sábado, 22 de abril de 2017

MATEUS: COMENTÁRIO BÍBLICO CONTEMPORÂNEO


Embora não apareça nas listas comuns de “best-sellers”, a Bíblia continua ser mais vendida do que qualquer outro livro. E, apesar do crescente secularismo ocidental, não há sinais de que o interesse pela mensagem da Palavra de Deus esteja esfriando. Muito pelo contrário, número cada vez maior de homens e mulheres está examinando suas páginas em busca de luz e orientação, em meio à crescente complexidade da vida moderna.

Esse interesse sempre renovado pelas Escrituras, encontrado tanto dentro como fora da Igreja, é fato notável entre os povos da Ásia e África, bem como da Europa e das Américas. Na verdade, à medida que nos afastamos de países tradicionalmente cristãos, parece aumentar o interesse pela Bíblia. Pessoas ligadas às igrejas tradicionais católicas e protestantes manifestam, pela Palavra, o mesmo anseio presente em igrejas e comunidades evangélicas mais recentes.

Por isso, ao oferecer esta nova série de comentários, desejamos estimular e fortalecer esse movimento mundial de estudo da Bíblia pelos leigos. Conquanto esperamos que pastores e mestres considerem esses volumes muito úteis à compreensão e comunicação da Palavra de Deus, não os escrevemos primordialmente para esses profissionais. Nosso objetivo é fornecer, a todos os leitores das Escrituras, guias confiáveis que os ajudem a melhor compreender os livros da Bíblia, guias que representem o que há de melhor em erudição contemporânea, e que sejam apresentados de maneira que não exija preparo teológico formal para ser entendidos.

É convicção do editor, bem como dos autores, que a Bíblia pertence ao povo, e não meramente aos acadêmicos. A mensagem da Bíblia é tão importante que de modo algum pode ficar acorrentada a artigos eruditos, presa a ensaios e monografias herméticos, redigidos apenas para os especialistas em teologia. Embora a erudição rigorosa, esmerada, tenha seu lugar no serviço de Cristo, todos quantos participam do ministério do ensino, na igreja, são responsáveis por tornar acessíveis à grande comunidade cristã os resultados de suas pesquisas. Por isso, os eruditos que se unem para apresentar esta série de comentários o fazem tendo em mente estes objetivos superiores.

Em português, há diversas traduções e edições contemporâneas do Livro sagrado. Na sua maioria são excelentes e devem ter a preferência do leitor no que concerne à compreensão e a beleza literária do texto.

Bíblia de Jerusalém, baseada na obra de eruditos católicos franceses, vividamente traduzida para o português, talvez seja a mais literária das traduções recentes. A BLH (Bíblia na Linguagem de Hoje), da Sociedade Bíblica do Brasil, é a tradução mais acessível às pessoas pouco familiarizadas com a tradição cristã. Há, ainda, em português, a Almeida Revista e Atualizada, e a Edição Revisada de Almeida, além de outras.

Todas essas versões são, à sua própria maneira, muito boas, e devem ser consultadas com proveito pelo estudante sério das Escrituras. É possível que a maioria dos estudantes deseje possuir diversas versões para consulta, objetivando especialmente a clareza de compreensão — embora se deva salientar que de modo algum qualquer delas esteja isenta de falhas humanas,
e deva ser considerada a última palavra quanto a qualquer ponto. De outra forma, não haveria a menor necessidade de uma série de comentários como esta!

Esta série de livros, por ser tradução da língua inglesa, faz referências à NEB, que constitui verdadeiro monumento à pesquisa moderna protestante, e a outras versões em inglês, entre elas a RSV, a NAB, e a conceituada NIV.

Como texto bíblico básico desta série decidimos usar a ECA, por ser esta edição a que está se tornando padrão, de modo especial nos seminários e institutos bíblicos. Por representar, no momento, o que há de melhor na literatura evangélica em língua portuguesa, ela está aos poucos se tornando a mais utilizada por pastores e outros estudiosos das Escrituras.

Cada volume desta série contém um capítulo introdutório que expõe em minúcias o intuito geral do livro, os temas mais importantes, e outras informações úteis. Depois, cada seção do livro é elucidada como um todo, e acompanhada de notas sobre aqueles pontos do texto que necessitam de maior esclarecimento ou de explanação mais minuciosa.

Oferecemos esta nova série aos leitores com uma oração: que ela se tome instrumento de renovação autêntica e de crescimento entre a comunidade cristã no mundo inteiro, bem como meio de enaltecer a fé das pessoas que viveram nos tempos bíblicos, e das que procuram viver, em nossos dias, segundo a Bíblia. (Prefácio do Editor)

MOUNCE, Robert H. Mateus: Comentário Bíblico Contemporâneo. São Paulo: Editora Vida, 1991.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

JESUS: SEU MINISTÉRIO E PROPÓSITOS


JESUS: Seu Ministério  e Propósitos
Leia Mateus 4.12-25

Jesus, porém, ouvindo que João estava preso, voltou para a Galiléia; E, deixando Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, cidade marítima, nos confins de Zebulom e Naftali; Para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías, que diz: A terra de Zebulom, e a terra de Naftali, Junto ao caminho do mar, além do Jordão, A Galiléia das nações; O povo, que estava assentado em trevas, Viu uma grande luz; aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou. Desde então começou Jesus a pregar, e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus. E Jesus, andando junto ao mar da Galiléia, viu a dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão, os quais lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores; E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. Então eles, deixando logo as redes, seguiram-no. E, adiantando-se dali, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, num barco com seu pai, Zebedeu, consertando as redes; E chamou-os; eles, deixando imediatamente o barco e seu pai, seguiram-no. E percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo. E a sua fama correu por toda a Síria, e traziam-lhe todos os que padeciam, acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos, e os paralíticos, e ele os curava. E seguia-o uma grande multidão da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia, e de além do Jordão. (Mateus 4:12-25)


Nestes versículos encontramos o começo do ministério de nosso Senhor entre os homens. Ele dá início aos seus labores entre uma po­pulação ignorante e obscurecida. Ele escolhe os homens que serão seus companheiros e discípulos e confirma o seu ministério através de mi­lagres, os quais chamam a atenção de “toda a Síria” e atraem grandes multidões para ouvi-lo.


1. Como primeiro ponto deste texto, o qual desejo enfatizar é  a maneira pela qual nosso Senhor deu início à sua poderosa realização: “passou Jesus a pregar”.

Não existe outra ati­vidade tão honrada como a de um pregador. Não há trabalho humano tão importante para as almas dos homens. Esse é um ofício do qual o próprio Filho de Deus não se envergonhou. Através desse ofício Ele selecionou os seus doze apóstolos.

Foi um ofício que o apóstolo Paulo, já idoso, recomendou de maneira especial a Timóteo, quase que em seu último alento: “prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não” (2 Tm 4.2).

Acima de qualquer outro, esse é o instrumento que Deus se agrada em usar na conversão e edificação das almas humanas. Os dias mais resplandecentes da igreja de Cristo sempre foram aqueles em que a pregação do evangelho foi mais honrada. Enquanto que os dias mais negros da igreja sempre têm sido aqueles em que a prédica foi desvalorizada. Honremos as ordenanças e as orações públicas, nas igrejas locais, e utilizemo-nos reverentemente desses meios da graça divina. Porém, cuidemos em nunca permitir que essas práticas venham a tomar o lugar que pertence à pregação do evangelho.


2. Agora, observemos o segundo ponto. Prestemos atenção à primeira doutrina que o Senhor Jesus proclamou ao mundo. Ele começou, afirmando: “Arrependei-vos”.

A necessidade de arrependimento é um dos grandes fundamentos que estão à base do cristianismo. É mister pregarmos que toda a humanidade, sem exceção, se arrependa. Importantes ou não, ricos ou pobres, todos os homens têm caído no pecado e são culpados diante de Deus. Todos precisam arrepender-se e converter-se, se porventura quiserem ser sal­vos.

O verdadeiro arrependimento não é alguma questão superficial. Antes, envolve uma completa mudança do coração no que concerne ao pecado, uma transformação que se demonstra mediante uma santa contrição e humilhação, com uma sincera confissão dos pecados, diante do trono da graça, e uma quebra total de hábitos pecaminosos, bem como um ódio permanente a todo pecado.

Tal arrependimento é o acom­panhante inseparável da fé salvadora em Jesus Cristo. Devemos valorizar grandemente essa doutrina. Ela se reveste da maior importância. Ne­nhum ensino cristão pode ser considerado sadio se não puser sempre em evidência “o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Se­nhor Jesus Cristo” (At 20.21).


