sexta-feira, 22 de abril de 2016

ESTUDO Nº 01 - A SALVAÇÃO É PELA GRAÇA (Rm 3.1-31) - Estudos Bíblicos nas Cartas de Paulo


Qual é o fundamento da salvação do pecador? Seriam as obras por ele praticadas? Seria porventura algum mérito nele existente? O homem tem alguma participação em sua própria salvação? Se tem, qual é ela? Se não tem, como ele pode ser salvo? Por que o pecador precisa ser salvo? Salvo de quê? Essas são algumas perguntas que surgem com naturalidade na mente de alguém que se disponha a estudar as causas e objetivos da salvação. Muitas respostas podem ser dadas a essas perguntas, dependendo da referência adotada. Nós, como cristãos, basearemos nossas respostas a essas perguntas tão somente na Palavra de Deus. Nosso intuito é descobrir o que a Escritura nos diz sobre a salvação. Passemos ao nosso estudo.


I. O ALCANCE E OS EFEITOS DO PECADO (Rm 3.23; 6.23)

Antes de falar sobre a salvação graciosa de Deus precisamos compreender o motivo pelo qual precisamos de salvação e por que não podemos ser salvos pelos nossos próprios méritos e esforços, mas somente pela Graça de Deus. [1] Para tanto é necessário que atentemos para a doutrina bíblica sobre o alcance e os efeitos do pecado. Essa doutrina recebe o nome de doutrina da depravação total.

A doutrina da depravação total, que diz que o homem está morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1,2), não significa que todos os homens sejam igualmente maus, nem que o homem é tão mal quanto poderia ser, alcançando, assim, o ápice da maldade, nem que o homem esteja completamente destituído de toda e qualquer virtude, nem que a natureza humana seja má em si mesma. Essa doutrina ensina apenas que, uma vez que o homem segue o curso do pecado (Ef 2. l ,2), ele está completamente sujeito ao pecado, tendo motivações pecaminosas, inclinações pecaminosas, facilidade para pecar, está espiritualmente morto e, por isso, é incapaz de fazer ou querer qualquer coisa que o conduza à salvação, bem como é totalmente incapaz de merecer a salvação mediante suas próprias obras. [2]

O homem não-regenerado, que chamaremos de homem natural, pode, pela aplicação da Graça comum de Deus, amar sua família e ser um bom cidadão, cultivando elevadas virtudes e valores morais, tais como a honestidade, a justiça, a bondade, a coragem, etc. Ele pode exercer atos de misericórdia e caridade, mas não pode agradar a Deus, pois todas essas virtudes e boas obras feitas por alguém que não foi alcançado pela Graça salvadora de Deus apresentam um defeito em sua natureza: Não estão sendo praticadas com vistas à estrita glorificação de Deus. A grande questão que deve ser observada é que Deus aceita primeiro a pessoa, e depois aceita aquilo que ela faz. Quando a pessoa não é aceita, suas obras também não o serão, pois sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11.6). Esse foi o princípio usado por Deus ao aceitar a oferta de Abel e recusar a oferta de Caim. Veja o que diz o relato bíblico: Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta (Gn 4.4). A oferta de Caim, por outro lado, não foi aceita porque o próprio Caim não foi aceito. Veja o que Deus diz a Caim: Se procederes bem, não é certo que serás aceito? (Gn 4.7). Hebreus diz que Deus aprovou as ofertas de Abel porque ele obteve o testemunho de ser justo (Hb 11.4). Como podemos ver, esse é o princípio bíblico para a aceitação das boas obras (o próprio culto é visto como uma boa obra). Primeiro Deus aceita a pessoa, e depois aceita as obras. Se a pessoa não for aceita, isto é, se não for uma pessoa redimida, suas obras não serão aceitas. E por isso que as obras do homem natural não são suficientes para merecer-lhe a salvação. A fé é o fundamento de todas as virtudes, e ela mesma está fundamentada sobre a Graça. Nenhuma obra é aceita por Deus se ela não estiver alicerçada na Graça. [3]

Outro efeito do pecado na vida humana é o de impedir que o pecador compreenda as realidades espirituais necessárias à sua salvação. Paulo explica esse fenômeno dizendo que o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente (I Co 2.14). O homem natural carece de uma capacitação do Espírito para que possa discernir as realidades espirituais. Sem essa capacitação ele jamais compreenderá a extensão e a gravidade de seu pecado e, conseqüentemente, jamais compreenderá a sua necessidade de salvação. O homem natural está cego em seu entendimento e os seus sentimentos estão corrompidos pelo pecado, como Paulo nos ensina em 2 Coríntios 4.3-4. A natureza humana não é má em si mesma, isto é, em essência, porque foi criada por Deus e vista por ele mesmo como sendo muito boa (Gn 1.31). Contudo sua atual condição é de total corrupção ocasionada pelo pecado. Sendo essa corrupção uma condição da natureza humana, está além de seu poder mudá-la. Isso só pode ser feito pela obra regeneradora de Deus na vida do pecador. O contraste entre o efeito da regeneração com o efeito do pecado é claramente ensinado no relato de Paulo a respeito de sua vocação ministerial: Para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus (At 26.18). [4]

Paulo, escrevendo aos Efésios, dá mais um bom motivo pelo qual o homem natural é incapaz de obter a salvação por seus próprios méritos. Ele diz que Deus vos deu vida, estando vós mortos em seus delitos e pecados (Ef 2.1). O fato de o homem natural estar morto em seus delitos e pecados significa que ele é incapaz de tomar qualquer atitude espiritual. Se uma pessoa está morta no sentido físico, não há qualquer possibilidade de que essa pessoa tome qualquer atitude física. Um cadáver nada pode fazer neste mundo, nem mesmo a seu próprio favor, no intuito de tirá-lo da morte. O mesmo acontece quando uma pessoa está espiritualmente morta. Ela é totalmente incapaz de fazer ou mesmo de querer qualquer coisa, mesmo que seja para que ela saia da morte.

