período de afirmações polêmicas e chocantes. Foi nesse cenário que Chesterton defendeu a fé e a existência de Deus. Chesterton chegou a debater o assunto com Bertrand Russell (1872-1970), o ateu mais famoso e ativo da filosofia contemporânea. A resposta ao ateísmo e mostrando a sua anormalidade, Chesterton escreve: 

“Aquela mitologia e aquela filosofia, à luz das quais o paganismo já foi analisado, ambas haviam sido bebidas literalmente até as fezes. Se com a multiplicação da magia o terceiro departamento, que denominamos demônios, estava cada vez mais ativo, ele nunca significou outra coisa que não fosse destruição. Resta apenas o quarto elemento, ou melhor, o primeiro; aquele que em certo sentido fora esquecido por ser o primeiro. Refiro-me àquela primeira, dominante e mesmo assim imperceptível impressão de que o universo no fim das contas tem uma única origem e um único objetivo; e por ter um objetivo deve ter um autor. O que aconteceu nessa época com essa grande verdade no fundo da mente humana talvez seja mais difícil determinar. Alguns dos estoicos sem dúvida viram isso cada vez mais claro à medida que as nuvens da mitologia se abriram e desfizeram; e dentre eles grandes homens fizeram muito lutando até o fim para lançar os fundamentos de um conceito da unidade moral do mundo. Os judeus ainda tinham sua secreta certeza disso ciosamente guardada atrás de altas cercas de exclusividade; no entanto, uma forte característica da sociedade nessa situação é o fato de que algumas figuras em voga, especialmente senhoras, realmente abraçaram o judaísmo. Mas no caso de muitas outras pessoas imagino que nesse ponto surgiu uma nova negação. O ateísmo tornou-se realmente possível nesse tempo anormal, pois o ateísmo é anormalidade. Não é simplesmente a negação de um dogma. É a inversão de um pressuposto subconsciente da alma; a sensação de que existe um significado e uma direção no mundo que ela enxerga. Lucrécio, o primeiro evolucionista que se esforçou para substituir Deus pela evolução, já havia exposto aos olhos dos homens sua dança de cintilantes átomos, com a qual ele concebeu o cosmo sendo criado do caos. Mas não foi sua forte poesia ou sua triste filosofia, imagino eu, que possibilitaram aos homens acalentar essa visão. Foi algo no sentido de uma impotência e um desespero, e com isso os homens ergueram em vão os punhos contra as estrelas, quando viram as mais belas obras da humanidade afundando lenta e fatalmente num lodaçal. Eles poderiam facilmente acreditar que até a própria criação não era uma criação, mas uma perpétua queda, quando viram que as mais sólidas e dignas obras de toda a humanidade estavam caindo devido a seu próprio peso. Poderiam imaginar que todas as estrelas eram estrelas cadentes; e que os próprios pilares de seus solenes pórticos estavam se curvando sob uma espécie de crescente Dilúvio. Para gente naquele estado de espírito havia um motivo para o ateísmo, que em certo sentido é racional. A mitologia poderia desaparecer e a filosofia poderia fossilizar-se; mas, se por trás dessas coisas havia uma realidade, com certeza essa realidade poderia ter sustentado as coisas que iam caindo. Não existia nenhum Deus; se existisse um Deus, com certeza esse era o momento exato para ele agir e salvar o mundo” [p.172-174]. 


HOMOSSEXUALISMO - Chesterton mostra que o problema da homossexualidade como inimiga da civilização é bem antigo. Ele descreve que o culto à natureza e a "simples mitologia" produziram uma perversão entre os gregos. "Da mesma forma que eles se tornaram inaturais adorando a natureza, assim eles de fato se tornaram efeminados adorando o homem". Qualquer jovem, ele diz, "que teve a sorte de crescer de modo sensato e simples" sente um repúdio natural pela homossexualidade porque "ela não é verdadeira nem para a natureza humana, nem para o senso comum". Ele argumenta que, se tentarmos agir indiferentemente em relação a ela, estaremos nos enganando a nós mesmos. É "a ilusão da familiaridade" quando "uma perversão se torna uma convenção". 

“Mas estou apresentando-os como homens com sentimentos de homens; e esses sentimentos não eram fingidos. A verdade é que uma das fraquezas do culto da natureza e da mera mitologia já havia produzido uma perversão entre os gregos, em razão da pior sofistica: a sofistica da simplicidade. Da mesma forma que eles se tornaram inaturais adorando a natureza, assim eles de fato se tornaram efeminados adorando o homem. Se a Grécia conduzisse seu conquistador, ela poderia tê-lo corrompido; mas essas eram as coisas que ele sempre quis desde as origens conquistar — até em si mesmo. É verdade que em certo sentido houve menos desumanidade até mesmo em Sodoma e Gomorra do que em Tiro e Sidom. Quando consideramos a guerra dos demônios contra as crianças, não podemos comparar nem mesmo a decadência grega com o satanismo púnico. Mas não é verdade que a sincera repugnância por uma e por outra coisa seja necessariamente farisaica. Qualquer rapaz que teve a sorte de crescer de modo sensato e simples em seus devaneios amorosos, mais do que chocado, se sentirá enojado ao ouvir falar pela primeira vez sobre o culto de Ganimede.[3] E essa primeira impressão, como tantas vezes já se disse aqui sobre as primeiras impressões, estará certa. Nossa cínica indiferença é uma ilusão, a maior de todas as ilusões, a ilusão da familiaridade.[4] É correto imaginar as virtudes mais ou menos rústicas da plebe dos romanos originais reagindo com total espontaneidade e sinceridade contra a simples menção disso. É correto imaginá-los reagindo, mesmo que num grau menor, exatamente como fizeram contra a crueldade de Cartago. Por ser num grau menor eles não destruíram Corinto como destruíram Cartago. Mas se sua atitude e ação foram bastante destrutivas, em nenhum dos dois casos sua indignação foi mero farisaísmo encobrindo mero egoísmo" [p.163-164]. 


