sábado, 20 de maio de 2017

O PAI NOSSO: TEMAS TEOLÓGICOS ANALISADOS A PARTIR DA ORAÇÃO ENSINADA POR JESUS [Introdução]



“A oração é a conversa da alma com Deus (...) Um homem sem oração é necessária e totalmente irreligioso. Não pode haver vida sem atividade. Assim como o corpo está morte quando cessa sua atividade, assim a alma que não se dirige em suas orações a Deus, que vive como se não houvesse Deus, está espiritualmente morte” – Charles Hodge. [1]

A. Dirigida ao Pai (Mt 6.6,9)

A palavra de Deus nos ensina que nossa oração deve ser dirigida ao Pai. Em nosso orações devemos aprender logo de início que estamos falando com o nosso Pai; o nosso Deus é Pai, de quem podemos nos aproximar com confiante amor, certo de que ele está atento ao nosso clamor. “O Pai está sempre a disposição de seu filhos e nunca está preocupado demais que não possa ouvir o que eles têm a dizer. Esta é a base da oração cristã.” [2]

O conhecimento que temos de Deus Pai é nos revelado por Cristo; por sua graça o conhecemos. Jesus declara: “Ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27). Falamos com o Pai – não com um estranho -, a Quem conhecemos pela graça.

Aqui há algo extremamente relevante que devemos mencionar. A paternidade de Deus sobre Israel é claramente reconhecida pelo povo do Antigo Testamento (DT 32.6; Sl 103.13,14; Jr 31.9,20); a idéia está sempre presente nas páginas do Antigo Testamento. Apesar de este substantivo ser usado mais de 1.200 vezes ali,[3] só ocorre 14 vezes referindo-se a Deus; todavia, nestes casos, é sempre empregado de forma reveladora.[4] Curiosamente, os sumerianos, cerca de três mil anos antes de Cristo, Já se referiam ao seu deus como um pai.[5]

O povo judeu era caracterizado por uma correta ênfase dada à oração. No Antigo Testamento, encontramos uma riqueza de referências à oração bem como uma demonstração vivida desta prática por parte do povo de Deus. Os ensinamentos rabínicos também traziam orientações diversas sobre a relevância e a necessidade dos homens manterem-se em comunhão com Deus por meio da oração.

Porém, com o passar do tempo – apesar de não haver nenhum ensinamento contrário -, penetraram alguns vícios na prática da oração. “O problema com qualquer sistema, comenta Barclay, não está no sistema em si, senão nos homens que o usam. Qualquer sistema de oração pode converter-se em um instrumento devocional autêntico ou em uma formalidade que deve despachar-se o mais rápido possível, sem pensar demasiado em seu conteúdo.” [6]
A corrupção de uma pratica geralmente está associada à matéria ou a forma; ou seja, em nome de uma suposta liberdade espiritual, podemos destruir toda a forma ensinada, considerando-a irrelevante; o que de fato pode acontecer. Outro modo de corrupção consiste em manter-se a forma estabelecida, tornando-se extremamente detalhista no aspecto visual, no seu aparato mas sem o espírito correto: destrói-se, assim, a essência do preceito. Parece-nos que este equivoco era o mais comum em Israel (1 Sm 15.22; Is 1.10-17; Os 6.6; Am 5.21,22; Mq 6.6-8), ainda que não o único (2 Cr 26.16-20; Ml 1.6-14).

Seguindo Barclay (1907-1978), podemos dizer que a palavra-chave para estes vícios era o formalismo.[7]

Na prática da oração dos judeus, observamos quatro características principais que não eram necessariamente erradas, mas que tendiam a fortalecer um costume apenas formal, destituído do genuíno espírito que deve caracterizar todo o nosso procedimento religioso. Ei-las:

1. Formalismo quanto ao tempo – Os judeus devotos oravam, ainda que não exclusivamente, três vezes ao dia: às três, às seis e às noves horas. Estas horas equivalem às nossas nove, doze e quinze horas. (Veja-se: Dn 6.10; At 3.1)

2. Formalismo quanto ao lugar – o lugar principal de oração era o Templo ou a Sinagoga.

3. Formalismo quanto à forma da oração – Os judeus tinham duas orações principais:

a) Shemá: [8] (“Ouve”), o “credo judeu”,[9] que consistia na leitura de Dt 6.4-9; 11.13-21 e Nm 15.37-41. O “Shemá” era repetido três vezes ao dia.[10]

b) Shemone Esreh: (“Dezoito Bênçãos”). Estas bênçãos consistiam em uma série de louvores a Deus.[11] Também deveriam ser recitadas três vezes durante o dia. Posteriormente, já no período neotestamentário, o número de bênçãos teve acréscimo de uma oração contra os hereges (Bênção nº 11); todavia para que o número 18 não fosse alterado, a bênção de nº 14 foi unida com a de nº 15.

