segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

CURA DE DOIS CEGOS; JESUS SE COMPADECE DA MULTIDÃO E O DEVER DOS DISCÍPULOS [Mateus 9.27-38]



Partindo Jesus dali, seguiram-no dois cegos, clamando: Tem compaixão de nós, Filho de Davi! Tendo ele entrado em casa, aproximaram-se os cegos, e Jesus lhes perguntou: Credes que eu posso fazer isso? Responderam-lhe: Sim, Senhor! Então, lhes tocou os olhos, dizendo: Faça-se-vos conforme a vossa fé. E abriram-se-lhes os olhos. Jesus, porém, os advertiu severamente, dizendo: Acautelai-vos de que ninguém o saiba. Saindo eles, porém, divulgaram-lhe a fama por toda aquela terra. Ao retirarem-se eles, foi-lhe trazido um mudo endemoninhado. E, expelido o demônio, falou o mudo; e as multidões se admiravam, dizendo: Jamais se viu tal coisa em Israel! Mas os fariseus murmuravam: Pelo maioral dos demônios é que expele os demônios. E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades. Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor. E, então, se dirigiu a seus discípulos: A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara.” – Mateus 9.27-38.


Neste texto há quatro lições que merecem atenção especial. Va­mos examiná-las sucessivamente.


1. Primeira Lição - Antes de tudo, marquemos bem que, algumas vezes, uma fé po­derosa em Cristo pode ser encontrada onde menos se suspeitaria.

Quem poderia imaginar que dois cegos pudessem chamar nosso Senhor de “Fi­lho de Davi”? Naturalmente, eles não podem ter visto os milagres realizados por Jesus. Só podem ter tomado conhecimento dEle mediante o que outras pessoas lhes diziam. Porém, os olhos de seu entendimento foram iluminados, embora seus olhos físicos continuassem em trevas. E assim perceberam a verdade que os escribas e os fariseus não foram capazes de perceber. Compreenderam que Jesus de Nazaré era o Mes­sias. Creram que Ele podia curá-los.

Um exemplo assim mostra-nos que jamais deveríamos desespe­rar da salvação eterna de qualquer pessoa, somente porque tal pessoa vive em circunstâncias que são desfavoráveis à sua conversão. A graça divina é mais forte do que as circunstâncias.

A vida piedosa não de­pende meramente de condições vantajosas aparentes. O Espírito Santo pode proporcionar fé e mantê-la em ativo exercício, sem dinheiro ou educação formal, mas apenas utilizando-se de escassos meios de graça.

Sem o Espírito Santo, um homem pode conhecer todos os mistérios, e viver sob a plena influência do evangelho, e, ainda assim, estar per­dido.

Veremos cenas muito estranhas no último dia. Pessoas de condição humilde mostrarão terem crido no Filho de Davi, ao passo que homens ricos, cheios de erudição universitária, mostrarão ter vivido e morrido como os fariseus, na mais dura incredulidade. Muitos dos que agora são últimos, serão primeiros, e muitos dos que agora são primeiros, serão últimos (Mt 20.16).


2. Segunda Lição - A seguir destaquemos o fato que nosso Senhor Jesus Cristo tinha uma grande experiência com enfermidades e doenças.

Percorria Jesus todas as cidades e povoados”, fazendo o bem. Ele foi testemunha ocu­lar de todos os males herdados pela carne. Ele viu doenças de todo tipo, variedade e descrição. Entrou em contato com toda sorte de doenças e sofrimentos físicos. E, por mais repugnantes que fossem, não se sen­tiu repelido por ter que tratar com qualquer das pobres vítimas desses sofrimentos. Nenhuma doença era por demais repelente para Ele a cu­rar. Ele curava “toda sorte de doenças e enfermidades”.

Podemos obter grande consolo desse fato. Cada um de nós habita em um corpo débil e frágil. Nunca sabemos quanto sofrimento ainda precisaremos contemplar, enquanto nos assentamos à beira do leito de enfermidades de amigos e parentes queridos.

Nunca sabemos quantos sofrimentos teremos nós mesmos de passar, antes de morrermos. No entanto, armemo-nos, a todo instante, com o precioso pensamento que Jesus é especialmente apto para ser o Amigo dos doentes.

Este nosso grande Sumo Sacerdote, a quem devemos recorrer para termos perdão e paz com Deus, está tão eminentemente qualificado para se compa­decer de um corpo dolorido, como também para sarar uma consciência culpada. Os olhos dAquele que é o Rei dos reis muitas vezes se com­padeceram dos enfermos.

Este mundo pouco ou nada se importa com os doentes, e geralmente procura manter-se afastado. Mas o Senhor Jesus tem cuidado especial pelos enfermos. Ele é o primeiro a visitá-los e a dizer-lhes: “Eis que estou à porta e bato”. Felizes são aqueles que Lhe ouvem a voz e deixam-No entrar!


3. Terceira Lição - Assinalamos, em seguida, a tema preocupação de nosso Senhor pelas almas negligenciadas.

Quando estava neste mundo, Jesus viu ‘ ‘muitídões” que vagavam, como “ovelhas que não têm pastor”, e o seu coração moveu-se de compaixão. Ele as via negligenciadas por aqueles que, na época, deveriam ter sido seus mestres.

Ele via a uma multidão de pessoas ignorantes, sem esperança, desamparadas, morrendo sem estarem preparadas para morrer. Esta visão levou Jesus à profunda com­paixão. Aquele coração amoroso não podia ver essas coisas sem comover-se.

Quais são os nossos sentimentos, quando vemos pessoas nessa mesma condição?

Esta é a pergunta que deveria surgir em nossa mente. Há um grande número de pessoas nessas condições, que podemos ver por toda a parte. Há milhões de idólatras e pagãos na terra, milhões de iludidos islamitas, milhões de católicos supersticiosos romanos. Há também milhares de protestantes ignorantes, vivendo bem junto a nós.

Sentimo-nos grandemente preocupados com tais almas?
Sentimos pro­fundamente a carência espiritual dessas pessoas?
Ansiamos por vê-las aliviadas dessas carências?