OS ENIGMAS DO EVANGELHO – No capítulo 2 da segunda parte deste livro, Chesterton tenta mostrar como seria um indivíduo se confrontar com os Evangelhos e realmente encontrar o Cristo de lá. Ele não acharia um Cristo que se parece com outros professores morais. O Cristo apresentado no Novo Testamento não é estúpido ou insípido, Ele é dinâmico e inigualável em toda a história. O Cristo dos Evangelhos é cheio de perplexidades e paradoxos. 

Os livres-pensadores e muitos incrédulos, disse Chesterton, criticam às aparentes contradições achadas na Bíblia, especialmente a Cristo. Jesus preveniu seus seguidores de dar a outra face e não se preocuparem com o amanhã. Porém, ele não deu a outra face quando expulsou os vendilhões do Templo e constantemente estava ensinando as pessoas a se prepararem para o futuro. Da mesma forma, a visão de Cristo do matrimônio é sem igual em toda a história. Os judeus, romanos, e gregos não acreditavam ou até mesmo entendiam o bastante para descrer da ideia mística de que o homem e a mulher tinham se tornado uma substância sacramental na união matrimonial. A visão de Cristo do matrimônio não é nem um produto da cultura dele nem mesmo um desenvolvimento lógico da época. É um ensino totalmente estranho e maravilhoso que tem o estigma de ser de outro mundo. 

“Quando Maomé estabeleceu seu compromisso polígamo, o compromisso foi condicionado por uma sociedade polígama. Quando permitiu que um homem tivesse quatro mulheres ele estava de fato fazendo algo adequado às circunstâncias, algo que em outras circunstâncias poderia ser menos adequado” (...) Mas Cristo em sua visão do casamento não sugere de modo algum as condições da Palestina do século I. Não sugere absolutamente nada, a não ser a visão sacramental do casamento tal qual a desenvolveu muito tempo depois a Igreja Católica. Era uma visão tão difícil para o povo daquela época como é para o povo de hoje. [p.205]. 

Antes de C. S. Lewis ter formulado suas observações que o Cristo ou é um mentiroso, um lunático, ou Senhor, Chesterton tinha disposto o mesmo problema. O Cristo do Novo Testamento, Chesterton disse, não é uma mera figura mítica. Ele não pode ser só outro professor ético ou até mesmo um bom homem; estes pontos não seriam aceitos por uma pessoa que lesse o Novo Testamento corretamente. O resto da pergunta é: Quem é Cristo? 

Lewis oferece uma resposta direta (Cristianismo puro e simples, p.29): “Um homem que fosse somente um homem e dissesse as coisas que Jesus disse não seria um grande mestre da moral. Seria um lunático - no mesmo grau de alguém que pretendesse ser um ovo cozido - ou então o diabo em pessoa. Faça a sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou não passa de um louco ou coisa pior. Você pode querer calá-lo por ser um louco, pode cuspir nele e matá-lo como a um demônio; ou pode prosternar-se a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas que ninguém venha, com paternal condescendência, dizer que ele não passava de um grande mestre humano. Ele não nos deixou essa opção, e não quis deixá-la.” 

Chesterton diz Deve haver algo em uma pessoa que tão misteriosa e que inspirou tanta controvérsia quanto Cristo. O Cristo era quem Ele disse que era e é infinitamente mais misterioso que a mente humana finita pode compreender. Nos seus escritos, G. K. Chesterton demonstra que ele é um escritor Cristão que possuiu esses conhecimentos raros e necessários que permitem entender difíceis problemas teológicos e filosóficos e discutidos pelo homem comum. 

Antes de concluir, quero transcrever um texto de uma resenha deste mesmo. Transcrição com a devida autorização: 

“É possível concluir que o Novo Testamento e a própria figura de Cristo seria a última coisa que poderia surgir de forma natural e espontânea, portanto, a sua causa é sobrenatural e divina. Chesterton é até mesmo ousado ao discorrer sobre o impacto do cristianismo no mundo, ele diz que no sepulcro de Jesus toda a grande e gloriosa história da humanidade foi reunida e sepultada junto de Cristo, foi o fim da história meramente humana. As mitologias e filosofias forem enterradas naquele túmulo. O mundo tinha morrido ao longo da noite, mas foi ressuscitado junto de Jesus, naquele dia um novo mundo havia surgido.” [5]