Ambas as orações eram usadas liturgicamente.[12] Mesmo havendo alguns rabinos que se insurgissem contra a prática de se fixar as palavras desta oração, havia uma tendência de estabelecê-la de forma definida.[13]

4. Formalismo quanto à extensividade da oração – Muitos judeus entendiam que a oração para ser ouvida deveria ser longa e repetitiva.

Devemos observar que muitos judeus praticavam estes princípios com sinceridade; outros, entretanto, oravam de forma mecânica, como se estivesse repetindo uma série de sons sem sentido. Os rabinos, por sua vez, procuravam, em seus escritos, corrigir alguns destes desvios, mostrando o espírito correto que deve nortear a oração, contudo, os seus esforços se não foram em vão, não eliminaram tal prática.[14]

No Novo Testamento, Jesus Cristo enfatizou a necessidades de os seus discípulos orarem, sendo ele mesmo um modelo de oração para todos nós. Todavia, deve ser ressaltado que Jesus não exercitava a oração apenas para ser um exemplo para nós, antes “a oração foi, em algum sentido misterioso, uma parte necessária de sua vida ministerial”.[15]

No texto de Mateus 6.5-15, Jesus combate algumas práticas erradas de oração e apresenta princípios que devem nortear a oração cristã. Como a Bíblia – a Palavra de Deus – é o nosso manual de oração, precisamos aprender  com ela como devemos orar, por meio dos ensinamentos de Cristo.[16] A oração do Senhor se constitui num modelo de oração para toda a Igreja em todos os tempos; por meio de seu estudo, podemos, mediante a iluminação do Espírito Santo, aprender uma série de princípios e orientações que devem nos guiar na escola da oração. Estudarmos  a Oração Dominical sob a perspectiva de três temas principais, que se constituirão nos capítulos de nossa exposição. Devemos considerar também que Deus deseja que oremos com intensidade e integridade, não permitindo que as distrações de nossa mente nos afastem deste propósito santo.[17]

Na oração do Senhor – “que é a oração representativa de todas” -, [18] encontramos uma “fórmula”, um “roteiro”, no qual o Senhor Jesus “nos propôs tudo quanto dele é licito buscar, tudo quanto conduz ao nosso benefício, tudo quanto é necessário suplicar”, resume Calvino (1509-1564).[19] Acontece que, na prática, este privilégio só pode ser exercitado após termos aprendido. De forma vivencial, que tudo que é-nos necessário está em Deus.[20]

A Oração do Senhor sempre foi apreciada pela Igreja.[21] Quanto ao seu uso litúrgico, não sabemos a partir de quando ela passou a ser empregada. Todavia, esta prática pode ser atestada como algo corrente em meados do 4º século, conforme evidencia Cirilo de Jerusalém (c. 315-386) na sua 23ª “Catequese Mistagógica” (c. 350).[22]



O Pai Nosso: Temas Teológicos analisados a partir da oração ensinada por Jesus. Herminsten Maia Pereira da Costa. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 13-16.



