quarta-feira, 16 de maio de 2018

A VOCAÇÃO SEGUNDO LUTERO [Prefácio e textos]


WINGREN, Gustav, A Vocação Segundo Lutero. Canoas, RS: Ed. Ulbra e Editora Concórdia, 2006. 268p.

É a vocação um dos conceitos fundamentais no esquema teológico de Lutero, pois corresponde ao ensino da santificação, doutrina essa que ele sempre entende como a prática do amor numa relação com os outros e jamais em um aperfeiçoamento moralista, solitário, individual, fora do mundo e dos relacionamentos interpessoais.

Por isso, rejeita a santificação monástica entre quatro paredes e a imitação dos santos, obras feitas não para o próximo, e, sim, para Deus, e, em última análise, para o indivíduo que as pratica por acreditar que elas ajudam na própria salvação.

Também não aceita Lutero a santificação proposta pelos Schwärmer (fanáticos ou entusiastas), caracterizada por uma visão puramente negativa das coisas do mundo, constituindo-se, desse modo, numa recaída na ética monástica medieval.

Este texto está dividido em dois aspectos:

Primeiro, transcrevi o prefácio da obra de Gustaf Wingren, intitulada “A Vocação segundo Lutero”, publicada pela Editora Concórdia em 2006 e que foi escrito por um cara de nome bem sugestivo – Martinho Lutero Hoffmann, tradutor da obra.

Segundo, temos a um texto sobre “A Doutrina Bíblica e Reformada da Vocação”. Um texto muito rico escrito por Gene Edward Veith. Tradução de Camila Rebeca Teixeira. Revisão de André Aloísio Oliveira da Silva e publicado originalmente pelo ministério fiel[1]


PREFÁCIO
Martinho Lutero Hoffmann, tradutor da obra[2]

Pouco se conhece no Brasil sobre o pensamento original de Lutero, embora haja um milhão de luteranos no país, mais de mil pastores e, dentre esses, uma meia dúzia de luterólogos. É que a produção nessa área tem sido pequena e, ainda assim, pouco divulgada. Traduções também não são muitas. Nesse contexto, vale destacar a tradução das obras de Lutero feita pela Comissão Interluterana de Literatura (CIL) e publicada pelas editoras Concórdia e Sinodal, no início dos anos 90. Cumpre citar A Nossa Vocação, de Einar Billing, um autor sueco a exemplo de Wingren.

Por outro lado, se Lutero não foi bem compreendido pelos adversários, igualmente nem sempre o foi pelos próprios luteranos, pois a originalidade e abrangência das suas posições requerem paciência, tempo e muita acuidade. Além disso, o tamanho da sua obra alcança mais de cem volumes, cada qual tendo mais de mil páginas, fato que levou um de seus biógrafos a fazer o seguinte cálculo: para copiar à mão toda a sua produção literária, seria preciso um homem trabalhar oito horas por dia durante dez anos.

No que tange à temática vocação, o livro de Wingren toca em um ponto crucial do pensamento lutérico, pois é a versão dele para a doutrina da santificação, doutrina essa que Lutero entende sempre como a prática do amor numa relação interpessoal e nunca num "aperfeiçoamento moral", individual, fora do mundo, fora, pois, das relações interpessoais. Daí a sua recusa e condenação à santificação monástica entre quatro paredes, à imitação dos santos, pois o que eles faziam, na maioria das vezes, era uma obra sem correspondência com o próximo; e à santificação dos Schwarmer (palavra alemã que fica a meio caminho entre fanático e entusiasta) caracterizada puramente por uma visão negativa das coisas do mundo, uma recaída, portanto, na ética monástica medieval. Para Lutero, sem amor não há santificação, e amor se entende como o querer e fazer bem ao próximo. O amor a Deus, por sua vez, que é também exigido pela lei e criado no coração do ser humano pelo Espírito Santo mediante a palavra do evangelho, esse amor, como dizia, manifesta-se unicamente pela fé, ou seja, pela confiança na sua pessoa. Logo, não há o que dar para Deus, não há sacrifício a fazer para ele. Se, então, há alguma coisa que o homem deseja fazer movido pela graça que o traz à fé, essa coisa pode ser apenas as obras de amor em favor do próximo, obras feitas num espírito espontâneo, pois não visam a alcançar méritos face a Deus.

A tradução, como tal, não apresentou sérias dificuldades. Somente lembro que Wingren é sueco e escreveu na língua materna. Daí foi traduzido para o inglês por Carl C. Rasmussen e publicado em 1957. Tradução de tradução implica sempre em mais riscos. Sendo o português uma língua de pouca tradição luterana, a dificuldade aumenta em razão de, em certos momentos, não haver uma palavra específica para transmitir o sentido exato proposto pelo texto, fato que nos obriga a rodeios ou a tentativas de criar um vocábulo novo. Além do mais, como o português é pródigo em dentais (d e t) e o texto em inglês a toda hora nos apresentava palavras que, traduzidas no primeiro instante, reclamavam uma correspondente em ão (vocation - vocação; prayer - oração, etc.) isso nos obrigou a apelar para sinônimos pouco usados e ainda mais rodeios ou, então, mudanças para adjetivos, tendo como propósito evitar colisões e ecos e, ao mesmo tempo, tentar proporcionar uma prosa limpa, fluente, elegante (isso, pelo menos, foi tentado) - sem perder nem alterar o sentido original. Por isso, aparecem palavras como lutérico (próprio de Lutero para diferenciar de luterano), orante (a pessoa que ora), chamado (como sinônimo de vocação) e, de vez em quando, inversões no interior das frases.


A DOUTRINA BÍBLICA E REFORMADA DA VOCAÇÃO
Gene Edward Veith

Os cristãos atuais frequentemente falam sobre transformar a sociedade. Um exemplo radical de como um ensino teológico teve um impacto social revolucionário é a doutrina da Reforma sobre a vocação. Na Idade Média, a sociedade era altamente estruturada, hierárquica e estática. Isso mudaria, começando no ano de 1500, como uma consequência não intencionada da doutrina de Lutero sobre a vocação.

