sexta-feira, 13 de abril de 2018

PORVENTURA, NÃO VALEIS VÓS MUITO MAIS DO QUE AS AVES?


PORVENTURA, NÃO VALEIS VÓS MUITO MAIS DO QUE AS AVES?
Trecho extraído do livro: D. M. Lloyd Jones, Estudos no Sermão do Monte,
edição comemorativa da Editora Fiel 


Nestes versículos, 25 a 30 (Mateus capítulo 6), temos estado a considerar a declaração geral de nosso Senhor no que concerne ao terrível perigo que nos ameaça nesta vida, devido à nossa tendência de nos interessarmos exageradamente, e de várias maneiras, pelas coisas deste mundo. Tendemos por ficar ansiosos acerca de nossa vida, acerca do que comeremos, acerca do que beberemos, e também por ficar ansiosos acerca do corpo, quanto àquilo que vestiremos. É assustador observar-se quantas pessoas parecem viver inteiramente dentro desses estreitos limites: alimento, bebida e vestuário parecem representar a totalidade de sua vida. Passam todo o seu tempo disponível pensando sobre essas coisas, falando sobre elas, discutindo com outros a respeito delas, argumentando e lendo acerca delas em vários livros e revistas. E este nosso mundo está se esforçando ao máximo para que todos vivamos exclusivamente nesse nível. Demos uma olhada casual nas estantes das livrarias e verificaremos como essas coisas são abundantemente providas. Pois essa é a mentalidade do mundo, e nisso se resume o seu interesse. Os homens vivem para essas coisas, e ficam preocupados e apreensivos acerca delas de diversas maneiras. Sabendo disso, pois, e tendo plena consciência desses perigos, nosso Senhor primeiramente nos fornece uma razão abrangente para evitarmos essa armadilha. 

Todavia, tendo-nos advertido que não devemos ficar ansiosos acerca do que comeremos, beberemos ou vestiremos, em seguida Cristo prosseguiu dando uma consideração separada para cada aspecto da questão. O primeiro desses aspectos é considerado nos versículos 26 e 27, abordando nossa existência, a continuação e o sustento de nossa vida neste mundo. Eis o argumento: “Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?” (v. 26 e 27). Alguns estudiosos preferem pensar que o versículo 27 pertence à seção seguinte; mas parece-me perfeitamente claro que, por razões que abordaremos a seguir, esse versículo necessariamente pertence à presente seção. No que concerne à questão inteira da alimentação, bem como da manutenção da vida, nosso Senhor nos proveu um duplo argumento, ou, se você assim o preferir, dois argumentos principais. O primeiro deles deriva-se das aves do céu. Pode-se notar que, neste ponto, o argumento do Senhor Jesus já não se alicerça sobre a ideia do maior em relação ao menor; antes, dá-se justamente o contrário. Tendo estabelecido a proposição em um nível inferior, Ele então eleva-se a um nível superior. Antes de tudo, Ele começa fazendo uma observação geral, chamando a nossa atenção para algo que é um fato da vida neste mundo. “Observai as aves do céu...” Olhai para elas. “Observar”, neste caso, é verbo que não implica em intensa contemplação. Jesus meramente pedia que olhássemos para uma coisa que sucedia diante de nossos olhos. Veja o que está diante de você – esses pássaros, essas aves do céu. Qual é o argumento que podemos deduzir dessas aves? É que essas aves, como é evidente, têm sua alimentação garantida pela providência divina. 

Há uma grande diferença entre os modos de como as aves e os homens são sustentados. No caso das aves, esse alimento lhes é providenciado. No caso do homem, um determinado processo está claramente envolvido. O homem lança a semente na terra, e mais tarde colhe a safra resultante da semente que fora semeada. Então, o homem recolhe o produto da terra em celeiros, a fim de guardá-lo até momento de necessidade. Esse é o método de que o homem se utiliza; e é o método certo para o ser humano. Foi assim que Deus ordenou ao homem, após sua queda no pecado: “No suor do rosto comerás o teu pão...” (Gênesis 3:19). Lá nos primórdios da história, Deus determinou o tempo da semeadura e o tempo da colheita; isso não foi determinado pelo homem, em razão do que a semeadura, a colheita e o armazenamento do produto da terra em celeiros são atividades perfeitamente legítimas para o homem. Espera-se do homem que ele faça isso, e é assim que lhe cumpre viver neste mundo. Eis a razão pela qual a injunção “não andeis ansiosos” não pode significar que devamos sentar-nos a esperar que o nosso pão chegue miraculosamente pela manhã. Isso não é bíblico, e todos quantos imaginam que isso corresponde à vida da fé compreenderam muito mal o ensinamento bíblico. 

Não obstante, o ser humano jamais deveria preocupar-se com essas coisas. Não deveria passar a totalidade do seu tempo perscrutando o céu, indagando como serão as condições atmosféricas, ou se haverá alguma coisa para armazenar no seu celeiro. É precisamente esse tipo de preocupação que o Senhor Jesus condenou. O homem precisa semear; foi Deus quem lhe ordenou que assim fizesse. Contudo, ele deve depender de Deus, o único Ser capaz de lhe conferir prosperidade. Nosso Senhor chama a nossa atenção para as aves. Nada existe de tão patente quanto o fato que elas são mantidas com vida, e que o alimento é fornecido a elas pela natureza – vermes, insetos e todas aquelas coisinhas que constituem o regime alimentar dos pássaros. Na natureza, tudo isso está à espera deles. De onde provém esse sustento? A resposta é que Deus provê para as aves o seu sustento diário. Aí, pois, está um fato simples da vida, e Cristo pede de nós que consideremos essa realidade. Essas pequenas aves, que não fazem provisão, no sentido de prepararem ou produzirem o alimento por si mesmas, recebem a provisão necessária. Deus cuida delas, e delas não se olvida. Deus providencia para que haja alguma coisa para as aves se alimentarem. Deus providencia para que a vida dos pássaros seja sustentada. 

