segunda-feira, 11 de junho de 2018

O CULTO SEGUNDO DEUS: A MENSAGEM DE MALAQUIAS [Resenha]


LOPES, Augustus Nicodemus. O culto segundo Deus: a mensagem de Malaquias para a igreja de hoje. São Paulo: Edições Vida Nova, 2012. 156p. 

Para quem deseja aprender sobre o que o profeta Malaquias pregou contra o povo de sua época, vai aí um resumo: A pregação de Malaquias era sobre a centralidade de Deus no culto, as razões corretas para cultuarmos a Deus, a relação entre o culto e a nossa vida diária, a necessidade de adorarmos a Deus de acordo com o que Ele nos revelou e não de acordo com nossa criatividade. Havia ainda uma situação de descaso moral, como corrupção do clero, casamentos mistos e abuso por parte dos poderosos. 

Neste contexto, a palavra de Malaquias era “peso da palavra do Senhor contra Israel”, ou seja, não trazia uma mensagem doce, agradável. Era uma palavra de denúncia, uma palavra de crítica, por isso era chamada de peso ou sentença. 

Para o autor do livro, a profecia de Malaquias foi proferida e registrada em um contexto muito parecido com os evangélicos vivem hoje no Brasil. Em outras palavras, o livro, assim como nos dias que hoje vivemos, situa-se em um contexto no qual adorar a Deus parece não fazer diferença visível na vida dos que o buscam constantemente nos locais de culto. A sua mensagem é dirigida, em grande parte, aos sacerdotes, àqueles que eram responsáveis por manter o culto devido a Deus da maneira correta. Portanto, as palavras inspiradas por Deus, servem para a igreja de todas as épocas como uma orientação a respeito do culto segundo a vontade de Deus. O autor conclui: O objetivo desse estudo é que possamos entender esses princípios e aplica-los aos nossos dias, pois, assim como nos dias de Malaquias, um reavivamento do culto bíblico hoje também se faz extremamente necessário. 

O livro está dividido em oito capítulos. O capitulo 1, trabalha o questionamento do povo perante Deus, com o seguinte assunto: “por que cultuar a Deus se tudo está dando errado?” O capítulo 5 quebra a ordem dos capítulos 2 ao 7, para tratar de um assunto interessante: “Por que cultuar a Deus se o mal existe, os ímpios prosperam e os justos sofrem?” E o capitulo 8 traz um resumo dos princípios do culto a Deus. Os outros seis capítulos (2 ao 7) irá tratar dos seguintes assunto: Deus exige: devoção verdadeira e sinceridade de coração [cap. 2]; Fidelidade na pregação da palavra [cap. 3]; vida pessoal e moral reta [cap. 4]; Obediência [cap. 6]; e temor ao seu nome [cap. 7]. 

Neste RESENHA DESCRITIVA vou me deter apenas aos capítulos 1, 5 e 7. Os demais capítulos deixo para quando os nossos leitores descobrirem quando adquirem este excelente livro. 

Capítulo 1: Por que cultuar a Deus se tudo está dando errado? A base dos comentários deste capítulo está fundamentada em Malaquias 1.1-5. Neste capítulo, seguindo a lógica do livro de Malaquias, Deus faz uma declaração, o povo questiona e então Deus responde, refutando o argumento apresentado pelo povo, seguido por uma resposta de Deus. 
a) Deus faz uma declaração – “Eu sempre vos amei, diz o Senhor” (Ml 1.2) Malaquias traz a ideia de que Deus não somente amou um dia, mas continua amando seu povo. 
b) O povo questiona – “De que maneira nos tem amado? ” Questionamento se dá pelo fato de que o povo vivia uma situação financeira e difícil e ainda estavam sob o jugo dos persas. Que amor era esse se eles viviam ainda em situação de miséria?
c) E então Deus responde, refutando o argumento apresentado pelo povo, seguido por uma resposta de Deus. – “Não era Esaú irmão de Jacó? Disse o Senhor; todavia amei a Jacó, e odiei a Esaú”. (Ml 1.2-3). A resposta de deus faz referência à predestinação: “Por acaso não era Esaú irmão de Jacó?, diz o Senhor. No entanto, amei a Jacó e rejeitei Esaú”. A resposta de Deus é esta: “A prova de que eu tenho amado vocês é que, quando eu poderia ter escolhido Esaú, que é o pai dos edomitas, dos árabes, escolhi o pai de vocês, Jacó, e isso quando ambos ainda não tinham feito nem bem nem mal.” O Comentário de Paulo sobre esse texto, em Romanos 9.10-16, diz que a escolha soberana de Deus é apresentada por Malaquias não apenas como prova de que ele é soberano, mas como prova do amor livre que deus tem para com o seu povo, sua igreja e a nação de Israel, da qual somos continuação. Assim, quando os judeus questionavam a Deus, “de que maneira nos tens amado?” Deus respondia: “Vocês poderiam estar entre aqueles que eu rejeitei para sempre, mas estão entre os que escolhi amar soberanamente, e essa é a maior prova de amor que eu posso dar a vocês. A escolha soberana de Jacó como o pai da nação israelita era a maior prova do amor de Deus. 


Capítulo 5 – Este capítulo trata sobre um dos dilemas mais antigos para doutrina cristã que é o problema do mal. Existe um termo teológico que dá nome a esse tema: teodiceia, que é o estudo do problema do mal e sua origem. Se Deus é bom, por que existe o mal? Como pode existir o mal em um Universo governado por um Deus justo, bom e todo poderoso? A teodiceia procura responder a essas perguntas. Mas a questão vai mais além: Como um Deus justo, bom e todo-poderoso permite que o mal exista em seu Universo, que os ímpios prosperem e pequem abertamente ser castigados? E por que ele permite que o justo sofra neste mundo? 

O livro nos apresenta três respostas básicas para essas indagações: Primeira resposta é a do ateísmo. Este parte do seguinte raciocínio: Se Deus é justo, bom e todo-poderoso, por que o mal existe? Se o mal existe, a conclusão deles é que Deus simplesmente não existe. A natureza é determinista, não segue qualquer princípio ou ordem moral. O mal faz parte do Universo. Não existe um Deus bom nem um Deus justo que possa impedir a realidade do mal. Segunda resposta é a da chamada teologia relacional ou teísmo aberto. A teologia relacional diz o seguinte: Não é culpa de Deus que o mal exista no mundo, porque Deus não é todo poderoso nem onisciente. Deus esvaziou-se de sua onisciência e de sua onipotência para poder se relacionar de maneira ideal com as pessoas, a fim de que não fôssemos meras peças de um jogo de xadrez em suas mãos. Terceira resposta vem das religiões orientais, como o zen-budismo e outras correntes religiosas que negam o outro lado da equação, ou seja, afirmam a inexistência do mal. Seus adeptos alegam que o mal é simplesmente uma projeção de nossa mente. Para eles, se a pessoa alcançar determinado nível de espiritualidade, entrará em sintonia com a realidade que temos ao nosso redor, na natureza e nas forças que nos cercam. Dessa maneira o mal e a dor deixarão de ser uma realidade para ela. Isso tem tudo a ver com a meditação transcendental, que tenta resolver o problema do mal negando a própria existência do mal. 