3. O terceiro ponto, não menos importante do texto, é que observemos também a classe de homens a quem o Senhor Jesus escolheu para serem seus discípulos.

Eles pertenciam às camadas mais pobres e humildes da sociedade. Pedro, André, Tiago e João eram to­dos “pescadores”. A religião de nosso Senhor Jesus Cristo não visava somente aos ricos e cultos; destinava-se ao mundo todo, e a maior parte da humanidade sempre será pobre.

A pobreza e a ignorância literária excluíam milhares de pessoas da atenção dos orgulhosos filósofos do mundo pagão. Mas isso não impede a ninguém de ocupar mesmo os mais altos escalões do ministério cristão. Um certo homem é humilde? Ele sente o peso dos seus pecados? Ele está disposto a ouvir a voz de Cristo e a segui-Lo? Nesse caso, ele pode ser o mais pobre dos pobres, mas, no reino dos céus haverá de ocupar uma posição tão importante quanto qualquer outra pessoa. O intelecto e o dinheiro de nada valem, sem a graça de Deus.

A religião de Cristo deve ter tido a sua origem no céu. Do con­trário, nunca teria prosperado e se propagado por toda a terra, conforme tem sucedido. É inútil aos incrédulos tentarem dar resposta a esse ar­gumento. Ele não pode ser retorquido. Uma religião que não lisonjeia aos ricos, aos grandes e aos bem instruídos, uma religião que não dá margem às inclinações carnais do coração humano, uma religião cujos primeiros mestres foram pobres pescadores, destituídos de riquezas ma­teriais, posição social ou poder, uma religião como essa jamais teria transtornado o mundo, se não procedesse de Deus.

Por um lado, con­templamos os imperadores romanos e os sacerdotes do paganismo, com os seus esplêndidos santuários! Por outro lado, vemos alguns poucos trabalhadores braçais, cristãos, sem grande instrução formal, mas anun­ciando o evangelho! Acaso, já houve outros dois grupos tão diferentes um do outro? Os que eram fracos mostraram-se fortes; e os que eram fortes mostraram-se fracos. O paganismo ruiu, e o cristianismo tomou o seu lugar. Portanto, o cristianismo deve proceder de Deus.


4. Em quarto e último lugar, observemos o caráter geral dos milagres por meio dos quais nosso Senhor confirmou a sua missão.

Nesta passagem bíblica, esses milagres são vistos em geral. Porém, um pouco mais adiante, haveremos de vê-los descritos em particular. Mas, qual é o caráter desses milagres? Eles foram alicerçados sobre a misericórdia e a bondade. O versículo 23 diz que o Nosso Senhor “percorria... toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo”.

Esses milagres tiveram tem tríplice propósitos:

(1) Nos ensinar-nos quão poderoso é nosso Senhor. - Aquele que era capaz de curar enfermos com um simples toque de mão e expelir demônios com uma palavra, também é poderoso para “salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus” (Hb 7.25). Sim, Ele é o Todo-poderoso.

(2) O segundo propósito é que esses milagres têm, igualmente, a finalidade de servir de símbolos ou emblemas da habilidade de nosso Senhor como médico espiritual. - Aquele, diante de quem nenhuma enfermidade física mostrou ser in­curável, é poderoso para curar cada um dos males que afligem as nossas almas.

Não há coração partido que Ele não saiba sarar. Não há ferida de consciência que Ele não possa fazer cicatrizar. Todos nós somos indivíduos caídos, esmagados, despedaçados e atingidos por alguma praga, por causa do pecado. Mas Jesus, por meio de seu sangue e Es­pírito, pode curar-nos inteiramente. Tão-somente devemos ir até Ele.

(3) O terceiro propósito é que Esses milagres têm também o propósito de mostrar-nos o coração de Jesus — o Salvador extremamente compassivo. -
O Senhor Jesus não rejeitava a ninguém que viesse até Ele. Ele nunca rejeitou a quem quer que fosse, por mais enfermo ou repugnante que estivesse. Os seus ouvidos estavam dispostos a dar atenção a todos, e Ele estava sempre pronto a ajudar a todos com um coração terno para com todos. Não existe bondade que se possa comparar à sua. A compaixão de Jesus jamais falhará.

Nunca nos deveríamos esquecer de que Jesus Cristo “ontem e hoje é o mesmo, e o será para sempre” (Hb 13.8)! Exaltado nos céus, à mão direita de Deus Pai, em coisa alguma Ele se modificou.

Ele con­tinua perfeitamente capaz de salvar, igualmente disposto a acolher-nos, e da mesma maneira preparado para ajudar-nos, tal e qual fazia há quase vinte séculos passados. Teríamos nós colocado diante dEle as nossas petições naqueles dias? Façamos a mesma coisa hoje. Ele pode curar “toda sorte de doenças e enfermidades”.


Programa Evangélico Fome e Sede de Justiça
Dia 19/04/2017
Salgado de São Félix (PB)

sábado, 15 de abril de 2017

SURPREENDIDO PELO SOFRIMENTO [Resenha]



"É proibido sofrer!" Esta é a mensagem que vemos sendo anunciada em quase todos os lugares. Talvez nem sempre dita assim tão explícita, mas percebemos suas variações quando também se diz: "pare de sofrer!", "tenha uma vida vitoriosa!", "Você nasceu para ser cabeça e não cauda!", "decrete e profetize sua vitória!", "tome posse pela fé!" e tantas outras ordens e palavras que, na cabeça de muita gente, vira uma espécie de anestésico contra as dores que os problemas da vida provocam na gente.

A sociedade atual se esconde do sofrimento e o nega porque ele desmascara nossas fragilidades. A questão é que a ferida continua aberta, a infecção vai se alastrando cada vez mais, a doença emocional vai se enraizando, vai matando lentamente, mas seus efeitos são maquiados pela não sensação de dor. Se esquecem que o próprio sofrimento pode ser uma bênção, pois ele nos avisa sobre a necessidade de que algo deve ser feito.


Embora haja fundamento bíblico para nos dizermos mais do que vencedores por meio de Jesus, esta palavra "vencedores" não segue o modelo e o padrão moderno de entendimento do que seja vencedor segundo a ganância dos homens. O perfil do vencedor moderno é aquele que até pode passar por alguma dificuldade, mas consegue tudo o que quer. Sempre vence as dificuldades virando o jogo com palavras mágicas. Nunca demonstra em público suas fraquezas. Este é o vencedor das externalidades, da futileza, do terno Armani, da bolsa Louis Vuitton, do carro de luxo, de ter dinheiro, poder e influência sobre a vida das pessoas. É o que se faz vencedor pela força bruta, é o indestrutível. Infelizmente, este tipo de vencedor é anunciado adoecida e insistentemente em muitos púlpitos. Quem não se enquadra nesse padrão é rapidamente chamado de "sem fé", amaldiçoado, fraco ou derrotado.


Já, o Vencedor, segundo o Evangelho, é aquele que também sofre, também passa por algum tipo de privação, pode até vencer de alguma forma material, mas sabe discernir entre o momento de rir e o de chorar. Aprende a viver cada um destes momentos reconhecendo que há um Deus que não somente assiste, mas participa com a gente, ao nosso lado, de cada riso ou lágrima e usa essas coisas também como ensino e crescimento para cada um de nós.


Perder ou ganhar, ser fraco ou forte, no entendimento bíblico, não depende do troféu humano, das honrarias, homenagens, recompensas e reconhecimentos que se recebe em vida.


Vencer não tem a ver necessariamente com possuir bens ou ser curado de uma doença terminal. Estas coisas também, mas elas não tratam da essência. Estão na superfície de uma vida muito mais profunda, muito além de ter ou não os seus sonhos e pedidos realizados.


Aqueles que vencem ou venceram, nas Escrituras, perderam o mundo para ganhar a Vida. Alguns foram perseguidos, torturados, mortos, tiveram seus bens espoliados, famílias separadas. A maioria não foi nenhum exemplo de sucesso de empreendedorismo, de força de vontade ou estabilidade emocional. Passaram fome, fugiram, tiveram medo, alguns desistiram ou abandonaram seus projetos e chamados missionários, antes do tempo. Tiveram crises existenciais, ficaram deprimidos, se sentiram enfraquecidos, desejaram morrer mas foram salvos e reencaminhados não por suas próprias forças, mas pela Graça infinita, teimosa e amorosa de Deus. O verdadeiro vencedor é aquele que vence não por ele mesmo, mas vencido, vence em Deus.


O vencedor, segundo as Escrituras, sabe que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, mas nem por isso deixa de se alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram. Vive cada sentimento de forma verdadeira, sem máscaras e consciente.


