segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

AS ESCRITURAS DÃO TESTEMUNHO DE MIM: JESUS E O EVANGELHO NO ANTIGO TESTAMENTO [Organizado por D. A. Carson]



O livro que você tem em mãos contém, em forma escrita, as mensagens proferidas em abril de 2011 nas sessões plenárias da Conferência Nacional da The Gospel Coalition [Coligação pelo evangelho],em Chicago,nos Estados Unidos. As mesmas mensagens estão disponíveis em áudio e em vídeo no site (thegospelcoalition.org).

O tema da conferência era “Elas dão Testemunho de Mim: como pregar Jesus e o evangelho a partir do Antigo Testamento”. Várias das oficinas ali realizadas ligavam-se, direta ou indiretamente, ao mesmo tema. O título da conferência foi ligeiramente modificado para dar nome a este livro.

A fim de não suscitar expectativas falsas, devo mencionar o que essas oito mensagens não proporcionam. Elas não dão instruções práticas para os pregadores: não constituem um “manual sobre como ler o Antigo Testamento da perspectiva do Novo” ou coisa parecida. O melhor manual prático desse tipo é o de G. K. Beale, Manual do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento: exegese e interpretação. Além disso, o livro que você está lendo não procura fazer comentários sobre todas as passagens do Novo Testamento que citam o Antigo Testamento ou fazem alusão a ele. Para isso, seria necessário um livro volumoso demais,e esse livro já existe: é o Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento, de G. K. Beale e D. A.Carson,que se propõe como instrumento de referência para pregadores e outros que ensinam a Bíblia.

As exposições aqui reunidas oferecem algo mais modesto, mas também de efeito mais imediato: exemplos de pregadores cristãos que tratam de textos do Antigo Testamento, todos muito diferentes entre si. A exceção é o primeiro capítulo, que introduz o tema com proficiência. Os outros sete partem de passagens do Antigo Testamento e vão aproximando o leitor de Jesus e do evangelho.

Nesta coletânea de mensagens sobre diversos textos veterotestamentários, oito pastores e estudiosos evangélicos eminentes demonstram como pregar Cristo a partir do Antigo Testamento:
R. Albert Mohler Jr. – Estudando as Escrituras para encontrar Jesus
Tim Keller – A saída
Alistair Begg – De uma estrangeira ao Rei Jesus
James MacDonald – Quando você não sabe o que fazer
Conrad Mbewe – O Renovo justo
Matt Chandler – Juventude
Mike Bullmore – Deus tem um grande coração de amor pelos seus
D. A. Carson – Empolgando-se com Melquisedeque

Há imensas variações entre essas sete mensagens no que se refere ao modo pelo qual os textos do Antigo Testamento são tratados. Em alguns casos, o pregador enfoca os detalhes do texto e, demonstrando-se facilmente que a passagem é preditiva,o caminho daí até Jesus também se abre diretamente. Em outros casos,o pregador faz uso da tipologia — discernindo as pessoas, os lugares e as instituições que constituem padrões importantes do Antigo Testamento, os quais se desdobram em trajetórias que apontam para Jesus. Em um ou dois casos, o pregador expõe a “ideia geral” do texto comentado e, por meio de uma espécie de argumento analógico, identifica a mesma “ideia geral” na pessoa e na obra de Jesus Cristo. Por fim, o pregador pode demonstrar de que modo a sequência da revelação progressiva no Antigo Testamento dirige o leitor ao seu ponto alto, ou seja, ao próprio Jesus.

Em todos esses casos, nossa esperança e oração é que essas mensagens não sejam somente esclarecedoras, mas também nos conduzam à humildade, nos enriqueçam e nos edifiquem, além de incentivar-nos a continuar pregando e ensinando os textos do Antigo Testamento.

D. A. Carson
Considero o como um dos maiores teólogos da atualidade. Ele é doutor pela Universidade de Cambridge e um dos mais importantes biblistas e teólogos evangélicos deste século. É autor de vários livros, entre eles Igreja emergente, Introdução ao Novo Testamento, Os perigos da interpretação bíblica e Teologia bíblica ou teologia sistemática?, publicados por Edições Vida Nova, e também O Comentário de João e O Comentário de Mateus publicadas por Shedd Publicações.

AS ESCRITURAS DÃO TESTEMUNHO DE MIM: JESUS E O EVANGELHO NO ANTIGO TESTAMENTO. Organizado por D. A. Carson. Vida Nova, 2015.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

JOHN HUS - O PRECURSOR DA REFORMA


1. Cem anos antes da Reforma

Enquanto John Wycliffe enfrentava as autoridades da Igreja na Inglaterra, na distante Boêmia (que na época estava ligada ao Império Alemão, mas hoje é parte da República Tcheca), estava se formando um movimento reformador muito semelhante ao que ele propunha. Neste pequeno país, uma reforma na igreja era muito necessária, pois a compra e venda de cargos eclesiásticos, a corrupção moral e a pompa entre os clérigos eram muito comuns.

João Hus nasceu em cerca de 1372, de uma família camponesa pobre, que vivia na pequena aldeia de Husinek, no sul da Boêmia, e ingressou na Universidade de Praga quando tinha uns dezessete anos, em 1398, juntando-se ao corpo docente da Faculdade de Letras, como professor, fazendo os votos de sacerdote um pouco depois, em 1400. Durante estes anos, Hus experimentou uma conversão evangélica, embora não sejam claros seus detalhes. Sua escolha de uma vocação sacerdotal tinha sido motivada, em grande medida, pelo desejo de prestígio, segurança financeira e convivência na sociedade acadêmica. Como resultado de sua conversão, ele adotou um estilo mais simples de vida e manifestou mais interesse por seu crescimento espiritual.

Em 1402 Hus foi nomeado reitor e pregador da Capela de Belém, em Praga. Esta capela (que comportava três mil pessoas!) havia sido fundada em 1392 por um clérigo rico, Jan Milic, que havia renunciado ao luxo e ao prestígio, para se tornar um pregador pobre e “pai da reforma tcheca”. Com dedicação, Hus pregou ali a reforma eclesiástica e nacional que tantos outros tchecos queriam desde os tempos do imperador Carlos IV (falecido em 1378). Seus sermões atacavam os abusos dos clérigos, especialmente a imoralidade e a luxúria. A própria decoração da Capela de Belém era uma ilustração de seus ensinos. As paredes da capela não estavam decoradas com representações espetaculares de milagres, mas tinham pinturas contrastando o comportamento dos papas e de Cristo. Por exemplo, o papa andava a cavalo, enquanto Jesus andava a pé, e Jesus lavava os pés dos discípulos enquanto os pés dos papas eram beijados. Muitos clérigos entenderam corretamente que seu estilo de vida estava sendo questionado. Para ajudar seus ouvintes a ler as Escrituras, Hus também revisou uma tradução tcheca da Bíblia. Incentivou também o cântico de hinos congregacionais, sendo que ele mesmo escreveu muitos deles. Sua eloqüência e fervor eram tamanhos que aquela capela em pouco tempo se transformou no centro do movimento reformador.

O imperador Venceslau IV (1378-1419) e sua esposa Sofia escolheram Hus como seu confessor, e lhe deram apoio. Por outro lado, alguns membros mais destacados da hierarquia começaram a encará-lo com receio, mas boa parte do povo e da nobreza parecia segui-lo, e o apoio dos reis ainda era importante para que os clérigos não se atrevessem a tomar medidas contra ele. No mesmo ano que passou a ocupar o púlpito da Capela de Belém, Hus foi empossado como reitor da Universidade de Praga, de modo que se encontrava em ótima posição para impulsionar a reforma. Ao mesmo tempo em que pregava contra os abusos que havia na Igreja, ele continuava sustentando as doutrinas geralmente aceitas, e nem mesmo seus piores inimigos se atreviam a censurar sua vida ou sua ortodoxia. Diferente de Wycliffe, Hus era um homem extremamente gentil, e contava com grande apoio popular.


2. A influência das obras de Wycliffe

O conflito começou nos círculos universitários. Começaram a chegar a Praga as obras de John Wycliffe. Um discípulo de Hus, Jerônimo de Praga, passou algum tempo na Inglaterra, estudando na Universidade de Oxford, e trouxe consigo algumas das obras do reformador inglês. Hus parece ter lido estas obras com interesse e entusiasmo, tendo-as copiado à mão, pois nesta época a imprensa ainda não havia sido inventada. Mas Hus nunca se tornou um discípulo de Wycliffe – outros teólogos tchecos anteriores, como Mateus de Janov, também exerceram influência no desenvolvimento teológico de Hus. Os interesses do inglês não eram os mesmos de Hus, que não se preocupava tanto com as questões doutrinárias, mas sim com uma reforma nas práticas da igreja. Sua teologia era uma mistura de doutrinas evangélicas e católico-romanas tradicionais. Ele particularmente nunca esteve de acordo com o que Wycliffe tinha dito sobre a presença de Cristo na ceia, e continuou defendendo uma posição muito semelhante à transubstanciação, apesar de sustentar que tanto o vinho quanto o pão deviam ser oferecidos ao povo na Ceia do Senhor.