Estas são perguntas sérias e que exigem res­posta. É fácil desprezar as missões aos pagãos, bem como aqueles que trabalham em favor dos incrédulos. Porém, quem não sente profunda­mente pela alma dos não convertidos, certamente não pode ter a mente de Cristo (1 Co 2.16).


4. Quarta e Última Lição - Destaquemos, em último lugar, que há um solene dever para to­dos os crentes, que desejam fazer o bem à porção ainda não-convertida da humanidade.

Eles são incumbidos de sempre orar para que o Senhor levante mais homens para o trabalho da conversão das almas. Parece mesmo que essa petição deve fazer parte das nossas orações diárias: “Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara”.

Se sabemos orar, tomemos como uma questão da consciência ja­mais nos esquecermos dessa solene incumbência que nos foi dada por nosso Senhor. Fixemos bem em nossa mente que esta é uma das mais seguras maneiras de se praticar o bem e refrear o mal. O trabalho pes­soal, em favor de almas, é bom. Contribuir com a obra missionária é bom.

Mas o melhor de tudo é orar. Pela oração alcançamos Aquele, sem o qual todo o trabalho e o dinheiro disponível são em vão. Me­diante a oração obtemos a ajuda do Espírito Santo. O dinheiro pode financiar. As universidades podem conferir erudição. As congregações podem eleger obreiros, e as autoridades eclesiásticas ordená-los. Po­rém, somente o Espírito Santo pode fazer os verdadeiros ministros do evangelho ou levantar obreiros leigos para a seara espiritual, obreiros que não têm de que se envergonhar. Nunca, jamais nos esqueçamos de que, se desejamos fazer o bem à humanidade, nosso primeiro dever é orar!

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O QUE JESUS BEBERIA - UM ESTUDO CHEIO DO ESPÍRITO. [Prefácio]



A Bíblia é um livro frustrante para muita gente. Muitas vezes ela diz e ensina coisas que preferiríamos não ouvir, e apresenta Deus sob aspectos desconcertantes para aqueles que gostariam de ser conhecidos por sua piedade. Mas, visto que o homem é um extraviado e anda em busca de muitos estratagemas e intrigas (Ec 7.29), desenvolvemos vários métodos para contornar este problema que a Bíblia cria. Nos círculos teológicos, as maneiras de fazer rodeio em torno do que as Escrituras realmente ensinam podem ser reduzidas a duas categorias amplas — a abordagem liberal, ou modernista, e a conservadora.


A abordagem liberal rejeita a autoridade prática da Escritura, mas às vezes é mais confiável quanto ao que o texto da Escritura realmente diz do que a abordagem conservadora. Isso é verdade, muito embora os conservadores sejam os que corajosamente professam que a “Bíblia é a inerrante Palavra de Deus, sem erro em tudo o que afirma”. A razão disso é, de fato, que a abordagem liberal não se entusiasma com a idéia de ter que viver com os resultados da exegese. O liberalismo é um modo de rejeição, reservando-se o direito de dizer que, conquanto a Bíblia ensine isto e aquilo, “nós crescemos, e tudo isso é passado para nós”. Por isso o liberal pode reconhecer que a Bíblia ensina uma doutrina particular, ou apresenta um particular exemplo, e depois sair dizendo: “Isso não é fantástico? Há, há, há!”

Por outro lado, o conservador tem que viver com as afirmações que a Bíblia faz. Se ele não quiser conviver com isso, se entrar em conflito com as suas tradições ou com as suas mais acarinhadas crenças, terá que se convencer de que a sua interpretação deixa de ter uma forma aceitável. Diversamente do liberal ou modernista, ele não tem a opção de reconhecer que Jesus bebia vinho, “mas sim que ele teria chegado a uma posição mais apropriada se sua vida não tivesse terminado tão tragicamente e tão depressa”.

É, pois, uma ironia que muitos conservadores, que lutam pela autoridade infalível da Escritura em todos os tópicos de que ela fala, simplesmente não querem nem pensar que a Bíblia consente na presença de uma garrafa âmbar de uísque Glenfiddich no escritório de um homem piedoso. Mas a Bíblia é favorável a isso (Dt 14.26), e minhas chances de conseguir que um exegeta liberal me diga o que o texto diz de fato sobre este ponto são melhores do que conseguir que um conservador abstinente o faça.

Ironicamente, muitos conservadores reconhecem mansamente como cordeiros que a Bíblia não proíbe bebida alcoólica (muito ao contrário), mas continuam dizendo que, por amor de um “bom testemunho”, ainda devemos renunciar a isso. Além dos problemas criados pelas tentativas de dar um testemunho melhor do que o que a Bíblia dá, há também a dificuldade causada pelo fato de que o abstinente acaba dando seu próprio tipo de mau testemunho. H. L. Mencken foi um dos principais escritores descrentes do século vinte, e para ele os abstinentes que criticam acidamente os que bebem não tinham nada de útil. Estes eram, em suma, um mau testemunho. Mas, em contraste, quando um tipo diferente de conservador, J. Gresham Machen, faleceu, Mencken teve isto para dizer:

Quando a imbecilidade da Proibição caiu sobre o país, e uma multidão de charlatães teológicos, inclusive não poucos eminentes presbiterianos procuraram ler no Novo Testamento apoio para essa lei, Machen os atacou com grande vigor, e os desbaratou facilmente. Ele não provou somente que não havia nada nos ensinos de Jesus que apoiasse tão monstruosa loucura; ele provou com farta argumentação que os conhecidos ensinos de Jesus eram inalteravelmente contra aquilo. E, tendo apresentado essa prova, ele se recusou, como cristão sincero, a ter coisa alguma que ver com a lei seca.[1]

Machen teve um bom testemunho (nos termos definidos biblicamente) porque esteve disposto a dizer o que a Bíblia diz. Ele queria estar ligado estreitamente ao texto, o que fez dele um verdadeiro conservador. A Bíblia não é uma tela em branco na qual poderíamos projetar os nossos desejos piedosos. A Bíblia é a Palavra de Deus revelada para nós, e, como cristãos batizados, é nossa responsabilidade submeter-nos a ela.