Nesta vida ainda vamos perder e achar muitas coisas, muitas vezes. Alguns sonhos pessoais jamais serão alcançados, outros virão como que presentes de Deus para nossas mãos. Não se permita ser julgado pelos outros ou pela própria consciência por causa do que você ganha ou deixa de ganhar. O importante é, como diria nosso irmão Paulo, o apóstolo: "quer vivamos ou morramos, somos do Senhor." (Romanos 14.8). Em outras palavras, desta vez, ditas por Jó "o Senhor deu, o Senhor tirou, bendito seja o seu nome." (Jó 1.21).


O sofrimento em si não nos torna derrotados. Podemos, sim, aprender e sermos aperfeiçoados por causa dele. O rótulo é sempre algo imposto de fora pra dentro. Nem sempre expressa uma realidade. Não se auto impute um desmerecimento ou supervalorização falsos. O verdadeiro vencedor aprende a dar nomes às suas responsabilidades, projeta sua esperança não nas coisas que se vêem, mas naquelas que são eternas. Assume seus erros, mas também consegue se alegrar com cada pequenino passo em direção à Vida. Sabe perdoar e também pedir perdão. O sofrimento dói, mas nos amadurece, nos ensina a reconhecer o que de fato podemos chamar de vitória.


O Deus que venceu por todos te abençoe rica, poderosa e sobrenaturalmente! 


SPROUL, R. C. Surpreendido pelo Sofrimento. São Paulo: Cultura Cristã, 1998. 208p

JUÍZES PARA VOCÊ [Introdução]


Qualquer coisa que nos controle se torna nosso deus [...]. Quem busca poder é controlado pelo poder. Quem busca aceitação é controlado pelas pessoas a quem deseja agradar. Não controlamos a nós mesmos. Somos controlados pelo senhor de nossa vida.[1]

Vivemos e trabalhamos em meio a uma grande variedade de deuses – não apenas deuses de outras religiões, mas também os deuses da riqueza, da celebridade, do prazer, da ideologia, da realização. A época em que vivemos pode ser descrita pela frase que resume o livro de Juízes: “Cada uma fazia o que parecia certo a seus próprios olhos” (21.25, ESV).

Apesar do intervalo de três mil anos, existem muitos paralelos entre a nossa época e a do livro de Juízes, que relata a história do povo de Deus – Israel – no período que se estende desde Moisés e Josué até o surgimento  dos primeiros reis, por volta de 1200 a.C. Aquele foi um período de pluralismo espiritual. A população de Canaã – a terra que Deus havia prometido aos israelitas e onde eles viviam mesclados a outras nações – era formada de pessoas tementes a Deus e de pagãos. Foi um tempo em que os israelitas  tinham de escolher diariamente entre seguia Deus como Senhor e seguir as preferências e tendências da época. O livro de Juízes se ocupa principalmente em relatar como Israel fracassou nessa tarefa – como deixou de conhecer, de amar e de obedecer a Deus para fazer “o que parecia certo a [seus] próprios olhos”.

O livro de Juízes, então, poderia ser descrito como: “pessoas desprezíveis realizando coisas deploráveis” e “ficção barata sobre personagens disfuncionais”. Conforme a história se desenrola, até mesmo os “heróis”, os juízes, tornam-se cada vez mais corruptos e malsucedidos. Fazem coisas terríveis, e seus esforços são cada vez menos redentores. É uma história sombria – aconteceu de verdade. Assim, o leitor se pergunta: por que carga d’aguas esse livro está na Bíblia?

A resposta é séria – trata-se do Evangelho! O livro de Juízes mostra que a Bíblia não é um “Livro das Virtudes”; não é uma coleção de contos inspiradores. Por que? Porque a Bíblia (ao contrário dos livros em que se baseiam outras religiões) não é um compêndio de exemplos a serem seguidos. Ela diz respeito a um Deus misericordioso e paciente, que trabalha incansavelmente em nós e por nosso intermédio, apesar de nossa teimosia em ir contra seus propósitos. Em última análise, existe um único herói em Juízes, e ele é divino. Se lermos esse livro da Bíblia como um relato histórico que mostra Deus trabalhando para RESGATAR seu povo indigno em meio a confusão causada pelo pecado e para livrá-lo dela, ele ganhará vida em nosso coração e em nossa mente, e influenciará as circunstâncias de nossa própria vida. O texto de Juízes não é uma leitura fácil, porém é essencial para a época em que vivemos.

Quais são os temas principais – ou, poderíamos dizer, as verdades sobre Deus – que o autor do livro deseja que aprendamos e ponhamos em prática? Como introdução, apresentamos seis temas que devem chamar nossa atenção durante o estudo:

1. De modo incansável, Deus oferece sua graça aos que não a merecem, não a buscam ou nem mesmo a valorizam, apesar de terem sido salvos por intermédio dela. O livro de Juízes não se resume a uma série de exemplos a serem seguidos. Embora revele alguns bons exemplos (Otoniel, Débora), eles aparecem no inicio do livro e não são predominantes na história. Isso nos ensina que existe um único salvador, o Senhor Deus. No fim das contas, a essência de Juízes é a GRAÇA abundante aos maiores pecadores. A graça de Deus triunfa sobre os comportamentos mais tolos.

2. Deus quer governar todas as áreas de nossa vida, não apenas uma delas. Deus queria que os israelitas se apoderassem de toda a terra de Canaã, mas eles limparam apenas algumas regiões a aprenderam a conviver com os ÍDOLOS que ali existiam. Ou seja, não rejeitaram a Deus completamente nem o aceitaram integralmente. O livro de Juízes retrata esse DISCIPULADO e comprometimento parciais como uma combinação impossível e instável. Deus quer nossa vida por inteiro, não somente uma parte dela.

3. Existe uma tensão entre graça e lei, entre condicionalidade e incondicionalidade. Juízes mostra uma aparente contradição. Por um lado, Deus exige obediência porque é SANTO. Por outro lado, ele promete dedicação e fidelidade a seu povo. Será que sua santidade e seus mandamentos condicionais (Façam isso e eu farei aquilo) vão sobrepujar suas promessas (Estarei sempre com vocês, não importam o que façam), ou suas promessas vão sobrepujar seus mandamentos? Em outros termos, as promessas de Deus são condicionais ou incondicionais? O livro de Juízes é crucial, pois mostra que nenhuma das alternativas está correta. Quase todos os leitores do Antigo Testamento assumem ou uma posição “liberal” (Deus sempre nos abençoará enquanto nos arrependermos) ou uma posição “conservadora” (Não; Deus só nos abençoa se lhe formos obedientes). O texto de Juízes nos deixa em estado desequilíbrio – as duas posições são verdadeiras, mas não completamente verdadeiras – e não resolve a tensão. Contudo, é essa tensão que impulsiona a narrativa. Somente o Novo Testamento, o EVANGELHO, mostra como as duas posições podem ser realmente são verdadeiras.

4. Nossa vida aqui no mundo necessita de avivamento contínuo, e existe um modo de fazê-lo acontecer. Juízes aprova que o declínio espiritual é inevitável, e o avivamento espiritual torna-se uma necessidade contínua. Vamos observar um ciclo regular e repetido de declínio e avivamento. Alguns componentes desse avivamento são ARREPENDIMENTO, oração, destruição de ídolos e unção de líderes humanos. O avivamento acontece quando temos o mestre/soberano correto; a escravidão acontece quando temos o mestre/soberano errado. No Antigo Testamento, a explicação mais clara sobre avivamento e renovação encontra-se no livro de Juízes, enquanto, no Novo Testamento, esse papel cabe ao livro de Atos. Veja, porém, como os ciclos do avivamento em Juízes se tornam cada vez mais fracos com o passar do tempo, enquanto em Atos eles ficam mais amplos e fortes.

5. Precisamos de um Salvador verdadeiro, para quem todos os salvadores humanos apontam por meio de seus defeitos e virtudes. Como observamos anteriormente, no primeiro tema, a magnitude crescente do mal e da depravação na narrativa revela nossa necessidade de um salvador, e não de exemplos a serem seguidos. Mas a eficácia decrescente dos ciclos de avivamento e a qualidade decrescente dos juízes revelam a fragilidade de qualquer salvador humano. Os próprios juízes nos direcionam para alguém superior a eles. Com Otoniel, aprendemos que Deus salva por meio de todos; com Débora, que ele salva por meio de muitos; com Gideão, que El salva por meio de poucos; e com Sansão, que ele salva por meio de um só. Deus salvará ao enviar o Único.

6. Deus está no controle, seja qual for a situação. O tema mais abrangente talvez seja o menos percebido! A impressão é que Deus está sempre ausente do cenário em Juízes, mas a verdade é que ele nunca se ausenta. Ele realiza sua vontade por meio de pessoas fracas e apesar delas. Seus propósitos nunca serão contrariados, apesar das aparências. Os moinhos de Deus podem girar vagarosamente, porém moem com extrema eficiência.