Na universidade, entretanto, as obras de Wycliffe eram discutidas. Os alemães se opunham a elas por uma longa série de razões técnicas e filosóficas, mas em seu intento de ganhar a batalha, tentaram dirigir o debate para as doutrinas mais controvertidas de Wycliffe, no propósito de provar que ele era herege, e que por isto suas obras deveriam ser proibidas. Hus e seus companheiros logo se viram na difícil situação de ter de defender as obras de um autor com cujas idéias eles não estavam completamente de acordo. Repetidamente, os tchecos declararam que não estavam defendendo as doutrinas de Wycliffe, mas sim o direito de ler suas obras. Diversos integrantes da hierarquia da Igreja, que eram alvo de ataques de Hus e de seus seguidores, e que viam nos ensinos do teólogo inglês uma ameaça à sua posição, se reuniram ao grupo dos alemães.

Esta era a época em que, em resultado do concílio de Pisa, chegaram a haver três papas. Venceslau IV apoiava o papa Alexandre V, enquanto o arcebispo de Praga, Zbyneck, e os alemães da universidade, apoiavam Gregório XII. Os alemães acabaram se retirando da Universidade de Praga, indo para a cidade de Leipzig, onde fundaram uma universidade rival, declarando que a de Praga se entregara à heresia.

Mais tarde, o arcebispo se submeteu à vontade do rei e reconheceu como papa Alexandre V. Mas se vingou de Hus e dos seus amigos, solicitando a este papa que fosse proibida a posse das obras de Wycliffe. O papa concordou e proibiu também as pregações fora das catedrais, dos mosteiros ou das igrejas paroquiais. Como o púlpito de Hus, na Capela de Belém, não se enquadrava nestas determinações, o golpe era claramente dirigido contra ele. A Universidade de Praga protestou. Mas Hus tinha agora de fazer a difícil escolha entre desobedecer ao papa ou deixar de pregar. Com o passar do tempo, sua consciência se impôs. Ele subiu ao púlpito e continuou pregando a tão ansiada reforma da Igreja. Este foi seu primeiro ato de desobediência, e a ele se seguiram muitos outros, pois quando em 1410 foi convocado para ir a Roma, para dar conta de suas pregações e ensino, ele se negou a ir, e em conseqüência, ele foi excomungado, em nome do papa, pelo cardeal Colonna, em 1411. Mas, apesar disto, Hus continuou pregando e ensinando, pois contava com o apoio dos reis e de boa parte do país.


3. Uma questão de autoridade

Assim Hus chegou a um dos pontos mais revolucionários da sua doutrina. Em seu entendimento, um papa indigno, que se opunha ao bem-estar da Igreja, não deveria ser obedecido. Hus não estava dizendo que o papa não era legítimo, pois continuava favorável a Alexandre V. Mas, mesmo assim, o papa não merecia ser obedecido. Em suas palavras, “por isto, nem o papa é a cabeça, nem são os cardeais o corpo da igreja santa, católica e universal. Porque somente Cristo é a cabeça e seus predestinados o corpo, e cada membro um membro deste corpo”. Até aqui, Hus não estava dizendo mais do que diziam os líderes do movimento conciliar, que buscavam também uma reforma, onde a autoridade do papa fosse transferida para um concílio. A diferença estava em que estes se ocupavam principalmente da questão jurídica de como decidir entre vários papas rivais e buscavam a solução deste problema nas leis e nas tradições da igreja, enquanto Hus declarava que a autoridade final é a Escritura, e que um papa que não se conformar a ela não deve ser obedecido. Em seu livro Sobre a Igreja ele disse que “uma coisa é ser da igreja, outra coisa é estar na igreja. Claramente não se segue que todas as pessoas vivas que estão na igreja são da igreja. Pelo contrário, nós sabemos que o joio cresce entre o trigo, o corvo come da mesma eira que o pombo, e a palha é colhida junto com os grãos. Alguns estão na igreja de nome e em realidade – tais como católicos predestinados obedientes a Cristo. Alguns não estão nem de nome nem em realidade na Igreja – tais como os pagãos depravados. Outros estão na igreja apenas em nome – tais como, por exemplo, os hipócritas depravados. Ainda outros estão na igreja em realidade e, embora eles pareçam estar em nome fora dela, são cristãos predestinados – tais como aqueles que são vistos ser condenados pelos sátrapas do anticristo antes da igreja”. Isto era, com poucas diferenças, o que o filósofo cristão William de Ockham (m. 1349) tinha dito, ao declarar que nem o papa nem o concílio, mas somente as Escrituras eram infalíveis.

Outro incidente complicou ainda mais a questão. João XXIII, que sucedeu Alexandre V como papa, estava em guerra com Ladislau de Nápoles. Nessa luta, sua única esperança de vitória estava em obter o apoio, tanto militar como econômico, do restante da cristandade latina. Então, ele declarou que a guerra com Ladislau era uma cruzada, e promulgou a venda de indulgências para sustentá-la. Os vendedores chegaram à Boêmia, usando todo tipo de métodos para vender sua mercadoria. Jan Hus, que vinte anos antes tinha comprado uma indulgência, mas que agora mudara de opinião, protestou contra este novo abuso por duas razões principais: em primeiro lugar, uma guerra entre cristãos dificilmente poderia receber o título de cruzada; e em segundo lugar, somente Deus pode perdoar pecados, por sua graça, e ninguém pode querer vender o que vem unicamente de Deus.

O rei Venceslau IV, entretanto, tinha interesse em manter boas relações com João XXIII. Ele tomou esta posição porque a questão de que se ele ou se o seu meio-irmão, Sigismundo, era o imperador legítimo ainda não fora decidida, e era possível que, se a autoridade de João XXIII viesse a se impor, seria ele quem teria de decidir a questão. Por isto, o rei proibiu que a venda de indulgências continuasse sendo criticada. Sua proibição, todavia, veio tarde demais. A opinião de Hus e de seus companheiros já era conhecida de todos, a ponto de terem surgido passeatas do povo em protesto contra esta nova maneira de explorar os tchecos.

Enquanto isto, João XXIII e Ladislau fizeram as pazes, e a pretensa cruzada foi revogada. Hus, no entanto, ficou sendo, para a cúria romana, o líder de uma grande heresia, e chegou-se a dizer que todos os moradores da Boêmia eram hereges. Em 1412, Hus foi excomungado de novo, por não ter comparecido diante da corte papal, e foi fixado um curto prazo para ele se apresentar. Se não o fizesse, Praga, ou qualquer outro lugar que lhe desse acolhida, estaria sob interdito. Desta forma, a suposta heresia de Hus traria prejuízo para a cidade.

Por esta razão, o reformador tcheco decidiu abandonar a cidade, onde tinha passado a maior parte da sua vida, indo se refugiar no sul da Boêmia. Ali, ele recebeu a notícia de que finalmente se reuniria um grande concílio em Constança, e que ele estava convidado para comparecer lá pessoalmente e se defender. Para isto, o novo imperador, Sigismundo, coroado em novembro de 1414, lhe ofereceu um salvo-conduto, que lhe garantia sua segurança pessoal. Este fato era um indício dos perigos que poderiam estar esperando por Hus. Ele sabia que os alemães, que tinham se transferido para Leipzig, tinham espalhado o rumor de que ele era herege. E sabia que não podia contar com nenhuma simpatia da parte de João XXIII. Os perigos que o esperavam em Constança eram grandes. Mas sua consciência o obrigava a ir. E assim partiu o reformador tcheco, confiando no salvo-conduto imperial e na justiça da sua causa. Só que ao ir para Constança, ele foi vítima de uma das mais sujas armadilhas feitas contra um cristão.

O concílio de Constança havia sido convocado para resolver a escandalosa situação de existirem dois papas, um na Itália, outro na França. Este “Grande Cisma” – que durou de 1378 a 1417 – tinha de ser tratado. Tinham comparecido a este concílio alguns dos mais distintos defensores da reforma através de um concílio, João Gerson e Pedro de Ailly. Em nome da unidade da igreja, o concílio afastou de seus cargos, por diversos meios, os três papas concorrentes, possibilitando aos cardeais eleger Martinho V. Naturalmente, um concílio que restaurou a autoridade do papado não estava pronto a permitir que um rebelde questionasse esta autoridade.

