terça-feira, 8 de agosto de 2017

O FOCO EVANGÉLICO DE CHARLES SPURGEON


Saudado como o maior pregador da Inglaterra do Século XIX, podemos defender que Charles Haddon Spurgeon foi o pregador mais proeminente de qualquer século. Considerado o expositor mais bem sucedido dos tempos modernos, Spurgeon lidera virtualmente toda lista de pregadores de renome. Se João Calvino foi o maior teólogo da igreja, Jonathan Edwards o maior filósofo, e George Whitefield o maior evangelista, certamente Spurgeon lidera como seu maior pregador. Jamais um homem se postou atrás de um púlpito, semana apos semana, ano após ano, por quase quatro décadas, pregando o evangelho com maior sucesso mundial e impacto duradouro do que Spurgeon. Ate hoje, ele permanece sendo o"Príncipe dos Pregadores.

Através dos séculos, expositores como Martinho Lutero, Ulrich Zuínglio, João Calvino e inúmeros outros, tiveram compromisso de pregar expondo livros inteiros da Bíblia versículo por versículo. Contudo, não era essa a abordagem de Spurgeon.  Embora fosse "pregador expositivo por excelência, Spurgeon extraía suas mensagens de um livro da Bíblia diferente a cada semana. Esse estilo livre o destacou de outros grandes pregadores, colocando-o primeiro e mais notavelmente, como expositor evangelístico.

Por todo seu prolífico ministério, Spurgeon era consumido por zelo pelo evangelho. Sua prática era isolar um ou alguns versículos como trampolim para a proclamação do evangelho. Ele afirmava: “Tomo o meu texto e sigo em linha direta até a cruz.” Cada vez que Spurgeon subia ao púlpito, ele visava intensamente a salvação dos pecadores mediante a proclamação da mensagem salvadora de Jesus Cristo. Como disse Hughes Oliphant Old, Spurgeon foi enviado "em um tempo determinado, a um lugar específico, para pregar o evangelho da salvação eterna das almas para a glória eterna de Deus”. Talvez ninguém possa ser comparado a Spurgeon como pastor evangelista.

Embora ele amasse profundamente a teologia, Spurgeon declarou: "Prefiro levar um pecador a Cristo que desvencilhar todos os mistérios da Palavra divina". Ele tinha verdadeiro prazer na busca da salvação dos perdidos. Eis como Spurgeon descreveu a importância central do evangelismo em seu ministério:

“Prefiro ser o meio para a salvação de uma alma da morte que ser o maior orador sobre a terra. Prefiro conduzir a mulher mais pobre do mundo aos pés de Jesus que ser o Arcebispo da Cantuária. Prefiro arrancar uma única brasa do fogo que explicar todos os mistérios. Ganhar uma alma, evitar que ela vá à cova, é um feito mais glorioso do que ser coroado na arena da controvérsia teológica... desvendar fielmente a glória de Deus na face de Cristo será, no julgamento final, considerado serviço mais digno que desvencilhar os problemas da Esfinge religiosa ou cortar o nó gordíano das dificuldades apocalípticas. Um de meus mais felizes pensamentos é que, quando eu morrer, será meu privilégio estar junto ao peito de Cristo, e sei que não gozarei do céu sozinho. Milhares já entraram ali, atraídos a Cristo no meu ministério. Ah! Que gozo será voar para o céu e encontrar uma multidão de convertidos antes e depois de mim.”

Entender esse foco evangelístico de Spurgeon é sentir o pulso do seu próprio coração. Compreender esse seu zelo evangelístico é tocar o nervo vivo de sua alma. Em termos simples, Spurgeon era compelido a pregar o evangelho e ajuntar os perdidos. Como expositor, Spurgeon possuía verdadeiro coração de um ganhador de almas.

Vamos iniciar nossa avaliação do ministério evangélico de Spurgeon considerando sua vida e legado extraordinários.


NASCIDO E NASCIDO DE NOVO

Descendente de huguenotes franceses e reformados holandeses, Charles Haddon Spurgeon nasceu em 19 de junho de 1834, em uma pequena casa em Kelvedon, Essex, Inglaterra. Muitos de seus antepassados protestantes tinham sido expulsos de suas terras natais pela perseguição, e se refugiaram na Inglaterra. Spurgeon costumava dizer: “Muito prefiro ser descendente de alguém que sofreu pela fé do que ter correndo em minhas veias o sangue de todos os imperadores”. Seu pai, John, e seu avô James, eram, ambos, ministros independentes que pastoreavam fielmente suas congregações. Charles foi o mais velho de dezessete filhos. Seu irmão mais novo, James, mais tarde serviria como seu co-pastor no Tabernáculo Metropolitano de Londres. Os filhos gêmeos de Charles também o seguiriam no ministério.

Quando sua mãe estava prestes a dar à luz ao segundo filho, o pequeno Charles, de dois anos de idade, foi mandado para Stambourne, cidade próxima, para morar com seu avô, onde permaneceria até os seis anos de idade. Durante esse período e em visitas subseqüentes ao avô, Charles foi exposto a muitas obras puritanas, incluindo O Peregrino de John Bunyan, o Chamado aos Não Convertidos, de Richard Baxter, e Alarme aos não convertidos, de Joseph Alleine. Apesar da influência espiritual de sua família e de ter sido exposto a tais livros, Spurgeon permanecia não convertido. Ele relembra: “Desde minha mocidade eu ouvira o plano da salvação pelo sacrifício de Jesus, mas não sabia mais em minha alma interior do que se eu tivesse nascido e sido criado como hotentote. Lá estava a luz, mas eu era cego”.

No domingo pela manhã, em 6 de janeiro de 1850, aos quinze anos. Charles caminhava para a igreja no vilarejo de Colchester, quando uma tempestade de neve o impeliu a se abrigar em uma pequena igreja metodista primitiva. Só havia uma dúzia de pessoas assistindo, e mesmo o pastor não conseguiu chegar. Um pastor leigo relutante foi à frente para explicar o texto de Isaías 45.22: “Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro". Essa figura humilde exortava a pequena congregação a olhar pela fé somente para Jesus Cristo. Fitando os olhos no jovem Spurgeon, ele instou:

- Jovem, olhe para Jesus. Olhe, olhe! Olhe! Você nada mais tem a fazer do que olhar para Jesus e viver!

Como uma seta mandada pelo arco do céu, o evangelho atingiu o alvo que intencionou. Escreveu Spurgeon: "Imediatamente eu vi o caminho da salvação. Foi como quando a serpente de bronze foi levantada, as pessoas olharam e foram curadas - assim aconteceu comigo". Olhando pela fé para Cristo, foi convertido de forma dramática. Consumido pela alegria, mal podia se conter, "mesmo por cinco minutos, sem tentar fazer alguma coisa por Cristo". Essa energia sem limites marcaria sua vida daquele momento em diante. Em 4 de abril, 1850, foi admitido à comunhão da Igreja Batista St. Andrews, sendo logo depois batizado e participando pela primeira vez da Ceia do Senhor.

Com zelo crescente, Spurgeon, aos dezesseis anos, pregou seu primeiro sermão em uma pequena casa em Teversham, perto de Cambridge. Seu dom para a pregação foi imediatamente reconhecido. Com apenas dezessete anos, Spurgeon foi feito pastor de uma igreja Batista rural no minúsculo vilarejo de Waterbeach. Na Capela Batista de Waterbeach, Spurgeon pregou o evangelho com poder extraordinário e resultados marcantes. Apesar de estar em uma vila conhecida por seus hábitos devassos, essa humilde capela batista cresceu nos dois anos seguintes, de quarenta para mais de cem membros.


CAPELA DE NEW PARK STREET

Relatos a respeito desse prodígio da pregação logo chegaram a Londres. Em 18 de dezembro de 1853, Spurgeon foi convidado a pregar na maior e mais famosa igreja Batista calvinista de Londres, a nova capela da Park Street. Essa igreja histórica, ferrenhamente calvinista, tinha sido pastoreada por homens ilustres tais como Benjamin Keach (1640-1704), John Gill (1697-1771), e John Rippon (1750-1836), mas tinha caído em sério declínio. Apenas umas duzentas pessoas estavam se reunindo em um prédio que havia sido construído para abrigar mil e duzentas. Após pregar ali por três meses, Spurgeon, aos dezenove anos, foi chamado para pastorear ali. Ele pastoreou fielmente o rebanho de New Park Street até a sua morte trinta e oito anos mais tarde.