Como Machen, Joel McDurmon é meu tipo de crente conservador. Ele se dispõe a ir aonde a Bíblia diz que podemos ir, mesmo que seja o corredor de vinhos do supermercado. Ele se dispõe a sentar-se com os apóstolos para partilhar uma refeição, mesmo que o estabelecimento que serve o almoço tenha cerveja à venda. Ele se dispõe a beber o que a Bíblia diz que podemos beber. E neste livro ele faz um excelente trabalho, expondo diante de nós as razões escriturísticas para isso tudo. Ele começa onde todas as nossas lições sobre comer e beber deveriam começar, que é na Ceia do Senhor, e depois passa a discutir as palavras que o Espírito Santo escolheu para revelar a sua vontade sobre este assunto. Depois ele trata de algumas objeções comuns, que talvez você, leitor, provavelmente ouviu antes. Este livro é pequeno, mas há muita coisa aqui.

Uma vez eu li uma sentença casual, lançada a esmo — creio que foi uma linha final do email de alguém — uma sentença que se fixou todos estes anos, desde quando a li pela primeira vez. A declaração vai ao centro desta questão, e ilustra por que livros como este pequeno volume são tão importantes. A breve linha dizia o seguinte: “Se o seu pastor diz que o vinho na Bíblia era suco de uva, como você pode confiar em qualquer coisa que ele diga?”

Este livro é excelente, e eu o recomendo a você.

Douglas Wilson.

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MCDURMON, Joel. O que Jesus Beberia? - Um Estudo Cheio do Espírito. Editora Monergismo (Ebook Kindle)

[1] O obituário de H. L. Mencken sobre J. Gresham Machen.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

EVANGELHO DE JOÃO - UMA INTRODUÇÃO


INTRODUÇÃO

O Evangelho de João, é livro mais importante da história. Steven Lawson chama-o de o monte Everest da teologia, o mais teológico dos evangelhos.[1] Charles Erdman o considera o mais conhecido e o mais amado livro da Bíblia. Provavelmente, é a mais importante peça da literatura que há no mundo.[2] Para William Hendriksen, o evangelho de João é o livro mais maravilhoso já escrito.[3] Lawrence Richards o descreve como “o evangelho universal”.[4]

Mateus apresentou Jesus como Rei, Marcos como servo e Lucas como homem perfeito. João, por sua vez, apresenta Jesus como Deus.


1. QUEM FOI O AUTOR E COMO A BÍBLIA O IDENTIFICA

Junto com Pedro e Tiago, João formou o grupo mais íntimo dos três discípulos que estiveram com Jesus na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5.37), na transfiguração (Mc 9.2) e na sua angústia no jardim de Getsêmani (Mc 14.33). 

Dos três, João era o mais íntimo de Jesus. Ele é conhecido como o discípulo amado (13.23). Foi João quem se inclinou sobre o peito de seu mestre durante a ceia pascal; foi ele quem acompanhou seu Senhor ao julgamento, quando os demais discípulos fugiram (Jo 18.15).[5] 

De todos os apóstolos, foi ele o único que esteve ao pé da cruz para receber a mensagem do Senhor antes de expirar (19.25-27) e cuidou de Maria, após a morte de Jesus (19.27). Depois da ascensão de Cristo, João tornou-se um dos grandes líderes da igreja de Jerusalém (At 1.13; 3.111; 4.13-21; 8.14; G12.9).

De acordo com a tradição, João mudou-se para Éfeso, capital da Ásia Menor, onde viveu os últimos anos de sua vida, como líder da igreja na região. Foi banido para a ilha de Patmos, no governo de Domiciano, onde escreveu o livro de Apocalipse. Com a ascensão de Nerva, João recebeu permissão para retornar a Éfeso, onde morreu aos 98 anos, no início do reinado de Trajano (98-117). João foi o único apóstolo de Jesus que teve morte natural. Os demais morreram pelo viés do martírio, João 21.22-23


2. A TEOLOGIA DO EVANGELHO DE JOÃO

Bruce Milne afirma corretamente que o evangelho de João é explicitamente o mais teológico dos quatro evangelhos.[6] 

Desde o prólogo, João antecipa o conteúdo de todo o seu evangelho, mostrando-nos que Jesus é o Verbo eterno, pessoal e divino. Aquele que tem vida em si mesmo é o criador do universo. 

Sem descrever o nascimento de Jesus e sua infância, João apenas nos informa que o Verbo divino se fez carne e habitou entre nós.

Sete vezes em João, Jesus emprega a gloriosa expressão “Eu Sou”, a mesma revelada por Deus a Moisés no Sinai.

Eu sou o pão da vida (6.35,48)
Eu sou a luz do mundo (8.12)
Eu sou a porta das ovelhas (10.7,9)
Eu sou o bom pastor (10.11)
Eu sou a ressurreição e a vida (11.25)
Eu sou o caminho, a verdade e a vida (14.6)
Eu sou a videira verdadeira (15.1,5).

Além dessas declarações diretas, Gundry ressalta aquelas que envolvem a expressão “Eu Sou”, que sugerem a reivindicação de ser ele o eterno Eu Sou — o Iavé do Antigo Testamento (4.25,26; 8.24,28,58; 13.19).[7]


3. O EVANGELHO DE JOÃO E AS DOUTRINAS DA GRAÇA

De acordo com Steven Lawson, as grandes doutrinas da graça são fortemente apresentadas pelo apóstolo João nesse evangelho.[8] 

A DEPRAVAÇÃO TOTAL é amplamente explorada, pois o homem sem Deus está:
a) Cego (3.3)
b) Alienado (3.5),
c) Incapaz (6.44)
d) Escravo (8.34)
e) Surdo (8.43-47)
f) Tomado de ódio por Deus (15.23).

A ELEIÇÃO INCONDICIONAL é igualmente tratada, pois é:
a) Deus quem escolhe (6.37-39).
b) Deus nos escolheu do mundo (15.19),
c) Os eleitos são dados pelo Pai a Jesus (17.9).

