domingo, 30 de abril de 2017

INTRODUÇÃO A TEOLOGIA SISTEMÁTICA [Aula ministrada no Centro de Estudos da Reforma]


TEOLOGIA SISTEMÁTICA [1]

O que é a teologia sistemática? A teologia sistemática é uma elaboração da cosmovisão cristã baseada na Bíblia. Nem todos os aspectos da cosmovisão cristã serão desenvolvidos neste estudo, mas os temas principais sim. No contexto da fé cristã, a teologia não é o estudo de Deus como algo abstrato, mas é o estudo do Deus pessoal revelado na Bíblia. Necessariamente isso inclui tudo o que é revelado sobre Deus, suas obras e relações com as criaturas. O estudo da teologia é diferente do estudo da religião. O estudo da religião inclui todas as religiões mundiais e seitas, e usa várias metodologias: sociologia, antropologia, história, psicologia, etc. A teologia é mais especializada, sendo ela o estudo das doutrinas ou temas que os adeptos de uma determinada religião crêem.


DEFINIÇÕES DE TEOLOGIA SISTEMÁTICA

À luz deste processo, podemos agora definir a teologia sistemática.

Charles Hodge escreveu: “E importante que o teólogo conheça seu lugar. Ele não é senhor da situação. Ele não pode construir um sistema teológico com vistas a adequar sua fantasia, mais do que o astrônomo não pode ajustar o mecanismo dos céus segundo sua própria vontade. Como os fatos da astronomia se organizam em determinada ordem, e não admitirão nenhuma outra, assim se passa com os fatos da teologia. Teologia, portanto, é a exposição dos fatos da Escritura em sua ordem própria e relação, com os princípios ou verdades gerais envolvidos nos próprios fatos, os quais complementam e se harmonizam como um todo. [2]

Herman Bavinck apresenta a seguinte definição: “A teologia é a ciência que extrai o conhecimento de Deus de sua revelação, que estuda e pensa sobre ela sob a orientação do Espírito Santo e então, tenta descrevê-la de forma a honrar a Deus.” [3]

Wayne Grudem afirma: “Teologia sistemática é qualquer estudo que responda à pergunta ‘O que a Bíblia como um todo nos ensina hoje?’ acerca de qualquer tópico.”[4]

A definição de John Hammett é muito boa porque expressa os vários elementos da tarefa da teologia sistemática: “Teologia sistemática é aquela disciplina que tenta dar uma exposição coerente das doutrinas da fé cristã, baseada principalmente nas Escrituras, falando às perguntas e questões da cultura e época em que ela existe, com aplicação à vida pessoal do teólogo e outros.” [5]


Há alguns aspectos importantes nesta definição:

(1) A teologia sistemática deve oferecer uma exposição coerente: a tarefa da teologia sistemática é construir um sistema. A teologia sistemática trata das doutrinas da Bíblia, através do exame do que a Bíblia inteira diz sobre aquela doutrina. Também mostra como as doutrinas da Bíblia se relacionam logicamente. Então, a partir dos dados da Bíblia, uma cosmovisão é construída e comunicada. Esta cosmovisão abrange todas as áreas da vida que são tocadas pela própria Bíblia. Neste sentido, a teologia sistemática é uma teologia abrangente.

(2) Baseada nas Escrituras: a teologia sistemática procura ser abrangente, mas não vai além do que está dito na Bíblia. Pretende evitar a especulação, a não ser que o próprio teólogo admita que ele está fazendo especulação. Porém, o teólogo precisa evitar a tentação de atribuir às suas próprias especulações uma autoridade igual à Bíblia.

(3) A teologia sistemática sempre tem um alvo prático: embora precise tratar com questões abstratas e complicadas, O teólogo deve sempre mostrar a diferença que as suas conclusões fazem na vida cotidiana. Ela existe para que possamos conhecer, obedecer e amar a Deus melhor. Quem não faz teologia tendo em mente as necessidades do povo nos bancos da igreja não é um teólogo cristão de verdade. O fato de que quase todos os teólogos de maior influência na história da igreja também eram pastores é revelador.


O CREDO E A TEOLOGIA

As justificativas para a tarefa da teologia sistemática. Uma vez que o propósito da teologia é trabalhar com a verdade de Deus, o cristão nem deve precisar de outra justificativa além dessa. Portanto, queremos expor de forma simples e rápida, o Credo Apostólico. A palavra Credo, cujo significado – creio eu – refere-se ao ato pelo qual o homem reconhece e confessa a realidade e o conteúdo da sua fé – sua teologia. O histórico e precioso documento chamado “Credo dos Apóstolos”, tem sido conservado pelos cristãos, e ecoado através dos séculos como uma profissão de fé em que se define a doutrina base da Igreja base da igreja. No entanto, poucos têm emergido na profundidade doutrinária destas declarações, ou percebido o mundo teológico que as envolve, realçando razões, alicerce e o fundamento bíblico teológico que lhes dão suporte. [6] Na tabela abaixo temos o texto do credo, quais pressupostos cristãos são deduzidos dele e como influenciam a interpretação bíblica: [7]


Credo Apostólico [8]
Pressupostos cristãos
Influência sobre a leitura da Bíblia
Creio em Deus, o Pai onipotente, Criador do Céu e da Terra.
a. Deus é um ser infinito e pessoal, trino, que criou o homem à sua imagem, para se relacionar com ele.

b. Deus criou todas as coisas ex nihilo, e toda a criação é boa.

c. Deus ama aquilo que criou.

d. A ética é revelada, sua base não está no homem, mas em Deus.
a. O cristianismo é centrado em Deus; ênfase na soberania de Deus. A fé buscando entendimento.

b. Espiritualidade integral e culto integral. Toda a criação é boa.

c. Intimidade, não religiosidade. Sem que haja mérito em nós, Deus nos fez seus filhos. Isso coloca todos os cristãos em igualdade, exigindo humildade e amor para com o próximo em Cristo.