Com a pregação de Spurgeon, a Capela de New Park Street cresceria instantaneamente. Dentro de poucos meses, a congregação estaria com quinhentos membros assistindo com regularidade. Depois do primeiro ano, o prédio não podia conter as multidões que vinham ouvir sua pregação. A capela foi aumentada para caber mil e quinhentas pessoas, e depois, mais quinhentas em pé. Assim mesmo, as pessoas estavam abarrotadas contra as paredes e pelos corredores, apertadas nos peitorais das janelas. Logo a igreja começou a distribuir ingressos para as pessoas assistirem até mesmo o culto do meio da semana. As ruas ficaram impedidas pelo trânsito no bairro em volta da capela. Londres não havia testemunhado surgimento tão meteórico desde os dias da pregação empolgante de George Whitefield.

Em meio a esse imenso crescimento. Charles conheceu Susannah Thompson, membro de sua congregação. Da amizade logo nasceu a atração, e os dois se casaram em 8 de janeiro de 1856, na Capela de New Park Street, que transbordava de convidados. O afeto que tinham um pelo outro jamais diminuiu. Infelizmente, após o nascimento dos filhos gêmeos no fim de 1856, Susannah ficou semi-inválida. Confinada a sua casa durante longos períodos em toda sua vida adulta, Susannah não podia ouvir Charles pregar. Apesar dessa aflição, permaneceu como fonte de forte encorajamento para ele, supervisionando um ministério profícuo que oferecia os livros de seu marido para o uso de pastores e missionários.

Logo as multidões forçaram a mudança da igreja para Exeter Hall, um enorme prédio público onde cabiam quatro mil assentados, e lugar para mais mil pessoas de pé. Porém, mesmo essa grande estrutura foi insuficiente para conter as multidões crescentes. Centenas de pessoas eram mandadas embora a cada semana, e ficou claro que teriam de construir um prédio maior para a congregação que crescia tão rapidamente. Foram feitos planos para o que se tornaria o famoso Tabernáculo Metropolitano, a maior casa de culto protestante de todo o mundo.

Enquanto isso, Spurgeon mudou sua congregação crescente para um lugar ainda maior, o Salão Musical dos Jardins Reais de Surrey. Este imenso edifício, com três  grandes sacadas, tinha lugar para doze mil pessoas sentadas. No primeiro culto, em 19 de outubro de 1856, a gigantesca estrutura ficou cheia desde o chão até o teto, e milhares foram mandados embora. Mas sucedeu a catástrofe: alguém na galeria gritou: Fogo! Seguiu-se o pânico e, enquanto as pessoas corriam para fugir, muitas foram pisoteadas e várias morreram - uma tragédia que deixou desolado o jovem Spurgeon.

Faltando apenas um domingo, Spurgeon voltou a pregar às imensas multidões. Com descrentes incontáveis assistindo, cada culto era ocasião de evangelismo. Spurgeon e outros conversavam com os convertidos às terças-feiras à tarde. Tantas almas perdidas foram salvas que Spurgeon disse que nunca havia pregado sermão no Salão de Música sem que Deus não salvasse alguém. Numa época quando Londres era a metrópole mais famosa do mundo, seu povo abraçou Spurgeon como ninguém jamais aceitara outro pregador.


PRIMEIRAS PROVAÇÕES E TRIUNFOS

Contudo, nem tudo corria bem. Com a popularidade instantânea de Spurgeon, veio também forte oposição a ele. A imprensa londrina difamava-o como sendo religioso grosseiro com motivações egoístas. Repetidamente, foi objeto de zombaria, chamado de "demagogo de Exeter Hall", "bufão do púlpito", e "maravilha de nove dias".  Além disso, defensores da teologia arminiana o atacavam com o que julgavam ser o pior de todos os insultos, chamando-o de "pavoroso calvinista". Por sua vez, os hiper-calvinistas o criticavam por ser aberto demais em oferecer o evangelho de graça a todos. Spurgeon admitia: "Meu nome é chutado pelas ruas como uma bola de futebol".

Providencialmente, essa perseguição atraiu mais aliados ao seu lado, especialmente pregadores jovens. Embora Spurgeon não tivesse grau universitário e não tivesse freqüentado o seminário, fundou a Faculdade de Pastores (Pastor's College) quando contava apenas vinte e dois anos de idade. Enfocando o treinamento de pregadores, não de acadêmicos, ele admitia somente aqueles que já estavam ocupando algum púlpito. Durante os primeiros quinze anos, Spurgeon assumia pessoalmente todas as despesas do curso com a venda de seus sermões semanais. Além disso, ele fazia palestras aos alunos às tardes de sexta-feira, destacando algum aspecto específico da pregação do evangelho. Essas palestras tomaram-se o texto de seu amado livro, Lectures to my students (Lições aos meus alunos). Durante sua vida, Spurgeon viu quase mil homens treinados ao ministério em sua faculdade.

Em 1857, a Inglaterra sofreu uma trágica derrota na índia, e foi proclamado um Dia de Humilhação Nacional. Em 7de outubro, quando tinha apenas vinte e três anos, Spurgeon pregou no gigantesco Palácio de Cristal a um auditório de 23.654 pessoas – o maior ajuntamento de pessoas em um recinto fechado de seus dias. Os trens corriam por Londres levando as pessoas a ouvir a mensagem extraída de Miqueias 6.9: "Ouvi, ó tribos, aquele que a cita". Esse discurso nacional era forte declaração sobre a soberania de Deus sobre a Inglaterra. A derrota, disse Spurgeon, provinha de Deus com o intuito de humilhar a nação orgulhosa.

Por meio de seus sermões impressos, a influência de Spurgeon se espalhou por toda a Inglaterra e pelo mundo. Na segunda-feira de manhã, o sermão escrito de Spurgeon era entregue para ser editado, e na quinta-feira, era publicado. Estes sermões eram então vendidos por um penny cada, e assim, as mensagens eram chamadas "The Penny Pulpit" (O púlpito de um centavo). Mais de vinte e cinco mil cópias eram vendidas a cada semana. Esses sermões eram ainda telegrafados pelo Atlântico para os Estados Unidos, onde eram impressos pelos grandes jornais. Eventualmente, foram traduzidos para quarenta línguas e distribuídos por todo o globo. Os sermões eram vendidos por distribuidores de folhetos, lidos nos hospitais, levados às prisões, pregados por leigos, guardados com carinho por marinheiros elevados adiante por missionários. Pela palavra impressa, estima-se que a congregação de Spurgeon chegava a não menos que um milhão de pessoas.


UMA ONDA CRESCENTE DE REAVIVAMENTO

O ano de 1859 foi o mais extraordinário do ministério de Spurgeon. Foi o último ano em que sua igreja se reuniu no Salão de Música de Surrey. Um tempo de fervoroso reavivamento foi experimentado sob os sermões mais calvinistas, e no entanto mais evangelísticos, de seu ministério. Essas mensagens de poder do Espírito incluíram: "Predestinação e chamado" (Rm 8.30), "A necessidade da Palavra do Espírito" (Ez 36.27), "A história dos poderosos feitos de Deus" (SI 44.1), e "O sangue da eterna aliança" (Hb 13.20).

No entanto, essa surpreendente estação nos jardins de Surrey terminou abruptamente. Spurgeon ficou sabendo que a igreja de New Park Street teria de compartilhar o local com programas de diversão aos domingos, que ele considerava uma quebra da guarda do dia de descanso. Spurgeon disse que mudaria os cultos, caso tais entretenimentos fossem permitidos. Mas os proprietários do Music Hall recusaram ceder. Por sua vez, o jovem pregador declarou: "Se eu cedesse, meu nome deixaria de ser Spurgeon. Não posso ceder naquilo que sei ser o certo, e não o farei. Na defesa do santo sábado do Senhor, o grito deste dia é; “Levantemo-nos e saiamos daqui!”. Para não fazer concessões, Spurgeon mudou sua congregação de volta ao Exeter Hall com espaço bem menor, demonstrando ser homem de
princípios e não pragmatismo.

