sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A CURA DO PARALÍTICO E A CHAMADA DE MATEUS [Mateus 9.1-13]


"Entrando Jesus num barco, passou para o outro lado e foi para a sua própria cidade. E eis que lhe trouxeram um paralítico deitado num leito. Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Tem bom ânimo, filho; estão perdoados os teus pecados. Mas alguns escribas diziam consigo: Este blasfema. Jesus, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: Por que cogitais o mal no vosso coração? Pois qual é mais fácil? Dizer: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados - disse, então, ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. E, levantando-se, partiu para sua casa. Vendo isto, as multidões, possuídas de temor, glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens. Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria e disse-lhe: Segue-me! Ele se levantou e o seguiu. E sucedeu que, estando ele em casa, à mesa, muitos publicanos e pecadores vieram e tomaram lugares com Jesus e seus discípulos. Ora, vendo isto, os fariseus perguntavam aos discípulos: Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores? Mas Jesus, ouvindo, disse: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos; pois não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento.” (Mateus 9.1-13)

Meus irmãos

Observemos, na primeira parte do texto bíblico, o conhecimento que nosso Senhor tem dos pensamentos dos homens.

2 E eis que lhe trouxeram um paralítico deitado num leito. Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Tem bom ânimo, filho; estão perdoados os teus pecados.
3 Mas alguns escribas diziam consigo: Este blasfema.
4 Jesus, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: Por que cogitais o mal no vosso coração?

Pois bem, alguns dos escribas acharam defeito nas palavras de Jesus ao paralítico. Diziam secretamente, consigo: “Este blasfema”. Provavelmente imaginavam que ninguém soubesse o que se passava em suas mentes. Ainda pre­cisavam aprender o fato que o Filho de Deus pode ler os corações e discernir os espíritos. O seu pensamento malicioso foi publicamente desmascarado. Eles foram abertamente expostos à vergonha.

Nisto há uma importante lição para nós: “Todas as cousas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar con­tas’ ’ (Hb 4.13).
Nada pode ser ocultado de Jesus Cristo.
O que pensamos às ocultas, quando ninguém nos vê?
O que pensamos quando estamos na igreja, parecendo tão sérios e respeitosos?
Sobre o que estamos pen­sando neste exato momento, enquanto estas palavras passam diante de nossos olhos?

Jesus sabe. Jesus vê. Jesus registra tudo. Jesus um dia nos chamará para a prestação de contas. Está escrito que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgará os segredos dos homens, de acordo com o evangelho – Paulo escrevendo aos romanos (Rm 2.16) – ele diz: No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho.

Meus ouvintes, sem dúvida alguma, devemos ser muito hu­mildes quando consideramos estas coisas. Deveríamos cada dia agradecer a Deus que o sangue de Cristo pode purificar de todo pecado. Deve­ríamos sempre clamar como salmista clamou e escreveu no Salmo 19.14: “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu!”

Em segundo lugar, observemos a maravilhosa chamada do apóstolo Mateus para ser um discípulo de Cristo.

9 Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria e disse-lhe: Segue-me! Ele se levantou e o seguiu.

Encontramos sentado na coletoria de impostos o homem que mais tarde escreveria o primeiro evangelho. Vemo-lo absorvido em sua ocupação secular, talvez não pen­sando em outra coisa senão em dinheiro e lucro. Subitamente, entretanto, recebe o chamado para seguir a Jesus e tornar-se seu discípulo. Mateus obedece imediatamente; apressa-se, não se detém e obedece a ordem de Cristo. Ele se levanta e segue a Jesus.

Um princípio que ser bem estabelecido em nossa religião que para Cristo nada é impossível.

Ele pode tomar um coletor de impostos e transformá-lo em apóstolo. Ele pode mudar qualquer coração humano e fazer novas todas as coisas. Que nós nunca desesperemos da salvação de quem quer que seja. Continuemos orando, testemunhando e traba­lhando para o bem das almas dos piores homens. “A voz do Senhor é poderosa” (Sl 29.4). Quando Ele diz, pelo poder do Espírito, “segue­-me”, Ele pode fazer os mais endurecidos e os mais pecaminosos obedecerem.

Observemos a decisão de Mateus.

Ele não esperou por uma oca­sião mais oportuna (Atos 24.25). Em conseqüência obteve uma grande recompensa. Ele escreveu um livro que se tornou conhecido em todo o mundo. Tomou-se uma bênção para outras pessoas, além de ser aben­çoado na sua própria alma. Ele deixou atrás de si um nome que é mais conhecido do que o nome de príncipes e reis. O homem mais rico do mundo ao morrer é logo esquecido. Porém, enquanto durar o mundo, milhões de pessoas conhecerão o nome de Mateus, o publicano.

Em último lugar, notemos a preciosa declaração de nosso Se­nhor a respeito de sua própria missão.

12 Mas Jesus, ouvindo, disse: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes.
13 Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos; pois não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento.

Os fariseus acharam falta nEle, porquanto permitia que publicanos e pecadores estivessem em sua com­panhia. Em sua cegueira orgulhosa, eles imaginavam que um mestre enviado do céu jamais deveria entrar em contato com tais pessoas. Eles ignoravam totalmente o grandioso desígnio pelo qual o Messias viera a este mundo — para ser Salvador, médico; para curar as almas enfer­mas pelo pecado.

Eles receberam dos lábios de nosso Senhor uma reprimenda, seguida de palavras abençoadas: “não vim chamar justos, e, sim, pecadores ao arrependimento”.

Certifiquemo-nos de que compreendemos perfeitamente a doutrina contida nestas palavras. O que é primariamente necessário para se ter interesse em Cristo é sentirmos profundamente a nossa própria corrupção, e estarmos dispostos a ir a Jesus para sermos libertos. Não devemos ficar longe de Cristo, como muitos ignorantemente o fazem, somente porque nos sentimos maus, ímpios e indignos.

Devemos lembrar que Ele veio ao mundo para salvar pecadores; e, se nos reconhecemos como tais, isto é bom. Feliz é quem realmente entende que a principal qua­lificação para ir a Cristo é um profundo senso de pecado!

Finalmente, se, pela graça de Deus, realmente entendemos a glo­riosa verdade de que Jesus Cristo veio para chamar pecadores, entâo, que jamais nos esqueçamos disso. Não cultivemos a ilusão de que cren­tes verdadeiros possam atingir um tal estado de perfeição neste mundo, ao ponto de não mais precisarem da mediação e intercessão de Cristo.

Éramos pecadores quando viemos a Cristo; e pobres e necessitados pe­cadores continuaremos sendo, enquanto vivermos, recebendo toda a graça de que dispomos, a cada momento, da plenitude de Cristo. Mesmo na hora da nossa morte, veremos que ainda somos pecadores, e estaremos tão dependentes do sangue de Cristo, quanto no primeiro dia em que cremos.

Que Deus nos abençoe!


A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO [Apresentação]



UMA HISTÓRIA INESQUECÍVEL

A maior parte das pessoas está, de certa forma, familiarizada com a parábola do filho pródigo, encontrada em Lucas 15:11-32. Até mesmo aqueles que não sabem quase nada sobre a Bíblia conhecem alguma coisa sobre esse relato. Seus temas e sua linguagem estão profundamente arraigados em nossas tradições espirituais e literárias.