É claro que um livro do tamanho deste que escrevo não pode tratar de cada versículo de um livro do tamanho de Juízes. Procuro dialogar com várias interpretações de versículos particularmente estranhos, complicados ou polêmicos. Uma das maiores dificuldades que o leitor de hoje tem com o livro de Juízes (e Josué), em particular, e com o Antigo Testamento, em geral, é a ordem de Deus aos israelitas para que “expulsem” os cananeus de sua própria terra. Como esse é um assunto muito difícil e que permeia todo o livro de Juízes, exponho algumas idéias no apêndice “A questão da ‘Guerra Santa’”, na p. 211.

Durante o estudo, enfatizarei algumas vezes a estrutura do livro como um todo, assim como os episódios nele contidos. No apêndice “O ‘ciclo de Juízes’”, nas p. 207-9, o leitor encontrará gráficos que o ajudarão a entender de imediato a estrutura geral, quem foram os diferentes juízes e em que se pareciam e diferiam. No apêndice “Mapa de Israel na época de Juízes”, na p. 2010, há um mapa mostrando todos os locais onde ocorreram os eventos mais importantes.

Acima de tudo, tentei deixar a narrativa falar por si (as histórias, embora geralmente tristes e algumas vezes perturbadoras, são sempre excitantes e imprevisíveis). Também procurei demonstrar de que maneira somos direcionados a Jesus, o Juiz por excelência, e como podemos viver de modo honroso e agradável a ele nas sociedades pluralistas de hoje.

KELLER, Timothy. Juízes para você. São Paulo: Vida Nova, 2016. 224p.



[1] Rebecca Manley Pippert, Out of the saltshaker (Downers Grover: IVP books, 1999), p. 48-49 [edição em português: Evangelismo natural (São Paulo: Mundo Cristã, 1999)].

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A TEOLOGIA DOS REFORMADORES [Resenha]


A obra de George em sua sexta impressão é muito bem-vinda. Publicada originalmente em inglês (Theology of the Reformers, 1988) foi traduzida e publicada em português em 1994. De lá para cá saíram oito reimpressões, sendo que tenho em mãos a que creio ser a mais recente, de 2013.

A obra é preciosa. George, que tem mestrado e doutorado em teologia em Harvard, é um teólogo de tradição batista com profunda convicção calvinista (seus filhos que o digam, p. 13). Entre outras atividades acadêmicas ele é diretor-fundador e professor de teologia da Beeson Divinity School, sendo o atual deão (http://www.beesondivinity.com/fromthedean).

Além disso, sua obra é agradável de ser lida. O autor concilia erudição e simplicidade, sendo bastante didático em sua apresentação. É o resultado aperfeiçoado de palestras ministradas e textos publicados ao longo de seu ministério. Ele pôde reunir todo o material e ampliá-lo significativamente durante o ano que permaneceu de licença na Suíça (p. 12).

Após fazer considerações esclarecedoras sobre a Idade Média como uma época carente de Deus, estando os fiéis angustiados, “sedentos por Deus”, George analisa alguns dos personagens basilares da Reforma que representam tradições distintas, dedicando um capítulo aos pontos mais relevantes da teologia de cada um (Lutero, Zuínglio, Calvino, Simons). Ele termina sua jornada com um capitulo sobre “A validade permanente da Reforma” destacando alguns pontos: Soberania e Cristologia, Escrituras e Eclesiologia, Culto e Espiritualidade e Ética e Escatologia.

George buscou o equilíbrio na avaliação dos personagens da Reforma, propondo-se a não “canonizar os reformadores”, ilustrando falhas de cada um. Contudo, seu entusiasmo por esses homens é compreensível: “... o que é notável nos reformadores é que, apesar de seus pontos fracos, pecados e setores cegos, eles foram capazes de apreender com muita perspicuidade o caráter paradoxal da condição humana e a grande possibilidade de redenção humana mediante Jesus Cristo” (p. 12). Daí o seu desafio para que os ouçamos (p. 12).

O seu propósito não é apologético (p. 15-23). Seguindo o modelo de Ranke[1], propõe-se a um uso “escrupuloso das fontes” (p. 17), ainda que reconheça, corretamente, que uma história completamente objetiva não pode ser escrita. “A história nunca é o simples recontar do passado como realmente foi. É, inevitavelmente, uma interpretação do passado, uma visão retrospectiva do passado limitada tanto pelas fontes em si quanto pelo historiador que as seleciona e interpreta” (p. 17).[2] Ele se vale com habilidade de fontes primárias e secundárias. No final de cada capítulo apresenta uma útil bibliografia selecionada e comentada.

Ainda que sustente que a Reforma foi um movimento essencialmente religioso (p. 20), admite que ela foi “uma era de transição, caracterizada pelo surgimento de um novo tipo de cultura que estava se esforçando para nascer enquanto o velho tipo de cultura ainda estava morrendo” (p. 19). No entanto, foi “a um tempo reavivamento e revolução” (p. 21).

O autor observa corretamente que, “embora acolhessem entusiasticamente os esforços dos eruditos humanistas, tais como Erasmo, por recuperar o primeiro texto bíblico e submetê-lo a uma rigorosa análise filológica, [os reformadores] não viam a Bíblia meramente como um livro entre muitos outros. Eles eram irrestritos em sua aceitação da Bíblia como a única e divinamente inspirada Palavra do Senhor” (p. 312). Os reformadores foram “grandes exegetas das Escrituras Sagradas” (p. 313).

O humanismo, mesmo sendo útil à Reforma, jamais chegou ao cerne da questão vital que distanciava a igreja de sua origem e propósito: “A despeito da importância da importância do humanismo como uma preparação para a Reforma, a maioria dos humanistas, e principalmente Erasmo entre eles, nunca alcançou nem a gravidade da condição humana, nem o triunfo da graça divina, o que marcou os reformadores. O humanismo, assim como o misticismo, foi parte da estrutura que possibilitou aos reformadores questionar certas suposições da tradição recebida, mas que em si mesma não era suficiente para fornecer uma resposta duradoura às obsessivas perguntas da época” (p. 50).

A Reforma foi um movimento progressista: “Apesar de toda sua ênfase no retorno à igreja primitiva do Novo Testamento e da época patrística, a Reforma consistiu essencialmente num movimento visando ao futuro. Foi um movimento dos ‘últimos dias’, vivido numa forte tensão escatológica entre o ‘não mais’ da antiga dispensação e o ‘ainda não’ do reino perfeito de Deus” (p. 319).

A Reforma, no entanto, não foi autogerada; antes, digamos, foi o movimento que teve êxito numa sucessão de tentativas frustradas ao longo dos séculos: “A reforma do século XVI, portanto, foi uma continuação da busca pela igreja verdadeira que havia começado muito antes que Lutero, Calvino ou os padres de Trento entrassem na lista (p. 34).

Desde a primeira edição, a Editora Vida Nova fez um trabalho cuidadoso de tradução e edição, apresentando um índice remissivo de grande importância, ainda mais em livros como este, com grande riqueza de informações.

A obra é recomendável. Depois da sua leitura, por sua relevante amostragem, o pensamento da Reforma lhe parecerá muito mais claro e significativo. Deste modo, poderá ser compreendido como e por que a cosmovisão da Reforma partindo das Escrituras mudou a história do Ocidente, colocando, no dizer de Machen, “o mundo em chamas”.[3]

GEORGE, Timothy. Teologia dos reformadores. São Paulo: Vida Nova, 2013. 339p

RESENHA de autoria do Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa.




[1] Leopold Von Ranke (1795-1886), historiador alemão de tradição luterana.
[2] Para uma visão mais ampla desta questão, ver: COSTA, Hermisten M. P. Raízes da teologia contemporânea. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 16-26.
[3] MACHEN, J. Gresham. Cristianismo e liberalismo. São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 83.

TENTAÇÃO [Mateus 4.1-11]


Após o batismo de Jesus, o primeiro acontecimento a ser registrado pelo apóstolo Mateus, na vida do Senhor, foi a tentação. Trata-se de um assunto profundo e circundado de mistérios. Há muita coisa, no relato bíblico a esse respeito, que não sabemos esclarecer. No entanto, à superfície da narrativa há lições práticas perfeitamente claras, que faríamos bem em dar atenção.

Em primeiro lugar aprendamos que temos, no diabo, um inimigo real e poderoso. Ele não temeu desfechar os seus ataques nem mesmo contra o próprio Senhor Jesus. Por três vezes em seguida, ele tentou ao próprio Filho de Deus. Nosso Salvador foi conduzido ao deserto com o propósito de ser “tentado pelo diabo”.

