segunda-feira, 21 de março de 2016

ESTUDO Nº 09 - O MINISTÉRIO DA INTEGRIDADE (2 Coríntios 5.11-17)



INTRODUÇÃO

Paulo enfrentava diversas oposições ao seu ministério e pessoas. Esteve preso, outras vezes fora apedrejado, torturado, fustigado com varas... Mas quanto aos coríntios, estes diziam que Paulo não era apóstolo porque não foi testemunha ocular da vida terrestre de Jesus, nem lhe conheceu as palavras e atos. Por isso, não podia ser testemunha do Evangelho.

Alguns lideres da Igreja de Corinto, estavam questionando a verdadeira condição espiritual de Paulo, o qual já tinha manifestado sua sinceridade, honestidade e autenticidade. Aqui ele defende sua integridade contra os mentirosos que estavam atacando ele, Paulo fala de três motivos para a sua defesa: temor, integridade e o amor de Cristo pela igreja.


I. TEMOR – CONCEITOS E DEFINIÇÕES TEOLÓGICAS, v. 11

1. E assim, conhecendo o temor do Senhor, - A palavra assim indica que o que Paulo está prestes a dizer é continuação do que vinha dizendo no versículo 10, sobre o crente estar preparado para comparecer perante o tribunal de Cristo. Paulo não tem “medo” do Senhor, mas um “temor reverente” e reconhece que sua vida toda e seu ministério ficarão sob o escrutínio de Deus. Ele persuade aos homens mediante esta sua convicção. [1]

2. Definições teológicas - “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9.10). Este temor não é uma barreira ao crescimento, mas um caminho para o crescimento e a realização eterna. 

Existem dois tipos de temor.

a) O temor como “medo”. Um tipo de temor é aquele que foge do Senhor com pavor, que se esconde e se afasta dele com terror. Esse tipo de medo é pagão, não cristão, que se sente assim é um adversário de Deus, Hb 10.27. 

b) O temor como reverência e amor. Temer a Deus é respeitá-Lo como sendo quem é; é reverenciá-Lo e obedecê-Lo baseado em toda a revelação de Sua santidade, justiça, grandeza, misericórdia, benignidade, vontade, amor e outros milhares de atributos revelados a nós.

Comentando este texto, Wiersbe, afirma que: "O famoso estudioso da Bíblia B. F. Wescott escreveu certa vez: Cada ano me faz estremecer diante da ousadia com que as pessoas falam de coisas espirituais (...) Observamos, muitas vezes, uma falta de reverência nos encontros da igreja, de modo que não é de causar espanto que as gerações mais jovens não estejam levando as coisas de Deus a sério.” [2]

Calvino, ligando esse versículo ao anterior, ele escreveu: “Porquanto, conhecer o temor do Senhor é conscientizar-se de que cada um de nós, um dia, terá de prestar contas de todas as suas ações ante o tribunal de Cristo. E, se alguém considera seriamente tal coisa, esse mesmo não pode fazer outra coisa senão despertar-se pelo temor e livrar-se de todas as suas negligências” [3]

É o temor que evita que o homem faça coisas que destroçam o coração daqueles que ama. “O temor do SENHOR é limpo” (Salmo 19:9). [4]

3. Persuadimos aos homens. - O apóstolo está dizendo que a certeza de que deverá prestar contas a Deus motiva-o a ser diligente em seus esforços no sentido de persuadir os homens, fazê-los chegar à obediência da fé, de acordo com seu chamado. Ele procurou remover barreiras, vencer preconceitos e ignorância, convencer mediante argumentação e testemunho, e pela proclamação honesta e franca do evangelho. [5]


II. INTEGRIDADE – LONGE DE TODA A FALSA APARENCIA, v. 12-13

Paulo está tentando convencer os homens de sua própria sinceridade. Não tem nenhuma dúvida de que aos olhos de Deus suas mãos estão limpas e seus motivos são puros, mas seus inimigos suspeitaram dele, e deseja demonstrar sua sinceridade a seus amigos de Corinto. 

1. Glória na aparência, v. 12 - “Gloriar-se na aparência”, se refere ao sistema de avaliação do mundo. Os falsos apóstolos em Corinto (11.13), se comportavam dentro desta filosofia mundana, que se gloriavam na aparência exterior, com base em si mesmos e sendo dirigidos pelos desejos por dinheiro, poder e prestígio e não pela sinceridade do coração. [6]

A partir de indícios encontrados tanto nos capítulos 1-7 como nos capítulos 10-13, que os falsos apóstolos de Corinto se orgulhavam de suas:
a) De suas cartas de recomendação que portavam (3.1),
b) de sua eloquência, (10.10; 11.6);
c) de sua ascendência judaica (11.22),
d) de suas experiências extáticas e visionárias (12.1)
e) e os sinais apostólicos que desempenhavam (12.11-13). [7]

Paulo está plenamente consciente de seus oponentes e de sua influência nociva na comunidade coríntia. Ele percebe que eles estão se gabando de suas próprias credenciais. São guiados pela vista e não pela fé; apresentam uma mensagem impotente que estimula um ministério centrado em resultados.

