sexta-feira, 23 de junho de 2017

A PRÁTICA DO ESFORÇO NA VIDA CRISTÃ [Mateus 11.12]



INTRODUÇÃO

Vivemos em tempos muito estranhos. Os acontecimentos se sucedem com extraordinária rapidez. Nunca sabemos “o que o dia nos trará”, quanto mais o que nos trará o ano! Nos nossos dias vemos muitos fazerem confissões de sua religiosidade. Em muitas partes do país as pessoas expressam vivo desejo de seguir um curso de vida santo e um grau mais alto de espiritualidade.

É muito comum ver como as pessoas recebem a Palavra com alegria, porém depois de dois ou três anos se afastam e voltam a seus pecados. Há muitos que não consideram o custo de ser um verdadeiro cristão e um crente santo. Nossos tempos requerem de um modo muito especial que paremos e consideremos o custo e o estado especial de nossas almas. Este tema deve preocupar-nos. Sem dúvida o caminho da vida eterna é um caminho delicioso, porém seria loucura de nossa parte fechar os olhos ao fato de que se trata de um caminho estreito e que a cruz vem antes da coroa. [1]

O texto que lemos diz: “o reino dos céus é tomado por ESFORÇO”

Ao reino dos céus “se faz violência” (ACF); “tomado por esforço” (ARA) A expressão é uma metáfora de uma cidade ou um castelo envolvidos em uma guerra e que não podem ser conquistados de modo algum, exceto se forem tomados de assalto. De modo semelhante, o reino dos céus não será tomado sem violência — “pela força se apoderam dele”.

A terra será herdada pelos mansos (Mt 5.5); o céu, pelos que batalham. A vida cristã é semelhante à vida militar. Cristo é nosso Capitão; o evangelho, nossa bandeira; as graças do Espírito, nossa artilharia espiritual. E o céu somente pode ser conquistado por meio da força.

Essa afirmativa tem dois aspectos:
1. O combate – “se faz violência”;
2. A conquista – “pela força se apoderam dele”.
A maneira correta de apoderar-se do céu é tomá-lo de assalto; ou seja, ninguém vai ao céu, exceto os que batalham por ele. [2]


1. O QUE É ESFORÇO?

Anders Erikson, célebre psicólogo da Universidade da Florida, explica que as pessoas que alcançam o sucesso ou o triunfo não dispõem de nenhum tipo de células que os façam diferentes do resto. Está claro que nem todos “servimos para tudo”, mas há quem saiba agregar uma série de dimensões básicas que lhe permitem, sem dúvida, alcançar aquilo que propõem. [3]

Esforço é a mobilização de todas as forças físicas ou morais para atingir um objetivo. Para o servo de Deus o esforço não é uma opção. Ele é exortado a fazer esforçadamente a sua parte na construção do reino de Deus. O verbo esforçar aparece sempre de forma imperativa: Rm 12.17; Js 1.7.

O cristão não é para fazer a obra de Deus de qualquer jeito. Fazer a obra do Senhor de qualquer jeito ou mesmo somente quando der – “Maldito aquele que fizer a obra do SENHOR relaxadamente! Maldito aquele que retém a sua espada do sangue!” – Jr 48.10


I. PAULO, O TEÓLOGO DO ESFORÇO

O apóstolo Paulo é o teólogo do esforço e isso é comprovado com a sua vida.

1. Esforço para ter uma consciência limpa, At 24.16
Ter uma consciência limpa significa:
a) Nunca ser julgado por ninguém, 1 Co 2.15
b) Não permitir que o diabo nos acuse de alguma falta, Tt 2.7-8
c) Glorificar o nome do Senhor com nossa vida, evitando o mesmo seja blasfemado pelos incrédulos, Mt 5.16; Rm 2.24

2. Esforço para pregar evangelho, Rm 15.20
O apostolo Paulo era um homem dedicado a ação evangelística. E a recomendação do mesmo é pra que sejamos esforçado para a pregação da palavra – “prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” – II Tm 4.2

3. Esforço para ser agradável, 2 Co 5.9 
Uma das características que impulsionou o crescimento da Igreja primitiva era a simpatia que despertou nas pessoas. A alegria deve ser algo marcante, não tão somente quando as coisas vão bem, e sim, quando tudo parece muito difícil. A alegria do cristão é um estado de Espírito, Pv 15.13; 17.22

4. Esforço para ajudar o pobre, Gl 2.10
Lembrar-se dos pobres, era algo que o apóstolo Paulo muito se esforçava. A bíblia recomenda que “as boas obras”, foram feitas não para se obter a salvação, mas sim, como resultados delas – todo salvo compreende a necessidade de se esforçar para se fazer o bem. Boas obras implica em galardão – “então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me” – Mt 25.34-36

Boas obras, principalmente aos da fé – “Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” – Gl 6.10

5. Esforço para servir a Deus, Cl 1.29
Servir a Deus não deve ser um peso ou uma obrigação.
a) Servir a Deus é algo que só é feito com espírito de gratidão – “Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério” - 1 Tm 1.12
b) Servir a Deus com o coração cheio de alegria – “Servi ao SENHOR com alegria, apresentai-vos diante dele com cântico” – Sl 100.2.
c) Servir a Deus de qualquer modo implica em maldição – “Maldito aquele que fizer a obra do SENHOR relaxadamente! Maldito aquele que retém a sua espada do sangue!” – Jr 48.10