“O corpo foi descido da cruz, e um dos poucos ricos entre os primeiros cristãos obteve permissão para sepultá-lo numa tumba aberta na rocha em seu jardim; e os romanos montaram uma guarda militar para impedir um possível tumulto e a tentativa de recuperar o corpo. Houve mais uma vez um simbolismo natural nesses procedimentos naturais: convinha que a tumba fosse lacrada com todo o sigilo das antigas sepulturas orientais e guardada pela autoridade dos césares. Pois naquela segunda caverna toda a grande e gloriosa humanidade a que chamamos de antiguidade estava reunida e encoberta, e ali foi sepultada. Foi o fim de algo muito grande chamado de história humana, a história que foi simplesmente humana. As mitologias e as filosofias foram ali sepultadas, os deuses e os heróis e os sábios. Na grande frase romana, eles haviam vivido. Mas como só podiam viver, eles só podiam morrer; e estavam mortos. filosofias foram ali sepultadas, os deuses e os heróis e os sábios. Na grande frase romana, eles haviam vivido. Mas como só podiam viver, eles só podiam morrer; e estavam mortos. No terceiro dia os amigos de Cristo vieram para o local ao romper da manhã e encontraram o túmulo vazio e a pedra removida. De várias formas eles perceberam a nova maravilha, mas até mesmo eles mal se deram conta de que o mundo havia morrido naquela noite. O que estavam contemplando era a primeiro dia de uma nova criação, com um novo céu e uma nova terra; e sob as aparências do jardineiro Deus novamente caminhava pelo jardim, no frio não da noite e sim da madrugada” [p.225-226]. 

Portanto, os últimos capítulos destroçam de vez os caluniadores que diziam que a Igreja seria o que ela combateu. Julgaram-na adepta do ascetismo quando ela mesma o combateu; julgaram-na adepta do arianismo quando ela própria disse que o Cristo é Deus Filho; julgaram-na maniqueísta quando ela própria disse que o diabo é apenas mais uma criatura. Disseram que ela deveria ter morrido com o Império Romano; com o fim da Idade das Trevas; com a ascensão do racionalismo e da revolução francesa. Disseram inúmeras vezes que essa ideia, de uma criança nascendo como homem e Deus, deveria desaparecer ou sincretizar. Nada disso aconteceu. 

Para concluir, tem um fato que muito me chamou atenção é o fato de que, Em particular, Chesterton ataca o livro de H.G. Wells, "História Universal", de 1919, que adotava as teses darwinistas das origens evolutivas da humanidade e negava a divindade de Cristo, considerando-o tão somente um líder moral, um místico como outros surgidos ao longo da história: Maomé, Buda, Confúcio etc. Com base em argumentos do tipo "reductio ad absurdum", Chesterton procura demonstrar que, a se adotar a ideia de que a humanidade e a civilização contemporâneas são simplesmente efeito de um processo evolutivo que se aplica a outras espécies naturais, então ter-se-ia de admitir que o homem é um tipo absolutamente único e bizarro de animal, ainda mais estranho e absurdo do que a criatura proposta pela crença cristã. 

Da mesma forma, a considerar Cristo apenas como mais um na fila crescente dos fundadores de religião, ter-se-ia que admitir que não há nenhum tão excêntrico, misterioso, dramático ou alucinado como ele. 

Portanto, é fácil descartar Chesterton como um reacionário face às novas descobertas da ciência. No entanto, o quadro que esboça em "O Homem Eterno" é mais complexo. Por mais que o leitor partilhe dos pressupostos ateus, evolucionistas e materialistas que ele combate, não tem como se impedir de admirar a capacidade inesgotável de Chesterton para fazer do que parece verdade certa o objeto de um saco de piadas engraçadas e inteligentes. Tiradas impagáveis em série derretem as provas científicas em falácias ecoadas por "dez mil línguas de fofoqueiros" a falar do que não sabem, com pedantismo. Como explicá-lo? Não se trata apenas de habilidade com as palavras, ou do vasto repertório letrado que ele mobiliza para construir argumentos que parecem cair como chuva ou brotar como capim, isto é, com a facilidade do óbvio. O que há de mais intrigante, e paradoxalmente libertário, em Chesterton, é que, ao obrigar o discurso científico a recuar sobre si mesmo e admitir que não dispõe de provas suficientes para reduzir as outras crenças a mitologias idiotas, ele atua não apenas como o publicista conservador de uma religião, mas como um crítico de todo totalitarismo intelectual.

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[1] PEARCE, Joseph. G.K.Chesterton: sabidúria e inocencia. Madrid: Encuentro. 2009. p. 389.
[2] “Chesterton lança seu encantamento sobre Tolkien”. Tradução do artigo Chesterton Casts a Spell on Tolkien, escrito por Joseph Pearce.
[3] Na mitologia grega, Ganimedes era um príncipe de Tróia, por quem Zeus se apaixonou. Nas imediações de Tróia, o jovem cuidava dos rebanhos do pai, quando foi avistado por Zeus. Atordoado com a beleza do mortal, Zeus transformou-se em uma águia e raptou-o, possuindo-o em pleno vôo. Ganimedes foi levado ao Olimpo e, apesar do ódio de Hera, substituiu a deusa Hebe e passou a servir o néctar aos deuses, bebida da imortalidade, derramando, os restos sobre os homens. Em homenagem ao belíssimo jovem, Zeus colocou-o na constelação de Aquário.
[4] Se Platão deu conta de que a homossexualidade explícita do mito de Ganimedes poderia envergonhar tantos os deuses como a cultura helénica apressadamente atribuiu o mito aos cretenses. Ora, ao fazê-lo deixou-nos uma nova informação: a de que a celebridade do vício sodomita cretense era sobejamente conhecida no mundo antigo confirmando os vários mitos recolhidos
[5] Alessandro Ramos, in: https://95app.com.br/2018/01/26/review-o-homem-eterno-de-g-k-chesterton/. Acesso em 11 Ago. 2018

terça-feira, 7 de agosto de 2018

A VERDADE DO EVANGELHO [Resenha]


STOTT, John. A Verdade do Evangelho: Um apelo à Unidade – Um apelo à unidade. Curitiba, PR: Editora Esperança, 2016. 172p.