Foi por intermédio do diabo que o pecado entrou no mundo, no começo da história da humanidade. Foi o diabo que oprimiu Jó, enga­nou Davi e fez Pedro cair em perigoso pecado. A Bíblia intitula o diabo de “homicida”, “mentiroso” e “leão que ruge”. Aquele que é o ad­versário das nossas almas, nunca dorme e nem cochila. É ele que, por cerca de seis mil anos, vem realizando uma única obra nefanda — ar­ruinar a homens e mulheres, atirando-os no inferno. Ele é um ser cuja sutileza e astúcia ultrapassam a toda a compreensão humana, de tal ma­neira que, com freqüência, ele parece ser um “anjo de luz” (2 Co 11.14).

Cumpre-nos vigiar e orar diariamente, acerca dos perversos es­tratagemas do diabo. Não existe inimigo pior do que aquele que nunca pode ser visto e que nunca morre; que está sempre perto de nós, onde quer que nos encontremos, e que vai conosco onde quer que formos. Também não é coisa de somenos a maneira leviana e até humorística com que os homens se referem ao diabo, de uma maneira tão genera­lizada. Lembremo-nos a cada dia que, se quisermos ser salvos, não somente teremos de crucificar a carne e vencer o mundo, mas também teremos de fazer conforme as Escrituras nos recomendam: “resisti ao diabo” (Tg 4.7).

Em seguida, devemos aprender que todos nós não devemos en­frentar a tentação como se fosse uma coisa estranha. “Não é o servo maior do que seu senhor” (Jo 15.20). Se Satanás atacou ao próprio Jesus Cristo, então, sem dúvida alguma, também atacará aos crentes.

Como seria bom, para todos os crentes, se eles se lembrassem dessa realidade. No entanto, tendemos muito por esquecer tal coisa. Com freqüência, os crentes detectam maus pensamentos em suas men­tes que eles poderiam afirmar que odeiam. Dúvidas, indagações e uma pecaminosa imaginação são coisas que lhes são sugeridas, contra o que se revolta todo o seu homem interior. Não devem permitir, no entanto, que essas coisas destruam a sua paz e os furtem de suas consolações. È necessário lembrar que o diabo existe, e não deveriam surpreender-se ao descobrir que ele está sempre bem perto deles. Ser vítima das ten­tações ainda não é incorrer em pecado. Pecamos somente quando cedemos diante das tentações, dando lugar ao pecado em nossos corações, algo que muito deveríamos temer.

Convém que aprendamos, em seguida, que a principal arma que devemos usar para resistir a Satanás é a Bíblia. Por nada menos de três vezes o grande adversário das nossas almas apresentou tentações diante de nosso Senhor. Por três vezes o oferecimento diabólico foi re­pelido, sempre mediante o emprego de algum texto bíblico como motivação: “Está escrito”.

Essa é apenas uma, dentre muitas razões, pelas quais devemos ser leitores diligentes das Sagradas Escrituras.

A Palavra de Deus é a espada do Espírito (Ef 6.17). Jamais estaremos combatendo, como convém ao crente, enquanto não estivermos usando a Bíblia como a nossa principal arma de ataque e defesa.

A Palavra de Deus também é lâmpada para os nossos pés. Jamais nos conservaremos no elevado caminho do Rei, que leva ao céu, se não estivermos jornadeando ilu­minados por essa luz. Com toda a razão podemos temer que, entre os crentes, a Bíblia não é lida de maneira suficiente.


Não basta possuirmos as Escrituras. É necessário lê-las e orar a respeito de nós mesmos. A Bíblia não nos fará nenhum bem se, tão-somente, ficar guardada em nossos lares. Antes, precisamos estar familiarizados com o conteúdo das Escrituras, com o seu texto armazenado em nossa mente e em nossa memória. O conhecimento bíblico nunca pode ser adquirido por mera intuição. Tal conhecimento só pode ser adquirido mediante a leitura regular, trabalhosa, diária, atenta e desperta. Queixamo-nos do tempo e do trabalho que isso nos custa? Se assim estivermos fazendo, então isso será sinal de que ainda não estamos aptos para o reino de Deus.

Em último lugar, devemos aprender o quanto nosso Senhor Je­sus Cristo é um Salvador que simpatiza conosco. “Pois naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados” (Hb 2.18).

A simpatia de Jesus por nós é uma verdade que deveria ser par­ticularmente valorizada por todos os crentes. Eles poderão descobrir que essa é uma verdade que serve de mina de poderosas consolações. Nunca deveriam esquecer-se de que eles contam com um poderoso Amigo nos céus, o qual simpatiza com eles em todas as tentações e provações por que tiverem de passar. Ele sente, juntamente com eles, as suas an­siedades espirituais.

São os crentes tentados, por Satanás, a desconfiarem da bondade e dos cuidados de Deus por eles? Jesus também foi tentado desse modo. São eles tentados à presunção, em relação à misericórdia divina, arriscando-se desnecessariamente e sem garantias? Assim tam­bém Jesus foi tentado. Eles são tentados a cometer algum grande pecado particular, como se isso lhes oferecesse alguma vantagem? Essa tam­bém foi uma das tentações que assaltou a Jesus Cristo. São eles tentados a fazer alguma errônea aplicação das Escrituras, como justificativa para a prática do mal? Outro tanto sucedeu a Jesus.

Ele é exatamente o Sal­vador de que precisam aqueles que são tentados. Por conseguinte, que os crentes se refugiem no Senhor, pedindo-Lhe ajuda e expondo diante dEle todas as suas dificuldades. E então haverão de descobrir que Ele está sempre preparado a simpatizar com eles. Jesus pode entender todas as suas tristezas.

Oxalá todos nós reconhecêssemos, em nossa própria experiência diária, o quanto vale um Salvador cheio de simpatia! Não há nada que se lhe possa comparar, neste nosso mundo frio e enganador. Aqueles que buscam encontrar a felicidade neste mundo e desprezam a religião revelada nas Escrituras, não fazem a mínima idéia do verdadeiro con­solo que estão perdendo.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

MARCOS: O EVANGELHO DOS MILAGRES


AS BOAS NOVAS DO EVANGELHO DE CRISTO (MC 1.1)

Marcos é considerado um dos evangelhos sinóticos. O termo sinótico vem de duas palavras gregas, cujo significado é “ver conjuntamente”.[1] Dessa maneira, Mateus, Marcos e Lucas tratam basicamente dos mesmos aspectos da vida e ministério de Cristo. Dos evangelhos sinóticos, Marcos é o mais breve.

O Evangelho de Marcos é geralmente considerado o primeiro evangelho que foi escrito, diz Darrell Bock. [2] Embora esse fato não tenha um consenso unânime, a maioria dos estudiosos crê que Marcos foi escrito antes dos outros evangelhos. J. Vernon McGee defende a tese de que Marcos foi escrito por volta do ano 63 da era cristã. [3] Sendo, assim, William Barclay o considerava o livro mais importante do mundo, visto que serviu de fonte para os outros evangelhos e é o primeiro relato da vida de Cristo que a humanidade conheceu. [4]

Dos 661 versículos de Marcos, Mateus reproduz 606. Há apenas 55 versículos de Marcos que não se encontram em Mateus, mas Lucas utiliza 31 destes. O resultado é que há somente 24 versículos de Marcos que não se encontram em Mateus ou Lucas. Isso parece provar que tanto Mateus quanto Lucas usaram o evangelho de Marcos como fonte. [5]

No entanto, por que quatro evangelhos? Nós temos quatro evangelhos, porque cada um foi escrito a um público diferente. [6] Mateus foi escrito para os judeus e apresentou Jesus como o rei. Marcos escreveu para os romanos e apresentou Jesus como servo. Lucas escreveu para os gregos e apresentou Jesus como o homem perfeito. João escreveu um evangelho universal e apresentou Jesus como Deus, o verbo encarnado. Assim, os evangelhos foram endereçados a pessoas diferentes e com propósitos diversos.


O AUTOR DO EVANGELHO DE MARCOS

Duas coisas nos chamam a atenção:

A primeira é a identidade de Marcos descrita nas Escrituras. O nome completo do autor desse evangelho é João Marcos, sendo que João é seu nome hebraico e Marcos seu nome romano. 

Temos várias informações importantes sobre esse personagem nas Escrituras:

Em primeiro lugar, Marcos era filho de Maria, uma cristã que hospedava cristãos em sua casa (At 12.12). Isso significa que João Marcos procedia de uma família aquinhoada de bens materiais e tinha familiaridade com a igreja, desde sua juventude.

