domingo, 28 de maio de 2017

JESUS, O FILHO DE DEUS [Apresentações e Sinopse]


Este pequeno livro nasceu do conteúdo de três palestras feitas no Reformed Theological Seminary em Jackson, no estado do Mississippi, nos dias 5 e 6 de março de 2012. Em formato reduzido, tornou-se a Palestra Gaffin sobre Teologia, Cultura e Missões no Westminster Theological Seminary, em 14 de março de 2012, e depois, levemente modificada, transformou-se no conteúdo básico de três palestras em francês, apresentadas durante o Colloque Réformée, realizado em Lion, na França, em abril do mesmo ano. Sou extremamente grato a Michel Lemaire e a Jacob Mathieu pelo trabalho cuidadoso de tradução. É um prazer, e não mera obrigação, expressar meus sinceros agradecimentos aos que organizaram essas palestras e me convidaram para participar. Tenho uma enorme dívida de gratidão por toda a hospitalidade e amabilidade.

Escolhi o tema em 2009. Parte do trabalho que eu havia desenvolvido enquanto lecionava a Carta aos Hebreus, em especial o capítulo 1, no qual se diz que Jesus é superior aos anjos por ser ele o Filho, despertou-me para pensar sobre o assunto de maneira mais global. Além disso, já faz algum tempo que venho pensando sobre o hiato entre a exegese meticulosa e as formulações doutrinárias. É claro que precisamos de ambas, mas se uma formulação doutrinária não for ditada, em última análise, pela exegese e visivelmente controlada por ela ambas se enfraquecerão. O tema do “Filho de Deus” tornou-se um dos vários casos-teste (análises contextuais de termos bíblicos) do meu pensamento. No entanto, desde que o tema foi escolhido, os debates sobre qual seria uma tradução fiel de “Filho de Deus”, sobretudo tendo em vista leitores muçulmanos, têm saído do contexto restri- to dos periódicos lidos por tradutores da Bíblia e alcançado o grande público. Denominações inteiras foram apanhadas nessa polêmica que não dá sinais de arrefecimento. O último dos três capítulos deste livro dedica-se ao exame destes dois pontos: como, num contexto cristão, a exegese leva adequadamente ao confessionalismo cristão e como, num contexto transcultural que visa a preparar tradutores da Bíblia para leitores muçulmanos, podemos ser sabiamente flexíveis nos debates atuais. Mas peço encarecidamente que você leia antes os dois primeiros capítulos. Eles fornecem os detalhes textuais necessários sobre os quais a abordagem das controvérsias precisa estar fundamentada.

Este livro não é principalmente uma contribuição para os debates atuais, por mais importantes que sejam. Ele se desti- na a promover a clareza de pensamento entre os cristãos que desejam saber o que queremos dizer quando nos colocamos ao lado de crentes através dos séculos e confessamos: “Creio em Deus Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor”.

Mais uma vez é um prazer registrar minha dívida de gratidão a Andy Naselli por suas sugestões de valor incalculável. Soli Deo gloria. 


OPINIÕES SOBRE O LIVRO

Não existe um título cristológico tão essencial quanto “Filho de Deus”; nenhum outro é mais importante. Esse estudo prova isso com impressionante clareza, por meio de sólida e cuidadosa exegese e reflexão teológica, em face dos equívocos e das disputas de ontem e de hoje. Mais uma vez, D. A. Carson presta um bom serviço à igreja. Richard B. Gaffin Jr., professor emérito de Teologia Bíblica e Sistemática no Westminster Theological Seminary


Sei o que é rejeitar Jesus como o “Filho de Deus”. Quando eu era mu- çulmano, nada me deixava mais perplexo e, para ser bem honesto, mais irritado do que ouvir os cristãos se referirem a Jesus como “o Filho de Deus”. Eu os considerava blasfemos que mereciam ser condenados. Mas hoje, nada me deixa mais feliz do que saber que Jesus, de fato, é o Filho de Deus e que esse título é muito mais verdadeiro e maravilhoso do que eu jamais poderia imaginar. Assim, é com entusiasmo e alegria que recebo esse livro de D. A. Carson na condição de alguém que um dia negou a verdade de que Jesus é o Filho de Deus. Com seu jeito costumeiramente claro, caloroso, equilibrado e cuidadoso, Carson nos oferece um novo exame de uma verdade preciosa que tantos cristãos subestimam e tantos muçulmanos entendem mal. Se você deseja conhecer melhor Jesus e a Bíblia, certamente não ficará desapontado com esse livro. Thabiti Anyabwile, pastor-titular da Primeira Igreja Batista de Grande Cayman; autor de O que é um membro de igreja saudável? (Fiel)


O que significa confessar que Jesus é o Filho de Deus? D. A. Carson trabalha com essa questão em Jesus, o Filho de Deus. Nesse pequeno livro, ele lança um firme fundamento para ajudar a igreja a entender essa expressão usada com referência a Jesus. Depois de tratar das acepções de “Filho de Deus” nas Escrituras, tanto as gerais quanto as que se aplicam a Jesus, Carson mostra como a teologia sistemática deve se basear numa sólida exegese da Bíblia. Ele se esforça por vincular seu estudo à controvérsia nos círculos missiológicos em torno da apresentação de Jesus como Filho de Deus em contextos cristãos e muçulmanos. De modo crítico e cordial ao mesmo tempo, Carson convida a uma reconsideração das novas traduções que substituíram as referências a Deus Pai e a Jesus como Filho para se tornarem mais aceitáveis aos muçulmanos. Robert A. Peterson, professor de Teologia Sistemática pelo Covenant Seminary