E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, no terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu aos céus, está sentado à destra de Deus, o Pai onipotente, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos.

a. Jesus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem.

b. Sua humilhação e exaltação ocorreram em nossa história.

c. Tanto a cruz quanto a ressurreição são elementos centrais da fé cristã
a. O sacrifício de Jesus é único e perfeito, capaz de aplacar a ira de Deus ante o pecado.

b. Os seres humanos foram criados bons, mas por causa da queda, a imagem de Deus tornou-se danificada: por meio da obra de Jesus Cristo, Deus redime seu povo eleito.
Creio no Espírito Santo,
na santa igreja católica [cristã], na comunhão dos santos, na remissão dos pecados,
na ressurreição da carne e na vida eterna.
Amém.
a. A igreja é uma comunidade mantida e sustentada pelo Espírito Santo.

b. Para cada pessoa, a morte é a porta tanto para a vida com Deus e seu povo, como para a eterna separação do único que pode preencher nossas aspirações mais profundas.

c. Ressurreição: homem integral

d. Esperança escatológica

a. Por causa da queda, o homem não é mais o que foi um dia. Só elo Espírito Santo, a imagem de Deus no pecador pode ser restaurada.

b. Somos chamados para viver em comunidade.

c. A ressurreição exclui a reencamação: a morte não é o fim; ela representa uma porta para a eternidade: com Deus ou sem Deus.

d. A história é linear, uma seqüência significativa de eventos que ocorrem para o cumprimento dos propósitos de Deus para a criação: a volta em glória de Cristo.


Em conclusão, o estudo teológico deve ser produzido num ambiente de devoção e adoração. Bavinck disse: “O temor de Deus deve ser o elemento que inspira e anima a investigação teológica. Isso deve marcar a cadência da ciência. O teólogo é uma pessoa que se esforça para falar sobre Deus porque ele fala fora de Deus e por meio de Deus. Professar a teologia é fazer um trabalho santo. É realizar uma ministração sacerdotal na casa do Senhor. Isso é por si mesmo um serviço de culto, uma consagração da mente e do coração em honra ao Seu nome.[9]



[1] Aula de abertura do ano letivo no Centro de Estudos da Reforma ministrada pelo Prof. Antonio de Pádua em 06 de feveriro de 2017
[2] HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 14.
[3] BAVINCK, Herman. Teologia Sistemática. São Bernardo do Campo: SOCEP, 2001, p. 32
[4] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 1
[5] HAMMETT, John S. Apostila para os alunos de teologia sistemática (Não publicada). Rio de Janeiro: Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, 1995, p. 1-2.
[6] MAIA, Hermisten. Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo. São José dos Campos, SP: Fiel, 2014.
[7] FERREIRA, Franklin, MYATT, Alan. Teologia Sistemática: Uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 20
[8] O Credo não foi escrito pelos 12 apóstolos, o nome se dá por seu conteúdo, pois ele expressa as verdades vitais e fundamentais da doutrina Apostólica. Há fragmentos dele encontrados no século II, mas a versão que usamos hoje foi completada em meados do século VI. A criação dele foi necessária à Igreja durante o seu grande avanço missionário global e consequente contato com outras culturas pagãs.
[9] BAVINCK, Herman. Teologia Sistemática. São Bernardo do Campo: SOCEP, 2001, p. 9

sábado, 29 de abril de 2017

HISTÓRIA DE ISRAEL E DOS POVOS VIZINHOS [Prefácio]


Uma nova história do povo de Israel só faz sentido no momento atual se levar em conta a situação da pesquisa, consideravelmente modificada no decorrer dos dois últimos decênios e caracterizada por insegurança e reservas. Mesmo que não exclusivamente, isso se aplica em especial à pré-história e à história primitiva de Israel. Para de antemão eliminar mal-entendidos na utilização deste livro: a expressão “e dos povos vizinhos” naturalmente não significa que aqui também ainda possa e deva ser oferecida de passagem, por assim dizer, a história do Egito, da Mesopotâmia, dos povos e dos países do corredor siro-palestinense e, quem sabe, da Ásia Menor no 2º e 1º milênios a.C. O título não quer nada mais do que indicar o fato historicamente indiscutível de que a história de Israel não pode ser tratada independentemente da do Oriente Antigo, mas constitui, sob todos os aspectos, parte inseparável dela.

A exposição foi disposta em dois volumes: o primeiro, dos primórdios até o fim da época da formação do Estado e o segundo, da chamada “ divisão do reino” até Alexandre Magno, além de uma visão prospectiva sobre a época helenístico-romana entre 332 a.C. e 135 d.C. Esta última tem a função de visualizar como as principais correntes continuaram ativas até a Segunda Revolta Judaica, sem pretender enfocar a totalidade da história judaica em seu estreito entrelaçamento com a história geral da área mediterrânea.

As indicações bibliográficas são relativamente detalhadas para possibilitar o trabalho de aprofundamento. Seguidamente menciono trabalhos sem os comentar, mesmo que não coincidam com a posição defendida no texto. Com alterações pouco significativas, a transliteração das palavras semíticas segue o modelo usual na revista da Associação Alemã para a Palestina (Zeitschríft dês Deutschen Palástina-Vereins). Para o egípcio decidi, apesar de várias ponderações em contrário, ater-me à transliteração clássica do Àgyptisches Wõrterbuch, de Berlim. Neste sentido deve-se considerar que não conhecemos ou não conhecemos corretamente a pronúncia de várias línguas semíticas antigas e do egípcio. Isso está relacionado com o fato de que na maioria dos textos antigos estão escritas só as consoantes, e não as vogais. Por isso as transliterações muitas vezes só oferecem a estrutura “ impronunciável” das consoantes, sem as vogais. Onde era possível e parecia fazer sentido, indiquei a pronúncia convencional dos eruditos: p. ex., em egípcio: Sh’sw = mais ou menos Shasu, ‘pr.w = mais ou menos apiru, e coisas parecidas. Tais indicações só servem para de qualquer modo possibilitar alguma pronúncia, e não para reproduzir a expressão foneticamente correta da respectiva palavra. Nos topônimos constam, entre parênteses, as localidades, i. é, os nomes atuais, em geral árabes, quando conhecidos ou prováveis. Os esboços de mapas só servem para se ter uma visão geral. Para um estudo mais exato do lado geográfico da história gostaria de recomendar: Palãstina, historisch-archâologische Karte, duas folhas a 14 cores em escala de 1:300.000 com introdução e índice, elaborado por Emst Hõhne (Gõttingen, 1981).