João XXIII o recebeu com cortesia, assegurando que “ainda que ele tenha matado o meu próprio irmão... ele deve ficar a salvo enquanto estiver em Constança”. Mas poucos dias depois, ele foi convocado a se apresentar diante do consistório papal. Hus insistiu em que tinha vindo expor sua fé diante do concílio, e não do consistório. Ali, ele foi formalmente acusado de herege, e ele respondeu que preferia morrer a ser herege, e que se o convencessem de que o era, ele se retrataria. A questão ficou suspensa, mas a partir de então, Hus foi tratado como um prisioneiro, primeiro em sua casa, depois no palácio do bispo, e por último em um convento dominicano que lhe serviu de prisão. Sua cela ficava bem perto de um sistema de escoação de esgotos.

Quando o imperador, que ainda não tinha chegado a Constança, soube o que tinha acontecido, ficou extremamente irado, e prometeu fazer respeitar seu salvo-conduto. Mas depois começou a dar menos ênfase nisto, pois não lhe convinha aparecer como protetor de hereges. Em vão foram os protestos do próprio Hus, como também os que chegaram de muitos nobres da Boêmia. Só que para os italianos, alemães e franceses, que eram a imensa maioria no concílio, os boêmios não passavam de bárbaros que sabiam pouco de teologia, e cujos pronunciamentos não deveriam ser levados a sério.

No dia 5 de junho, Hus compareceu diante do concílio. Poucos dias antes, João XXIII tinha sido aprisionado e trazido de volta para Constança. Já que isto significava que este papa tinha perdido todo o poder, e já que Hus tivera seus piores conflitos com ele, era de se supor que a situação do reformador melhoraria. Mas o contrário aconteceu. Doente, fisicamente desgastado por um longo aprisionamento e falta de sono, Hus foi levado para a assembléia acorrentado, como se tivesse tentado fugir ou se já tivesse sido julgado. Foi acusado formalmente de ser um herege e de seguir as doutrinas de Wycliffe. Ele tentou expor suas opiniões, mas houve uma tamanha gritaria que ele não pode se fazer ouvir. Por fim, foi decidido adiar a questão para o dia 7 do mesmo mês.

O processo de Hus durou três dias. Repetidamente ele foi acusado de herege. Mas, quando foram relacionadas as doutrinas concretas de que supostamente consistia sua heresia, Hus demonstrou que era perfeitamente ortodoxo. Pedro de Ailly assumiu a liderança do julgamento, exigindo que Hus se retratasse das suas heresias. Ele insistia em que nunca tinha crido nas doutrinas de que exigiam que ele se retratasse, e que por isto não podia fazer o que de Ailly exigia dele. Hus disse ao concílio que “não poderia, por uma capela cheia de ouro, recuar da verdade”. Não havia maneira de resolver o conflito. Pedro de Ailly queria que Hus se submetesse ao concílio, cuja autoridade não podia ficar em dúvida. Hus lhe mostrava que o papa que o tinha acusado de desobediência era o mesmo que o concílio acabara de depor. Segundo o historiador metodista Justo Gonzáles, “mostrar suas contradições a um homem supostamente sábio, tido como o homem mais ilustre da época, e isto diante de uma grande assembléia, nem sempre é uma atitude sábia”. O rancor de de Ailly aumentou cada vez mais. Outros líderes do concílio, entre eles João Gerson, diziam que estava desperdiçando o tempo que deveriam dedicar a questões mais importantes, e que de qualquer forma os hereges não mereciam tanta atenção. O imperador se deixou convencer de que ele não precisaria guardar sua palavra para com os que não têm fé, e retirou seu salvo-conduto.

Quando Hus acabou dizendo que era verdade que ele tinha dito que se não quisesse ter vindo para Constança, nem o imperador nem o papa teriam podido obrigá-lo, seus acusadores viram nisto a prova de que ele era um herege obstinado e orgulhoso – apesar de o nobre boêmio João de Clum, que o defendeu até o final, ter declarado que o que Hus dissera era verdadeiro, e que tanto ele como muitos outros nobres mais poderosos do que ele teriam protegido Hus se este tivesse decidido não ir ao concílio.


4. Fiel até a morte

O concílio pedia unicamente que Hus se submetesse, retratando-se de seus ensinos. Mas não estava disposto a escutar o acusado, quanto a quais eram as doutrinas que tinha crido e ensinado. Uma simples retratação teria bastado. O cardeal Zabarella preparou um documento em que exigia que Hus que se retratasse de seus erros e aceitasse a autoridade do concílio. O documento estava cuidadosamente redigido, porque seus juízes queriam lhe dar todas as oportunidades para que se retratasse, e assim ganhar a disputa, mas Hus sabia que se retratasse, com isto estaria condenando todos os seus amigos, pois se declarasse que suas doutrinas eram aquelas que seus inimigos tinham apresentado, estaria nisto implícito que seus seguidores criam nas mesmas coisas e que, portanto, eram hereges.

Sua resposta foi firme: “Apelo a Jesus Cristo, o único juiz todo-poderoso e totalmente justo. Em suas mãos eu deponho a minha causa, pois Ele há de julgar cada um, não com base em testemunhos falsos e concílios errados, mas na verdade e na justiça”. Por vários dias, o deixaram encarcerado, na esperança de que fraquejasse e se retratasse. Muitos foram lhe pedir que o fizesse, talvez sabendo que sua condenação seria uma mancha para o concílio de Constança. Mas ele continuou firme. Em 1 de julho de 1415, Hus escreveu sua última declaração: “Eu, Jan Hus, em esperança, sacerdote de Jesus Cristo, temendo ofender a Deus, e temendo cometer perjúrio, professo, por este meio, minha repugnância, para renunciar todos ou quaisquer dos artigos produzidos contra mim por meio de falso testemunho. Porque Deus é minha testemunha que eu nem os preguei, ou os afirmei, nem os defendi, entretanto eles dizem que eu fiz isto. Além disso, relativo aos artigos que eles extraíram de meus livros, digo que desprezo qualquer falsa interpretação que eles usaram. Mas já que eu temo transgredir a verdade, ou contradizer a opinião dos doutores da Igreja, eu não posso renunciar a qualquer um deles. E se fosse possível que minha voz pudesse chegar ao mundo inteiro agora, como no dia do julgamento, em que toda mentira e todo pecado que eu cometi será manifesto, então eu alegremente renuncio diante de todo o mundo toda falsidade e erro que eu ou tenha pensado ou declarado ou de fato tenha dito! Eu digo que eu escrevi isto de minha própria livre vontade e escolha. Escrito com minha própria mão, no primeiro dia de julho”.

Por fim, no dia 6 de julho, ele foi levado para a catedral de Constança. Ali, depois de um sermão sobre a teimosia dos hereges, ele foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, somente para logo em seguida lhe arrebatarem ambos, em sinal de que estava perdendo suas ordens sacerdotais. Depois cortaram seu cabelo, para estragar a tonsura. Por último, lhe colocaram na cabeça uma coroa de papel decorada com diabinhos, e o enviaram para a fogueira. A caminho do suplício, ele teve de passar por uma pira onde ardiam seus livros. Ele riu e disse aos que assistiam para não crerem nas mentiras que circulavam a seu respeito. Pediram-lhe mais uma vez que se retratasse, e mais uma vez ele negou com firmeza: “Deus é minha testemunha que a evidência contra mim é falsa. Eu nunca pensei ou preguei exceto com a única intenção de ganhar os homens, se possível, dos seus pecados”. Por fim orou, dizendo: “Senhor Jesus, por Ti sofro com paciência esta morte cruel. Rogo-Te que tenhas misericórdia dos meus inimigos”. O fogo foi aceso. Enquanto as chamas o envolviam, Hus começou a cantar: “Cristo, Tu Filho do Deus vivo, tem misericórdia de mim”.

Os carrascos recolheram todas as cinzas e as lançaram no lago de Constança, para que não restasse nada dele. Mas seus discípulos recolheram a terra em que foi queimado e a levaram para a Boêmia. O local onde ele morreu está marcado hoje por uma pedra memorial, e Hus ainda hoje é homenageado com um feriado público anual na República Tcheca. Pouco depois, Jerônimo de Praga, que tinha decidido se unir a ele em Constança, também foi martirizado. As idéias de Hus sobreviveram através de um grupo evangélico conhecido como Unitas Fratrum (Irmãos Unidos), ou Irmãos Boêmios, que existe até hoje, e influenciaram indiretamente Martinho Lutero (1483-1546) e John Wesley (1703-1791).


domingo, 22 de janeiro de 2017

INTELECTUAL EU? ME SINTO SIM, GRAÇAS A DEUS.



Apesar de alguns torcerem o nariz sobre a minha mania de escrever e chegarem a afirmar que sou um metido a intelectual, me permita dizer o seguinte: Eu me considero um intelectual. Embora não tenha nenhum documento que comprove isso, acho que posso me considerar um intelectual por exclusão das outras duas possibilidades. Não sou um operário, pelo menos no seu sentido clássico, porque não sei ao menos pregar um prego e a rigor nunca precisei da força física para ganhar a vida e também não sou patrão, porque nunca vivi do trabalho de outros.