Em segundo lugar, Marcos participou da primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé (At 12.25). Ele saiu de Jerusalém com Paulo e Barnabé e foi morar em Antioquia da Síria, de onde saiu com eles para a primeira viagem missionária na região da Galácia. João Marcos era um auxiliar hypẽrtẽs de Barnabé e Saulo nessa primeira viagem missionária (At 13.5).

Em terceiro lugar, Marcos desistiu da primeira viagem missionária no meio do caminho (At 13.13). Não sabemos precisamente as razões que levaram Marcos a desertar dessa viagem. Elencamos três sugestões: Paulo decidiu largar a região costeira e ir para o interior, onde os perigos eram imensos; Paulo passou a ocupar a liderança da viagem, até então ocupada por Barnabé; a insegurança característica de sua própria juventude e inexperiência.

Em quarto lugar, Marcos é rejeitado por Paulo na segunda viagem missionária (At 15.37-40). A rejeição de Paulo ao ingresso do jovem Marcos na segunda viagem missionária teve repercussões profundas na agenda missionária da Igreja e no relacionamento dos dois grandes líderes Paulo e Barnabé. Houve tal desavença entre eles, que Barnabé deixou Paulo e partiu para uma nova frente missionária, levando consigo a Marcos para Chipre, sua terra natal.

Em quinto lugar, Marcos era primo de Barnabé (Cl 4.10). Esse fato revela que a família de Marcos era abastada. Sua mãe tinha uma casa que servia de lugar de encontro da Igreja primitiva e Barnabé era homem de posses (At 4.37). Isso também lança uma luz sobre o fato de que Barnabé, além de sua característica de consolador, não desamparou a Marcos, quando este foi barrado por Paulo no seu intento de participar da segunda viagem missionária.

Em sexto lugar, Marcos esteve preso com Paulo em Roma (Cl 4.10). Marcos tornou-se um grande líder cristão do século 1. Jerônimo disse que ele foi ao Egito e ali plantou a igreja de Alexandria.[7] Agora, ele está preso em Roma, com Paulo, durante a sua primeira prisão.

Em sétimo lugar, Marcos tornou-se um cooperador de Paulo (Fm 24). A Carta a Filemom foi escrita no interregno entre a primeira e a segunda prisão de Paulo em Roma. Paulo destaca que nesse tempo Marcos era seu cooperador.

Em oitavo lugar, Marcos foi chamado por Paulo para assisti-lo no final da sua vida (2Tm 4.11). Marcos estava em Éfeso quando Paulo foi preso pela segunda vez. Agora, Paulo está num calabouço romano, aguardando o seu martírio. Paulo reconhece que o mesmo jovem que ele dispensara no passado agora lhe é útil e deseja tê-lo como seu cooperador no momento final da sua vida. Isso nos prova a mudança de conduta de Paulo bem como sua mudança de conceito acerca de Marcos.

Em nono lugar, Marcos era considerado um filho de Pedro na fé (1Pe 5.13). Marcos teve um estreito relacionamento com Pedro. O apóstolo o chama “meu filho”. Possivelmente o próprio Pedro o tenha levado a Cristo e seja seu pai na fé. Quando Pedro foi solto da prisão, foi para a casa de Maria, mãe de Marcos, onde a igreja estava reunida.

Em décimo lugar, Marcos é apontado pela maioria dos estudiosos como o jovem que se vestiu com um lençol para ver Jesus (Mc 14.51,52). Nesse tempo esse jovem era apenas um seguidor casual de Cristo. Era apenas um espectador curioso que queria acompanhar o desenrolar da prisão do rabi da Galiléia, mas estava inadequadamente vestido no meio da multidão. Ao ser agarrado pela soldadesca que prendia a Jesus, fugiu desnudo.

A segunda coisa que nos chama a atenção é que Marcos é considerado o autor do Evangelho que leva o seu nome. Embora Marcos não tenha sido um discípulo de Cristo, seguramente presenciou muitos fatos da sua vida, visto que morava em Jerusalém e sua casa tornou-se um ponto de encontro da igreja.

Os pais da Igreja, unanimemente aceitaram a autoria de Marcos deste evangelho.8[8] Papias, um dos pais da Igreja do começo do século 2, afirma que o evangelho de Marcos é a compilação do testemunho pessoal de Pedro acerca da vida e ministério de Cristo. Marcos não foi discípulo de Cristo, mas de Pedro. De acordo com Papias, Marcos foi o hermẽneutẽs (intérprete) de Pedro.[9] William Hendriksen diz que não temos nenhuma razão para rejeitar a tradição de que Marcos foi, essencialmente, o “intérprete” de Pedro, pois o conteúdo do livro confirma essa conclusão.[10] Esse relato de Papias, que aparece em uma obra de Eusébio, bispo de Cesaréia, autor da primeira grande História da Igreja,[11] no século 4, é o mais antigo registro da autoria de Marcos.

Marcos, que foi o intérprete de Pedro, escreveu acuradamente tudo o que ele relembrou, tanto sobre o que Cristo disse quanto o que Cristo fez, porém não em ordem. Embora Marcos não tenha ouvido nem acompanhado o Senhor, mais tarde acompanhou Pedro, de quem recebeu todas as informações, de tal maneira que ele não cometeu nenhum engano em seu relato, não omitindo nada do que ouviu nem acrescentando qualquer falsa afirmação acerca do que recebeu.[12]

Outros pais da Igreja, incluindo Justino, o mártir, Tertuliano, Clemente de Alexandria, Orígenes e Eusébio, confirmam Marcos como o autor desse evangelho.[13] Também associam o evangelho de Marcos com o testemunho do apóstolo Pedro.[14] Irineu, outro pai da Igreja, afirma: “Depois da morte de Pedro e Paulo, também Marcos, discípulo e intérprete de Pedro, nos legou por escrito as coisas que foram pregadas por Pedro”.[15] Marcos é o mais aramaico dos evangelhos, o que evidencia ser um relato da palavra falada de Pedro. O esboço desse evangelho, ainda está afinado com o conteúdo do evangelho pregado por Pedro na casa de Cornélio (At 10).[16]


A DATA E O LOCAL EM QUE O EVANGELHO FOI ESCRITO

Robert Gundry afirma que Marcos foi o primeiro evangelho a ser escrito.[17] Não existe um consenso unânime acerca da data da sua redação; entretanto, ele deve ter sido escrito entre 55 e 70 d.C, ou seja, antes da destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., uma vez que ele não faz qualquer menção desse fato predito por Jesus (13.1-23). Jerusalém foi destruída pelo exército romano sob a liderança de Tito, depois de 143 dias de cerco. Durante essa batalha, seiscentos mil judeus foram mortos e milhares levados cativos.

Irineu e outros pais da Igreja defenderam a tese de que Marcos foi escrito depois do martírio de Pedro e Paulo. Contudo, essa posição contraria a tese de alguns estudiosos que afirmam que Marcos foi o primeiro evangelho que foi escrito sendo a fonte primária dos demais.[18]

O local onde Marcos escreveu o seu evangelho é Roma, uma vez que Marcos está presente com Paulo em sua primeira prisão e é chamado para estar com ele em sua segunda prisão.

Nesse tempo, Roma era a maior cidade do mundo, com mais de um milhão de habitantes[19] e Nero era o imperador. Ele começou a reinar em 54 d.C. com a idade de 16 anos. Os primeiros anos de seu reinado foram de relativa paz e, por isso, por volta do ano 60 d.C. Paulo apelou para ser julgado em Roma (At 25.10,11).

Na primeira prisão de Paulo, ele tinha liberdade de pregar aos líderes judeus (At 28.17-28), bem como a todas as pessoas que o procuravam (At 28.30,31), inclusive à própria guarda pretoriana (Fp 1.13; 4.22). Depois dessa primeira prisão, Paulo foi solto. Mas no ano 64 d.C. Nero pôs fogo em Roma e colocou a culpa nos cristãos. Doravante, uma perseguição sangrenta foi iniciada contra os cristãos. Eles foram queimados vivos, enrolados em peles de animais para os cães morderem, pisoteados por touros, devorados pelos leões esfaimados e passados ao fio da espada.

Nesse tempo de terrível perseguição Paulo foi novamente preso, possivelmente em Nicópolis, onde ele intentava passar o inverno (Tt 3.12). Transferido para Roma, Paulo foi colocado numa masmorra, no calabouço Marmetine, no centro de Roma, perto do fórum.[20] Nesse tempo, Marcos não estava em Roma, visto que Paulo pede a Timóteo para trazê-lo consigo (2Tm 4.11).