A resposta do Cristianismo é que o nosso serviço a Deus independe dessas coisas, pois ele é bom, justo e todo-poderoso, mas permite a existência do mal. E assim o permite porque tem o propósito de mostrar sua soberania ao castigar os ímpios, naquele dia que ele já preparou, e igualmente de mostrar sua misericórdia ao salvar aqueles que são seus neste mundo tenebroso. Portanto, mesmo que não possamos entender os motivos por que Deus permite que o mal atinja determinadas pessoas, podemos afirmar que ele é justo, santo, bom, todo-poderoso, que o mal existe neste mundo por permissão dele e está dentro dos seus planos. Embora nem sempre possamos entender isso claramente, de uma coisa podemos ter certeza: haverá um dia que Deus julgará todo o mal. 

Capítulo 8 – Este capítulo para mim ele se tornou importante, pois além de um resumo do livro é também uma síntese completa do livro de Malaquias. O livro de Malaquias aborda vários temas diferentes. Ele fala a respeito da eleição e predestinação, da necessidade da consagração total do seu povo a Deus, do ministério dos líderes e sacerdotes, do casamento misto, divórcio, da vinda de Cristo no dia do juízo, dos dízimos e ofertas, do problema do mal, da prosperidade dos perversos e da aliança de Deus com o seu povo, incluindo a aliança de Deus com os sacerdotes e com o casamento. Todos estes temas, embora diferentes, mas todos estão relacionados com a principal preocupação do profeta: o culto a Deus. Essa era sua inquietação maior, porque ele viveu numa época em que o culto a Deus estava corrompido. Os sacerdotes tinham se corrompido: eram ineptos, descuidados, enfadados com o serviço prestado a Deus e não cumpriam corretamente sua função. O povo, por sua vez, não ficava atrás: questionava a justiça de Deus, sua bondade, seu amor, sua lealdade, trazia ofertas defeituosas para serem oferecidas em sacrifício, sonegava os dízimos e as ofertas, levava uma vida irregular no casamento, tanto que se casava com mulheres estrangeiras, assim contribuindo para corromper o povo de Deus, bem como se divorciava sem justa causa, quebrando a aliança com a mulher da sua mocidade, a esposa com a qual contraíra matrimônio. 

Portanto, trata-se de um livro em que podemos aprender vários princípios a respeito do culto que devemos tributar a Deus. 

1. O culto é a celebração pública e visível da aliança que temos com Deus - Essa é uma das grandes ênfases de Malaquias. Ele fala do Deus da aliança por diversas vezes. Essa aliança foi feita com o seu povo. Por meio dela, Deus se comprometeu a abençoar o povo, ser o Deus deles, cuidar da sua descendência e lhes dar vida eterna; e, da parte do povo, havia o compromisso de servir a Deus e andar nos seus caminhos. Essa mesma aliança está em vigor ainda hoje, só que agora ela é chamada de nova aliança, a nova aliança em Cristo Jesus. É uma aliança superior, pois temos um mediador, Jesus Cristo, cujo sangue derramado é superior ao sangue dos animais. O culto que prestamos a Deus expressa exatamente isso. O culto hoje é a celebração pública e visível da aliança que temos com Deus. Tudo que fazemos no culto tem a ver com essa aliança. 

Quando temos essa visão aliancista do culto, as várias aberrações idolátricas ficam do lado de fora. O culto passa a ter mais sentido, pois entendemos por que estamos reunidos como povo para louvar a Deus. 

2. Devemos cultuar a Deus, independentemente das circunstâncias - Um questionamento constante do povo na época de Malaquias é que não fazia diferença servir a Deus ou não. Eles perguntavam: “Onde está o Deus da justiça?”. Os ímpios cometiam pecados, prosperavam e escapavam impunes, e os que serviam a Deus passavam por dificuldades. Então qual era a vantagem de servir a Deus? E inútil servir a Deus, concluíam eles. A resposta de Malaquias foi que Deus nos ama porque ele nos escolheu. Essa é a maior prova do seu amor para conosco. Deus punirá o ímpio e recompensará o piedoso, mas isso só acontecerá no dia que ele já preparou. Até lá, devemos cultuá-lo, independentemente das circunstâncias. Esse princípio vale para nós hoje, numa época em que as pessoas são incentivadas a cultuar a Deus em troca da prosperidade, de um apartamento novo, de um emprego, de um casamento, da restauração da saúde. É esse o apelo que se faz hoje para que as pessoas venham cultuar a Deus, servi-lo, agradá-lo com ofertas e sacrifícios, com dízimos e compromissos. Mas isso é completamente diferente da mensagem de Malaquias, pois ele nos fala de cultuar a Deus em tempo de desesperança, de dificuldades, mesmo quando as coisas não estão dando certo. 

3. Devemos cultuar a Deus da forma que ele revelou - Não podemos alterar nem acrescentar nada ao culto a Deus. Ele revelou com clareza na sua Lei o culto que desejava. Encontramos isso com muita clareza no Antigo Testamento. Ele revelou que tipo de ofertas deveriam ser trazidas e de que maneira deveriam ser apresentadas, os animais que poderiam ser sacrificados e a maneira de fazê-lo. Ele falou a respeito de quem poderia oferecer o sacrifício — os sacerdotes e levitas —, determinou a tarefa de cada um deles e instituiu leis e normas para que seu culto expressasse a sua vontade em relação a como ele deveria ser adorado. O Novo Testamento não prescreve normas detalhadas para o culto, não apresenta uma ordem litúrgica como havia no Antigo Testamento. Contudo, os elementos do culto a Deus são muito claros: as orações, os cânticos, a pregação da Palavra, os sacramentos e outros, os quais o Novo Testamento diz com clareza que fazem parte do culto a Deus. Não podemos inventar elementos de culto. Não nos cabe introduzir no culto invenções humanas, ainda que a pretexto de ser algo prático, de boa intenção, ligado à tradição, à antiguidade ou mesmo algo que todo mundo faz. Devemos adorar a Deus de acordo com sua Palavra, sem inventar partes ou elementos do culto para chegarmos diante do Senhor. 

4. Devemos cultuar a Deus com a atitude apropriada - Devemos cultuar a Deus com sinceridade de coração. Ele sempre quis que o culto fosse sincero. As regras e leis estabelecidas tinham como objetivo expressar a santidade divina, e o alvo de todas elas era mostrar ao adorador a necessidade da mediação, da purificação de pecados e da graça de Deus, para que o culto fosse agradável a ele. No entanto, mesmo com toda aquela formalidade, o que Deus desejava de fato era o coração do povo, que este se apresentasse diante dele voluntariamente, com o coração quebrantado e contrito. Portanto, não basta apenas termos um culto apropriado, simples, bíblico, contendo somente os elementos que Deus prescreveu, porque, no final, acima de tudo, Deus deseja nosso coração. Deus quer que nos entreguemos a ele no culto. A melhor maneira de cultuar a Deus de forma adequada é lembrar-nos da aliança que ele tem conosco, de quem ele é e de sua grandeza. Ele é o Senhor dos exércitos; ele é nosso Pai e Senhor. Quando Deus é o foco e o centro do culto, e não o homem, então fica mais fácil manter o espírito de adoração do qual Deus é digno e se agrada. 