A EXPIAÇÃO EFICAZ É CLARA, pois:
a) Cristo morreu por suas ovelhas (10.14,15)
b) Cristo dá a vida eterna a todos os que o Pai lhe deu (17.1,2,9,19).

A GRAÇA IRRESISTÍVEL é acentuada, uma vez que o novo nascimento e:
a) Obra soberana do Espírito (3.3-8)
b) Os mortos espirituais ouvem a voz de Jesus e vivem (5.23; 6.63),
c) Todos aqueles que o Pai dá a Jesus são atraídos irresistivelmente (6.37,44,65)
d) Convocados individualmente (10.1-5,8,27).

A PERSEVERANÇA DOS SANTOS é claramente ensinada, pois:
a) Os que creem recebem vida eterna (3.15),
b) Tem salvação eterna (3.16),
c) Gozam de satisfação eterna (4.14),
d) Recebem proteção eterna (6.38-44),
e) Tem segurança eterna (10.2730),
f) Tem sustentação eterna (6.51,58),
g) Possui duração eterna (11.25,26)
h) visão eterna (17.24).


CONCLUSÃO

O evangelho de João, como uma águia, voa nas alturas excelsas. Atinge os cumes mais altos da revelação bíblica, penetra pelos umbrais da eternidade e traz para o palco da História as verdades mais estonteantes e gloriosas. Mostra com eloquência singular como o transcendente torna-se imanente, como o infinito entra nos limites do finito, como o eterno invade o tempo e como Deus veste pele humana para habitar entre nós.

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[1] LAWSON, Steven J. Fundamentos da graça. São José dos Campos: Fiel, 2012, p. 383.
[2] ERDMAN, Charles. O evangelho de João. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1965, p. 11.
[3] HENDRIKSEN, William. João. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 13.
[4] RICHARDS, Lawrence O. Comentário histórico-cultural do Novo 'Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 192.
[5] PEARLMAN, Myer. Através da Bíblia. Miami: Vida, 1987, p. 215.
[6] MILNE, Bruce. The Message of John, p. 25.
[7] GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento, p. 114.
[8] LAWSON, Steven J. Fundamentes da graça, p. 383-434.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

JOÃO - AS GLÓRIAS DO FILHO DE DEUS [Introdução]



Precisamos tirar as sandálias dos nossos pés. O território no qual vamos caminhar doravante é terra santa. O evangelho de João é o santo dos santos de toda a revelação bíblica. E o livro mais importante da história. Steven Lawson chama-o de o monte Everest da teologia, o mais teológico dos evangelhos.[1] Charles Erdman o considera o mais conhecido e o mais amado livro da Bíblia. Provavelmente, é a mais importante peça da literatura que há no mundo.[2] Para William Hendriksen, o evangelho de João é o livro mais maravilhoso já escrito.[3] Lawrence Richards o descreve como “o evangelho universal”.[4]

Mateus apresentou Jesus como Rei, Marcos como servo e Lucas como homem perfeito. João, por sua vez, apresenta Jesus como Deus. Os tres primeiros evangelhos são chamados sinóticos porque têm grandes semelhanças entre si. João, porém, distingue- se dos demais em seu conteúdo, estilo e propósito.

Charles Swindoll diz que não temos quatro evangelhos; temos apenas um evangelho, escrito de quatro pontos de vista diferentes. Temos uma biografia elaborada por quatro testemunhas, cada escritor provendo uma perspectiva peculiar.[5] Nessa mesma linha de pensamento, Andreas Kostenberger afirma: “Os quatro evangelhos bíblicos apresentam o único evangelho da salvação em Jesus Cristo, segundo quatro testemunhas importantes: Mateus, Marcos, Lucas e João”.[6]


Destacaremos a seguir alguns pontos importantes para uma introdução ao livro.


O AUTOR

Embora os quatro evangelhos sejam anônimos, ou seja, não tragam o nome de seu autor, há inconfundíveis e irrefutáveis evidências internas e externas de que esse evangelho foi escrito pelo apóstolo João, irmão de Tiago, filho de Zebedeu, empresário de pesca do mar da Galileia. Sua mãe era Salomé (Mc 15.40; Mt 27.56), a qual contribuiu financeiramente com o ministério de Jesus (Mt 27.55,56) e pode ter sido irmã de Maria, mãe de Jesus (Jo 19.25). Se essa interpretação for verdadeira, então João e Jesus eram primos.[7] Sem apresentar seu nome, o autor se identifica como testemunha, em sua conclusão do evangelho: E é esse o discípulo que dá testemunho dessas coisas e que as escreveu (21.24).

Junto com Pedro e Tiago, João formou o grupo mais íntimo dos três discípulos que estiveram com Jesus na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5.37), na transfiguração (Mc 9.2) e na sua angústia no jardim de Getsêmani (Mc 14.33). Dos três, João era o mais íntimo de Jesus. Ele é conhecido como o discípulo amado (13.23). Foi João quem se inclinou sobre o peito de seu mestre durante a ceia pascal; foi ele quem acompanhou seu Senhor ao julgamento, quando os demais discípulos fugiram (Jo 18.15).[8] De todos os apóstolos, foi ele o único que esteve ao pé da cruz para receber a mensagem do Senhor antes de expirar (19.25-27) e cuidou de Maria, após a morte de Jesus (19.27). Depois da ascensão de Cristo, João tornou-se um dos grandes líderes da igreja de Jerusalém (At 1.13; 3.1-11; 4.13-21; 8.14; Gl 2.9).

De acordo com a tradição, João mudou-se para Éfeso, capital da Ásia Menor, onde viveu os últimos anos de sua vida, como líder da igreja na região. Foi banido para a ilha de Patmos, no governo de Domiciano, onde escreveu o livro de Apocalipse. Com a ascensão de Nerva, João recebeu permissão para retornar a Éfeso, onde morreu aos 98 anos, no início do reinado de Trajano (98-117). João foi o único apóstolo de Jesus que teve morte natural. Os demais morreram pelo viés do martírio.