Shakespeare, por exemplo, tomou emprestados parte da trama e alguns motes da parábola do filho pródigo e os adaptou em O mercador de Veneza e Henrique IV. O Bardo também aludiu a essa parábola repetidamente em seus outros dramas. Arthur Sullivan usou as exatas palavras do texto bíblico como a base de um oratório intitulado O filho pródigo; Sergei Prokofiev produziu a história em forma de balé; e Benjamin Britten a transformou em ópera. Do lado oposto do espectro musical, o cantor country Hank Williams gravou uma música chamada The Prodigal Son [O filho pródigo], comparando a volta desse personagem às alegrias celestiais. Os maiores museus de arte do mundo estão repletos de obras mostrando cenas da experiência do filho pródigo, incluindo desenhos e pinturas famosos de Rembrandt, Rubens, Dürer e muitos outros.

A linguagem contemporânea é igualmente cheia de palavras e imagens emprestadas da parábola familiar. É razoavelmente comum ouvir alguém se referir a uma criança desobediente como “um filho pródigo” (ou filha). Às vezes, as pessoas também falam sobre “matar o novilho gordo” (uma metáfora apropriada para qualquer comemoração extravagante); “alimentar-se de cascas” (referindo-se ao consumo de coisas triviais, superficiais ou artificiais que não constituem uma boa alimentação); ou “um viver desregrado” (significando um estilo de vida devasso ou extravagante). Talvez você tenha ouvido ou lido essas alusões sem reconhecer sua fonte. Elas são tomadas diretamente dessa que é a mais conhecida entre todas as parábolas de Jesus.


1. UMA HISTÓRIA A SER LEMBRADA

A parábola do filho pródigo é uma das muitas registradas apenas no Evangelho de Lucas. E ela sobressai.

De todas as parábolas de Jesus, é a mais ricamente detalhada, poderosamente dramática e intensamente pessoal. É cheia de emoção, passando da tristeza ao triunfo, depois a uma sensação de choque e, por fim, a um desejo perturbador pela conclusão. Os personagens são conhecidos, por isso é fácil para as pessoas se identificarem com o pródigo, sentirem a dor do pai e, ainda assim (até certo ponto), se solidarizar com o irmão mais velho — tudo ao mesmo tempo. A história é memorável em muitos aspectos, e um dos mais importantes é a imagem de rudeza que Jesus invoca ao contá-la. A descrição do pródigo como alguém tão desesperadamente faminto, disposto a comer cascas varridas da comida de porcos, por exemplo, retrata de maneira quase visual a devassidão do jovem, e o faz de uma forma que soava extremamente repugnante aos judeus que a ouviram.

Outra coisa que torna essa história inesquecível é a pungência demonstrada na reação do pai quando o filho perdido retorna. A alegria do pai estava repleta de terna compaixão. O filho mais novo, que tinha partido de maneira negligente e insolente, despedaçando as esperanças de seu pai para ele, voltou um homem completamente quebrantado. Mesmo tendo o coração partido e, sem dúvida, sentindo-se muito magoado por causa da rebelião tola do filho mais novo, o pai expressou a mais pura felicidade, desprovida de qualquer sinal de amargura, quando o filho errante chegou em casa, arrastando-se pelo caminho. Quem não se emocionaria com um amor como esse? No entanto, o filho mais velho da parábola não ficou nem um pouco comovido pelo amor de seu pai. Seu duro ressentimento ao testemunhar a misericórdia do pai em relação ao irmão mais novo contrasta com o tema dominante de Lucas 15, que é a grande alegria no céu pelo retorno dos perdidos. Assim, a mensagem central da parábola é um apelo urgente e sóbrio aos ouvintes cujo coração se endureceu para que suas atitudes espelhem as do irmão mais velho. A parábola do filho pródigo não é uma mensagem bonitinha de autoajuda, inventada para nos sentirmos bem, mas uma poderosa convocação que inclui um alerta muito importante.

Não podemos permitir que isso escape à nossa compreensão nem prejudique nosso apreço em relação a essa amada parábola. Infelizmente, a lição do irmão mais velho costuma ser negligenciada em muitas oportunidades nas quais essa história é contada. Mesmo assim, continua sendo a razão principal pela qual Jesus a contou.


2. A INTERPRETAÇÃO DAS PARÁBOLAS DE JESUS

Uma boa regra para interpretar qualquer parábola é manter-se concentrado na lição central. Não é uma boa ideia tentar extrair significado de cada detalhe incidental em uma parábola. Os teólogos medievais ganharam notoriedade por causa disso. Eles podiam se alongar por horas nos pormenores de toda a parábola, tentando encontrar significados detalhados, simbólicos e espirituais em cada ponto da história — algumas vezes, praticamente ignorando o ponto principal da narrativa. Essa é uma maneira perigosa de se lidar com qualquer parte das Escrituras. Mas é um erro especialmente fácil de se cometer quando se interpreta as várias figuras de linguagem na Bíblia. Parábolas são completa e propositadamente figurativas, mas não são alegorias, nas quais todo detalhe carrega algum tipo de simbolismo. Uma parábola é uma simples metáfora ou símile transmitida na forma de uma história. É, antes de tudo, uma comparação. “O Reino dos céus é como [isso ou aquilo]...” Veja, por exemplo, Mateus 13:31,33,44,45,52;20:1;22:2.

A palavra “parábola” é transliterada de uma palavra grega que se refere, no sentido literal, a uma coisa colocada ao lado de outra com o objetivo de assinalar a semelhança ou fazer uma importante associação entre as duas. É uma forma literária básica com um objetivo muito específico: fazer uma analogia objetiva por meio de uma imagem ou narrativa interessante. Intérpretes das parábolas devem ter isso sempre em mente, evitando a busca por simbolismos complexos, múltiplas camadas de significados ou lições obscuras nos detalhes periféricos das parábolas.

A parábola do filho pródigo, por sua riqueza de detalhes, talvez tenha sido submetida a interpretações mais imaginativas do que qualquer outra. Já vi comentaristas escreverem páginas e mais páginas com elucubrações sobre os supostos significados espirituais e alegóricos de detalhes tão incidentais quanto as vagens de alfarrobeira (simbolizando maus pensamentos, de acordo com um escritor), o anel do pai colocado no dedo do filho (uma imagem gráfica, porém esotérica, do mistério da Trindade, se aceitarmos as ruminações de outro comentarista), ou os calçados colocados nos pés do pródigo (que representam o evangelho, insiste um terceiro exegeta, usando Efésios 6:15 como prova).

Como método de interpretação bíblica, esse tipo de alegorização já foi empregado para criar mais confusão sobre o puro significado da Escritura do que qualquer outro dispositivo hermenêutico. Se você pode dizer, sem medo de errar, que isso realmente significa aquilo e uma coisa simboliza outra sem se basear em nenhuma prova contextual, mas por mero fruto da imaginação do intérprete — especialmente se você estiver disposto a fazer isso destrinchando cada detalhe da narrativa bíblica —, então será capaz de fazer o texto bíblico assumir qualquer significado que desejar.

A invenção de significados sofisticados e alegóricos nunca é uma abordagem válida para interpretar nenhum trecho das Escrituras. E os elementos obviamente figurativos em uma parábola não mudam as regras da interpretação nem nos autorizam a inventar significados. Na verdade, quando tiver de lidar com o simbolismo de uma parábola, é particularmente importante manter o ponto principal e o contexto imediato em foco e resistir a devaneios.