Em 11 de dezembro de 1859, em seu último sermão no Music Hall, Spurgeon pregou sobre "O adeus do ministro”, fazendo uma exposição de Atos 20.26-27, em que anunciou ter declarado, nesse lugar, "todo o conselho de Deus". Uma pessoa que assistiu escreveu suas impressões sobre a pregação de Spurgeon naquele dia:

Como ele se deleitou em sua pregação naquela manhã! Fazia muito calor, e ele limpava a transpiração de sua testa; porém seu desconforto não afetou o seu discurso. Suas palavras fluíam como uma torrente de sagrada eloqüência... O Sr. Spurgeon pregou sincero sermão sobre haver declarado todo o conselho de Deus. Sempre há algo de triste em falar das últimas coisas, e eu saí de lá sentindo que das experiências mais felizes de minha mocidade pertencia ao passado. Assim também - na minha opinião - pertencia ao passado o período mais romântico ate mesmo na vida maravilhosa do Sr. Spurgeon.


O TABERNÁCULO METROPOLITANO

Naquele mesmo ano, iniciou-se a construção do Tabernáculo Metropolitano. Em 15 de agosto foi firmada a pedra fundamental. Durante a cerimônia, Spurgeon declarou sua fidelidade inabalável às doutrinas da graça soberana de Deus: "Cremos nos grandes Cinco Pontos conhecidos como calvinismo. Olhamos para estes como cinco grandes lâmpadas que auxiliam em irradiar a cruz”. Enquanto estava sendo construído o imenso prédio, Spurgeon viajou ao Continente europeu em junho e julho de 1860. Ao chegar em Genebra, na Suíça, foi recebido como um segundo Calvino. Insistiram que ele pregasse no púlpito do grande reformador e deram-lhe a oportunidade de vestir sua toga, rara honra que ele não podia recusar.

Em 18 de março de 1861, o Tabernáculo Metropolitano foi oficialmente inaugurado. Nesta grandiosa ocasião, Spurgeon pregou sobre uma visão geral das doutrinas da graça, para então convidar cinco outros pregadores a pregar especificamente sobre cada um dos cinco pontos do calvinismo. Tal ação revelou a firme fé de Spurgeon de que essas verdades exaltam a Deus e formam o coração do evangelho. Spurgeon cria que as doutrinas da graça soberana, longe de impedir o evangelismo, são grandes ganhadoras de almas. As verdades sobre o amor do Deus que elege e redime, infundiram na sua pregação poder para ganhar almas e trouxeram muitas almas para a fé em Cristo.

De tamanho sem paralelos, o Tabernáculo Metropolitano foi o maior santuário na história da igreja protestante. Com lugar para seis mil pessoas sentadas, acomodava um dos maiores rebanhos da igreja desde o tempo dos apóstolos. Até a sua morte, trinta e um anos mais tarde, o Tabernáculo esteve cheio de manhã e de noite a cada domingo. Spurgeon pediu que cada membro deixasse de freqüentar um culto a cada trimestre para dar mais espaço para os não-convertidos se assentarem. Sua congregação era composta principalmente de pessoas comuns, de todas os tipos de vida, mas atraía também as elites, inclusive o primeiro ministro William Gladstone, membros da família real, dignitários do Parlamento, e pessoas notáveis tais como John Ruskin, Florence Nightingale e General James Garfield, que mais tarde foi presidente dos Estados Unidos.

Durante a semana, Spurgeon pregava até dez vezes em lugares diferentes de Londres e vizinhanças, incluindo áreas longínquas como a Escócia e Irlanda. A presença de Spurgeon em qualquer púlpito dava ousadia aos pastores locais e encorajava seus rebanhos. Com sua fama crescente, Spurgeon foi convidado repetidas vezes para pregar na América. No entanto, recusava esses convites transatlânticos, preferindo manter o Tabernáculo como centro de seu ministério. As pessoas o advertiam de que ele se quebraria física e emocionalmente, sob o estresse de tão expansiva pregação, ao que Spurgeon respondeu: "Se eu fizer isso, estarei feliz e repetiria novamente o mesmo. Se eu tivesse cinqüenta constituições [corpos], eu me alegraria em vê-las todas quebradas no serviço do Senhor Jesus Cristo". Acrescentou ainda: "Encontramo-nos capazes de pregar dez, doze vezes por semana, e descobrimos estar mais fortes devido a isso... 'Ah', disse um dos membros, 'nosso pastor vai morrer disso.' [...] Mas esta é a espécie de trabalho que não mata ninguém. O que mata bons ministros é pregar a congregações sonolentas". Spurgeon encontrava força na pregação.


ADVERSIDADES E AVANÇOS

Logo maiores controvérsias envolveram Spurgeon. Em 1864, entrou no que veio a ser chamado Controvérsia da Regeneração Batismal, um confronto com a igreja anglicana, a qual afirmava ser o batismo necessário para a remissão dos pecados. Spurgeon via tal ensino como uma corrupção do evangelho, e assim, se pronunciou contra ela. Mas ao fazer isto, foi condenado por intrusão sobre a consciência dos membros da Igreja Anglicana. Spurgeon foi forçado a retirar-se da Aliança Evangélica, da qual era uma figura de destaque. No meio deste conflito, Spurgeon lançou uma revista mensal, The Sword and the Trowel (A Espada e Colher de Pedreiro), visando refutar os erros teológicos da época e defendendo a pureza do evangelho.

Spurgeon também estava ocupado com a propagação do evangelho. Em 1866, fundou a Associação Metropolitana de Colportores para a distribuição de literatura evangélica. De 24 de março até 21 de abril de 1867, o edifício do Tabernáculo estava sendo reformado, e os cultos de domingo passaram a ser realizados no Agrícultural Hall de Islington. Mais de vinte mil pessoas assistiram cada um desses cinco cultos memoráveis, entre as maiores de todas as congregações a que Spurgeon se dirigiu. Naquele mesmo ano, inaugurou o Orfanato Stockwell para meninos. Em 1868, fundou albergues para os pobres. Em 1879, Spurgeon deu início ao orfanato para meninas. Ao todo, sob a liderança de Spurgeon, cerca de mil membros enérgicos estavam proclamando o evangelho de forma ativa pela cidade de Londres, em diversos ministérios. Além disso, 127 pregadores leigos estavam servindo em vinte e três centros missionários espalhados por toda a cidade de Londres. Em seu aniversário de cinqüenta anos, foi lida uma lista de sessenta e seis organizações que Spurgeon fundara com o propósito de difundir a mensagem do evangelho.

Vários anos mais tarde, em 1887, Spurgeon entrou em mais um conflito, desta vez o maior de todo seu ministério, chamado de Controvérsia do Declínio (Downgrade Controversy). Ele falou em defesa do evangelho, confrontando o declínio doutrinário que prevalecia em muitos púlpitos. Comparou a Igreja Batista com um trem que havia alcançado o cume de uma alta passagem montanhosa e estava descendo vertiginosamente pela íngreme estrada, aumentando a velocidade enquanto mergulhava para baixo. Quanto mais ela descia a montanha escorregadia, maior seria sua destruição, contendia ele. Advertiu fortemente contra a diminuição da autoridade da Escritura, que resultava em divertimentos mundanos, técnicas de teatro de variedades, e, em muitas igrejas de seus dias, uma atmosfera parecida com a de circos.

Mas as palavras severas de Spurgeon caíram sobre ouvidos surdos. Em movimento ousado, ele se retirou da União Batista em 26 de outubro de 1887. Alguns diziam que ele deveria começar nova denominação, mas ele recusou. Na reunião anual da União Batista de 1888, foi acatada uma proposta de censura a Spurgeon. Em triste guinada da historia, ela foi apoiada por seu irmão James, seu co-pastor no Tabernáculo, que acreditava, erradamente, que a proposta pedia a reconciliação. Essa controvérsia o entristeceu de tal modo que contribuiu para sua morte prematura apenas quatro anos mais tarde.


OS DIAS FINAIS

Em seus últimos anos, Spurgeon sofreu de diversos males físicos, incluindo doença dos rins e gota. Com o declínio de sua saúde, Spurgeon pregou o que seria seu ultimo sermão no Tabernáculo em 7de junho de 1891. Em grande sofrimento, afastou-se para descansar na cidade de Mentone, na Riviera francesa. Ali morreu em 31 de janeiro de 1892. O "Príncipe dos Pregadores" contava apenas cinqüenta e sete anos de idade.