A antiga literatura patrística faz referências ocasionais ao apóstolo, deixando evidente que ele era morador de Éfeso. Westcott cita Jerônimo, que relatou: “Permanecendo em Éfeso até uma idade avançada - podendo ser transportado para a igreja apenas nos braços de seus discípulos, e incapaz de pronunciar muitas palavras —, João costumava dizer não muito mais do que: Filhinhos, amai-vos uns aos outros. Por fim, os discípulos que ali estavam, cansados de ouvir sempre as mesmas palavras, perguntaram: - Mestre, por que sempre dizes isto? — É o mandamento do Senhor – foi a sua digna resposta - e, se apenas isto for feito, será o suficiente”.[9]

F. F. Bruce diz que a evidência interna da autoria joanina para esse evangelho decorre do fato de que ele foi escrito: a) por um judeu palestino; b) por uma testemunha ocular; c) pelo discípulo que Jesus amava; d) por João, filho de Zebedeu.[10]

Tanto João quanto seu irmão Tiago foram chamados de filhos do trovão, possivelmente por causa de seu temperamento impetuoso. Eles queriam que fogo do céu caísse sobre os samaritanos que se recusaram a hospedar Jesus (Lc 9.54). Foi João quem relatou como ele e seus amigos tentaram impedir um homem de expulsar demônios em nome de Jesus, porque o tal não fazia parte de seu grupo (Lc 9.49). Certa feita, João e Tiago tentaram tirar vantagens de seu relacionamento mais próximo com Jesus, cobiçando um lugar de honra em seu reino futuro (Mc 10.35-45).

Na mesa da ceia (13.24), no túmulo vazio (20.2-10) e à beira do lago (21.7,20), João é associado de maneira especial com Pedro. Essa associação continua em vários episódios registrados no livro de Atos (At 3.1-23; 8.15-25). O apóstolo Paulo chama Pedro, Tiago (irmão do Senhor) e João de colunas da igreja de Jerusalém (G1 2.9).

Pais da igreja como Papias, Irineu, Eusébio, Tertuliano, Clemente de Alexandria, dentre outros, deram amplo testemunho da autoria joanina para esse evangelho. O Cânon muratoriano, do segundo século d.C., também atribui esse evangelho a João.[11] F. F. Bruce escreve: “No fim do segundo século, o evangelho de João era reconhecido normalmente nas igrejas cristãs como um dos evangelhos canônicos. Nossa principal testemunha desse período é Irineu, que veio de sua terra natal, na província da Ásia, pouco depois de 177 d.C, para se tornar bispo de Lion”.[12] Irineu era discípulo de Policarpo, que por sua vez era discípulo de João. Irineu tinha plena convicção tanto da autoria joanina como da canonicidade desse evangelho.

Os críticos, besuntados de soberba intelectual e dominados pelo ceticismo, questionam a autoria joanina desse evangelho; no entanto, as robustas evidências, tanto internas como externas, confirmam que o apóstolo João, o discípulo amado, foi seu autor.


OS DESTINATÁRIOS

Mateus escreveu precipuamente para os judeus; Marcos, principalmente para os romanos; e Lucas, especialmente para os gregos. O evangelho de João, porém, é endereçado ao público geral, a judeus e gentios. O escopo desse evangelho possui abrangência universal.

Concordo com Joseph Mayfield no sentido de que os primeiros leitores do quarto evangelho provavelmente eram cristãos da segunda ou terceira geração. O que sabiam sobre a vida, o ministério, a morte e a ressurreição de Jesus aprenderam ou de ouvir falar, ou por meio da leitura dos primeiros relatos cristãos.[13]


LOCAL E DATA

É consenso entre os estudiosos conservadores, estribados nas evidências históricas, que João escreveu esse evangelho da cidade de Éfeso, capital da Ásia Menor, onde morou por longos anos, pastoreou a maior igreja gentílica da época, liderou as igrejas da região e morreu já em avançada velhice, nos dias do imperador Trajano.

Não podemos afirmar a data precisa em que esse evangelho foi escrito; todavia, há fortes evidências de que tenha sido entre os anos 80 e 96 d.C. Para E E Bruce, “parece provável que o evangelho foi publicado na província da Ásia uns sessenta anos depois dos acontecimentos que narra”. [14]


PROPÓSITO

O evangelho de João tem um propósito específico: apresentar Jesus como o Verbo divino que se fez carne, o criador do universo, revelador do Pai, o Salvador do mundo, por meio de quem recebemos, pela fé, a vida eterna (20.30,31). Concordo com John MacArthur quando ele diz que o objetivo de João era tanto apologético, “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, como evangelístico, e que crendo tenhais vida em seu nome” (20.31).[15]

O propósito de João nos capítulos 1-12 é apresentar o ministério público de Jesus e, nos capítulos 13-21, apresentar seu ministério privado. Os capítulos 1-12 abrangem um período de três anos; os capítulos 13-21, exceto o capítulo 21, abrangem um período apenas de quatro dias. A primeira parte do livro enfatiza os milagres de Jesus, enquanto a segunda parte recorda os discursos feitos aos seus discípulos.

E. E. Bruce diz com acerto que todo o evangelho enfatiza que Jesus é o Filho eterno do Pai, enviado ao mundo para sua salvação.[16] Gundry declara que, acima de qualquer consideração, João é o evangelho da fé. De fato, o verbo “crer” é a palavra-chave do presente evangelho.[17] A palavra grega pisteuo, traduzida por “crer”, aparece 98 vezes no evangelho de João. Mas o que significa “crer”? Não se trata apenas de um assentimento intelectual acerca de Jesus. Significa confessar a verdade como verdade; e mais: significa confiar. Crer em Jesus, portanto, é colocar plena confiança nele como Salvador.[18] Isso quer dizer que devemos colocar nossa confiança nele, e não apenas em sua mensagem.


PECULIARIDADES

João não aborda os principais temas abordados nos Evangelhos Sinóticos, mas, por outro lado, traz uma gama enorme de material que nem sequer foi mencionado nos outros três evangelhos.

Diferentemente dos evangelistas sinóticos, João não trata da vida e do ministério de Jesus, nem faz um acompanhamento minucioso de sua trajetória na Galileia e Pereia. Não registra as parábolas nem as muitas curas operadas por Jesus. Antes, foca sua atenção em provar que Jesus é o Filho de Deus e que, crendo nele, recebemos a vida eterna.