Durante toda a minha vida, que já está até longa demais, vivi sempre de atividades ditas intelectuais como por exemplo: cheguei a escrever 49 artigos para vários jornais e revista, tinha uma coluna exclusiva nas quintas feiras. Leonardo Jordão sabe disso, pois ele leu vários; Publiquei dois livros, sendo que o primeiro – O Cristão e as Greves - foi patrocinado pela Escola Superior de Agronomia e pela Coleção Mossoroense e o mesmo entrou para Bibliografia Bíblica Latino-Americana da Universidade de São Bernardo dos Campos, Volume 1, p. 118. O segundo livro foi publicado quando trabalhava com com a Igreja Presbiteriana de Cruz das Armas – Uma Benção chamada Mulher – Estudos bíblicos sobre as mulheres da Bíblia. Meu único exemplar dei de presente para a irmã Ana Cleide. Ambos estão esgotados. Fui professor em várias escolas e Seminários. Orientei aqui na nossa cidade mais de 140 formados em suas monografias e artigos.

Não costumo ir a Shopping com fins de lazer. Em João Pessoa, quando vou no Manaíra, os meus points são a Leitura ou Saraiva; No Tambiá, vou a Gospel Mix. Fora do Shopping tenho o Sebo Cultural e a Livraria do Pedro. Em Recife, quando vou ao Riomar, vou a Saraiva, Cultura, CPAD, CLIRE e Luz e Vida..

Atualmente, como minha vida é muito corrida, trabalho como Controlador do Município, lido com contabilidade o dia inteiro, interagindo com vários profissionais da área ao mesmo tempo. Mantenho um blog que atualmente tem mais de 300 mil acessos - http://professorpadua.blogspot.com.br/ - Leio em média 25 livros por ano, sem contar com aqueles que só leio para fins de pesquisa. Leio a minha bíblia de forma devocional uma vez por ano, sem contar as leituras que faço na elaboração de estudos. Assisto em média 36 filmes, dos quais faço resenha de todos. Escrevo em torno de 3 devocionais por semana e faço criticas e comentários sobre o cotidiano no meu perfil no facebook. Todos os meus estudos de linhas teológicas estão disponíveis em vários sites – scribd.com/ProfessorPadua e academia.edu/AntoniodePadua,

Feita essa apresentação, preciso fazer uma distinção entre o intelectual que é assim considerado porque não faz trabalhos físicos - os jornalistas, os publicitários e professores - e o intelectual orgânico, como disse Antonio Gramsci, aquele que atua como porta-voz de um segmento social – no meu caso, SOU PROTESTANTE REFORMADO.

Portanto, aqui estou eu. Gostou?

APOLOGÉTICA



1 Pedro 3:15 diz: "Antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para oferecer resposta a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor." A palavra grega traduzida como "resposta" é απολογια, que freqüentemente se apresenta no contexto de um tribunal de recurso. Ela transmite a idéia de fornecer evidências, da construção de um caso, respondendo a perguntas, ou a defesa contra ataque. Assim, muitas traduções oferecem a palavra "defesa" em vez de "resposta".

O New Dictionary of Christian Apologetics define a apologética assim: "Apologética é a arte da persuasão, a disciplina que considera as formas de elogiar e defender o Deus vivo para aqueles sem fé." Com uma objeção que se tornará clara à medida que avançamos, eu acho que essa é uma boa definição da apologética. A definição mais simples que eu uso normalmente é: "Apologética é a defesa e a explicação da fé cristã".


Porque a Apologética é Necessária?

Precisamos reconhecer, primeiramente, que a conversão é uma obra de Deus, que é freqüentemente realiza à parte da apologética. A apologética não é necessária para a conversão cristã, nem é necessária para se saber que o cristianismo é verdade.

William Lane Craig escreve: "Como é que um cristão sabe que o cristianismo é verdadeiro?... O testemunho interior do Espírito Santo nos dá uma imediata e [verdadeira] garantia da verdade de nossa fé cristã... tal pessoa não precisa de argumentos complementares ou evidências a fim de saber... com confiança de que ele está, de fato, experimentando o Espírito de Deus... É o testemunho do Espírito de Deus em nosso espírito que nos dá a certeza de que somos filhos de Deus... Quando se trata de saber se a fé é verdadeira, portanto, o cristão não vai dependerá, basicamente, de argumentos e evidências, mas do gracioso testemunho do próprio Deus dado a todos os seus filhos pelo Espírito Santo que neles habita.”

Enquanto o saber de que a nossa fé é verdadeira seja uma obra do Espírito Santo, continuar convencido da verdade do cristianismo é, freqüentemente, o trabalho da apologética. Dr. James Parker no Seminário do Sul compartilha uma conversa que teve com um amigo não-cristão. Em resposta a perguntas, o Dr. Parker partilhou argumentos tradicionais da existência de Deus. Seu amigo então perguntou: "São estes tipos de razões e respostas o real motivo de você ter se tornado um cristão?" Dr. Paulo respondeu: "Não. Elas não têm nada a ver com o fato de me tornar um cristão. Mas têm tudo a ver com o fato de permanecer um cristão." Como criança, Parker acreditava que o cristianismo era verdade, e o abraçou. Ao envelhecer, teve questionamentos e dúvidas. A apologética respondeu a estas questões e dúvidas o que lhe permitiu continuar a ser um cristão seguro e racional.

Muitos cristãos nunca duvidam de sua fé, nunca se perguntam se o que acreditam é verdadeiro. Não precisam de apologética para saber que são cristãos e que o que acreditam que é a verdade. Entretanto, existe uma diferença entre saber que sua fé é real, e ser capaz demonstrar que sua fé é verdadeira. Saber que sua fé é verdadeira é suficiente para ser um membro de pleno direito da família de Deus. A apologética nos leva além do conhecimento, nos leva a sermos capazes de demonstrar a outras pessoas que o cristianismo é verdade.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A ÉTICA DOS DEZ MANDAMENTOS - Hans Ulrich Reifler. [Resenha]


Nos escritos deixados pelos líderes da Reforma protestante do século XVI, percebe-se claramente que a lei de Deus, a lei moral, é o conteúdo principal da ética cristã. Em suas reflexões éticas, os reformadores sempre partiram dos princípios do decálogo antes de percorrer o restante das Escrituras.

Lutero chama o decálogo de sacratissimus decalagus e de summa et excellentissima doctrina. Por isso, K. Bockmühl conclui: “...que a ética cristã tem seu fundamento nos dez mandamentos e foi apresentada de maneira convincente por Lutero”. Para o teólogo luterano Troeltsch, os dez mandamentos foram “o livro cadastral da ética luterana”. Para Lutero e o luteranismo, os dez mandamentos são a lei fundamental para qualquer reflexão ética. 

Calvino e as confissões reformadas edificam seus postulados éticos sobre o mesmo decálogo. Já no primeiro livro das Institutas, Calvino ensina que “o verdadeiro conhecimento de Deus nos constrange a adorá-lO, e o verdadeiro conhecimento do próprio eu leva à humildade e auto-humilhação genuínas. A lei é o instrumento que o Senhor emprega para produzir esses resultados. Ao declarar através dela Seu direito de ordenar, Ele nos chama para prestar-LHE a reverência devida a Sua majestade; e, ao colocar diante de nós o padrão de Sua justiça, demonstra nossa injustiça e incapacidade”. Calvino salienta a validade constante do decálogo. Afinal os dez mandamentos foram escritos em tábuas de pedra. “Mesmo que a lei cerimonial tenha sido anulada, a verdade e a doutrina do decálogo devem ser pregadas até o fim do mundo”. 

Nas Institutas de Calvino percebe-se claramente que os dez mandamentos foram o conteúdo principal de qualquer postulado ético, quando ele declara que o cristão tem o dever de meditar neles constantemente, e que o decálogo é, na verdade, a única regra de vida perpétua e inflexível. Por isso o reformador de Genebra escreveu nada menos do que cinco exposições completas sobre o decálogo: no segundo volume das famosas Institutas, no Catecismo antes de 1538, no Catecismo de Genebra de 1542-1545, em seus comentários sobre Êxodo e Deuteronômio e em dezesseis sermões sobre o decálogo, em 1555.

Para Calvino, o decálogo é uma regra infalível, aperfectae iustitiae regula, à qual nada precisa ser acrescentado; é uma...perpetua et inflexibilis vivendi regula, regula suos formare (regra à qual nos adaptamos). No final do Catecismo de Genebra, Calvino formula que o decálogo é a perfeita regra da justiça. 

H. Bullinger, sucessor de Zuínglio em Zurique, define na mais importante confissão reformada, a Segunda Confissão Helvética, que a lei de Deus “explica a vontade de Deus, o que devemos fazer ou não, o que é bom e reto, mal e injusto... A vontade de Deus para todos os aspectos de nossa vida revela-se perfeitamente nessa lei”. Pelo fato de o decálogo ser completo e perfeito, é lógico e evidente que nada lhe pode ser acrescentado (Deuteronômio 4:2;12:32). 