A DOUTRINA DA VOCAÇÃO
Para Lutero, vocação — a palavra latina para “chamado” — significa muito mais do que um emprego ou profissão. Vocação é a doutrina de Lutero sobre a vida cristã. Mais do que isso, a vocação é a maneira como Deus trabalha através dos seres humanos para governar a sua criação e conceder os seus dons.

Deus nos dá nosso pão diário por meio de fazendeiros, moleiros e padeiros. Ele cria e cuida de uma nova vida por meio de pais e mães. Ele nos protege por meio das autoridades legais. Ele proclama a sua Palavra e administra os seus sacramentos por meio de pastores. A vocação, disse Lutero, é uma “máscara de Deus”, uma maneira pela qual ele se esconde nas relações e tarefas comuns da vida humana.

Um texto-chave para a vocação é 1 Coríntios 7.17: “Ande cada um segundo o Senhor lhe tem distribuído, cada um conforme Deus o tem chamado”. O contexto imediato dessa passagem tem relação com o casamento. Nossas famílias, nossa cidadania em uma determinada comunidade ou sociedade, nossas congregações e, sim, nossos locais de trabalho são todos facetas da vida para as quais Deus nos designou e nos chamou.

O propósito de todos os nossos chamados é amar e servir os próximos que cada vocação introduz em nossas vidas (no casamento, nosso cônjuge; na paternidade, nossos filhos; no local de trabalho, nossos clientes; e assim por diante).

Somos salvos somente pela graça, pela fé na obra de Jesus Cristo. Mas, depois, somos enviados de volta aos nossos chamados para que vivamos essa fé. Deus não precisa das nossas boas obras, disse Lutero, pensando nos esforços exaustivos para merecer a salvação para além do dom gratuito de Cristo, mas o nosso próximo precisa das nossas boas obras. Nossa fé dá fruto em amor (Gálatas 5.6; 1 Timóteo 1.5), e isso acontece em nossas famílias, trabalho, comunidades e congregações. Nesses chamados, também carregamos nossas cruzes, pecamos e encontramos perdão, e crescemos em fé e santidade.


OS ESTAMENTOS

A sociedade medieval era dividida em três estamentos: o clero (“aqueles que oram”); a nobreza (“aqueles que lutam”, ou, na prática, “aqueles que governam”); e os plebeus (“aqueles que trabalham”).

Pensava-se que o clero tinha uma “vocação”, um chamado distinto de Deus para buscar “a vida espiritual” para além do mundo. Dedicar-se completamente à oração e aos exercícios espirituais era considerado de muito maior valor do que aquilo que poderia ser encontrado nos estamentos seculares. Entrar em uma ordem religiosa exigia votos de celibato, pobreza e obediência. Para Lutero, essa busca por mérito não somente era uma rejeição do evangelho, mas tais votos repudiavam os próprios reinos da vida — família, trabalho, governo — que Deus estabeleceu. Esses reinos, ele insistiu, também eram vocações cristãs.

Lutero redefiniu os estamentos como instituições designadas por Deus para a vida terrena. Essas instituições são a igreja, o Estado e o lar (a família e seu trabalho econômico). Essas eram paralelas aos estamentos medievais do clero, nobreza e plebeus. Mas enquanto na Idade Média essas eram três categorias sociais separadas, para Lutero, essas são esferas de vida nas quais todo cristão habita e nas quais todo cristão tem vocações.

As distinções sociais rígidas entre três estamentos — aqueles que oravam, aqueles que governavam e aqueles que trabalhavam — desmoronaram. A vida de oração não é apenas para uma classe sacerdotal, mas para todos os crentes. O Estado não é apenas a preocupação de uma elite governante, mas de todos os seus cidadãos. O lar não é apenas para os plebeus. Todos, incluindo o clero, podem ser chamados para o casamento e a paternidade. Todos, inclusive a nobreza, são chamados ao trabalho produtivo. Todos oram. Todos (eventualmente) governam. Todos trabalham.


O IMPACTO SOCIAL DA REFORMA

Outra nomenclatura para a doutrina da vocação é o sacerdócio de todos os crentes. Deus chama alguns cristãos para serem pastores, mas ele chama outros cristãos para exercerem o seu sacerdócio real ao ararem campos, forjarem aço e iniciarem negócios. Mas todos os sacerdotes — incluindo os camponeses e moças serviçais — precisam ter acesso à Palavra de Deus. Assim, durante a Reforma, as escolas abriram e a alfabetização floresceu.

Os plebeus instruídos subiram a escada social e poderiam governar, eventualmente. Os trabalhadores que amavam e serviam os seus clientes por meio dos seus trabalhos encontraram sucesso econômico. Enquanto Lutero se dirigia a uma sociedade estática pós-medieval, Calvino e posteriormente os puritanos adaptaram a vocação ao emergente mundo moderno. Eles deram ênfase aos chamados do local de trabalho e encorajaram os cristãos a aceitarem as novas oportunidades às quais Deus os estava chamando. Assim, a Reforma proporcionou uma mobilidade social sem precedentes.

Estranhamente, a doutrina da vocação tem sido esquecida hoje. O que uma redescoberta da vocação faria à sociedade atual?


[1] Link Original: http://ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/1197/A_doutrina_biblica_e_Reformada_da_vocacao
[2] Páginas 8-9.

domingo, 13 de maio de 2018

LENDO OS SALMOS [Comentários]


LEWIS, C. S. Lendo os Salmos. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2015. 156p.

Li o livro e fiz várias anotações e fiquei de certa forma mais atencioso logo na introdução do livro, pelo modo como autor se expressa: “Neste livro, escrevo como um amador que se dirige a outro amador para falar sobre as dificuldades que encontrei ou sobre os pensamentos que me vieram à mente ao ler os salmos, na esperança de que isso possa, de algum modo, interessar outros leitores inexperientes ou, em alguns momentos, até mesmo ajudá-los” [p. 10]. 