Para quem conhece John Stott, sabe de sua luta pela unidade da igreja visível, que de acordo com as suas palavras a ausência dessa unidade é uma tragédia. “Minha preocupação é chamar a atenção para uma das grandes tragédias da cristandade contemporânea, que é especialmente visível no meio de todos nós que somos chamados (e, na verdade, é como nós nos chamamos) cristãos evangélicos. Numa única palavra: essa tragédia chama-se polarização. Serei mais específico sobre o que quero dizer.” [1]

Stott entende que hoje, muitos dos nossos cristãos evangélicos não hesitam em ceder a tendência patológica que temos de fragmentar-nos. Para tanto, refugiamo-nos em nossas convicções sobre a unidade invisível da igreja , como se a sua manifestação visível não importasse. E o resultado disso é que o diabo acaba tendo o maior sucesso na sua velha estratégia de “dividir e conquistar”. A nossa desunião continua sendo um grande empecilho para o nosso evangelismo.

“Mesmo mantendo uma boa consciência de qual seja a nossa interpretação pessoal da fé evangélica, será que não seria possível reconhecermos que o que nos une enquanto povo evangélico é muito maior do que aquilo que nos divide?” [p.10]

Portanto, este livro foi escrito com dois propósitos: (1) Primeiro, porque o entristece profundamente essa tendência que nós, evangélicos, temos para a fragmentação. (2) “Além disso, tenho uma motivação bem mais pessoal: ao chegar ao fim de minha vida aqui na terra, e como este ano completo sessenta anos de discipulado cristão privilegiado, eu gostaria de deixar para trás, como uma espécie de legado espiritual, este pequeno testemunho de fé evangélica, este apelo pessoal às gerações que estão surgindo. É óbvio que eu mudei muito ao longo das últimas seis décadas. Mas espero que essas mudanças não tenham sido para negar qualquer coisa que eu já tenha afirmado, mas sim para o enriquecimento do que foi inadequado, o aprofundamento do que era superficial e para esclarecer o que era obscuro. As grandes verdades do evangelho permanecem inalteradas. É assim que eu gostaria de ser lembrado e julgado enquanto me preparo para apresentar-me para ser julgado diante do trono de Cristo” [p.11]. 

O livro está dividido em 6 partes – Introdução, capítulos 1 ao 3, conclusão e um posfácio que expõe de forma simples e ao mesmo tempo, profundamente teológica, aspectos importantes sobre os quais, segundo Stott, são pontos essenciais e indivisíveis da fé cristã. A introdução ele expõe as verdades essenciais do Evangelho e faz uma apologética do Evangelho Trinitário. Em seguida vêm os capítulos que tratam de pontos inegociáveis fé cristã. São eles: a revelação de Deus [cap.1], a Cruz de Cristo [cap.2], o ministério do Espírito Santo. Na conclusão ele enfatiza os desafios que os evangélicos devem enfrentar na pureza deste evangelho: dignidade, firmeza, lutar, trabalhar e sofrer por amor ao Evangelho. No posfácio, ele fala daquele assunto que está presente em todos os seus livros – “A Excelência da Humildade”.


INTRODUÇÃO – Stott afirma que o movimento evangélico tem crescido muito a partir da Segunda Guerra Mundial, mas, paralelamente, tem crescido a “impopularidade” também. Ou seja, o movimento evangélico cresce com muita rapidez e pelo outro lado provoca tanto escárnio. 

Ele cita vários testemunhos negativos acerca dos evangélicos e com o propósito de esclarecer o que é realmente é a fé evangélica, ele escreve três refutações: “Primeiro, a fé evangélica não é uma inovação recente, uma nova marca de cristianismo que resolvemos inventar. Pelo contrário, atrevemo-nos a dizer que o cristianismo evangélico é o cristianismo original, apostólico, o cristianismo do Novo Testamento” [p.17]. Para fundamentar aquilo que os críticos dizem que os evangélicos são “inventores de novas doutrinas”, ele faz citação de Lutero, Hugh Latimer, John Jewel, John Wesley e Billy Graham. 

É preciso ficar claro que a fé evangélica não trouxe nenhuma doutrina nova: “Não é doutrina nossa que trazemos a vós neste dia; nós não a escrevemos, não a descobrimos, não a inventamos; nós vos apresentamos nada mais do que aquilo que nos trouxeram os antigos pais da Igreja, os apóstolos e o próprio Cristo nosso Salvador antes de nós” – John Jewel [p.17].

“Em segundo lugar, a fé evangélica não é um desvio do cristianismo ortodoxo. Não é um cristianismo alternativo nem de vanguarda, é cristianismo conservador” [p.18]. É muito interessante o que Stott escreve. Pois o termo evangélico não é um termo pejorativo. Mas, ser evangélico está ligado a própria historia do cristianismo. No século dezessete ele já era aplicado tanto aos puritanos da Inglaterra quanto aos pietistas alemães, e no século dezesseis aos reformadores. Eles se auto denominavam “evangelici”, de “evangelici viri”, “homens evangélicos”, uma designação que Lutero adotou como “die Evangelischen”. A partir daqui, Stott faz referência a homens que foram considerados evangélicos e que traz dignidade a este termo. John Wycliffe, as vezes descrito como “estrela da manhã da Reforma”, foi chamado de doctor evangelicius. Em seguida ele cita “die Evangelischen”, ou seja, homens evangélicos: Agostinho, Charles Simeon, William Wilberforce,Anthony Ashley Cooper, J. C. Ryle, Charles G. Finney, D. L. Moody e Charles Hodge. 