Conseqüentemente, a ética bíblica é apenas uma exposição da lei de Deus. A lei perfeita e absoluta. Essa é a opinião uniforme de Calvino e das Confissões reformadas. Por isso, qualquer reflexão ética parte do decálogo. Os postulados éticos não podem contradizê-lo; e ele é o conteúdo principal da ética cristã.

REIFLER, Hans Ulrich. A Ética dos Dez Mandamentos. São Paulo: Vida Nova, 1992. Pág. 43-44.

sábado, 14 de janeiro de 2017

SNOOPY E CHARLIE BROWN - PEANUTS, O FILME [Resenha]



Cartunista mais bem sucedido da história, Charles M. Schulz criou Snoopy e companhia em 1950 e desenhou todas as tirinhas, especiais e filmes dos personagens até sua morte, em 2000. Foram 50 anos dedicados aos personagens. Em uma clássica entrevista ao apresentador Charlie Rose pouco antes de sua morte, Schulz afirmou que não via outras pessoas continuando seu trabalho, afinal ele era a essência de seus personagens. E isso realmente aconteceu no que diz respeito às tirinhas. Hoje em dia, muitos jornais republicam clássicas tiras com os personagens, sendo que algumas passam por um processo coloração, mas não há ninguém escrevendo novas histórias envolvendo Charlie Brown e sua turma.

Por muitos anos, a família de Schulz foi procurada para levar os personagens de volta aos cinemas e sempre disse não. Até que por volta de 2007, Craig Schulz, filho de Charles, decidiu que era hora de ele mesmo revisitar a obra do pai. Mantendo o negócio em família, ele chamou o próprio filho, Bryan Schulz, para ajudar no desenvolvimento do roteiro.

O envolvimento da família garantiu um grande respeito a obra de Schulz, o que é ótima. Ao mesmo tempo, o envolvimento no roteiro de pessoas com pouquíssima experiência na área na podia resultar em algo extraordinário. E foi o que aconteceu com Snoopy e Charlie Brown - Peanuts, O Filme, que é a definição em todos os sentidos do filme-médio.

Uma palavra que define bem o longa é FOFO. É bonitinho. Difícil não se tocar em alguns momentos ou não abrir um sorriso em outros. Mas fica nisso, é o clássico filme três estrelas. Não compromete, mas também não empolga. Vai agradar quem está vendo, mas será esquecido pouco depois. 

O sentimento de nostalgia e o carinho pelos personagens até podem fazer muita gente gostar mais do filme, mas a verdade é que falta algo. Não há nada de novo. Nada de especial.

Na trama, Charlie Brown e sua turma são surpreendidos com a chegada na cidade de uma nova criança, a garotinha de cabelo vermelho. Brown logo se encanta pela jovem, mas ao mesmo tempo não acha que seja bom suficiente para estar ao seu lado. É legal reencontrar Linus, Lucy e companhia, mas o personagem do Snoopy acaba desperdiçado com uma fantasia bobinha com a Fifi.

Dirigido por Steve Martino, dos fracos Horton e o Mundo dos Quem e A Era do Gelo 4, Peanuts é divertidinho e tem tudo para agradar as crianças. Mas os verdadeiros fãs dos personagens irão sentir falta de uma maior complexidade no estudo da vida infantil. No final das contas, a sensação é de que falta conteúdo para um filme de quase 90 minutos de duração.

FONTE: Adoro Cinema

GILBERT KEITH CHESTERTON (1874-1936)



Se você leu C. S. Lewis, você leu G. K. Chesterton – pelo menos indiretamente. Lewis incluiu Chesterton entre suas influências, e aqueles que são familiarizados com ambos os apologistas podem ouvir os ecos de Chesterton na obra de Lewis.

Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) foi um poeta, jornalista, ensaísta, crítico literário, romancista e apologista. De acordo com o Oxford English Dictionary, ele foi o primeiro escritor a referir-se à cultura e civilização “Ocidental”.

Chesterton foi um grande homem (em mais de um sentido) que chamou muita atenção. De que forma ele se envolveu com sua cultura, e por que ele ainda é importante? Ofereço, aqui, quatro razões.

1. Chesterton viu a realidade mais ampla e não compartimentou o mundo.

Chesterton foi um pensador que acreditava que o propósito da educação era compreender o mundo e nosso papel nele. O pensamento e a educação não são fins em si mesmos; eles dizem respeito a “conectar as coisas”. Porque acreditava que tudo se conecta, Chesterton pôde falar com propriedade sobre muitos assuntos diferentes. Ele acreditava que se o cristianismo é verdadeiramente universal, então ele deve falar de tudo.

Economia: Chesterton promoveu o Distributismo, uma ideologia econômica enraizada no ensino social católico.

Arte: Chesterton criticou a arte e literatura modernas por “desprezarem o público”. Sua biografia de Charles Dickens resultou numa ampla reavaliação do legado deste e restabeleceu-o como um dos grandes autores da literatura inglesa.

Família: Chesterton defendeu a família como um microcosmo do mundo (“o lar é maior do lado de dentro do que do lado de fora”, ele escreveu) que tem de aguentar constantes assaltos dos engenheiros sociais que acreditam que a unidade da família é um obstáculo para o progresso.

Sistema político: Chesterton não se encaixa nos paradigmas “direita” ou “esquerda” da política americana contemporânea, mas ele acreditava que o cristianismo deve influenciar o governo ressaltando suas responsabilidades e advertindo-o de suas tendências imperialistas e abusivas.


2. Chesterton desmascarou falsas pressuposições enquanto promoveu uma cosmovisão cristã.

Chesterton, muitas vezes, virou as coisas de cabeça para baixo para que seus leitores pudessem, em seguida, vê-las do lado certo. Ele fez uma defesa encantadora do cristianismo ao achar defeitos nas pretensões de seus oponentes. Não é pela força da vontade, mas do humor que ele surpreende você e o faz pensar. Alguns exemplos:
Sobre a depravação humana: “O homem que nega o pecado original acredita na Imaculada Conceição de todo o mundo”.
Sobre milagres, ele vira o feitiço contra o feiticeiro ao mostrar que os crentes, e não os descrentes é que sempre apelam para a evidência (“É por isso que eu acredito que esse milagre aconteceu”). Enquanto isso, os descrentes, e não os crentes é que sempre apelam para o dogma (“Milagres não podem acontecer”).
Sobre o naturalismo, ele desconstrói a visão popular de cristãos mantidos cativos por suas antigas superstições enquanto os “livres pensadores” desafiam o dogma religioso. Contrário a isso, ele demonstra que os cristãos são livres para crer em uma natureza ordenada, enquanto os materialistas não podem admitir a mais leve nódoa de espiritualismo ou milagre em sua máquina. O cristão é mais livre para pensar do que o livre pensador.

Chesterton adorava frisar que esses argumentos contra o cristianismo são, amiúde, contraditórios. Por exemplo, os cristãos são acusados de serem muito alegres diante do mal e do sofrimento; eles também são acusados de serem arrogantes sisudos que querem silenciar a alegria dos outros. Como pode isso ser verdade?

A lição da estratégia apologética de Chesterton não é apenas a sua defesa da fé, mas a maneira como ele empreendeu a sua tarefa. Ele contestou seus inimigos ideológicos como amigos, não inimigos. Sua intenção era converter inimigos, não triturá-los. “O objetivo do argumento é discordar a fim de concordar”, escreveu. “O fracasso do argumento é quando você concorda para discordar”.


3. Chesterton não se influenciou por argumentos que apelam para o progresso.

S. Lewis cunhou o termo “esnobismo cronológico”, uma descrição da nossa tentação em olhar com desdém para as eras passadas como se elas tivessem pouco ou nada a oferecer à nossa sociedade avançada. Você pode traçar a linha a partir do alerta de Lewis contra o esnobismo cronológico até as consistentes refutações de Chesterton às ideias efêmeras de “progresso”. Chesterton estava sempre alertando seus leitores acerca das pessoas que se imaginam reformadores que querem acabar com as instituições sociais sem entender seu significado histórico. Algumas citações:

“Enquanto a verdade está fora de época, as heresias sempre estão de acordo com a época”.

“A Igreja Católica é a única coisa que salva um homem da degradante escravidão de ser um filho de sua época”.

“Falácias não cessam de ser falácias porque se tornam modas”.

Para Chesterton, o cristianismo não deve ser sobrecarregado com as ideias da moda, quaisquer que sejam. Desafiar as novidades da sociedade contemporânea é um ato de dignidade. O peixe morto boia a favor da corrente. Resistir ao fluxo da nossa cultura e remar contra a maré é um sinal de vida.