Ambos os volumes são dedicados à memória de meus professores de Antigo Testamento e Egiptologia: Albrecht Alt e Siegfried Morenz. Devo-lhes mais do que é possível expressar com palavras. (Prefácio)

Volume 01 – Dos primórdios até a formação do Estado.
Volume 02 – Da época da divisão do Reino até Alexandre Magno

DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos, vol 1 e 2. São Leopoldo, Editora Sinodal, 1997.

A IGREJA DE CRISTO [Aula ministrada no Centro de Estudos da Reforma]


A IGREJA DE CRISTO [1]

Se a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo é o foco da história, então a Igreja de Cristo, Seu Corpo, é também um ponto importante, mas não no mesmo sentido. A obra de Cristo é o fundamento da Igreja, mas Ele, e não a Igreja, é o ponto no qual a história tem de ser compreendida e julgada. No entanto, a obra de Cristo continua na Igreja, onde a plenitude do mistério de Deus na redenção é revelada no meio de Seu povo. [2]

Um texto dos escritos de Paulo diz:

“A mim, o menor de todos os santos (apóstolo), me foi dada essa graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo e demonstrar a todos qual a dispensação do mistério, que, desde os séculos, esteve oculto em Deus, que tudo criou; para que, agora, pela Igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus”.  (Efésios 3:8-10).

Qualquer leitor do Novo Testamento entenderá que a Igreja é importante nesta era, da mesma forma que os pactos de Deus com Israel foram fundamentais no período do Antigo Testamento. Mas o texto de Efésios diz mais; a multiforme sabedoria de Deus esta sendo manifestada na Igreja ainda hoje, e os principados e potestades – a frase se refere aos poderes espirituais como os anjos e os demônios – estão contemplando a Igreja para conhecer a sabedoria e o plano de Deus revelado a ela [por meio dela].

É como que a Igreja fosse um palco onde o Senhor estivesse apresentando a grande peça da redenção; uma novela da vida real, na qual é mostrado como aqueles que se rebelaram contra Ele e contamiram-se são, agora, conduzidos a uma reconciliação com Ele, tornando-se apenas agentes de restauração e cura.

Àqueles que são membros do Corpo de Cristo é dado o privilégio de tornar-se o que Ralph Keiper chama de “sinais santificadores da graça de Deus”. Keiper acrescenta:

“A vontade divina para você é que sejamos instrumentos de Sua sabedoria, a fim de mostrar que, verdadeiramente, somos a obra superior de Sua criação e para que os homens possam contemplar-nos como a obra-prima de Deus [...]. Fomos redimidos e experimentamos tão grande salvação que, em um mundo pecador e corrupto, podemos tornar-nos filhos de Deus sem reservas. Além disso, temos condições de demonstrar, por meio da nossa vida, a maravilhosa salvação de que falamos, se fôssemos um livro ilustrado, o qual poderá o povo ao Livro escrito. Por este, as pessoas conhecerão, mediante o Espírito Santo, o Livro Vivo, que é Jesus”.[3] 

Por causa da importância crucial da igreja para desenvolver o plano redentor de Deus, nossa atenção, agora, deve focalizar-se nessa realidade. Estudaremos a natureza, as marcas, a vida, a organização e as responsabilidades da Igreja.


O LEGADO DO ANTIGO TESTAMENTO.

A Igreja é criação de Cristo e remonta à época de Jesus de Nazaré, porém ela tem raízes no Antigo Testamento e não pode ser bem compreendida sem essa base no passado. Isso é teologicamente verdadeiro, porque o conceito do povo de Deus, obviamente, já existia no período do Antigo Testamento, assim como no Novo.

É verdadeiro também, no aspecto lingüístico, que, uma vez que a palavra grega para igreja [ekklesia] aparece muitas vezes em relação à Israel na tradução grega do Antigo Testamento. As passagens em que ekklesia aparece podem, supostamente, ter exercido uma influência no passado dos escritores do Antigo Testamento.

Na Septuaginta, o termo ekklesia, geralmente, traduz, o termo hebraico qhl, que, assim como a palavra grega, refere-se àqueles que são chamados ou congregados por Deus como Sua possessão especial.

Isso diz às primeiras aparições dessa palavra: com a frase ”no dia da congregação” (Dt 9:10b; 10:4; 18:16), o termo faz menção  à nação de Israel congregada no monte Sinai. Esse é também seu significado no salmo 22, no qual o termo congregação volta a aparecer (v.22,25), bem como é a ideia está por traz da referência de Estêvão à congregação em seu termo no livro de Atos: “Este é o que esteve entre a congregação no deserto, com o anjo que lhe falava no monte Sinai, e com nossos pais” (Atos 7:38a).

Nessas passagens e em outras, o elemento-chave é o chamado de Deus, seguido da resposta dos convocados e do pacto solene do Senhor para abençoá-los – para ser o seu Deus, e eles serem o Seu povo.

Podemos observar uma ilustração desses elementos no chamado de Abraão, com quem a congregação do Antigo Testamento começou. Somos informados de que o Senhor apareceu a Abraão dizendo:

“Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai-te da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome, e tu serás uma bênção” (Gn 12:1,2).

Nessa narrativa, a iniciativa foi toda de Deus, uma vez que foi ele que procurou e chamou Abraão, e não o contrário.