[1] Charles Hodge, Sistematic Theology, Grand Rapids, Michigan, Erdmans: 1976 (Repinted), Vol III, p. 692.
[2] J. I. Packer, O Conhecimento de Deus, São Paulo, Mundo Cristã: 1980, p. 194.
[3] E. Jenni, Padre: In: Ernest & C. Westermann, eds. Diccionário Teológico Manuel del Antiguo Testamento, Madrei, Ediciones Cristiandad, 1978, Vol. I, p. 36.
[4] J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento, PP 11,12; 2ª Ed. São Paulo: Paulinas, 1979, p. 12ss
[5] Vd. J. Jeremias. A Mensagem central do Novo Testamento, PP 11,12; J. Jeremias, O Pai Nosso, pp 33,34. A referência ao seu deus como “Pai” é um fenômeno comum na história das religiões, quer dos povos mais primitivos quer dos mais evoluídos culturalmente. (Cf G. Schrenk, papai: In: G. Kittel & G. Friedrich, Eds. Theology Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Nichigan: Erdmans, 1983 (Reprinted), Vol V, p. 951)
[6] William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado. Buenos Aires: La Aurora, 1973 (Mateo I), vol 1, p. 208.
[7] Cf. W. Barclay, El Padrenuestro, Buenos Aires: La Aurora/ABAP, 1985, PP 22.32.
[8] É a primeira palavraque aparece em Dt 6.4, derivada do verbo (Shãma), “ouvir”, envolvendo normalmente a idéia de ouvir com afeição. (Vd. Hermann J. Austel, Shâma’: In: R. L. Harris, ET. AL. eds Thelogical Wordbook of the Old Testament,  2ª ed., Chicago, Moody Press, 1981, Vol. II, pp. 938-939).
[9] Conforme expressão de Edersheim (1852-1889). Vd. Alfred Edersheim, La Vida y los Tiempos de Jesus El Messias, Barcelona, CLIE, 1988, Vol. P. 491.
[10] Quanto ao emprego desta oração feita pelos judeus individualmente, Vd. Shemá: Alan Unterman, Dicionário Judaico de lendas e Tradições, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1992, p. 242.
[11] A. Edersheim transcreve seis destas bênçãos; Vd.  La Vida y los tiempos de Jesus El Mesias, I, PP. 492-494.
[12] Vd Herminsten M. P. Costa, Teologia do Culto, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1987, p. 19.
[13] Compare as informações  de A. Edersheim, La Vida y los tiempos de Jesus El Messias, I, p. 492 com as de William D. Maxwell, El Culto Cristiano: Su Evolucion e Sus Formas, Buenos Aires, Methopress Editorial y Grafica, 1963, p. 17.
[14] A. W. Pink acredita que em virtude da nossa presunção, hipocrisia, insensibilidade, frieza e falta de fé, “o povo do Senhor, com toda probalidade, peca mais em seus esforços para orar do que em conexão com qualquer outra coisa que costuma fazer”. (A. W. Pink, Enriquecendo-se com a Bíblia,  São Paulo, FIEL, 1979, PP 39,40).
[15] James Hastings, La Doctrina Cristiana de La Oraciona,  Buenos Aires, reproduzida de “La Reforma”, Revista 1920, p. 91.
[16] Vejam-se, J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perguntas 255 e 256. In: Catecismo de La Igresia Reformada, Buenos Aires, La Aurora, 1962; Catecismo Menor de Westminster, pergunta 99.
[17] J. Calvino, As Institutas, III.20.5.
[18] James Hastings, La Doctrina Cristiana de La Oracion, p. 92.
[19] J. Calvino, As Institutas, III.20.34. Do mesmo modo diz Lutero (1483-1546), que nesta oração “estão compreendidas (...) todas as necessidades que incessantemente nos atingem, e cada qual é tão grande que deverá impedir-nos a rogar por causa dela ao longo de toda a nossa vida” (Catecismo Maior, III.34). Vd. Também, Catecismo de Genebra, Perg. 255; Catecismo Maior de Westminster, Perg.186.
[20] Vd. João Calvino. As Institutas, III.20.1.
[21] No Didaquê (c. 150), encontramos a recomendação de que esta oração fosse feita três vezes ao dia (Didaquê, Capítulo 8).
[22] Cirilo de Jerusalém, Cayechetical Lectures,  XXIII, in: P. Schaff&H. Wace, Eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church (Second Series), Grand Rapids, Michigan. Eerdmans, 1978, Vol VII, p. 155-157 (Doravante, citado como NPNF2). Vd. Comentário a respeito em J. Jeremias, O Pai Nosso: A Oração do Senhor, São Paulo, Paulinas, 1976, PP. 5,6.

sábado, 13 de maio de 2017

A ESPIRITUALIDADE DA LEI COMPROVADA POR TRÊS EXEMPLOS [Mateus 5.21-37]




21 Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento.
22 Eu, porém, vos digo que todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo.
23 Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 
24 deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta.
25 Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás com ele a caminho, para que o adversário não te entregue ao juiz, o juiz, ao oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão.
26 Em verdade te digo que não sairás dali, enquanto não pagares o último centavo.
27 Ouvistes que foi dito: Não adulterarás.
28 Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela.
29 Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno.
30 E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não vá todo o teu corpo para o inferno.
31 Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio.
32 Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério.
33 Também ouvistes que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos.
34 Eu, porém, vos digo: de modo algum jureis; nem pelo céu, por ser o trono de Deus;
35 nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do grande Rei;
36 nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto.
37 Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno.


Meus irmãos e amigos!

Estes versículos merecem a mais cuidadosa atenção por parte de todos os leitores da Bíblia. Um correto entendimento das doutrinas que eles contêm é fundamental ao cristianismo. 

O Senhor Jesus explica aqui mais completamente o significado das suas palavras, proferidas no vers. 17, quando disse: “não vim para revogar a lei, vim para cumprir”. 