Essa é a simples declaração do fato. Em seguida, nosso Senhor toma esse fato e extrai daí duas deduções vitais. Deus trata os animais e as aves dessa maneira, mediante a Sua providência geral, e nada mais. Deus, porém, não é o Pai celeste dessas aves: “Observai as aves do céu... contudo, vosso Pai celeste as sustenta”. Essa é uma interessantíssima observação. Deus é o Criador e o Sustentador de tudo quanto existe no mundo; e Ele trata do mundo inteiro, não apenas do homem, através de Suas providências gerais, agindo dessa forma no tocante à natureza. Então é notória a sutil modificação na linguagem de Jesus, introduzindo o mais profundo argumento de todos: “contudo, vosso Pai celeste as sustenta”.
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Autor D. M. Lloyd Jones
D. Martyn Lloyd Jones (1899 – 1981), teólogo protestante, possivelmente um dos maiores pregadores da história da Igreja, ocupou o púlpito da Capela de Westminster, em Londres, por mais de 30 anos. Pregador veterano, Dr. Lloyd Jones foi bastante influente no movimento evangélico britânico do século XX.

Texto originalmente publicado na seção de artigos do

domingo, 8 de abril de 2018

NO ESPLENDOR DA SANTIDADE: REDESCOBRINDO A BELEZA DA ADORAÇÃO REFORMADA PARA O SÉCULO XXI



Ao se reunirem para adorar a Deus no Dia do Senhor, os cristãos tomam parte da atividade mais significativa, importante e maravilhosa que possa existir. Não obstante, o culto não é apenas uma atividade preeminente da igreja, é também a principal ocupação de querubins e serafins, esses terríveis servos de Deus que voam ao redor do trono celestial com infindáveis expressões de louvor e devoção. É‑nos concedido um breve vislumbre do culto celestial em Isaías 6, quando o profeta testemunhou Iavé:

...assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. (Is 6.1-3)

Além disso, o apóstolo João nos informa que viu e ouviu, em sua visão da sala do trono no céu, milhares e milhares da multidão angelical clamando em alta voz: “Digno é o Cordeiro que foi morto” e “Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos. E os quatro seres viventes respondiam: Amém! Também os anciãos prostraram-se e adoraram” (Ap 5.11-14). Mais adiante, o apóstolo olhou e viu uma “grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas [o número completo dos eleitos de Deus], em pé diante do trono e diante do Cordeiro [...] e clamavam em grande voz, dizendo: Ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação” (Ap 7.9,10).

Essa rápida olhadela dentro dos portais do céu revela que o culto celestial é cheio de ardor reverente, de glória majestosa, de suma alegria; é totalmente centrado em Deus, e voltado fervorosamente para a pessoa e a obra redentora de Jesus Cristo. É essa magnífica perspectiva celestial do culto que, em parte, conformou e inspirou o culto dos protestantes por quase 500 anos. Tristemente, porém, nos tempos recentes, isso tem mudado.

De modo geral, o culto evangélico tem-se tornado radicalmente informal, presunçosamente inovador, e biblicamente empobrecido. A maior parte disso deve-se em grande medida ao abandono da liturgia centrada em Deus e regida pela Bíblia. O que tem sido descartado é a herança litúrgica protestante que, por séculos, levou com fidelidade os cristãos a adorarem a Deus de forma bíblica, além de nutrir sua fé em Cristo mediante os meios ordinários da Palavra e dos sacramentos.

Foi o eclipse do culto e da liturgia bíblicos que levou João Calvino a escrever em 1544 um tratado intitulado “A necessidade de reformar a igreja”. Calvino o enviou ao imperador Carlos V, que à época presidia a dieta imperial de Espira, na Alemanha, na esperança de persuadir o imperador a reformar o culto supersticioso que empestava a Igreja Católica Romana. Era indispensável que a Palavra de Deus, e não substitutos inventados pelo homem, fosse o fundamento, guia e substância do culto público. O reformador escreveu:

Há uma dupla razão por que o Senhor, ao condenar e proibir toda espécie de culto ilusório, exige que obedeçamos apenas à sua voz. Primeira, a tendência dominante de estabelecer sua autoridade, para que não sigamos nosso próprio prazer, mas dependamos inteiramente da sua soberania; e, segunda, a nossa insensatez é tanta que, quando somos deixados livres, tudo quanto podemos fazer é nos transviar. E, depois, uma vez desviados da reta vereda, não há fim para nossos extravios, até acabarmos soterrados debaixo de uma multidão de superstições. É de modo merecido, portanto, que o Senhor, com o propósito de vindicar seu direito e domínio plenos, prescreve com todo o rigor o que deseja que façamos, e rejeita de pronto todo artifício humano em desarmonia com seu mandamento. É de modo merecido, também, que ele define os nossos limites com termos explícitos para que, pela invenção de formas errôneas de adoração, não provoquemos contra nós a sua ira. (João Calvino, The Necessity of Reforming the Chruch, 17)

Embora escritas por Calvino há mais de 450 anos, tais palavras falam energicamente ao nosso próprio contexto, no qual o objetivo e o foco do culto têm-se convertido na busca pela satisfação de nossas próprias necessidades, em vez de glorificar a Deus. A expressão “formas errôneas de adoração” caracteriza não apenas a missa do século XVI, mas também o culto evangélico do século XXI. Teatro e mensagens terapêuticas têm solapado a leitura e a pregação autoritativas da Palavra de Deus. A oração profunda, fervorosa e substancial tem sido empurrada para o lado a fim de abrir espaço para depoimentos e testemunhos pessoais apelativos. O melhor dos salmos e hinos teologicamente ricos e estimulantes para a alma tem sido substituído por rasteiros cânticos de louvor. O batismo e a Santa Ceia, em muitos recantos, têm sido reduzidos a rituais sentimentais, dos quais nada se sabe. Em síntese, os meios ordenados e estabelecidos por Deus para a salvação do seu povo (Palavra, sacramentos e oração) têm sido, na melhor hipótese, minimizados, e na pior, abandonados totalmente em troca de outra coisa. É indispensável recuperar uma liturgia bíblica que estabeleça e proteja esses meios.