4. Chesterton manifestou uma exuberância prazerosa no esplendor da existência.

Chesterton nunca era entediado ou entediante. “Não existem coisas desinteressantes”, escreveu. “Apenas pessoas desinteressantes”. O sentimento que impregna todos os seus escritos é a gratidão – um sinal de alegria e vida, um senso de deslumbramento até mesmo nas dádivas mais mundanas que admitimos como algo corriqueiro. “Os poetas têm estado misteriosamente em silêncio sobre a questão do queijo”, escreveu, e então passou a retificar este notório descuido [da parte deles].

De acordo com Chesterton, uma maneira de homenagearmos nosso Criador é ficando incessantemente fascinados com sua criação. Pegue, por exemplo, o clássico ensaio “O que encontrei em meu bolso”[1], que dá uma ideia das maneiras inteligentes e criativas com que a curiosidade de Chesterton o conduziu nas fantásticas viagens do pensamento.

John Piper certa vez explicou por que Ortodoxia, de Chesterton, é um dos poucos livros que ele leu duas vezes: “Continuarei voltando a qualquer um que me ajude a ser surpreendido com o que está diante do meu rosto – qualquer um que possa ajudar a me curar da doença de ‘ver o que eles não veem’”.

Meu sentimento é o mesmo. Chesterton ainda é importante para o modelo de envolvimento cultural que ele proporciona: uma visão abrangente do cristianismo que atinge todas as partes da vida, desafia as nossas sensibilidades modernas e nos leva de volta para o deslumbramento de criança no mundo que Deus fez.

__________________________
[1] Esse ensaio consta no livro Tremendas Trivialidades, publicado em português pela Editora Ecclesiae.

O FACISMO DESCARADO DE MERYL STREEP - A TÁTICA ESQUERDISTA FOI TIRO NO PÉ.



Estudiosos de bullying dizem que ataques violentos possuem duas consequências, sendo a primeira negativa e a segunda extremamente positiva. A primeira é gerar uma sensação de impotência, diante do ataque. Esse é o lado negativo. A segunda consequência é mais interessante: é a motivação gerada pela indignação, caso a vítima tenha condições de reagir. A mais pura e verdadeira força se origina disto.

Após o ataque covarde e preconceituoso feito pela atriz Meryl Streep no Golden Globe – associando os eleitores de Trump a inimigos de imigrantes, além de simular indignação sobre outras questões – gerou a seguinte sensação : “aí, ferrou, esse foi um ataque certeiro e potente” vindo da esquerda.

Mas disso se seguiu a melhor parte: horas depois as reações de indignação à campanha de ódio promovida por Meryl começaram a energizar a direita, que está se sentindo ofendida, difamada, estigmatizada, demonizada e vítima de assassinato de reputações. Cientes de que monstros como Meryl farão de tudo para jogar a população violentamente contra a direita, estes resolveram se unir. Os revides à Meryl estão acontecendo em alto volume, o que é gratificante. Existe a sensação clara de que a direita está se fortalecendo a partir da indignação gerada com o ataque.

A expressão dos atores Mel Gibson e Vince Vaughn durante os ataques de Meryl é um exemplo de como pelo menos metade dos EUA se sentiu. Os esquerdistas mostraram que utilizarão seu espaço não para debater, mas para tentar destruir inimigos com propaganda de ódio do tipo mais baixo possível.

Ontem metade da população foi demonizada como “inimigos de imigrantes”, quando na verdade apenas criticavam a imigração ilegal. Oficialmente, metade da população foi vítima de uma difamação clara, dando a noção clara de que vale tudo para a esquerda. Meryl Streep agiu como os nazistas tentaram fazer com os judeus: estigmatizando-os para jogar o povo contra eles.

No fundo, precisávamos de um ataque como este feito por Meryl. É preciso saber que o adversário está disposto a ir para o fascismo sem limites e utilizar todo o preconceito e ódio do mundo contra nós. Isso nos trará o senso de urgência necessário para saber que cada ataque precisa ser revidado e que do outro lado não existem debatedores, mas inimigos sem qualquer senso moral. O exagerado ataque de Meryl serviu para acordar a direita.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A RESSURREIÇÃO - GUY WATERS (Ligonier Ministries)



A ressurreição dos mortos é anátema para a mente moderna. Rudolf Bultmann, um dos mais famosos estudiosos do Novo Testamento do século 20 e teólogo liberal, declarou: “Um fato histórico que envolve uma ressurreição dos mortos é completamente inconcebível”. Para o Apóstolo Paulo, entretanto, o cristianismo sem a ressurreição de Jesus dos mortos era inconcebível (veja 1Coríntios 15.1-11). Em companhia com os outros apóstolos, Paulo proclamou a ressurreição como o grande fato sobre o qual o cristianismo permanece ou cai.

Como poderemos falar às pessoas desiludidas e céticas a respeito da ressurreição? O relato de Lucas sobre o ministério de Paulo em Atenas (Atos 17.16-34) nos dá uma direção mais do que necessária. Quando Paulo chegou em Atenas, pregou na sinagoga, mas também foi à “feira livre”, onde filósofos e mestres congregavam para trocar ideias (v. 17). Paulo perseverou através da incompreensão e zombaria iniciais, e aceitou um convite para discursar no Areópago, um corpo solene de oficiais públicos aposentados.
Naquele discurso, Paulo, primeiramente de forma gentil, porém firme, expõe uma fraqueza fundamental e fatal do politeísmo. O altar “ao deus desconhecido” era o reconhecimento derradeiro dos atenienses de que a religião deles era insuficiente e inadequada. Paulo então apresenta aos atenienses a solução que eles precisavam, mas nunca encontrariam entre eles – a adoração do único e verdadeiro Deus.

Paulo fala aos atenienses sobre o soberano e o todo-suficiente Deus que fez e sustenta o mundo e tudo que nele há (vv. 24-25). Ele também lhes fala sobre eles mesmos (vv. 26-29). Deus fez todos os seres humanos “de um só”, e além disso ele “fixou os tempos previamente estabelecidos e os limites de sua habitação” (17.26). A totalidade de nossas vidas é vivida inescapavelmente diante do Deus onipresente (17.28). Nós somos, além disso, detentores da imagem dele (“geração”; vv. 28-29).

Por essas razões, nós devemos “buscar a Deus” na esperança de que “possamos achar [a Deus]” (v. 27). Nós não devemos tentar pensar em Deus ou adorá-lo com imagens (v. 29). Como pecadores, entretanto, o melhor que conseguimos é “identificar o caminho com as mãos”, ou seja, tatear no escuro (v. 27). Deus está sempre presente para a criação dele, mas as criaturas pecadoras dele recusaram intencionalmente vir a ele. Mesmo assim, porque Deus nos criou e nos sustenta, nós iremos um dia prestar contas diante dele (veja o v. 31).

Até agora, Paulo arrazoou com os atenienses baseado no que eles conheciam de Deus e de si mesmos a partir da criação. Então, ele se volta para um fato particular da história – Deus levantou um homem dos mortos (v. 31). Que Deus retirou a sentença de morte de Jesus e publicamente o vindicou significa que Jesus era um homem justo. Tudo isso para dizer: ele é diferente de qualquer outra pessoa que andou na face da terra. Este justo Jesus afirmou na terra que ele julgaria todas as pessoas (veja João 5.19-29). A ressurreição vindicou essa afirmação. No levantar de Jesus dos mortos, Deus publicamente ratificou a afirmação de Jesus sobre julgar o mundo no fim desta era. Porque esse julgamento é certo e iminente, Paulo implora aos seus ouvintes que “se arrependam” (Atos 17.30), que se voltem do culto a ídolos para a adoração do Deus triúno. A ressurreição e a pregação do evangelho por todo o mundo trouxeram um fim aos “tempos da ignorância”, durante os quais aprouve a Deus reter o julgamento final (v. 30). Os dias da relativa, mas culpável cegueira gentílica, tinham chegado ao fim. Apenas o evangelho pode dissipar a ignorância e cegueira correntes, nas quais a humanidade não renovada se encontra.

A menção da ressurreição que Paulo faz produz dois diferentes resultados. Alguns zombam e sorriem sarcasticamente – a ideia de que o corpo de alguém teria existência imortal seria risível para a mente grega (v. 32a). Outros, entretanto, quiseram ouvir mais e, crendo em Cristo, seguiram Paulo (vv. 32b-34).

Proclamar a ressurreição de Jesus não fez com que Paulo, nessa ocasião, conquistasse as honras da intelectualidade ateniense. Nem resultou numa quantidade visivelmente impressionante de convertidos em Atenas. Mas Paulo não pregou a ressurreição porque ela era popular. Ele a pregou porque ela é verdadeira. A ressurreição de Jesus confirmou o julgamento que vem, mas também assegurou bênçãos para os que não mereciam. Por mais que agrade a Deus usar essa verdade nas vidas dos que não creem, a missão da igreja permanece a mesma – dizer aos outros que Jesus foi levantado dos mortos.