5. Devemos dar a Deus nosso melhor no culto - Todo culto no Antigo Testamento girava em torno disso. Os dízimos eram os melhores animais que havia no campo; as primícias eram oferecidas a Deus. As ofertas tinham de ser do melhor. Na verdade, o que Deus desejava com isso era demonstrar a importância dele. Ao adorarmos a Deus, devemos apresentar-nos a ele com o melhor do nosso coração, do nosso talento, da nossa disponibilidade e do nosso tempo, com uma atitude que reflita aquilo que Jesus diz: “Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33). 

6. A aceitação do nosso culto depende também da nossa vida moral e espiritual - O Antigo Testamento enfatiza essa relação entre a vida do povo e o culto que ele prestava a Deus. Há uma estreita relação entre a nossa vida moral e o culto que prestamos a Deus. Malaquias, como vimos, denuncia a imoralidade do povo de sua época. Ele denuncia a imoralidade dos sacerdotes, o casamento com mulheres adoradoras de deuses estranhos, o divórcio sem justa causa, e diz: “Deus não aceita o culto de vocês”. Deus não se agrada quando chegamos para adorá-lo com mãos, pés, coração, mente, enfim, com todo nosso ser impuro. É por isso que no culto sempre há uma oportunidade de confissão de pecados, de contrição, de pedir que Deus nos purifique. Aqueles que são de Deus e estão sinceramente arrependidos de seus pecados têm no culto a oportunidade para se purificarem. 

Concluindo, vimos que o nosso Deus tem um culto extremamente definido de acordo com aquilo que ele mesmo revelou, que ele é um Deus que sonda os corações, que exige uma atitude correta, uma vida santa. Há somente um modo de oferecermos a Deus um culto aceitável: pelo sangue de Jesus. Portanto, o culto a Deus é coisa séria, e somente purificados em Cristo podemos chegar diante de Deus e servi-lo de todo o coração. Esse culto, então, que prestamos a Deus aqui neste mundo, pelo sangue de Jesus, é o prelúdio do culto celestial, no qual Deus receberá toda a glória naquele grande dia. 

Chegamos ao final e a minha palavra é: RECOMENDO.

Lembramos que este livro faz parte da série A Mensagem da Bíblia para a Igreja de Hoje.

Link da Ediçoes Nova vida para a venda dos livros
https://vidanova.com.br/235-a-mensagem-da-biblia-para-a-igreja-de-hoje

Acesse o link aqui em nosso blog e conheça os detalhes de cada livro desta série. 
http://professorpadua.blogspot.com/2018/05/a-mensagem-da-biblia-para-igreja-de.html

sexta-feira, 8 de junho de 2018

ALÉM DAS 95 TESES [Trecho]


É muito edificante observar o modo profundo como Deus usou Martinho Lutero. Apesar de tantas atividades manifestou uma profunda preocupação e dedicou a um público muito importante na Igreja – as crianças. Esse trecho aqui publicado mostra como apenas um pouco de como isso aconteceu [Professor Pádua].

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Martinho Lutero era verdadeiramente um pastor muito ocupado. Executava múltiplas tarefas, incluindo escrever, pregar, ensinar e administrar. Toda semana, ele escrevia numerosas e longas cartas ou trabalhava em um de seus muitos tratados, pregava duas vezes aos domingos e, em geral, mais três vezes durante a semana, lecionava diariamente na universidade, orientava muitos estudantes e aconselhava um bom número de pastores, igrejas e até mesmo príncipes novatos. Além disso, Lutero cuidava de sua família sempre crescente. Também experimentou a pressão das diversas controvérsias resultantes de seu tempo e de seus esforços. No entanto, em meio a toda essa atividade frenética, ele dedicava algumas horas ao ensino, não só de seus próprios filhos, mas também das crianças de Wittenberg.

Lutero tinha um intelecto incrível. A tradução que fez do Novo Testamento grego para o alemão, em apenas três meses, permanece como um claro testemunho à sua genialidade. Envolveu-se em debates com as mais brilhantes mentes de seus dias.  Muito antes de sua notoriedade ter-se espalhado com a postagem das 95 teses, ele já se havia estabelecido claramente como um dos acadêmicos mais promissores da Alemanha. Mas talvez a marca mais óbvia de seu prodígio intelectual tenha sido o fato de ele ensinar as verdades essenciais da fé cristã às crianças, de uma forma que elas conseguiam entender.

Essa ênfase no ensino das crianças, que facilmente poderia ter sido ofuscada por outras exigências, fazia todo o sentido para Martinho Lutero. Para a igreja nascente, que logo ganhou seu nome, e para todo o movimento protestante não apenas sobreviver, mas também florescer, o ensinamento das crianças se tornou prioridade absoluta e urgente. Lutero sabia disso, não somente por causa dos exemplos históricos, mas também porque observava a situação que se lhe apresentava.

Assim, durante todos os meses de outono e inverno de 1528 e 1529, ele viajou pelas novas congregações de toda a região. Ainda era um fora da lei, e essa turnê não estava isenta de riscos. No entanto, Lutero viajava para ver, por si mesmo, as condições em que as igrejas se encontravam. Os resultados dessa inspeção deixaram-no frustrado e decepcionado. Testemunhou condições “deploráveis” e “infelizes”, observando: “As pessoas comuns, especialmente aquelas que vivem no campo, não têm conhecimento dos ensinos cristãos e infelizmente, muitos pastores são incompetentes e se mostram inadequados ao ofício de ensinar”. “Eles passaram a dominar a fina arte”, entoava Lutero, “do abuso da liberdade”.

Toda essa situação perturbou profundamente Lutero. Ele, então, passou a direcionar seu foco e suas preocupações sobre dois grupos: o clero e as crianças. Ao retornar a Wittenberg, pediu imediatamente a Melâncton e a outros de seu círculo de amigos e colegas que produzissem material que lhe possibilitasse lidar com essas deficiências e treinar os infantes. Assim, eles produziram extenso material, mas apenas uma parte foi aprovada por Lutero. Alguns textos, ele considerava nada mais que moralismo – uma cura que, Lutero temia, seria pior que a doença. Mas percebeu que quase tudo estava aquém de fazer o que ele considerava essencial: a comunicação clara das verdades cruciais da Bíblia e da teologia ortodoxa de uma geração a outra. Em outras palavras, ele desejava imprimir uma tradição que perdurasse, no melhor sentido do termo.