3. A LIÇÃO PRINCIPAL DO FILHO PRÓDIGO

Dito isso, a parábola do filho pródigo, por conta da variedade peculiar de detalhes descritivos, convida a uma análise mais apurada, em comparação às parábolas de uma frase apenas. Essa história nos fornece um retrato extraordinário da vida real, rico em texturas, e esses detalhes são extremamente valiosos para nos ajudar a encontrar o sentido do contexto cultural. Os detalhes são fornecidos não para adicionar múltiplas camadas de significados espirituais à lição central da parábola, mas para realçar a lição propriamente dita, dotando-a de vida. A interpretação da parábola é, portanto, razoavelmente simples, desde que vejamos as imagens culturais pelo que elas são e fazer nosso melhor para ler a história através das lentes da vida de uma aldeia agrária do século I. É exatamente isso que as características pitorescas nessa parábola nos ajudam a fazer.

A parábola se alonga por 22 versículos nesse capítulo central do Evangelho de Lucas. Com profusão de cores, páthos dramático e riqueza de detalhes claramente inseridos nessa descrição gráfica, parece claro que a vividez da parábola existe para realçar o significado central dela. Espera-se que notemos e compreendamos o sentido das personalidades e das viradas de enredo dessa história fantástica.

De fato, o contexto de Lucas 15, com seu tema de alegria celestial pelo arrependimento terreno, revela o sentido de todas as maiores características da parábola. O filho pródigo representa um típico pecador que se arrepende. A paciência, o amor, a generosidade e a alegria do pai pelo retorno do filho são emblemas claros e perfeitos da graça divina. A mudança na atitude do filho pródigo é um retrato de como deve ser o arrependimento verdadeiro. E a indiferença fria do irmão mais velho — o verdadeiro foco da história, no fim das contas — é uma representação vívida da mesma hipocrisia maligna que Jesus estava confrontando, encontrada no coração dos escribas hostis e dos fariseus a quem ele primeiro contou a parábola (Lucas 15:2). Eles se ressentiam amargamente dos pecadores e cobradores de impostos que se aproximaram de Jesus (v. 1), e tentaram encobrir sua indignação mundana com pretextos religiosos. Mas suas atitudes traíram sua falta de fé e seu egoísmo. A parábola de Jesus arrancou a máscara de sua hipocrisia.

Essa é, portanto, a lição culminante e central da parábola: Jesus está indicando o contraste violento entre a alegria de Deus na redenção dos pecadores e a hostilidade inflexível dos fariseus em relação a esses mesmos pecadores. Mantendo essa lição firmemente fixada em nossa mente, podemos depreender da história maior (como Jesus a relata) várias lições profundas sobre graça, perdão, arrependimento e o sentimento de Deus em relação aos pecadores. Esses elementos também estão de tal maneira visíveis na parábola que quase todos deveriam reconhecê-los.


4. UMA MANEIRA DE LEMBRAR A GRAÇA DE DEUS

Eu sempre adorei essa parábola, e há muito tempo queria escrever um livro sobre ela. No entanto, segundo a sabedoria da providência de Deus, não tive a oportunidade de pregar muitas vezes sobre o Evangelho de Lucas, ainda que tivesse pregado muitos sermões e escrito vários comentários sobre praticamente todo o restante.

Olhando para trás e lembrando meus tantos anos de ministério, sinto-me feliz pelo fato de tudo acontecer de acordo com o tempo de Deus. Quando chego a essa parábola que me é tão cara e familiar depois de passar pelo restante do Novo Testamento, sinto um apreço ainda maior por essa mensagem elaborada com tanto cuidado. Eu a leio com grande gratidão pela glória da simplicidade do evangelho, pelas riquezas incompreensíveis da graça de Deus, pela profundidade perturbadora da depravação humana, pela beleza da salvação divina e graciosa e pelo mais puro encanto da alegria celestial. Todos esses elementos são temas importantes no Novo Testamento. Não é de se admirar: eles também constituem as ideias centrais do evangelho. E estão todos aqui, em cores bem vivas. Essa é, suponho, a razão principal pela qual Jesus investiu tanto tempo e detalhes cuidadosos ao contar essa parábola.

Todas essas seriam razões de sobra para nos dedicarmos a um estudo sério e longo desses 22 versículos que dominam Lucas 15. No entanto, ainda há mais: a parábola do filho pródigo serve como um espelho para o coração e a consciência do ser humano.


5. COMO NOS RECONHECEMOS NESSA PARÁBOLA

Existe um bom motivo pelo qual essa curta história toca no coração de tantos ouvintes. Nós nos reconhecemos nela. A parábola nos lembra dos aspectos mais dolorosos da condição humana, e aqueles que a examinarem honestamente se reconhecerão.

Para os que crêem, o Filho Pródigo serve como humilhante lembrança de quem somos e quanto devemos à graça divina.

Para aqueles que têm consciência da própria culpa, mas ainda não se arrependeram, a vida do Pródigo é um lembrete pungente das consequências do pecado, do dever do pecador de se arrepender e da bondade de Deus, que acompanha o arrependimento autêntico.

Para os pecadores que se arrependem, a recepção ansiosa do pai e a generosidade que ele demonstra servem para sinalizar que a graça e bondade de Deus são inesgotáveis.

Para os incrédulos descuidados (especialmente como os escribas e os fariseus, que usavam a virtude externa como máscara para ocultar o coração pecador), o irmão mais velho é um lembrete de que nem uma demonstração de religião nem uma respeitabilidade fingida substituem a redenção.

Para todos nós, a atitude do irmão mais velho é um aviso poderoso, mostrando quão fácil e sutilmente a falta de crença pode tomar a forma da fé.

Não importa em qual dessas categorias você se encaixe, minha oração por você, enquanto lê este livro, é no sentido de que o Senhor o use para ministrar graça em seu coração. Se você crê, então se aqueça na alegria do Pai pela salvação dos perdidos. Que você desenvolva um apreço renovado pela beleza e pela glória do plano de redenção de Deus. E que você também se sinta encorajado e mais bem equipado para participar no trabalho de disseminação do evangelho.

Que os leitores que, tal como o Pródigo, chegaram ao fundo do poço sejam motivados a abandonar as cascas deste mundo. E, acima de tudo, que esta mensagem soe como um toque de alvorada no coração daqueles que precisem ser acordados para a realidade terrível de seu próprio pecado e para a promessa gloriosa da redenção em Cristo.

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MACARTHUR, John. A Parábola do Filho Pródigo: Uma análise completa da história mais importante que Jesus contou. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2016, 223p.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

EXPULSÃO DE DEMÔNIOS NA TERRA DOS GADARENOS [Mateus 8.28-34]



“Tendo ele chegado à outra margem, à terra dos gadarenos, vieram-lhe ao encontro dois endemoninhados, saindo dentre os sepulcros, e a tal ponto furiosos, que ninguém podia passar por aquele caminho. E eis que gritaram: Que temos nós contigo, ó Filho de Deus! Vieste aqui atormentar-nos antes de tempo? Ora, andava pastando, não longe deles, uma grande manada de porcos. Então, os demônios lhe rogavam: Se nos expeles, manda-nos para a manada de porcos. Pois ide, ordenou-lhes Jesus. E eles, saindo, passaram para os porcos; e eis que toda a manada se precipitou, despenhadeiro abaixo, para dentro do mar, e nas águas pereceram. Fugiram os porqueiros e, chegando à cidade, contaram todas estas coisas e o que acontecera aos endemoninhados. Então, a cidade toda saiu para encontrar-se com Jesus; e, vendo-o, lhe rogaram que se retirasse da terra deles.” Mateus 8.28-34.