Ele nos ensina que o evangelho mag­nífica a lei e exalta a sua autoridade. Ele nos mostra que a lei, conforme Ele a tinha apresentado, era uma regra muito mais espiritual e capaz de perscrutar o coração do que a maioria dos judeus imaginava. E isto Ele comprovava selecionando três dos dez mandamentos, como exem­plos para o que queria dizer.


1. JESUS EXPÔS O SEXTO MANDAMENTO.
"Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo."

Vejam bem. Muitos israelitas pensavam estar cumprindo esta parte da lei de Deus, simplesmente por não cometerem homicídio na prática. O Senhor Jesus, entretanto, mostra que as exigências desse mandamento vão muito além. Tal mandamento condena até mesmo a linguagem carregada de mágoa e repleta de rancor, especialmente quando utilizada sem motivo justificado. 

O versículo 22, diz: “Eu, porém, vos digo que todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo.”

Salientemos bem esse ponto. Podemos ser perfeitamente inocentes no que tange a tirar a vida de outrem e, no entanto, podemos tornar-nos culpados de transgredir o sexto mandamento, com as nossas palavras.


2. JESUS APRESENTA O SÉTIMO MANDAMENTO.
"Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela."

Muitos supunham estar cumprindo esta parte da lei de Deus, apenas por não praticarem adultério. Mas, o Senhor Jesus nos ensina que podemos quebrar esse mandamento em nossos pensamentos, em nosso coração e em nossa imaginação, mesmo quando a nossa conduta exterior é moral e correta.  O Deus com quem tratamos vê muito além de nossas ações. Para ele, até mesmo um rápido lançar de olhos pode ser pecado.


3. JESUS, APRESENTA O TERCEIRO MANDAMENTO.
"Também ouvistes que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos. Eu, porém, vos digo: de modo algum jureis; nem pelo céu, por ser o trono de Deus; nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do grande Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno."

Muitos se iludiam pensando estar cumprindo esta parte da lei de Deus, contanto que não jurassem falsamente e cumprissem os seus votos. Mas o Senhor Jesus proíbe toda e qualquer espécie de juramento vão. Todo o juramento em nome de coisas criadas, mesmo quando o nome de Deus não está envolvido — todo juramento que tome a Deus como testemunha, exceto nas ocasiões mais solenes, é um grande pecado. Tudo isso é muito instrutivo. 

Este ensinamento deveria fazer-nos refletir com grande seriedade. Ele nos diz em alta voz, que sondemos cuidadosamente os nossos corações. 


Mas, o que nos ensina?


1. Ele nos ensina a tremenda santidade de Deus. 
Deus é um Ser puríssimo e perfeitíssimo, que percebe falhas e imperfeições onde os homens não vêem coisa alguma. Deus lê os motivos dos nossos corações. Ele observa não somente os nossos atos, mas também as nossas palavras e os nossos pensamentos. “Eis que te comprazes na verdade no íntimo” (Sl 51.6). 

Quem dera que os homens considerassem esse aspecto do caráter de Deus muito mais do que costumam fazer! Então não haveria lugar para o orgulho, para a justiça-própria e para a indiferença, se ao menos os homens vissem a Deus “conforme Ele é”.


2. Ele nos ensina a excessiva ignorância dos homens quanto às realidades espirituais. 
Existem milhares e milhares de professos cristãos, como é de temer, que não sabem mais a respeito dos requisitos da lei de Deus do que os mais ignorantes judeus. Conhecem a letra dos dez mandamentos suficientemente bem. Mas, à semelhança do jovem rico, julgam-se guardadores da lei: “tudo isso tenho observado, desde a minha juventude” (Mc 10.20). 

Para eles é inconcebível que se possa quebrar o sexto e sétimo mandamentos mesmo sem praticar qualquer ato exterior ou pecado explícito. E assim vão vivendo, satisfeitos consigo mesmos e plenamente contentes com a sua mini religião. Felizes mesmo são os que realmente compreendem a lei de Deus.


3. Aprendemos a enorme necessidade do sangue expiatório de Jesus Cristo para nos salvar. 

Qual o homem ou mulher neste mundo que poderia apresentar-se diante de Deus e declarar-se “inocente”? Há alguém que tenha atingido a idade da razão sem haver quebrado os mandamentos milhares de vezes? “Não há justo, nem sequer um” (Rm 3.10). 

Sem um Mediador poderoso, todos nós seriamos condenados no dia do juízo. A ignorância do real significado da lei é uma razão evidente por que tantas pessoas não dão valor ao evangelho, contentando-se em viver um cristianismo mesquinho e formal. Eles não percebem o rigor e a santidade dos dez mandamentos da lei de Deus. Se percebessem esse fato, não descansariam enquanto não estivessem seguras em Jesus Cristo.