Eu gosto de C. S. Lewis. Possuo muitos livros de C. S. Lewis e muita gente boa conhece C. S. Lewis. Sem dúvida, nenhum autor cristão do século XX tem sido mais amplamente lido sobre o assunto de apologética do que C. S. Lewis. Títulos como Cartas de um Diabo ao seu Aprendiz, Cristianismo Puro e Simples, As Crônicas de Nárnia, O Grande Abismo, são amplamente lidos e celebrados. Essa é, certamente, uma verdade nos amplos círculos evangélicos, mas tem sido cada vez mais verdade nos círculos reformados. De fato, há muito de atraente em seu trabalho. Mais significativamente, ele parece ser uma respeitável voz contra a racionalista e naturalista maré do modernismo, encontrada vigorosamente pelos jovens nos Colégios, Faculdades e Universidades. Lewis oferece uma alternativa convincente para o desenfreado ceticismo e niilismo da nossa era. Contudo, mesmo com uma atitude amador, C. S. Lewis escreveu algumas coisas acerca do Livro de Salmos que merece a nossa atenção.

O livro está dividido em 11 capítulos e seus temas está de comum acordo com alguns assuntos que são descritos no livro de Salmos: juízo, maldições, morte, bondade do Senhor, palavra (leis), conivência, natureza e louvor. E o modo como ele escreve acerca de cada assunto, pode incomodar alguns leitores que não estão acostumado com C. S. Lewis. Não concordo com tudo que ele escreveu, contudo, ele mesmo advertiu que este livro não tratava de uma obra teológica, e sim, de um livro escrito por um amador em teologia, não faz nenhuma reivindicação de autoridade sobre o tema, e que quer apenas compartilhar observações sobre as dificuldades e o deleite ele tem experimentado lendo os Salmos. É importante lembrar que Lewis não era teólogo, mas um expert em crítica literária inglesa do período medieval.

Mas, vejamos bem algumas questões que são tratadas neste livro, ou seja, apenas dos três primeiros capítulos, quando ele os denominou de assuntos “menos atraentes”.


Capítulo 1. Juízo no livro de Salmos

Para o autor “os salmistas falam muito sobre os juízos de Deus” [p.18]. Ele estabelece uma diferença entre a forma como os judeus e os cristãos encaram o juízo de Deus. Ele afirma que: “Os judeus antigo, como nós, pensavam no juízo de Deus em termos de uma corte de justiça terrena. A diferença é que o cristão retrata o caso a ser julgado como uma causa criminal, com ele mesmo assentado no banco dos réus; o judeu, por sua vez, o apresenta como uma causa civil, na qual ele mesmo é o reclamante. Um espera não ser condenado, ou melhor, espera pelo perdão; o outro espera por um triunfo retumbante com grandes prejuízos para o inimigo. Por essa razão, ele clama: ‘Julga a minha disputa’ ou ‘Defende a minha causa’ (35.23).”

Juízo e Justiça de Deus andam juntos. O anúncio de juízo não só está presente no livro de Salmos, como também ocupa neles parte considerável. É dirigido contra indivíduos, grupos ou nações estrangeiras, mas sobretudo ao povo eleito, Israel ou Judá. Entendo que quando Lewis faz a diferença entre judeus [reclamante] e cristãos [réu], trata-se de uma questão contextual. Pois o reclamante hoje, pode ser o réu de amanhã. E outra realidade importante é que, ambos são réus perante Deus. Dezenas de passagens deixam isso claro. No Salmo 9, lemos que Deus julgará “o mundo com justiça” (v.8) porque “ele não ignora o clamor dos oprimidos” (v.12). Ele é “defensor [da causa] das viúvas” (68.5). O Rei bom em Salmos 72.2 julgará os povos com justiça, ou seja, ele defenderá os pobres. Quando Deus se levantar para julgar, ele o fará “´para salvar todos os oprimidos da terra” (76.9), todas as pessoas temerosas e indefesas cujas injustiças nunca foram corrigidas. Quando Deus acusa juízes terrenos de julgamento injusto, logo em seguida diz a eles que entendam que os pobres têm “direitos” (82.2-3). Isso inclui judeus e gentios.


Capítulo 2. As Maldições. 

Aqui C. S. Lewis faz referência aos salmos imprecatórios. Ele escreve: “Em alguns salmos, o espírito de ódio com o qual nos defrontamos é como calor da boca de uma fornalha. Em outros, o mesmo espírito deixa de ser assustador e se torna (para as mentes modernas) quase cômico de tão ingênuo” [p.27-28]. Ele cita o Salmo 109, 137, 143. Mas, tenhamos paciência. O que ele pensa acerca dos salmos imprecatórios é comum a muitos cristãos, mas, ele conclui assim: “E se ainda acreditarmos que toda a Sagrada Escritura é “útil para o ensino” ou que o uso antigo dos salmos na adoração cristã não é totalmente contrário à vontade de Deus, e se lembrarmos que a mente e linguagem de nosso Senhor estão inseridas no Saltério, talvez tenhamos vontade de, se possível, fazer uso deles. Que uso é este? ” [p.29]

Na nossa Igreja, adotamos a Salmodia e cantamos os assim chamados Salmos imprecatórios que, como diz Johnston, “pedem que Deus destrua, arrase, e acabe completamente com os ímpios. É importante lembrar que cada um desses salmos emite ao Senhor um clamor por justiça que coloca o problema do mal nas mãos do Senhor e então aguarda a sua vingança”.[1] Esses salmos não expressam sentimentos não cristãos, como algumas pessoas alegam. Eles não são simples expressões de irritação ou ressentimento pessoas. Em vez disso, são um solene reconhecimento de que vivemos num mundo decaído entre pessoas que lutam contra Deus e seu Cristo e que o destino desse tipo de gente, se não se arrependerem, é tanto justo quanto certo. Em decorrência disso, nos Salmos imprecatórios nós não oramos pedindo vingança pessoal, mas pedimos a glória de Deus e o bem da igreja.