Meus irmãos e amigos

O assunto destes sete versículos é profundo e misterioso. A ex­pulsão do demônio é aqui descrita com especial abundância de detalhes. Esta é uma das passagens que lançam uma forte luz sobre um assunto difícil e obscuro. Mas, também este texto nos mostra quatro verdades que são imprescindíveis:


1. A primeira verdade é que o diabo existe. 

Esta é uma terrível verdade, mas que é muito desconsiderada. Existe um espírito invisível sempre próximo a nós, poderoso e cheio de malícia interminável contra as nossas almas. Desde o princípio da criação ele tem-se esforçado por prejudicar o homem. Até que o Senhor Jesus venha pela segunda vez e o prenda, o diabo jamais cessará de tentar e fazer dano. Nos dias em que nosso Senhor estava sobre a terra, é evidente que o diabo tinha um poder peculiar sobre os corpos de certos homens e mulheres, como também sobre suas almas. Mesmo em nossos dias existe mais dessa possessão demoníaca corporal do que alguns supõem existir, embora em um grau evidentemente menor do que quando Cristo veio na carne. Porém, nunca nos deveríamos esquecer que o diabo está sempre bem perto de nós em espírito, e sempre pronto a nos asfaltar o coração com tentações.


2. A segunda verdade é de que o poder do diabo é limitado. 

Embora ele seja tão poderoso, existe Alguém ainda mais poderoso. Embora seja tão perspicaz e tão determinado em seu intuito de prejudicar a humanidade, ele só pode agir com permissão. A Bíblia nos ensina que aquele que habita no esconderijo do Altssímo a sombra do onipotente descansará (Salmo 91.1), e que se Deus é por nós quem será contra nós? (Romanos 8.31) e o Profeta Isaías 43.13, nos consola dizendo: “Ainda antes que houvesse dia, eu era e nenhum há que possa livrar alguém das minhas mãos; agindo eu quem impedirá?” O texto base de nossa devocional nesta tarde nos mostram que os espíritos malignos só podem ir de um lugar para outro e causar destruição até ao tempo que lhes foi per­mitido pelo Senhor dos Senhores: No versículo 29, lemos que: E eis que gritaram: Que temos nós contigo, ó Filho de Deus! Vieste aqui atormentar-nos antes de tempo? Mesmo a petição que fizeram a Jesus nos mostra que eles não podiam causar dano nem mesmo aos porcos, a me­nos que Jesus, o Filho de Deus, lhes desse permissão. Observem o versículo 31 - Então, os demônios lhe rogavam: Se nos expeles, manda-nos para a manada de porcos.


3. A terceira grande verdade é que nosso Senhor Jesus Cristo é o grande Libertador do homem do poder do diabo. 

Ele não somente pode “remir-nos de toda iniqüidade”, mas também deste “presente mundo mau” e do diabo. Desde a muito foi profetizado que Ele haveria de esmagar a cabeça da serpente. Jesus co­meçou a esmagar a cabeça da serpente quando nasceu da virgem Maria. Ele triunfou sobre a cabeça da serpente quando morreu na cruz. Ele mostrou o seu total domínio sobre Satanás “curando a todos os opri­midos do diabo”, quando estava sobre a terra, como bem declarou o apóstolo Pedro Atos 10.38: “Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo bem, e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele.” O nosso grande recurso, em todos os ataques do diabo, é clamarmos ao Senhor Jesus e buscarmos a sua ajuda. Ele pode romper as cadeias que Satanás lança à nossa volta, e nos libertar. Ele pode expulsar qualquer demônio que nos atormenta o coração, tão certo como nos dias da antigüidade. Meus irmãos, seria realmente uma lástima saber que o diabo existe e está sempre perto de nós, se não soubéssemos que Cristo, conforme Hebreus 10.25 - “pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles”.


4. A quarta grande verdade deste texto é o o doloroso mundanismo dos gadarenos, entre os quais foi operado o milagre da expulsão de demônios. 

Os gadarenos rogaram ao Senhor Jesus “que se retirasse da terra deles”. Eles não se sensibilizavam com nada, a não ser com a perda de seus porcos. Pouco importava que duas pobres criaturas, com duas almas imortais, tivessem sido libertadas da escravidão de Satanás. Para eles também não importava que estivesse ali entre eles Alguém muito superior ao diabo, a saber, Jesus Cristo, o Filho de Deus. Não se importaram com nada, senão que a manada de porcos tinha se afogado, e “que se lhes desfizera a esperança do lucro”. Na ignorância, os gadarenos consideraram a Jesus como alguém que se colocava entre eles e os seus lucros, e só desejavam ficar livres dEle.


Meus amigos e irmãos, existe um número demasiadamente grande de pessoas como os gadarenos. Há milhares de pessoas que não dão a mínima importância a Cristo ou a Satanás, desde que possam ganhar mais dinheiro, e desfrutar um pouco mais das coisas deste mundo. Aqueles gadarenos estavam possessos por Satanás como aqueles dois outros que foram libertados pelo poder de Deus. Que nós possamos estar livres desse espírito! Contra ele, que nós possamos sempre vigiar e orar! Ele é muito comum e terrivelmente contagioso. A cada nova manhã relembremo-nos de que temos almas a serem salvas, e que um dia mor­reremos e teremos de enfrentar o julgamento divino. Cuidemos em não amar o mundo mais do que a Cristo. Que nós tomemos cuidado de não estorvar a salvação de outras pessoas, por temor de que o processo da religião verdadeira possa diminuir nossos ganhos ou nos trazer proble­mas.

A IMPORTÂNCIA DE ROMANOS NA HISTÓRIA DA IGREJA



Mais do que praticamente qualquer outro livro da Bíblia, Romanos moldou de forma expressiva a história da igreja. Esse fato não surpreende, tendo em vista que Romanos é a explicação mais sistemática do evangelho de Jesus Cristo no Novo Testamento. Podemos nos lembrar aqui de alguns indivíduos mencionados anteriormente cuja vida foi transformada pela mensagem de Romanos. Agostinho (pai da igreja, do quinto século) finalmente encontrou paz em Deus depois de ler Romanos 13.14: “Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo; e não fiqueis pensando em como atender aos desejos da carne”. Esse era exatamente o desafio de que o jovem e irrequieto Agostinho precisava e assim ele veio a se tornar, possivelmente, o teólogo mais importante da igreja desde o próprio Paulo.

Em 1517. Martinho Lutero passou a entender de modo inteiramente novo a justiça de Deus enquanto meditava em Romanos 1.17: “Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do principio ao fim é pela fé, como está escrito: ‘O justo viverá pela fé’” (NVI). Veja o testemunho de Lutero, a respeito de sua conversão, com base em seu novo entendimento da justiça divina à luz desse versículo: 

“Não obstante o caráter irrepreensível de minha vida como monge, sentia-me pecador diante de Deus e tinha a consciência extremamente inquieta. Não conseguia crer que ele havia sido aplacado pela satisfação que eu lhe dava. Eu não amava esse Deus justo que castigava os pecadores, mas, sim, o odiava [...] Por fim, pela misericórdia de Deus [...] comecei a entender que a justiça de Deus é a justiça pela qual o justo vive, por uma dádiva de Deus, ou seja, pela fé [...] Senti que havia nascido de novo e entrado pelas portas abertas do paraíso [...] Da mesma forma que havia odiado a expressão “justiça de Deus”, passei a amá-la como a mais doce palavra.” 