4. Em último lugar, esta passagem nos ensina a enorme importância de se evitar tudo que possa dar ocasião ao pecado. 

Se nós realmente desejamos ser santos, diremos como o salmista: “Guardarei os meus caminhos, para não pecar com a língua” (SI 39.1). 

Precisamos estar prontos a resolver querelas e desacordos, para que tais coisas não nos conduzam a pecados ainda mais graves: “Como o abrir-se da represa assim é o começo da contenda; desiste, pois, antes que haja rixas” (Pv 17.14). 

Precisamos nos empenhar em crucificar a nossa carne e mortificar os nossos membros. Devemos estar dispostos a fazer qualquer sacrifício, e até mesmo trazer sobre o corpo a incomodidade física, antes do que dar lugar ao pecado. 

Devemos guardar os nossos lábios, como que por um freio, e exercitar uma constante vigilância sobre nossas palavras. Que os homens nos chamem de “muito restritos ”, se assim desejarem. Que eles digam que somos “por demais meticulosos”, se isso lhes agrada. Não nos deixemos abalar com isso. 

Estamos apenas fazendo aquilo que nosso Senhor Jesus Cristo nos manda, e, sendo assim, não temos de que nos envergonhar.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

MATEUS, O EVANGELHO DO GRANDE REI [Introdução]


Está próximo o reino dos céus

Em Apocalipse 4.7, na descrição dos quatros querubins, ou seres viventes, o primeiro era semelhante ao leão (o rei dos animais); o segundo, o novilho (ou boi, que serve aos homens com grande paciência); o terceiro tinha o rosto como de homem; e o quarto era semelhante a águia quando voa. Os crentes primitivos comparavam com razão, esses símbolos aos quatros Evangelhos. O livro de Mateus é o Evangelho do Rei. O livro de Marcos é o Evangelho do grande Servo de Deus. O livro de Lucas é o Evangelho do Filho de Homem. O livro de João é o Evangelho do Filho de Deus.

No livro de Mateus, o Evangelho do Rei, vê-se nos primeiros capítulos o Rei dos Judeus e por fim o Rei soberano nos céus e na terra, enviando Seus embaixadores as nações para exigir sua sujeição e homenagem.

No livro de Marcos, o Evangelho do grande servo de Deus, enfatizam-se os atos de Cristo, não as Suas palavras. Enquanto Mateus relata os grandes discursos de Cristo, Marcos conta da lida incansável do Servo de Jeová.

No livro de Lucas, o Evangelho do Filho do Homem, mostra-se o coração de Jesus em uma série de manifestações de Sua compaixão, ternura e amor. Primeiro revela-o como criança de colo e, por fim, no passeio a Emaús, mostra que Seu coração humano mão se mudara na morte e nem na ressurreição; Ele continua Filho do Homem.

No livro de João, o Evangelho do Filho de Deus, vê-se como Jesus assemelha-se à natureza da águia que voa e nos leva às alturas da Sua divindade eterna. É o livro que nos revela o mistério de Ele ser um com o Pai. Nenhum dos quatro evangelistas, contudo, pretende dar uma biografia completa de Jesus Cristo. Ao contrário, vede, por exemplo, João 21.25.

Qual foi então o propósito de Mateus ao escrever seu Evangelho? Isso Ele não declarou expressamente. Mas no que escreveu descobre-se que o seu alvo era o de demonstrar, incontestavelmente, que Jesus de Nazaré é o grande Messias, o verdadeiro Rei, prometido de Deus e esperado durante longo tempo por seus patrícios, os judeus. Para esse fim, Mateus cita cerca de quarenta passagens do Antigo Testamento. O único lugar na Bíblia onde aparece o termo “reino dos céus” é no livro de Mateus; aí aparecem trinta e seis vezes! No primeiro capitulo da sua obra, Mateus prova que Jesus nascera da linhagem real. No terceiro capítulo descreve o precursor do Rei, proclamando que o Reino está próximo. O sermão do monte é realmente o manifesto desse Rei. Seus milagres são suas credenciais (cap. 8-9); Suas parábolas são intituladas “os mistérios do Reino”. Até fora do país Ele chamado “o Filho de Davi”; declarou-se livre da obrigação de pagar tributo, sendo Filho do Rei. Entrou, por fim, em Jerusalém como Rei; na sombra da cruz predisse a Sua volta em glória para reinar sobre tudo. Na ocasião da Sua morte, fenderam-se as rochas, a terra tremeu e mortos saíram dos túmulos. A sua ressurreição foi com poder majestoso, acentuado por terremoto e grande terror entre os guardas. Nas suas últimas palavras proclamou Seu direito de Rei e deu a Sua ordem real: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto...”