II. A MOTIVAÇÃO DO ESFORÇO

A motivação do esforço é amor, paixão, é o entusiasmo que o cristão sente pelo Sr. Jesus. Movido por este amor, o crente larga tudo se possível for – “Então, Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos. Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna” – Mc 10.28-30


III. O CUIDADO COM O ESFORÇO PERDIDO

Tanto o apóstolo Paulo, como também o apóstolo João, tinha certa preocupação com o esforço perdido, principalmente sobre o esforço perdido do desenvolvimento da salvação. O apóstolo Paulo, recomenda aos filipenses a desenvolver a salvação que receberam do Senhor, ou seja, eles precisavam crescer na fé a cada dia – “Assim, pois, amados meus, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor” – Fp 2.12

Muitos missionários se esforçaram para pregar o evangelho e anunciar as boas novas de salvação, contudo alguns que receberam esta palavra, não aceitaram de forma completa e acabaram abandonando a igreja e o amor a Deus. O apóstolo Paulo escreveu: “preservando a palavra da vida, para que, no Dia de Cristo, eu me glorie de que não corri em vão, nem me esforcei inutilmente” – Fp 2.16

O apóstolo João recomenda: “Acautelai-vos, para não perderdes aquilo que temos realizado com esforço, mas para receberdes completo galardão” – II Jo 8.

Existe também o esforço perdido com aquela preocupação exagerada com coisas materiais, como, Lc 12.16-21

CONCLUSÃO

Sem esforço pessoal as boas intenções não duram muito, não vão a frente. A própria qualidade do trabalho prestado deixa muito a desejar. Deus requer do crente a prática do esforço, do muito esforço, o mais possível.

Aqueles que servem a Deus com esforço deixam uma folha notável de serviço e será para sempre lembrado tanto por Deus como também pela história.

“Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos” – Hb 6.10

“Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” – I Co 15.58

Portanto, a motivação do esforço é: AMOR, PAIXÃO E O ENTUSIASMO PELA PESSOA DE JESUS CRISTO.

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[1] RYLE, J. C. Quanto custa ser um cristão. Disponível in: http://www.monergismo.com/textos/sotereologia/quanto_custa_cristao_ryle.htm
[2] WATSON, Thomas E. O Céu tomado por esforço. Disponível in: http://www.monergismo.com/textos/santificacao/ceu.pdf
[3] ERICKSON, A. Perseverança, Esforço e Sacrifício. Disponível in:
https://amenteemaravilhosa.com.br/nao-sorte-perseveranca-esforco/

quinta-feira, 22 de junho de 2017

LENDO E COMPARTILHANDO Nº 004



Por que Jesus considera a fé do centurião tão admirável (Mt 8.5-13)? O centurião garante a Jesus que, em sua opinião, é desnecessário o Mestre visitar sua casa para poder curar o servo paralitico. Ele compreende que Jesus precisa apenas dizer uma palavra, e o servo será curado. O centurião explica: “Pois também eu sou homem sob autoridade e tenho soldados às minhas ordens; e digo a este: vai, e ele vai; e a outro: vem, e ele vem; e ao meu criado: faze isto, e ele faz” (8.9).

Por que essa evidencia de fé é tão espantosa? Três fatores se destacam.

1. Em uma época de tanta superstição, o centurião creu que o poder curador de Jesus não residia em truques de magia, ou mesmo em sua presença pessoal, mas em sua palavra. Jesus não precisava tocar ou manipular o servo, nem sequer precisava estar presente; Ele só precisava dizer a palavra, e seria feito.

2. O centurião chegou a afirmativas tão confiantes a despeito do fato de não estar alicerçados nas Escrituras. Ele era um gentio. Que noção ele tinha das Escrituras, não sabemos, mas com certeza era bem menos do que a desfrutada por muitas pessoas instruídas em Israel. Contudo, sua fé era mais pura, mais simples, mais penetrante, mais reverente a Cristo do que a dos israelitas.

3. O terceiro elemento espantoso na fé desse homem é a analogia que ele desenvolve. Ele reconhece ser ele mesmo um homem debaixo de autoridade e, portanto, ele tem autoridade quando fala no contexto desse relacionamento. Quando ele diz a um soldado romano sob seu comando para ir ou vir ou fazer algo, ele não está falando com um mero homem a outro homem. O centurião fala com a autoridade de seu chefe, o tribuno, que por sua vez fala, finalmente, com autoridade de Cesar, com a autoridade do poderoso império romano. Essa autoridade pertence ao centurião, não porque ele de fato seja tão poderoso quanto César em todos os senntidos, mas porque ele é um homem sob autoridade: a cadeia de comando significa que quando o centurião fala com o soldado raso, é Roma que está falando. Implicitamente, o centurião está dizendo que reconhece em Jesus uma relação análoga: Jesus está em uma relação tal com Deus, e sob a autoridade de Deus, que quando Jesus fala, é Deus quem fala. É claro que o centurião não falava no quadro de uma doutrina cristológica amadurecida, mas os olhos da fé permitiram que ele enxergasse muito longe.

Essa é a fé que precisamos. Uma fé que confia na palavra de Jesus, reflete uma profunda simplicidade e crê que, quando Jesus fala, Deus fala.

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CARSON, D. A. Por Amor a Deus (Devocionais). Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p.34

A MANEIRA CORRETA DE JEJUAR, O TESOURO NO CÉU E EXORTAÇÕES [Mateus 6.16-24]



Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração. São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão! Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.


Meus irmãos e amigos...