A palavra inglesa para tradição tem origem no latim traditio, que significa transferir, passar adiante ou entregar. Para Lutero, Paulo foi quem melhor encerrou o sentido da palavra ao admoestar seu “filho na fé”, Timóteo, a transmitir “a homens fiéis e também idôneos para instruir outros” (2Tm 2.2). Lutero entendia que essa era a única forma de a igreja permanecer fiel ao evangelho e à teologia ortodoxa. Era preciso ensinar - explícita, proposital e programaticamente – o evangelho e a teologia ortodoxa, e fazer isso em relação aos mais jovens.

Depois de esperar em vão, por algum tempo, que alguém produzisse material com esse propósito, Lutero decidiu, ele mesmo, fazê-lo, em 1529. O resultado foi o livro Catecismo menor. Por seu próprio testemunho, conforme vimos, Lutero declarou que não se importava que toda a sua obra fosse queimada e esquecida, contanto que O cativeiro da vontade e Catecismo menor sobrevivessem. Felizmente, seu desejo se realizou sem essa condição. Sua obra sobreviveu, tem vicejado e ainda conta com vasto público até hoje, quase quinhentos anos depois de ter sido escrita.

No mesmo ano, Lutero também tratou os problemas do clero inculto com a publicação intitulada Catecismo alemão. Essa obra, que passou a ser chamada de Catecismo maior, segue a mesma estrutura de sua correspondente, só que é muito mais extensa.

Catecismo menor não foi a única contribuição de Lutero à literatura infantil.
Conforme já mencionamos, ele também publicou uma tradução em alemão das Fábulas de Esopo. Além disso, foi autor de um alfabeto simples e de um livro voltado ao público infantil. Porém, Catecismo menor permanece como seu verdadeiro legado, valendo-lhe outra adição à já extensa lista de credenciais: a de educador infantil.


Uma obra-prima teológica: para crianças

Catecismo menor é uma obra-prima, por ser, ao mesmo tempo, abrangente e conciso. Atual em sua apresentação, estilo e conteúdo, essa obra figura entre os clássicos da literatura devocional e teológica. Consiste em uma breve exposição dos elementos essenciais para entender a Deus, sua Palavra e sua obra no mundo, contendo breves ensinamentos sobre os Dez Mandamentos, o Credo Apostólico, a Oração do Senhor e os sacramentos. Lutero expandiu o catecismo para edições posteriores, a fim de incluir instruções sobre a oração e aquilo que ele chama de “a mesa dos deveres”. Essas inserções bastante concisas apresentam diversos ensinamentos da Bíblia sobre pastores, autoridades seculares, maridos, esposas, pais, filhos, trabalhadores e servos, mestres e viúvas, e concluem com uma palavra a todos os cristãos em geral.

O catecismo de Lutero foi o primeiro dos muitos catecismos produzidos durante a Reforma, incluindo o Catecismo de Heidelberg, o Breve e o Completo catecismo de Westminster. A exemplo desses, o catecismo de Lutero segue um modelo de perguntas e respostas. A palavra catecismo quer dizer, literalmente, soar e diz respeito ao ensinamento pelo falar. O método de instrução da catequese enfatiza o envolvimento do mestre, do pai ou da mãe com a criança. Também encoraja a memorização, pois as perguntas e respostas são frequentemente repetidas. Essa repetição e essa memorização representam um meio voltado a um fim, pois as palavras do catecismo devem impactar tanto o pensamento como a vida daquele que conhece as palavras.
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NICHOLS, Stephen J. Além das 95 teses – A vida, o pensamento e o legado de Martinho Lutero. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2017. 299p. [Trecho retirado das páginas 173-177]

Publicado originalmente pela Editora Fiel em:

domingo, 27 de maio de 2018

A MENSAGEM DA BÍBLIA PARA A IGREJA DE HOJE [Apresentação]




A MENSAGEM DA BÍBLIA PARA A IGREJA DE HOJE

Esta série de livros de comentários bíblicos intitulado “A Mensagem da Bíblia para a Igreja de hoje” é publicada pelas Edições Vida Nova. Seis livros já foram publicados. Veja abaixo cada um deles de conformidade com a data da publicação. Percebe-se que dos seis publicados, cinco é do Rev. Augustos Nicodemus e um é do Prof. Wilson Porte Jr. Os de Augustus Nicodemus são de sermões expositivos e que depois foram transformados livros. Já o do Wilson Porte é o resultado da mente de um pesquisador que se dedicou a escrever o livro.



(1) O Culto segundo Deus: A mensagem de MALAQUIAS para a igreja de hoje – Augustus Nicodemus. (2012)


Em nossos dias, assim como na época de Malaquias, o culto a Deus tem sido desvirtuado das mais diversas maneiras. Embora muitos pensem que nada temos a aprender com o Antigo Testamento em matéria de culto, estão enganados. Ao levantarem sua voz contra o povo de Deus de sua época, por haver desvirtuado o culto ao Senhor, os profetas usaram como argumentos princípios relativos à adoração a Deus que certamente se aplicam ao povo de Deus de todas as épocas.



(2) A Supremacia e a Suficiência de Cristo: A mensagem de COLOSSENSES para a igreja de hoje – Augustus Nicodemus. (2013)

Em nossos dias, assim como na época de Paulo, a supremacia e a suficiência de Cristo têm sido desafiadas pelos mais variados tipos de heresia. Paulo escreveu a carta aos colossenses em meados do primeiro século para combater um falso ensinamento, conhecido como a heresia de Colossos. No entanto, o leitor atento que esteja familiarizado com a situação da igreja evangélica brasileira não terá dificuldade em identificar nos dias de hoje várias semelhanças com essa heresia. Precisamente por esse motivo a carta que Paulo escreveu aos colossenses é tão relevante para o nosso tempo.



(3) Livres em Cristo: A mensagem de GÁLATAS para a igreja de hoje – Augustus Nicodemus. (2016)

Este comentário da Carta aos Gálatas é o resultado de exposições bíblicas voltadas para o público brasileiro contemporâneo, o qual, em muitos sentidos, se parece bastante com os destinatários da carta de Paulo. Paulo combateu em sua carta a mensagem de missionários judeus que se diziam cristãos e ensinavam que a salvação não se dava somente pela fé em Cristo Jesus, mas também pela obediência à Lei de Moisés. Hoje enfrentamos mensagem semelhante, defendida e disseminada pelos chamados judeus messiânicos e por pseudoapóstolos, os quais reintroduzem as cerimônias judaicas no culto cristão e obrigam os crentes em Cristo a se sujeitar à mesma Lei a que o Senhor deu pleno cumprimento na sua morte e ressurreição.