Capítulo 3. A Morte nos Salmos

Lewis escreve: “Parece bem claro que, na maior parte do Antigo Testamento há pouca ou nenhuma crença em uma vida futura; certamente nenhuma crença que tenha qualquer importância religiosa. A palavra traduzida por ‘alma’ em nossa versão dos salmos significa simplesmente ‘vida’; a palavra traduzida por ‘inferno’ significa apenas ‘a terra dos mortos’, a condição de todos os mortes, igualmente bons e maus, o sheol.” [p.43]. Ele chega a escrever que “não há nenhuma crença em qualquer tipo de estado futuro, qualquer que seja – um homem para quem os mortos estão simplesmente mortos e nada mais há de ser dito” [p.45].

“Em muitas passagens isso está bem claro para todo leitor atencioso, mesmo na nossa tradução. A mais clara de todas essas passagens é o grito dado em Salmos 89.47: ‘Lembra-te de como é passageira a minha vida. Terás criado em vão todos os homens?”. Todos nós terminamos em nada. Portanto, ‘o homem não passa de um sopro’ (39.5). Sábios e tolos têm o mesmo destino (49.10). Uma vez morto, um homem não adora mais a Deus: “Acaso o pó te louvará?’ (30.9). ‘Entre os mortos, quem te louvará?’ (6.5). A morte é a ‘terra’ onde não somente as coisas mundanas, mas todas as coisas são esquecidas’ (88.12). Quando um homem morre, ‘naquele mesmo dia acabam-se os seus planos’ (146.6). Todo homem ‘se ajuntará aos seus antepassados, que nunca mais verão a luz’ (49.19); ele vai para uma escuridão que jamais terá fim.” [p.45]

Contudo, o mais surpreendente é quando Lewis faz uma comparação entre a fé dos hebreus e a fé dos cristãos, quando escreve sobre uma fé meramente compensatória: “Assim sendo, é bem possível que, quando Deus começou a se revelar aos homens, mostrando-lhes que ele (e mais ninguém) é o verdadeiro objetivo e a satisfação de suas necessidades, que deveria ser alvo dos clamores humanos simplesmente por ser quem ele é, independentemente do fato de ter poder para lhes conceder ou negar alguma coisa, talvez fosse absolutamente necessário que esta revelação não começasse com nenhuma alusão à bem aventurança ou à perdição futura. Não é por esses pontos que se deve começar. Uma crença tão forte nisso, logo de início, talvez torne quase impossível o desenvolvimento (por assim dizer) do apetite por Deus; as esperanças e os temores pessoais, que obviamente também são empolgantes, vem em primeiro lugar. Mais tarde, quando depois de séculos de treinamento espiritual os homens estão aprendendo a desejar e a adorar a Deus, suspirar por ele “como suspira a corça”, aí é diferente. Pois então os que amam a Deus desejarão não somente desfrutar dele, mas “desfrutar dele para sempre” e temerão perde-lo. E é por essa porta que podem entrar a esperança verdadeiramente religiosa do céu e o temor do inferno; como corolários de uma fé já centralizada em Deus, e não como elementos que exerçam algum tipo de influência, seja ela independente ou intrínseca. É até justificável que, no momento em que o “céu” deixa de significar união com Deus e o “inferno”, separação dele, a crença em ambos se transforme em uma superstição maligna; pois então teremos, por um lado, uma crença meramente “compensatória” (uma “sequencia” de história triste, na qual tudo “ficará bem”) e, por outro lado, um pesadelo que conduzirá os homens a manicômios ou os transformará em perseguidores”. [p.47]

O livro é bom? Sim. Recomendo? Sim. Uma razão para recomendar Lewis é que, dado a sociedade totalmente variada que temos hoje, a igreja tem a profunda necessidade de uma pessoa íntegra e com conhecimentos para falar com tantos grupos quanto possível. Lewis era, e lógico, um dos melhores homens para esta tarefa. A história de sua vida é uma história de conversão do duro ateísmo intelectual para o Cristianismo, e então para um dos grandes campeões cristãos desse século. Ele foi um professor de Oxford cujos escritos abrangiam desde teologia, éticas, filosofia, crítica literária, ficção científica, histórias infantis, literatura imaginativa, e muito mais. Há muito mais áreas nas quais Lewis não se pronunciou mas ele disse isso com graça e suavidade.

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[1] Citado por Joel Beeke, in: Por que Devemos Cantar Salmos? Recife: Os Puritanos, 2016, p.28-29.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

OS GRANDES TEÓLOGOS DO SÉCULO VINTE [Comentários]



MONDIN, Batista. Os Grande Teólogos do Século Vinte, Vol. 2, 2ª Edição. São Paulo: Edições Paulinas, 1979. 277p.

Este segundo volume de “Os Grandes Teólogos do Século Vinte”, dedicado aos teólogos protestantes e ortodoxos, completa a exposição clara e sintética do pensamento dos vários teólogos contemporâneos, feita com elogiável competência por Battista Mondin. 

Para quem ainda não sabe, Battista Mondin, é missionário xaveriano, nascido em Vicenza, Itália (1926); laureado (Ph.D.) em História e Filosofia da Religião (Harvard, EUA). Livre docente de História da Filosofia Medieval na Universidade Católica do Sagrado Coração, Milão; decano da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Faculdade Urbaniana, Roma; catedrático de antropologia filosófica da mesma Faculdade; vice-presidente da Associação de Professores italianos de Filosofia (ADIF); membro da direção nacional da Associação Teológica Italiana (ATI); consultor da Sagrada Congregação para o Clero; colaborador ordinário do Observatore Romano.

Como no volume anterior, antes de apresentar os teólogos, o autor traça em grandes linhas a história das teologias protestante e ortodoxa. Expõe a seguir, de cada teólogo, vida e obras, uma bibliografia selecionada e suas teorias. Por fim, faz uma avaliação crítica, a fim de orientar o leitor. 

“A teologia dos fundadores do protestantismo (Lutero, Calvino, Zwinglio, Melanchthon) representa para os evangélicos, não tanto uma reflexão teológica, mas muito mais o documento original da fé. As obras dos fundadores não são consideradas como estudos sobre a fé cristã, mas sim como fontes” [p.5].