Quando pensam em liturgia, os crentes quase sempre a imaginam nos termos do culto do alto anglicanismo ou da missa romana. No entanto, a verdade é que todo culto de adoração cristão tem uma liturgia. Em algumas das expressões mais espontâneas do culto cristão, talvez seja mais difícil decifrar a liturgia, mas apesar disso ela está lá. Quer seja tradicional ou contemporânea, pesada ou levemente estruturada, cada cerimônia de culto segue algum tipo de forma estabelecida. D. G. Hart declara:

Toda igreja tem uma liturgia, não importa se seus membros se considerem litúrgicos ou não. A liturgia é meramente a forma e ordem do culto de adoração. Tanto a mais alta missa anglo-cató­lica quanto o mais baixo culto de adoração e louvor evangélico são litúrgicos no sentido mais estrito da palavra. Obviamente, há entre eles uma diferença dramática na liturgia, mas ambos compreendem uma forma e uma ordem de culto. (D. G. Hart, Recovering Mother Kirk: The Case for Liturgy in the Reformed Tra­dition, 70)


O Dicionário de Inglês Oxford [Oxford English Dictio­nary] define liturgia como “uma forma prescrita de culto público”. Note que o termo liturgia é definido como uma forma prescrita, ou seja, uma forma imposta com base na autoridade. No caso da liturgia cristã, a autoridade que prescreve ou impõe a forma é a Palavra de Deus. Além disso, a Bíblia deve prescrever não apenas a forma do culto de adoração, mas também seu conteúdo. Basta dizer que, se a forma e o conteúdo de uma cerimônia de culto não forem prescritas pela Palavra de Deus, dificilmente poderão ser chamadas de adoração cristã.

A liturgia regulada pela Bíblia preserva e promove o culto que exalta a Deus, está centralizado em Cristo, e é cheio do Espírito. É claro que, com uma liturgia bem estruturada, qualquer pessoa pode apenas cumprir cada uma das partes do começo ao fim. Mas não é isso verdade para qualquer estilo ou forma de culto? Sempre que alguma congregação esteja a confessar um credo ou a cantar louvores com ardor, é inevitável que haja congregados insinceros. Por isso a ordem prescrita para o culto da igreja não deve ser regida por nada que, segundo imaginamos, vivifique os corações — algo que, em última análise, não podemos controlar. Antes, a inspirada e autoritativa Palavra de Deus deve ser a fonte e a substância da nossa liturgia, estabelecendo assim os meios que Deus prometeu abençoar na vida de seus filhos redimidos.

Em minha igreja, em cada Dia do Senhor, nossa congregação segue uma liturgia fixa que raramente muda. Os presbíteros querem que os nossos membros descansem na certeza de que, toda semana no culto público, têm a expectativa de adorar a Deus por meio da leitura da Palavra de Deus, da confissão de pecados, da certeza do perdão de Deus, da confissão de fé nas palavras de um credo histórico, da participação com oração reverente, da entrega de dízimos e ofertas, e também ouvindo a proclamação da Escritura, ensinada e aplicada por intermédio da pregação expositiva, participando dos sacramentos, que revigoram a fé e nutrem a alma, e ao receberem da bênção de Deus, mediante as palavras de bendição, ao serem despedidos.

É pela instrumentalidade dos meios ordenados de graça — a Palavra e os sacramentos — que o nosso Pai celeste prometeu comunicar Jesus Cristo ao seu povo. Assim também, a boa liturgia protegerá, garantirá e promoverá esses meios. Portanto, se Deus é mais plenamente glorificado por intermédio deles, e ele prometeu abençoar os fiéis dando e recebendo desses meios de graça na vida do seu povo, por que não haveríamos de querer preservar uma ordem de culto — uma liturgia — garantidora de que tais meios estarão presentes todas as semanas?

Nas páginas seguintes, tentei estabelecer para o leitor uma introdução relativamente simples e amigável sobre o histórico culto protestante e reformado. Este livro, portanto, não pretender ser erudito nem esgotar o assunto. Tenho a esperança de que as páginas a seguir sirvam para abrir seu apetite para o estudo mais profundo (quanto a isso, veja a lista de leituras sugeridas na página 103).

É a minha oração mais sincera que todos os que lerem este livro sejam convencidos da urgente necessidade que a igreja tem de recuperar uma abordagem do culto público que reflita a adoração bíblica — centrada em Deus, mediada por Cristo, cheia do Espírito e regida pela Palavra — e o melhor da nossa herança protestante e reformada. Que compreendamos, uma vez mais, o que significa adorar no esplendor da santidade.
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PAYNE, Jon D. No Esplendor da Santidade: Redescobrindo a Beleza da Adoração Reformada para o Século XXI. Recife: Editora Os Puritanos, p.13-18.

segunda-feira, 12 de março de 2018

A FIGUEIRA MURCHA E A ESTERILIDADE CRISTÃ [Mateus 21-17-20]


INTRODUÇÃO

1. O Texto
Essa história só e encontrada aqui e em Marcos 11.12-14,20-26. É bom lembrar que há uma diferença fundamental entre as duas versões do relato.
a) Na versão do Mateus a figueira se seca imediatamente: “E a figueira secou imediatamente. ” Esse imediatamente significa em seguida.
b) Por outro lado, na versão do Marcos não passa nada com a figueira em seguida; só na manhã seguinte, quando voltam a passar pelo mesmo caminho, os discípulos se dão conta de que se secou.