“Em terceiro lugar, a fé evangélica não é sinônimo de fundamentalismo. As duas coisas têm diferentes histórias e diferentes conotações” [p.20]. Acho muito importante as conceituações que Stott faz aqui.

O “fundamentalismo” (designação que hoje em dia se costuma usar como um termo teológico pejorativo) teve origens de muito respeito. Surgiu de uma série de doze livretos intitulados Os Fundamentos, que foram distribuídos entre 1909 e 1915. Os “fundamentos” em questão incluíam verdades cristãs básicas, escritos de personalidades evangélicas do porte de R. A. Torrey, B. B. Warfield, A. T. Pierson, James Orr, Campbell Morgan, J. C. Ryle e Handley Moule. A palavra “fundamentalista” foi cunhada para definir qualquer pessoa que acreditava nas afirmações centrais da fé cristã.[2]

Aos poucos, contudo, fundamentalismo foi se associando, na mente das pessoas, a certos extremismos e extravagâncias, e isso faz com que a grande maioria dos cristãos nega o rótulo de “fundamentalistas"; e, se eles o fazem, é porque discordam de muitos fundamentalistas autoproduzidos em muitos pontos de extrema importância. Daqui em diante Stott começa escrever de como foi que surgiu a diferença entre os termos Fundamentalistas e Evangélicos ou Evangelical e apresenta dez tendências a considerar no que diz respeito: ao pensamento humano, natureza, inspiração e interpretação da Bíblia, movimento ecumênico, igreja, mundo, ração, missão cristã e esperança cristã.

A definição que Stott faz de “evangélico” é uma outra coisa bastante interessante: “Quando se tenta definir o que significa ser evangélico, é inevitável que se comece com o evangelho, pois tanto nossa teologia (evangelicalismo) quando nossa ação (evangelismo) derivam seu significado e sua importância das boas novas (o evangelho). E sempre que pensamos no evangelho, há sempre três perguntas e três respostas fundamentais que vêm à nossa mente e que têm a ver com a origem, a substância e a eficácia do evangelho” [p.33].

Portanto, pelo que se entende sobre o que é o evangelho, resume-se assim: A origem do evangelho não foi especulação, mas revelação; sua substância não é a sabedoria do mundo, mas a cruz de Cristo; e sua eficácia não se deve à retórica, mas ao poder do Espírito Santo. Assim, o evangelho provém de Deus, está centrado em Cristo e sua cruz e é confirmado pelo Espírito Santo. 


CAPÍTULO 1 – A REVELAÇÃO DE DEUS: O propósito deste capítulo é explorar um aspecto importante da identidade evangélica – a autoridade das Escrituras -. Por que os evangélicos atribuem autoridade às Escrituras? E quais são as consequências de acreditarmos nisso? Para responder a esta pergunta, o autor, três perspectivas evangélica acerca das Escrituras - “revelação", “inspiração" e “autoridade".

a) Revelação - “Quando se trata de conhecer a Deus, toda a iniciativa depende d’Ele. Se Ele não se quiser revelar, nada do que façamos nos permitirá encontra-lo.” Esta citação de C. S. Lewis em sua obra “As Crônicas de Nárnia” pode causar um certo “desconforto”. Por que? Stott, responde: “No princípio do pensamento evangélico está o reconhecimento da razoabilidade lógica e óbvia da revelação. Como Deus é nosso Criador, infinito no seu ser, e nós criaturas finitas dentro do tempo e do espaço, é lógico que não podemos descobri-lo por nossas próprias pesquisas ou recursos. Ele está inteiramente além de nós. E mais: como ele é o Deus Santo, enquanto nós somos caídos, pecadores e sujeitos ao seu justo juízo, existe entre ele e nós um abismo que nós, de onde estamos, nunca poderíamos ultrapassar. Finitos e caídos como somos, não podemos A revelação de Deus alcançá-lo. Jamais poderíamos conhecê-lo (a não ser que ele tomasse a iniciativa de se fazer conhecido), e todos os altares do mundo, como aquele em que Paulo tropeçou nos arredores de Atenas, teriam de levar a inscrição AO DEUS DESCONHECIDO (At 17.23). Ele permaneceria incompreensível e inacessível a nós” [p.45-46].

- Revelação Geral ou natural – Esta é a revelação dada à partir da criação. A existência de Deus vem no observar das suas obras, da natureza, do universo, por várias manifestações que podem chegar ao conhecimento das pessoas. Por natureza o homem tem o que é chamado de “Testemunho interno” onde o espírito do homem testifica pela existência de um ser divino e isso pode ser comprovado dando o exemplo: por todas as culturas em tempos e lugares diferentes, que sempre buscaram algo superior a elas para acreditarem e colocarem a sua crença. A revelação natural é, portanto, suficiente para condenar, mas não para salvar. Devido ao estado decaído do homem, a revelação natural não é nem clara nem suficiente para que as verdades necessárias à sua salvação sejam compreendidas.

- Revelação Especial ou sobrenatural – Stott escreveu: “A revelação especial se deu através de milagre (inspiração e encarnação). Essa combinação entre inspiração e encarnação é vital. Nós, evangélicos, muitas vezes cometemos o erro de isolar a Bíblia e dar-lhe um lugar de honra. Mas o clímax da revelação de Deus foi seu Filho encarnado, o Verbo feito carne: ‘Mas nestes últimos dias nos falou por meio do Filho...’ (Hb 1.2a)” [p.49].