Nesta parte do Sermão da Montanha, nosso Senhor nos fala de três assuntos. Ele nos fala sobre o jejum, o mundanismo e a importância de se ter um propósito bem definido em se tratando de religião.

Vejamos o primeiro assunto:

1. O que é jejum? O jejum é a abstinência ocasional de alimentos, a fim de trazer o corpo em sujeição ao espírito, é uma prática freqüentemente mencio­nada na Bíblia, e geralmente vinculada à oração.

Davi jejuou quando seu filho recém-nascido adoeceu gravemente.
Daniel jejuava quando buscava uma orientação especial da parte de Deus.
Paulo e Barnabé jejuavam quando apontavam os anciãos para as igrejas locais.
Ester je­juou antes de apresentar-se ao rei Assuero.

Observamos ainda que o jejum é um assunto sobre o qual não encontramos nenhum mandamento direto no Novo Testa­mento. Parece ser deixado a critério de cada um, se vai jejuar ou não.

Nisto há grande sabedoria.
- Muitos homens pobres nunca têm o sufi­ciente para comer, e seria um insulto ordenar-lhes o jejum.
- Muitos enfermos têm dificuldade em se alimentar bem, mesmo dando toda atenção à dieta, e o jejum contribuiria para agravar ainda mais a do­ença.

Esta é uma questão em que cada um precisa estar persuadido em sua própria mente, e não ser precipitado em condenar os que não con­cordem com ele. Somente um ponto jamais deve ser esquecido. Quem jejua, deve fazê-lo quietamente, em segredo e sem ostentação. Deve fazê-lo de maneira a não parecer aos homens que jejua. Que não jejue para os homens, mas para Deus.

Olha os versículos que lemos:
Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.


Vejamos agora o segundo assunto:

2. O mundanismo  é um dos maiores perigos que ameaça a alma do ser humano.

Não é para admirar, portanto, encontrarmos nosso Senhor falando decididamente contra isso. Trata-se de um inimigo insidioso, astuto e muito enganador.

Parece tão inocente dar atenção especial aos nossos negócios!
Parece tão inofensivo procurar a felicidade neste mundo, desde que estejamos limpos de pecados mais visíveis!

No entanto, esta é uma pedra contra a qual muitos podem naufragar para toda a eter­nidade. Eles acumulam “tesouros sobre a terra” e esquecem de ajuntar “tesouros nos céus”. Que todos nos lembremos disto!

Onde está posto o meu coração?
O que amo acima de tudo o mais?
Os meus maiores afetos estão ligados às coisas deste mundo, ou às realidades celestiais?

A morte e a vida dependem da resposta que formos capazes de dar a estas indagações. Se o nosso tesouro está sobre a terra, nossos corações serão terrenos — “porque onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração”.

Os versículos...
Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.

Terceiro e último assunto tratado pelo Senhor Jesus neste texto é sobre...

3. Ter um propósito bem definido em se tratando de religião pois nisto reside um dos maiores segredos da prosperidade espiritual.

Os versículos... diz
São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão! Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Se os nossos olhos não vêem distintamente, não podemos caminhar sem tropeçar e cair. Se tentarmos trabalhar para dois mestres diferentes, poderemos ter a certeza de não satisfazer nem a um nem a outro.

Acontece o mesmo a respeito de nossas almas. Não po­demos servir a Cristo e ao mundo ao mesmo tempo. Isto simplesmente não pode ser feito. A arca da aliança e a estátua de Dagom jamais per­manecerão juntas. Deus deve ser Rei sobre os nossos corações. A Lei de Deus, a sua vontade e os seus preceitos devem receber a nossa pri­meira atenção. Então, e somente então, todas as coisas se ajustarão em seus devidos lugares em nosso homem interior. A menos que os nossos corações estejam assim, tão bem ordenados, tudo mais estará em con­fusão: “Todo o teu corpo estará em trevas”. O versiculo 23 diz: se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!


Portanto, temos aqui preciosas lições para a nossa vida.

1. Com a instrução do Senhor acerca do jejum, aprendamos a grande importância do contentamento, em nossa religião.

As palavras, “unge a cabeça e lava o rosto”, são repletas de profundo significado. Elas deveriam nos ensinar a ter por alvo permitir que os homens vejam que o cristianismo nos faz estar contentes. Jamais nos esqueçamos de que não existe religião alguma em parecermos melancólicos e tristes.

Es­tamos insatisfeitos com Cristo e o serviço do seu reino? Certamente que não! Então não tenhamos a aparência de quem está insatisfeito.

2. Aprendamos, com base na advertência do Senhor acerca do mun­danismo, como é grande a necessidade que todos nós temos de vigiar e orar contra um espírito mundano.

O que está fazendo a vasta maioria de professos “cristãos” ao nosso redor? Estão acumulando “tesouros na terra”.

Quanto a isso não há dúvida. Os seus gostos, hábitos e pro­cedimentos nos contam uma temível história: eles não estão ajuntando “tesouros no céu”.

Oh, cuidemos, todos, de não cairmos no inferno, somente porque damos atenção excessiva a coisas que são perfeitamente legítimas! A transgressão notória da lei de Deus mata os seus milhares, e o mundanismo os seus dez milhares!

3. Aprendamos, com base no que nosso Senhor disse acerca dos “olhos bons”, o verdadeiro segredo das falhas que tantos cristãos pa­recem cometer, em sua religião.