Uma obra de grande valor para todos aqueles que desejam estar informados com clareza sobre a teologia de nossos dias. Útil instrumento de trabalho para jornalistas, professores e estudantes de teologia, pessoas de cultura e todos aqueles que querem manter-se atualizados. 

Para Battista Mondim, a teologia dos fundadores do Protestantismo, traz um “conteúdo doutrinal e é resultado da aplicação sistemática e coerente do princípio de que a salvação deriva imediata e diretamente de Deus. Desse princípio resulta a eliminação de todos os intermediários: o papa, os bispos, os sacerdotes, os santos, nossa senhora, os sacramentos, as boas ações, as indulgências etc. Para que sejamos salvos, é necessário apenas fé na Palavra de Deus, que nos garante o perdão dos nossos pecados. [...] As boas ações têm valor puramente simbólico: não nos fazem merecer a salvação, mas demonstram que Cristo age em nós e que, consequentemente, fomos perdoados e salvos.

Os teólogos com suas respectivas teologias são assim apresentados neste volume: 
Cap. 2 - Karl Barth e a Teologia da palavra de Deus; 
Cap. 3 - Emil Brunner e a Teologia Dialética; 
Cap. 4 - Paul Tillich e a Teologia da Correlação; 
Cap. 5 - Reinhold Niebuhr e a Teologia Apologética; 
Cap. 6 - Rudolf Bultmann: Demitização da revelação e Teologia Existencialista; 
Cap. 7 - Oscar Culmann e a Teologia Bíblica; 
Cap. 8 - Dietrich Bonhoeffer e o Cristocentrismo a-religioso; 
Cap. 9 - Jurge Moltmann e as Teologias da Cruz e da Esperança; 
Cap. 11 - Serghiei Bulgarov e a Sofiologia; 
Cap. 12 - Ghirghiou Florosky e a Síntese Neo-patrística
Cap. 13 - Vladimir Lossky e a Teologia Mística.

Esta obra possui ainda dois capítulos de introdução história:

Cap. 1  - Introdução à História da Teologia Protestante: onde divide essa história em cinco grandes períodos: 1) Fundadores; 2) Ortodoxia; 3) Iluminismo; 4) Liberalismo e 5) Neo-ortodoxia. 

Cap. 10 - Introdução à História da Teologia Ortodoxa, onde o mesmo traça uma linha histórica desde século I até ao século XX.

Lembro que a edição deste exemplar é a segunda edição, produzida pela antiga Edições paulinas em 1980. Atualmente, tanto o volume I – Os Grandes Teólogos do Século Vinte: Teólogos Católicos, e o volume II – Os Grandes Teólogos do Século Vinte: Teólogos Protestantes e Ortodoxos, foram publicados em 2003 em um só volume pela Editora Teológica em 2003.

sábado, 5 de maio de 2018

ATRIBUTOS DE DEUS - OS NOMES PROPOSICIONAIS DE DEUS



INTRODUÇÃO

Nos dias e na cultura que vivemos, os nomes pessoas não são nada mais do que rótulos que nos tornam distintos de outras pessoas que convivem conosco. Os nomes das pessoas não têm nada a ver com o que elas são ou fazem. Algumas vezes, os apelidos que são dados às pessoas são mais significativos do que os seus nomes, pois dizem algo do que a pessoas é ou faz.

Estas coisas tornam-se ainda mais clara quando se trata dos nomes de Deus. Para algumas pessoas, os nomes que Deus possui não significam nada mais do que simples designações do Ser divino. Por causa da nossa cultura ocidental, não costumamos prestar atenção à relação que há entre os nomes de Deus e o seu caráter, os seus modos de agir e o significado dos nomes no que diz respeito ao relacionamento entre nós e Deus.

A grande diferença entre os nomes dados aos homens e os dados a Deus é que estes últimos foram dados pelo próprio Deus. Deus revelou os seus próprios nomes ao seu povo. Com isso podemos entender que a expressão “o nome” é indicativo de um ser pessoal ou da totalidade do caráter de Deus. [1]

Joel Beeke, afirma que os nomes (ou títulos) de Deus são alguns dos caminhos-chave por meio dos quais Deus revela a Si mesmo. Estes nomes são mais do que apenas rótulos ou etiquetas de identificação; eles são descrições proposicionais de alguns aspectos das Suas infinitas Pessoas. Consequentemente, eles não podem ser usados ao acaso (à esmo), e não devem ser desconsiderados durante a leitura das Escrituras.

Ele ainda afirma, que existem, de uma maneira geral, três categorias para os nomes de Deus:

(1) Proposicional, expressando algum fato pertinente à sua divindade, tais como “Deus Altíssimo” (Gênesis 14:18-22) e “Deus eterno” (Gênesis 21:33);
(2) Histórico, comemorando algum encontro com Deus (como Jeová Jireh, “o Senhor proverá” - Gênesis 22:14; ver também Gênesis 16:13; Êxodo 17:15);
(3) Pessoal, declarando alguma experiência individual (“o Deus de Abraão”, “o Deus de Isaque”, etc.).[2]

Neste estudo estaremos nos detendo sobre uma breve explicação de alguns nomes proposicionais comuns no Antigo Testamento:

1. Jeová. Este é o nome pessoal de Deus, especialmente ligado ao Seu pacto de graça e misericórdia. Derivado do verbo “Eu sou” (explicado no episódio da sarça ardente, encontrado em Êxodo 3), este nome declara a:
a) Autossuficiente
b) Independência,
c) Eternidade
d) Soberania de Deus.

Ainda, de maneira extraordinária, Jeová é o principal nome de Deus usado em contextos de salvação. Embora Deus seja infinitamente independente de qualquer coisa fora de Si mesmo, Ele está disposto a ter comunhão íntima com o homem, particularmente através do pacto da graça.


2. Deus. Este é o termo mais geral para a deidade. A palavra em hebraico pode estar tanto no singular (El), quanto no plural (Elohim). Ambas enfatizam a grandiosidade de Deus.
a) Ele é “Todo-Poderoso”, Jó 9.4.
b) Ele possui toda a autoridade, 1 Cr 29.11
c) Ele é capaz realizar o que Lhe apraz, Is 46.10.