Portanto, não existe um título cristológico tão essencial quanto “Filho de Deus”; nenhum outro é mais importante. Esse estudo prova isso com impressionante clareza, por meio de sólida e cuidadosa exegese e reflexão teológica, em face dos equívocos e das disputas de ontem e de hoje. Mais uma vez, D. A. Carson presta um bom serviço à igreja. O que significa confessar que Jesus é o Filho de Deus? D. A. Carson trabalha com essa questão em Jesus, o Filho de Deus. Nesse pequeno livro, ele lança um firme fundamento para ajudar a igreja a entender essa expressão usada com referência a Jesus. Depois de tratar das acepções de “Filho de Deus” nas Escrituras, tanto as gerais quanto as que se aplicam a Jesus, Carson mostra como a teologia sistemática deve se basear numa sólida exegese da Bíblia. Ele se esforça por vincular seu estudo à controvérsia nos círculos missiológicos em torno da apresentação de Jesus como Filho de Deus em contextos cristãos e muçulmanos. De modo crítico e cordial ao mesmo tempo, Carson convida a uma reconsideração das novas traduções que substituíram as referências a Deus Pai e a Jesus como Filho para se tornarem mais aceitáveis aos muçulmanos. [Apresentações]

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Jesus, o Filho de Deus: O título cristológico muitas vezes negligenciado, às vezes mal compreendido e atualmente questionado. D. A. Carson – São Paulo: Vida Nova, 2015. 128p.

TEONTOLOGIA - O DEUS VERDADEIRO [Aula 01]


INTRODUÇÃO

É evidente que precisamos de mais do que um conhecimento teórico sobre Deus. Mas, podemos conhecê-lo apenas quando Ele se revela a nós nas Escrituras, e não podemos compreender as Escrituras até que estejamos dispostos a ser transformados por elas. O conhecimento de Deus só ocorre quando reconhecemos nossa profunda necessidade espiritual e tornamo-nos receptivos à Sua graciosa provisão por meio da obra de Cristo e da aplicação dessa obra em nossa vida pelo Espírito Santo.

Com base nisso, voltamos à questão concernente ao próprio Deus e perguntamos: Quem é Deus? Quem é esse que se revela nas Escrituras na pessoa de Jesus Cristo e na do Espírito Santo? Talvez admitamos que um conhecimento verdadeiro de Deus pode transformar-nos. Talvez até estejamos dispostos a mudar. Todavia, por onde começamos?


1. AUTO-EXISTENTE

Já que na Bíblia prevalece a unidade, podemos responder a essas questões partindo de qualquer afirmativa constante nela. Podemos começar por Apocalipse 22.21 tanto como por Gênesis 1.1.

Contudo, não há melhor passagem para tomar como base do que a da revelação de Deus de si mesmo na sarça ardente. Mesmo antes desse episódio, Moisés , o grande líder de Israel, já tinha consciência do Deus verdadeiro, pois havia nascido em uma família temente ao Senhor. Ainda assim, quando Deus disse que o enviaria ao Egito e que por intermédio dele livraria o povo de Israel, Moisés respondeu: Então disse Moisés a Deus: Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. (Êxodo 3:13,14)

A denominação EU SOU O QUE SOU está ligada ao nome antigo de Deus, Jeová. Todavia, isso é mais que um nome; é um nome descritivo, apontando para tudo o que Deus é em si mesmo. Em particular, mostra que Ele é aquele que é totalmente auto-existente, auto-suficiente e eterno.

Esses são conceitos abstratos, mas importantes, pois tais características, mais que quaisquer outras, diferenciam Deus de sua criação e revelam o que Ele é. Deus é perfeito em todos os Seus atributos.

Contudo, há algumas virtudes divinas que nós, criados à imagem e semelhança de Deus, compartilhamos. Por exemplo, Deus é perfeito em Seu amor; porém, por Sua graça, nós também amamos. Ele é totalmente sábio; entretanto, também temos uma medida de sabedoria. Ele é todo-poderoso; nós exercemos um poder, ainda que limitado.

No entanto, não é assim em relação à auto-existência de Deus, à Sua auto-suficiência e eternidade. Só Ele possui essas características. O Senhor existe nele mesmo e por si mesmo e por si mesmo; nós não. Ele é auto-suficiente;; nós não. Ele é eterno, mas nós acabamos de “entrar em cena”.

A auto-existência consiste em que Deus não foi criado por outrem e, por conseqüência, não deve explicações a ninguém.

Matthew Henry declarou em Comentary on the Whole Bible: O maior e melhor homem do mundo pode dizer ‘pela graça de Deus eu sou o que sou’, mas Deus declara de forma absoluta – e isso é mais do que qualquer criatura, homem ou anjo possa afirmar – Eu sou o que sou. [1]

Assim, Deus não tem principio nem fim; Sua existência não depende de ninguém.

A auto-existência é um conceito difícil para nós entendermos porque significa que Deus, como é em si mesmo, é impossível de ser conhecido. Tudo o que vemos, cheiramos, ouvimos, provamos ou tocamos tem uma causa. Não conseguimos pensar em nenhuma outra categoria.

Qualquer coisa que observemos tem de ter uma causa adequada para explicá-la. Buscamos por isso. Causa e efeito são até mesmo a base para a crença em Deus nutrida por aqueles que não o conhecem.

Tais pessoas acreditam em Deus não porque tiveram uma experiência pessoal com Ele ou porque o descobriram nas Escrituras, porém simplesmente por que inferem Sua existência. Elas raciocinam da seguinte forma: “tudo vem de alguma coisa; portanto, deve haver um grande ser que está por trás de tudo”.

Causa e feito apontam para Deus, entretanto – essa é a questão – apontam para um Deus que está fora do nosso alcance, para aquele que está além de nós em  tudo. Eles indicam que Deus não pode ser conhecido ou avaliado como as outras coisas podem.