(4) Unidos pela Cruz: A mensagem de EFÉSIOS para a igreja de hoje – Wilson Porte Jr. (2017)

É urgente conhecermos a obra de Cristo na cruz. É urgente também que a igreja de hoje conheça a mensagem da cruz. Só ela é capaz de nos unir em torno daquilo que é central em nossa fé fazendo que nossa luz brilhe diante dos homens. A Bíblia diz que a igreja, o povo da cruz, é a luz deste mundo, tal como uma cidade sobre um monte, com povoados em trevas à sua volta. Mas, olhando para a igreja de hoje, a impressão que se tem é que a luz tem se apagado. O que fazer para que a igreja de Cristo volte a brilhar? O que fazer para que ela não se fracione cada dia mais, não se esconda em guetos e becos, nem se envergonhe, mas suba no mais alto monte a fim de que todos vejam o poder de Deus? Sem a busca pela verdade do evangelho da cruz, a luz do povo da cruz continuará a se apagar até que as trevas triunfem sobre o mundo. Em Unidos pela cruz, Wilson Porte Jr. nos convida a essa reflexão, partindo da mensagem de Paulo aos cristãos em Éfeso. Que a antiga e rude cruz nos una para a glória de Deus e nossa alegria.



(5) A conquista da terra prometida: A mensagem de JOSUÉ para a igreja de hoje – Augustus Nicodemus. (2017)

O livro de Josué é um grande auxílio para nossa caminhada cristã aqui neste mundo. Esse livro conta como Deus cumpriu as promessas feitas a Abraão de dar uma terra e descanso à sua descendência. A narrativa de Josué mostra como Deus conduziu os exércitos de Israel a entrar na terra de Canaã (prometida por Deus) e como os israelitas, sob a direção de Josué, conquistaram essa terra, tomando-a de sete povos militarmente superiores a eles. Esse é o alvo do livro. Josué sempre foi um livro muito apreciado pelos cristãos, sendo muito citado no Novo Testamento. Era um livro conhecido e usado entre os primeiros cristãos, que procuravam aplicar à sua vida os princípios nele encontrados.  Este volume é o resultado de uma série de mensagens que o autor pregou a partir do livro de Josué com o objetivo de ajudar os crentes a enfrentar as dificuldades e os desafios da vida com base nos princípios para o relacionamento com Deus que encontramos nesse livro bíblico. E foi com o desejo de ver um público mais amplo ser igualmente abençoado que Edições Vida Nova o publica como parte da série que inclui as mensagens de Malaquias, Colossenses e Gálatas para a igreja de hoje, do mesmo autor.



(6) A Compaixão de Deus: A mensagem de JONAS para a igreja de hoje – Augustus Nicodemus. (2018)

Ao contrário do que muitos pensam, o tema central do livro de Jonas não é o episódio em que o profeta é engolido e depois vomitado por um grande peixe. Deus é o tema central! E com isso o livro nos ensina acerca da soberania divina sobre toda a criação e sobre todos os acontecimentos. Jonas mostra que somos responsáveis por nossos atos e decisões diante de Deus e não podemos fugir de sua vontade. A pergunta que Deus faz nos versículos finais ao profeta irado ainda hoje ecoa em nossos ouvidos como um desafio: “Somos como Deus, capazes de ter compaixão e perdoar nossos inimigos, assim como ele perdoou aos ninivitas? Conseguimos, de fato, querer o bem deles e nos alegrar quando Deus os abençoa?”.

Há uma riqueza divina nestes livros. Não são caros, o preço é acessível e o conteúdo muito bom. Breve, publicarei resenhas e comentários sobre cada um deles em separado. RECOMENDO!

Acesse o link abaixo e veja diretamente na Edições Vida Nova

terça-feira, 22 de maio de 2018

AS CANÇÕES QUE ABRIRAM MEUS OLHOS [Resenha]


FILGUEIRAS, Filipe. As canções que abriram meus olhos: Uma breve biografia de Fanny Crosby. Brasília, Editora 371, 2018, 80p.

Para Quem é assinante da Box95, teve o privilégio de receber na sua box de março de 2018, entre tantos mimos, um livreto de 80 páginas trazendo uma biografia inédita no Brasil. Trata-se do livreto intitulado “As canções que abriram meus olhos: Uma breve biografia de Fanny Crosby.” Fiquei muito entusiasmado pelo fato de que os hinos tradicionais que mais aprecio no nosso Novo Cântico (hinário oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil), são aqueles que foram compostos por esta poetisa e compositora.

Autor da Obra – Quase nada sabemos acerca do autor desta valiosa obra. Seu nome é Filipe Filgueiras e é membro da Igreja Presbiteriana do Cariru em Ipatinga, Minas Gerais. Um outro fato importante acerca do autor é que não mediu esforços – “intelectuais, materiais, financeiros, afetivos e geográficos, a fim de, com todo acuidade, zelo e brilhantismo que lhe são peculiares, transmitir-nos as dores e delícias dessa humilde e grandiosa mulher de Deus.” [p.10].

O Livro – Apesar de apenas 80 páginas, mas, é o único em língua portuguesa. Está dividido em oito capítulos e que traz traços curiosos e desconhecidos de muitos acerca de Fanny Crosby, por exemplo: 

No capítulo 1, observamos que ela não nasceu cega. Devido a um erro de um falso médico, com seis semanas de vida ela perdeu a visão. Sobre a sua cegueira ela disse: “Parecia planejado, pela providência santificada de Deus, que eu deveria ser cega toda minha vida, e eu lhe agradeço a dádiva. Se visão terrestre perfeita me fosse oferecida amanhã, eu não aceitaria. Eu não poderia ter cantado hinos de louvor a Deus se eu estivesse distraída pelas coisas bonitas e interessantes ao meu redor.” [p.18].

No capítulo 2, é quando descreve a sua entrada no Instituto para Cegos de Nova York, com quinze anos de idade. Lá ela aprendeu trabalhos manuais, iniciou seus estudos na área musical, aprendendo tocar piano, harpa e violão, e também tinha aulas de cantos. Estudou ainda gramática, filosofia, astronomia e política econômica. Aos 22 anos ela se tornou professora no Instituto, lecionando retórica, gramática e história. [p.25-27].

O capítulo 3 faz referência ao casamento de Fanny Crosby com o professor de música e cantor de concerto Alexander Van Alstyne. Nessa época, ela havia deixado o ensino para acompanhá-lo tocando piano e harpa em apresentações públicas. Compôs diversas canções populares nesse período. Um fato curioso é no ano seguinte ao seu casamento, Fanny deu à luz sua única filha, que veio a falecer com seis meses de vida, sem que se saiba ao certo o motivo, pois alguns diziam ser por causa de uma febre e outros por motivos de sufocamento acidental no berço. Os pais nunca falaram sobre o assunto em público. Fanny sequer cita ter tido filhos em sua autobiografia. [p.31]

No capítulo 4 encontra-se uma lista de “irmãos de Missão”, ou seja, pessoas ilustres que de alguma forma colaboram e foram abençoados com o ministério de Fanny Crosby. Entre eles, encontra-se Dwight L. Moody, um grande evangelista americano que utilizou músicas de Fanny Crosby em suas campanhas, como por exemplo o hino “A Deus seja a Glória”. 

Os capítulos 5 ao 7 traz toda a história sobre os principais hinos e livros compostos, a essência de suas composições e finalmente a sua morte na manhã de 12 de fevereiro de 1915 na cidade de Bridgeport, a 100 km de Nova York.