Há fracassos por toda parte. Existem milhares de pessoas, em nossas igrejas, que se sentem desconfortáveis, irrequietas e insatisfeitas consigo mesmas, sem mesmo saber por quê.

A razão disso está aqui revelada: eles querem estar de bem com Deus e com o mundo. Estão tentando agradar a Deus e aos homens, servir a Cristo e ao mundo, ao mesmo tempo.

Não incorramos nesse erro. Que nós sejamos decididos e radicais, inflexíveis seguidores de Cristo. Que o nosso lema seja o mesmo do apóstolo Paulo: “Uma cousa faço” (Fp 3.13). Então seremos cristãos felizes. Sentiremos o sol brilhando sobre as nossas faces! Coração, mente e consciência, estarão todos che­ios de luz.

Determinação é o segredo da felicidade na religião cristã. Seja crente decidido, e então, “todo o teu corpo será luminoso”.

Que Deus nos abençoe!

CRIME E CASTIGO [Comentários]



Há muitos motivos para ler o clássico de Dostoiévski, Crime e castigo. O primeiro é que se trata de uma maravilhosa obra de arte. “Numa magnífica noite de Julho, excessivamente quente”, o romance abre, “um rapaz saiu do quarto que ocupava nas águas-furtadas de um grande prédio de cinco andares, situado no bairro S…, e, com passos lentos e um ar irresoluto, tomou o caminho da ponte K”[1]. Esse “ar irresoluto” paira sedutoramente. Ele prenuncia um dos temais centrais do livro – o da autoilusão – e constitui-se numa taquigrafia útil para o estilo aparentemente confuso de Dostoiévski. O livro é um turbilhão de decisões e indecisões, irrupções, retrospectivas, sonhos e divagações que nos mergulham na mente de Raskolnikov – o rapaz que saiu para a rua com “ar irresoluto” e que, mais à frente, matou duas mulheres em sua “loucura”.

Mas também é um romance de grande risco, sutileza e verdade. Como Dostoiévski mostra, Raskolnikov não é louco no sentido clínico, mas no sentido espiritual. A loucura é o orgulho e ilusão de que ele é um ser autônomo, capaz de conduzir sua vida para os fins que ele escolhe. Para ele, não existe Deus nem coisas tais como o bem ou o mal, apenas sofrimento “liberdade e poder, sobretudo poder!” “Chega de miragens”, ele diz para si mesmo, “chega de falsos temores, chega de fantasmas! Que agora comece o reino da razão e da luz, da liberdade e da força”. É essa confiança resoluta em si mesmo e sua capacidade de determinar o que é certo para si mesmo (e os outros) que o leva a espancar duas idosas por um punhado de moedas e berloques para ajudar o pobre, diz consigo a certa altura. Resumindo, Raskolnikov torna-se um anticristo, bem aos moldes do Satanás de John Milton, que, em vez de estabelecer um reino de ressurreição e paz, contribui para um de homicídio e caos – tudo em nome de um suposto bem comum.

Além de ser um romance sobre ilusão, Crime e castigo também é, não obstante, um livro sobre o caráter absurdo e ofensivo do evangelho. Ele contém um dos mais comoventes retratos que caracterizam o evangelho na literatura na figura do bêbado Marmeladov, que não apenas fracassa em prover a subsistência de sua destituída família porque “está sempre bêbado”, mas rouba dinheiro de sua filha prostituída de 15 anos de idade para gastar com bebida. Em uma cena tocante, no início do livro, Marmeladov conta sua triste história a Raskolnikov num bar:

Pois bem, eu, como vê, gastei esses trinta copeques na bebida. E continuo bebendo! E já estou bêbado! Mas bem, quem é que se preocupa com um tipo como eu? Diga! O senhor tem pena de mim ou não? Diga lá, senhor, tem pena de mim ou não?.

Ninguém exceto Cristo. Vislumbrado o Dia do Juízo Final, Marmeladov diz a Raskolnikov:

Nesse dia, Ele há de aparecer e perguntar: “Onde está essa pobre moça que se vendeu por uma madrasta má e tísica e por umas crianças, que lhe não são nada? Onde está essa pobre moça que teve compaixão do pai, bêbado inveterado, sem se assustar como seu embrutecimento?” E depois dirá: “Anda, vem cá! Eu já te perdoei uma vez. Já te perdoei uma vez. Perdoados te sejam também agora os teus muitos pecados, porque amaste muito.” […] E, depois de julgar todos, inclinar-se-á também para nós: “Vinde cá”, dirá”, vós outros, também, vós, os bêbados, vinde cá, impudicos, vinde cá, porcalhões!” […] E ele dirá: “Meus filhos! Imagem bestial é a vossa e tendes a sua marca. Mas aproximai-vos também”.

A reação dos que estavam no bar é de escárnio: “Já disse a sua sentença! Mas que série de disparates! Funcionariozinho!”. E Raskolnikov, que não sabe o que fazer com Marmeladov, mais tarde expressará esse mesmo tipo de repulsa. Essa breve passagem não faz justiça à cena. Se você ler a coisa toda, haverá de chorar (ou ficar extremamente indignado se achar que Deus salva o bom).

O romance também oferece um desafio aos cristãos para refletir o amor autossacrificial de Cristo pelo pobre, sim, mas também por ateus militantes como Raskolnikov. Sem fazer concessões exageradas, a filha de Marmeladov, Sônia, não oferece qualquer prova racional de Deus para Raskolnikov. Ela entra em colapso quando ele põe em dúvida a existência de Deus. O que ela faz, com grande humildade e fé, é amar Raskolnikov, e é este amor que o desafia e silencia. É um amor que ele não consegue explicar nem tirar de sua mente perturbada.