Podemos concluir essa parte deste estudo dizendo que as Escrituras ensinam que o homem é totalmente incapaz de, por si mesmo, livrar-se de seu pecado e dos efeitos que o pecado produz em sua vida, inclusive no que diz respeito à salvação. Ele é incapaz de entender e, conseqüentemente, de fazer as realidades espirituais. Na verdade, ele é incapaz de fazer ou querer qualquer coisa, por menor que seja, na dimensão espiritual, pois está espiritualmente morto. Diante dessa realidade, sua única possibilidade de salvação está na Graça de Deus. [5]


II. SALVAÇÃO PELA GRAÇA (Rm 3.24,28)

A Escritura declara que a salvação do pecador só é possível pela manifestação da Graça salvadora de Deus em favor do homem. Em Efésios 1.3-14 o apóstolo Paulo ensina que o propósito Deus na salvação do pecador é mostrar a glória de sua Graça ao expressá-la imerecidamente àqueles que não têm direito a ela. Todos os homens estavam em um tal estado de pecado e miséria (Rm 3.23) que nada podiam fazer para alcançar sua própria salvação.

Por serem todos os homens igualmente pecadores, eram todos merecedores da mesma recompensa, a saber, a recompensa do pecado, que é a morte (Rm 6.23). É oportuno observar, a essa altura, que os pecadores em sua condição caída e afastada de Deus não são cidadãos de um determinado Estado, onde todos têm direito aos mesmos benefícios, como por exemplo, uma chance de salvação. Eles são pecadores culpados e condenados, merecedores da pena que corresponde aos seus delitos. Paulo diz que essa pena é a morte (Rm 6.23). Ninguém tem direito à salvação. No entanto, o Senhor, em seus inescrutáveis decretos eternos, determinou, baseado em sua livre e soberana Graça, salvar um grupo de pecadores, dentre todos os que mereciam o inferno e a morte. Desta forma ele não se faz culpado pela condenação daqueles aos quais sua Graça não foi concedida, pois eles são condenados pelo seu próprio pecado. Por outro lado, Deus é o autor e consumador da fé (Hb 12.2) daqueles que ele escolheu para conceder sua Graça salvadora. Para viabilizar a redenção de seu povo (Mt 1.21) Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, que assumiu a natureza humana e levou sobre si a culpa pelos pecados do seu povo, e também seu Espírito, que é quem aplica em nós a redenção adquirida por Jesus. Ao aplicar no coração do pecador a redenção garantida por Jesus, o Espírito imputa a Jesus os nossos pecados, para que sejam cobertos e perdoados, e imputa-nos a justiça de Jesus, que pagou por nós o que devíamos (Rm 3.20-28; 5.18,19; Fp 3.8,9). [6]

A palavra Graça, em seu sentido bíblico, significa o livre e imerecido amor de Deus expresso em favor do pecador digno de condenação. Isso significa que a Graça de Deus não reconhece no homem qualquer tipo de merecimento, pois onde há merecimento não pode haver graciosidade (Rm 4.4,5). A salvação do pecador depende única e exclusivamente da soberana Graça de Deus.

A doutrina da salvação pela Graça não invalida a doutrina da santificação, pelo contrário, fortalece-a ainda mais, ensinando que aqueles que foram imerecidamente salvos pela Graça devem responder a essa Graça com santidade e obediência. A santidade do pecador redimido provém da justiça imaculada de Cristo, que lhe é imputada pelo Espírito. Quando Deus olha para o pecador salvo ele o vê vestindo as vestiduras brancas (Ap 7.13,14) lavadas no sangue do Cordeiro. [7]

Uma vez que Deus obteve a salvação do pecador à sua própria custa, é perfeitamente natural que em sua soberania ele escolha aqueles aos quais ele quer concedê-la. Nada é mais enfatizado na Escritura do que o caráter gracioso da salvação (Is 53.4-5,11-12; 2 Co 5.21; I Pe 2.24; 3.18). A doutrina bíblica da salvação pela Graça elimina toda possibilidade de merecimento humano da salvação, e por isso é geralmente vista com reservas, mas o ensino bíblico deve ser recebido pelo povo de Deus exatamente como é, e não como criaturas sujeitas a erros e falhas gostariam que ele fosse. O profeta Isaías fala sobre a justiça humana nos seguintes termos: Todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidade, como um vento, nos arrebatam (Is 64. 6. Veja também Is 59.1-21 e Rm 1.18-27). Da mesma forma, quando Isaías diz “Ah! Todos vós, que tendes sede, vinde às águas, e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite”, ele está anunciando a Graça através da qual pecadores que nada merecem (não possuem dinheiro, ou seja, não possuem méritos para adquirir aquilo de que necessitam), fartar-se-ão daquilo que lhes é concedido pela Graça. [8]

Sendo a salvação uma obra da livre e soberana Graça de Deus, ela não pode ser creditada às obras do homem. Nem mesmo o ato de crer pode ser visto como uma obra do homem a favor de sua própria salvação porque até mesmo a fé é apresentada nas Escrituras como uma dádiva de Deus (Ef 2.8,9). A fé é aquilo que podemos chamar de causa instrumental da salvação, ou o instrumento usado por Deus para que o homem creia. A causa meritória, contudo, é a Graça de Deus. O que Deus enxerga no pecador não é o mérito do pecador, mas a fé, que é dádiva do próprio Deus. No livro de Atos podemos ver a fé sendo apresentada como obra da Graça (18.27). Vemos também que a vida eterna é decorrente da Graça (13.48) e que é prerrogativa de Deus abrir o coração do pecador para que este responda ao Evangelho (16.14). [9]

O efeito imediato da aplicação da Graça de Deus ao coração do pecador é a purificação de sua natureza, fazendo com que o redimido passe a amar a justiça de Deus e creia em Cristo para sua salvação. Antes da ação da Graça na natureza humana, o elemento natural do pecador era o pecado. Depois da ação da Graça seu elemento passa a ser a santidade. Isso significa que o pecado se torna repulsivo ao redimido. A Graça transforma a vida do pecador e cria nele uma semente de santificação, que deve ser cultivada mediante os meios de Graça oferecidos por Deus.

A redenção, em um certo sentido, completou-se quando Cristo morreu na cruz. Em outro sentido ela se completa quando é aplicada pelo Espírito ao coração do pecador. Mas ela tem também um sentido escatológico, futuro, que se completará quando Cristo vier buscar sua Igreja.