A. W. Tozer percebeu que essa é uma razão pela qual a filosofia  e a ciência sempre simpatizaram com a ideia de Deus. Essas disciplinas são dedicadas à tarefa de explicar as coisas como as conhecemos, e são impacientes com tudo o que não se deixa explicar.

Filósofos e cientistas admitem que há muito que eles não sabem. Contudo, diferente disso é admitir que há alguma coisa que nunca poderão conhecer por completo e que, na verdade, não desvendam porque a tecnologia de que dispõem é insuficiente.

Para encontrar Deus, cientistas podem tentar rebaixá-lo ao nível deles, definindo-o como uma lei natural, evolução ou algum principio desse tipo. No entanto, ainda assim Deus lhes escapa. Há mais sobre Ele do que qualquer desses conceitos é capaz de delinear.

Talvez, também, seja por isso que pessoas que crêem na Bíblia parecem passar pouco tempo pensando sobre a pessoa e o caráter de Deus.

Em Conhecimento do sagrado, Tozer escreveu: Poucos de nós deixam o coração contemplar maravilhados o EU SOU, o Ser auto-existente, que nenhuma criatura pode compreender. Tal entendimento é muito doloroso para nós. Preferimos pensar no que nos trará melhor proveito – como construir uma ratoeira mais eficaz, por exemplo, ou como fazer duas camadas de grama crescerem onde antes só crescia uma. Por isso, estamos pagando um preço alto demais pela secularização de nossa religião e pela decadência de nosso ser interior. [2]

A auto-existência de Deus significa que Ele não deve satisfações a nós nem a ninguém, e não gostamos disso. Queremos que o Senhor se explique, para justificar Suas ações. Embora Ele às vezes o faça, não tem obrigação, e com freqüência não o faz.


2. AUTO-SUFICIENTE

A segunda qualidade de Deus comunicada a nós pelo nome Eu Sou o que Sou é auto-suficiência. È possível ter pelo menos um senso de significado desse termo abstrato. Ser auto-suficiente significa não depender de ninguém.

Nesse caso vamos de encontro a uma idéia difundida e popular: Deus coopera com o homem, e vice-versa; cada um suprindo o que falta no outro. Imagina-se, por exemplo, que Deus sente falta de glória, por isso criou homens e mulheres para supri-la. Deus cuida deles como recompensa. Ou então, imagina-se que Deus precisa de amor, e criou homens e mulheres para amá-lo. Alguns falam da criação como se Deus fosse solitário e nos tivesse criado para lhe fazer companhia.

Em um nível prático vemos o mesmo posicionamento naqueles que imaginam que homens e mulheres são imprescindíveis para executar o plano de Deus de salvação como testemunhas e defensores da fé, esquecendo que Jesus declarou que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão (Lc 3.8).

Deus não precisa de adoradores. Arthur W. Pink, que escreveu sobre esse tema em The Attributes of  God [Os atributos de Deus], enfatizou: “Deus não estava sob nenhuma pressão, nenhuma obrigação, nenhuma necessidade para criar. Ele ter escolhido fazê-lo foi puramente um ato soberano de Sua parte, provocado por nada exterior a Ele mesmo, determinado por nada além de Seu bel-prazer, pois Ele faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade (Ef 1.11). Ele ter criado foi simplesmente para Sua manifesta glória [..Deus não tira proveito de nossa adoração. Ele não estava com necessidade da glória externa de Sua graça que advêm de Seus redimidos, pois Ele é glorioso o suficiente em si mesmo sem isso.O que o moveu a predestinar Seus eleitos para o louvor da glória de Sua graça? Foi como está escrito em Efésios 1.5: segundo o beneplácito de sua vontade. A força disso é que é impossível fazer com que o Todo-poderoso fique obrigado com a criatura; Deus não lucra nada conosco.” (Pink, p. 2,3) [3]

Tozer ressaltou o mesmo ponto: Se toda a humanidade repentinamente se tornasse cega, ainda assim o sol brilharia todos os dias e as estrelas à noite, pois estes não devem nada aos milhões que eles beneficiam com sua luz. Da mesma forma, se todos os homens se tornassem ateus, isso não afetaria Deus de modo algum. Ele é o que é em si mesmo sem dizer respeito a nenhum outro. Crer nele não adiciona nada à Sua perfeição, e duvidar dele não lhe subtrai nada. (Tozer, 1961, p. 40). [4]

Deus também não precisa de ajudadores. Essa verdade é mais difícil ainda para aceitarmos do que qualquer outra. Isso porque imaginamos Deus como a figura de um avô,simpático, porém quase patético, alvoroçado para ver quem Ele pode encontrar para ajudá-lo a administrar o mundo e salvar a humanidade. Que caricatura!

Com certeza, o Senhor confiou a nós um trabalho de administração. Ele disse a Adão e Eva no Éden; Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra (Gn 1.28). Deus também deu a todos os que crêem uma comissão: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura (Mc 16.15).

A verdade, entretanto, é que nenhum aspecto da disposição de Sua criação tem um fundamento em si mesmo. Deus escolheu fazer as coisas dessa forma. Ele não precisava fazê-las. Poderia tê-las feito de inúmeras outras maneiras. O Senhor escolheu agir assim porque depende unicamente do exercício livre e soberano de Sua vontade.

Declarar que Deus é auto-suficiente também significa que Deus não precisa de defensores. É claro, temos a oportunidade de falar em Seu favor perante aqueles que desonram Seu nome e difamam Seu caráter. Devemos fazer isso. Contudo, mesmo que falhemos, não devemos pensar que Deus é prejudicado por isso. Ele não precisa ser defendido, pois é como é e permanecerá assim a despeito dos ataques arrogantes e pecaminosos de pessoas más. Um Deus que precisa ser defendido não é Deus. Na verdade, o Deus da Bíblia é auto-existente e verdadeiro defensor de Seu povo.