Originalmente publicado em:




[1] Fiódor Dostoiévski. Crime e Castigo. Book House, 2016. Tradução de A. Augusto dos Santos. Edição Kindle. [Nota do tradutor].

LENDO E COMPARTILHANDO Nº 003


LENDO MATEUS

Uma brilhante auréola de luz branca envolve as paredes do templo de Herodes. Os brancos blocos de calcário cintilam nas bordas à medida que a luz se move ao redor deles. Viajantes acampados no monte das Oliveiras admiram a beleza do templo. Conforme o sol desce, a cor do céu pinta o templo de amarelo, depois vermelho, roxo, até que, finalmente, céu e terra fundem-se na escuridão. O grande e glorioso edifício, que parecia tão permanente, desaparece.

Quando Jesus ensinara na Galiléia, que “está próximo o reino dos céus” (Mt 4.17), e no templo, que “não ficará pedra sobre pedra” (24.2), isto parecera aos seus discípulos um delírio. Os caminhos do mundo e a sua glória pareciam permanentes. E, no entanto, como Jesus pregara, o sol estava se pondo sobre as velhas formas, porque Deus havia prometido que viria para reinar. No Evangelho segundo Mateus, Jesus revela o glorioso aparecimento do reino dos céus.

Jeffrey Gibbs caracteriza o relato de Mateus da seguinte forma:

Dirigindo-se a um vasto público cristão de judeus e gentios em comunidade da Síria e da palestina na metade do primeiro século d.C., o apostolo Mateus amplia as Escrituras de Israel ao narrar com autoridade de que maneira o reino de Deus – do fim dos tempos – irrompera no mundo por meio dos feitos históricos e das palavras de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus e o Cristo de Deus. A narrativa do outrora publicano reflete a proclamação apostólica tradicional sobre o ministério de Jesus, culminando com sua morte vicária e ressurreição. Ao mesmo tempo, Mateus de Cafarnaum retratou, de forma independente, com especial ênfase, que (1) Jesus, o Filho de Davi e verdadeiro Rei de Israel, cumpriu o pacto feito por Deus  com seu povo no AT; que (2) este Jesus é o poderoso Juiz, cujo retorno no dia derradeiro irá inaugurar a salvação para todo o povo de Deus, como também o julgamento final para todos os inimigos de Deus; e que (3) até a consumação dos séculos, os discípulos do Filho de Deus devem ocupar-se em estender a missão do próprio Jesus a fim de salvar tanto judeus quanto gentios. Esta missão se realiza pelo proclamar da boa-nova do ministério de Jesus – do reino de Deus – entre os seres humanos (Mt 26.13), pelo batizar em nome do Deus triúno, Pai, Filho e Espírito Santo (28.19) e pelo instruir dos discípulos de Jesus em toda a revelação de Deus, especialmente aquela revelada no ensino do próprio Jesus.

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Adaptado de Jeffrey A. Gibbs, Mathew 1.1-11.1, CC (St Louis: Concordia, 2006), 1.
Retirado da Biblia de Estudo da Reforma, p. 1537.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

TEONTOLOGIA - A ONISCIÊNCIA DE DEUS [Aula 04]


O atributo divino da onisciência, termo teológico próprio para definir o conhecimento de Deus sobre todas as coisas, é que caracteriza Sua perfeição. A onisciência envolve não apenas o conhecimento de Deus sobre nós, mas também Seu conhecimento sobre a natureza, o passado, o presente e o futuro. Envolve tudo que podemos imaginar e muito mais. É um conhecimento que o Senhor tem e sempre terá.

Na verdade, se analisarmos o conhecimento divino em sua totalidade, perceberemos que Deus nunca aprendeu nada e não tem necessidade de aprender, pois já sabe e sempre soube de tudo.

A onisciência de Deus é mencionada no questionamento de Isaías a uma nação rebelde:

Quem guiou o Espírito do SENHOR? E que conselheiro o ensinou? Com quem tomou conselho, para que lhe desse entendimento, e lhe mostrasse as veredas do juízo, e lhe ensinasse sabedoria, e lhe fizesse notório o caminho da ciência?” - Isaías 40.13,14

A resposta clara é: ninguém. Deus é infinito e está acima de Sua criação em todo o conhecimento e compreensão. De forma semelhante, o próprio Senhor falou a Jó de um redemoinho:

Quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento? Agora cinge os teus lombos como homem; e perguntar-te-ei, e, tu responde-me. Onde estavas tu quando eu fundava a terra? Fazemo saber, se tens inteligência. Quem lhe pôs as medidas, se tu o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel? Sobre que estão fundadas as suas bases, ou quem assentou a sua pedra de esquina, quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus rejubilavam?” - Jó 38.2-7

Mais uma vez a resposta é que, comparado ao conhecimento de Deus, que é perfeito, o conhecimento humano é quase nulo. O conhecimento do Senhor alcança o mais íntimo conhecimento do indivíduo: “Porque conheço as suas obras e os seus pensamentos!” (Is 66.18).

Davi declarou:

“SENHOR, tu me sondaste e me conheces. Tu conheces o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Sem que haja uma palavra na minha língua, eis que, ó SENHOR, tudo conheces.” - Salmo 139.1-4

O autor de Hebreus escreveu: “E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” (Hb 4.13).