A doutrina bíblica da salvação pela Graça não é uma doutrina fria, nem uma teoria especulativa, nem um sistema de ensinos doutrinários estranhos, como muitas pessoas costumam pensar. Ela é a mais quente, viva e dinâmica doutrina bíblica a respeito do relacionamento de Deus com o homem. O cristão que tem essa doutrina em seu coração sabe que está em um caminho que seguramente o conduzirá ao reino de Deus. Ele sabe que seu caminho é abençoado e que nada poderá roubar os tesouros para ele reservados no Reino de Deus (IPe 1.3-5). Quando o cristão se vê como um escolhido de Deus ele pode compreender com facilidade que todos os seus atos possuem um significado eterno e que deve ser grato ao Senhor por ter sido tirado do império das trevas e conduzido para o Reino da Luz, o que é uma grande alavanca motora para o desenvolvimento de sua vida de santidade.


CONCLUSÃO

O estudo que fizemos nas Escrituras sobre a salvação conduz-nos à seguinte conclusão: A salvação não está fundamentada sobre qualquer mérito humano, pois não existem méritos no pecador perdido pelos quais possa salvar-se. O fundamento da salvação do pecador é a Graça de Deus, o que significa que o homem é totalmente passivo em sua própria salvação.

A necessidade de salvação do homem repousa sobre o fato de ser ele um
pecador, o que faz com que ele seja totalmente incapaz de fazer algo  para restaurar sua comunhão com Deus. Diante da impossibilidade do pecador salvar-se, Deus, graciosamente, decidiu redimir um grupo de pecadores dentre todos os que mereciam, igualmente, a morte eterna





[1] SPROUL, R. C. Salvo de quê? Compreendendo o significado da salvação. São Paulo: Ed. Vida, 2006
[2] BAREN, Gise Van. Depravação Total. Fireland Missions: janeiro de 2013 
[3] MACARTHUR, J. SPROUL, R. C., BEEKE, Joel. Justificação pela fé somente. São Paulo: Editora Cultura cristã, 2013.
[4] MURRAY, John. Comentário da Epístola aos Romanos. São José dos Campos: Editora Fiel, 2003.
[5] EDWARDS, Jonathan. A soberania de Deus na salvação dos homens. São Paulo: Editora O Estandarte de Cristo, S/D.
[6] HOEKEMA, Anthony. Salvos Pela Graça: A Doutrina Bíblica da Salvação, 2ª ed. Revisada, São Paulo: Cultura Cristã, 2002
[7] BOICE, James Montgomery. O Evangelho da Graça: A aventura de restaurar a vitalidade da igreja com as doutrinas bíblicas que abalaram o mundo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
[8] CALVINO, João. Exposição de Romanos. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Edições Paracletos, 1997.
[9] BOICE, James Montgomery. O Evangelho da Graça: A aventura de restaurar a vitalidade da igreja com as doutrinas bíblicas que abalaram o mundo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

segunda-feira, 21 de março de 2016

ESTUDO Nº 09 - O MINISTÉRIO DA INTEGRIDADE (2 Coríntios 5.11-17)



INTRODUÇÃO

Paulo enfrentava diversas oposições ao seu ministério e pessoas. Esteve preso, outras vezes fora apedrejado, torturado, fustigado com varas... Mas quanto aos coríntios, estes diziam que Paulo não era apóstolo porque não foi testemunha ocular da vida terrestre de Jesus, nem lhe conheceu as palavras e atos. Por isso, não podia ser testemunha do Evangelho.

Alguns lideres da Igreja de Corinto, estavam questionando a verdadeira condição espiritual de Paulo, o qual já tinha manifestado sua sinceridade, honestidade e autenticidade. Aqui ele defende sua integridade contra os mentirosos que estavam atacando ele, Paulo fala de três motivos para a sua defesa: temor, integridade e o amor de Cristo pela igreja.


I. TEMOR – CONCEITOS E DEFINIÇÕES TEOLÓGICAS, v. 11

1. E assim, conhecendo o temor do Senhor, - A palavra assim indica que o que Paulo está prestes a dizer é continuação do que vinha dizendo no versículo 10, sobre o crente estar preparado para comparecer perante o tribunal de Cristo. Paulo não tem “medo” do Senhor, mas um “temor reverente” e reconhece que sua vida toda e seu ministério ficarão sob o escrutínio de Deus. Ele persuade aos homens mediante esta sua convicção. [1]

2. Definições teológicas - “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9.10). Este temor não é uma barreira ao crescimento, mas um caminho para o crescimento e a realização eterna. 

Existem dois tipos de temor.

a) O temor como “medo”. Um tipo de temor é aquele que foge do Senhor com pavor, que se esconde e se afasta dele com terror. Esse tipo de medo é pagão, não cristão, que se sente assim é um adversário de Deus, Hb 10.27. 

b) O temor como reverência e amor. Temer a Deus é respeitá-Lo como sendo quem é; é reverenciá-Lo e obedecê-Lo baseado em toda a revelação de Sua santidade, justiça, grandeza, misericórdia, benignidade, vontade, amor e outros milhares de atributos revelados a nós.

Comentando este texto, Wiersbe, afirma que: "O famoso estudioso da Bíblia B. F. Wescott escreveu certa vez: Cada ano me faz estremecer diante da ousadia com que as pessoas falam de coisas espirituais (...) Observamos, muitas vezes, uma falta de reverência nos encontros da igreja, de modo que não é de causar espanto que as gerações mais jovens não estejam levando as coisas de Deus a sério.” [2]

Calvino, ligando esse versículo ao anterior, ele escreveu: “Porquanto, conhecer o temor do Senhor é conscientizar-se de que cada um de nós, um dia, terá de prestar contas de todas as suas ações ante o tribunal de Cristo. E, se alguém considera seriamente tal coisa, esse mesmo não pode fazer outra coisa senão despertar-se pelo temor e livrar-se de todas as suas negligências” [3]

É o temor que evita que o homem faça coisas que destroçam o coração daqueles que ama. “O temor do SENHOR é limpo” (Salmo 19:9). [4]

3. Persuadimos aos homens. - O apóstolo está dizendo que a certeza de que deverá prestar contas a Deus motiva-o a ser diligente em seus esforços no sentido de persuadir os homens, fazê-los chegar à obediência da fé, de acordo com seu chamado. Ele procurou remover barreiras, vencer preconceitos e ignorância, convencer mediante argumentação e testemunho, e pela proclamação honesta e franca do evangelho. [5]


II. INTEGRIDADE – LONGE DE TODA A FALSA APARENCIA, v. 12-13

Paulo está tentando convencer os homens de sua própria sinceridade. Não tem nenhuma dúvida de que aos olhos de Deus suas mãos estão limpas e seus motivos são puros, mas seus inimigos suspeitaram dele, e deseja demonstrar sua sinceridade a seus amigos de Corinto. 