Os quatro evangelhos conjugam as histórias narrativas de Jesus com os discursos, mas João enfatiza mais os discursos. João não traz as parábolas nem menciona o discurso escatológico. Não há nenhum episódio de expulsão de demônios e nenhum relato de cura de leprosos. Não encontramos nesse evangelho a lista dos doze apóstolos nem a instituição da ceia. João não faz referência ao nascimento de Jesus, a seu batismo, transfiguração, tentação, agonia no Getsêmani nem à sua ascensão. Na verdade, cerca de 90% desse evangelho não é encontrado nos Sinóticos.[19]

A vasta maioria do conteúdo do evangelho de João é peculiar a esse livro, como mostra a descrição do Cristo preexistente e sua encarnação (1.1-18), o milagre na festa de casamento (2.1-11), a conversa com Nicodemos sobre o novo nascimento (3.1-21), seu encontro com a mulher samaritana (4.1-42), a cura do paralítico no tanque de Betesda (5.1-15), o discurso sobre o pão da vida (6.2271), a reivindicação de ser a água da vida (7.37-39), a apresentação de si mesmo como o bom pastor (10.1-39), a ressurreição de Lázaro (11.1-46), o lava-pés (13.1-15), o discurso do cenáculo (13-16), a Oração Sacerdotal (17.124), a pesca milagrosa depois da ressurreição (21.1-6) e a restauração e recondução de Pedro ao ministério (21.1519). João, outrossim, dá maior ênfase à pessoa e obra do Espírito Santo do que os demais evangelistas.[20]


ÊNFASES

Bruce Milne afirma corretamente que o evangelho de João é explicitamente o mais teológico dos quatro evangelhos.[21] Desde o prólogo, João antecipa o conteúdo de todo o seu evangelho, mostrando-nos que Jesus é o Verbo eterno, pessoal e divino. Aquele que tem vida em si mesmo é o criador do universo. Sem descrever o nascimento de Jesus e sua infância, João apenas nos informa que o Verbo divino se fez carne e habitou entre nós.

Sete vezes em João, Jesus emprega a gloriosa expressão “Eu Sou”, a mesma revelada por Deus a Moisés no Sinai.
Eu sou o pão da vida (6.35,48)
Eu sou a luz do mundo (8.12)
Eu sou a porta das ovelhas (10.7,9)
Eu sou o bom pastor (10.11)
Eu sou a ressurreição e a vida (11.25)
Eu sou o caminho, a verdade e a vida (14.6)
Eu sou a videira verdadeira (15.1,5).

Além dessas declarações diretas, Gundry ressalta aquelas que envolvem a expressão “Eu Sou”, que sugerem a reivindicação de ser ele o eterno Eu Sou — o Iavé do Antigo Testamento (4.25,26; 8.24,28,58; 13.19).[22] Destacaremos, agora, algumas das principais ênfases desse evangelho.

Primeiro, a natureza e os atributos de Deus (1.1418; 3.16; 4.24; 5.19-23; 6.45-46; 8.16-19; 10.27-30,3438; 12.27,28,49,50; 13.3; 14.6-10; 16.5-15,27,28; 17.11; 20.20-22).

Segundo, a humanidade, a queda e a redenção (2.24,25; 3.3-8,19-21,36; 5.40; 6.35,53-57; 7.37-39; 8.12,31-47; 10.27-29; 11.25,26; 14.17; 15.1-8,18-25; 16.3,8; 17.2,3,69; 20.22,31).

Terceiro, a pessoa e a obra de Cristo (1.29,51; 2.19; 3.14,34; 4.22,42; 5.25,28; 6.33,40,44,51,53,62; 10.9,11,15; 12.24,32; 13.8; 14.3,18; 16.33; 17.2; 18.14,36; 20.1-21.14).

Quarto, a pessoa e a obra do Espírito Santo (1.13,32; 3.5; 4.24; 6.63; 7.39; 14.16,26; 15.26; 16.7-15; 19.34; 20.22).

Quinto, a vida do novo mundo (3.15,36; 4.14; 5.24; 6.27,37,39,47,51,58; 8.24,51; 10.28; 11.25; 12.25; 14.2).

Sexto, a divindade de Cristo (1.1,14,18,49;2.11,19; 3.3,13,18,19,31,34;5.17,22,26,28; 6.20,27,33,35,38,45,54,69; 7.28; 8.12,16,23,28,42,55,58; 9.5; 10.7,11,14,18,30,38; 14.4,25,27,44; 14.1,6,9,14; 16.7,15,23,28; 17.5,10,24,26; 18.5; 20.1-21,25; 20.28).

Sétimo, a humanidade de Cristo (1.14; 4.6; 6.42; 8.6; 11.33,35,38; 12.27; 19.5,30,31-42).

Oitavo, a soberania de Deus na salvação. De acordo com Steven Lawson, as grandes doutrinas da graça são fortemente apresentadas pelo apóstolo João nesse evangelho.[23] A depravação total é amplamente explorada, pois o homem sem Deus está cego (3.3) e alienado (3.5), incapaz (6.44), escravo (8.34), surdo (8.43-47) e tomado de ódio por Deus (15.23). A eleição incondicional é igualmente tratada, pois é Deus quem escolhe (6.37-39). Deus nos escolheu do mundo (15.19), e os eleitos são dados pelo Pai a Jesus (17.9). A expiação eficaz é clara, pois Cristo morreu por suas ovelhas (10.14,15) e dá a vida eterna a todos os que o Pai lhe deu (17.1,2,9,19). A graça irresistível é acentuada, uma vez que o novo nascimento e obra soberana do Espírito (3.3-8), os mortos espirituais ouvem a voz de Jesus e vivem (5.23; 6.63), e todos aqueles que o Pai dá a Jesus são atraídos irresistivelmente (6.37,44,65) e convocados individualmente (10.1-5,8,27). A perseverança dos santos é claramente ensinada, pois os que creem recebem vida eterna (3.15), salvação eterna (3.16), satisfação eterna (4.14), proteção eterna (6.38-44), segurança eterna (10.2730), sustentação eterna (6.51,58), duração eterna (11.25,26) e visão eterna (17.24).