A revelação geral não revela Jesus Cristo ou Sua obra redentora dirigida aos pecadores. Assim, torna-se necessário aquilo que é chamado de “revelação especial”. A revelação especial é a revelação do caminho da salvação. Um dos textos bíblicos mais importantes descrevendo a revelação especial de Deus encontra-se em Hebreus 1:1-2, que diz: “Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo.” Em tempos passados, antes da conclusão das Escrituras, Deus revelou Sua obra redentora por meio dos profetas, através de sonhos, visões e teofanias. Mas, agora, a revelação especial recebeu sua forma permanente nas Escrituras do Antigo e Novo Testamento.

Para concluir esta parte, Stott estabelece escreve que além da revelação de Deus ter sido gradativa, há um outro aspecto importante que é a iluminação, ou seja, a revelação pessoal. 

“’Revelação’ neste contexto descreve um evento objetivo: o Espírito Santo expõe a glória de Deus na natureza ou através da Escritura. ‘Iluminação’, por sua vez, descreve um evento subjetivo: o Espírito Santo ilumina nossos olhos para que agora possamos ver o que ele revelou” [p. 55-56].

Iluminação, esta palavra significa "fazer a luz brilhar". Não somos inspirados simplesmente porque não recebemos a revelação, mas somos iluminados para conhecê-la: "sendo iluminados os olhos do vosso coração, para que saibais qual seja a esperança da vossa vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos" (Ef 1.18). A iluminação é para que os crentes descubram as grandes verdades reveladas por Deus na Sua Palavra e a aplicação para as suas vidas. É através da iluminação que o Espírito Santo concede aos cristãos a capacidade intelectual de compreenderem o que foi inspirado e revelado nas Escrituras. É impossível entendermos a situação de pecado sem intervenção do Espírito Santo, que produz luz em nossa consciência. A Iluminação acontece porque o homem natural não pode discerni-la (1 Co 2.14); a obra de Cristo na cruz faz sentido (1 Co 1.18); e o Espírito Santo ensina (Jo 14.26).

b) Inspiração – “Se a palavra “revelação" indica que Deus tomou a iniciativa de se fazer conhecido, a palavra “inspiração" indica como ele o fez, pelo menos tratando-se da revelação especial: foi falando com os autores humanos e por meio deles. Neste sentido a Bíblia é um livro único; nenhum outro livro se assemelha a ela” [p.60].

"Inspiração" significa que Deus soprou para dentro do autor bíblico a Sua verdade. O conteúdo das Escrituras não é uma especulação ou uma descoberta humana após uma longa e cansativa pesquisa filosófica. Mas seja qual for o método que o autor usou, ou o que Deus usou com o autor, isto é inspiração. Foi Deus quem colocou na mente e no coração do escritor bíblico a capacidade de apreender e de registrar Sua Palavra. Assim dizemos que a Bíblia nasceu no coração e na mente de Deus. E Ele soprou Suas idéias para o homem. Isto é inspiração.

c) Autoridade“Se a palavra ‘revelação’ enfatiza a iniciativa de Deus, dando-se a conhecer, e ‘inspiração’ denota o processo que ele usou, então ‘autoridade’ indica o resultado. Já que as Escrituras são revelação de Deus através do Espírito, elas têm autoridade sobre nós” [p.71].

Os Reformadores recuperaram a doutrina da autoridade das Escrituras canônicas que havia sido soterrada durante a Idade Média. Eles rejeitaram a autoridade e infalibilidade papal e re-estabeleceram a autoridade e infalibilidade das Escrituras. Entenderam que este conceito é derivado da própria escritura e tem raízes nos profetas do Antigo Testamento, no Senhor Jesus e seus apóstolos. Assim, a Escritura passou a ser o Juiz Supremo nas Igrejas protestantes e na vida individual, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores e as doutrinas de homens e opiniões particulares têm de ser examinadas.


CAPÍTULO 2 – A CRUZ DE CRISTO: Neste capítulo Stott apresenta a importância da cruz e todos os seus gloriosos benefícios que Cristo conquistou por meio dela e faz um convite aos leitores: “Se o primeiro fundamento da fé cristã evangélica é a revelação de Deus na Bíblia, o segundo é a cruz de Cristo, junto com todos os gloriosos benefícios que ele conquistou por meio dela. Eu os convido a refletirem comigo neste capítulo sobre uma das mais surpreendentes declarações que o apóstolo Paulo já fez – o que é uma afirmação um tanto ousada da minha parte, uma vez que ele é o autor de um bom número de declarações surpreendentes. Mas eu me refiro aqui à que se encontra em Gálatas 6.14 – Mas longe de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo” [p.89].

Não há doutrina no cristianismo tão importante quanto a doutrina do Cristo crucificado. Não há nenhuma que o diabo tente tão avidamente destruir. Não há nenhuma tão necessária à nossa própria paz para entendermos. Por “Cristo Crucificado”, refiro-me à doutrina de que Cristo sofreu a morte na cruz para reparar-nos de nossos pecados; que por Sua morte, Ele cumpriu a mais plena, perfeita e completa satisfação de Deus para com os descrentes; e, através dos méritos dessa morte, todos os que acreditaram n’Ele foram perdoados de todos os seus pecados, mesmo sendo estes muitos e grandes, foram inteiramente perdoados e para sempre.