Foi feito um culto fúnebre primeiro na França. Então, o corpo de Spurgeon foi levado de volta a Londres, onde na quarta-feira, 10 de fevereiro, foram oficiados quatro cultos fúnebres – um para os membros do Tabernáculo, um para pastores e alunos, outro para obreiros cristãos, e outro ainda para o público em geral. Um sexto culto (e final) foi realizado no dia seguinte. Ao todo, cerca de sessenta mil enlutados prestaram homenagens a essa figura colossal. Um cortejo fúnebre de mais de duas milhas (3,2 km) seguiu o carro funerário do Tabernáculo até o cemitério em Norwood, com cem mil pessoas em pé ao longo do caminho. As bandeiras estavam a meio-mastro. Lojas e pubs permaneceram fechados. Era como se tivesse morrido um membro da família real.

Em cima de seu caixão, foi colocado uma Bíblia, aberta em Isaias 45.22 – o texto que o levara à fé salvadora em Cristo quando ele era adolescente. Até na sua morte, mediante isto, Spurgeon apontava as pessoas para Cristo. Com seu passamento, ele havia combatido o bom combate, acabado a carreira, e guardado a fé.

Durante os trinta e oito anos de seu ministério em Londres, Spurgeon testemunhou o crescimento de sua congregação de duzentos para quase seis mil membros. Durante esse tempo, ele recebeu 14,692 novos membros em sua igreja, quase onze mil mediante o batismo. No total, estima-se que Spurgeon tenha pregado pessoalmente a quase dez milhões de pessoas. Eventualmente, um de seus filhos gêmeos, Thomas, o sucedeu como pastor do Tabernáculo em 1894. O outro filho. Charles Jr. tornou-se diretor do orfanato que ele fundou.

Até 1863, os sermões de Spurgeon venderam mais de oito milhões de cópias. Na época de sua morte em 1892, cinqüenta milhões de cópias tinham sido vendidas. Até o fim do Século Dezenove, mais de cem milhões de sermões haviam sido vendidos em vinte e três línguas, cifra inigualável por qualquer outro pregador, antes ou depois dele. Hoje em dia, este número é bem mais do que trezentos milhões de cópias. Um século após sua morte, havia mais obras de Spurgeon impressas do que de qualquer outro autor da língua inglesa. Spurgeon é o pregador mais amplamente lido em toda a história.

Até os dias atuais, Spurgeon continua a exercer enorme influência no mundo cristão evangélico. Foi autor de 135 livros, editor de mais vinte e oito, e escreveu inúmeros panfletos, folhetos e artigos. Este corpo de trabalho não tem precedentes como projeto de publicação por parte de um único autor na história do cristianismo. Com mais de três mil e oitocentas mensagens impressas, seus sermões compõem a maior coleção encadernada de escritos por um homem na língua inglesa. São coligidos em sessenta e três volumes, contendo cerca de vinte e cinco milhões de palavras.

Dado o impacto monumental que Spurgeon teve sobre a Inglaterra e por todo o mundo, certas perguntas surgem: O que fez que sua pregação fosse tão atraente? O que o inflamava a proclamar o evangelho da maneira que fez? O que deu a seu ministério evangelístico tanto poder de conversão? As respostas se encontram naquilo que é o tema central deste livro: o foco evangélico de Charles Spurgeon.
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O Foco Evangélico de Charles Spurgeon. Steven Lawson. São José dos Campos: Editora Fiel, 2012. 139p

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A NATUREZA HUMANA DE CRISTO [Aula 02]


1. A NATUREZA HUMANA REAL DE CRISTO [1]

Uma verdade muito preciosa com respeito ao nosso Senhor é que ele é como nós em todas as coisas, exceto no pecado (Hb. 4:15). Que ele é como nós significa que ele teve nossa natureza humana em adição à sua natureza divina. Ele é tanto Deus como homem numa pessoa.

Quando falamos da natureza humana de Cristo, existem várias verdades importantes enfatizadas, especialmente cinco. Ele tinha uma natureza humana real, completa, sem pecado e fraca, e uma natureza humana central procedente da linha do pacto.

Cada uma dessas verdades é da maior importância possível para a nossa salvação.

Que Cristo tinha uma natureza humana real precisa ser enfatizado contra o ensino – de alguns na igreja primitiva e algumas seitas hoje – que Cristo somente apareceu na forma de um homem, mas não tinha de fato um corpo humano real, de carne e sangue, e nem uma alma humana real como nós temos. Sua humanidade, é dito, era somente uma aparência – algo como um anjo aparecendo na forma de um homem.

Mas se Cristo não tinha uma natureza humana real, nossa salvação não é real também. Se sua natureza humana era somente uma aparência, assim também o seu sofrimento e morte, e a nossa salvação. A realidade da nossa salvação depende da realidade de sua natureza humana. Hebreus 2:14, 15 diz: “E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que, pela morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo, e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão”.

A Bíblia ensina a realidade da natureza humana de Cristo não somente enfatizando o fato que ele era como nós em tudo, mesmo em ser tentado (Hb 4:15), mas em muitas outras formas também. A realidade de sua natureza humana é ensinada em todas aquelas passagens que falam de Jesus nascendo, crescendo, aprendendo, obedecendo, comendo, bebendo, ficando cansado, chorando, sofrendo e morrendo. Todas elas nos falam que ele era realmente um homem, como nós em todas as coisas. Duvidar da realidade de sua agonia no Getsêmani, sua dor na negação de Pedro e traição de Judas, e sua agonia ao ser abandonado na cruz, é duvidar não somente de sua honestidade, mas também da nossa salvação por meio desses sofrimentos.

Cristo é, portanto, osso dos nossos ossos e carne da nossa carne (Ef. 5:30), capaz de nos representar diante de Deus, e dar sua vida como um sacrifício pelos nossos pecados. Ele, sendo homem, pôde pagar pelo pecado do homem e nos levar a Deus.


2. A NATUREZA HUMANA COMPLETA DE CRISTO

Apontamos que existem cinco verdades que precisam ser cridas sobre a natureza humana de Cristo: que ela era real, completa, sem pecado, fraca e centralmente procedente da linha do pacto.

Olhemos agora para a verdade maravilhosa que Cristo tinha uma natureza humana completa, significando que quando Cristo nasceu em nossa carne, não nasceu simplesmente com um corpo humano. Ele tinha também uma alma ou espírito humano (Lucas 23:46; João 12:27), uma mente humana (Fp. 2:5), uma vontade (João 6:38), um coração (Mt. 11:29) e tudo o mais que pertence à nossa natureza humana.

Ele não era metade homem e metade Deus, mas plenamente homem e plenamente Deus; todavia, ele é um Cristo somente. Essa é a maravilha, o mistério e a glória de sua encarnação.

Essa verdade tem sido negada na história da igreja. Alguns tentaram explicar a encarnação dizendo que Cristo tinha somente um corpo humano, e que sua natureza divina tomou o lugar da mente ou alma humana. Por analogia, portanto, ele seria como uma criatura que tinha uma mente humana num corpo de um animal. Nesse caso, Cristo não teria uma natureza humana completa, mas somente parte dela.

Contudo, é de extrema importância crermos que Cristo tinha uma natureza humana completa. Nossa salvação depende disso!

Cristo tinha que tomar cada parte da nossa natureza humana, pois cada parte precisava ser redimida. A verdade bíblica da depravação total diz que somos corrompidos e depravados em cada parte.

Nosso corpo é vil (Fp. 3:21), nossa arma é perdida (Mt. 16:26), nossa vontade está em cativeiro (Rm. 6:16), nossa mente é carnal, cheia de inimizade contra Deus, que forma que não pode ser sujeita à lei de Deus (Rm. 8:7,8), e nosso coração é enganoso acima de todas as coisas e desesperadamente corrupto (Jr. 17:9). Não existe nenhuma parte da nossa natureza humana que seja boa.

Portanto, Cristo tomou sobre si nossa natureza humana completa, para que pudesse sofrer nela, fazendo expiação pelo pecado em cada parte. Dessa forma, ele nos redimiu – coração, mente, alma e força – do domínio e poder do pecado e nos fez, com tudo o que somos, servos e filhos do Deus vivo.

Cristo é um Salvador completo. Graças a Deus por ele. Certamente não existe outro além dele.


3. A NATUREZA HUMANA SEM PECADO DE CRISTO

Já apresentamos as duas primeiras verdades que precisam ser cridas sobre a natureza humana de Cristo. Olhamos para os ensinos maravilhosos que ele tinha uma natureza humana real e completa. Agora nos voltaremos para a importante verdade que Cristo tinha uma natureza humana sem pecado.