__________________
LOPES, Hernandes Dias, As glória do Filho de Deus - Comentários Expositivos Hagnos. São Paulo: Hagnos, 2015. 516p.

[1] LAWSON, Steven J. Fundamentos da graça. São José dos Campos: Fiel, 2012, p. 383.
[2] ERDMAN, Charles. O evangelho de João. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1965, p. 11.
[3] HENDRIKSEN, William. João. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 13.
[4] RICHARDS, Lawrence O. Comentário histórico-cultural do Novo 'Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 192.
[5] SWINDOLL, Charles R. Insights on John. Grand Rapids: Zondervan, 2010, p. 15.
[6] KOSTENBERGER, Andreas J.; Patterson, Richard D. Convite à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 205.
[7] MACARTHUR, John. The MacArthur New Testament Commentary —John 1-11. Chicago: Moody Publishers, 2006, p. 7-8.
[8] PEARLMAN, Myer. Através da Bíblia. Miami: Vida, 1987, p. 215.
[9] WESTCOTT, B. F. The Gospel According to St. John. London: John Murray, 1908, p. 34.
[10] BRUCE, F. F. João: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 11.
[11] MILNE, Bruce. The Message of John. Downers Grove: Inter Varsity Press, 1993, p. 18
[12] BRUCE, F. F. João: introdução e comentário, p. 22.
[13] MAYFIELD, Joseph H. O evangelho segundo João. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 7. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 21.
[14] BRUCE, F. F. João: introdução e comentário, p. 12.
[15] MACARTHUR, John. The MacArthur New Testament Commentary — John 1-11, p. 9.
[16] BRUCE, F. F. João: introdução e comentário, p. 26.
[17] GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1978, p. 113.
[18] SWINDOLL, Charles R. Insights on John, p. 17.
[19] MACARTHUR, John. The MacArthur New Testament Commentary — John 1-11, p. 1.
[20] Ibid., p. 2.
[21] MILNE, Bruce. The Message of John, p. 25.
[22] GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento, p. 114.
[23] LAWSON, Steven J. Fundamentes da graça, p. 383-434.


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

VINHO NOVO E ODRES NOVOS E A RESSURREIÇÃO DA FILHA DE JAIRO [Mateus 9.14-26]


Vieram, depois, os discípulos de João e lhe perguntaram: Por que jejuamos nós, e os fariseus muitas vezes, e teus discípulos não jejuam? Respondeu-lhes Jesus: Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar. Ninguém põe remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo tira parte da veste, e fica maior a rotura. Nem se põe vinho novo em odres velhos; do contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho, e os odres se perdem. Mas põe-se vinho novo em odres novos, e ambos se conservam. Enquanto estas coisas lhes dizia, eis que um chefe, aproximando-se, o adorou e disse: Minha filha faleceu agora mesmo; mas vem, impõe a mão sobre ela, e viverá. E Jesus, levantando-se, o seguia, e também os seus discípulos. E eis que uma mulher, que durante doze anos vinha padecendo de uma hemorragia, veio por trás dele e lhe tocou na orla da veste; porque dizia consigo mesma: Se eu apenas lhe tocar a veste, ficarei curada. E Jesus, voltando-se e vendo-a, disse: Tem bom ânimo, filha, a tua fé te salvou. E, desde aquele instante, a mulher ficou sã. Tendo Jesus chegado à casa do chefe e vendo os tocadores de flauta e o povo em alvoroço, disse: Retirai-vos, porque não está morta a menina, mas dorme. E riam-se dele. Mas, afastado o povo, entrou Jesus, tomou a menina pela mão, e ela se levantou. E a fama deste acontecimento correu por toda aquela terra.” Mateus 9.14-26.


Meus irmãos e amigos

Observemos, nesta passagem, o gracioso nome pelo qual o Se­nhor Jesus fala de si mesmo. Ele chama a si mesmo de “o noivo”.

15 Respondeu-lhes Jesus: Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar.

O que o noivo representa para a sua noiva, o Senhor Jesus re­presenta para as almas de todos os que nEle crêem. Ele os ama com amor profundo e eterno. Ele os toma para que vivam em união consigo mesmo. Eles são um em Cristo, e Cristo une-se a eles. Ele paga todos os débitos deles para com Deus. Ele lhes supre todas as necessidades diárias. Ele simpatiza com eles em todas as dificuldades. Ele suporta com paciência todas as infirmezas deles, e não os rejeita por causa de algumas poucas fraquezas. Ele os considera parte de si mesmo. Os que perseguem e prejudicam os discípulos de Cristo, estão perseguindo a Ele mesmo. A glória que recebeu da parte do Pai, um dia Ele haverá de compartilhar com seus remidos e, onde Ele estiver, ali estarão também eles.

Tais são os privilégios de todos os verdadeiros cristãos. Eles são a noiva do Cordeiro (Ap 19.7).

Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou

Essa é a porção à qual a fé dá acesso. Por meio desta fé, Deus une as nossas pobres almas pecaminosas a um precioso Noivo e, aqueles a quem Deus assim une, jamais serão sepa­rados. Verdadeiramente abençoados são os que crêem!


Em segundo lugar, observemos como é sábio o princípio que o Senhor estabelece para o tratamento de seus novos discípulos. Houve alguns que acharam errado o fato de os seguidores de Nosso Senhor não jejuarem, como faziam os discípulos de João Batista.
  
14 Vieram, depois, os discípulos de João e lhe perguntaram: Por que jejuamos nós, e os fariseus muitas vezes, e teus discípulos não jejuam?
15 Respondeu-lhes Jesus: Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar.
16 Ninguém põe remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo tira parte da veste, e fica maior a rotura.
17 Nem se põe vinho novo em odres velhos; do contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho, e os odres se perdem. Mas põe-se vinho novo em odres novos, e ambos se conservam.