Quando nos damos conta de que Deus é o único verdadeiro e auto-suficiente, começamos a entender por que a Bíblia tem tanto a dizer sobre a necessidade da fé somente nele e porque não crer em Deus traz conseqüências tão graves.

Tozer escreveu: De todos os seres criados, nenhum se atreve a confiar em si mesmo. Somente Deus o faz; os outros seres precisam confiar nele. A descrença na verdade é uma fé pervertida, pois coloca sua confiança não no Deus vivo, mas no homem perecível. (Tozer, 1961, p. 42) [5]

Se nos recusamos a ter fé em Deus, o que estamos mostrando é que ou nós ou outra pessoa ou coisa merece mais nossa confiança. Isso é calúnia contra o caráter de Deus, e é vaidade. Nada além dele é auto-suficiente. Por outro lado, se começamos a confiar no Senhor, encontramos um fundamento sólido para toda a nossa vida. Deus é suficiente, e podemos confiar em Sua Palavra para tudo o que Ele criou.

Porque Deus é suficiente, podemos descansar nessa suficiência e trabalhar com eficiência para Ele. Deus não precisa de nós. Mas a alegria de vir a conhecê-lo está em aprender que Ele, apesar disso, trabalha naqueles e por meio daqueles que são Seus filhos, portanto crentes e obedientes.


3. ETERNO

Uma terceira qualidade contida no nome de Deus revelado a Moisés, Eu sou o que sou, é a perenidade, perpetuidade ou eternidade. É difícil encerrar tal característica em uma palavra, porém significa simplesmente que Deus sempre foi e sempre será, e que é imutável. Encontramos esse atributo divino em todas as partes da Bíblia.

Abraão chamava Jeová de Deus eterno (Gn 21.33). Moisés escreveu: “SENHOR, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração. Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, tu és Deus” Salmo 90.1,2.


O livro de Apocalipse descreve Deus como o Alfa e o ômega, o Princípio e o Fim (Ap 1.8; 21.6; 22.13). De acordo com a visão de João, as criaturas diante do Seu trono diziam: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-poderoso, que era, e que é,e que há devir (Ap4.8).

O fato de que Deus é eterno traz duas grandes conseqüências para nós. A primeira é que é possível confiar nele porque Ele permanecerá como revela ser. Em geral a palavra usada para descrever essa característica é imutabilidade, que significa invariabilidade. “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança, nem sombra de variação” (Tg 1.17).

Deus é imutável em Seus atributos. Por isso, não devemos temer, por exemplo, que o Deus que uma vez nos amou em Cristo de alguma forma mude de idéia e deixe de amar-nos no futuro. O Senhor sempre é amor em relação a Seu povo.

De maneira semelhante, não devemos pensar que Ele talvez mude Sua atitude em relação ao pecado, de modo que comece a classificar como permissível algo que sempre foi proibido. O pecado continuará sendo pecado porque é definido como qualquer transgressão ou falta conforme a Lei de Deus, que é imutável. Deus permanecerá santo, sábio, gracioso, justo e tudo o mais que se revele ser. Nada que possamos fazer mudará o Deus eterno.

Deus também é imutável em Seus desígnios. Ele faz o que predeterminou que faria, e não há variação em Sua vontade. Algumas pessoas tentam mostrar, baseadas em determinados versos da Bíblia, que Deus se arre pendeu de um ato, como em Gênesis 6.6: “Então, arrependeu-se o SENHOR de haver feito o homem sobre a terra.”

Nesse exemplo, o verbo arrepender-se é usado para indicar o severo desprazer do Senhor com as atividades do homem. No entanto, o conceito que temos de arrependimento não se aplica a Deus, como pode ser constatado nos textos a seguir: “Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa; porventura, diria ele e não o faria? Ou falaria e não o confirmaria?” [Números 23.19]; “E também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não é um homem, para que se arrependa.” [1 Samuel 15.29];  “Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento.” [ Romanos 11.29];  “O conselho do SENHOR permanece para sempre; os internos do seu coração, de geração em geração.” [Salmo 33.11]

Tais afirmações proporcionam grande conforto ao povo de Deus. Se o Senhor fosse como nós, não poderíamos confiar nele. Ele mudaria, e, como resultado disso. Sua vontade e Suas promessas mudariam. Não poderíamos depender dele. No entanto, Deus não é como nós. Ele não muda. Como conseqüência. Seus propósitos permanecem os mesmos de geração a geração.

Arthur Pink declarou em Atributos de Deus: “Aqui, pois, está a rocha sobre a qual podemos fixar nossos pés, enquanto a poderosa torrente varre tudo ao nosso redor. A permanência do caráter de Deus garante o cumprimento de Suas promessas.” (Pink, p. 41) [6]

A segunda maior conseqüência da eternidade de Deus para nós é que Ele é inevitável. Se o Senhor fosse um mero humano, e não gostássemos dele ou do que Ele faz, poderíamos ignorá-lo sabendo que Ele teria a opção de mudar, afastar-se de nós ou morrer. No entanto. Deus não muda de idéia. Ele não se afasta nem vai morrer.

Como conseqüência, não podemos escapar dele. Mesmo que o ignoremos agora, teremos de prestar-lhe contas de nossos atos no porvir. Se o rejeitarmos hoje, teremos de, por fim, enfrentar Aquele que rejeitamos e experimentar Sua eterna rejeição a nós.