O autor do primeiro Evangelho

O autor do livro é logo o Espírito Santo. Mas a pena que Ele usou estava na mão de Mateus, também chamado Levi (Lc 5.27-29), um judeu da Galileia.

Um dos atos mais humilhantes, e igualmente sublimes, foi o da Divindade Santíssima comer com publicanos. O Rei dos reis, nesse gesto de imenso amor, ganhou um dos mais desprezados pecadores do mundo, “Mateus o publicano”, Mt 10.3. Seu nome está incluído em todas as listas dos nomes dos doze apóstolos, Mt 10.3; Mc 3.18; Lc 6.15; At 1.13. A graça do Mestre, em comer com publicanos, ganhou não apenas esse apóstolo, mas, também, por intermédio dele, ganhou-nos a obra que encabeça o Novo Testamento, o Evangelho segundo Mateus.

O escritor do primeiro Evangelho era, por nascimento, um judeu. De ofício, foi publicano, até o dia em que Cristo o chamou para segui-lo. Desde então passou a acompanhar o Senhor Jesus durante todo o tempo em que Ele andou entre eles, começando no batismo de João, até o dia em que foi elevado às alturas, Atos 1.21-22. Era, portanto, uma testemunha inteiramente fidedigna, escrevendo do que ele mesmo ouvira, do que vira com os próprios olhos, e do que apalpara com as suas mãos, I Jo 1.1.


A data do livro de Mateus

O Evangelho segundo Mateus não somente ocupa o primeiro lugar de todos os vinte e sete livros do Novo Testamento, mas os eruditos, geralmente, concordam que foi escrito antes de qualquer outro dos quatro Evangelhos. Conforme a tradição, o Evangelho Segundo Mateus foi escrito no ano 37 A.D. Pelo que consta do cap. 24.15, é claro que foi escrito antes do ano 70 A.D., quando Jerusalém foi destruída.


As divisões do livro

A matéria do livro de Mateus, na maior parte, não foi escrita em ordem cronológica. Note-se como quase todos os relatos dos milagres estão agrupados nos caps. 8 e 9, enquanto uma grande parte das lições de Cristo estão ajuntadas como nos caps. 5 a 7. Contudo pode-se dividir o livro em três grandes partes:
1) A genealogia, o nascimento e a meninice do Senhor, caps. 1 e 2.
2) O ministério de Jesus na Galileia, caps. 3 a 18.
3) O seu ministério na Judeia, seguido por sua paixão, morte e ressurreição, caps. 119 a 28.


O valor prático do primeiro Evangelho

Para os crentes em geral, Cristo Jesus é apenas Salvador. É fato transcendente que Ele nos salva. Mas Mateus foi inspirado divinamente para levar os crentes a viverem esperando a inauguração do reinado do Rei universal. Ao contemplar, hoje em dia, a efervescência dos povos da terra, a selvageria da guerra, a crescente ameaça do mal de derribar todo o governo – ao contemplar tudo isso, o nosso coração anela o reinado daquele cuja sabedoria nunca falha, cujo amor é infinito e cujo poder é supremo.

Cremos que uma das coisas mais práticas no propósito do Evangelho Segundo Mateus é induzir os crentes a aceitarem a Cristo, não somente como Salvador, mas também como Rei pronto a reinar sobre todo o mundo. O anelo da nossa vida cotidiana é o que determina praticamente a nossa vida. É pergunta penetrante: A aspiração da nossa vida é realmente a mesma da última suplica da Bíblia: “Vem Senhor Jesus?”


BOYER, Orlando. Mateus, O Evangelho do Rei. Rio de Janeiro: CPAD, 1951, 292p.

LENDO E COMPARTILHANDO Nº 002


PAULO E SUA TEOLOGIA TRINITÁRIA

A notável benção 2 Coríntios 13.13 oferece-nos todos os tipos de chaves teológicas para entendermos o pensamento paulino sobre a salvação e sobre o próprio Deus. O fato de a benção ser composta e designada para uma ocasião, em vez de ser uma formula amplamente aplicável, torna mais importante ainda ouvir Paulo. Portanto, o que Ele diz aqui em oração é totalmente pressuposto – não se trata de algo que dependa de sua argumentação, mas de uma realidade da vida cristã admitida e experimentada.

Primeiro, ela resume os elementos centrais da paixão única de Paulo: o evangelho, com seu foco na salvação em Cristo, acessível pela fé ao gentio e ao judeu sem distinção. O fato de “o amor de Deus” ser fundamento da visão de Paulo sobre a salvação é afirmado com entusiasmo e clareza em passagens como Rm 5.1-11, 8.31-39 e Ef 1.3-14. A “graça de nosso Senhor Jesus Cristo” foi o que deu expressão concreta àquele amor; por meio do sofrimento e da morte de Cristo em favor de seus amados, Deus lhes garantiu a salvação num único momento da história humana.