De novo, vemos o começo da promessa ou do pacto:

“Então, disse a Abrão: Saibas, decerto, que peregrina será a tua semente em terra que não é sua; e servi-los-á e afligi-la-ão quatrocentos anos. Mas também eu julgarei a gente à qual servirão, e depois sairão com grande fazenda. Naquele mesmo dia, fez o Senhor um concerto (pacto) com Abrão, dizendo: à tua semente tenho dado esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio Eufrates”. (Gênesis 15:13,14,18).

“Quanto a mim eis o meu concerto contigo é, e serás o pai de uma multidão de nações. E estabelecerei o meu concerto entre mim e ti e a tua semente depois de ti em suas gerações, por concerto perpétuo, pra te ser a ti por Deus e à tua semente depois de ti. E darei a ti e a tua semente depois de ti a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã em perpétua possessão, e ser-lhes-ei o seu Deus”. (Gn17:4,7,8).

A resposta de Abraão foi crer em Deus (Gn 15:6) e adorá-lo (Gn 12:8).

Percebemos o mesmo modelo no relacionamento de Deus com Isaque, o filho de Abraão, e com Jacó, seu neto. Mais tarde, houve um chamado especial para os descendentes do patriarca, quando eram escravos no Egito. Naquela ocasião, Deus disse a Moisés:

“E disse o Senhor: Tenho visto atentamente a aflição de meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores (que tratam com extremo rigor), porque conheci a suas dores. Portanto, disse para livrá-los das mãos dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel; ao lugar do cananeu, e do heteu, e do amorreu, e do ferezeu, e do heveu, e do jebuseu”. (Êxodo 3:7-8).

Finalmente, encontramos uma chamada e promessa a Israel, seguida do cativeiro babilônico:

 “Portanto, eis o que dias vem, diz o Senhor, em que nunca mais se dirá: Vive o Senhor, que fez subir os filhos de Israel da terra do Egito. Mas, vive o Senhor, que fez subir os filhos de Israel da terra do Norte, e de todas as terras para onde os tinha lançado; porque eu os farei voltar à sua terra, que dei a seus pais”. (Jeremias 16:14-15).

Em cada uma dessas passagens, a criação de uma ekklesia – uma congregação daqueles que são chamados para se tornar um povo especial para Deus, longe de um relacionamento normal com o mundo –. Esse  chamado é seguido por promessas especiais e ter como resposta a fé, a


ALICERÇADOS EM CRISTO.

Cada um desses elementos do Antigo Testamento está presente no entendimento da Igreja contido no Novo Testamento, mas ela possui características as quais não podem ser corretamente aplicadas à congregação do Antigo Testamento e, portanto, apresentam-se como algo novo. A Igreja: (1) está alicerçado no Senhor Jesus, (2) é chamada à existência pelo Espírito Santo e (3) deve conter pessoas de todas as raças, que, por meio dela, tornaram-se novas criaturas à vista de Deus.

A primeira referência à Igreja do Novo Testamento torna claro o primeiro desses pontos: o único Fundamento (alicerce) sobre o qual a Igreja pode estar é o seu Mestre, Jesus Cristo.  O texto de Mateus 16:18 é, provavelmente, o mais conhecido, que trata da Igreja.

Jesus havia deixado a região perigosa da Galileia para ir a Cesareia de Filipe, onde começa a perguntar a Seus discípulos qual a opinião do povo sobre Ele. “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem, Jesus perguntou. Os discípulos responderam: Uns, João Batista; outros, Elias, e outros, Jeremias ou um dos profetas. O Mestre prosseguiu: E vós, quem dizeis que eu sou? Pedro respondeu pelos demais: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16: 13-16). Nesse ponto, Jesus começa a falar da Igreja e dos sofrimentos que precederiam a sua fundação:

“Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi a carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai, que está nos céus. Pois eu também te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas dos infernos não prevalecerão contra ela. E eu te darei a chave o Reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus. Então, mandou aos seus discípulos que a ninguém dissessem que ele era o Cristo. Desde então, começou a mostrar a seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muito dos anciãos, e dos principais sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia”. (Mateus16:17-21).

Essa passagem apresenta vários pontos importantes. Primeiro, a ênfase da confissão de Pedro, que focava a pessoa de Cristo, e não próprio Pedro, Jesus disse que essa compreensão tinha sido dada a ele por uma revelação especial do Pai.

A Igreja Católica construiu uma doutrina da supremacia do papa com base nesse trecho da Bíblia, alegando que Jesus fundara a Igreja sobre o alicerce Pedro e seus sucessores. Na verdade, o grego que á a base desse versículo, apresenta um jogo de palavras entre as formas masculinas e femininas da palavra petros ou rochedo. Isso mostra que o verdadeiro alicerce da Igreja deve (e é) Jesus.

O nome (petros, a forma masculina) significa pedra, mas poderia ser uma pedra grande ou pequena, ou até mesmo um seixo ou cascalho. A forma feminina, petra, por sua vez significa rochedo, como a pedra que forma montanha. Então a passagem bíblica realmente quer dizer: “Você, Pedro, é uma pedra pequenina, sólido em sua confissão, mas facilmente removível. Eu, ao contrário, sou o rochedo que atravesso eras. Sobre esse alicerce sólido, para o qual a sua confissão apontou [Eu o Cristo] edificarei a minha Igreja”.

Em seus escritos futuros no Novo Testamento, Pedro jamais aventou que ele fosse o alicerce o alicerce da Igreja. No entanto, esse apóstolo se referiu a Jesus como o Alicerce, evocando a imagem de Cristo, a qual, sem dúvida, o havia impressionado e ele guardava no coração.

Não muito depois da ressurreição de Jesus, Pedro e João, por estarem pregando, foram presos por ordem do Sinédrio – o mesmo grupo que havia julgado e condenado Jesus – para dar-lhe explicações. Pedro usou a ocasião para testemunhar do Filho de Deus e falar de Seu poder, pelo qual um paralítico acabara de ser curado. Então, Pedro prosseguiu em clara referência a Jesus:

“Ele é a pedra rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi colocada por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há dado entre os homens, pelo qual devemos ser salvos”. (Atos 4:11,12).