Guy Waters. The Resurrection.
O artigo na íntegra faz parte da edição de janeiro de 2016 da revista Tabletalk.

Tradução: João Pedro Cavani. Revisão: Yago Martins. © 2016 Ministério Fiel. Todos os direitos reservados. Website: MinisterioFiel.com.br. Original: Ressurreição: uma verdade vital para o cristianismo

ZOOTOPIA - ESSA CIDADE É O BICHO [Resenha]


A Walt Disney Animation Studios é conhecida por desenvolver as suas histórias em cenários descolados da contemporaneidade, sejam eles futuristas (Operação Big Hero) ou retrógrados (Frozen – Uma Aventura Congelante), passando por universos mágicos (Detona Ralph) e fabulares (Enrolados). Zootopia: Essa Cidade é o Bicho representa a trama mais realista do estúdio até então. Embora seus personagens sejam animais, a premissa é desenvolvida de maneira verossímil, com elementos facilmente reconhecíveis pelo público.

Afinal, estamos em um contexto de grandes corporações, violência nas cidades, transporte público superlotado, abusos éticos da polícia. As pessoas se movem entre a casa e o trabalho, os moradores do campo migram para as metrópoles, a publicidade está em todos os lugares e os ícones da música pop se tornam formadores de opinião. Talvez os animais tenham sido a concessão necessária para tornar esta história, de fundo amargo, mais engraçada e palatável ao público infantil. Em outras palavras, os animais humanizados, vestindo roupas modernas, estão muito mais próximos dos seres humanos contemporâneos do que dos bichos selvagens.

Zootopia demonstra grande criatividade no desenvolvimento deste mundo animal. A trama se inicia quando predadores e presas já eliminaram seu “comportamento animalesco ancestral” para viverem em harmonia. Os diretores Rich Moore e Byron Howard se divertem com as diferentes proporções, imaginando lugares grandes demais para caberem girafas, ou pequenos demais para comportarem habitações de camundongos. As espécies funcionam como analogias claras à pluralidade étnica, de orientação sexual e de gênero existente nas grandes cidades. Mas ao invés de caminhar do caos à utopia, como na maioria das animações otimistas, essa faz o caminho inverso, iniciando pela paz absoluta até nascerem os conflitos.

Sem entregar spoilers, basta dizer que o conflito principal diz respeito ao retorno de alguns animais ao comportamento selvagem de antigamente. A bestialidade, a violência e a lei do mais forte são tratados como um passado aberrante que a civilização tratou de eliminar por meio de leis e da moral. É admirável que o duelo central do roteiro se dê entre determinismo biológico e dinamismo cultural, em outras palavras, entre o que se espera de uma pessoa por sua constituição física, e o que ela é capaz de fazer para além dos moldes da sociedade.

A coelha Judy é uma metáfora perfeita para o tema, sendo ao mesmo tempo mulher, de tamanho limitado e apaixonada pela profissão de policial, tipicamente masculina. Seus colegas, a maioria homens grandes e fortes, esperam que ela seja dócil, fraca e incapaz de executar o trabalho, e mesmo os pais amorosos reproduzem o preconceito de gerações anteriores, suplicando à filha que não trabalhe como policial para se poupar dos riscos da profissão. Os preconceitos vão de níveis sutis a ofensivos, e Judy enfrenta-os com um senso de determinação exemplar. Zootopia cita explicitamente as palavras “preconceito”, “biologia”, “cultura”. Em tempos de Jair Bolsonaros e Donald Trumps, o preconceito é combatido de maneira frontal e corajosa. Mesmo a canção tema, ao invés de pregar uma paz genérica, ensina os pequenos a “tentarem de tudo”, experimentarem o que quiserem, mesmo que falhem ou mudem de ideia mais tarde.

A narrativa torna-se ainda melhor porque Zootopia busca a reflexão ao invés da doutrinação. Muitas animações limitam-se a ditar às crianças o que devem fazer: “Preserve a natureza”, “Ame sua família”, “Seja gentil com os colegas”. Mas o roteiro deste filme explica porque as crianças não deveriam ser preconceituosas, mostrando passo a passo como nascem os preconceitos, passando pela cultura do medo e pelo fantasma da tradição, além do já citado “papel biológico” de cada pessoa na sociedade. Estas discussões são embaladas pelas regras do suspense policial, com direito a uma longa investigação, sombria e cheia de significados, que rompe com o aspecto frenético e episódico que tem pautado as histórias infantis. Zootopia respeita o seu público, apostando na capacidade de acompanhar um caso parcimonioso.

Tamanho aprofundamento poderia se tornar aborrecido, mas o filme mantém seu aspecto solar e colorido com ótimo bom humor. Apesar de alguns clichês dispensáveis (o preconceito do servidor público como sinônimo de lentidão), as piadas servem para parodiar nossa pós-modernidade marcada por tecnologia avançada e dificuldades de relacionamento. As piadas são muito divertidas, os personagens principais possuem um aprofundamento exemplar e as citações a Breaking Bad e O Poderoso Chefão devem agradar aos pais. Contribuindo ao acabamento do conjunto, a dublagem brasileira é impecavelmente construída.

É claro que alguns temas não ganham o aprofundamento que mereceriam, e que a solução de ordem médica, rumo à conclusão, não representa com exatidão a aversão às diferenças. Mas numa época de discursos reacionários, é louvável encontrar uma animação infantil que debata, por meio do humor, temas como o preconceito, o machismo, o racismo, a homofobia, o consumo de drogas e as tensões entre classes sociais, sem precisar embutir artificialmente uma história de amor romântico ou familiar. Através da metáfora do comportamento selvagem, a Disney conseguiu representar os perigos que assolam as sociedades intolerantes de hoje em dia.


sábado, 7 de janeiro de 2017

UM CRISTÃO REFORMADO (Perfil)


Muitos irmãos em Cristo devem ter percebido que me identifico sempre como um "cristão reformado", apesar de, logicamente, ser um evangélico. Talvez alguns já indagaram a si próprios sobre o que significa essa expressão, porém nunca tiveram coragem de perguntar. Escrevo este artigo com o objetivo de satisfazer a curiosidade de todos aqueles que ficam com um nó na cabeça sempre que ouvem ou lêem essa expressão de minha parte.

Um cristão reformado é alguém que crê na doutrina bíblica conforme expressa pela Teologia Reformada, elaborada no tempo da Reforma Protestante.

Creio como reformado que a Bíblia deve ser interpretada seguindo o modelo histórico-gramatical. Isto significa que, por ser um livro inspirado pelo Espírito Santo (II Tm.3.16), a Bíblia deve ser interpretada em espírito de oração e na total dependência do Espírito, que ilumina nossa mente para que possamos compreender seu verdadeiro significado (I Co.2.10-16).

Creio como reformado na justificação pela fé. A justificação é um ato legal, no qual Deus declara que o pecador é justo (Rm.3.22-26; 4.5), não por alguma obediência ou boa obra dele próprio (Ef.2.8), nem por algo operado nele pelo próprio Deus, mas somente por causa da obediência perfeita de Cristo à lei (Rm.5.18-19).
Creio como reformado na soberania de Deus. Por soberania de Deus deseja-se mostrar o controle absoluto de Deus sobre toda Sua criação (Mt.6.26; 10.29), e todos os acontecimentos passados, presentes e futuros, sendo Ele o Senhor da história (Dn.4.35). Deus não é somente o Criador, é também o Preservador do Universo, sustentando todas as coisas pela Palavra do Seu poder (Hb.1.3). Ele é quem determina tudo o que acontece, Sua vontade é totalmente soberana (Is.46.10), inclusive sobre nossas vontades (Fp.2.13). Logo, não existe, como muitos dizem, um livre-arbítrio. Existe sim uma liberdade e responsabilidade humana, mas que é limitada pela vontade soberana de Deus.

Creio como reformado na soberania de Deus especificamente em relação à salvação (Rm.8.29-30). Isso foi perfeitamente expresso num documento chamado Cânones de Dort, elaborado entre 1618 e 1619, onde a salvação é apresentada em 5 pontos: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, chamada eficaz e perseverança dos santos.

Creio como reformado que o "fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre", como diz o Breve Catecismo de Westminster. Logo, um reformado tenta viver uma vida que glorifique a Deus em todos os aspectos, e entende que Deus é adorado e glorificado em todas as áreas de sua vida: no trabalho, na família, na sociedade, no lazer, na igreja, etc. "Quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (I Co.10.31).

Este é um pequeno resumo do que eu creio como reformado. Digo com segurança e convicção que essa é a doutrina original dos evangélicos, mas que, infelizmente, foi abandonada com o tempo. Tenho buscado um retorno ao evangelho bíblico conforme ensinado pelos reformadores, nossos pais na fé, e creio que esse é o único caminho para um verdadeiro avivamento na igreja evangélica moderna. O segredo do avivamento não é inovar, mas olhar para o passado e restaurar o que se perdeu: "Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas." (Jr.6.16).