1. Glória na aparência, v. 12 - “Gloriar-se na aparência”, se refere ao sistema de avaliação do mundo. Os falsos apóstolos em Corinto (11.13), se comportavam dentro desta filosofia mundana, que se gloriavam na aparência exterior, com base em si mesmos e sendo dirigidos pelos desejos por dinheiro, poder e prestígio e não pela sinceridade do coração. [6]

A partir de indícios encontrados tanto nos capítulos 1-7 como nos capítulos 10-13, que os falsos apóstolos de Corinto se orgulhavam de suas:
a) De suas cartas de recomendação que portavam (3.1),
b) de sua eloquência, (10.10; 11.6);
c) de sua ascendência judaica (11.22),
d) de suas experiências extáticas e visionárias (12.1)
e) e os sinais apostólicos que desempenhavam (12.11-13). [7]

Paulo está plenamente consciente de seus oponentes e de sua influência nociva na comunidade coríntia. Ele percebe que eles estão se gabando de suas próprias credenciais. São guiados pela vista e não pela fé; apresentam uma mensagem impotente que estimula um ministério centrado em resultados.

Eles se gloriavam em possuir essas coisas externas e zombavam de Paulo porque não as possuía. Seus objetivos eram gloriar-se a respeito de aparências, habilidades e linhagem, mas eles não viam que a verdadeira religião (Tg 1.27) é uma questão do coração que precisa estar acertado com Deus (I Sm 16.7). Segundo Paulo, gloriar-se deve ser sempre gloriar-se no Senhor (1Co 1.31). [8]

Comentando este versículo, Calvino escreveu: “Isto significa fazer da aparência externa um disfarce, e considerar a sinceridade do coração como de nenhum valor, pois aqueles que são realmente sábios jamais se gloriarão, a não ser em Deus (1 Co 1.31). Mas, onde há exibicionismo fútil, aí não há sinceridade, nem retidão de coração. [9]

Ele teve uma revelação divina quando foi arrebatado ao terceiro céu (12.2), mas essa visão em nada contribuiu para seu ministério ao povo de Deus (12.5, 6). Visões e revelações faziam parte da vida de Paulo, mas ele nunca exibiu essas experiências como distintivos de autoridade apostólica. Paulo estava interessado não em se promover, mas em expandir a Igreja a que ele servia sem permitir qualquer distração. Assim, ao servir a Jesus, ele seguia nos passos do Senhor (Jo 13.15, 16). 

2. “Porque se enlouquecemos” v. 13 – Provavelmente se refere aos momentos de adoração e oração durante os quais Paulo era visto em intensa consciência da presença de Deus. Vendo assim, se pensou que Paulo estava louco (At 26.24). Esta frase grega significa geralmente sofrem de demência ou ser delirante, mas aqui Paulo usou o termo para descrever-se como uma devoção dogmática da verdade. 

Paulo estava sofrendo a mesma incompreensão que Jesus tinha sofrido (Mc 3.21). Jesus fora acusado de loucura por causa de seu zelo inquebrantável no ministério (Mc 3.21), e porque seu ensino ofendia a seus ouvintes (Jo 10.20). A pessoa verdadeiramente entusiasta sempre corre o risco de parecer um louco para as pessoas indiferentes. [10]


III. O AMOR DE CRISTO, v 14-17

1. O amor de Cristo nos constrange, v.14 [11]- A expressão "o amor de Cristo" significa amor por nós no contexto de sua morte sacrifical. "Nós amamos porque ele nos amou primeiro" (1 Jo 4.19). Ele nos amou quando não éramos dignos de ser amados, quando éramos ímpios, pecadores e seus inimigos (Rm 5.6-10). 

Quando morreu na cruz, Cristo provou seu amor pelo mundo (Jo 3:16), pela igreja (Ef 5:25) e pelos pecadores como indivíduos (Gl 2:20). 

a) Morreu para que vivêssemos (w. 15-17) - Este é o aspecto positivo de nossa identificação com Cristo: não apenas morremos com ele, mas também fomos ressuscitados com ele para que pudéssemos andar em "novidade de vida" (Rm 6:4). 

b) Ele morreu para que vivêssemos por meio dele - Essa é nossa experiência de salvação, a vida eterna pela fé em Jesus Cristo, 1 Jo 4.9.

c) Ele morreu para que vivêssemos para ele, não para nós mesmos. Esta é nossa experiência de serviço, 2 Co 5.15.

2. E morreu por todos (?), v. 15 - Isto expressa a verdade da morte vicária de Cristo. Esta verdade está no coração da doutrina da própria salvação. A ira de Deus contra o pecado exigida morte como pagamento. Jesus recebeu toda aquela raiva e morreu no lugar do pecador. 

Um aspecto teológico - Será que Paulo tem em mente que Cristo morreu por todo ser humano? Ou está se referindo a todo crente? O que podemos dizer é que a morte expiatória de Cristo é suficiente para todas as pessoas, mas eficiente para todos os verdadeiros crentes. Só aqueles que em fé se apropriam da morte de Cristo é que estão incluídos na palavra todos. O uso de “todos” nas cartas de Paulo nem sempre significa universalidade. 

Com esta breve frase, Paulo definiu a extensão da expiação e limitado a sua aplicação. Toda esta declaração o sentido lógico da frase anterior e, assim, afirma: "Cristo morreu por todos os que morreram em Cristo" ou "um morreu por todos, logo todos morreram". Paulo estava cheio de gratidão que Cristo amou e tinha tanta graça a ele que fez dele um dos "todos" os que morreram nEle.


3. Se alguém está em Cristo, v. 17 - Estas duas palavras – está em Cristo - são uma breve, mas profunda declaração de infinita importância do resgate do crente, que inclui o seguinte:
(1) a segurança do crente em Cristo, que carregou em seu corpo o juízo de Deus contra pecado;
(2) a aceitação do crente em Aquele em quem Deus se agrada;
(3) a segurança futura do crente naquele que é a ressurreição para a vida eterna, e que a única garantia da herança do crente no céu, e
(4) a participação do crente na natureza divina de Cristo, a Palavra eterna (2. Pe 1.4).