Nós temos essa mesma perspectiva na primeira epístola de Pedro, em que ele compara Jesus a uma pedra principal de esquina, sobre a qual nós, as pedras lavradas, podemos ser fixadas. Eis sua palavra:

“E, chegando para ele, a pedra reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para ofereceres sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo. Pelo que nas Escrituras contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido”. (1 Pedro 2:4-6).

Um segundo ponto importante dessa primeira menção da Igreja no Novo Testamento é a sua ênfase na obra de Cristo. Pedro apontou para a pessoa de Jesus, confessando que Ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo. No entanto, depois de confirmar que isso estava correto, Jesus disse que Sua obra inicial como Messias (Cristo) não seria exatamente o que os discípulos esperavam dele. Seria uma obra de sofrimento e morte.

 “Desde então, começou Jesus a mostrar aos seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muito dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar no último dia”. (Mateus 16:21).

Pedro não compreendeu a obra de Jesus de imediato, por isso considerou esse sacrifício desnecessário e chegou a repreender Jesus: “Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te acontecerá isso”! (V.22). No entanto, o Mestre considerando Seu sofrimento tão necessário que Ele enxergou as palavras de Pedro como tentação satânica. Em vez de responder a Pedro, Jesus repreendeu o próprio diabo: “Para trás de mim, Satanás, que me serve de escândalo; porque não repreendeis as coisas que são de Deus, mas sim, as que são dos homens” (V.23).

Então, a primeira coisa que devemos dizer sobre a Igreja que a pessoa e a obra de Cristo são seus alicerces – a Igreja está edificada sobre Jesus –. Ela é a reunião do Corpo daqueles cujos pecados foram expiados mediante a morte do Filho de Deus eterno.

Qualquer congregação, não importa o nome que receba, fundada sobre outro alicerce não constitui a Igreja. Por outro lado, todos os que estão unidos pela fé em Jesus Cristo são Sua Igreja, independente de sua origem denominacional.

Esse conceito tem uma explicação importante: a Igreja de Cristo é uma Igreja e deve ser vista dessa forma pelo mundo afora. Jesus ensinou isso aos Seus contemporâneos judeus, por meio de uma imagem extraída da vida rural: comparando-se a um pastor e equiparando Sua Igreja a ovelhas. Cristo morreria por elas e, então, chamaria as ovelhas de muitos rebanhos para segui-lo.

 “Ainda tenho outras ovelhas que não são desse aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor”. (João 10:16).

Devemos entender o que Jesus disse nesse versículo, uma vez que ele tem sido usado de maneira imprópria. O problema pode ter sido começado com Jerônimo e a vulgata latina. Nessa tradução da Bíblia, Jerônimo falhou na distinção entre aprisco (mencionado na primeira parte do versículo) e um só rebanho (citado depois), pois são duas palavras inteiramente diferentes em grego.

Pelo fato de Jerônimo tê-las usado como iguais, muitas das nossas traduções o seguiram. É certo que o erro já foi corrigido em várias versões. Na tradução de Jerônimo Jesus parecia estar dizendo que há apenas uma organização (Igreja), e a dedução óbvia era que não poderia ter salvação fora daquela igreja da época. Essa interpretação foi oficializada pelo ensino católico romano, mas está fundamentada em uma tradução equivocada.

A Igreja da qual Jesus fala não é uma organização humana (embora certamente, ela tenha partes estruturadas), mas, sim, a reunião daqueles que o tem como Pastor. Desse modo, a unidade vem não por forçar todas as ovelhas a congregarem-se em uma única e grande organização (Igreja), mas pelo fato de que todos ouviram Jesus e deixaram os antigos vínculos, a fim de segui-lo.

A questão é: nós realmente confessarmos tal unidade com os nossos atos?  Acredito que, muitas vezes, não. O equívoco da Igreja Católica está em supor que o Espírito Santo trabalha somente nos limites eclesiásticos – isso é um erro. No entanto, ainda que se expresse de forma diferente, essa falha também se encontra no seio do protestantismo. O problema não é fato de existirem muitas denominações no meio protestante. Afinal, as pessoas são diferentes, e é compreensível que haja diversas organizações, com variados formatos de culto e orientação teológica, que expressam tais diferenças. Insistir no fato de que deve existir somente uma denominação protestante (como falam alguns) é um engano parecido com os católicos.

O problema real é que os cristãos de determinada denominação se recusam a cooperar com os de outra, alegando que eles estão contaminados pelos seus vínculos, que se encontram em desobediência ao Senhor por permanecerem naquela doutrina ou, até mesmo, que não são cristãos de verdade. Atitudes como essa, além de impedir o avanço do evangelho no mundo de hoje, constituem pecado, e não experimentaremos um grande avivamento se os cristãos não se arrependerem desse pecado e pedirem perdão a Deus que os purifique.

O que concluímos sobre a Igreja com base nas passagens bíblicas citadas e em outras? Podemos afirmar:

1º - Há uma Igreja à qual pertencem todos os que confessam Jesus como Senhor e Salvador. Todos os cristãos são como os outros cristãos e devem reconhecer isso como verdade, muito embora os “outros cristãos” estejam em erro ou neguem doutrinas importantes, que consideram certas.

2º - Na Bíblia, não há nada que nos mostre que deveria haver – ou mesmo que deveríamos desejar – uma única denominação a qual abarcasse todos.  Em vez disso, temos que esperar que Deus chame à fé pessoas no interior das denominações e as conduza ao serviço cristão da sua e das outras igrejas. Não ousemos afirmar que outro cristão está fora da verdade de Deus só porque ele ou ela está congregando em outro lugar.