Stott cita os quatro benefícios: Primeiro, na cruz, somos aceitos por Deus; Segundo, na cruz, somos justificados pela fé; Terceiro, na cruz, somos moldados e perdoados; Quarto, na cruz, temos uma mensagem para o mundo.

Sobre o segundo benefício da cruz – Justificados pela fé -, o que temos a comentar é que em nossos dias, a verdade bíblica da justificação pela fé é desconhecida ou mal compreendida por muitos evangélicos. No entanto, ela foi a questão central levantada pela Reforma Protestante do século 16. Assim como o “sola Scriptura” foi denominado o “princípio formal” da Reforma, porque a Bíblia é a fonte de onde procedem todas as autênticas doutrinas cristãs, a justificação mediante a fé é o seu “princípio material”, porque envolve a própria substância ou essência do que se deve crer para a salvação. João Calvino, o pai espiritual das igrejas reformadas, referiu-se a essa doutrina como “o principal ponto de apoio sobre o qual se articula a religião” (Institutas 3.11.1). Ele tratou desse conceito em uma das seções mais longas da sua obra principal (Livro III, Caps. XI-XIX), onde lhe deu a seguinte definição: “Interpretamos a justificação simplesmente como a aceitação pela qual Deus nos recebe em seu favor como homens justos, e dizemos que ela consiste na remissão dos pecados e na imputação da justiça de Cristo” (3.11.1).

Stott, conclui este capítulo afirmando que: “Mas, no final das contas, só nos resta uma alternativa: ou nos gloriamos em nós mesmos e em nossas próprias conquistas, ou nos gloriamos em Cristo e naquilo que ele alcançou na cruz. Não há possibilidade de concessão. Uma marca inequívoca do cristianismo evangélico genuíno é o fato de nós só nos gloriarmos na cruz de Cristo” [p.113].


CAPÍTULO 3 – O MINISTÉRIO DO ESPIRITO SANTO – Neste capítulo fala do terceiro aspecto mais marcante do Evangelho que é o ministério do Espírito Santo. Para Stott, a Bíblia, a cruz e o Espírito Santo tornam-se a tríade fundamental em que se baseiam as verdades do Evangelho. Ou, dito de outra forma, a fé evangélica procura honrar as três pessoas da Trindade estabelecendo como seu foco central a revelação de Deus, a cruz de Cristo e o ministério do Espírito Santo. É Ele – o Espírito Santo – quem nos capacita a viver cada vez mais a plenitude daquilo que Deus disse e realizou na pessoa de Jesus Cristo.

Stott explica que a melhor forma de se compreender quão indispensável é a obra do Espírito Santo seja considerando um por um os seis estágios ou aspectos do discipulado cristão, a começar pelo novo nascimento e encerrando com a esperança cristã, e demonstrar como cada um deles seria impossível sem a atuação do Espírito Santo.

a) O Novo Nascimento – O novo nascimento é uma obra monergística do Espírito Santo. Nascer de novo é nascer de cima, do alto, do Espírito. Stott ensina que o novo nascimento é obra de Deus, é imediato, não é uma experiência consciente e não é a mesma coisa que batismo. 

Conclui: “O novo nascimento é uma mudança interior, profunda e radical efetuada pelo Espírito Santo no recôndito mais íntimo da personalidade humana” [p.122].

b) Segurança Cristã – Todo cristão evangélico não só concorda, mas afirma que a presença do Espírito Santo em nós é a marca por excelência que identifica o povo de Deus hoje; assim, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele (Rm 8.9). Portanto, a habitação do Espírito Santo em nós é o selo pelo qual Deus indica que pertencemos a ele. Um dos principais ministérios do Espírito que habita em nós é proporcionar ao povo de Deus a certeza de salvação por seu relacionamento com ele. 

Stott conclui: “A segurança do cristão está alicerçada, acima de tudo, na cruz. Nós só podemos saber que fomos perdoados porque Cristo assumiu os nossos pecados, carregando-os em nosso lugar, e porque ele o fez de forma completa e consumada. Pois Cristo fez na cruz ao oferecer-se a si mesmo uma única vez (...) um sacrifício pleno, perfeito e suficiente, oblação e satisfação, pelos pecadores do mundo inteiro” [p.128].

c) Santidade Cristã – Um dos grandes propósitos do Espírito Santo é santificar o povo de Deus. A promessa de Deus no Antigo Testamento, porei dentro em vós o meu Espírito, continua: e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis (Ez 36.27). De fato, as duas promessas mais diretas de Deus no Antigo testamento são estas. A história do evangelicalismo tem sido uma história de busca por santificação. Esta é uma marca que se encontra em todos os séculos: nos reformados, nos puritanos, nos petistas, nos metodistas e em diversos movimentos evangélicos mais recentes. Em nenhum destes predomina algum tipo específico de ensino com relação á santidade. 

Stott conclui: “O Novo Testamento não promete em lugar algum, nem a erradicação do mal, nem a possibilidade de uma perfeição sem pecado – pelo menos nesta vida. Pelo contrário, nós estamos em uma jornada; somos peregrinos que se destinam à cidade celestial. Assim como Paulo, ainda não ‘chegamos lá’ nem ‘fomos aperfeiçoados’, mas prosseguimos para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por cristo Jesus (Fp 3.12)” [p.134].

d) Comunidade Cristã - A Bíblia chama a igreja de a família de Deus (Ef 2.19). Família “tanto no céu como sobre a terra” (Ef 3.14-15). É o lar de todos os que pertencem a Deus. A Bíblia fala da igreja como a noiva de Cristo. O Senhor enxerga nela uma beleza cada vez mais radiante; partilha com ela de amor e intimidade profundos. A igreja é mais preciosa para Cristo do que a esposa para seu esposo. A Bíblia também denomina a igreja de o corpo de Cristo. A igreja, como corpo de Cristo, está viva com o Espírito de Cristo e realiza no mundo a obra de Jesus. 