Ser Nova criatura descreve algo que é criado para um novo nível de excelência. Refere-se a regeneração ou o novo nascimento (Jo 3.3, Ef 2.1-3; Tito 3.5, 1 Pe 1.23, 1 Jo 2.29). O termo inclui o perdão para os cristãos de seus pecados que foram pagos na morte vicária de Cristo. (Gl 6.15; Ef 4.24). 

Coisas antigas já passaram - depois que uma pessoa foi regenerada, sistemas, valores, prioridades, crenças, amores e planos para a velha vida se foram. O mal e o pecado ainda estão presentes, mas o crente vê uma nova luz e não mais controlado. 

Tudo se fez novo - a gramática grega indica que a nova condição é contínua e prática. A nova percepção espiritual que o crente tem de todas as coisas é uma realidade constante para ele, e agora vive por toda a eternidade, as coisas não temporais. 


CONCLUSÃO

Neste pequeno texto fomos confrontados por três aspectos que foram bem elucidados durante explanação da lição: [12]

1. Temor a Deus - Paulo andava de forma íntegra com Deus e com os homens. Ele temia a Deus, por isso, nada tinha a esconder dos homens. Seus motivos e suas ações estavam abertos diante de Deus. 

2. Não se gloriar na aparência - Paulo não se gloriava em suas credenciais nem procurava se auto-afirmar perante os coríntios, mas simplesmente sustentava sua integridade pessoal.

3. O amor de Cristo - Fator determinante que motivou Paulo a abraçar o mi­nistério da nova aliança foi o amor de Cristo. O amor de Cristo o constrangeu, motivou-nos e empurrou-o a entre­gar-se ao ministério da reconciliação. A motivação certa para os atos da vida cristã é o amor, e não o dever (Jo 14.15). 

Enquanto entre os homens, o exemplar Paulo, apóstolo do Senhor Jesus Cristo, marcou sua vida e a de outros de diversas formas. Aliás, ele ainda faz isso através de seus preservados e inspirados escritos para diversas igrejas e pessoas de sua época. Ele foi incontestavelmente um eminente modelo, um exímio mestre e um espetacular mentor.

_____________________
[1] KRUSE, Colin. II Coríntios: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.
[2] WIERSBE, William. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[3] CALVINO, João. 2 Coríntios: Série Comentários Bíblicos . São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2008.
[4] BARCLAY, William. 2 Coríntios: O Novo Testamento Comentado. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1983.
[5] IBID
[6] MACARTHUR, John. Comentários da Bíblia de Estudo de John MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010
[7] KRUSE, Colin. II Coríntios: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.
[8] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
[9] CALVINO, João. 2 Coríntios: Série Comentários Bíblicos . São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2008
[10] Notas da Bíblia de Estudo de Genebra.
[11] WIERSBE, William. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[12] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007

ESTUDO Nº 08 - O TRIBUNAL DE CRISTO (2 Coríntios 5.6-10)



INTRODUÇÃO

Nem todo cristão tem grandes ambições quanto à vida com o Senhor, mas todos terão de comparecer diante do Senhor, e o tempo de se preparar para esse encontro é agora. Pela obra que Cristo, em sua graça, realizou na cruz, os cristãos não serão julgados por seus pecados (Jo 5.24; Rm 8.1), no entanto, terão de prestar contas de suas obras e serviços para o Senhor.

Não existe obra alguma que possa salvar alguém (Tito 3.5). Contudo, depois de ter sido salvo, entende-se que o filho de Deus anda na prática de boas obras, Ef 2.10.

Em todo o Novo Testamento há somente duas citações literais sobre o “Tribunal de Cristo”, 2 Co 5.10 e Rm 14.10. Mas, há em todo o novo testamento nuances e referenciais de que esse julgamento irá acontecer, como por exemplo a parábolas dos talentos, Mt 25.14-30.


I. TRIBUNAL DE CRISTO – CONCEITOS E DEFINIÇÕES TEOLÓGICAS

1. Etimologia da palavra - Duas palavras distintas na língua original do Novo Testamento esclarecem bem o sentido da palavra tribunal: criterion, conforme está em Tg 2.6 e 1Co 6.2,4; e bemá, encontrada em 2 Co 5.10. 

O termo bemá comumente significa uma “plataforma ou um banco de assento onde o juiz julga”. Havia naqueles tempos tribunais militares e, também, o tribunal (bemá ou assento) da recompensa, especialmente utilizado nos jogos gregos de Atenas. Os atletas vencedores eram julgados perante o juiz da arena e galardoados por suas vitórias.

O tribunal de Cristo é o acontecimento futuro no qual o povo de Deus ficará diante do Salvador, e suas obras serão julgadas e recompensadas. Paulo era ambicioso em seu trabalho para o Senhor, pois desejava comparecer diante de Cristo confiante, não envergonhado. A versão NVI traduz o v. 9, assim: “Porém, acima de tudo, o que nós queremos é agradar o Senhor, seja vivendo no nosso corpo aqui, seja vivendo lá com o Senhor”. [1]

Todas as atividades que os crentes realizam durante a sua vida que se relacionam com a sua recompensa eterna e louvar a Deus. Em seus olhos, tudo o que fazem os cristãos em seu corpo temporário terá um impacto para a eternidade. [2]


II. TRIBUNAL DE CRISTO – INTERPRETAÇÕES TEOLÓGICAS

1. Dispensacionalista e pré-milenistas: De acordo com o pensamento, há mais de um julgamento que está por vir. Eles não vêem o Mt 25.31-46 como descrevendo o juízo final (o grande trono branco) mencionado em Ap 20.11-15, mas sim a um julgamento posterior à tribulação e anterior ao início do milênio. [3]

Na perspectiva dispensacionalista há vários tribunais (julgamentos): [4]

a) O julgamento das nações (Mt 25.31-46), para determinar quem entra no milênio. Dizem que este será um "julgamento das nações" em que elas serão julgadas de acordo com o modo pelo qual tiveram tratado o povo judeu durante a tribulação.

b) O julgamento das obras dos crentes (Tribunal de Cristo), será para entrega de galardões aos crentes (2 Co 5.10). As pessoas julgadas nesse tribunal são os santos remidos por Cristo. Só entrarão os salvos, os remidos. Não haverá lugar nesse tribunal para julgamento condenatório. [5]

c) O julgamento do grande trono branco, ao final do milênio, para declarar o castigo eterno para os incrédulos (Ap 20.11-15).