Que ele não tinha pecado é ensinado mui claramente em Hebreus 4:15. Isso é ensinado também em Isaías 53:9, Lucas 1:35 e 2 Coríntios 5:21. Contudo, Hebreus 4:15 levanta a questão se Cristo era capaz de pecar, visto que foi tentado como nós em todas as coisas. Em outras palavras, a impecabilidade de Cristo significa apenas que ele não pecou, ou que ele não poderia pecar?

Alguns têm dito que as tentações de Cristo poderiam ser reais somente se fosse possível para ele pecar em sua natureza humana. Que ele não pecou é devido apenas ao fato dele ser Deus também. Em face de tal ensino, devemos enfatizar a verdade que não era possível que ele pecasse. Devemos lembrar que não é uma natureza que peca, mas uma pessoa, e Cristo é uma pessoa somente, o Filho de Deus. Como uma pessoa divina, ele não poderia pecar. Dizer que era possível que ele pecasse em sua natureza humana é dizer que Deus poderia pecar, pois pessoalmente, mesmo em nossa natureza humana, ele é o Filho eterno de Deus. Essa, cremos, é uma das verdades ensinadas em 2 Coríntios 5:21, que diz que ele não conheceu pecado, e em Hebreus 7:26, que diz que ele era “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores”.

Que Cristo não tinha pecado significa que ele não tinha o pecado original, o pecado que temos de Adão (Rm. 5:12). Nesse respeito, também, ele era imaculado. O nascimento virginal de Jesus e o fato que Deus era seu Pai, também o Pai de sua natureza humana, garantiu que dentre todos os descendentes de Adão, Cristo somente nasceu puro e santo.

Ele não somente não tinha o pecado original; ele também não tinha nenhum pecado real. Durante toda a sua vida, desde o tempo quando nasceu, Cristo nunca quebrou os mandamentos de Deus, nunca errou (nem infinitesimamente), e nunca falou uma palavra frívola que não glorificasse a Deus. Ele era perfeito!

Em suma, portanto, sua impecabilidade significa que ele não tinha o pecado original, nem qualquer pecado real e não tinha a possibilidade de pecar. Isso, como Hebreus nos diz, é a razão dele poder ser nosso Salvador.

Como alguém sem pecado, ele não precisava oferecer sacrifício primeiro pelos seus próprios pecados, mas foi capaz de oferecer em nosso favor um sacrifício perfeito (Hb. 7:27). Portanto, ele pôde se fazer pecado em nosso lugar, para que pudéssemos ser feitos a justiça de Deus nele (2 Co. 5:21).

A impecabilidade de Cristo, então, é a garantia que sua justiça é perfeita, e que ela é nossa. Tudo o que ele mereceu por sua morte ele não precisava para si mesmo; ele adquiriu para nós, que estávamos em tão grande necessidade.


4. A NATUREZA HUMANA FRACA DE CRISTO

Olhemos agora para a quarta grande verdade sobre a natureza humana de Cristo: que aquele que agora tem uma natureza humana glorificada, teve uma natureza humana fraca enquanto na terra. Sua natureza humana, além de real, completa e sem pecado, era fraca.

Porque Cristo tinha uma natureza humana fraca, durante seu tempo de vida terreno ele esteve sujeito a todos os males resultantes do pecado, embora não ao próprio pecado. Ele esteve sujeito à doença, fome, sofrimento, dor, fraqueza e até mesmo à morte, assim como nós. Ele foi “tocado com o sentimento das nossas fraquezas” (Hb. 4:15, KJV).

Romanos 8:3, que diz que Cristo veio em semelhança da carne do pecado, também ensina essa verdade. Visto que o versículo não pode significar que ele mesmo era pecador, o mesmo pode se referir apenas ao fato que ele estava sujeito a todos os males que o pecado trouxe sobre nós, a saber, às fraquezas da nossa carne do pecado.

Cristo, então, não veio em semelhança da carne sem pecado. Ele não era como Adão, que após ser criado desfrutou de toda a glória e esplendor do seu primeiro estado. Ele foi feito como nós, que perdemos aquele estado e recebemos não somente a depravação e culpa, mas também a maldição de Deus.

Essa é uma verdade importante. Enfermidade, sofrimento, dor e morte são resultados do nosso pecado e da maldição de Deus sobre nós. Cristo ter suportado as nossas fraquezas é parte dele ter sido feito maldição para nós. Ele tomou todas as nossas fraquezas sobre si, tomando nossa maldição e afastando-a de nós. Que conforto para nós, portanto, são todas as suas fraquezas!

Isaías disse tudo isso quando profetizou de Cristo e o chamou de “homem de dores e que sabe o que é padecer” (Is. 53:3, RA). Seus sofrimentos, disse Isaías, deveriam ser explicados assim: “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si… ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades”. Por seu sofrimento, dor e tristeza “o castigo que nos traz a paz estava sobre ele” (vv. 4,5).

Não foi apenas a morte de Cristo que teve poder expiatório, mas também o sofrimento que ele suportou durante toda a sua vida sobre a terra. Ele confessou isso quando disse: “Porque a minha vida está gasta de tristeza, e os meus anos, de suspiros; a minha força descai por causa da minha iniqüidade, e os meus ossos se consomem” (Sl. 31:10).

Existe conforto adicional para nós nas aflições e sofrimentos de Cristo; elas significam que ele conhece nossas provações e sofrimentos por experiência própria. Ele passou por elas, e não podemos dizer que ninguém pode entender verdadeiramente nossas provações. Cristo entende!

Dessa forma, também, as fraquezas, dores, tristezas e sofrimentos do nosso Salvador são parte da nossa salvação. Que não apenas contemplemos e vejamos que não existe nenhuma dor como a sua (Lm. 1:2), mas creiamos nisso!


[1] Doctrine according to Godliness, Ronald Hanko, Reformed Free Publishing Association, p. 129-133. Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto. Originalmente publico no Monergismo - https://goo.gl/vSCLgc

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

CRISTO E OS PROFESSOS CRISTÃOS E A TEMPESTADE ACALMADA [Mateus 8.16-27]


Chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados; e ele meramente com a palavra expeliu os espíritos e curou todos os que estavam doentes;  para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças. Vendo Jesus muita gente ao seu redor, ordenou que passassem para a outra margem. Então, aproximando-se dele um escriba, disse-lhe: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores. Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. E outro dos discípulos lhe disse: Senhor, permite-me ir primeiro sepultar meu pai. Replicou-lhe, porém, Jesus: Segue-me, e deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. Então, entrando ele no barco, seus discípulos o seguiram. E eis que sobreveio no mar uma grande tempestade, de sorte que o barco era varrido pelas ondas. Entretanto, Jesus dormia. Mas os discípulos vieram acordá-lo, clamando: Senhor, salva-nos! Perecemos! Perguntou-lhes, então, Jesus: Por que sois tímidos, homens de pequena fé? E, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar; e fez-se grande bonança. E maravilharam-se os homens, dizendo: Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem? (Mt 8.16-27)

Na primeira parte destes versículos, encontramos um notável exemplo da sabedoria de nosso Senhor ao tratar com os que manifes­tam a disposição de se tomarem seus discípulos.  Este trecho lança tanta luz sobre um assunto freqüentemente mal compreendido em nossos dias, que merece consideração especial.

O texto diz, que um certo escriba ofereceu-se para seguir nosso Senhor por onde quer que Ele fosse. É uma proposta admirável, quando consideramos a classe social que aquele homem pertencia e a ocasião em que foi pro­ferida. Mas, a proposição recebe uma resposta igualmente admirável, que não foi diretamente aceita, embora também não fosse manifesta­mente rejeitada. Nosso Senhor tão somente faz uma réplica solene: “as raposas têm seus covis e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”.

Este outro discípulo de nosso Senhor se apresenta em seguida, pedindo que lhe fosse permitido sepultar o pai, antes de assumir total­mente os deveres de discípulo. À primeira vista, tal pedido parece natural e legítimo. Entretanto, a resposta dos lábios de nosso Senhor não foi menos solene do que a primeira: “Segue-me, e deixa aos mortos o se­pultar os seus próprios mortos”.

Há algo de profundamente impressionante em ambas as respos­tas. Elas deveriam ser devidamente consideradas por todos os que se professam cristãos.