Concluindo este aspecto, Stott diz: “A igreja se encontra no centro do eterno propósito histórico de Deus; e que a igreja faz parte do Evangelho. Além do mais, a igreja está em continuidade direta com o Israel do Antigo Testamento. Portanto, a rigor, não é certo referir-se ao Pentecostes como ‘o dia do nascimento da igreja’, pois a igreja como povo da aliança de deus passou a existir uns dois mil antes disso, com Abraão. O que aconteceu no dia de Pentecostes foi que o povo de Deus tornou-se o corpo de Cristo cheio do Espírito santo. Ela é chamada também de a comunhão do Espírito (2Co 13.13; cf Fp 2.1) porque é a nossa comunhão (koinonia), o fato de fazermos parte desse corpo, que nos faz ser igreja” [p.136].

e) A Missão Cristã – A missão sempre foi uma preocupação dos evangélicos, principalmente a missão mundial da igreja. Evangelicalismo e evangelismo, como as próprias palavras indicam, estão inevitavelmente interligados. E, como evangélicos que somos, uma das coisas que enfatizamos no evangelismo é que o evangelista principal é o Espírito Santo. Ele é um Espírito missionário e o Pentecostes foi um evento missionário. 

Stott afirma: “Esse elo entre o Espírito Santo e a missão cristã é indissolúvel. Negligenciar a missão é contradizer o próprio ser do Espírito Santo. Consequentemente, uma igreja cheia do Espírito tem duas marcas essenciais: seu alcance compassivo na comunidade local e a seriedade do seu compromisso com a missão global” [p.142].


CONCLUSÃO – Essa conclusão tem um título. O DESAFIO DA FÉ EVANGÉLICA. Nos capítulos anteriores foram ressaltados a forma trinitária da fé evangélica. Os capítulos de 1 ao 3, enfatizaram cada aspecto do nosso discipulado: A Palavra, a Cruz e o Espírito santo como as três ênfases evangélicas essenciais. Além de todo esta apresentação, Stott afirma que ser cristão evangélico não é só seguir uma fórmula, por mais ortodoxa que esta seja em sua trinitarismo. Muito mais do que uma crença, a fé evangélica abrange o nosso comportamento; ela traz em seu bojo um desafio que, em suas mais variadas facetas, exige que vivamos em conformidade com a nossa fé. 

O maior desafio da fé evangélica é viver de maneira a honrar a fé evangélica. Ele usa como texto o que o apóstolo Paulo escreveu em Filipenses 1.27-30. A partir deste texto, ele extrai quatro preocupações que Paulo tinha com os crentes de Filipos e os convoca à fidelidade em cinco áreas da vida: O chamado à integridade evangélica, ou a viver uma vida digna do Evangelho; O chamado à estabilidade evangélica, ou a permanecer firme no Evangelho; O chamado à verdade do Evangelho, ou a lutar pela fé evangélica; O chamado à unidade evangélica ou a trabalhar juntos pelo Evangelho e o chamado a perseverança evangélica, ou a sofrer pelo Evangelho.

Stott, conclui afirmando: “Não há como não sermos tocado pelas recomendações que nos traz, através dos séculos, a Carta de Paulo aos cristãos de Filipos. O apóstolo nos chama a vivermos uma vida digna do Evangelho, a permanecermos firmes nele, a lutarmos por ele com afinco, a combatermos por ele em unidade e a nos dispormos a sofrer por ele. Tudo isso faz parte do desafio de manter a fé evangélica nos dias de hoje” [p.165].


Finalmente, na última parte deste magnífico livro, temos o POSFÁCIO [3] que John Stott intitula de A EXCELÊNCIA DA HUMILDADE. Na explicação final deste livro, mais uma vez nos chama atenção que o cristianismo evangélico é um cristianismo trinitário – revelação, redenção e regeneração – associando a revelação com o Pai, a redenção com o Filho e a regeneração com o Espírito Santo. Essas principais doutrinas que os cristãos evangélicos cultivam, se bem compreendidas, tendem a desembocar inevitavelmente na humildade.

Stott, neste final, ele nos diz: “Quanto mais as pessoas da Trindade são glorificadas, mais completamente o orgulho humano é excluído. Glorificar a autorrevelação de Deus é confessar a nossa completa ignorância sem ela. Enaltecer a cruz de Cristo é confessar a nossa total perdição sem ela. Engrandecer o papel regenerador do e santificador do Espírito Santo em nós é confessar o nosso eterno egocentrismo sem ele” [p.168].

RECOMENDO.
Livro disponível in:
Editora Esperança
https://goo.gl/GKHKan

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[1] Unidade, Liberdade e Caridade. John Stott, publicado in: http://www.monergismo.com/textos/advertencias/cristianismo_equilibrado.htm
[2] Se você deseja conhecer mais sobre o que é o Fundamentalismo e Fundamentalista, há um texto escrito pelo Rev. Augustus Nicodemus e publicado em três partes pela Revista Teologia Brasileira, veja os links
Parte 1 - http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=29
Parte 2 - http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=30
Parte 3 - http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=31
[3] Texto de teor explicativo que, acrescentado no final de livro (depois de sua finalização), adverte ou explica o que for conveniente.