4. NENHUM OUTRO DEUS

Somos levados a uma conclusão natural: devemos buscar e adorar o Deus verdadeiro. Este capítulo é baseado em sua maior parte em Êxodo 3.14, passagem em que Deus revela a Moisés o nome pelo qual Ele deseja ser conhecido. Tal revelação convergiu para a libertação de Israel do Egito. Após o êxodo. Deus fez uma revelação no monte Sinai que se aplica à revelação anterior dele mesmo como o Deus verdadeiro e à vida religiosa e de adoração da nação liberta.  “Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas de baixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia em milhares aos que me amam e guardam os meus mandamentos.” Êxodo 20.2-6

Esses versículos estabelecem três pontos fundamentados na premissa de que o Deus que se revela na Bíblia é o Deus verdadeiro:
1. Devemos louvá-lo e obedecer a Ele.
2. Devemos rejeitar a adoração a qual quer outro deus.
3. Devemos rejeitar a adoração ao Deus verdadeiro por qualquer meio que não seja digno dele, como o uso de retratos ou imagens.

À primeira vista, parece um pouco estranho que uma proibição contra o uso de imagens na adoração tenha ocupado um lugar no início dos Dez Mandamentos. No entanto, percebemos que não é tão estranho quando lembramos que os princípios de uma religião dependem da natureza do deus dessa religião. Se o deus é sem valor, a religião não terá valor também. Se o conceito da divindade é da maior importância, a religião será do mais alto nível.

Assim, Deus nos mostra nesses versículos que qualquer representação física dele é uma desonra. Por quê? Primeiro porque ela obscurece Sua glória, pois nada visível é capaz de sequer representá-lo de maneira adequada. Segundo porque isso desvirtua aqueles que o adoram.

Esse erro pode ser observado no episódio da fabricação do bezerro de ouro por Arão, como J. I. Packer indica em sua discussão sobre idolatria. Para Arão, pelo menos, o bezerro tinha como propósito representar Jeová. Ele pensou que, sem dúvida, a figura de um boi, mesmo que pequeno, simbolizaria a força de Deus. Todavia, é claro, isso não aconteceu. E de maneira nenhuma a estátua comunicou os demais atributos do Senhor: soberania, justiça, misericórdia, amor e retidão. Em vez disso, o bezerro os obscureceu.

Ademais, a figura de ouro desencaminhou os adoradores. Eles de imediato associaram-na com os deuses e deusas da fertilidade do Egito, e o resultado de sua adoração foi uma orgia. Packer concluiu: “É certo que, se você tem o hábito de focalizar seus pensamentos numa imagem ou retrato daquele para o qual você vai dirigir sua oração, pensará nele e orará de acordo com o que a imagem representa. Portanto, nesse sentido, você se curvará e adorará sua imagem, deixando de adorar a Deus em verdade. É por isso que Deus nos proíbe de fazer uso de imagens em nossa adoração.” (Packer, 1973, p. 41) [7]


4. O LOUVOR A DEUS

Contudo, apenas evitar a adoração a imagens ou mesmo o uso destas na adoração ao Deus verdadeiro não é em si adoração. Temos de reconhecer que o Deus verdadeiro é o eterno, auto-existente e auto-suficiente Senhor, aquele que está imensuravelmente além de nossos pensamentos mais sublimes.

Temos de humilhar-nos e aprender dele, permitindo que nos ensine como Ele é e o que Ele fez pela nossa salvação. Fazemos o que o Senhor manda? Podemos ter certeza de que em nossa adoração estamos de fato adorando o Deus verdadeiro, que se revelou na Bíblia?

Só há uma maneira de responder a essa questão com honestidade. É perguntando: “Eu realmente conheço a Bíblia e louvo a Deus com base na verdade que encontro nela?”

Essa verdade é centrada no Senhor Jesus Cristo. Nas Escrituras, o Deus invisível torna-se visível, o inescrutável torna-se conhecido, o eterno Deus é revelado no tempo e no espaço.

É necessário que nos questionemos: “Eu olho para Cristo no intuito de conhecer Deus? Eu penso nos atributos divinos pelo que Jesus mo mostra deles?” Se a resposta é não, estamos adorando uma imagem de Deus, ainda que forjada em nossa própria mente. Se olharmos para Jesus, saberemos que estamos adorando o Deus verdadeiro, como Ele se revelou.

Paulo declarou que, embora alguns conhecessem Deus, eles não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças [Romanos 1.21]. Vamos rogar que isso aconteça conosco.

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Fundamentos da Fé Cristã: Uma Manual de teologia ao alcance de todos. James Montgomery Boice. São Paulo: Central Gospel, 2011, p. 90-95.


[1] HENRY, Mathew. Commentary on the Whole Bible [Comentário de toda a Bíblia]. Vol 1. New YorK Fleming H. Revel [s/d], p. 284
[2] TOZER, A. W. The Knowledge of the Holy [O Conhecimento do Sagrado]. New York: Harper & Row, 1961, p. 34.
[3] pink, Arthur W. The Attributes of God [Os Atributos de Deus]. Michigan: Baker Book House [s/d].
[4] TOZER, A. W. The Knowledge of the holy [O Conhecimento do Sagrada]. New Yoerk: Harper & Row, 1961.
[5] IBID
[6] Pink, Arthur W. The Attributes of God [Os Atributos de Deus]. Michigan: Baker Book House [s/d].
[7] PACKER, J. I. Knowing God [Conhecendo a Deus]. Illinois; IVP, 1973.

sábado, 27 de maio de 2017

O CULTO SEGUNDO DEUS: A MENSAGEM PARA A IGREJA DE HOJE [Introdução]


O livro do profeta Malaquias é perfeito para ser usado como base de mensagens sobre sua temática, a qual gira em torno do culto que se deve prestar a Deus conforme ele deseja. A razão principal disso — outras serão examinadas mais à frente — é que a profecia de Malaquias foi proferida e registrada em um contexto muito parecido com o que os evangélicos vivem hoje no Brasil. Em outras palavras, o livro, assim como os dias que hoje vivemos, situa-se em um contexto no qual adorar a Deus parece não fazer diferença visível na vida dos que o buscam constantemente nos locais de culto.