A “AMEAÇA” DA ONISCIÊNCIA

Poderíamos pensar que a onisciência de Deus é confortante para nós em nosso estado natural, pois a crença de que existe um conhecimento perfeito, embora não o detenhamos, deveria tornar o mundo menos ameaçador. Na realidade, o contrário é o que ocorre.

Reconhecer que há um Deus que sabe tudo sobre todas as coisas é também reconhecer que tal Deus nos conhece. E porque não queremos que certas coisas sobre nós sejam conhecidas, nós as escondemos – não apenas dos outros, mas também de nós mesmos. Um Deus que nos conhece por completo é perturbador.

Arthur W. Pink, em Atributos de Deus, afirmou que a idéia da onisciência divina “enche-nos de inquietação. A. W. Tozer, em Conhecimento do sagrado, ponderou:

“Na divina onisciência vemos demonstrados contra cada um o terror e a fascinação da divindade. Que Deus conhece cada pessoa em sua plenitude pode ser a causa do grande medo do homem que tem algo a esconder – algum pecado oculto ou crime secreto cometido contra o homem ou contra Deus”. [1]

Tozer está falando da humanidade, portanto de nós. Todos se rebelaram contra Deus, por isso temem a exposição.

Ninguém documentou nosso medo de sermos expostos com mais cuidado do que R. C. Sproul em The Psychology of Atheism [A psicologia do ateísmo]. O autor dedicou um capítulo ao tema God and Nakedness [Deus e a nudez] e analisou o medo que o homem moderno tem de ser revelado, primeiro a outros, depois a Deus.

O primeiro objeto de sua análise é Jean Paul Sartre, filósofo francês, escritor e crítico. Sartre falou do medo de estar sob o olhar de alguém. Não nos importamos em fixar o olhar em alguém, por exemplo. Contudo, no momento em que temos consciência de que alguém está olhando para nós, ficamos com vergonha, confusos e amedrontados, e nosso comportamento se altera. Odiamos a experiência e fazermos qualquer coisa para evitá-la. Se não podemos evitá-la, a experiência se torna intolerável.

No que é talvez o trabalho mais conhecido de Sartre, a peça Entre quatro paredes, quatro personagens estão confinados em um quarto sem nada para fazer a não ser falar e olhar uns para os outros. É um símbolo do inferno. Nas linhas finais da peça, isso se torna bem claro quando Garcin fica em pé próximo à lareira afagando o busto de bronze e declara:

“Pois bem, é agora! O bronze aí está; eu o contemplo e compreendo que estou no inferno. Digo a vocês que tudo estava previsto. Eles previram que eu pararia em frente a este bronze, tocando-o, com todos esses olhares sobre mim, todos esses olhares que me comem! (volta-se bruscamente). Ah, vocês são só duas? Pensei que fossem muitas, muitas mais! (ri). Então, é isso que é o inferno! Nunca imaginei [...]. Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno [...]. Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno é os outros!”. [2]

As instruções finais de palco são para os personagens caírem sentados, cada qual sobre um sofá, deixarem de rir e entreolharem-se.

Na filosofia de Sartre esse medo de estar sob o olhar do outro é a razão para por Deus de lado, pois debaixo do olhar de Deus somos reduzidos a objetos, e nossa humanidade é destruída. O ponto de interesse aqui, entretanto, é o medo da exposição. De onde ele vem, senão de uma culpa real e merecida resultante de nossa rebelião contra o único santo e soberano Deus do universo?

A seguir Sproul analisa a obra Linguagem corporal, de Julius Fast. Esse livro é um estudo de como os seres humanos comunicam-se de forma verbal por várias posições corporais, gestos, ao balançar a cabeça, levantar as sobrancelhas, e assim por diante.

Fast ressalta que alguém pode encarar um objeto por um longo período. Alguém pode encarar animais. Mas, o olhar fixo para outra pessoa é um comportamento social inaceitável porque, se o olhar for mantido por muito tempo, provoca embaraço, hostilidade, ou os dois. O fato é que temos portas, cortinas nas janelas, roupas e cortina no chuveiro, para demonstrar nosso desejo e nossa necessidade de privacidade.

O terceiro objeto de análise de Sproul é o livro O macaco nu, outra obra popular, de Desmond Morris, Sproul afirma que o livro é uma visão singular do ser humano. Ele ressalta que o macaco nu é, obvio o ser humano. O título do livro e seu conteúdo realçam a singularidade do homem em sua nudez. Para o autor, seríamos animais nus, sem pelos para cobrir-nos, entretanto temos vergonha em nossa nudez e buscamos esconder-nos do olhar de outras pessoas.

Sproul, no quarto objeto de seu estudo, menciona o filósofo e escritor dinamarquês Soren Kierkegaard, observando que ele:

É um crítico aguçado da pessoa que vive totalmente no plano estético ou espectador da vida, funcionando dentro do contexto de um encobrimento com máscara, enquanto ele mesmo preservou uma ilha de encobrimento para si e para todos os homens. Ele sabia que a solidão permite um lugar secreto que é necessário para o sujeito.” [3]

O que emerge dessas expressões modernas é uma estranha ambivalência. Por um lado, o homem anseia por ser conhecido. Prova disso é a oportunidade dos grupos de encontro, da psiquiatria, dos talk-shows e dos filmes para adultos. Contudo, de maneira muito mais profunda o homem teme tal exposição, pois tem vergonha do que está para ser visto por outras pessoas e por Deus. Com os outros sempre há formas de conseguir um disfarce. Usamos roupas, por exemplo.