Visto que existem estas duas versões do relato, pode-se deduzir que houve algum desenvolvimento e como a versão de Marcos é a mais antiga, deve ser a mais fiel aos fatos.

2. A Figueira
Marcos informa-nos que, embora não fosse estação de figo, a arvore tinha folhas. As folhas da figueira nascem na mesma época que os frutos ou pouco depois dele. Portanto, em geral, as folhas indicam que há fruto, mesmo que ainda não esteja totalmente maduro.

O fato de não ser tempo de figo explica por que Jesus foi até essa arvore especifica, que se destacava por estar com folhas. Suas folhas anunciavam que estava dando fruto, mas o anuncio era falso. Jesus, incapaz de satisfazer sua fome, viu a oportunidade de ensinar uma lição memorável e amaldiçoou a figueira, não porque não estava produzindo frutos, quer na estação quer fora dela, mas porque ela deu uma amostra de vida que promete fruto, mas não produz nenhum. [1]

3. A Explicação
Este episódio da figueira sendo amaldiçoada por Jesus tem um significado importante aqui. Dada sua proximidade com a purificação do templo, e um indiciamento dos principais sacerdotes e escribas, que se opõem as ações de Jesus.
a) Transformar a casa de oração em comércio, v. 12-13
b) O desprezo a prática de misericórdia, v.14-15
c) E o desconhecimento da questão profética em que as crianças louvam ao Senhor Jesus, v. 16 (Sl 8.2). [2]

Jesus usou a figueira como uma lição objetiva, como um sinal dramático ou como simbolismo profético acerca do destino da infrutífera Israel, tudo está bem claro. A figueira era uma figura e um símbolo familiar para Israel, e esta parece ser a lição na parábola da figueira infrutífera em Lucas 13:6-9. O sacrifício de uma árvore, à beira do caminho, se justificaria, se ele pudesse despertar os doze e a sua nação para o terrível perigo que os ameaçava (cf. 21:41,43). A lição igualmente podia ser aplicada como advertência contra a esterilidade na vida individual (cf. João 15:2-6). [3]

O intimo relacionamento entre a purificação do templo e o ressecamento da figueira nos sugere que este último elemento incidental deve ser tomado como profecia: a nação judaica haveria de vir a ser julgada por não ter produzido o fruto que seria de se esperar de um povo privilegiado por Deus. Um pouco antes, Joao Batista havia dito aos fariseus e saduceus que “toda arvore que não produz bom fruto, será cortada e lançada ao fogo” (3:10). [4]

A árvore pretensiosa, porém estéril, era um perfeito emblema de Israel. a figueira pretensiosa tinha seu fac-símile no templo, onde nesse mesmo dia (segunda-feira), como já se observou, estava se realizando um ativo negócio para que os sacrifícios pudessem ser oferecidos, enquanto, ao mesmo tempo, os sacerdotes estavam conspirando para matar aquele sem o qual essas oferendas eram destituídas de qualquer sentido. Rica de folhas, porém carente de frutos. Febril atividade religiosa (?), porém insincera e destituída de verdade.[5]

Mathew Henry, diz que: “Isso representa a situação da nação e do povo judeu em particular. Eles eram uma figueira plantada no caminho de Deus, como uma igreja. (...) Jesus (...) encontrou somente folhas. Eles chamavam Abraão de seu pai, mas não faziam as obras de Abraão; eles professavam estar esperando o Messias prometido, mas, quando Ele veio, eles não o receberam. A maldição que Ele lhes infligiu: que nenhum fruto cresceria entre eles, ou seria colhido deles, como uma igreja ou como um povo, desde então e para sempre. ” [6]

4. Aplicação
Está parábola é uma palavra de exortação, é um grito de condenação, a esterilidade da vida cristã e aos crentes sem frutos.

a) Esta atitude simbólica ensinava que a inutilidade atrai o desastre. Essa é a lei da vida. Algo inútil, está no caminho da eliminação. Tanto as coisas como as pessoas só justificam sua existência quando cumprem com o objetivo para o qual foram criadas. A figueira era inútil, portanto estava condenada.

b) Este incidente ensina que a profissão sem a prática está condenada. A árvore tinha folhas, isso indicava que teria figos, mas não os tinha, sua pretensão era falsa, de maneira que estava condenado.[7]

Spurgeon escreveu: “Enganam-se todos quantos pensam que basta produzir apenas a "folhagem" do cristianismo, sem contudo evidenciarem uma vida santa. A profissão de fé sem a graça divina é a pompa funerária de uma alma morta" [8]

Embora muito se esqueçam disso, mas cada um de nós fomos colocados no jardim de Deus (Igreja) para produzirmos frutos – “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda” - Jo 15:16.

Caso não venhamos produzir o fruto tão desejado pelo Senhor, seremos cortados da sua comunhão e atirado ao fogo da provação e condenação eterna – “Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” - Mt 3:10.
 
Nós somos como figueiras plantadas no jardim de Deus (igreja) e que o Senhor Jesus no tempo dele irá fazer uma breve inspeção na nossa vida.