O ensinamento é bem claro: as pessoas que mani­festam o desejo de vir a frente, e se professam verdadeiros discípulos de Cristo, deveriam ser claramente advertidas a “calcular o custo” antes de começarem.
Será que estão preparados para suportar as difi­culdades?
Estão prontos a carregar a cruz?

Se assim não é , tais pessoas ainda não estão aptas para começar.

As respostas de Jesus nos ensinam claramente que há ocasiões em que o cristão precisa literalmente de­sistir de tudo por amor a Cristo e, se necessário, mesmo deveres tão importantes, como o sepultamento de pai ou mãe, devem ser deixados ao encargo de outras pessoas. Sempre haverá quem esteja pronto a com­parecer em nosso lugar; mas tais deveres em tempo nenhum podem ser comparados ao dever maior, que é o de pregar o evangelho e tra­balhar pela causa de Cristo no mundo.

Seria bom se estas palavras fossem mais constantemente relem­bradas nas igrejas. Bem podemos temer que esta lição esteja sendo por demais negligenciada pelos ministros do evangelho, e que muitas pes­soas estejam sendo admitidas à plena comunhão na igreja, sem jamais serem advertidas a “calcular o custo”.

De fato, nada tem feito maior dano ao cristianismo do que a prática de encher as fileiras do exército de Cristo com qualquer voluntário que esteja disposto a fazer uma pe­quena profissão de fé, e que possa falar fluentemente de sua experiência religiosa.

Infelizmente se tem esquecido que os números apenas não significam poder. Pode haver uma grande quantidade de mera religio­sidade externa, enquanto há muito pouco da verdadeira graça.

Nunca nos esqueçamos disto. Cuidemos para nada esconder aos recém- -convertidos e às pessoas que agora estão começando a buscar a Deus. Não deixemos que se enganem com falsas expectativas. Podemos dizer­-lhe que receberão uma coroa de glória no fim, mas que nós também digamos, não menos claramente, que existe uma cruz para ser carre­gada dia após dia.


Na última parte destes versículos, aprendemos que a fé salva­dora com freqüência está permeada de muita fraqueza e Instabilidade. Esta é uma lição que nos deixa humilhados, mas que é deveras salutar.

O texto nos apresenta Jesus e os discípulos atravessando o mar da Galiléia em uma embarcação. Surge uma tempestade, e o barco está em perigo de se encher de água pela violência das ondas. Enquanto isso, nosso Senhor está dormindo. Os discípulos atemorizados acordam Jesus e clamam por socorro. Ele atende ao pedido e faz acalmar as águas com uma palavra, de modo que “fez-se grande bonança”.

Ao mesmo tempo, Ele gentilmente censura a ansiedade de seus discípulos: “Por que sois tímidos, homens de pequena fé?”

Temos aqui um retrato muito nítido do coração de milhares de crentes! Há tantos que, mesmo possuindo suficiente fé e amor para aban­donar tudo por causa de Cristo, e segui-Lo para onde quer que vá, ainda assim, estão cheios de temores na hora da provação!

Quantos têm graça suficiente para se voltarem a Jesus em cada dificuldade, clamando: “Se­nhor, salva-nos”, e ainda não têm graça suficiente para ficarem quietos na hora difícil e confiarem que tudo está bem? Verdadeiramente, o crente tem razão de estar sempre cingido de humildade (1 Pe 5.5).

Que a oração: “Senhor, aumenta-nos a fé”, sempre faça parte das nossas petições diárias. Talvez nunca conheceremos a fraqueza da nossa fé, enquanto não formos postos na fornalha da tribulação e da ansiedade. Felizes os que descobrem, por experiência, que a sua fé é capaz de resistir ao fogo, e que podem, como Jó, dizer: “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13.15).

Portanto, para concluir, devemos relembrar que:

1. O ensinamento é bem claro: as pessoas que mani­festam o desejo de vir a frente, e se professam verdadeiros discípulos de Cristo, deveriam ser claramente advertidas a “calcular o custo” antes de começarem. Nunca nos esqueçamos disto. Cuidemos para nada esconder aos recém- -convertidos e às pessoas que agora estão começando a buscar a Deus. Não deixemos que se enganem com falsas expectativas. Podemos dizer­-lhe que receberão uma coroa de glória no fim, mas que nós também digamos, não menos claramente, que existe uma cruz para ser carre­gada dia após dia.

2. Que a oração: “Senhor, aumenta-nos a fé”, sempre faça parte das nossas petições diárias. Talvez nunca conheceremos a fraqueza da nossa fé, enquanto não formos postos na fornalha da tribulação e da ansiedade. Felizes os que descobrem, por experiência, que a sua fé é capaz de resistir ao fogo, e que podem, como Jó, dizer: “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13.15).

Portanto, quero dizer que: Temos grandes razões para agradecer a Deus por Jesus, o nosso grande Sumo Sacerdote, pois Ele é muito compassivo e terno de co­ração. Ele conhece a nossa estrutura. Ele leva em conta as nossas enfermidades. Ele não lança fora o seu povo por causa de defeitos. Ele se compadece mesmo dos que repreende. A oração, mesmo de “pe­quena fé”, é ouvida e obtém resposta.

Que Deus nos abençoe!

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO [Comentários]


[1]Ainda elogiado como uma palavra particularmente oportuna para a nossa época, descobrir que o famoso romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, completa 85 anos de idade este ano[2] é algo que pode causar espanto. Como uma obra de ficção futurista, ele tem despertado muito diálogo sobre os valores e ideologias explorados dentro de seu mundo imaginado.

O aniversário deste ano nos oferece um bom pretexto para revisitar o clássico de Huxley e refletir sobre sua relevância no mundo contemporâneo.


NOVA ORDEM MUNDIAL

Admirável Mundo Novo encontra sua premissa narrativa e o objeto de sua crítica na ascendente ideologia fordista dos dias de Huxley, projetada em um futuro distópico perturbador. Dentro do Estado Mundial de Huxley, Henry Ford é reverenciado como uma figura messiânica quase mítica. Ele é a base de seu sistema de datação (os eventos do livro ocorrem no ano 632 d.F – depois de Ford), e seu nome – o do fundador do mundo novo – agora é empregado onde antigamente se usava o nome de Deus. Produção e consumo em massa de produtos descartáveis (“mais vale dar fim do que consertar” [3] ), bem como os valores da predicabilidade e uniformidade, são princípios fundamentais da ordem mundial.

Os próprios seres humanos tornaram-se os objetos do hiperfordismo do Estado Mundial. Dentro de um enorme projeto eugenista, as pessoas são massas produzidas através de tecnologias reprodutivas e condicionadas a serem dóceis e participantes úteis na sociedade, plenamente envolvidas na produção e consumo que constituem o seu núcleo. Há cinco castas ou modelos diferentes de humanidade, cada qual cuidadosamente planejada e condicionada para servir a determinado propósito social. A individualidade e a exclusividade do amor familiar ou monogâmico são repelidos como obstrução à homogeneidade e conformidade sociais – “cada um pertence a todos”. [4]

Enquanto as crianças são modeladas através de processos uniformes de produção em linha, a reprodução sexual, a monogamia e a noção de mães e pais, tudo isso passou a ser encarado com asco. Os cidadãos são encorajados a se envolver em sexo promíscuo estéril, para torná-los complacentes a sua submissão e como um meio de impedir que afetos particulares surjam. Como Huxley observa em sua introdução, “à medida que diminui a liberdade política e econômica, a liberdade sexual tende a aumentar como compensação”. [5] A individualidade e a privacidade são tratadas com desconfiança.

A infantilização da população é uma política governamental. O envelhecimento do corpo e o amadurecimento do caráter e mente são reprimidos e evitados, mantendo as aptidões e predileções dos cidadãos do Estado Mundial em uma permanente condição adolescente. Uma cultura de entretenimento de m assa homogênea promove coesão e quietude sociais. Doses intensas de sensação na forma de “sensíveis” (uma forma sensualmente intensificada de entretenimento cinemático) a esportes populares estimulam as pessoas a serem joguetes pueris de seus impulsos e desejos, incapazes de retardar a gratificação, desenvolver convicções, sentir intensamente ou dedicar-se inteiramente a qualquer causa. Mentes saturadas com sensação e prazer – principalmente através da maravilha de droga alucinógena “soma” – são imunizadas contra o raciocínio, a reflexão e a não-conformidade.