3º- Os filhos de Deus precisam uns dos outros e devem aprender uns com os outros, independente de denominação, seja ela batista, presbiteriana, episcopal, metodista, pentecostal, neopentecostal, dentre outras. Isso não significa que cada um de nós deva achar, a partir de agora, que os outros cristãos estão completamente certos nos assuntos relativos à igreja ou à doutrina. Na verdade precisamos aprender com o Corpo de Cristo (o ensinamento da Igreja) e receber ajuda dele por intermédio de irmãos e irmãs de outras igrejas.

4º- Por causa do amor que mantém unida a Igreja verdadeira, nós também temos a obrigação de demonstrar esse amor-unidade de forma tangível, além e acima de projetos e “tons” denominacionais. Fazer isso é a base indispensável para nossa missão. “Nisso tudo conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. (João 13:35).


CAPACITADOS PELO ESPÍRITO.

Uma segunda característica exclusiva da Igreja do Novo Testamento é que ela foi gerada e recebeu o poder do Espírito Santo. Embora o Senhor Jesus seja o alicerce da Igreja, esta não veio à existência imediatamente após a Sua morte, ressurreição e ascensão, mas, sim, no Dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos com poder e provocou muitas conversões na primeira pregação pública sobre Cristo.

O Senhor preparou os discípulos para essa vinda do Espírito Santo ao ordenar que eles ficassem em Jerusalém até aquele momento. Só depois deveriam partir como Suas testemunhas.

 “Mas recebereis as virtudes do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra”. (Atos 1:8).

O Espírito Santo faz três coisas pela Igreja em todas as épocas e em todos os lugares. Primeira, como o versículo citado declara, Ele deu virtude, ou poder, a ela para cumprir o mandamento de Cristo e ser eficiente ao cumpri-lo. Esse é o combustível da missão dada por Cristo. Ele estava dizendo ao discípulos que deviam ser Suas testemunhas por todo o mundo, começando por Jerusalém, porém não seriam capazes de fazer isso antes de o Espírito Santo descer sobre eles para enchê-los com palavras e poder.

Quando Pedro pregou durante o Pentecostes três mil pessoas creram no Evangelho. Então, eles ingressaram na comunhão da Igreja “e perseveraram na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações” (At 2:42. Na pregação seguinte de Pedro, quase cinco mil creram (At 4:4). Foi uma resposta fenomenal para qualquer época ou lugar do cristianismo, mas, particularmente, para uma cidade que, pouco tempo antes, havia rejeitado Jesus.

Somente dois meses antes, tinham ferido e matado o Filho de Deus, mas, por ocasião da pregação de Pedro, converteram-se a Jesus em números estrondosos. O que fez a diferença?

Com certeza, não foi simplesmente aquela pregação, ou teríamos de concluir que Pedro era um pregador melhor do que Jesus? A diferença foi que o Espírito Santo falou por intermédio de Pedro e mudou o coração de seus ouvintes. O mesmo acontece hoje. Nós pregamos a respeito de Cristo e testemunhamos dele, mas não podemos mudar o interior das pessoas; apenas o Espírito Santo pode fazê-lo, e Ele faz isso.

Segunda, o Espírito Santo foi enviado para desenvolver o caráter do Senhor Jesus Cristo em Seu povo. Não somos iguais a Ele naturalmente, mas devemos tornar-nos como Ele quando o Espírito nos transformar em Sua imagem.

 “Mas todos nós, com cara descoberta, refletindo, como um espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor”. (2 Coríntios 3:18).

Terceira, por intermédio do Espírito Santo, o Cristo ressurreto está em Seu povo para encorajá-lo durante esta dispensação. O Senhor falou disso antes mesmo de Sua crucificação:

“E eu rogarei a Pai, e ele vos dará outro consolador, para que fique convosco para sempre, o Espírito da verdade, que o mundo (os não convertidos a Jesus) não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e está em vós”. (João 14:16-17).

Por causa da vida do Espírito Santo, Jesus pôde dizer: “E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos (fim dos tempos)”. (Mt 28:20b), e: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize”. (Jo 14:27).

A Igreja de Cristo existe para ser uma realidade espiritual na qual os diferentes dons do Espírito Santo sejam vistos. Essa realidade deveria vigorar na Igreja organizada ou visível. Esta não é idêntica à Igreja espiritual e, muitas vezes, falha em mostrar tais dons. No entanto, os dons deveriam ser vistos onde quer que cristãos verdadeiros se reunissem em nome de Jesus – o mundo deveria poder reconhecer que há alguma virtude espiritual envolvendo os cristãos.

Francis Schaeffer escreveu:

 “Estas são as coisas que o mundo deveria ver quando olha para a Igreja – algo que ele não consegue explicar [...]. A Igreja do Senhor Jesus Cristo deveria estar funcionando momento a momento em um plano sobrenatural. Esta é a Igreja vivendo pela fé, e não na infidelidade. Esta é a Igreja vivendo, na prática, sob a liderança de Cristo, em vez de pensar em Cristo como alguém distante, empenhado na construção da Igreja invisível, enquanto não construímos o que está à mão com a nossa própria sabedoria e nosso poder” [4] 


INCLUINDO TODOS.

Uma terceira característica especial da Igreja foi mencionada no trecho sobre o alicerce da Igreja, mas não foi desenvolvida a contento. Trata-se de sua natureza universal, na qual povos de todas as culturas são reunidos em comunhão, e todas as barreiras nacionais, raciais e outras são derrubadas.

Bannerman escreve sobre isso:

 “A Igreja invisível de Cristo, na qual congregam todos os crentes verdadeiros ao redor do mundo, é universal, ou, em outras palavras, não confinada a denominado lugar ou a pessoas. Nesse aspecto, ela contrasta com o sistema centralizado a local da Igreja na dispensação judaica, na medida em que, quando a Igreja judaica constituiu uma sociedade de adoradores de Deus, era local, não universal. Ela tinha seu centro em Jerusalém e sua circunferência nos limites geográfico da Judeia.”