PARA QUEM MARCOS ESCREVEU O EVANGELHO

O consenso geral entre os estudiosos é que Marcos foi escrito de Roma para os cristãos que viviam em Roma.[21] Segundo William Hendriksen, Marcos foi escrito para satisfazer o pedido urgente do povo de Roma por um resumo dos ensinos de Pedro.[22] 

As evidências podem ser destacadas como seguem:

Em primeiro lugar, Marcos enfatiza mais as obras de Cristo que os seus ensinos. Warren Wiersbe diz que o fato de Marcos ter escrito com os romanos em mente ajuda-nos entender seu estilo e abordagem. A ênfase nesse evangelho é sobre atividade.[23] Os romanos estavam mais interessados em ação que em palavras, por isso Marcos descreve mais os milagres de Cristo que os seus ensinos. Marcos registra dezoito milagres e apenas quatro parábolas. O termo que liga como elo os acontecimentos é a palavra imediatamente. Jesus está sempre se movendo de uma ação para outra. Ele está curando os cegos, limpando os leprosos, levantando os paralíticos, libertando os possessos, acalmando a tempestade, levantando os mortos. Graham Twelftree nessa mesma linha de pensamento afirma que Marcos é mais um evangelho de ação que de ensino. As coisas acontecem logo ou imediatamente – uma das expressões favoritas de Marcos. Marcos só tem dois discursos, um é sobre as parábolas do Reino (4.1-33), e o outro é escatológico (13.1-37). Há muitos milagres. Combinados com sumários de cura, essas unidades compreendem um terço do evangelho e quase metade dos primeiros dez capítulos.[24]

Em segundo lugar, Marcos apresenta Jesus como servo. Por esta causa o evangelho de Marcos não se inicia com genealogia. Os romanos não estavam interessados em genealogia, mas em ação. Um servo não tem genealogia. Jesus apresenta-se como aquele que veio para servir e não para ser servido (Mc 10.45).

Em terceiro lugar, Marcos se detém em explicar os termos judaicos aos seus leitores. Quando Jesus ressuscitou a filha de Jairo, a tomou pela mão e lhe disse: “Talita cume”, que quer dizer: “Menina eu te mando, levanta-te”.

Em quarto lugar, Marcos preocupou-se em explicar os costumes judaicos. Em várias ocasiões, ele explica os costumes judaicos para seus leitores (7.3,4; 7.11; 14.12).

Em quinto lugar, Marcos usou várias palavras latinas. Isso pode ser constatado observando alguns textos (5.9; 12.15, 42; 15.16, 39).

Em sexto lugar, Marcos foi o evangelista que menos citou o Antigo Testamento. Ele, por exemplo, não cita em seu evangelho o termo “lei”.

Em sétimo lugar, Marcos usou a contagem de tempo romano. Podemos constatar isso em (6.48; 13.35). Portanto, todas as evidências nos indicam que Marcos escreveu esse evangelho para os romanos.


A SITUAÇÃO DE ROMA NO SÉCULO 1

Quando o imperador Augusto morreu, no ano 14 d.C., Roma era uma cidade esplêndida. Ele chegou a gabar-se que tinha herdado uma cidade de barro e feito dela uma cidade de mármore.[25] A capital do império tinha cerca de um milhão de habitantes e hospedava várias culturas, povos e religiões. O porto de Roma, Óstia, tornou-se o centro do comércio mundial. Havia uma riqueza ostensiva na cidade de Roma. Construções monumentais eram erguidas e o luxo dos ricos era exorbitante. Ao mesmo tempo, havia também uma extrema pobreza e miséria. Os navios despejavam seus produtos por intermédio dos braços surrados dos escravos. Na cidade, prevaleciam a corrupção, a anarquia e a decadência moral. A bebedeira e a orgia faziam subir um mau cheiro repugnante da reluzente metrópole (Rm 13.11-14). Foi para essa cidade enfeitiçada pelo prazer que Marcos escreveu o seu evangelho.

Nessa cidade do prazer e do luxo, uma igreja foi plantada. Essa igreja foi duramente perseguida a partir do ano 64 d.C. Os cristãos eram queimados vivos, lançados nas arenas para serem pisoteados pelos touros, enrolados em peles de animais para serem devorados pelos cães raivosos.[26] Foi para essa igreja mártir que Marcos escreveu seu evangelho. Havia martírios atrás de si e à sua frente.


AS CARACTERÍSTICAS DISTINTIVAS DO EVANGELHO DE MARCOS

O evangelho de Marcos tem algumas características peculiares:

Em primeiro lugar, Marcos é totalmente kerigmático em sua ênfase.[27] O livro começa focando o cerne da sua mensagem: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (1.1). Jesus apresenta-se nesse evangelho como pregador (1.14, 15; 1.38, 39). Por essa mensagem deve-se dar a vida (8.35; 10.29). Essa mensagem deve ser pregada ao mundo inteiro (13.10; 14.9; 16.15).

Em segundo lugar, Marcos enfatiza a popularidade do ministério de Jesus. Quando Jesus ensinava e por onde andava, as multidões se reuniam ao seu redor (1.33, 45; 2.2,13,15; 3.7,9,20; 4.1,36; 5.21,24,31; 6.34; 8.1; 9.15,25; 10.1,46).

Em terceiro lugar, Marcos enfatiza a questão da identidade de Jesus.[28] O Pai lhe disse: “Tu és meu Filho amado” (1.11; 9.7). Seus discípulos perguntaram: “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (4.41). Seus contemporâneos interrogavam: “Não é este o carpinteiro, filho de Maria?” (6.3). Herodes pensa que ele é João Batista que ressuscitou. Outros: Ele é Elias, que voltou. Ainda outros: É um profeta! (6.15; 8.28). Os demônios confessam: “Tu és o santo de Deus” ou “Filho de Deus” (1.24; 3.11; 5.7). Seus parentes dizem: “Está fora de si” (3.21). Os rabinos dizem: “Está possesso” (3.22,30). Pedro confessa: “Tu és o Cristo” (8.29). Para Bartimeu ele é o Filho de Davi (10.47). Até Judas o identifica: “É esse!” (14.44). Caifás pergunta oficialmente: “És tu o Cristo?”, e Pilatos: “És tu o rei dos judeus?” (14.61 e 15.2) e recebem a resposta: “Eu o sou”, “Tu o dizes!” (14.62; 15.2). O comandante ao pé da cruz confessa: “Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus!” (15.39). Na manhã da Páscoa, os mensageiros celestiais dizem: “Ele ressuscitou” (16.6).

Em quarto lugar, Marcos é o evangelho da ação. Jesus é apresentado nesse evangelho como servo que está sempre em atividade. Marcos descreve Cristo, sempre ocupado, se deslocando de um lugar para outro, curando, libertando, pregando e ensinando as pessoas. As obras de Cristo têm mais ênfase que as suas palavras. Marcos contém somente uma parábola que não é encontrada em nenhum outro evangelho (4.26-29), enquanto Lucas tem dezoito parábolas que lhe são peculiares. Entre os seis grandes discursos de Mateus, somente um, o das últimas coisas (Mt 24 e Mc 13), acha-se igualmente relatado em Marcos, e mesmo assim, de forma resumida.[29] Movimento é mais fascinante que o discurso.[30] O advérbio euthys (imediatamente, logo, então) ocorre mais de quarenta vezes em Marcos.[31] Marcos descreve Jesus como um rei ativo, energético, que se move rapidamente como um conquistador vitorioso sobre as forças da natureza, da doença, dos demônios e da morte.

Em quinto lugar, Marcos apresenta Jesus como Filho de Deus. Jesus disse ao povo, para os discípulos, para os líderes religiosos e para os opositores que ele era o Filho de Deus. Ele demonstrou seu poder para perdoar, curar, libertar e deter as forças da natureza. Ele provou ser o Filho de Deus rompendo os grilhões da morte e saindo da sepultura.[32]

Em sexto lugar, Marcos apresenta Jesus como servo. A mais espantosa mensagem de Marcos é que o Filho de Deus veio para ser servo. Aquele que é perfeitamente Deus, também é perfeitamente homem. O Messias entrou na História não para conquistar os reinos do mundo com espada, mas para servir os homens, aliviar suas aflições, curar suas enfermidades, levantar os caídos, morrer na cruz para a remissão de seus pecados. Como servo, Jesus foi tentado, falsamente acusado, perseguido, ferido, cuspido, ultrajado, pregado na cruz.[33]

Em sétimo lugar, Marcos apresenta Jesus como aquele que tem poder para operar milagres. Marcos enfatiza mais os milagres de Cristo do que seus sermões. Em cada capítulo do evangelho até seu ministério final em Jerusalém, há pelos menos o registro de um milagre. Ele realizou milagres para demonstrar sua compaixão pelas pessoas (1.41,42), para convencer as pessoas acerca de quem Ele era (2.1-12) e para ensinar os discípulos acerca da sua verdadeira identidade como Deus (8.14-21).