Romanos 1.17 também mudou a vida de John Wesley, pois a mera leitura do comentário de Lutero sobre esse versículo, na capela de Aldersgate, numa noite em 1738, deu a Wesley a certeza da salvação que há tanto tempo buscava. Wesley escreveu a respeito desse momento: “Meu coração ficou estranhamente aquecido. Senti que, de fato, confiava em Cristo, e somente em Cristo, para minha salvação”.

A conversão de Karl Barth da teologia liberal para um cristianismo mais conservador (conhecido como neo-ortodoxia) foi resultado de seus sermões sobre Romanos. Seu comentário de 1919 sobre Romanos, em que declarou essa mudança de posicionamento, marcou o início de um novo período. Barth, munido da mensagem de Romanos, conseguiu provocar, sozinho a morte da teologia liberal tradicional.

Além dos expoentes espirituais que acabamos de mencionar, podemos apenas imaginar quantos indivíduos passaram a crer em Jesus Cristo ao percorrerem o “caminho de Romanos” (Rm 3.23; 6.23; 10.9,10,13), incluindo o autor do presente comentário.

Sem dúvida, Romanos mudou a vida de milhões de indivíduos e influenciou o rumo da história da igreja. Merece, portanto, nosso respeito e, até mesmo nossa reverência.

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PATE, C. Marvin. Romanos: Série Comentário Expositivo. São Paulo: Edições Vida Nova, 2015, 354p.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

FALANDO SOBRE A PERSEVERANÇA DOS SANTOS


Nos Cânones de Dort [1] (Cap 5, seção 1,2 e 3), temos um descrição bíblica do que vem a ser a “Perseverança dos Santos”:

1. Aqueles que, de acordo com o seu propósito, Deus chama à comunhão do seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, e regenera pelo seu Santo Espírito, Ele certamente os livra do domínio e da escravidão do pecado. Mas nesta vida, Ele não os livra totalmente da carne e do corpo de pecado (Rom 7:24).

2. Portanto, pecados diários de fraqueza surgem e até as melhores obras dos santos são imperfeitas. Estes são para eles constante motivo para humilhar-se perante Deus e refugiar-se no Cristo crucificado. Também são motivo para mais e mais mortificar a carne através do Espírito de oração, e através dos santos exercícios de piedade, e ansiar pela meta da perfeição. Eles fazem isto até que possam reinar com o Cordeiro de Deus nos céus, finalmente livres deste corpo de morte.

3. Por causa dos seus pecados remanescentes e também por causa das tentações do mundo e de Satanás, aqueles que têm sido convertidos não poderiam perseverar nesta graça, se deixados ao cuidado de suas próprias forças. Mas Deus é fiel: misericordiosamente os confirma na graça, uma vez conferida sobre eles, e poderosamente preserva a eles na sua graça até o fim.


Confissão de Fé de Westminster diz o seguinte a respeito dessa doutrina:

“Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, os que ele chamou eficazmente e santificou pelo seu Espírito, não podem decair no estado da graça, nem total, nem finalmente; mas, com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim e serão eternamente salvos”. (Cap. XVII, da Perseverança dos Santos)

Pode-se definir a perseverança como a contínua operação do Espírito Santo no crente, pela qual a obra da graça divina, iniciada no coração, tem prosseguimento e se completa. É porque Deus nunca abandona a Sua obra que os crentes perseveram até o fim.[2]

Para nós, o mais simples e mais completo conceito sobre a doutrina é definido por Arthur Stone: “Perseverança dos santos é a total impossibilidade para o eleito de Deus, aquele que foi convencido de pecado pelo Espírito Santo e lavado no precioso sangue de Jesus, de se perder”. Diríamos nós: Uma vez eleito, eleito para sempre. Uma vez convertido, convertido para sempre. Uma vez justificado, justificado para sempre. Uma vez salvo, salvo para sempre. [3]

Esses textos nos ensinam que aqueles a quem o Pai ama, por quem Jesus morreu e a quem o Espírito regenera, serão guardados pelo Senhor para sempre. A doutrina da perseverança dos santos é um dos pilares do edifício da nossa fé reformada.


PORQUE ESTA DOUTRINA É TÃO IMPORTANTE

1. Essa doutrina nos lembra que Deus nos ama e nos guardará. Isso é muito importante em meio a uma vida estressante onde muitas vezes nos tornamos espiritualmente “secos” e podemos sentir como se Deus tivesse nos abandonado. Leiamos Jo 6.35-40.

2. Essa doutrina nos lembra de não acreditarmos nas mentiras do diabo enquanto ele constantemente tenta nos acusar e atacar. A doutrina da perseverança nos lembra de não desistirmos da esperança. Leiamos João 10.28.

3. Nós precisamos trazer à memória Romanos 8.35-39, lembrando que nada no mundo pode nos separar do amor de Deus em Jesus Cristo.

4. Essa doutrina nos lembra que mesmo lutando contra o pecado em nossas vidas, Jesus o derrotou e um dia fará cessar a nossa guerra.

5. Essa doutrina nos lembra que somos guardados pelo poder de Deus e que isso não tem relação com quão “para cima ou para baixo” nos sentimos nesse dia/semana específico.

6. Essa doutrina nos lembra que a morte perdeu o seu aguilhão e que Deus nos preserva tanto na vida como na morte.

7. Essa doutrina nos dá um motivo real para lutar em meio ao sofrimento e angústia da nossa vida, porque sabemos que, finalmente, Deus tem um propósito e nos conduzirá através de todas as nossas provações.

A doutrina da perseverança dos santos realmente pode estimular a nossa adoração, ela nos conduz ao louvor, alegra-nos e prepara-nos para a morte que um dia virá.

Nós temos a responsabilidade de ensiná-la de forma corajosa e simples como um conforto para aqueles que pertencem a Cristo. O que pode ser melhor do que saber que Cristo não somente morreu para resgatar pecadores, mas que em sua soberana misericórdia e graça podemos ter a certeza de que ele guardará até o fim aqueles que ele chamou? 1 Ts 5.23-24.


CONCLUSÃO

Em que nós perseveramos? Nós perseveramos em fé, crendo em Deus, confiando em Sua Palavra, e aguardando em Suas promessas; no arrependimento dos pecados; na negação de si mesmos e seguindo a Cristo, lutando por santidade de vida; e buscando conhecer a vontade de Deus e fazer aquilo que O agrada. Tais são os frutos que acompanham a fé justificadora.

Os regenerados são salvos perseverando na fé e na vida cristã até o fim (Hb 3.6; 6.11; 10.35-39). Esta doutrina não significa que todos aqueles que já professaram ser cristãos serão salvos. Os que tentam viver a vida cristã baseados em sua própria capacidade decairão (Mt 13.20-22). A falsa profissão de fé por parte de muitos que dizem a Deus “Senhor, Senhor” não será reconhecida (Mt 7.21-23).

Os que buscam a santidade do coração e o amor ao próximo e, assim, mostram terem sido regenerados por Deus, adquirem o direito de se considerarem crentes seguros em Cristo. A crença na perseverança propriamente entendida não nos leva a uma vida descuidada e à presunção arrogante. [4]

É um sinal perturbador quando estes frutos estão faltando em um Cristão professo.
a) Cristo adverte sobre a fé temporária (Mateus 13:18-22);
b) Paulo denuncia aqueles que “tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder” (2 Timóteo 3:5);
c) Tiago declara que “a fé, se não tiver obras, por si só está morta” (Tiago 2:17).