O título do livro é uma alusão irônica a um verso de A Tempestade, de Shakespeare. A despeito de sua amenidade aparente, a sociedade tecnocrata e estraga-prazeres do Estado Mundial sufoca todas as paixões, propósitos, ideais e valores do elevado caráter da escrita de Shakespeare. O sexo fácil sufoca o romantismo. O condicionamento e a “eficiência” farmaceuticamente garantidas substituem e autonegação e a formação do caráter. Conforto implacável, prazer e ausência de luta tornam a nobreza e o heroísmo desnecessários. Poesia, sacrifício, sentido e o próprio Deus não têm lugar nesse mundo.


REALIDADE INIMAGINÁVEL

Ler Admirável Mundo Novo pode ser uma experiência peculiar, uma vez que o leitor é ao mesmo tempo atingido por elementos divertidamente curiosos e assustadoramente oportunos. Embora a obra tenha sobrevivido supreendentemente bem ao tempo, considerando-se que se trata de uma ficção futurológica, ela é, contudo, um produto de sua época. A despeito da premonição e perceptividade de Huxley, sua visão foi, em grande medida, uma projeção e uma escalada a partir dinâmicas emergentes de sua época de produção, consumo e sociedade em massa.

Essas dinâmicas têm sido superadas, ou pelo menos consideravelmente dificultadas por muitos desenvolvimentos subsequentes. Em uma economia pós-fordista e numa era digital de dispositivos personalizados, a sociedade de massa não é mais tão cristalina como parecia outrora. Longe de ser encarada como uma ameaça, por exemplo, a individualidade está, agora, profundamente assimilada em nosso sistema econômico, uma vez que somos estimulados a nos diferenciar, identificar e alienar por meio das formas de consumo que escolhemos. O fato de que estamos todos envoltos no mesmo sistema é menos óbvio quando todos usamos as algemas sob medida que escolhemos para nós mesmos.

Na realidade, a partir de nossa posição contemporânea privilegiada, uma série de elementos da visão de Huxley parecem demasiadamente conservadores. Escrevendo antes do advento da genética moderna, Huxley dificilmente teria imaginado a engenharia genética diretamente aplicada nos seres humanos tal como hoje se apresenta em nosso horizonte, nem o grau de domínio sobre nossa natureza que a ciência oferece. Tampouco ele parece ter antecipado a forma de sexualidade de nossa época – todo o sexo promíscuo em Admirável Mundo Novo é heterossexual. Ademais, conquanto exista dentro de um Estado Mundial, a Inglaterra que fornece o cenário para a narrativa huxleyana parecer surpreendentemente provinciana em alguns pontos: a globalização radical aparentemente teve efeitos limitados.

Um detalhe impressionante na descrição de Huxley é que, embora o Estado Mundial seja baseado na produção em massa, o processo de automação é suprimido, com humanos executando trabalhos que facilmente poderiam ser confiados a máquinas ou algoritmos (Huxley não explora a possibilidade das máquinas quaseinteligentes). A partir de uma posição contemporânea privilegiada isso pode exigir uma suspensão significativa de descrença para imaginar que uma economia assim possa ser domada para servir a um fim social mais amplo, ainda que distópico. Pode ser que Huxley tenha temido uma ideologia fordista forjada e imposta pelos “Controladores do Mundo” dentro de uma economia de comando – não um temor irrealista na época da ascensão do comunismo e do fascismo; nós, hoje, parecemos ter muito mais motivos para temer nossa sujeição à lógica insaciável e autônoma de um sistema capitalista desenfreado além do escopo ou controle humanos. [6]

O Estado Mundial é uma sociedade intensivamente planejada, que pode ser diretamente apresentado em proposições e é integrado por uma visão humana unificada. Muito de Admirável Mundo Novo consiste de diálogo expositivo, no qual a ideologia humana subjacente ao Estado Mundial é explicitamente articulada. Contudo, os desenvolvimentos sociais que moldam nosso mundo de forma muito poderosa não parecem mais ser planejados e definitivamente não se apresentam a nós diretamente. Pelo contrário, eles são normalmente dinâmicas tecnológicas e societárias que desencadeamos, cujo objetivo de longo prazo é confuso e cujos efeitos progressivos em nós, conquanto vastos no global e em retrospecto, só são percebidos no momento e no particular – quando são percebidos de fato. Embora possamos ficar inconscientemente condicionados, o condicionador é mais provavelmente uma tecnologia tal como a internet do que uma inteligência humana.


DOMINADOS PELO DESEJO

Nos dias de hoje, temos mais a temer dos processos desumanos incontroláveis e inexoráveis que desencadeamos, que se desdobram na sociedade com uma inevitabilidade desmoralizante. Nosso mundo está à mercê das forças siamesas do capitalismo totalizante e da tecnologia avançada. Enquanto esta amplia o escopo do que é possível, aquela impulsiona níveis crescentes de consumo e nossa capacidade irrestrita e incita a fazê-lo, sobrepujando todos os obstáculos que possam restringi-los. Embora os seres humanos sejam os peões dessas forças, a lógica propulsora das próprias forças domina sobre eles.

Este é o ponto chave em que a visão de Admirável Mundo Novo repercute. Huxley percebeu, melhor do que muitos, a escravidão degradante na qual podemos ser conduzidos por nosso desejo por prazer. Neil Postman contrastou de forma memorável a obra de Huxley com 1984, de George Orwell, observando o reconhecimento de Huxley de que podemos ser destruídos e dominados mais facilmente através de nossos desejos do que de nossos temores. Anestesiados por prazeres, entretenimentos, trivialidades, distrações, luxúrias e sensualidade, podemos ficar habituados com a erosão constante de nossa humanidade.

No mundo de hoje, como Slavoj Žižek observou, estamos sujeitos ao totalitarismo suave que continuamente nos exorta a “desfrutar!”. O mercado tem nos rodeado de produtos e propagandas que têm sido usadas como armas para excitar e mobilizar nosso desejo de consumir e derrubar qualquer resistência que possamos oferecer contra ele. Em nosso mundo supersaturado e hiper-real, somos expostos a uma horda de estímulos criados artificialmente que excedem em muito tudo o que teríamos encontrado anteriormente naturalmente – desde alimentos quimicamente modificados até gráficos estonteantes de jogos, drogas que alteram o estado mental, imagens vibrantes em nossas telas, pornografia online, destinos turísticos cuidadosamente tratados, modelos maquiadas nas capas de revista e a sociabilidade de um site como o Facebook. Todas essas coisas são calculadas para excitar nosso apetite, vencer nossa resistência e levar-nos a entregar-se. A onda de
prazeres intoxicados do capitalismo desarma todos os obstáculos diante dele – censuras, restrições legais, tabus culturais, normais sociais, virtudes religiosas, autocontrole.

Edmund Burke argumentou que controles e restrições sobre os apetites humanos são essenciais à liberdade humana, e um dos nossos direitos fundamentais. Sem esses controles, somos reduzidos a prisioneiros infantis do prazer, incapazes de governar a nós mesmos. Um exemplo trágico é o imenso dano que está sendo causado pela pornografia, seu poder de dominar pessoas aumentado por novas tecnologias e a força do mercado, tornando-o mais atraente para consumir e mais difícil de se opor. E embora uma sociedade vidrada no entretenimento popular de massa e esportes estivesse em ascensão nos dias de Huxley, a escala da nossa própria obsessão societária com essas coisas – e nosso consumo relativamente tácito, como cristãos, da cultura pop – é comprovadamente sem precedentes e digno de verdadeiro alerta.


OBJETOS DESUMANIZADOS

Huxley, além disso, reconheceu o perigo de a natureza humana ser sujeitada à lógica da produção. A realidade mais central do Estado Mundial talvez seja a substituição da procriação sexual pela produção técnica: os seres humanos deixam de procriar e começam a ser fabricados. Huxley, de modo astuto, percebe exatamente quão crucial essa mudança é e chama a nossa atenção para seus vários aspectos em grande detalhe: uma cultura de sexo puramente contraceptivo e relativa neutralidade de gênero, a formação de crianças através de processos semelhantes a correias transportadoras, a eliminação da família e dos limites do amor nos quais os filhos são naturalmente recebidos e assim por diante.