Há um contraste marcante entre tudo isso e a Igreja cristã do evangelho de Jesus. Agora, já não há lugar central para o culto religioso do povo de Deus – nenhum lugar santo para onde devemos dirigir-nos para a adoração, ou, mesmo à distância, em que devemos voltar o nosso rosto para orar. Nem em Jerusalém, nem no templo, os homens e mulheres são obrigados a adorar o Pai. Onde quer que haja, nesta vasta terra, um verdadeiro adorador, lá está um templo verdadeiro de Deus, e lá Deus pode ser adorado em espírito e em verdade.

“As barreiras estreitas do sistema antigo caíram por terra, e, no dom do Espírito Santo para todos os crentes, assim como na comunhão do Espírito extensiva a todos, esta posta a função de uma Igreja não mais confinada a uma nação como antes, no tempo da Lei, mas universal e sem fronteiras”.[5]

A união de pessoas dentro da Igreja é proporcionada por Deus, mas é algo que tem de ser alcançado historicamente. A igreja deve cultivar irmandade, um sentido de unidade familiar, entre aqueles que o evangelho alcança.

Muitas barreiras para essa união existiam na Igreja primitiva. Havia as raças (os gregos desprezando os romanos, os romanos desprezando os gregos); as de nacionalidade (os cativos se rebelando contra a escravidão romana); e as de gênero, língua e cultura – as mesmas que existem hoje entre o povo de Deus. Entretanto, todas elas foram derrubadas quando os que foram chamados para a fé em Cristo começaram a enxergar a sua unidade nele.

“Por que ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede da separação que estava no meio”. (Efésios 2:14).

Para os coríntios, Paulo escreveu: “[Deus] nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo e nos deu o ministério da reconciliação” (2 Coríntios 5:18).

Em eu comentário sobre o Evangelho de João., William Barclay conta um episódio da vida de Egerton Young, o primeiro ministro enviado a uma tribo indígena do Canadá. Young foi até os índios com a mensagem de um Deus Pai, e eles a receberam como uma nova revelação. Quando aquele missionário concluiu sua mensagem, um velho cacique disse:

 “Quando você falou do Grande Espírito [Criador] agora mesmo, ouvi você falar “Nosso Pai”? “Sim! – respondeu o missionário. “Nós conhecemos o Pai porque Deus é revelado a nós como Pai por intermédio de Jesus Cristo”. “Isso é muito novo e agradável para mim” – disse o cacique. “nos nunca pensamos no Grande Espírito como Pai. Nós o vimos no trovão, nós o vemos no relâmpago, nas tempestades, nas nevascas, e ficamos com medo. Mas, quando você diz que o Grande Espírito é nosso Pai, isso é muito belo para nós”. O cacique, então, fez uma pausa e logo voltou a perguntar: “Missionário, você disse mesmo que o Grande Espírito é seu Pai”? “Sim, eu disse” – respondeu mais uma vez Young. “E você disse que Ele é o Pai dos índios”? “Sim, Ele é o Pai dos índios”. “Então – deduziu o cacique – “você  e eu somos irmãos”. [6]

Nada vai abolir a diferença entre as nações, pois elas sempre existirão com suas diferenças. Da mesma forma, nada vai abolir as denominações. Contudo, a despeito disso tudo – raças, nações e denominações –, pode haver uma mudança visível e real entre aqueles que confessam o Senhor Jesus Cristo como Pastor.

Dr. Martyn Lloyd-Jones diz em seu estudo do segundo capítulo de Efésios:

 “Somos todos pecadores... Somos todos igualmente perdidos... Chegamos ao único e mesmo Salvador... Temos a mesma salvação...Temos o mesmo Espírito Santo...Temos o mesmo Pai... Temos as mesmas provações... e, finalmente, marchamos todos juntos para o mesmo lar eterno”.[7] (LLOYD-JONES, 1972, p. 282-288).

Somente um conhecimento profundo do amor de Jesus Cristo nos manterá juntos e unidos. Amem?


[1] Aula ministrada pelo Prof. Antonio de Pádua no Centro de Estudos da Reforma em 17 de Abril de 2017.
[2] BOICE, J. M. Fundamentos da Fé Cristã – Um Manual de Teologia ao Alcance de Todos. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2013, p.491-499.
[3] KEIPER, Ralph L. The Problem o f Knowledge in the World o f Men [O problema do conhecimento no mundo humano]. In: Tenth: An Evangelical Quarterly, July, 1975, p. 10.
[4] SCHAEFFER, Francis.  True spirituality [Verdadeira espiritualidade]. Illinois: Tyndale, 1971, p. 172, 174.
[5] BANNERMAN, James. The Church of Christ: A Treatise on the Nature, Powers, Ordinance, Discipline and Government o f the Christian Church [A Igreja de Cristo: um tratado sobre a natureza, os poderes, as ordenanças, a disciplina e a administração da Igreja cristã]. Vol. 1 e 2. London: Banner of Truth Trust, 1974, p. 42,43.
[6] BARCLAY, William. The Gospel of John [O Evangelho de João]. Vol. 1. Philadelphia: Westminster, 1956, p. 74-75.
[7] LLOYD-JONES, M artyn. God’s way of reconciliation [O caminho da reconciliação de Deus].  Grand Rapids: Baker Book House, 1972.

A LEI MORAL [Prefácio]


O propósito deste volume é apresentar uma discussão do valor da Lei de Deus na vida do crente, um assunto importante e urgente nos dias de hoje. Em vários períodos na história da doutrina cristã, tomou-se necessário reafirmar a verdade de que o ministério da lei foi divinamente ordenado como um meio de graça para a santificação e caminhada piedosa do crente. Isso, naturalmente, não nega que o único poder suficiente para a santificação é a habitação de Cristo no crente por meio do Espírito Santo: isso é santificação pela fé, e uma das grandes glórias do Evangelho Cristão é o fato de que ele não somente diz aos homens para serem bons mas os capacita para assim o serem.