Portanto, Paulo nos exorta: “examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos” (2 Co13:5). [5]




[1] Em 13 de novembro de 1618 o Sínodo Nacional de Dort foi estabelecido. Todas as despesas seriam pagas pelo governo holandês. O sínodo era composto de 84 membros e 18 comissários seculares. Dos 84 membros, 58 eram holandeses, oriundos dos sínodos das províncias, e os demais (26) eram estrangeiros. Todos tinham direito a voto. O tema principal do Sínodo era o arminianismo. O Sínodo de Dort foi importante por ter mostrado a tentativa dos arminianos de diminuírem a soberania de Deus na salvação, engrandecendo o papel do homem na sua própria salvação.
[2] BERKHOF, Louis. Teologia Sistematica. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. p545
[3] SPENCER, Duane Edwards. TULIP – Os cinco pontos do calvinismo. Parakletos. São Paulo 2000.
[4] Bíblia de Estudo de Genebra, Nota Teológica, página 1331.
[5] BEEKE, Joel. A Perseverança dos Santos. Disponível in: https://goo.gl/EGiXDM. Acessado em 18 set 2017

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O EVANGELHO SEGUNDO A FILOSOFIA: DO FILÓSOFO JESUS ÀS IDÉIAS SOBRE JESUS


Havia uma dúvida quanto ao título desta obra. Seria o Evangelho segundo a filosofia ou o Evangelho segundo as mentalidades? O leitor que entender “filosofia” no sentido mais acadêmico do termo, como uma disciplina, poderá corretamente argumentar pela maior fidedignidade da segunda opção. Ou seja, trata-se aqui mais de inventariar o efeito do Evangelho (e, por decorrência, do cristianismo) sobre as mentalidades do que sobre os filósofos de referência da história da filosofia.

Optei pelo primeiro título porque a ideia nasceu em mim a partir da vontade de aplicar princípios hermenêuticos e dialéticos próprios do exercício filosófico tanto ao Evangelho em si como às filosofias e circunstâncias históricas que o inspiraram ou precederam e como ao que se sucedeu no Ocidente e em Bizâncio como decorrência da aplicação de tais princípios ao Evangelho e da expansão e consolidação do cristianismo.

Adicionalmente, pode-se traduzir “mentalidades” por “filosofia popular” ou a forma pela qual cada um interioriza ideias gerais e preceitos filosóficos referentes à ética ou à moral. Creio ser mais relevante ligar uma análise do Evangelho ao que se sabe sobre essa interiorização do que às manifestações políticas do clero e dos mais destacados filósofos/teólogos da cristandade ou contra o cristianismo, sem perder de vista as interações e mal-entendidos entre uns e outros.

A bibliografia focada na evolução das mentalidades individuais é relativamente escassa. Servi-me, em especial, da série História da vida privada, editada originalmente na França em 1985, dirigida por Philippe Ariès e Georges Duby, e contando com a participação de autores fundamentais para a compreensão das pontes entre agires cotidianos e pregação de matriz cristã, como Paul Veyne, Peter Brown, Évelyne Patlagean, Gérard Vincent e Michel Rouche. Isso não representa de modo algum um comprometimento com as conclusões desses autores. Recomendo, porém, vivamente ao leitor que queira se aprofundar sobre a história do cristianismo e do Ocidente a leitura dessa coleção.

A edição da Bíblia utilizada nesta obra foi, por norma, a Bíblia Ave-Maria, em versão em português publicada pela primeira vez em 1959 no Brasil. A edição católica prima pelo uso de sinônimos atuais, facilitando a compreensão do público em geral. Excepcionalmente, para situações em que o rigor se fazia mais importante, utilizei a Bíblia Sagrada editada pela Sociedade Bíblica Brasileira (2ª edição, revista e atualizada — 1993) a partir da clássica tradução de João Ferreira de Almeida para o português (completa em 1694). Para fins de exegese específica do Evangelho, porém, consultei originais em grego, disponíveis em portais confiáveis da internet.

Apesar de minha adesão ao cristianismo, procurei sinceramente compreender os pontos de vista de autores anticristãos ou agnósticos. Minha simpatia, digamos assim, pelo cristianismo, não se estende ao milenarismo cristão, à crença no criacionismo nem a propostas teocráticas de caráter autoritário.

Para finalizar, registro os devidos agradecimentos, não todos, mas alguns selecionados para manter a brevidade. Em primeiro lugar, à editora Record, em especial ao editor Carlos Andreazza, pela confiança depositada no projeto e pela liberdade a mim concedida na expressão de pensamentos que afrontam crenças pessoais e ideias consolidadas.

Aos filhos, Marco Aurélio, Marco Túlio, Sofia e Caio, os três primeiros meus
colaboradores diretos, o último um incentivador por sua presença, seu amor e seu carinho. Aos amigos Afonso Henrique Soares Júnior, Araken Vaz Galvão, Emmanuel Mirdad, Liane Dittberner, Marcos Cruz Teixeira, a meu pai, Nilson, e a minha irmã, Paula, pelo precioso apoio com questionamentos, observações, apontamentos e críticas. Aos amigos Leandro Narloch e Douglas Cavalheiro, pelas orientações prévias e incentivo.

Aos meus leitores e admiradores recentes ou antigos, que me acompanham e são a razão de ser de minha dedicação à escrita.
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SCHOMMER, Aurélio. O evangelho segundo a filosofia: do filósofo Jesus às idéias sobre Jesus. Rio de Janeiro: Record, 2016, 307p.


sábado, 9 de setembro de 2017

BONHOEFFER E A AUTORIDADE BÍBLICA


 Primeiro de tudo, confessarei, pura e simplesmente — eu acredito que a Bíblia sozinha é a resposta para todos os nossos questionamentos, e nós precisamos apenas perguntar repetidamente e de um pouco de humildade, nessa ordem, para receber as respostas. Não se pode apenas ler a Bíblia como se lê outros livros. É preciso estar realmente preparado para examiná-la. Apenas assim ela se revelará. Somente se esperarmos dela a resposta final, iremos recebê-la. Porque na Bíblia Deus fala conosco. E não se pode simplesmente pensar em Deus com a própria força; é preciso indagá-lo. Apenas se o procurarmos, ele irá nos responder. Sim, é possível ler a Bíblia como um livro qualquer, isto é, do ponto de vista da crítica textual etc.; não há nada a ser dito contra isso. Apenas que esse não é o método que nos irá revelar o coração da Bíblia, mas apenas sua superfície, assim como nós não nos apoderamos das palavras de alguém que amamos ao tomá-las letra por letra, mas simplesmente as recebendo, e então elas persistem em nossa mente durante dias, porque afinal são as palavras de uma pessoa que amamos, e assim como essas palavras revelam mais e mais sobre a pessoa que as disse enquanto nós seguimos, como Maria, “meditando-as no coração”, assim será com as palavras da Bíblia. Somente se nos aventurarmos a entrar nas palavras bíblicas, como se nelas esse Deus estivesse falando conosco que nos ama e que não deseja nos deixar sozinhos com nossas perguntas, somente assim aprenderemos a nos regozijar com ela [...].

Se sou eu quem determina onde Deus será encontrado, então irei sempre encontrar um Deus que corresponde a mim de algum modo, que me favorece, que se liga a minha própria natureza. Mas, se Deus determina onde ele será encontrado, então ele estará num lugar que não é agradável de imediato a minha natureza e que não é de todo conveniente para mim. Esse lugar é a cruz de Cristo. E todo aquele que o encontrar deve ir aos pés da cruz, como é ordenado pelo Sermão do Monte. Isto não está em nada de acordo com a nossa natureza, é totalmente contrário a ela. Mas esta é a mensagem da Bíblia, não somente no Novo, mas também no Antigo Testamento [...].