I. A INSPEÇÃO PELO REI JESUS.
a)  Ele procurará fruto, v.19 - Ele perscruta profundamente a nossa vida para ver se tem fruto, alguma fé genuína, algum amor verdadeiro, algum fervor na oração. Se ele não ver frutos não ficará satisfeito.

b)  Jesus tem o direito de esperar fruto quando Ele vem procurá-lo - Ele tinha direito de encontrar fruto porque o fruto aparece primeiro, depois as folhas. Aquela árvore estava fazendo propaganda de algo que ela não possuía. Conforme João 15.8 o Pai é glorificado quando produzimos muito fruto e essa é a prova de que somos discípulos de Jesus – “Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos”.
 
c)  Fruto e o que o Senhor deseja ardentemente - Jesus teve fome. Ele procurava fruto e não folhas. Ele não se satisfaz com folhas. Ele sente necessidade de sermos santos – “Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna” - Rm 6:22. Santidade é o fruto que cada crente deve produzir.
 
d)  Quando Jesus se aproxima de uma alma Ele se aproxima com discernimento agudo - Dele não se zomba. A Ele não podemos enganar. Já pensei ser figo aquilo que não passava de folha. Mas Jesus não comete engano.

Ele não julga segundo a aparência – “Porquanto cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto. Porque não se colhem figos de espinheiros, nem dos abrolhos se vindimam uvas”, Lc 6:44.


II. UMA PROFISSÃO FERVENTE, MAS SEM FRUTO.
a)  Onde deveria achar fruto, achou somente folhas - Se eu professo a fé sem a possuir não se trata de uma mentira? Se eu professo arrependimento sem tê-lo não é uma mentira? Se eu participo de ceia, mas estou em pecado e não amo aos meus irmãos não é isso uma mentira? A profissão de fé sem a graça divina é a pompa funerária de uma alma morta.

A Palavra de Deus diz – “E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo”, Lc 3.9.
 
b)  Jesus condenou a árvore infrutífera - Jesus não apenas a amaldiçoou, ela já era uma maldição. Ela não servia para o revigoramento de ninguém – “Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” Mt 7:19.
 
c)  Ele pronunciou a sentença contra ela - A sentença foi fica como está, estéril, sem fruto - “e, vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-se dela; e, não tendo achado senão folhas, disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti! E a figueira secou imediatamente”, - Mt 21:19.

“Como secou imediatamente a figueira?” Não havia causa visível para a figueira murchar, mas tinha sido uma destruição secreta, um verme na sua raiz; não somente as suas folhas secaram, mas todo o corpo da arvore; ela murchou imediatamente e ficou como uma madeira seca. As maldições do Evangelho são, por isso, as mais terríveis, pois trabalham de maneira imperceptível e silenciosa, como um fogo não espalhado, mas efetivamente. [9]

Continue sem a graça. Jesus dirá no dia final APARTAI-VOS para aqueles que viveram a vida toda apartados. Continue o imundo sendo imundo.


CONCLUSÃO
Deus nos plantou neste mundo com um único propósito – “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda” - Jo 15:16.

Este fruto é um tipo de fruto que só poderemos produzi se tivermos com total compromisso com o Senhor Jesus – “Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer”, Jo 15:5.

Esses frutos são bem especificados na própria Palavra do Senhor:

a) Frutos de santidade“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei”, – Gl 5.22-23.

b) Frutos da luz“porque o fruto da luz consiste em toda bondade, e justiça, e verdade”, Ef 5:9.
 
c) Frutos de louvor“Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome”, Hb 13:15.

Se Deus visitasse o seu jardim nesta noite que tipo de árvores ele iria encontrar: - Folhas ou frutos?




[1] CARSON, D. A. O Comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2010, p. 517
[2] ARRINGTON, French L. & STRONDSTAD, Roger. Comentário Pentecostal – Novo Testamento. Rio de Janeiro, CPAD, 2003, p. 118.
[3] ALLEN, Clifton. Comentário Bíblico Broadman: Novo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1986, p. 250
[4] MOUNCE, Robert H. Mateus: Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. São Paulo: Editora Vida, 1996, p. 208-209.
[5] HENDRIKSEN, William. Mateus: Comentário do Novo Testamento [Volume 2]. São Paulo: Cultura Cristã, 2000, p. 383.
[6] HENRY, Mathew. Mateus a João: Comentário Bíblico do Novo Testamento. Rio de janeiro: CPAD, 2008, p. 270.
[7] BARCLAY, W. Mateus – Novo Testamento Comentado. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1984, p. 681-682.
[8] SPURGEON, Charles. A Figueira Murcha. São Paulo: PES, 2009. P.3
[9] HENRY, Mathew. Mateus a João: Comentário Bíblico do Novo Testamento. Rio de janeiro: CPAD, 2008, p. 270

domingo, 11 de março de 2018

SAUDADES DE CASA - UMA JORNADA ATRAVÉS DOS SALMOS DE DEGRAUS [Prefácio]




Alguns sentimentos são difíceis de expressar em palavras. Devem em quando, sinto um repentino senso de familiaridade que gera um profundo anelo que não consigo nem expressar nem satisfazer. Isso acontece diante de um fogo crepitante na época do Natal, ou numa calma tarde de outono enquanto o sol vai sumindo no horizonte. Isso acontece quando vejo o sul nublado e morros áridos, ou quando ouço certos estilos musicais, ou sinto o cheiro de grama recém cortada num anoitecer quente de verão. Isso me acontece quando volto à casa onde cresci ou me lembro de amigos de infância. Em cada uma dessa situações, sinto algo familiar, mas que está ausente.

Em um nível muito mais elevado, todos nós experimentamos aquilo que C. S. Lewis chama de “nostalgia vitalícia”. [1] Ela se origina de nosso anelo inexprimível de sermos reunidos a alguma coisa no universo da qual nos sentimos isolados – algo familiar, mas que nos falta. Essa alguma coisa, evidentemente, é Deus. Ele nos criou à sua imagem, de forma que devemos encontrar a nossa fonte de descanso nele mesmo. Mas nós nos separamos dele, desde então, temos vivido com esse isolamento.