Finalmente, no capítulo 8, temos o legado de Fanny Crosby, “que compôs tantas canções e poemas ao longo da vida que não se sabe ao certo o número de suas publicações. Algumas fontes mencionam cinco mil, outras sete mil. Acredita-se também que esse número possa ter passado de dez mil, entre hinos e poesias. Suas composições são sem dúvida seu maior legado, pois estão presentes até hoje em nossos hinários, mas conhecer o contexto das composições também é muito inspirador, sendo fácil notar o vasto legado deixado por Fanny Crosby.” [p.62].

Como apêndice dentro do livro, temos os hinos de Fanny Crosby divididos pelos principais hinários tradicionais: Hinário Novo Cântico (Hinário Oficial da IPB), Hinário Evangélico Metodista (Hinário Oficial da Igreja Metodista do Brasil) e o Hinário Cantor Cristão (Hinário Oficial dos Batistas).

Como palavra final, “a vida de Fanny Crosby é muito inspiradora. Tantos feitos realizados durante sua vida nos levam a repensar algumas coisas. Em determinados momentos nos sentimos incapazes de contribuir com o Reino de Deus. Fanny, mesmo cega, contribuiu muito além da música e da poesia. (...) Precisamos de pessoas como Fanny Crosby, que glorificam a Deus diariamente em suas vidas. Pessoas que entendem que seu objetivo final nesta terra é viver para que Deus seja visto de forma grandiosa, preciosa, valiosa, como o verdadeiro e único tesouro que possuímos.” [p.65-66].

Recomendo. A Box95 de março ainda está disponível na loja.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

POR QUE DEVEMOS CANTAR SALMOS [Resenha]


BEEKE, J. R.; JOHSON, Terry L.; HYDE, Daniel R. “Por que Devemos Cantar Salmos?” Recife: 2016, 761p.

Logo de início, o editor Manoel Canuto, já esclarece no prefácio qual o propósito do livro – Salmodia Exclusiva – “estas palavras poderão convencê-lo de que não encontraremos cânticos melhores nem mais apropriados do que os Salmos de Davi, que o Espírito Santo falou e compôs” [p.9].

Esclarecemos pois o que é Salmodia Exclusiva: “Deus ordenou que cantássemos Salmos a Ele. Ele não nos mandou escrever nossos próprios hinos para adoração. Nós devemos fazer como ele ordenou. Ponto.” [1] G. I. Williamson, escreveu: “(1) eu nunca vi nenhuma prova exegética de que Deus quer que produzamos nossos próprios hinos para cantá-los na adoração, no lugar dos Salmos inspirados que ele providenciou...; (2) Em segundo lugar é simplesmente um fato histórico que a grande mudança, em substituir os hinos inspirados pelos não-inspirados, não foi o resultado de novas descobertas no conteúdo da Escritura. Ela não foi uma mudança relutante compelida pela exegese cuidadosa (pelo menos isso não é verdade em vários casos dessa inovação na história das igrejas reformadas conhecidas pelo escritor). Não, a mudança veio, antes, de uma cessão à uma demanda popular crescente – ela foi uma mudança feita para agradar as pessoas”. [2]

O livro está dividido em três longos capítulos que mostram através de fundamentos bíblicos, históricos e confessionais a importância que tem em cantar os Salmos na vida igreja.


O Capítulo 1 [p.37-65] escrito por Joel R. Beeke, um dos editores da Teologia Puritana publicado pelas Edições Vida Nova em 2016. [3] Este capitulo tem como título “Por que Devemos Cantar os Salmos?”. Beeke escreve sobre as bases bíblicas, os benefícios e a beleza de cantar os Salmos.

Em sua argumentação, Beeke ensina que Davi ordenou que os Salmos fossem usados no culto. Ele mesmo compôs muitos Salmos (quase a metade do Saltério), e organizou os levitas sob a liderança de Asafe para cantarem esses Salmos e tocarem instrumentos musicais para o serviço do templo que Salomão haveria de construir. Ele até sugeriu uma seleção de seus Salmos para um culto especial de ações de graças para inaugurar o uso desses instrumentos (1 Cr 15.16-17; 16.4-36).[4] Alguns desses músicos do templo eram também profetas, divinamente inspirados, de forma que eles também podiam escrever “os cânticos do Senhor (1 Cr 25.1,6-7). Dessa forma, começo a composição e coleção daquilo que chamamos o Livro os Salmos [p14]. Beeke, afirma que “os salmos pedem para serem cantados. Por isso, não é de surpreender que, quando o rei exéquias restaurou o culto em Judá, ele ordenou “aos levitas que louvassem o Senhor com as palavras de Davi e de Asafe, o vidente” (2 Cr 29.30). E conclui dizendo: “O apóstolo Paulo ordenou às igrejas dos efésios (EF 5.19) e dos colossenses (Cl 3.16) que cantassem o Saltério e comentou o fato de que os coríntios cantarem salmos (1 Co 14.15,26). Tiago também ordenou a seus leitores que cantassem Salmos (Tg 5.13).” [p.15-16]


O Capítulo 2 [p.37-65], escrito por Terry L. Johnson, é ministro sênior da Igreja Presbiteriana Independente em Savannah, GA. Ele é o autor de The Case for Traditional Protestantism and Reformed Worship. Este capitulo tem como título “Onde estão os Salmos? A História do cântico dos salmos na Igreja Cristã”. Terry escreve que cantar Salmos era uma prática comum na Igreja primitiva, patrística, idade média e durante a Reforma Protestante. Explica a causa do declínio, o reavivamento nos Estados Unidos e Inglaterra e conclui falando sobre os benefícios de se cantar os Salmos. 

Argumentando acerca da prática de cantar os Salmos na Igreja primitiva ele diz: “Os Salmos eram o centro dos louvores da igreja do Novo testamento (...) O apóstolo Paulo ordenou às igrejas de Éfeso e de Colossos que cantassem Salmos (Ef 5.19; Cl 3.16)”. E conclui dizendo que “Com surpreendente frequência, o Novo Testamento cita os Salmos, exemplificando como eles mostram uma penetrante consciência da sua importância cristológica e devocional (At 2.24-26; Hb 1.5-13; 2.5-10,12, 13; 3.7-4.7; 5.1-7). [p.41]

A prática do Cânticos dos Salmos na Igreja Patrística é fundamentada nas citações de Tertuliano, Atanásio, Eusébio – Bispo de Cesaréia. Basílio, o Grande, Agostinho, Jerônimo, Sidônio Apolinário, Crisóstomo. Terry cita o Concílio de Braga em 350 d.C. que decidiu que: “Com exceção dos Salmos e dos hinos do Antigo e do Novo Testamentos, nada de natureza poética pode ser cantada na Igreja”. Decisão esta que foi ratificada nos Concílios de Laodiceia (360 d.C.) e Calcedônia (451 d.C.)