A “participação no Espírito santo” torna continuamente reais o amor e a graça na vida do crente e da comunidade cristã. A koinonia (comunhão/participação)  “do Espírito Santo” (perceba que Ele usa o nome completo!) é o meio pelo qual o Deus vivo não apenas coloca o povo num relacionamento intimo e permanente com ele próprio como Deus de toda a graça, mas também é como os leva participar de todos os benefícios da graça e da salvação – ou seja, habitando neles hoje com sua presença e garantindo-lhes a glória escatológica final.

Isso indica que Paulo era verdadeiramente trinitário em todos os sentidos e termos – que o único Deus é Pai, Filho e Espírito, e que relacionar-se com Cristo e o Espírito é relacionar-se com Deus da mesma forma que seria relacionar-se com o Pai. Assim, essa benção, fazendo uma distinção fundamental entre Deus, Cristo e Espírito, também expressa de forma abreviada o que se encontra em todas as suas cartas, a saber, que a “salvação em Cristo” é uma obra de cooperação entre  Deus, Cristo e o Espírito.

FEE, Gordon D. Paulo, o Espírito e o povo de Deus. São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 66-67.

O CARÁTER DOS VERDADEIROS CRENTES - O ENSINO DE CRISTO E O ANTIGO TESTAMENTO [Mateus 5.13-20]


Mateus 5.13-20

13 Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens.
14 Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte;
15 nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa.
16 Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.
17 Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir.
18 Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.
19 Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus.
20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.


Nestes versículos, o Senhor Jesus trata de dois assuntos. Um deles é o caráter que os verdadeiros crentes precisam defender e manter neste mundo. O outro é a relação entre as doutrinas que Ele ensinava e os ensinos do Antigo Testamento.

É muito importante termos uma visão bem clara sobre ambos os assuntos.


1. Os verdadeiros cristãos devem ser neste mundo como o sal. – O Versículo 13 diz: Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens.”

Ora, o sal tem um sabor todo peculiar, diferente de qualquer outra coisa. Quando misturado com outras substâncias, preserva da corrupção. O sal transmite um pouco do seu sabor a tudo com o que é misturado. Só é útil enquanto preserva o sabor, do contrário para nada mais presta. Pergunta: Somos crentes verdadeiros? Atentemos para a nossa posição e nossos deveres neste mundo!


2. Os verdadeiros crentes devem viver como luzes neste mundo. Os versículos 14-16, diz: Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.”

A propriedade da luz é ser totalmente diferente das trevas. A menor centelha em uma sala escura pode ser vista prontamente. Dentre todas as coisas criadas, a luz é a mais útil. A luz fertiliza o solo. A luz guia. A luz reanima. A luz foi a primeira coisa que Deus trouxe à existência. Sem a luz, este mundo seria um vazio obscuro. Pergunta: Somos crentes verdadeiros? Nesse caso, consideremos novamente a nossa posição e as nossas responsabilidades!

Se estas palavras têm algum significado, então, certamente, Je­sus intenciona nos ensinar, com estas duas figuras, sal e luz, que precisa haver algo notório, distintivo e peculiar a respeito do nosso caráter, se somos verdadeiros cristãos.

Se desejamos ser reconhecidos como pertencentes a Cristo, como o povo de Deus, jamais poderemos passar a vida desocupados, pensando e vivendo como fazem as demais pessoas neste mundo. Temos a graça divina? Então ela precisa ser vista. Temos o Espírito Santo? Então deve haver o fruto. Temos uma religião salvadora? Então deve haver uma diferença de hábitos e preferências e também uma mentalidade diferente entre nós e aqueles que pensam segundo o mundo.

É perfeitamente claro que o cristianismo verdadeiro envolve algo mais do que ser batizado e ir à igreja. “Sal” e “luz”, evidentemente, implicam numa peculiaridade, tanto no coração quanto na vida diária, tanto na fé quanto na prática. Se nos consideramos sal­vos, devemos ousar ser singulares e diferentes da humanidade em geral.


3. A relação entre o ensino de nosso Senhor e o ensino do Velho Testamento foi esclarecida por Jesus mediante uma sentença incisiva. Os versículos 17-18 dizem: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.

Estas são palavras dignas de nota. Elas foram profundamente importantes quando proferidas, porquanto davam resposta à ansiedade natural dos judeus quanto a este assunto. São palavras que continuarão sendo tremendamente importantes, enquanto este mundo continuar, como um testemunho de que a religião do Antigo e Novo Testamento forma um todo harmônico.