2. Visão Reformada das Escrituras – Amilenistas e pós-milenistas afirmam que o ensino bíblico acerca da ressurreição geral implica em que haverá apenas um único juízo final. Dizem que todos os textos que fazem referência ao juízo escatológico apontam para um evento único, o qual será pronunciado sobre toda a humanidade no último dia, que é visto como um dia singular (Jo 5.28-29; At 17.31; 2 Pe 3.7; 2 Ts 1.7-10; Ap 20.11-14). [6]

Segundo Wayne Grudem Mateus 25.31-46, 2 Co 5.10 e Apocalipse 20.11-15, todas essas três passagens falam dum mesmo juízo final e não de três julgamentos separados.  Com relação a Mt 25.31-46 ele comenta: [7]

1. É improvável que a visão dispensacionalista esteja correta. Não há nenhuma menção de entrada do milênio nessa passagem, além disso os julgamentos pronunciados tratam não da entrada no reino milenar sobre a terra, ou da exclusão deste, mas sim do destino terreno das pessoas, é só ler atentamente os versículos 34, 41 e 46 e isto estará bem claro.

2. Por fim, Deus seria incoerente com os seus costumes revelados através das Escrituras se ele lidasse com o destino eterno das pessoas tomando por base a nação ao qual elas pertencem, pois nações incrédulas têm crentes no meio delas e para com Deus não há acepção de pessoas (Rm 2.11).

3. Embora de fato todas as nações estejam reunidas perante o trono de Cristo nesta cena (Mt 25.32) o quadro do juízo é de julgamento de indivíduos (as ovelhas são separadas dos cabritos) ovelhas e cabritos representam indivíduos e não nações, os indivíduos que tratam com bondade os irmãos de Cristo são acolhidos com alegria no reino, enquanto aqueles que os rejeitam serão rejeitados v 35-40 e v 42-45.

Segundo Berkhof, não haverá três ou mais julgamentos. [8]

Há passagens nas Escrituras que evidenciam abundantemente que os justos e os ímpios comparecerão juntos no juízo para uma separação final (Mt 7.21-23; 25.31-46; Rm 2.5-7; Ap 11.18; Ap 20.11-15).

E finalmente, deve-se ter em mente que Deus não julga nações como nações quando estão em pauta questões eternas, mas somente indivíduos e que uma separação final dos justos e dos ímpios, não tem a menor possibilidade de ser feita antes do fim do mundo. 

Segundo Hoekema, o ensino bíblico acerca da ressurreição geral Implica que haverá apenas um juízo final, não vários julgamentos diferentes, pois é dito que o juízo final se seguirá á ressurreição. [9]


III. TRIBUNAL DE CRISTO - PROCESSO

1. O que será julgado? - Não devemos olhar para o Tribunal de Cristo como Deus julgando nossos pecados, mas sim como Deus nos galardoando por nossas vidas. Sim, como dizem as Escrituras, teremos que dar conta de nossas vidas.  

As obras que fizermos por meio do corpo serão provadas pelo fogo e podem ser aprovadas ou reprovadas (1 Co 3.12-15). Não está em jogo agora o que é moralmente bom ou mau, mas o que foi bom ou mau na edificação da igreja, o que é comparável a “ouro, prata, pedras preciosas”, e o que é comparável a “madeira, feno, palha” (1Co 3.12). [10]

Esse julgamento incluirá o desvendamento e a avaliação dos motivos de nossos corações:
a) Se foi feito por amor ao Senhor, 1 Co 13.3.
b) Se as fizemos de boa vontade, receberemos galardão, 1 Co 9.17-18;
c) Quais as motivações que nos impeliram , 1 Co 4.5
d) Mas se as fizemos com motivos de auto benefício e inveja, nada receberemos, Fp 1.15.

De acordo com essa avaliação, o caráter bom ou mau da vida do cristão é compensado pela retribuição ou falta de retribuição, destacando-se a imparcialidade estrita e a justiça do julgamento. [11]

2. O Senhor julgará - Cada pessoa comparece no tribunal e ouve o veredicto baseado em sua conduta na terra. Quando o Senhor voltar (1Co 4.5), todas as obras, quer boas ou más, serão reveladas. Nessa ocasião, ele determina a recompensa para cada pessoa por ações executadas pela instrumentalidade do corpo enquanto estava na terra. [12]
a) Como usamos os recursos que ele nos deu, Mt 25.19-21
b) O trabalho que fizemos ao Senhor e à igreja, 1 Co 3.8; Hb 6.10; Mt 10.41,42.
c) Nossas relações com nossos irmãos, 1 Jo 2.8-11.
d) Aquilo que sofremos por amor a Cristo, Lc 6.22-23; Ap 2.10.
e) Nossa fidelidade como despenseiros (1 Co 4.1-5).

O tribunal de Cristo será meticuloso. Nossas palavras, ações, omissões e pensamentos serão julgados. O que nós semearmos, isso será o que colheremos (Gl 6.7-8). O Senhor retribuirá, a cada um, segundo o seu procedimento (Rm 2.6). [13] 

O tribunal dos homens julga apenas as ações, mas o tribunal de Cristo julga as intenções (l Co 4.3).

3) Que recompensas nós receberemos? - Haverá recompensas entregues e estas serão em forma de coroas: [14]

a) A coroa da vitória, 1 Co 9.25 - A vida crista se constitui numa batalha espiritual contra três inimigos terríveis: a carne, o mundo e o Diabo. Esta coroa é denominada, também, como coroa incorruptível, porque se refere à conquista do domínio do crente sobre o velho homem.

b) A coroa de gozo, 1 Ts 2.19; Fp 4.1 - A palavra gozo significa prazer, alegria, satisfação. Uma das atividades cristã que mais satisfazem o coração do crente é o ganhar almas. Isto é, praticar o evangelismo pessoal e ganhar pessoas para o reino de Deus. 

c) A coroa da justiça, 2 Tm 4.7-8 - É o premio dos fiéis, dos batalhadores da fé, dos combatentes do Senhor, os quais vencendo tudo esperam a Sua vinda;

d) A coroa da vida, Ap 2.10; Tg 1.12 - Não se trata da simples vida que temos aqui. Essa coroa é um prêmio especial porque implica conquista de um tipo de vida superior à vida terrena, ou simples vida espiritual, como a tem os anjos. É o galardão da fidelidade do crente.

e) A coroa de glória, 1 Pe 5.2-4 - Certos eruditos na Bíblia entendem que esta coroa é o galardão dos ministros fiéis que promoveram o reino de Deus na Terra, sem esperar recompensa material.