E eu gostaria de dizer-lhe agora de modo muito particular: desde que aprendi a ler a Bíblia dessa maneira — e não tem sido há muito tempo —, ela se torna cada dia mais maravilhosa para mim. Eu a leio pela manhã e à noite, muitas vezes também durante o dia, e todo dia reflito sobre o texto que escolhi para a semana, e tento me aprofundar nele, para que assim possa realmente ouvir o que é dito. Eu sei que, sem isso, não conseguiria viver apropriadamente por muito tempo.
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Bonhoeffer: Pastor, Mártir, Profeta, Espião. Eric Metaxas. São Paulo : Mundo Cristão, 2011, p.150-151.

EU CREIO NO PAI, NO FILHO E NO ESPÍRITO SANTO [Resenha]


Ângelo Vieira da Silva [1]: COSTA, Hermisten Maia Pereira[2]. Eu Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo. São Paulo: Editora Fiel, 2014. 479p.


O livro Eu creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo, de Hermisten Maia Pereira da Costa, acrescenta elementos essenciais para o bom desenvolvimento do sistema teológico hodierno, subscrevendo verdades bíblicas fundamentais para uma confissão de fé viva e fiel às Escrituras. O Credo dos Apóstolos é a matéria de exame do livro. Pretendendo usá-lo como rota de estudo, por ser uma boa síntese da fé cristã, Costa afirma que seu método está estritamente conectado com a forma do mesmo enxergar as Escrituras.

O assunto em questão é o Credo ou a atitude adequada frente à expressão Eu creio, a saber: é preciso reconhecer e confessar a realidade e o conteúdo da fé. Por isso, o autor verifica a importância da subscrição de fé, como pode ser encontrada no Antigo Testamento, no credo judeu: o shema; e no Novo Testamento, pleno de referências às tradições, à doutrina dos apóstolos, à palavra da vida, à forma que foi entregue e muitas outras expressões que podem fundamentar a matéria em questão, organizada em vinte e uma partes de exame no referido credo.

Ao finalizar o extenso capítulo introdutório, adentra-se à primeira parte da obra, sobre a inspiração e inerrância das Sagradas Escrituras. Costa refere-se a estas como verdades fundamentais da fé cristã, das quais depende toda formulação teológica. Demonstra também o que não é inspiração (nem mecânica, iluminada, intuída, fracionada, mentalizada) e o que ela realmente é a partir de considerações gramaticais, focando-se na inspiração (a) plenária (toda a Escritura), (b) dinâmica (não anulou a personalidade), (c) verbal (através de palavras) e (d) sobrenatural (originada em Deus) das Escrituras.

A segunda porção da obra salienta a fé salvadora, indispensável, essencial à vida humana. Costa relaciona quatro tipos de fé que chama de (a) Histórica ou Especulativa (crença intelectual na veracidade de um acontecimento histórico), (b) Temporal (decorrente da consciência da realidade das verdades religiosas), (c) Milagrosa (pela persuasão intelectual de ser instrumento ou beneficiário de um milagre, daí ativa ou passiva) e (d) Salvadora. Para o autor, a fé salvadora tem elementos distintos (Intelectual, Emocional e Volitivo), necessidades (para salvação, oração, culto, relacionamento com Deus, resistir ao diabo), efeitos (na salvação, selo do Espírito Santo, adoção, perdão dos pecados, justificação) e características especiais, pois se origina no próprio Deus, direcionada para Ele e Sua Palavra, apoiando-se em seu poder e fidelidade, resultando em nossa eleição interna.

Creio em Deus Pai... O terceiro elemento do livro acentua a paternidade de Deus no Antigo e Novo Testamentos, inicialmente. Contudo, parece que sua ênfase está na filiação em Cristo Jesus. A partir dos quatorze aspectos desta paternidade, Costa avalia a natureza da filiação como resultado da graça de Deus e de seu amor eterno, bem como os critérios desta filiação (nascer de novo, receber a Cristo, fé em Jesus) e evidências da mesma (guiados pelo Espírito que testemunha interiormente e manifesta seu fruto, obediência, comunhão integral).

Creio num Deus Todo-Poderoso... Na quarta divisão, Costa evidencia o poder soberano de Deus. O ponto de partida é a liberdade do poder de Deus em cinco aspectos: (a) a liberdade de existência (Ele é o próprio poder), (b) a liberdade de decisão (Ele determina livremente sua ações), (c) a liberdade de execução (Ele age conforme a sua vontade) e (d) a liberdade de limitação (Ele age conforme as perfeições de seu Ser).

O quinto ponto de observação na obra está no Deus Criador. O objetivo deste capítulo é estudar alguns aspectos da ação criadora de Deus, dedicando maior atenção ao homem como a ‘a obra-prima’ do Criador. A origem do homem segundo as Escrituras e o sábio Conselho do Deus Triúno é vista nos conceitos sinônimos de imagem/semelhança em sete aspectos teológicos: (a) Personalidade, (b) Justiça e Santidade, (c) Liberdade, (d) Conhecimento espiritual, (e) Imortalidade, (f) Espiritualidade e (g) Domínio sobre a natureza.

Creio em Jesus Cristo... A primeira vinda do Senhor é vista no sexto capítulo do livro. Jesus, o Cristo, o Messias, o Ungido é destacado a partir do significado e prática da unção no Antigo Testamento, um sinal visível de (a) designação para um ofício, (b) estabelecimento de uma relação sagrada e a conseqüente consagração da pessoa ou coisa ungida e (c) comunicação do Espírito ao que foi ungido. Jesus veio cumprir a vontade do Pai. Veio salvar Seu povo, que foi ungido pelo Espírito.

A sétima parte descreve a Pessoa de Cristo como se confessa. Costa visa demonstrar a realidade das duas naturezas de Cristo, afirmando que Jesus Cristo é plena e perfeitamente Deus e perfeitamente homem. O autor expõe a Divindade e Humanidade de Jesus aprofundadamente nos termos de profetizadas, reconhecidas e demonstradas.

A oitava porção da obra enfatiza a unidade e a necessidade das duas naturezas de Cristo. Quanto à necessidade, Costa a descreve em relação à Divindade, Humanidade e nas duas naturezas numa só pessoa. Tal necessidade fundamenta-se (a) no cumprimento de toda lei, (b) na revelação de Deus e da salvação aos homens, (c) na derrota definitiva de satanás, (d) no suportar o peso da culpa do pecado de seu povo, (e) no constituir-se um caminho perfeito e imaculado e (f) no apresentar-se como sacrifício perfeito.

O nono elemento do livro é o Filho unigênito de Deus. Costa ensina acerca da eternidade do Filho e de Filho e como se dá o íntimo relacionamento deste com seu Pai. Para isto, salienta alguns aspectos desta relação como: (a) a igualdade essencial entre ambos, (b) o poder do Filho, (c) a santidade gloriosa do Filho e (d) o reconhecimento da filiação de Jesus Cristo.

Na décima divisão a temática é Jesus Cristo, nosso Senhor. A começar do Antigo Testamento, Costa estabelece suas reflexões no Senhorio do Redentor, dono da terra, de Israel e da história. São esclarecedores os seis possíveis sentidos fundamentais para Jesus como Senhor escritos pelo autor, bem como suas características, manifestações e efeitos escatológicos.