Nosso Senhor defende seus discípulos com um argumento cheio de profunda sabedo­ria. Ele mostra que o jejum não seria apropriado, enquanto Ele, que era o Noivo, estivesse em companhia deles. Mas isso não é tudo. Jesus vai mais além, a fim de mostrar, mediante duas parábolas, que os jo­vens principiantes na escola do cristianismo, devem ser tratados com gentileza. Eles precisam ser ensinados gradativamente, conforme o possam suportar. Não podemos esperar que possam receber tudo de uma vez. Negligenciar esta regra seria uma tolice tão grande quanto guardar “vinho novo em odres velhos”, ou pôr “remendo de pano novo em vestido velho”.

Nisto há uma fonte de profunda sabedoria, que todos faríamos bem em relembrar, para o ensino espiritual dos que têm pouca expe­riência. Devemos ter o cuidado de não pôr excessiva importância às questões secundárias da religião. Não devemos nos apressar em exigir imediata conformidade a uma norma rígida quanto a coisas indiferen­tes, enquanto os princípios elementares do arrependimento e da fé não tiverem sido devidamente apreendidos.

Devemos orar por graça e bom senso cristão para nos guiarem neste assunto. O tato no relacionamento com os novos discípulos de Cristo é um dom raro, mas muito provei­toso. Saber sobre o que devemos insistir desde o princípio, como absolutamente necessário, e o que reservar para o futuro, qüando o discípulo tiver alcançado um conhecimento mais perfeito, é uma das maiores qualificações de um instrutor de almas.

Em seguida, observemos quanto encorajamento nosso Senhor dá, mesmo até mais humilde.

18 Enquanto estas coisas lhes dizia, eis que um chefe, aproximando-se, o adorou e disse: Minha filha faleceu agora mesmo; mas vem, impõe a mão sobre ela, e viverá. 19 E Jesus, levantando-se, o seguia, e também os seus discípulos.
20 E eis que uma mulher, que durante doze anos vinha padecendo de uma hemorragia, veio por trás dele e lhe tocou na orla da veste;
21 porque dizia consigo mesma: Se eu apenas lhe tocar a veste, ficarei curada.
22 E Jesus, voltando-se e vendo-a, disse: Tem bom ânimo, filha, a tua fé te salvou. E, desde aquele instante, a mulher ficou sã.


Nesta passagem, lemos que certa mulher, afligida por uma grave enfermidade, veio por detrás do Senhor Jesus, em meio à multidão, e Lhe tocou “na orla da veste”, na esperança de que, se assim o fizesse, seria curada do seu flagelo. A mulher não pro­feriu uma palavra, pedindo auxílio. Ela não fez qualquer pública confissão de fé. E, no entanto, confiava que, se ao menos tocasse nas vestes de Jesus, ficaria curada. Foi o que sucedeu. Oculta naquele seu ato havia uma preciosa semente de fé em Jesus, elogiada por nosso Senhor. A mulher foi curada instantaneamente, e voltou para casa em paz. Nas palavras de um antigo escritor: “Veio em tremores, mas saiu em triunfo”.

Guardemos na mente esta história. Ela pode nos ajudar podero­samente em alguma hora de necessidade. Nossa fé talvez seja fraca. Nossa coragem pode ser pequena. A nossa apreensão do evangelho e de suas promessas talvez seja frágil e estremecida. Porém, a grande pergunta, afinal, é esta: “Na realidade confiamos somente em Cristo? Olhamos para Jesus, e somente para Jesus para receber perdão e paz?” Se assim acontece conosco, isso é bom sinal. Embora não possamos tocar nas suas vestes, podemos tocar no coração de Jesus. Uma fé as­sim salva a alma. A fé fraca é menos consoladora do que a fé vigorosa. A fé fraca irá nos levar para o céu com muito menos regozijo do que teríamos se tivéssemos a total confiança. Mas a fé, embora fraca, dá­-nos os benefícios de Cristo, tanto quanto a fé mais vigorosa. Quem ao menos tocar nas vestes de Jesus, sob hipótese nenhuma perecerá.

Em último lugar, observemos nesta passagem o poder infinito de nosso Senhor. Ele devolve a vida a uma pessoa morta.

23 Tendo Jesus chegado à casa do chefe e vendo os tocadores de flauta e o povo em alvoroço, disse:
24 Retirai-vos, porque não está morta a menina, mas dorme. E riam-se dele.
25 Mas, afastado o povo, entrou Jesus, tomou a menina pela mão, e ela se levantou.
26 E a fama deste acontecimento correu por toda aquela terra.


Quão admirável deve ter sido aquela cena! Quem, ao ter visto uma pessoa morrer, po­derá esquecer-se da imobilidade, do silêncio e da frieza, quando o fôlego da vida abandona o corpo? Quem pode esquecer o horrível sentimento de que uma coisa terrível aconteceu e que um enorme abismo foi aberto entre nós e a pessoa falecida?

Eis, porém, que nosso Senhor entra no quarto onde jaz o corpo da menina, e chama de volta o espírito ao seu tabernáculo terrestre. O pulso começa a bater novamente. Os olhos vêem outra vez. A respiração novamente vem e vai. A filha do chefe da sinagoga está viva novamente, restituída a seu pai e mãe. Manifestara-se ali a verdadeira onipotência! Ninguém poderia ter realizado tal feito, senão Aquele que no princípio criou o homem, e que tem todo o poder no céu e na terra.

Este é um aspecto da verdade que nunca poderemos conhecer bem demais. Quanto mais claramente vemos o poder de Cristo, tanto mais aptos estamos para experimentar a paz do evangelho. Nossa con­dição poderá ser penosa. Nosso coração pode ser fraco. Talvez sintamos grande dificuldade em prosseguir a jornada, neste mundo. Nossa fé pode parecer-nos demasiado fraca para nos conduzir até o céu. Porém, me­ditando a respeito de Jesus tomemos coragem, e não nos deixemos arrastar pelo desânimo. Maior é Aquele que é por nós do que todos quantos são contra nós. Nosso Salvador pode ressuscitar os mortos. Nosso Salvador é Todo-poderoso.


Que Deus nos abençoe!