Ao longo da história, nem sempre ficou claro para os cristãos o privilégio que têm de adorar a Deus, ser-lhe leal e fazer sua vontade. Qual é o proveito de servir a Deus, cultuá-lo e dedicar tempo para honrá-lo? Vamos refletir sobre essa questão ao longo do estudo do livro de Malaquias.


1. O contexto histórico

As profecias de Malaquias foram proferidas em um tempo de profundo desânimo para o povo de Deus. Fazia cerca de cem anos que os judeus tinham regressado do cativeiro. Deus havia mandado o povo de Israel para o exílio, por volta de seiscentos ou quinhentos anos antes de Cristo, em razão da reiterada idolatria e falta de arrependimento. Para isso usou os babilônios, que levaram seu povo, a nação de Israel, cativa para a Mesopotâmia. Parte do povo foi para o Egito, outra se dispersou e muitos outros morreram. Durante setenta anos, o povo permaneceu cativo na Babilônia.

Tempos depois Deus o trouxe de volta à terra prometida. Esse período está registrado nos livros de Esdras e Neemias, dois homens levantados por Deus para liderar o retorno da nação à terra prometida. Porém, nem todos regressaram; parte do povo ficou na Babilônia; outra permaneceu no Egito. Mas um grande contingente voltou para a terra de Israel, a terra que fora prometida a Abraão, Isaque e Jacó.

Quando regressaram, os judeus pensavam ter chegado o tempo do cumprimento das grandes promessas que os profetas de Israel haviam feito. Isaías, Ezequiel e Jeremias profetizaram um tempo maravilhoso para o povo de Deus após a restauração, e o povo acreditava que aquele seria o tempo em que essas promessas se cumpririam.

Só que cem anos se passaram desde a volta do cativeiro, e as coisas não estavam acontecendo conforme a expectativa. Promessas tinham sido feitas, mas a realidade não estava de acordo com elas. Deus havia prometido renovar a aliança com seu povo, mas tudo continuava como antes. Por meio dos profetas o Senhor prometera uma grande restauração de seu povo na terra, mas somente parte dele retornara da Babilônia. Os profetas haviam mencionado um período de paz, mas eles ainda estavam cercados por inimigos. O povo continuava tendo problemas com as nações pagãs vizinhas. As promessas de renovação do culto a Deus não se concretizaram, uma vez que as celebrações no templo em Jerusalém eram caracterizadas pelo excesso de formalismo. O culto era vazio, superficial, como veremos no decorrer de nosso estudo. Os profetas tinham apontado para a continuidade da linhagem sacerdotal, mas os sacerdotes haviam se corrompido e estavam totalmente desmotivados.

Ezequiel falara da construção de um templo glorioso; todavia, o templo ora construído era menor que o de Salomão. Aquela nova era de um reino messiânico de paz de que os profetas tanto haviam falado parecia estar muito distante, pois os judeus continuavam sob o domínio dos persas, e a situação econômica era muito difícil. Eles passavam por grandes necessidades, eram oprimidos, pagavam pesados impostos e enfrentavam seca e escassez de coisas básicas. Novamente era tempo de esperar pelo cumprimento das antigas promessas.

Diante de tudo isso, o povo começou a desanimar. O amor pelas coisas de Deus foi pouco a pouco diminuindo, e o povo começou a se dispersar em busca de seus próprios interesses.

Os sacerdotes, que eram os responsáveis pelo culto, começaram a pensar como o mundo ao seu redor, a se tornar indignos, a deixar de fazer seu trabalho da maneira correta, em vez de zelar pela casa de Deus. Começaram a tolerar determinadas práticas no culto que eram contrárias à vontade de Deus, revelada na Lei de Moisés. Os cultos a Deus viraram mero formalismo, rituais mecânicos e sem vida. O coração do povo não estava mais neles. Cada um dava prioridade a seus assuntos pessoais, em vez de se dedicar a terminar a reconstrução do templo e prestar culto a Deus. Cada um investia em seu pedaço de chão, em sua moradia, em seu negócio e só dava a Deus o que sobrava. Era uma época de esfriamento do povo em relação a Deus.


2. O profeta

Nesse contexto surge o profeta Malaquias. Pouca coisa se sabe sobre ele. Há quem especule que ele era um levita, a julgar pelo zelo que demonstra pelo culto no templo. Todavia, não temos como provar essa suposição. Seu nome significa “mensageiro de Yahweh” (1.1). Existe uma discussão entre os estudiosos sobre “Malaquias” ser um título ou um nome próprio. As razões para se pensar que era um título são estas: 1) Nada sabemos sobre um profeta chamado Malaquias; 2) Malaquias pode significar também “meu mensageiro”, expressão que aparece em 3.1 em referência ao mensageiro de Deus que haverá de vir. Todavia, essas razões não são fortes o suficiente para sobrepujar o fato de que todos os livros proféticos foram escritos por profetas cujo nome está claramente identificado no início de seu livro. Malaquias, portanto, é o nome daquele profeta que Deus levantou no período final de Neemias para chamar o povo ao culto verdadeiro.

Não há certeza se ele profetizou durante o período de Esdras e Neemias, sendo, assim, contemporâneo de Ageu e Zacarias. A situação que ele denuncia é muito similar à descrita nos livros de Esdras e Neemias, bem como nos de Ageu e Zacarias — ou seja, uma situação de descaso para com as coisas de Deus, corrupção do clero, casamentos mistos e abusos por parte dos poderosos. No entanto, Malaquias menciona um “governador” (1.8) em sua época que não poderia ter sido Neemias, uma vez que este declara em seu livro que nunca aceitou esse posto (cf. Ne 5.15,18). Além disso, Malaquias pressupõe um templo já construído e terminado, onde os serviços regulares ocorriam semanalmente. Talvez, então, seja mais seguro situar Malaquias no período final de Neemias ou logo depois deste, ou seja, uma data em torno de 450 a 430 a.C.