Em 2012, uma senhora idosa da cidade de Borja, Espanha, percebeu que um afresco em uma das paredes estava aparecendo um pouco apagado. O afresco, Ecce Homo, representava Cristo diante do tribunal de Pôncio Pilatos. [2] A mulher, por conta própria, tentou restaurar uma obra de arte quase centenária. O resultado foi desastroso. De acordo com uma reportagem, ela transformou a pintura em algo que parecia um “porco-espinho inchado”.[3] Infelizmente, assim somos nós. O pecado nos desfigurou de tal forma que é impossível sermos reconhecidos. Como resultado dessa desfiguração, perdemos a vida de Deus e o prazer de Deus, e esse isolamento nos levou a nossa “nostalgia vitalícia”.

Mas a história não acaba aqui. Misericordiosamente, o Filho de Deus se aproximou de nós por meio da encarnação. Ele, que criou todas as coisas, foi carregado no ventre de uma mulher, e ele, que sustenta todas as coisas, foi carregado nos braços de uma mulher. Ele se vestiu de nossa humanidade – corpo e alma. Ele chegou tão perto ao ponto de participar da vida num mundo decaído, carregou nosso pecado e vergonha, e provou a morte em nosso lugar. Ele foi esmagado, para que pudéssemos ser curados; humilhado, para que pudéssemos ser exaltados; condenado, para que pudéssemos ser justificados. Naquele momento de completa escuridão e abandono na cruz, ele comprou a prazer de Deus para nós – a restauração e a reconciliação. Seu perdão agora substitui nossa pecaminosidade; seu mérito eclipsa nossa culpa; e sua justiça oculta nossa indignidade. Sua “misericórdia abundante” apaga nossa multidão de “transgressões” (Sl 51.1). [4]

Em virtude de nossa união com Cristo, nós nos aproximamos de Deus e encontramos nele tudo que jamais poderíamos desejar: um bem eterno e espiritual, adequado a todas as nossas necessidades. Nosso conhecimento desse Deus propaga em nossa alma uma paz satisfatória nesta vida e um sabor irresistível daquilo que nos aguarda na glória. Uma vez que voltamos à nossa fonte de descanso, vivemos antecipando a visão beatífica – o dia em que veremos a Deus (Mt 5.8). De certa forma, nós já o vemos agora com os olhos da fé, mas isso não é nada em comparação com o que está por vir. No presente, vemos as perfeições de Deus em seus efeitos, ou seja, em suas obras da criação, providência, e redenção; mas, no futuro, nós o veremos de forma perfeita.

Nós seremos como Cristo, e, por isso, seremos capazes de comungar com Deus nas mais plenas capacidades da nossa alma. Não haverá nada que possa obscurecer, confundir, ou atrapalhar nossa alegria nele. Nosso conhecimento de deus será pleno e perfeito, constante e completo, resultando num deleite até agora desconhecido, quando descansarmos plena e finalmente nele. Até então, estamos numa jornada repleta de alegrias e tristezas, vales agradáveis e montanhas perigosas, conquistas animadoras e perdas mutilantes – uma viagem caracterizada pelo regozijo, pela angústia, pela busca, pelo assombro e pelas saudades.

E isso nos traz a este livro: Saudades de casa: uma viagem através dos Salmos dos Degraus. Não temos certeza absoluta sobre a razão por que estes 15 Salmos – capítulos 120-134 – são chamados de Salmos dos Degraus. Uma das explicações mais razoáveis para o termo degrau (ou subida) é que os israelitas cantavam essa coleção de salmos à medida que viajavam (subiam) para a cidade de Jerusalém para celebrar uma de suas festas anuais, a respeito das quais lemos em Deuteronômio 16.16.

Uma característica singular dos salmos em geral é que eles expressam todo o leque de emoções humanas. João Calvino se refere a eles como “uma anatomia de todas as partes da alma, pois não há emoção que se possa experimentar que não esteja ali representada como num espelho”.[5] O que é verdade a respeito do Livro dos Salmos em geral é, também, verdade e respeito dos Salmos dos Degraus em particular. Em suma, eles são um repertório da experiência humana. Eles nos conduzem numa jornada pelos muitos altos e baixos da vida. Ao fazê-lo, dão forma a nossas perspectivas, regulam nossos sentimentos e instruem nosso bom senso. El nos guiam no caminho dos desejos que glorificam a Deus, nas emoções que magnificam a Deus e nos pensamentos que honram a Deus. Eles nos preparam para orar com fé, à medida que nos convidam a fixar nossos olhos nos céus.

Sempre que nos sentimos afligidos em nossa jornada, temos a tendência de recorrer à qualquer coisa que acreditamos que possa nos ajudar – outra agenda, outro seminário, outro conselheiro. Mas, com muita frequência, negligenciamos a ajuda que Deus nos deu – o Livro dos Salmos, e, em especial, os Salmos dos Degraus. Neles, nos associamos com pessoas que percorreram a mesma estrada em que estamos viajando. Se ouvirmos com cuidado, eles nos ensinarão como olhar para Deus em cada circunstância da vida, e mostrarão como essa mudança em nossa perspectiva fortalecerá nossa fé e ampliará nossa esperança.

Espero que esta ênfase pastoral se torne clara à medida que você percorrer este livro, e minha oração a Deus é que ele abençoe essa jornada para o conforto espiritual do leitor e para eterna glória de Deus.

Deus pro nobis

______________________
YUILLE, J. Stephen. Saudades de Casa – Uma jornada através dos Salmos dos Degraus. Recife: Editora Os Puritanos, 2017, 203p.