É curioso as citações que ele faz de Dietrich Bonhoeffer, Thomas à Kempis e Mathew Henry, Lutero, Calvino, Martin Bucer e a luta dos pais peregrinos para a manutenção dos Salmos no Culto Solene.


O Capítulo 3 [67-76], escrito por Daniel R. Hyde, Daniel R. Hyde é pastor sênior da Igreja Reformada Unida de Oceanside, na Califórnia. Ele é o autor de “God in Our Midst” [Deus em nosso meio] e “Welcome to a Reformed Church” [Bem-vindo a uma igreja reformada]. Este capitulo tem como título “Por que cantamos os Salmos do Antigo Testamento?”. Daniel faz uma análise geral do cântico de Salmos, classificando-os como: Cânticos de Israel, Cânticos de Jesus, Cânticos dos Apóstolos e Cânticos da Igreja Histórica e apresenta uma série de motivos por que cantar Salmos e enfatiza uma santificação decorrente de sermos cheios do Espírito Santo através do Cântico dos Salmos. 

Com respeito a esta santificação, Daniel ensina que a “obra santificadora do Espírito em nosso coração está ligada à nossa prática de cantar-lhe os Salmos com o nosso coração. Na passagem paralela em Colossenses, Paulo ensina que entoar esses cânticos é o meio pela qual a Palavra de Cristo habita ricamente em nós (Cl 3.16). Quando cantamos os Salmos, então, estamos recorrendo ao Espírito Santo e à Palavra, que é a maneira pela qual Jesus disse que somos santificados (Jo 17.17).” [p.71].

O livro termina com uma nota pastoral de incentivo ao uso da Salmodia Exclusiva: “(...) Quero encorajar você, assim como crescer e amadurecer na fé e na piedade não acontecem do dia para a noite, assim também é aprender a adorar de forma consistente com a prática histórica. A recompensa dessa fé perseverante é a maturidade na fé.” [p.75]

Portanto, o livro é muito bom. Recomendo que leiam e é um livro muito bom para estudo em grupo. Concluindo, sou um defensor da Salmodia Exclusiva.

________________________
[1] EDGAR, Bill; EDGAR, John. Breves Argumentos para a Salmodia Exclusiva. Disponível em Acesso em 10 Mai. 2018 
[2] CRAMPTON, W. Gary. Salmodia Exclusiva. Disponível em: Acesso em 10 Mai. 2018 
[3] Joel Beeke é presidente e professor de teologia sistemática no Puritan Reformed Theological Seminary (EUA) e pastor da Heritage Netherlands Reformed Congregation. Beeke é Ph.D. em teologia pelo Westminster Theological Seminary. 
[4] O hino de 1 Crônicas 16.7-36 é uma composição de três salmos: 96.1b-13a; 105.1-15; 106.1b, 47-48.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A VOCAÇÃO SEGUNDO LUTERO [Prefácio e textos]


WINGREN, Gustav, A Vocação Segundo Lutero. Canoas, RS: Ed. Ulbra e Editora Concórdia, 2006. 268p.

É a vocação um dos conceitos fundamentais no esquema teológico de Lutero, pois corresponde ao ensino da santificação, doutrina essa que ele sempre entende como a prática do amor numa relação com os outros e jamais em um aperfeiçoamento moralista, solitário, individual, fora do mundo e dos relacionamentos interpessoais.

Por isso, rejeita a santificação monástica entre quatro paredes e a imitação dos santos, obras feitas não para o próximo, e, sim, para Deus, e, em última análise, para o indivíduo que as pratica por acreditar que elas ajudam na própria salvação.

Também não aceita Lutero a santificação proposta pelos Schwärmer (fanáticos ou entusiastas), caracterizada por uma visão puramente negativa das coisas do mundo, constituindo-se, desse modo, numa recaída na ética monástica medieval.

Este texto está dividido em dois aspectos:

Primeiro, transcrevi o prefácio da obra de Gustaf Wingren, intitulada “A Vocação segundo Lutero”, publicada pela Editora Concórdia em 2006 e que foi escrito por um cara de nome bem sugestivo – Martinho Lutero Hoffmann, tradutor da obra.

Segundo, temos a um texto sobre “A Doutrina Bíblica e Reformada da Vocação”. Um texto muito rico escrito por Gene Edward Veith. Tradução de Camila Rebeca Teixeira. Revisão de André Aloísio Oliveira da Silva e publicado originalmente pelo ministério fiel[1]


PREFÁCIO
Martinho Lutero Hoffmann, tradutor da obra[2]

Pouco se conhece no Brasil sobre o pensamento original de Lutero, embora haja um milhão de luteranos no país, mais de mil pastores e, dentre esses, uma meia dúzia de luterólogos. É que a produção nessa área tem sido pequena e, ainda assim, pouco divulgada. Traduções também não são muitas. Nesse contexto, vale destacar a tradução das obras de Lutero feita pela Comissão Interluterana de Literatura (CIL) e publicada pelas editoras Concórdia e Sinodal, no início dos anos 90. Cumpre citar A Nossa Vocação, de Einar Billing, um autor sueco a exemplo de Wingren.

Por outro lado, se Lutero não foi bem compreendido pelos adversários, igualmente nem sempre o foi pelos próprios luteranos, pois a originalidade e abrangência das suas posições requerem paciência, tempo e muita acuidade. Além disso, o tamanho da sua obra alcança mais de cem volumes, cada qual tendo mais de mil páginas, fato que levou um de seus biógrafos a fazer o seguinte cálculo: para copiar à mão toda a sua produção literária, seria preciso um homem trabalhar oito horas por dia durante dez anos.

No que tange à temática vocação, o livro de Wingren toca em um ponto crucial do pensamento lutérico, pois é a versão dele para a doutrina da santificação, doutrina essa que Lutero entende sempre como a prática do amor numa relação interpessoal e nunca num "aperfeiçoamento moral", individual, fora do mundo, fora, pois, das relações interpessoais. Daí a sua recusa e condenação à santificação monástica entre quatro paredes, à imitação dos santos, pois o que eles faziam, na maioria das vezes, era uma obra sem correspondência com o próximo; e à santificação dos Schwarmer (palavra alemã que fica a meio caminho entre fanático e entusiasta) caracterizada puramente por uma visão negativa das coisas do mundo, uma recaída, portanto, na ética monástica medieval. Para Lutero, sem amor não há santificação, e amor se entende como o querer e fazer bem ao próximo. O amor a Deus, por sua vez, que é também exigido pela lei e criado no coração do ser humano pelo Espírito Santo mediante a palavra do evangelho, esse amor, como dizia, manifesta-se unicamente pela fé, ou seja, pela confiança na sua pessoa. Logo, não há o que dar para Deus, não há sacrifício a fazer para ele. Se, então, há alguma coisa que o homem deseja fazer movido pela graça que o traz à fé, essa coisa pode ser apenas as obras de amor em favor do próximo, obras feitas num espírito espontâneo, pois não visam a alcançar méritos face a Deus.