No âmbito psicológico, vigiamos o que dizemos para que só aquelas coisas sobre nós que desejamos que se tornem públicas sejam conhecidas. Às vezes, usamos uma fachada. No entanto, o que podemos fazer em relação a Deus, diante de que todos os corações estão abertos, todos os desejos são conhecidos? Não há nada que possamos fazer, pois isso é a onisciência de Deus, bem como Sua soberania e santidade, que produzem ansiedade e causam medo ao ser humano decaído.


COBERTOS POR TRAJES DE JUSTIÇA

O temor da onisciência de Deus é normal para os cristãos. No entanto, antes de vermos o que isso significa para eles, precisamos determinar por que esse atributo divino deixou de causar medo. Nesse ponto, a experiência de Adão e Eva é esclarecedora. Adão e Eva pecaram; quando o fizeram, reconheceram que estavam nus. Até então, eles estiveram nus no sentido puramente físico. Contudo, como ainda não haviam pecado, não se envergonhavam (Gn 2.25).

Depois que desobedeceram ao Senhor, sua nudez se tornou algo mais do que apenas físico; tornou-se uma nudez psicológica, ligada à sua culpa moral. O casal passou a apresentar-se culpado diante um do outro e também de Deus.

O que aconteceu? Deus veio passeando pelo jardim para confrontá-los em sua nudez. Ele expôs o pecado de Adão e Eva, pois o pecado não pode ficar escondido em Sua presença. Contudo, o Senhor fez algo tremendo:

Ele os vestiu com túnicas de peles de animais que Ele mesmo sacrificou.

Essa é a mensagem do cristianismo: que não podemos ser conhecidos e estar vestidos ao mesmo tempo. Todavia, estar vestido não significa lançar mão de “peles de animais”. A vestimenta de Adão e Eva era apenas um símbolo do que estava por vir para todos quando Deus enviasse Jesus Cristo, o qual morreria carregando nossos pecados e, assim, removendo nossa culpa.

Na base de Seu perfeito e propiciatório sacrifício, Deus “vestiria” com Sua própria justiça todos que cressem em Cristo. Por causa da obra de Jesus, Deus não nos olha mais como pecadores, e sim como aqueles que se tornaram justificados por Seu Filho unigênito. Agora podemos colocar-nos, diante dele ao invés de esconder-nos, não porque o Senhor não conhece o nosso pecado ou não se importa com ele, mas porque sabe de tudo e já lidou com o pecado de modo definitivo.

Agora podemos declarar como Isaías:

“Regozijar-me-ei muito no SENHOR, a minha alma se alegra no meu Deus, porque me vestiu de vestes de salvação, me cobriu com o manto de justiça, como um noivo que se adorna com atavios e como noiva que se enfeita com as suas jóias.” - Isaías 61.10


RAZÕES PARA ALEGRAR-SE

A onisciência de Deus é causa de desconforto e mesmo de medo para aqueles que não tiveram seus pecados cobertos pela justiça de Cristo. Todavia, por três razões Sua onisciência é uma grande bênção e um motivo de alegria entre os cristãos.
Primeiro, porque Deus sabe de todas as coisas, Ele conhece o pior de nós e ainda assim nos amou e salvou. Em nossos relacionamentos, com freqüência tememos que algo em nós possa vir à luz para nos separar das pessoas. Se não é assim, por que somos tão cuidadosos em mostrar nosso melhor aos outros? Entretanto, Deus já conhece o pior de nós e mesmo assim continua a demonstrar Seu amor. Ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó (Sl 103.14).

Não precisamos temer que algo dentro de nós surja e surpreenda Deus, que algum esqueleto saia de nosso armário para expor nosso passado constrangedor, ou que algum informante fale com clareza contra nós, para nos envergonhar. Não pode acontecer nada que já não seja conhecido por Deus.

Donald Barnhouse relaciona o senso de segurança ao ministério do Espírito Santo em nós.

“Confortemo-nos de que o Espírito Santo não habita em nós como um espião, a fim de descobrir nossas fraquezas e contá-las a Deus para nossa condenação. O Espírito Santo sabe que Cristo foi condenado em nosso lugar, e veio habitar em nós como “contador” e “caixa do banco” de Deus, para sempre nos lembrar de nosso saldo de crédito, e dar-nos os frutos de nossa herança, a fim de que possamos viver no triunfo que Ele adquiriu para nós.” [4]

A segunda razão por que a onisciência de Deus é uma grande bênção é porque o Senhor não apenas conhece o pior de nós, como também conhece o melhor, mesmo que esse melhor não seja conhecido por nenhuma outra pessoa. Há momentos em que agimos muito bem em alguma situação e ainda assim achamos que passamos despercebidos; ou fazemos o melhor possível, mas falhamos, pois nosso ato é mal interpretado.

Às vezes as coisas acontecem de forma que não planejamos, daí as pessoas questionam (mesmo nossos amigos): “Como o fulano pode fazer uma coisa dessa? Eu tinha um conceito muito melhor dele”. Elas não sabem da situação nem conhecem nosso coração. Mostram-se críticas, e nada que fazemos ou dizemos parece mudar a opinião delas.

E então? Há conforto em saber que Deus, que sabe de todas as coisas, também nos conhece e sabe que na realidade demos o melhor de que fomos capazes. O Senhor não nos julga nem nos condena.