[1] Conforme citado por Timothy Keller, The Prodigal God: Recovering the Heart of the Christian Faith (Nova Iorque: Penguin, 2008), 94-95.
[2] Ecce Homo é a tradução latina, conforme a Vulgata, da exclamação de Pilatos registrada em João 19.5. Em português, a frase é: “Eis o homem! ”
[3] Sam Jones, “Spanish Church Mural Ruined by Well-Intentioned Restorer,” The Guardian (August 22, 2012), http://www.theguardian.com/artanddesign/2012/aug/22/spain-church-mural-ruin-restoration.
[4] Salvo outra indicação, todas as citações bíblicas são da versão Almeida Revista e Atualizada da Sociedade Bíblica do Brasil.
[5] João Calvino, Commentary on the book os Psalms, em Calvin’s Commentaries, 22 vols. (Grand Rapids: Baker, 2003), 4:XXXVII.

sábado, 10 de março de 2018

O TESTEMUNHO DOS DISCÍPULOS [João 1.35-51]


Um dia depois do testemunho de João Batista, diante da comitiva do Sinédrio (1.29-34), João estava na companhia de dois de seus discípulos e, vendo Jesus passar,    

No v. 35 faz referência “dia seguinte”, nos mostrando o cuidado com que os dias subsequentes são enumerados nesta parte d    a narrativa (1.29, 35, 43, 2.1) indica que ela se baseia em pesquisas de alguém que participou dos acontecimentos descritos e que trazia gravada em sua memória, mesmo tanto tempo mais tarde, a sequência detalhada do seu primeiro encontro com Jesus. [1]

Na verdade, não há nada contra a ideia de que este participante foi um dos dois discípulos mencionados, cujo nome não é dado. D. A. Carson: “A identificação tradicional do discípulo não identificado com o evangelista, o ‘discípulo amado’, é bastante plausível. Um número de características no relato, como a especificação da hora (v. 39), pode ser explicada como detalhes profundamente gravados na mente do escritor quando ele encontrou Jesus Cristo pela primeira vez. Mas não há provas para essa identificação. ” [2]

Vamos destacar a seguir alguns pontos importantes.


1.  Jamais desista de apresentar Jesus às pessoas (1.35-39).
Quando João Batista apresentou Jesus como o Cordeiro de Deus pela primeira vez, não há registro de que alguém o tenha seguido, mas, agora, André e outro discípulo de João Batista seguiam Jesus e o reconheciam como o Messias.

João Batista não nutria nenhum ciúme pelo fato de alguns de seus discípulos terem abandonado suas fileiras para seguir Jesus.

Fazendo isso, os dois discípulos mencionados aqui não estão indecentemente abandonando João Batista em favor de um líder mais prestigioso, mas demonstram ser os mais fiéis ao ensino do precursor. Isso João Batista entendeu (3.27-30).

Ele deixou de ser o primeiro para dar primazia a Cristo. Para ele, convinha que Cristo crescesse e ele diminuísse!


2. Jamais desista de levar outros a Jesus (1.40-42).
André ouviu o testemunho de João Batista acerca de Jesus e o seguiu. Depois que André abriu os olhos de sua alma para reconhecer que Jesus era o Messias, encontrou seu irmão Simão e o levou a Cristo.

André era o tipo de homem que estava disposto a ocupar o segundo lugar, pois, não obstante tenha levado seu irmão Pedro a Cristo, jamais exerceu a mesma influência que seu irmão.

André era o tipo de homem que está sempre levando alguém a Cristo. Mais tarde, foi ele quem levou o menino com os cinco pães e dois peixes a Cristo (6.8,9) e também foi ele quem apresentou os gregos a Jesus (12.22).

André, tornou-se o primeiro, em uma longa linha de sucessores, a descobrir que o testemunho cristão mais efetivo e comum é o testemunho pessoal de amigo para amigo, irmão para irmão. [3]

André levou seu irmão a Jesus, e Jesus mudou o nome de Simão para Pedro, fazendo dele um discípulo, um apóstolo. André teve um ministério discreto em comparação ao ministério de Pedro, mas André teve o privilégio de levar Pedro a Cristo.


3. Saiba que há várias formas de levar pessoas a Jesus (1.43-46).
As pessoas são diferentes e recebem abordagens diferentes do evangelho, mas todas devem ser conduzidas a Cristo.
a) André seguiu Cristo porque João Batista lhe apontou Jesus como o Cordeiro de Deus, v. 36-37
b) Pedro foi a Cristo porque André o levou, v. 40-42
c) Filipe seguiu a Cristo porque foi diretamente chamado por ele, v. 43-44.
d) Filipe encontrou Natanael e lhe anunciou sua extraordinária descoberta, v. 45

J. C. Ryle diz corretamente que há diversidade de operações na salvação das almas. “Todos os verdadeiros cristãos foram regenerados pelo mesmo Espírito, lavados no mesmo sangue, servem ao único Senhor, creem na mesma verdade e andam pelos mesmos princípios divinos. Mas nem todos são convertidos da mesma maneira. Nem todos passam pelo mesmo tipo de experiência. Na conversão, o Espírito Santo age de forma soberana. Ele chama cada um conforme sua soberana vontade”.[4]


4.  Use as Escrituras para apresentar Cristo (1.45).
Ao ser chamado por Jesus, Filipe o seguiu imediatamente, compreendendo que ele era o Messias sobre quem Moisés e os profetas falaram. Filipe compreendeu Jesus por intermédio das Escrituras.

Cristo é o resumo e a substância do Antigo Testamento. Para ele apontavam as antigas promessas desde os dias de Adão, Enoque, Noé, Abraão, Isaque e Jacó. Para ele apontavam todos os sacrifícios cerimoniais.