Novamente, este aspecto da obra de Huxley encontra um eco preocupante em nosso mundo contemporâneo. Por meio de coisas como a ideologia do aborto, avanços na tecnologia reprodutiva e a normatização do casamento neutro entre os sexos, as crianças estão cada vez mais sujeitas à lógica da escolha e da construção. A própria dignidade humana repousa, em grande parte, no fato de que não somos fabricados, mas procriados – concebidos por meio de uma dádiva amorosa de corpos que precedem e superam os âmbitos políticos, legais, econômicos e tecnológicos da atividade humana. Uma cultura que resiste ou negligencia essa verdade, como a nossa está propensa a fazer, corre o risco de mudar o seu próprio entendimento e abordagem da humanidade em si mesma.


LUTANDO POR LIBERDADE

Como cristãos no século 21, estamos encarando uma luta crescente e profundamente hercúlea pela natureza e dignidade humanas. Devemos lutar contra a subjugação da humanidade à tirania do prazer, contra a sensualidade amniótica na qual nossa cultura nos encapsula, estupidificando-nos para qualquer realidade que possa elevar nossa natureza suscitando-nos em dever, amor ou adoração. Devemos resistir ao fascínio do domínio da técnica sobre a natureza – um domínio que nos expõe à desumanização. E para que façamos essas coisas, devemos reconhecer e vencer a infidelidade que existe em cada um dos nossos corações, que nos derrubaria de dentro. Diante desses desenvolvimentos acelerados, o Admirável Mundo Novo de Huxley nunca foi tão atual, nem o alerta soa tão urgente.

Contra essas coisas, devemos reafirmar a importância do autodomínio moral, da relação entre homem e mulher e da doação de vida que pode resultar de seu amor, de limites morais que restrinjam os alcances do mercado e o desenvolvimento da tecnologia, e do Senhor e Doador da vida a quem todos somos devedores. Se falharmos nisso, correremos o risco de nos submeter à servidão mais insidiosa jamais vista.
_______________________
Admirável Mundo Novo. Aldous Huxley. 22ª edição. São Paulo. Globo, 2014. 314p.



[1] Texto originalmente publicado no Voltemos ao Evangelho, in: https://goo.gl/pjvaVx
[2] O presente texto foi escrito no ano passado. [Nota do Tradutor.]
[3] Huxley, Aldous. Admirável Mundo Novo. Biblioteca Azul, 2014. Edição Kindle, posição 836. Tradução de Leonel Vallandro e Vidal Serrano.
[4] Idem, posição 711.
[5] Idem, posição 190.
[6] A opinião do articulista quanto a este quesito não representa a posição do VE. [Nota do Tradutor.]

terça-feira, 1 de agosto de 2017

BONHOEFFER: PASTOR, MÁRTIR, PROFETA, ESPIÃO [Comentários]


PARTE 1 - DICA DE LEITURA
Texto Original in: https://goo.gl/SU7Pkv

As boas biografias são maravilhosas porque reúnem em um só gênero, doutrina, história, psicologia e drama. Da mesma maneira que uma frase pode ter seu sentido distorcido fora do contexto também é difícil entender o que alguém escreve sem conhecer sua conjuntura pessoal. Para se ter uma ideia disso em um equívoco monumental, os contemporâneos de Bonhoeffer entenderam o cristianismo sem religião que ele defendia como cristianismo que não crê em Deus, que só se preocupa com a ética. A leitura Bonhoeffer: pastor, mártir, profeta, espião, que a editora Mundo Cristão lançou no ano passado desfaz todas as dúvidas.

Conheci Bonhoeffer nas aulas de seminário com o professor Heinrich Finger. Ele trouxe alguns textos do livro póstumo Ética que trata além de religião  questões como amor, pecado e coragem. Logo após fomos levados a ler Resistência de Submissão um livro de cartas escritas da prisão. Nelas Bonhoeffer falava contra a religiosidade oficial  deixando uma pulga atrás da nossa orelha sobre o que ele estaria tentando comunicar. Mais tarde já pastor de igreja li Discipulado, Tentação e aquele que seria dos seus livros o mais impactante na minha vida: Vida em comunhão.

Bonhoeffer foi um visionário. Ele antecipou debates que hoje fazem parte do nosso dia a dia. O relacionamento da fé com o mundo emancipado, como viver em comunidade de fé,  relação entre igreja e estado e diferença entre religião e cristianismo. Mas nenhuma história é mais cativante do que a que Bonhoeffer escreveu com sangue em um tempo de grande omissão da igreja oficial na Alemanha que aceitou tacitamente a doutrina nazista e seu messianismo monstruoso.

Bonhoeffer foi um profeta. É fácil dizer eu já sabia, quando antes não se ouviu nenhuma voz. Não foi assim com ele. Ele anteviu as ações do nacional socialismo e os perigos que ele representava para a nação alemã.  Quando toda a nação celebrava a chegada de Hitler ao poder como a salvação da Alemanha, ele dizia: “O perigo assustador do mundo atual é que, acima do clamor por autoridade… nós esquecemos que o homem se encontra sozinho perante a autoridade suprema, e que todo aquele que impõe mãos violenta sobre o homem está violando leis eternas e concedendo a si mesmo uma autoridade sobrenatural que acabará por destruí-lo.”

Bonhoeffer foi um grande pastor. Fundou um seminário que ensinava a orar e a ler as Escrituras e a confissão de pecados, coisas difíceis de serem vistas no mundo teológico daquela época e na de hoje mais ainda. Como pastor não se furtou ele mesmo ao hábito de ser discipulado pelo seu cunhado Eberhardt Bethge. Um homem que reuniu profundidade teológica, coragem pessoal e dedicação pastoral a uma comunidade de discípulos merece meu respeito. É esse tipo de homem que eu mesmo quero me tornar.

Creio que a leitura dessa biografia mexerá muito com sua vida além de emocionar com o desprendimento desse homem de Deus. Confesso que chorei ao ler os relatos da morte tão extemporânea de um homem que sob um ponto de vista carnal tinha tanto a dar ao mundo. Ao ser chamado para a execução por enforcamento ele diz ao companheiro de cela: “Esse é o fim, mas para mim o começo da vida”


PARTE 2 – APRESENTAÇÃO
Texto Original in: https://goo.gl/YUoBpq

Dietrich Bonhoeffer é, certamente, uma das personalidades mais interessantes do século XX. Filho de uma família alemã abastada, Bonhoeffer tinha tudo para viver uma vida longa e confortável. No entanto, inspirado pelo evangelho escolheu encarar os poderes de seu tempo sombrio.

Bonhoeffer enfrentou o status quo acadêmico teológico do final do século XIX e início do século XX, o liberalismo. Orientado por Adolf Harnack, a grande estrela do liberalismo teológico e do método histórico-crítico de interpretação das Escrituras, o teólogo da igreja confessante teve a coragem de rejeitar os dogmas liberais e reafirmar importantes aspectos da ortodoxia.

A sua paixão por fazer a vontade de Deus o levou, finalmente, a enfrentar o pior dos males que se abateu sobre sua terra natal, o nazismo, à custa de sua própria vida. Quando Hitler tentou cooptar a Igreja Alemã, Bonhoeffer foi um dos líderes da resistência, fundando a Igreja Confessante, que acabou por ser tornada clandestina pelo regime. Ele também ajudou ativamente na fuga de famílias de judeus para a Suiça e militou junto as demais igrejas europeias no sentido de conscientizá-las a respeito da situação da Igreja Alemã.

Porém,  o momento mais dramático dessa luta foi participação de Bonhoeffer num plano para assassinar Adolf Hitler. Várias questões interessantes surgem dessa situação. É moral participar de um regicídio? Existe alguma situação em que é permitido conspirar para assassinar o chefe de Estado? O tema da permissibilidade do regicídio é um tema antigo, foi discutido por Marsílio de Pádua, e volta à tona na situação concreta por que Bonhoeffer passou.

Eric Metaxas conta essas e outras histórias no livro Bonhoeffer: mártir, pastor, profeta, espião, publicado em português pela editora Mundo Cristão. Trata-se de um livro de leitura fácil, bem documentado, em que, sempre que possível, o autor deixa o biografado “falar por si mesmo” por meio de uma série de citações contextualizadas. Como foi direcionado primariamente para o público norte-americano, Metaxas se debruça longamente sobre o período em que Bonhoeffer viveu em Nova Iorque como pesquisador convidado do Union Theological Seminary e sobre as percepções do teólogo alemão do cristianismo praticado nos Estados Unidos à época.
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Bonhoeffer:  Pastor, Mártir, Profeta, Espião. Eric Metaxas. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2011. 615p.