O próprio Senhor Jesus, Juiz desse tribunal, é quem fará a entrega dos prêmios, galardões, recompensas (2 Co 9.6; Ap 22.12). O apóstolo Paulo declara, também, que todo crente receberá o seu louvor (elogio) da parte de Deus (1 Co 4.5).

O propósito dos galardões não é glorificar quem os recebeu, mas aquele que os entregou. Vivemos para glorificar a Deus, agora e no porvir. Assim, cremos que as coroas serão oferecidas ao Cordeiro (Ap 4.10), como uma oferta de cada crente ao seu Senhor. Assim, o tesouro que ajuntamos no céu será para glorificar ao Mestre e não para exibição dos servos. [15]


CONCLUSÃO

A lição maior que aprendemos acerca do tribunal de Cristo consiste em atentarmos diligentemente para a nossa responsabilidade individual como cristãos no que se refere às ações tanto as de caráter social quanto as espirituais praticadas em benefício do reino de Deus.

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[1] WIERSBE, William. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[2] MACARTHUR, John. Comentários da Bíblia de Estudo de John MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010
[3] HORTON, Stanley M. Nosso Destino, o ensino bíblico das últimas coisas. Rio de Janeiro, RJ; CPAD, 1998.
[4] PENTECOST, J. Dwight. Manual de Escatologia. São Paulo: Vida, 2006.
[5] BERGSTÉN, Eurico. Introdução à Teologia Sistemática. RJ, 1.ed. CPAD, 1999.
[6] FERREIRA, F; MYATT, A. Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Ediçoes Vida Nova, 2007, p 1073
[7] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1999, p. 975-976.
[8] BERKHOF, LOUIS. Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Cultura Cristã, São Paulo, 1999, p. 673.
[9] HOEKEMA, Anthony . A Bíblia e o Futuro. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 1989, p. 341.
[10] BOOR, Werner. 2 Cartas aos Coríntios – Comentário Bíblico Esperança. Curitiba: Editora Esperança, 2004.
[11] BRUCE. F. F. Comentário Bíblico NVI. São Paulo, SP: Editora Vida, 2009., p. 1952
[12] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
[13] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007.
[14] HOWARD, Rick. O Tribunal de Cristo. Rio de Janeiro, RJ: CPAD, 2000.
[15] CLARK, David S. Compêndio de Teologia Sistemática. Saõa Paulo, SP: Cultura Cristã, São Paulo, 1988.

ESTUDO Nº 07 - A NOSSA HABITAÇÃO CELESTIAL (2 Coríntios 5.1-10)



INTRODUÇÃO

O cap. 5 está intimamente relacionado com o precedente (4.16-18), e desenvolve mais a idéia da glória eterna do crente, em contraste com sua presente vida temporal.

Paulo entra em maiores particularidades, quando trata da ressurreição pessoal dos crentes, do que a maioria dos outros escritores do Novo Testamento. [1]

Paulo acabara de falar de um corpo fraco e de um espírito renovado (4.16), de um presente doloroso e de um futuro glorioso (4.17), e de coisas visíveis temporais e coisas invisíveis eternas (4.18). Agora, ele continua sua argumentação mostrando que a morte não é o fim da linha, mas o raiar de uma gloriosa eternidade. A morte não tem a última palavra, mas esperamos o glorio­so corpo da ressurreição.[2]


I. A CASA TERRESTRE E A CELESTIAL, 1-4

Nesta passagem há uma progressão muito significativa do pensamento, progressão que nos dá a própria essência do pensamento de Paulo, com respeito a transformação do corpo na vinda de Jesus.

1. O Conceito de corpo, v.1 - Os gregos, romanos e alguns judeus tinham uma concepção equivocada com respeito ao corpo. os pensadores gregos e romanos desprezavam o corpo. Diziam: "O corpo é uma tumba."

Contudo, Paulo chama este corpo terreno e fisico de “tabernáculo” (templo do Espírito Santo, 1 Co 6.19), que um dia irá se desfazer. Por isso ele, usa a metáfora familiar de um tabernáculo que pode ser desmontado a qualquer tempo (cf. Hb 11.8-10).

Quando isso acontecer, receberemos uma “casa não feita por mãos, eterna, nos céus”, ou seja, um corpo ressurreto prometido aos crentes.

Ray Stedman corretamente diz que uma barraca ou tenda é habitação transitória e temporária, enquanto a casa é uma habitação definitiva e permanente. Quando morrermos, mu­daremos do que é temporário para o que é permanente; da barraca para a casa, eterna nos céus.[3]

Para Paulo será um dia prazeroso aquele em que se desfaça de seu corpo humano. Considera-o simplesmente como uma tenda, um lugar onde se vive transitoriamente, em que residimos até chegar o dia em que se dissolve e entramos na verdadeira morada de nossa alma. [4]

2. Um gemido pelo que é eterno, v. 2-4 – A palavra “gememos” é usada por Paulo por duas vezes (v. 2, 4) e é como ele se expressa para mostrar a sua frustração diante das limitações desta vida, com seu pecado, fraqueza e corrupção. Ele expressa uma forte vontade de ser vestido com a vestimenta que Deus providencia.

O gemido é uma expressão profunda de dor, desconforto e sofrimento. O gemido expressa nossa fraqueza e impotência.

Em sua Epístola aos Romanos, Paulo menciona os gemidos da criação, dos redimidos e do Espírito. Tanto a criação como os remidos suportam aflição e anseiam pelo dia em que os filhos de Deus serão libertados, isto é, quando experimentarão a redenção do corpo. Enquanto isso, o próprio Espírito Santo geme enquanto intercede em favor do povo de Deus (Rm 8.22, 23, 26). [5]

3. Uma condicional – “se, todavia, formos encontrados vestidos e não nus” (v. 3) - Earle Ellis mantém que o conceito nu deve ser visto no contexto de vergonha, culpa e julgamento, uma interpretação que apresenta o conceito num cenário ético e que antecipa as referências de Paulo ao trono do juízo de Cristo (v. 10).