Ele é sábio de coração, e forte em poder; quem se endureceu contra ele, e teve paz? - Jó 9:4

Tua é, Senhor, a magnificência, e o poder, e a honra, e a vitória, e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu é, Senhor, o reino, e tu te exaltaste por cabeça sobre todos. - 1 Crônicas 29:11

Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade. - Isaías 46:10

Este título – Deus -  também magnifica a transcendência de Deus; Ele é exaltado acima de toda a criação, incluindo o homem.

A forma no plural significa a sua majestade ou excelência, que realça o Seu poder e grandiosidade, com ainda maior ênfase. De forma significativa, esta é a Sua primeira auto-revelação: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1:1; Sl 19:1). Ele é o Criador.


3. Senhor. O título Adonai descreve Deus como:
a) O Proprietário e Mestre supremo de tudo, Sl 24.1-2; Dt 10.17.
b) Tudo pertence a Ele, e Ele governa tudo de acordo com os Seus próprios propósitos, para a Sua própria glória, Rm 11.36.

Do SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam.
Porque ele a fundou sobre os mares, e a firmou sobre os rios. - Salmos 24:1,2.

Pois o SENHOR vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas- Deuteronômio 10:17.

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém. - Romanos 11:36

Este nome declara a Sua absoluta soberania ou realeza. Reis terrenos vêm e vão, mas o Rei celestial reina, supremo, para sempre (Isaías 6:1).

Todos os homens e todas as nações, quer tenham conhecimento Dele ou não, estão sujeitos à Sua autoridade e devem responder (se reportar) a Ele. Ele é o Soberano sobre toda a terra; todos irão se curvar diante Dele (2 Reis 7:6; Salmos 110:5; Daniel 1:2; Amós 1:8).

Thomas Watson, descrevendo sobre o poder de Deus, disse: [3]

O nome gravado em suas vestes é: “Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Ap 19.16). Ele se apresenta como o Senhor soberano, quem pode lhe pedir satisfação? “Farei toda a minha vontade” (Is 46.10). O mundo é o bispado de Deus, não faria o que quisesse em seus domínios? Foi ele quem fez o rei Nabucodonosor comer grama e lançou no inferno os anjos que pecaram. Foi ele quem quebrou a cabeça do império babilônico. (Is 14.12).

Deus é o monarca supremo e todo o poder reside originalmente nele. “Não há autoridade que não proceda de Deus” (Rm 13.1). Os reis possuem coroa por causa dele: “Por meu intermédio, reinam os reis” (Pv 8.15).


4. Deus Todo-Poderoso. Apesar deste título ocorrer mais frequentemente no período patriarcal, especialmente no livro de Jó, ele não é limitado somente a este período.

“Sendo, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o SENHOR a Abrão, e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito.” - Gênesis 17:1

Em hebraico, significa El Shaddai. As opiniões diferem no que diz respeito à tradução, contudo é mais provável que o significado seja “o Deus que é suficiente”. Ele é completamente capaz de manter (ou cumprir) cada uma das palavras das Suas promessas, mesmo quando o cumprimento parece impossível.

Haveria coisa alguma difícil ao Senhor? Ao tempo determinado tornarei a ti por este tempo da vida, e Sara terá um filho. - Gênesis 18:14

Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido - Jó 42:2

E Jesus, olhando para eles, disse-lhes: Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível. - Mateus 19:26

A Teologia Puritana nos ensina que: [4]

De fato, embora misericórdia e justiça sejam essenciais à natureza divina, o poder é mais “evidentemente essencial”, pois, por exemplo, sem poder é impossível exercer a misericórdia e a justiça. “A simplicidade de Deus, inclusive a harmonia de seus atributos, requer que seu poder seja ilimitado, o que explica por que um dos nomes usados para Deus é “Poder” [“Poderoso”] (Mc 14.62).


Campos, afirma que de todos os nomes de Deus, este é o nome mais pactual:

O nome El-Shaddai possui uma importância pactual. Deus é o todo poderoso e cheio de majestade que se relaciona com seu povo em termos de promessas que cumpre fielmente. O nome El-Shaddai aponta para o poder que ele tem de cumprir tudo o que promete.[5]


5. Senhor dos Exércitos. Significa “Jeová dos exércitos”, uma expressão militar que identifica Deus como o “Comandante” que tem toda a autoridade e patente infinita para ordenar as Suas tropas a completar a Sua vontade.

E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes? - Daniel 4:35

Este título ocorre mais frequentemente durante o período da monarquia (Samuel, Reis, Crônicas, Salmos, e os Profetas). Dependendo do contexto, o exército pode estar se referindo à Israel, aos anjos, aos corpos celestiais (estrelas e planetas), ou até mesmo à toda a criação.

O ponto importante é que Deus tem o poder, a autoridade e os recursos ao Seu comando, para fazer e alcançar todos os Seus planos e propósitos. Não importa quão grande seja a promessa, ou quão séria seja a ameaça, o “Senhor dos Exércitos” estará no comando e irá concretizar.


CONCLUSÃO

No Catecismo Maior Comentado, tem um questionamento que é bastante interessante, no item 14 tem a seguinte pergunta: “Se Deus é Todo-Poderoso, como diz o catecismo, existe contudo alguma coisa que Ele não possa fazer?” [6]

Resposta: A Bíblia nos fala de algumas coisas que até mesmo Deus não pode fazer. Uma delas é que não pode mentir (Tt 1.2). Somos informados também que Deus não poder negar a Si mesmo (2 Tm 2.13). Podemos sintetizar esses ensinamentos ao dizer que deus não pode negar a Sua própria natureza – Ele não pode negar a sua natureza moral ao dizer uma mentira ou ao cometer algo injusto, e não pode negar a Sua natureza racional ao fazer qualquer coisa a contrarie em si mesma. Por exemplo, Deus não pode criar um círculo quadrado, ou fazer dois mais dois igual a cinco. À parte das coisas que não contrariem a Sua própria natureza, não existe absolutamente nada que Deus não possa fazer.

Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos - Tt 1:2

Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo - 2 Tm 2:13




[1] CAMPOS, H. C, O Ser de Deus e os seus atributos. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p.84-85.
[2] BEEKE, J. A Doutrina de Deus: Os Nomes de Deus. Os Puritanos. Disponivel in: Acesso em 06 Mai. 2018.
[3] WATSON, Thomas. A Fé Cristã – Estudos Baseados no Breve Catecismo de Westminster. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009, p.100.
[4] JONES, M. & BEEKE, J. Teologia Puritana: Doutrina para a vida. São Paulo: Edições Vida Nova, 2016, p. 122.
[5] CAMPOS, H. C, O Ser de Deus e os seus atributos. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p.86.
[6] VOS, Geerhardus Johannes. Catecismo Maior Comentado. São Paulo: Os Puritanos, 2015, p.52

ATRIBUTOS DE DEUS - AUTO-EXISTÊNCIA, SANTIDADE E ÚNICO



A nossa Confissão de fé[1] declara no capítulo II, seções 1 e 2, o seguinte acerca de Deus:

I. Há um só Deus vivo e verdadeiro, o qual é infinito em seu ser e perfeições. Ele é um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões; é imutável, imenso, eterno, incompreensível, - onipotente, onisciente, santíssimo, completamente livre e absoluto, fazendo tudo para a sua própria glória e segundo o conselho da sua própria vontade, que é reta e imutável. É cheio de amor, é gracioso, misericordioso, longânimo, muito bondoso e verdadeiro remunerador dos que o buscam e, contudo, justíssimo e terrível em seus juízos, pois odeia todo o pecado; de modo algum terá por inocente o culpado.[2]

II. Deus tem em si mesmo, e de si mesmo, toda a vida, glória, bondade e bem-aventurança. Ele é todo suficiente em si e para si, pois não precisa das criaturas que trouxe à existência, não deriva delas glória alguma, mas somente manifesta a sua glória nelas, por elas, para elas e sobre elas. Ele é a única origem de todo o ser; dele, por ele e para ele são todas as coisas e sobre elas tem ele soberano domínio para fazer com elas, para elas e sobre elas tudo quanto quiser. Todas as coisas estão patentes e manifestas diante dele; o seu saber é infinito, infalível e independente da criatura, de sorte que para ele nada é contingente ou incerto. Ele é santíssimo em todos os seus conselhos, em todas as suas obras e em todos os seus preceitos. Da parte dos anjos e dos homens e de qualquer outra criatura lhe são devidos todo o culto, todo o serviço e obediência, que ele há por bem requerer deles.[3]

Que há um só Deus, as Escrituras afirmam constantemente essa verdade:

“Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”. Dt 6:4

Assim que, quanto ao comer das coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só. - 1 Co 8:4


1. DEUS O AUTO-EXISTENTE
Dentro das fronteiras do universo em que a humanidade habita, existem dois tipos de seres.

a) Existem aqueles seres que são dependentes uns dos outros. Esta categoria abarca tudo, de elefantes a lesmas, de anjos a demônios, de seres humanos a vírus.

b) Contudo, existe um ser do qual todos os outros dependem. Somente ele é auto-existente – o grande Yahweh (“Jehovah” ou Jeová), que disse a Moisés que o Seu nome é “EU SOU O QUE SOU”

“E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós”. - Êxodo 3:14

“João, às sete igrejas que estão na Ásia: Graça e paz seja convosco da parte daquele que é, e que era, e que há de vir, e da dos sete espíritos que estão diante do seu trono”. Apocalipse 1:4

Todos os outros seres extraem o seu sustento e existência a partir Dele. Ele é absolutamente único, de tal forma que Ele não depende (não precisa) de nada fora de Si mesmo.

Apenas Ele possui o que os estudantes de teologia chamam de asseidade, o atributo da auto-existência (João 1:4; 5:26).

“Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens”. João 1:4

Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo”. João 5:26

Como Ele concede a vida para toda a criação, desde o maior objeto até a menor das partículas, Ele deve ser confessado como o único Criador e Deus.

“Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele”. 1 Coríntios 8:6

Ele existe de uma maneira diferente de nós: nós, criaturas suas, existimos em forma dependente, derivada, finita e frágil, mas nosso Criador existe cm forma eterna, autossustentada e necessária — necessária, isto é, no sentido de que Deus não tem, por sua imanência, de sair da existência, como, inversamente, não temos em nós a faculdade de viver para sempre. Nós necessariamente envelhecemos e morremos, porque c nossa presente natureza fazer isso; Deus necessariamente continua para sempre imutável, porque é sua natureza eterna fazer isso. Este é um dos muitos contrastes entre a criatura e o Criador.[4]


2. DEUS É SANTO

A confissão da Bíblia sobre a singularidade de Deus também pode ser encontrada na declaração de que Ele é santo:

“E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”. - Isaías 6:3

“E os quatro animais tinham, cada um de per si, seis asas, e ao redor, e por dentro, estavam cheios de olhos; e não descansam nem de dia nem de noite, dizendo: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, que era, e que é, e que há de vir”. - Apocalipse 4:8

A santidade de Deus significa primeiramente que Ele é completamente diferente da Sua criação. Ele é o Criador, único e em controle completo de tudo o que Ele fez.

Nós, seres humanos, somos limitados no que podemos fazer. Nosso conhecimento é finito, e nunca exaustivo. Nossas vidas nesta terra são relativamente curtas em duração e, frequentemente, perseguidas por experiências dolorosas — “desagradável, brutal e curta”, como o filósofo Thomas Hobbes[5] uma vez descreveu. 

Deus não é assim. Ele é imortal, pode fazer tudo o que a Sua boa vontade decide, e não tem absolutamente nenhuma limitação. Dizer que Deus é santo significa falar da Sua singularidade, da Sua diversidade (ou alteridade) diante da Sua criação.