Um pai está ensinando sua filha de um ano a andar. Ela está tentando, mas cai. Ele a coloca de pé, e ela cai de novo. Ele se zanga, grita e esbraveja: “Você é uma criança burra! Eu sou um professor bom, porém você não está aprendendo!”. Quando ela cai pela terceira vez, ele bate nela por causa disso. É óbvio que faríamos uma idéia ruim de um pai desse tipo.

Por outro lado, veríamos com bons olhos um pai que afirmasse: “Não se preocupe com isso. Você caiu, mas um dia vai andar. Sei que você está fazendo o melhor que pode”. Nosso Deus é como este segundo pai. Ele conhece nossas fraquezas e pecados, no entanto também reconhece quando estamos tentando, e Ele é paciente.

A terceira razão por que a onisciência divina é uma bênção é porque Deus sabe o que vai fazer conosco, isto é, Ele estabeleceu o propósito para o qual fomos criados, e com certeza nos conduzirá ao cumprimento de nosso desígnio em seu devido tempo.

Esse objetivo está descrito em Romanos 8.29. A maioria dos cristãos conhece o versículo anterior. É uma promessa reconfortante.

E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto.”

No entanto, é uma pena que poucos tenham tentado aprender o versículo seguinte, porque ele mostra qual é o decreto mencionado no versículo 28:

“Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”    

Deus está determinado a tornar-nos como Jesus Cristo. Esse é o Seu propósito com redenção, e foi nesse contexto que Romanos 8.28 foi escrito. A redenção começa com o pré-conhecimento eletivo de Deus de Seu próprio povo, Sua predestinação para que seja conformado à imagem de Cristo. Além disso, a redenção inclui o chamado desses eleitos por Deus para a salvação, a justificação pela obra de Cristo e, por fim, a glorificação, como resultado de que os propósitos do Senhor para eles são totalmente atingidos.

Por vezes, ficamos desanimados na vida cristã, e por boas razões. Damos um passo à frente e recuamos meio. Somos bem-sucedidos uma vez, porém depois falhamos duas vezes. Vencemos a tentação, mas também caímos em muitas outras e várias vezes. Declaramos: “Não estou progredindo nem um pouco. Estou sendo pior este ano do que ano passado. Deus deve estar desanimado comigo”. No entanto, Deus não desiste de nós.

Esse é o ponto. Deus sabe de tudo. Por isso, ainda que seja verdade que Ele tem total conhecimento de nossos fracassos e vitórias, ainda que as vitórias sejam poucas, o Senhor tem conhecimento de muito mais do que isso. Ele sabe o que seremos um dia, quando, pela Sua graça, ficarmos semelhante à imagem de Jesus Cristo. Isso é certo. Portanto, devemos pôr nossa confiança nessa verdade, embora os desalentos sejam muitos.

Temos um grande destino; em vista disso, todas as realizações pomposas de nossa era e nossas realizações pessoais diminuem à quase insignificância.

Há outras áreas em que a onisciência de Deus afeta nossa vida. Se Deus é o Deus de todo o conhecimento, logo devemos ter consciência da importância de conhecê-lo. Somos feitos à Sua imagem.

Isso significa que podemos aprender a pensar de acordo com a Palavra de Deus e compartilhar o conhecimento que Ele possui. Podemos ter o conhecimento verdadeiro, embora não no mesmo grau do conhecimento de Deus.

A hipocrisia é tolice. Talvez tentemos enganar os outros sobre quem realmente somos, e tenhamos êxito até certo ponto. No entanto, não conseguiremos enganar o Senhor.

Sendo assim, quando estamos diante do Pai, com nossos pecados expostos, mas justificados por Cristo, ficamos perante qualquer um sem temer que nos conheça como somos de verdade. E podemos ter a ousadia de fazer o que é certo, mesmo que isso seja mal interpretado ou ridicularizado. Podemos ser pessoas de palavra de Deus nos conhece. Não temos de fingir ser algo que não somos.

Por fim, tornamo-nos capazes de permanecer animados nas dificuldades. Jó passou por inúmeras tribulações, porém ainda assim declarou: “Mas ele sabe o meu caminho; prove-me, e sairei como o ouro” (Jó 23.10). Porque Deus sabe de tudo, os cristãos podem descansar. Podemos orar com confiança, pois temos certeza de que nenhuma oração, nenhum grito por socorro, nem mesmo um soluço ou lágrima escapam ao conhecimento daquele que vê com profundidade nosso coração.

Às vezes, talvez nem consigamos orar. No entanto, como está escrito em Isaías 65.24, “e será que, antes que clamem, eu responderei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei.” Tudo o que é precioso é que tiremos essas verdades da prateleira alta da teologia e as coloquemos para funcionar enquanto vivemos.

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Fundamentos da Fé Cristã: Uma Manual de teologia ao alcance de todos. James Montgomery Boice. São Paulo: Central Gospel, 2011, p. 118-123.



[1] TOZER, A. W. The Knowledge of the Holy [O Conhecimento do Sagrado]. New York: Harper & Row, 1961, p. 34.
[2] SARTRE, Jean Paul. No Exit and Three Other Plays [Sem saída e outras peças]. New York: Vintage Books, 1949, p. 47
[3] SPROUL, R. C. The Psychology of Atheism [A psicologia do ateísmo]. Minneapolis: Bethany Fellowship, 1974, p.114-116.
[4] BARNHOUSE, Donald Grey. God’s Heirs [Herdeiros de Deus]. Michigan: Eerdmans, 1963, p.145-146.