Mas a concessão do poder para uma vida santa precisa ser acompanhada pela instrução no seu modelo. Em que consiste o comportamento santificado? Consiste em agradar a Deus. O que agrada a Deus? Que sua vontade seja feita. Onde a sua vontade pode ser discernida? Em sua santa Lei. A Lei, então, é a regra de vida do cristão e o crente encontra o seu prazer na Lei de Deus segundo o homem interior (Rm 7.22). O cristão não está sem lei, “mas debaixo da lei de Cristo” (1 Co 9.21). O pecado é a ilegalidade e a salvação consiste em levar o ilegal para sua verdadeira relação com Deus, dentro da bênção da sua santa Lei. A Lei de Moisés é nada menos do que a Lei de Cristo.

O fato de que pela graça um homem não rouba, não mente ou não comete adultério, não destrói, de forma alguma, o fato de que ele não deve fazer isso e o cristão que faz qualquer uma dessas coisas se toma condenado pela Lei como um pecador. Visto ser ele um crente justificado, este seu pecado não o leva à condenação etema, mas certamente o conduz à censura do Senhor. O fato de Deus não ver pecado no crente é verdadeiro no que diz respeito à sua posição (justificação), mas uma proposição completamente incorreta quanto ao seu estado (santificação). A Lei de Deus, por essa razão, não somente instrui o crente quanto ao tipo de vida que agrada a Deus, mas também é um instrumento de humilhação pelo qual o Espírito Santo leva o crente a descobrir suas faltas, lastimar-se por tê-las cometido e a arrepender-se delas e, assim, recorrer ao Senhor Jesus Cristo, o único no qual a graça da santificação pode ser encontrada.

Haveria menos tragédias morais entre os cristãos professos se a instrução salutar da Lei de Deus fosse atendida cuidadosamente. Que o crente possa olhar exclusivamente para Cristo na busca do poder capacitador de uma vida vitoriosa - como de fato deve - mas que ele, ao mesmo tempo, se lembre que a vida santa não consiste em prazer emocional, mas sim em cumprir os mandamentos
de Deus.

Insistir nessa função da Lei de Deus na vida do crente não é se tornar legalista. O legalismo é um abuso da Lei: é uma confiança no cumprimento da Lei para aceitação perante Deus, e o cumprimento de leis, seja orgulhoso ou servil, não é elemento da graça de Deus. No entanto, a obediência de amor rendida alegremente é algo completamente diferente e faz parte da própria essência da vida cristã. Não é legalismo um homem obedecer a Deus porque ele ama agir assim; isso é liberdade: mas, lembre-se, ainda é obediência.

A Lei de Deus tem seu lugar na experiência cristã porque, embora seja por causa de um amor profundo por Deus que o crente faz o que agrada a Deus, ele está, ao mesmo tempo, fazendo aquilo que Deus o manda fazer. Se a má vontade de um homem em obedecer não invalida o mandamento - e isto é admitido por todos - então o mesmo é válido para sua prontidão. A Lei não termina quando um homem se regozija em obedecê-la: ainda existe para ser honrada e gozada na obediência a ela. Um soberano não é menos soberano porque seus súditos o amam. Deus não cessa de ser Deus assim que seu povo é reconciliado com ele. Ele não fica privado de todos os direitos de comando tão logo as pessoas comecem a amá-lo. Conseqüentemente, não existe incompatibilidade entre amor e obediência; pois na vida verdadeiramente santificada existe a obediência em amor e o amor obediente.

Esta verdade talvez possa ser mais facilmente alcançada se ilustrada com relação à Lei positiva, como distinta da Lei moral. Um dos exemplos excepcionais da Lei positiva na vida do filho de Deus é, naturalmente, a ordenança da Ceia do Senhor. Um crente irá alegremente cumprir esse andamento de Cristo, mas nunca vai pensar em dizer que ele assim age meramente porque gosta, não porque o Senhor mandou. Se falasse assim, ele, então, se tomaria uma lei para si mesmo. O crente dirá que ama cumprir cada mandamento sagrado de Cristo e, ao afirmar isso, reconhece o lugar do mandamento. A verdadeira santidade não se detém para considerar meramente as qualidades intrínsecas do bem ou mal, mas dará atenção unicamente à vontade daquele que proferiu os mandamentos. Não há santidade onde não há sujeição a Deus: toda bondade deve ser por causa de Deus, não motivada por si mesma. As boas obras do crente não são meramente boas, são boas pelo fato de serem devidas. A obrigação da obediência é perpétua e pertence à relação da criatura com Deus, e um dos mais ricos frutos da graça é o fato de a alma regenerada poder dizer, “Quanto amo a tua lei!” (SI 119.97). A doutrina bíblica da santificação, então, não é “confie e relaxe” mas “confie e obedeça”. O ensino puritano evita o ativismo pelagiano de um lado e o passivismo quietista do outro, e no lugar de ambos, afirma a necessidade da obediência da fé.

O propósito adicional deste volume é apresentar a discussão da Lei 1 por.meio de uma das mentes mais privilegiadas do período Puritano, a saber, a de Anthony Burgess.

Muito do bom pensamento puritano é encontrado não apenas nos escritos de homens mais conhecidos como John Owen e Thomas Goodwin, mas também na obra daqueles que são menos familiares hoje em dia. Eles permaneceram desconhecidos grandemente por causa do estilo literário de suas épocas, que os leitores modernos encontram dificuldade em seguir, mas eles foram homens de percepção teológica, de intelecto brilhante, pensamento claro e argumento invencível. Anthony Burgess foi um desses.

O tratamento atual do assunto é baseado nos pensamentos e material desse distinto pensador encontrados na sua notável obra intitulada, Vindiciae Legis; ou A Vmdication of the Moral Law. Dessa forma, espera-se que, em alguma extensão, a grande contribuição feita por Anthony Burgess possa ser salva e que receba seu lugar no pensamento de hoje.

KEVAN, Ernest. A Lei Moral. São Paulo. Editora Os Puritanos, 2000. 149p.