Uma antiga tradição rabínica, conforme relatada por Jerônimo no século quarto, considera que Malaquias e Esdras são a mesma pessoa, atribuindo a este último a autoria do livro. Todavia, não há nenhum suporte textual para essa afirmação. Todos os manuscritos do livro de Malaquias fazem atribuição à sua autoria, nunca a Esdras. Além disso, nunca Malaquias é chamado de escriba, tampouco Esdras é chamado de profeta. Outras tradições atribuem o livro a Neemias ou a Zorobabel, mas sem fundamentação convincente.

Malaquias é uma voz solitária, que aparece para chamar ao arrependimento o povo da aliança, especialmente os sacerdotes. E por esse motivo que a profecia de Malaquias é tão relevante para nosso entendimento acerca do culto que agrada a Deus, pois sua mensagem é dirigida, em grande parte, aos sacerdotes, àqueles que eram responsáveis por manter o culto devido a Deus da maneira correta.

Nesse pequeno livro, o profeta chama os sacerdotes e o povo ao arrependimento. Sua mensagem afirma que o povo tinha de permanecer fiel a Deus, mesmo em tempos difíceis, e devia cultuá-lo e servi-lo independentemente das circunstâncias em que se encontrava. O povo de Deus deveria permanecer fiel e aguardar o tempo em que ele haveria de cumprir todas as suas promessas.

Mais tarde, o próprio Malaquias, ou alguém ligado a ele, registrou por escrito e organizou essas palavras dirigidas ao povo de Israel e a seus sacerdotes. Tais palavras, inspiradas por Deus, servem para a igreja de todas as épocas como uma orientação a respeito do culto segundo a vontade de Deus.


3. O livro

O livro pode ser dividido em oito partes. Cada uma delas trata do culto, embora enfocando diferentes aspectos relacionados à situação do povo. A maioria dessas oito partes segue a mesma estrutura: Deus faz uma declaração, o povo a questiona, e então Deus responde, refutando o argumento apresentado pelo povo. Esse padrão  — uma declaração de Deus, o questionamento do povo, seguido por uma resposta de Deus — aparece praticamente em todas as partes do livro.

Não há razão para duvidarmos de que essa estrutura reflita a maneira pela qual Malaquias de fato profetizou ao povo de Judá. Ele trazia uma palavra da parte de Deus ao povo. O povo, então, replicava — geralmente com desdém e incredulidade. Malaquias, então, falando em nome de Deus, explicava a razão pela qual ele havia feito tal declaração, respondendo ao questionamento cínico do povo.

Esse estilo dialógico de Malaquias o destaca dentre os demais profetas. Quem está familiarizado com Isaías, Jeremias, Ezequiel e Amós, por exemplo, pode estranhar o estilo de Malaquias. Nesses livros temos os profetas trazendo a palavra de Deus, ensinando o povo e declarando: Assim diz o Senhor”. Mas, em Malaquias, Deus, por meio do profeta, entra em diálogo com o povo. E isso que torna o livro de Malaquias distinto dos demais. Aqui o profeta serve de mediador em um diálogo entre Deus e o povo, no qual este questionava cada afirmação de Javé.

Os questionamentos do povo eram estes:
1. Deus nos ama?
2. Em que estamos profanando o culto a Deus?
3. Por que Deus não aceita nossa oferta?
4. Por que não aceita nossos sacerdotes?
5. Em que estamos desagradando a Deus?
6. Em que estamos roubando a Deus?
7. Em que estamos difamando a Deus?

A julgar por esses questionamentos, o povo de Israel parecia acreditar que não havia motivo para Deus enviar um profeta para questioná-los a respeito da vida que levavam ou a respeito do culto que ofereciam ao Senhor todos os sábados, no templo de Jerusalém. Assim, tem início um diálogo entre Deus e o povo, o que torna o livro de Malaquias, por sua estrutura, diferente dos livros dos demais profetas. O livro termina com a promessa do grande dia do Senhor, quando Deus irá definitivamente sanar toda dúvida e silenciar todo questionamento.

Malaquias é o último mensageiro inspirado por Deus no Antigo Testamento. E ele que anuncia a chegada do primeiro grande mensageiro do Novo Testamento, João Batista (4.5,6). Com João, teria início um novo tempo para o povo de Deus, tempo em que o Senhor será adorado por verdadeiros adoradores, no Espírito e em verdade.

Esta obra tratará dos princípios do culto a Deus, apresentados por Malaquias a um povo que não mais tinha ânimo para adorá-lo e que havia perdido a visão do culto verdadeiro. O objetivo desse estudo é que possamos entender esses princípios e aplicá-los aos nossos dias, pois, assim como nos dias de Malaquias, um reavivamento do culto bíblico hoje também se faz extremamente necessário.

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O Culto segundo Deus: A mensagem para a Igreja de hoje. Augustus Nicodemus Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2012. 156p.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

OSTENTAÇÃO NAS ESMOLAS E ORAÇÃO [Mateus 6.1-8]



1 Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste.
2 Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.
3 Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita;
4 para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
5 E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.
6 Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
7 E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos.
8 Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais.


Meus irmãos e amigos!

Neste segmento do Sermão da Montanha, o Senhor Jesus nos instruiu sobre duas questões. A primeira delas quanto a dar esmolas, a outra quanto à oração. Ambas eram questões às quais os judeus atri­buíam grande importância. Ambas, por si mesmas, merecem séria atenção de todos os que professam o cristianismo.