II. A CONSUMAÇÃO DO PROPÓSITO DE DEUS, 5-8

1. foi o próprio Deus quem nos preparou, v. 5 - Paulo escreve que Deus nos preparou “para esse exato propósito”, mas qual é o propósito? É ser revestido com um corpo ressurreto e a futura glória que Deus já preparou para nós. Em outras palavras, Deus reservou em nosso plano futuro uma existência, da qual a vida pura de Adão e Eva no paraíso é um reflexo. Essa existência é aquela que Deus projetou originalmente, antes de o pecado ter entrado no mundo, aquela que agora ele tem planejado para nós. No fim dos tempos, cada cristão será revestido com um corpo transformado ou ressurreto. [6] 

2. Portanto, sempre bom ânimo, v. 6 – Paulo mais uma vez usa expressões para nos animar com respeito ao futuro glorioso de cada crente (4.1,16; 5.). A despeito de muitas dificuldades, corrupção do corpo, tribulações (4.16-18) ele permaneceu confiante em Deus, ele reiterou várias vezes sua confiança e o fato de que não desanimou. E para vencer o desânimo, o olhar de Paulo se volta para Deus, que nos “prepara para isso”, a fim de desejarmos ser revestidos.

3. Visto que andamos por fé, e não pelo que vemos, v. 7-8 - Isto sugere que enquanto estamos no corpo, Deus não está acessível à nossa vista (e neste sentido estamos ausentes do Senhor), só podemos alcançá-lo mediante a fé (cf. Jo 20:29).

Por mais real que a habitação do Senhor como Espírito possa ser real em nós, por mais que possamos fazer tudo “em Cristo”, ainda assim não o vemos agora “como ele é”.


II. MOTIVAÇÃO PARA O MINISTÉRIO, 9-10

1. Por isso nos esforçamos, para lhe sermos agradáveis, v. 9 – A versão NVI traduz este versículo assim: “Porém, acima de tudo, o que nós queremos é agradar o Senhor, seja vivendo no nosso corpo aqui, seja vivendo lá com o Senhor”.  Paulo não deseja especular a respeito à maneira ou ao tempo que continuará a viver no corpo, ou se vai morrer logo e deixar o corpo. Mas ele pode determinar como vai viver, que vai vier para agradar ao Senhor. 

A palavra Esforçamos (gr philotimoumetha, "fazemos nossa ambição”). Em corpo ou fora do corpo, o alvo de Paulo seria de agradar unicamente a Deus. O esforço de Paulo, então, é agradar ao Senhor, não importa se for chamado a comparecer diante do tribunal dele (v. 10) ou se continuar pregando o evangelho (v. 11). 

O magnífico capítulo da ressurreição em 1Co 15 encerra com o encorajamento: “Sede abundantes na obra do Senhor!” [1Co 15.58].

2. Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, v.10 - Paulo determinou que vai viver para agradar o Senhor porque sabe que todos os crentes deverão comparecer perante o tribunal de Cristo. A palavra grega, aí, significa "trono para a concessão de prêmios" e era empregada com relação aos jogos olímpicos. 

Este tribunal é o momento de benção e alegria para todos os fiéis. Aqui é a recompensa do cristão, embora ele seja salvo pela graça pura (Ef 2.8), é a qualidade resultante da sua própria vida, vista como um todo' (Ef 6.8; cf. Lc 19.16-27; 1 Co 3.10-15). [7]

O tribunal de Cristo será meticuloso. Nossas palavras, ações, omissões e pensamentos serão julgados. O que nós se­mearmos, isso será o que colheremos (G16.7,8). O Senhor re­tribuirá, a cada um, segundo o seu procedimento (Rm 2.6).

O tribunal dos homens julga apenas as ações, mas o tribunal de Cristo julga as intenções (l Co 4.3).

3. Para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo, v. 10 - Deus avaliará as vidas e ministérios de seus filhos, e recompensará aos que agiram com fidelidade, enquanto os infiéis sofrerão a perda de todas as recompensas. – Rm 14.12

O que a pessoa fez por meio do corpo é que será avaliado no tribunal de Cristo. Ações que ocorreram durante a vida do crente em Seu ministério terreno. Isso não inclui o julgamento de pecados, porque eles são executados na cruz de Cristo (Ef 1.7). Paulo estava se referindo a todas as atividades que os crentes realizam durante a sua vida que se relacionam com a sua recompensa eterna e louvar a Deus. Em seus olhos, tudo o que fazem os cristãos em seu corpo temporário terá um impacto para a eternidade. [8]

O tribunal de Cristo será retribuidor. Será um lugar de prestação de contas, em que daremos um relatório de nos­sas obras (Rm 14.10-12). Será um lugar de recompensa e de reconhecimento para os fiéis (I Co 3.10-15; 4.1-6) e de condenação dos infiéis.[9]


CONCLUSÃO

O crente não somente está bem seguro pela fé de que existe outra vida ditosa, depois desta; tem boa esperança, pela graça, do céu como morada, um lugar de repouso, um esconderijo. Na casa de nosso Pai há muitas moradas, cujo arquiteto e fazedor é Deus. 

A felicidade do estado futuro é o que Deus tem preparado para os que o amam: habitações eternas, não como os tabernáculos terrenos, as pobres choças de barro em que agora habitam nossas almas; que apodrecem e se deterioram, cujos cimentos estão no pó. O corpo de carne é uma carga pesada, as calamidades da vida são uma carga pesada, porém os crentes gemem carregados com um corpo de pecado, e devido às muitas corrupções remanescentes que rugem dentro deles. 

A morte nos despirá das roupas de carne, e de todas as bênçãos da vida, e acabará com todos nossos problemas daqui embaixo. Mas as almas fiéis serão vestidas com roupas de louvor, com mantos de justiça e glória. [10]

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[1] DAVIDSON, F. O Novo Comentário da Bíblia. São Paulo, SP: Ediçoes Vida Nova, 1997.
[2] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007.
[3] STEDMAN, Ray. A Dinâmica da Vida Autentica. São Paulo: Editora Sepal, 1975
[4] BARCLAY, William. 2 Coríntios: O Novo Testamento Comentado. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1983.
[5] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
[6] IBID.
[7] BEACON. Comentário Bíblico: Romanos, 1 e 2 Coríntios – Vol 8 – Rio de Janeiro, RJ: CPAD,
[8] MACARTHUR, John. Comentários da Bíblia de Estudo de John MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010
[9] WIERSBE, William. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[10] HENRY, Mathews. Comentário Bíblico, vol 6. Rio de Janeiro, RJ: CPAD, 2004.