A pessoa de Cristo é a essência do Antigo Testamento.
a) A Ele apontam as promessas dos dias de Adão, Enoque, Noé, Abraão, Isaque e Jacó.
b) A Ele também aponta cada sacrifício do culto cerimonial, entregue no Monte Sinai.
c) Cada sacerdote, cada parte do tabernáculo, cada juiz e cada libertador de Israel eram figuras da pessoa Cristo.
d) Ele era o profeta semelhante a Moisés, o qual Deus prometera enviar;
e) era o rei da casa de Davi, que veio para ser Senhor de Davi, bem como seu filho.
f) Era o filho da virgem e o cordeiro, preditos por Isaías;
g) o ramo de justiça, mencionado por Jeremias;
h) O verdadeiro pastor, antevisto por Ezequiel;
i) o mensageiro da aliança, prometido por Malaquias;
j) O Messias que, de acordo com Daniel, havería de ser morto, embora não em favor de Si mesmo.

Quanto mais lemos o Antigo Testamento, tanto mais claro se torna o testemunho que ali encontramos acerca de Cristo. A iluminação da qual gozavam os inspirados escritores do passado não é mais do que uma fraca luz, se comparada à luz do evangelho. Mas a Pessoa que de longe aguardavam e na qual fixavam os olhos era apenas uma. O Espírito que neles estava testificava de Cristo, 1 Pe 1.9-11

Será que tropeçamos nestas declarações? Achamos difícil ver Jesus nas páginas do Antigo Testamento, porque não encontramos lá o seu nome? Devemos estar certos de que a falta é toda nossa. E a nossa visão espiritual que deve receber a culpa, não as Escrituras. Os olhos do nosso entendimento precisam ser iluminados. O véu ainda tem de ser retirado.

Oremos para que tenhamos um espírito mais humilde, como de uma criança, pronto a aprender. Leiamos, novamente, o que Moisés e os profetas escreveram. Cristo está presente nesses escritos, embora talvez nossos olhos ainda não O tenham visto. Não descansemos até que estejamos de acordo com a afirmação do Senhor Jesus a respeito das Escrituras: “São elas mesmas que testificam de mim”. [5]


5. Use os melhores métodos para apresentar Cristo (1.46).
Filipe enfrenta a oposição de Natanael não com uma refutação contundente, mas com uma convocação à experiência. Concordo com D. A. Carson quando ele diz que a pesquisa honesta é uma cura maravilhosa para o preconceito.[6]

Nazaré podia ser tudo o que Natanael pensava, mas há uma exceção que põe à prova toda regra; e que exceção esse jovem encontrou! [7]


6. Confie no poder de Jesus para atingir as pessoas mais céticas (1.47-51).
Natanael tinha um conhecimento limitado, mas um coração sincero. Era um homem em quem não havia dolo. Ele aguardava o Messias. E por isso, diante da onisciência de Jesus, ele se rendeu e confessou que Jesus era o mestre, o Filho de Deus, o rei de Israel (1.49).

Um detalhe que precisamos observar aqui é a descrição feita por Jesus a respeito do caráter de Natanael. Ele o chama de “um verdadeiro israelita, em quem não há dolo”.

Um outro detalhe é que Jesus disse que conhecia Natanael: “Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira.” (v.48). Era debaixo de uma figueira que Agostinho estava meditan- do quando ouviu a voz cantando: “Levante e leia”! e viu sua alma inundada de luz celestial ao levantar o livro e ler as últimas palavras de Romanos 13[8]

Natanael era um crente sincero, que seguia o padrão do Antigo Testamento e se conservava firme. E nisto está o segredo do elogio que Jesus fez. Ele declarou que ali estava um verdadeiro filho de Abraão, um judeu  interiormente, circuncidado no espírito, como também segundo a letra da lei; um israelita de coração e um filho de Jacó por nascimento. [9]

Jesus destacou que aqueles que reconhecem sua onisciência verão também sua glória, pois ele é o Filho do homem.

Charles Swindoll esclarece que a passagem em apreço ilustra quatro abordagens distintas sobre levar pessoas a Cristo: 1) evangelismo de massa (1.35-39); 2) evangelismo pessoal (1.40-42); 3) evangelismo através de contatos (1.43,44); 4) evangelismo por meio da Palavra (1.45-51).[10]


CONCLUSÃO
Seria uma grande bênção para a igreja de Cristo, se todos os crentes fossem semelhantes a André! Seria uma grande bênção para as almas perdidas, se todos os homens e mulheres convertidos falassem com seus amigos e parentes sobre as coisas espirituais e contassem aquilo que encontraram! Quanto bem haveria de ser feito! Quantos dos que agora vivem e morrem na incredulidade seriam levados a Jesus!

A tarefa de testificar do evangelho da graça de Deus não deveria ser relegada aos ministros somente. Todos os que receberam misericórdia devem procurar declarar com os lábios aquilo que Deus fez por suas almas. Os que foram libertos do poder do diabo devem ir para casa e anunciar aos seus “tudo o que o Senhor” lhes fez.

Humanamente falando, há milhares de pessoas que não ouviriam um sermão, mas dariam ouvidos a um amigo. Cada crente deve ser um missionário para seus filhos, família, empregados, vizinhos e amigos. Com toda a certeza, se nada temos a dizer aos outros a respeito de Jesus, faremos bem em duvidar que O conhecemos como nosso Salvador pessoal.



[1] BRUCE, F. F. João: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983, p. 60
[2] CARSON. D. A. O Comentário de João. São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 154
[3] Ibid, p.55
[4]  RYLE, J. C. Meditações no Evangelho de João. São Paulo: Editora Fiel, 2011, p.22
[5] Ibid, p.23
[6] CARSON. D. A. O Comentário de João. São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 160.
[7] BRUCE, F. F. João: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983, p. 65.
[8] AGOSTINHO. Confissões.  Petrópolis: Editora Vozes, 2015, p. 143
[9] RYLE, J. C. Meditações no Evangelho de João. São Paulo: Editora Fiel, 2011, p.24               
[10] Swindoll, Charles R. Insights on John, p. 54.