3. DEUS É ÚNICO

Homens e mulheres adoram a vários deuses. Sempre houve inumeráveis deuses falsos, e o título, “deus”, tem sido aplicado:
a) aos Anjos, Sl 82.1,6
b) Satanás é chamado de deus, 2 Co 4.4
c) Alguns homens já foram tratados como deus – Faraós – e a bíblia faz referência a Herodes Agripa I, que foi tratado como deus, Atos 12.21-23

Deus está na congregação dos poderosos; julga no meio dos deuses.1
Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo.6 Sl 82.1,6

Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus. 2 Co 4:4

“E num dia designado, vestindo Herodes as vestes reais, estava assentado no tribunal e lhes fez uma prática.
E o povo exclamava: Voz de Deus, e não de homem.
E no mesmo instante feriu-o o anjo do Senhor, porque não deu glória a Deus e, comido de bichos, expirou”. Atos 12:21-23

Tendo sido feitos à imagem do Deus verdadeiro, os seres humanos têm um insaciável desejo de adoração (ou prestar culto). Contudo, sendo seres caídos (pelo pecado), os seres humanos inevitavelmente adoram deuses fabricados por eles mesmos.

a) O primeiro deus fabricado pelo homem tinha a forma de um bezerro, Ex 32.1-4.
b) O homem adora os elementos como pedra e madeira (Isaías 44.6-20)
c) O homem adora o próprio homens, At 10.24-26.

1Mas vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão, e disse-lhe: Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu.
2E Arão lhes disse: Arrancai os pendentes de ouro, que estão nas orelhas de vossas mulheres, e de vossos filhos, e de vossas filhas, e trazei-mos.
3Então todo o povo arrancou os pendentes de ouro, que estavam nas suas orelhas, e os trouxeram a Arão.
4E ele os tomou das suas mãos, e trabalhou o ouro com um buril, e fez dele um bezerro de fundição. Então disseram: Este é teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito. Êxodo 32:1-4

(...) Isaías 44.6-20

24E no dia imediato chegaram a Cesaréia. E Cornélio os estava esperando, tendo já convidado os seus parentes e amigos mais íntimos.
25E aconteceu que, entrando Pedro, saiu Cornélio a recebê-lo, e, prostrando-se a seus pés o adorou.
26Mas Pedro o levantou, dizendo: Levanta-te, que eu também sou homem. Atos 10:24-26

João Calvino, o Reformador Francês, apontou precisamente que a mente humana é “uma perpétua fábrica de ídolos”. [6] (Rm 1:18-25).

18Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.
19Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.
20Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;
21Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu.
22Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos.
23E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.
24Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si;
25Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém. Romanos 1:18-25

O único remédio é a dádiva da visão espiritual, por parte de Deus, onde é concedido como que um raio de luz do céu, e as pessoas são despertadas para conhecerem ao Deus verdadeiro, e para conhecerem a si mesmas como Suas criaturas.


CONCLUSÃO

Deus é, portanto, soberano sobre a Sua criação. Ele concede vida e tira a vida, levanta nações e montanhas, e também as rebaixa, traz sóis para a luz, e os estingue. Nada pode detê-Lo. O que Ele decide, certamente acontece, e neste exercício de soberania está a Sua glória.

Os seres humanos têm o privilégio e a responsabilidade de reconhecer esta soberania de Deus. Contudo, eles só podem fazer isto quando Deus inclina os seus corações. Por natureza, eles são rebeldes, desprezando a Sua autoridade, e agindo contra o que eles instintivamente sabem, e também declarando que Deus não existe.

Contudo, Ele existe sim! O cristão tem mais certeza disto do que qualquer outra coisa que ele ou ela saiba. Assim, o “doce deleite”[7] (emprestando uma frase de Jonathan Edwards, o pregador evangélico do século XVIII) do cristão é submeter-se a este grande Deus, reconhecendo a sua total dependência Dele, e vivendo para Ele e para a Sua glória.

Portanto, o discurso cristão sobre Deus é muito mais do que uma discussão filosófica sobre a Sua existência. É o próprio deleite, para o cristão, vir a conhecer o único e verdadeiro Deus, e conhecendo-O, encontrar significado para a vida e, certamente, a vida eterna (1João 5:20) – na qual o cristão vai desfrutar eternamente o conhecimento, o amor e a comunhão com o Deus triuno, tendo gozo no Seu sorriso e banqueteando na Sua presença.





[1] Confissão de Fé de Westminster comentada por A. A. Hodge. São Paulo: Editora Os Puritanos, 1999
[2] Versículos da Seção I - Dt. 6:4; I Co 8:4, 6; I Ts 1:9; Jr. 10:10; Jó 11:79; Jó 26:14; Jo 6:24; I Tm. 1:17; Dt. 4:15-16; Lc. 24:39; At. 14:11, 15; Tg 1:17; I Re 8:27; Sl. 92:2; Sl. 145:3; Gn. 17:1; Rm. 16:27; Is. 6:3; Sl. 115:3; Ex 3:14; Ef. 1:11; Pv. 16:4; Rm 11:36; Ap. 4:11; I Jo 4:8; Ex 36:6-7; Hb. 11:6; Ne 9:32-33; Sl. 5:5-6; Na 1:2-3.
[3] Versículos da Seção II - Jo 5:26; At. 7:2; Sl 119:68; I Tm 6: 15; At 17:24-25; Rm 11:36; Ap 4:11; Hb 4:13; Rm 11:33-34; At 15:18; Pv 15:3; Sl 145-17; Ap 5: 12-14.
[4] PACKER, J. I. Teologia Concisa: Um guia de estudos das doutrinas cristãs históricas. São Paulo: Cultura Cristã, 2014, 3ª Ed. p.33
[5] HOBBES, Thomas. Leviatã: Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. São Paulo: Edipro, 2015, p. 24
[6] CALVINO, João. A Instituição da Religião Cristã. São Paulo: Editora UNESP, 2008. Volume 1.11.8, p.101
[7] LAWSON, Stevens J. As Firmes Resoluções de Jonathan Edwards. São Paulo: Editora Fiel, 2014, p.148.