O Senhor Jesus veio a este mundo a fim de cumprir as predições dos profetas, os quais desde os tempos antigos haviam profetizado que, um dia, viria ao mundo um Salvador.

E Ele veio para cumprir a lei cerimonial, tornando-se o grande sacrifício pelo pecado, para o qual todas as oferendas da lei mosaica tinham sempre apontado.

Ele veio para cumprir a lei moral, prestando-lhe obediência perfeita, o que nós mesmos jamais poderíamos ter feito. Ele também cumpriu a lei pagando com o seu sangue reconciliador a penalidade pela nossa quebra da lei, uma penalidade que nós jamais poderíamos ter pago.

De todas essas maneiras, o Senhor Jesus exaltou a lei de Deus, e fez a sua importância ainda mais evidente. Em suma, Ele engrandeceu a lei e a fez gloriosa. O profeta Isaías escreveu no cap. 42.21: Foi do agrado do SENHOR, por amor da sua própria justiça, engrandecer a lei e fazê-la gloriosa.”


Há profundas lições de sabedoria a serem aprendidas por meio destas palavras de nosso Senhor. Portanto, meditemos cuidadosamente sobre elas, entesourando-as em nosso coração.


1. Tomemos cuidado para não desprezar o Antigo Testamento, sob nenhum pretexto.

Nunca demos ouvidos àqueles que recomendam pôr de lado o Antigo Testamento, como se fosse um livro antiquado, obsoleto e inútil.

A religião do Antigo Testamento é embrião do cristianismo. O Antigo Testamento é o evangelho em botão; o Novo Testamento é evangelho aberto em flor. O Antigo Testamento é o evangelho brotando; o Novo Testamento é o evangelho já em espiga formada.

Os santos do Antigo Testamento enxergaram muitas coisas como que por um espelho, obscuramente. Porém, todos contemplavam pela fé o mesmo Salvador, e foram guiados pelo mesmo Espírito Santo que hoje nos guia. Estas não são questões de pouca importância. O ignorante desprezo pelo Antigo Testamento dá origem a muita infidelidade.


2. Também devemos ter muito cuidado em não desprezar a lei dos dez mandamentos.

Nem por um momento suponhamos que essa lei tenha sido posta de lado pelo evangelho, ou que os crentes não têm nada a ver com ela.

A vinda de Cristo em nada alterou a posição dos dez mandamentos, nem mesmo a largura de um fio de cabelo. O que ela fez foi exaltar e destacar a sua autoridade. O apostolo Paulo escreveu em Rm 3.21: Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas”

A lei dos dez mandamentos é a medida eterna de Deus para o que é certo e o que é errado. Através da lei é que vem o pleno conhecimento do pecado. Pela lei é que o Espírito mostra aos homens a sua necessidade de Cristo e os leva a Ele.

Cristo deixou ao seu povo a lei dos dez mandamentos como norma e guia para uma vida santa. Em seu devido lugar, a lei dos dez mandamentos é tão importante quanto o “glorioso evangelho”.

A lei não pode nos salvar. Não podemos ser justificados por ela. Porém, nunca jamais a desprezemos. O menosprezo pela lei dos dez mandamentos é um sintoma de ignorância e insanidade em nossa religião. O verdadeiro crente autêntico tem “prazer na lei de Deus”. O apóstolo Paulo escreveu aos romanos, (Rm 7.22). Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus”.


3. Em último lugar, cuidemos em não supor que o evangelho tenha rebaixado o padrão de santidade pessoal

...ou que o cristão não deva ser tão estrito e cuidadoso em sua conduta diária quanto o eram os ju­deus. Este é um terrível engano, mas que, infelizmente, é muito comum.
Bem ao contrário, os santos do Novo Testamento deveriam exceder em santidade aos santos dos tempos antigos, pois estes só tinham o Velho Testamento para lhes servir de orientação.

Quanto mais luz temos, maior o nosso amor a Deus. Quanto mais claramente enxergamos nosso pleno perdão em Cristo, tanto mais devemos trabalhar de coração para a sua glória.

Sabemos o quanto custou a nossa redenção, melhor do que os santos do Antigo Testamento souberam. Já lemos o que aconteceu no Getsêmani e no Calvário, mas eles só viram estas coisas indistinta e obscuramente, como algo que ainda estava por acontecer.

Que jamais nos esqueçamos das nossas obrigações! O crente que se satisfaz com um baixo padrão de santidade pessoal ainda tem muito a aprender.

Que Deus nos abençoe!

Programa Evangélico Fome e Sede de Justiça
Salgado FM
03/05/2017