Em oitavo lugar, Marcos enfatiza o sofrimento de Cristo. Nenhum outro evangelho deu tanta ênfase à paixão de Cristo quanto Marcos. 

Adolf Pohl registra esse fato de forma resumida:

Jesus entra em cena de repente, sem que se diga uma só palavra sobre sua infância, juventude e vida adulta. Já no começo do capítulo 2 aparece a acusação de blasfêmia, cuja pena é a morte (2.7). No começo do capítulo 3 sua morte já está decidida (3.6). Na seqüência, um grupo após o outro o condena: os parentes (3.21), os teólogos (3.22), o povo (4.12), os gentios (5.17), a cidade natal (6.3), o rei (6.14s.) e os religiosos (7.5). O anúncio da própria morte de Jesus ocupa neste livro a posição central como nenhum outro assunto (8.31; 9.31; 10.33s.) [...] Os dias finais em Jerusalém ocupam um espaço superdimensionado (a partir do capítulo 11), mais ou menos um terço do livro. A ressurreição é descrita em poucos versículos (16.1-8).[34]


A MENSAGEM CENTRAL DO EVANGELHO DE MARCOS (1.1)

O primeiro versículo desse evangelho é tanto o título do livro quanto a síntese do seu conteúdo.[35] Ele traz a sua mensagem central. Alguns comentaristas como William Hendriksen relacionam a palavra “princípio” com a atuação de João Batista nos versículos seguintes,[36] mas a melhor compreensão é que Marcos está introduzindo o conteúdo de todo o evangelho.[37]

J. Vernon McGee diz que há três começos mencionados na Bíblia: Primeiro, no princípio era o verbo (Jo 1.1). Esse princípio está antes do tempo, no bojo da eternidade. Ele não pode ser datado. Segundo, no princípio criou Deus os céus e a terra (Gn 1.1). Esse começo é quando nos movemos da eternidade para o tempo. Nenhum estudioso conseguiu precisamente datar esse princípio, embora ele esteja dentro do tempo. Terceiro, princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus (Mc 1.1). Esse princípio começa quando Jesus Cristo se fez carne. Jesus Cristo é o evangelho. Esse princípio pode ser datado.[38] Marcos fala do princípio do evangelho, porque o evangelho estende-se à obra de Cristo por meio do seu Espírito e sua Igreja, conforme o ensino de Atos 1.1.

A parte mais importante do evangelho não é o que nós devemos fazer, mas o que Deus fez por nós em Cristo. O evangelho não é discussão nem debate, mas uma proclamação. O evangelho está centralizado na pessoa de Jesus Cristo. O conteúdo do evangelho é Jesus Cristo: sua vida, obra, morte, ressurreição, governo e segunda vinda.

James Hastings diz que Cristo criou o evangelho pela sua obra; Ele pregou o evangelho pelas suas palavras, mas Ele é o próprio evangelho.[39]

Como Marcos escreveu seu evangelho para os romanos, que davam grande importância à concisão, vai direto ao assunto e já no primeiro versículo destaca o título pleno do Senhor, que abarca sua humanidade, sua missão redentora e sua divindade.[40] Ele é plenamente homem (Jesus). Ele é o ungido de Deus (Cristo). Ele é plenamente divino (Filho de Deus).

Marcos iniciou sua mensagem, revelando-nos a essência do evangelho. Sem essa gloriosa doutrina, diz John Charles Ryle, não teremos nada sólido debaixo dos nossos pés. Nossos corações são fracos, nossos pecados são muitos. Nós precisamos de um redentor que seja capaz de salvar completamente e libertar-nos da ira vindoura. Nós temos esse salvador em Jesus Cristo. Ele é o Deus forte (Is 9.6).[41]

LOPES, Hernandes Dias. Marcos: O Evangelho dos Milagres. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 13-28

__________________________________
1 Barclay, William, Marcos. Editorial La Aurora. Buenos Aires 1974, p. 11.
2 Bock, Darrell L, Jesus segundo as Escrituras. Shedd Publicações, São Paulo, SP, 2006: p. 28.
3 McGee, J. Vernon, Mark. Thomas Nelson Publishers. Nashville, Atlanta, 1991: p. vii.
4 Barclay, William, Marcos, 1974: p. 11.
5 Barclay, William, Marcos, 1974: p. 12.
6 McGee, J. Vernon, Mark, 1991: p. viii.
7 Harrison, Everett, Introdución al Nuevo Testamento. TELL. Grand Rapids, Michigan. 1980: p. 177; William Barclay. Marcos, 1974: p. 13.
8 Barton, Bruce B, et all. Life Application Bible Commentary – Mark. Tyndale House Publishers. Wheaton, Illinois, 1994: p. xii.
9 Gunthrie, Donald, New Testament Introduction, 1990: p. 83.
10 Hendriksen, William, Marcos. Editora Cultura Cristã. São Paulo, SP, 2003: p. 24.
11 Pohl, Adolf, Evangelho de Marcos. Editora Evangélica Esperança. Curitiba, PR, 1998: p. 19.
12 Eusebius, Ecclesiastical History III: p. 39.
13 Barton, Bruce B, et all. Life Application Bible Commentary – Mark, 1994: p. xii.
14 Gundry, Robert H, Panorama do Novo Testamento. Edições Vida Nova. São Paulo, SP, 1978: p. 86.
15 Contra as heresias III. i.1.
16 Harrison, Everett, Introdución al Nuevo Testamento. TELL. Grand Rapids, Michigan, 1980: p. 177.
17 Gundry, Robert H, Panorama do Novo Testamento. Edições Vida Nova. São Paulo, SP, 1978: p. 85.
18 Barton, Bruce B, et all. Life Application Bible Commentary – Mark, 1994: p. xiii.
19 Barton, Bruce B, et all. Life Application Bible Commentary – Mark, 1994: p. xiii, xiv.
20 Barton, Bruce B, et all. Life Application Bible Commentary – Mark, 1994: p. xvi, xvii.
21 Guthrie, Donald, New Testament Introduction, 1990: p. 73,74; Bruce B. Barton et all. Life Application Bible Commentary – Mark, 1994: p. xvi.
22 Hendriksen, William, Marcos. Editora Cultura Cristã. São Paulo, SP, 2003: p. 28,29.
23 Wiersbe, Warren, Be Diligent. Victor Books. Wheaton, Illinois, 1987: p. 10.
24 Twelftree, Graham H, Jesus the Miracle Worker: A Historical and Theological Study. Downers Grove. Illinois. InterVarsity, 1999: p. 57.
25 Pohl, Adolf, Evangelho de Marcos. Editora Evangélica Esperança. Curitiba, PR, 1998: p. 27,28.
26 Pohl, Adolf, Evangelho de Marcos, 1998: p. 29.
27 Harrison, Everett, Introdución al Nuevo Testamento, 1980: p. 181.
28 Pohl, Adolf, Evangelho de Marcos, 1998: p. 33.
29 Hendriksen, William, Marcos. Editora Cultura Cristã. São Paulo, SP, 2003: p. 31-32.
30 Guthrie, Donald, New Testament Introduction. Interversity Press. Downers Grove. Illinois, 1990: p. 61.
31 Harrison, Everett, Introdución al Nuevo Testamento, 1980: p. 182.
32 1.1,9-11,21-34; 2.1-12,23-28; 3.7-12; 4.35-41; 5.1-20; 8.27-31; 9.1-13; 10.46-52; 11.1-19; 13.24-37; 14.32-42,60-65; 16.1-8.
33 1.40-45; 3.1-12; 7.31-37; 8.22-26, 34-38; 9.33-50; 10.13-45; 12.38-44; 14.17-26,32-50; 15.1-5,12-47.
34 Pohl, Adolf, Evangelho de Marcos, 1998: p. 34.
35 Barton, Bruce B, et all. Life Application Bible Commentary – Mark, 1994: p. 1.
36 Hendriksen, William, Marcos, 2003: p. 49.
37 Pohl, Adolf, Evangelho de Marcos, 1998: p. 41.
38 McGee, J. Vernon, Mark, 1991: p. 18.
39 Hastings, James, The Great Texts of the Bible. St. Mark Vol. IX. Erdmans Publishing Company. Grand Rapids, Michigan. N.d.: p. 17.
40 Trenchard, Ernesto, Una exposición del Evangelio según Marcos. ELB. Madrid, 1971: p. 12.
41 Ryle, John Charles, Mark. Crossway Books. Wheaton. Illinois, 1993: p. 2.