A tradução, como tal, não apresentou sérias dificuldades. Somente lembro que Wingren é sueco e escreveu na língua materna. Daí foi traduzido para o inglês por Carl C. Rasmussen e publicado em 1957. Tradução de tradução implica sempre em mais riscos. Sendo o português uma língua de pouca tradição luterana, a dificuldade aumenta em razão de, em certos momentos, não haver uma palavra específica para transmitir o sentido exato proposto pelo texto, fato que nos obriga a rodeios ou a tentativas de criar um vocábulo novo. Além do mais, como o português é pródigo em dentais (d e t) e o texto em inglês a toda hora nos apresentava palavras que, traduzidas no primeiro instante, reclamavam uma correspondente em ão (vocation - vocação; prayer - oração, etc.) isso nos obrigou a apelar para sinônimos pouco usados e ainda mais rodeios ou, então, mudanças para adjetivos, tendo como propósito evitar colisões e ecos e, ao mesmo tempo, tentar proporcionar uma prosa limpa, fluente, elegante (isso, pelo menos, foi tentado) - sem perder nem alterar o sentido original. Por isso, aparecem palavras como lutérico (próprio de Lutero para diferenciar de luterano), orante (a pessoa que ora), chamado (como sinônimo de vocação) e, de vez em quando, inversões no interior das frases.


A DOUTRINA BÍBLICA E REFORMADA DA VOCAÇÃO
Gene Edward Veith

Os cristãos atuais frequentemente falam sobre transformar a sociedade. Um exemplo radical de como um ensino teológico teve um impacto social revolucionário é a doutrina da Reforma sobre a vocação. Na Idade Média, a sociedade era altamente estruturada, hierárquica e estática. Isso mudaria, começando no ano de 1500, como uma consequência não intencionada da doutrina de Lutero sobre a vocação.

A DOUTRINA DA VOCAÇÃO
Para Lutero, vocação — a palavra latina para “chamado” — significa muito mais do que um emprego ou profissão. Vocação é a doutrina de Lutero sobre a vida cristã. Mais do que isso, a vocação é a maneira como Deus trabalha através dos seres humanos para governar a sua criação e conceder os seus dons.

Deus nos dá nosso pão diário por meio de fazendeiros, moleiros e padeiros. Ele cria e cuida de uma nova vida por meio de pais e mães. Ele nos protege por meio das autoridades legais. Ele proclama a sua Palavra e administra os seus sacramentos por meio de pastores. A vocação, disse Lutero, é uma “máscara de Deus”, uma maneira pela qual ele se esconde nas relações e tarefas comuns da vida humana.

Um texto-chave para a vocação é 1 Coríntios 7.17: “Ande cada um segundo o Senhor lhe tem distribuído, cada um conforme Deus o tem chamado”. O contexto imediato dessa passagem tem relação com o casamento. Nossas famílias, nossa cidadania em uma determinada comunidade ou sociedade, nossas congregações e, sim, nossos locais de trabalho são todos facetas da vida para as quais Deus nos designou e nos chamou.

O propósito de todos os nossos chamados é amar e servir os próximos que cada vocação introduz em nossas vidas (no casamento, nosso cônjuge; na paternidade, nossos filhos; no local de trabalho, nossos clientes; e assim por diante).

Somos salvos somente pela graça, pela fé na obra de Jesus Cristo. Mas, depois, somos enviados de volta aos nossos chamados para que vivamos essa fé. Deus não precisa das nossas boas obras, disse Lutero, pensando nos esforços exaustivos para merecer a salvação para além do dom gratuito de Cristo, mas o nosso próximo precisa das nossas boas obras. Nossa fé dá fruto em amor (Gálatas 5.6; 1 Timóteo 1.5), e isso acontece em nossas famílias, trabalho, comunidades e congregações. Nesses chamados, também carregamos nossas cruzes, pecamos e encontramos perdão, e crescemos em fé e santidade.


OS ESTAMENTOS

A sociedade medieval era dividida em três estamentos: o clero (“aqueles que oram”); a nobreza (“aqueles que lutam”, ou, na prática, “aqueles que governam”); e os plebeus (“aqueles que trabalham”).

Pensava-se que o clero tinha uma “vocação”, um chamado distinto de Deus para buscar “a vida espiritual” para além do mundo. Dedicar-se completamente à oração e aos exercícios espirituais era considerado de muito maior valor do que aquilo que poderia ser encontrado nos estamentos seculares. Entrar em uma ordem religiosa exigia votos de celibato, pobreza e obediência. Para Lutero, essa busca por mérito não somente era uma rejeição do evangelho, mas tais votos repudiavam os próprios reinos da vida — família, trabalho, governo — que Deus estabeleceu. Esses reinos, ele insistiu, também eram vocações cristãs.

Lutero redefiniu os estamentos como instituições designadas por Deus para a vida terrena. Essas instituições são a igreja, o Estado e o lar (a família e seu trabalho econômico). Essas eram paralelas aos estamentos medievais do clero, nobreza e plebeus. Mas enquanto na Idade Média essas eram três categorias sociais separadas, para Lutero, essas são esferas de vida nas quais todo cristão habita e nas quais todo cristão tem vocações.

As distinções sociais rígidas entre três estamentos — aqueles que oravam, aqueles que governavam e aqueles que trabalhavam — desmoronaram. A vida de oração não é apenas para uma classe sacerdotal, mas para todos os crentes. O Estado não é apenas a preocupação de uma elite governante, mas de todos os seus cidadãos. O lar não é apenas para os plebeus. Todos, incluindo o clero, podem ser chamados para o casamento e a paternidade. Todos, inclusive a nobreza, são chamados ao trabalho produtivo. Todos oram. Todos (eventualmente) governam. Todos trabalham.


O IMPACTO SOCIAL DA REFORMA

Outra nomenclatura para a doutrina da vocação é o sacerdócio de todos os crentes. Deus chama alguns cristãos para serem pastores, mas ele chama outros cristãos para exercerem o seu sacerdócio real ao ararem campos, forjarem aço e iniciarem negócios. Mas todos os sacerdotes — incluindo os camponeses e moças serviçais — precisam ter acesso à Palavra de Deus. Assim, durante a Reforma, as escolas abriram e a alfabetização floresceu.

Os plebeus instruídos subiram a escada social e poderiam governar, eventualmente. Os trabalhadores que amavam e serviam os seus clientes por meio dos seus trabalhos encontraram sucesso econômico. Enquanto Lutero se dirigia a uma sociedade estática pós-medieval, Calvino e posteriormente os puritanos adaptaram a vocação ao emergente mundo moderno. Eles deram ênfase aos chamados do local de trabalho e encorajaram os cristãos a aceitarem as novas oportunidades às quais Deus os estava chamando. Assim, a Reforma proporcionou uma mobilidade social sem precedentes.

Estranhamente, a doutrina da vocação tem sido esquecida hoje. O que uma redescoberta da vocação faria à sociedade atual?


[1] Link Original: http://ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/1197/A_doutrina_biblica_e_Reformada_da_vocacao
[2] Páginas 8-9.