O décimo primeiro ponto se relaciona ao ministério terreno de Jesus Cristo. Para Costa são seis as facetas deste ministério: (a) Docente (autoritativo, sábio, poderoso, incansável, corajoso, determinado, realista, sincero, sensível, fiel), (b) Litúrgico (sobre Arão, exegeta intérprete do Pai, culto a Deus, que foi glorificado), (c) Diaconal (veio para servir, não para ser servido), (d) Pastoral (conhecendo suas ovelhas, reconhecido por elas, guiava com segurança, vivificador, sacrifica pelas ovelhas, preservador, compartilha com seus servos o privilégio do pastorado), (e) Terapêutico (preocupação com o homem por inteiro) e (f) Intercessório (orou por todos, num futuro próximo ou distante).

Os sofrimentos de Cristo tornam-se o fundamento do décimo segundo capítulo do livro. Neste ponto se pode aprender que a vitória sobre o sofrimento está na plena submissão à vontade de Deus. As causas do sofrimento de Cristo não são outras senão o pecado humano, a justiça, o amor reconciliador de Deus e a voluntariedade do Filho. O autor ressalta a consciência e a obediência perfeito de Cristo em seu sofrimento, demonstrando qual a intenção e extensão destes.

A décima terceira parte é sobre Jesus, o Salvador. Se todos os homens necessitam da salvação por causa de seus pecados, Costa demonstra que tal necessidade parte dos princípios (a) da universalidade do pecado, (b) da interrupção da comunhão com Deus e (c) da morte física/espiritual do homem. Jesus é o único Salvador. Apropriar-se desta graça só será possível pelo (a) Arrependimento, (b) Fé em Jesus Cristo, (c) Regeneração, (d) Obediência, (e) Santificação, (f) Perseverança e (g) Confissão Pessoal de Cristo como Senhor.

A décima quarta porção é sobre o Sacerdócio de Cristo. Mediante citação da obra Sacerdotal, Profética e Real de Cristo, definição de termos vetero-testamentários e o sacerdócio judaico, o autor define que o profeta fala da parte de Deus ao povo; mas é o sacerdote que fala da parte do povo a Deus. Costa ainda demonstra que Cristo é o sacerdote perfeito, pois (a) ofereceu a Deus um sacrifício perfeito para satisfazer a justiça divina, reconciliando seu povo com Deus e (b) intercede continuamente por seu povo, fundamentado em seus méritos redentores.

O décimo quinto elemento da obra é a ressurreição de Cristo. Segundo Costa, o mistério desta doutrina, da singularidade da ressurreição de Cristo, poderá estar em seu corpo real e transcendente. É por isso que trabalha significados para mesma: (a) teológico (como o cumprimento das Escrituras), (b) soteriológico (como nossa regeneração), (c) kerigmático (dando sentido a pregação fiel da igreja), (d) vivencial (frutificando para Deus) e (e) escatológico (modelo do corpo glorioso dos cristãos).

A ascensão é assunto da décima sexta divisão da obra. Percebe-se que, para o autor, a ascensão denota a grande responsabilidade de se viver como o Corpo de Cristo no mundo, e que o regresso de Jesus ao Pai evidencia a realização completa de toda a obra a qual viera realizar.

O décimo sétimo ponto do livro é a segunda vinda de Cristo, considerando-a como elemento de transição entre o “já” (a realidade do reino presente) e o “ainda não” (a consumação plena do Reino). Certo da segunda vinda de Cristo, Costa evidencia que a mesma será repentina, decisiva e definitiva, pessoal, visível e audível, física, triunfante, gloriosa e glorificante.

O décimo oitavo capítulo é sobre o juízo final. Costa afirma que o juízo final é o momento quando haverá a consumação da história, tendo os homens que prestar a Deus contas de seus atos, palavras e pensamentos. O entendimento é que o juízo final manifestará a glória de Deus tornado público seu eterno propósito e consumando a história salvífica.

“Creio no Espírito Santo”, este é o foco do décimo nono capítulo. Partindo do Antigo e Novo Testamentos, judaísmo posterior e história eclesiástica, Costa demonstra as perfeições do Espírito Santo (Unicidade, Personalidade e Divindade) e afirma que verdadeiramente procede de um (Pai) e outro (Filho), desde a eternidade e deve ser com ambos adorado.

A vigésima parte do livro é sobre a Igreja de Deus. Definindo palavras a partir de considerações gramaticais, informa as marcas da verdadeira Igreja (pregação fiel da Palavra, a correta administração dos sacramentos, o exercício fiel da Disciplina) e aborda a eclesiologia pela (a) Unicidade (união essencial produzida pelo Espírito cheia de propósito), (b) Santidade e (c) Catolicidade.

A vigésima primeira porção é sobre o significado da Palavra Amém (confiança, ter fé, assim seja, etc.). Vislumbrando o uso desta no Antigo e Novo Testamentos, aplica-lhe a quarenta e quatro proposições teológicas extraídas do Credo Apostólico.

Finalmente, deve-se dizer que Eu Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo é uma obra com profundidade teológica, exegética e histórica. De fato, o livro pode ajudar o leitor no comprometimento com uma identidade de fé. Ele declarará: eu também creio. Costa, definitivamente, evidenciou o grande valor dos credos e confissões de fé para o homem regenerado e para o relativista. O leitor atento concluirá e corroborará com o autor que não se podem desvalorizar as contribuições dos servos de Deus no passado referentes á compreensão bíblica.

O livro pode ser mais bem organizado. A divisão de capítulos é superficial (ainda que o conteúdo não o seja). Sugeriria uma melhor divisão dos capítulos como descrito pelo próprio autor (p. 78), estabelecendo os capítulos desta obra como sub-tópicos. No vigésimo capítulo, a título de enriquecimento, talvez valesse a pena uma exposição sobre a Apostolicidade da Igreja como citado pelo credo Niceno-Constantinopolitano. Destarte, destaco na obra as comparações introdutórias entre os Credos Niceno, Niceno-Constantinopolitano, Calcedônia e Atanasiano, a profundidade e biblicidade do autor quanto às limitações do homem no quinto capítulo (resumidas em quatorze aspectos fundamentais) e o adendo com sínteses dos documentos de fé dos séculos XVI e XVII.

Costa demonstra claro intelectualismo e lógica, o que contribui para a compreensão do leitor, que se sentirá mais resoluto no que subscreve e declarará: eu também creio. Destaca-se, como sempre, o amplo conhecimento do autor das fontes que utiliza, principalmente, pelo enriquecimento das notas de rodapé, que são sua marca registrada (como visto em suas obras). [3]




[1] Ângelo Vieira da Silva possui o mestrado profissional em Ciências das Religiões pela Faculdade Unida de Vitória, ES. Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, SP. Pesquisador na área de apocalíptica, pseudoepígrafos (Enoque etíope), escatologia (milenarismo) e angelologia. É pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, atualmente na Primeira Igreja Presbiteriana de Resplendor, MG. Publicou, entre outros estudos em Literatura Bíblica e Teologia, o opúsculo Angelologia Bíblica. (1. ed. Amazon, Kindle Edition, 2013. v. 1. 38p.). E-mail de contato: revavds@gmail.com Blog: http://revavds.blogspot.com.br Lattes: http://lattes.cnpq.br/8163422369950583
[2] O Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa possui graduação em Pedagogia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1993), graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1983), graduação em Teologia – Seminário Presbiteriano do Sul (1979), Mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (1999) e Doutorado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2003).
[3] Resenha publicada originalmente na Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano XI, n. 51, p. 120-124.