Vejamos primeiro a questão das ESMOLAS

2 Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.
3 Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita;
4 para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.


Observe que nosso Senhor toma como um ponto pacífico que todos os que se intitulam sem discípulos darão esmolas.

A esmola (literalmente – ato de misericórdia ou piedade) foi constituída no antigo Israel como um dever sagrado. Portanto, a ajuda ao necessitado é parte integrante da conduta ideal do povo de Deus.

Em Deuteronômio 15:11 – está escrito: Pois nunca deixará de haver pobre na terra; pelo que te ordeno, dizendo: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado, e para o teu pobre na tua terra.”

Jesus assume como natural que os crentes pensarão ser um dever solene dar esmolas de acordo com as suas possibilidades, a fim de aliviarem as necessidades dos outros. O único ponto de que Cristo aqui trata é a maneira como deveria ser cumprido esse dever. Esta é uma importante lição.

2 Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.

Ele con­dena a atitude de egoísmo mesquinho de tantas pessoas, quanto à questão de dar dinheiro. Quantos são “ricos para consigo mesmos”, mas são pobres para com Deus! Muitos jamais dão um centavo para fazer o bem ao corpo e a alma de outrem!

O apostolo Paulo escreveu sobre isso em 1 Timóteo 6:17-19:

Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos; Que façam bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente, e sejam comunicáveis; Que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam se apoderar da vida eterna.”

Será que tais pessoas, com esta mentalidade demoníaca, têm algum direito de serem chamados cristãos? Bem poderíamos du­vidar desse direito. Um Salvador sempre disposto a dar, deveria ter discípulos igualmente dispostos a contribuir.

Vejamos agora, como segundo ponto  a questão da ORAÇÃO

Observe, uma vez mais, que nosso Senhor toma por certo que todos quantos se intitulam seus discípulos serão pessoas de oração. 
5 E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.
6 Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
7 E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos.
8 Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais.

Ele assume que isto também é um ponto pacífico. Tão somente Ele nos dá orientações quanto à melhor maneira de orar. Esta é outra lição que merece ser continuamente lembrada. Está claramente ensinado que pes­soas que não oram não são cristãos genuínos. Não basta apenas participar nas orações da igreja, aos domingos, ou freqüentar as reuniões de oração durante a semana, na igreja ou em família. É preciso haver também a oração particular, a sós com Deus. Sem isso, podemos até estar ar­rolados como membros de alguma igreja cristã, mas não somos membros vivos de Cristo. 
6 Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

Entretanto, quais são as normas deixadas para nossa orientação a respeito de esmolas e oração? As regras são poucas e simples, mas contêm muito material para a nossa meditação.

Vejamos primeiro sobre as esmolas: Ao dar esmolas, tudo quanto seja ostentação deveria ser abo­minado e evitado. 
2 Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.

Não devemos dar como se desejássemos que todos vissem quão caridosos e liberais nós somos, como se quiséssemos re­ceber os elogios de nossos semelhantes. Tudo quanto pareça exibicio­nismo deve ser evitado. Devemos dar quietamente, fazendo tanto me­nos ruído quanto possível a respeito de nossa caridade. O nosso propósito deve acompanhar o espírito do versículo: 
3 Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita;
4 para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.


Vejamos agora sobre a Oração. - Ao orar, o nosso objetivo principal deveria ser o de estarmos a sós com Deus. Deveríamos procurar algum lugar onde nenhum olho mortal nos pudesse ver, para que então pudéssemos derramar o coração diante de Deus, com o sentimento de que ninguém nos está vendo, senão Deus.  
6 Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

Entretanto, esta é uma regra que muitas pessoas acham difícil seguir. Para os irmãos de condição mais humilde, e para os que tra­balham para outrem, é quase impossível estar realmente sozinhos. Porém, esta é norma que todos nós precisamos fazer um grande esforço para obedecer. A necessidade, em tais casos, com freqüência é a mãe da invenção. Quando uma pessoa tem o real desejo de encontrar um lugar onde possa estar em secreto com Deus, geralmente acabará por encon­trar tal lugar.
6 Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

Em todos os nossos deveres, seja dar esmolas ou orar, a questão funda­mental que nunca deveríamos esquecer, é que estamos tratando com um Deus que perscruta o coração e sabe todas as coisas.

Tudo quanto seja mera formalidade, afetação ou que não provenha do coração, é abominável e sem valor aos olhos de Deus. Ele não leva em conta a quantidade de dinheiro com que contribuímos, ou o número de palavras que usamos. O que realmente é importante aos olhos de Deus é a na­tureza dos motivos e o estado do coração. Nosso Pai celeste “vê em secreto”.

Que todos nós lembremos destas coisas. Eis aqui uma pedra que é a causa de naufrágio espiritual de muitas pessoas. Eles bajulam a si mesmos com o pensamento de que tudo deve estar certo com as suas almas, se ao menos desempenharem uma certa quantidade de deveres religiosos. Esquecem-se de que Deus não presta atenção na quantidade, e, sim, na qualidade do nosso serviço.

O favor divino não pode ser comprado, conforme alguns parecem supor, pela repetição formal de um certo número de palavras, ou por justiça própria, pagando alguma quantia em dinheiro para uma instituição de caridade.

Portanto, em que temos posto o coração? Estamos fazendo tudo, seja dar esmolas ou orar, “como ao Senhor, e não como a homens” (Ef 6.7)? Será que compreendemos o que realmente importa aos olhos do Senhor? Será que apenas e sim­plesmente desejamos agradar Àquele que “vê em secreto’ ’, Àquele que “pesa todos os feitos na balança” (1 Sm 2.3)? Estaremos agindo com sinceridade?

Com perguntas deste tipo é que deveríamos sondar diaria­mente as nossas almas.

Programa Evangélico Fome e Sede de Justiça
24/05/2017