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

COMENTÁRIO BÍBLICO DE 1 PEDRO - WAYNE [Sinopse]



Não acredito que algum cristão possa estudar essa carta por muito tempo sem ouvir a voz de Deus dirigir-se com poder às necessidades da igreja de hoje. Em apenas 105 versículos, 1 Pedro trata de inúmeros conceitos de teologia e ética cristãs. Nessa carta, encontramos a grande doutrina da redenção, desde sua concepção antes da fundação do mundo até sua consumação, quando receberemos nossa herança que jamais perecerá. Nela encontramos inúmeras exortações à santidade e à humilde confiança em Deus nas necessidades de cada dia. Encontramos também conselhos práticos sobre casamento, vida profissional, nossa relação com o governo, nosso testemunho perante os que não creem uso dos dons espirituais e ministério como líder de uma igreja.

Nessa carta também se encontram intenso consolo na aflição e, na medida do que Deus permite, a consciência dos profundos ministérios do sofrimento e da reprovação. Vemos nela a beleza majestosa da igreja como “templo espiritual”, onde diariamente oferecemos “sacrifícios espirituais” que agradam a Deus. E Jesus está nela: o pastor supremo que cuida de nós, o exemplo que seguimos, a pedra angular escolhida que nos une e consolida e o Salvador que levou sobre si nossos pecados na cruz; aquele que, sem jamais termos visto, amamos. A glória de Cristo brilha das páginas dessa carta para o coração dos que a leem. Para igrejas e indivíduos que procuram crescer em santidade, fé e amor por Cristo, as palavras de Deus em 1 Pedro haverão de compensar ricamente o estudo feito com seriedade, a memorização e a meditação.

O comentário examina o texto seção por seção, extraindo seus temas principais. Além disso, comenta quase todos os versículos da carta separadamente e lida com problemas interpretativos. O objetivo geral é chegar ao verdadeiro sentido de 1 Pedro e tornar sua mensagem clara aos leitores de hoje.

Grudem, Wayne A. Comentário Bíblico de 1 Pedro. São Paulo: Vida Nova, 2016. 240p.

KUNG FU PANDA 3 [RESENHA]



Se o primeiro Kung Fu Panda (2008) conquistou o público com uma história pessoal de superação – do panda gordinho fazedor de macarrão cujo maior sonho é dominar as artes marciais –, o terceiro filme, que chega agora aos cinemas, confirma a evolução da franquia – e do personagem – ao jogar a trama para um contexto mais amplo, de valorizar o que há de melhor em cada um (sem perder a graça e o humor tão peculiares à condição de um panda “filho” de um ganso, claro).

Uma vez estabelecido com o Dragão Guerreiro, Po agora vê a China ameaçada por um novo e perigoso inimigo. Ok, a premissa vale tanto para Kung Fu Panda 2, como para o 3. A diferença é que o filme de 2011 não traz nenhuma grande novidade narrativa para o arco mais amplo da franquia. O filme da sul-coreana Jennifer Yuh – que assumiu a função de diretora depois do excelente início pelas mãos de Mark Osborne (que, futuramente viria a comandar a nova adaptação de O Pequeno Príncipe para os cinemas) –, é mais apoiado em sequências de ação do que no texto propriamente dito.

Para o terceiro longa, Yuh volta à direção, com o apoio de Alessandro Carloni (em seu primeiro longa na função, embora já tenha trabalhado em diferentes departamentos de vários títulos de animação). O filme começa como todos os outros, ou seja, com um prólogo em 2D que serve, basicamente, para apresentar o vilão e puxar o gatilho para as cenas de ação.

A bem da verdade, descontado o leopardo Tai Lung do primeiro filme, “filho” do mestre Shifu, vilões não são o grande atrativo deste universo. Assim como o pavão lorde Shen, a bola da vez, o touro Kai, O Coletor, poderia ser qualquer animal/ personagem que desse na telha dos roteiristas. Ele pula para dentro da história “do nada”, e os autores (de novo Jonathan Aibel e Glenn Berger) procuram justificar a entrada do novo malvado como um “lendário” desafeto do Mestre Oogway no plano dos mortos.

Mas aqui, a contextualização da aguardada batalha do bem contra o mal toma emprestado da medicina tradicional chinesa a noção do Chi, grosso modo, um tipo de “energia vital”, uma excelente aposta para o mundo da franquia. É ela que vai fazer nosso herói ensinar (para as crianças?) que se deve buscar o que há de melhor em cada um – quase um discípulo de Paulo Freire – para derrotar um inimigo que parece indestrutível. Uma metáfora educativa, inserida sem didatismo chato.

Em paralelo, corre com (muita) força a trama pessoal do protagonista, que finalmente vai conhecer o pai de sangue, Li. É o mote para fazer crescer um dos personagens mais interessantes do universo da Dreamworks, o Sr Ping, o pai ganso pai de Po, e seu humor involuntário. Do “conflito” desses personagens, surge outra lição, de que o conceito de família pode ir muito além daquela foto emoldurada de papai, mamãe, filhinho e filhinha.

E precisa mais? Se deu por falta, Kung Fu Panda 3 ainda traz um visual caprichado, com ótimas cenas de luta. Difícil especular para onde a franquia poderia seguir, sem perder em qualidade; se for realmente encerrada aqui, Po e sua turma se despedem com um golpe de mestre.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

PROJETO LEITURA PARA 2017



Este ano pretendo ler novamente toda a Bíblia e o meu projeto de leitura tem novas adições.


(1) Livro com Devocionais “Por amor a Deus” de D. A. Carson.


O livro Por Amor a Deus é uma obra cuja função é essencial a todos que almejam conhecer a Bíblia, lê-la por inteiro. Contudo, o livro não trata tão somente de Devocionais comuns, tipo aqueles de leituras bíblicas curtas e pessoais, às vezes de apenas um versículo ou dois, seguidos de vários parágrafos de exposição edificante. Além da leitura do texto bíblico, você terá acesso a comentários que permitirão reflexões sobre cada texto lido.

O livro traz o Plano de anual de Leitura da Bíblia com o método McCheyne. O plano de leitura começa com os livros de Gênesis, Mateus, Esdras e Atos. Ou seja o nascimento do universo em Gênesis, o renascimento da nação de Israel com Esdras, o nascimento de Jesus em Mateus e o Nascimento da Igreja com Atos. De tal forma que ao ler um livro do novo testamento em janeiro, vou lê-lo outra vez no meio do ano em Junho; e assim com os demais livros e os salmos. A disposição da leitura dos livros, lei, historia, poesia e profecia é extraordinária, ora lemos um fato sem I Samuel, ora cantamos esta historia nos salmo; e o que no Antigo testamento é ruína, no Novo Testamento é restauração! No ultimo dia do ano estaremos lendo o ultimo capitulo de 2 Crônicas o ultimo livro a ser escrito do AT. o ultimo capitulo de apocalipse o ultimo livro do NT. E ainda leremos Malaquias o ultimo livro da bíblia do AT que termina com a palavra maldição, e em seguida o ultimo capitulo do evangelho João 21, que termina com a grandeza do ministério de Jesus. 


(2) Bíblia Sagrada Almeida Corrigida Fiel (ACF) da SBTB.



A Bíblia ACF é uma herdeira da Reforma (Almeida 1681/1753), fielmente traduzida somente da Palavra de Deus infalivelmente preservada (e finalmente impressa, na Reforma, como o Textus Receptus). Gosto do texto e mesmo porque não sou favorável ao argumento de adaptar o texto com o propósito de que deve ficar mais claro ao leitor. É importante que saibamos que o que faz alguém entender a Palavra de Deus é o Espírito Santo. Se Deus deu ordem para que as palavras fossem as que Ele escolheu, somente nos cabe acatar e cumprir. Não temos que ficar inventando nada. Ele escolheu cada uma das palavras e tem um propósito para isso. Quando trocamos palavras escolhidas por Deus por palavras escolhidas por homens, comprometemos a pureza da Palavra de Deus.


(3) Teologia Puritana de Joel Beeke e Mark Jones



Esta inovadora obra trata dos ensinos dos puritanos sobre 6 grandes áreas da teologia, cobrindo 50 subseções doutrinárias. A obra examina com profundidade os ensinos dos puritanos sobre interpretação bíblica, Deus, predestinação, providência, anjos, pecado, as alianças, o evangelho, Cristo, a preparação para a conversão, regeneração, o ato de vir a Cristo, justificação, adoção, governo eclesiástico, o Shabbath, pregação, batismo, céu, inferno e muitos outros assuntos. Os últimos oito capítulos examinam a “teologia na prática” segundo os puritanos. Alguns capítulos se concentram na obra de um teólogo puritano e tratam de um assunto específico. Outros capítulos fazem um apanhado de vários autores sobre determinado tema. 

Pois bem, que Deus me ajude a perseverar!!!Prof. Pádua