Eles se gloriavam em possuir essas coisas externas e zombavam de Paulo porque não as possuía. Seus objetivos eram gloriar-se a respeito de aparências, habilidades e linhagem, mas eles não viam que a verdadeira religião (Tg 1.27) é uma questão do coração que precisa estar acertado com Deus (I Sm 16.7). Segundo Paulo, gloriar-se deve ser sempre gloriar-se no Senhor (1Co 1.31). [8]

Comentando este versículo, Calvino escreveu: “Isto significa fazer da aparência externa um disfarce, e considerar a sinceridade do coração como de nenhum valor, pois aqueles que são realmente sábios jamais se gloriarão, a não ser em Deus (1 Co 1.31). Mas, onde há exibicionismo fútil, aí não há sinceridade, nem retidão de coração. [9]

Ele teve uma revelação divina quando foi arrebatado ao terceiro céu (12.2), mas essa visão em nada contribuiu para seu ministério ao povo de Deus (12.5, 6). Visões e revelações faziam parte da vida de Paulo, mas ele nunca exibiu essas experiências como distintivos de autoridade apostólica. Paulo estava interessado não em se promover, mas em expandir a Igreja a que ele servia sem permitir qualquer distração. Assim, ao servir a Jesus, ele seguia nos passos do Senhor (Jo 13.15, 16). 

2. “Porque se enlouquecemos” v. 13 – Provavelmente se refere aos momentos de adoração e oração durante os quais Paulo era visto em intensa consciência da presença de Deus. Vendo assim, se pensou que Paulo estava louco (At 26.24). Esta frase grega significa geralmente sofrem de demência ou ser delirante, mas aqui Paulo usou o termo para descrever-se como uma devoção dogmática da verdade. 

Paulo estava sofrendo a mesma incompreensão que Jesus tinha sofrido (Mc 3.21). Jesus fora acusado de loucura por causa de seu zelo inquebrantável no ministério (Mc 3.21), e porque seu ensino ofendia a seus ouvintes (Jo 10.20). A pessoa verdadeiramente entusiasta sempre corre o risco de parecer um louco para as pessoas indiferentes. [10]


III. O AMOR DE CRISTO, v 14-17

1. O amor de Cristo nos constrange, v.14 [11]- A expressão "o amor de Cristo" significa amor por nós no contexto de sua morte sacrifical. "Nós amamos porque ele nos amou primeiro" (1 Jo 4.19). Ele nos amou quando não éramos dignos de ser amados, quando éramos ímpios, pecadores e seus inimigos (Rm 5.6-10). 

Quando morreu na cruz, Cristo provou seu amor pelo mundo (Jo 3:16), pela igreja (Ef 5:25) e pelos pecadores como indivíduos (Gl 2:20). 

a) Morreu para que vivêssemos (w. 15-17) - Este é o aspecto positivo de nossa identificação com Cristo: não apenas morremos com ele, mas também fomos ressuscitados com ele para que pudéssemos andar em "novidade de vida" (Rm 6:4). 

b) Ele morreu para que vivêssemos por meio dele - Essa é nossa experiência de salvação, a vida eterna pela fé em Jesus Cristo, 1 Jo 4.9.

c) Ele morreu para que vivêssemos para ele, não para nós mesmos. Esta é nossa experiência de serviço, 2 Co 5.15.

2. E morreu por todos (?), v. 15 - Isto expressa a verdade da morte vicária de Cristo. Esta verdade está no coração da doutrina da própria salvação. A ira de Deus contra o pecado exigida morte como pagamento. Jesus recebeu toda aquela raiva e morreu no lugar do pecador. 

Um aspecto teológico - Será que Paulo tem em mente que Cristo morreu por todo ser humano? Ou está se referindo a todo crente? O que podemos dizer é que a morte expiatória de Cristo é suficiente para todas as pessoas, mas eficiente para todos os verdadeiros crentes. Só aqueles que em fé se apropriam da morte de Cristo é que estão incluídos na palavra todos. O uso de “todos” nas cartas de Paulo nem sempre significa universalidade. 

Com esta breve frase, Paulo definiu a extensão da expiação e limitado a sua aplicação. Toda esta declaração o sentido lógico da frase anterior e, assim, afirma: "Cristo morreu por todos os que morreram em Cristo" ou "um morreu por todos, logo todos morreram". Paulo estava cheio de gratidão que Cristo amou e tinha tanta graça a ele que fez dele um dos "todos" os que morreram nEle.


3. Se alguém está em Cristo, v. 17 - Estas duas palavras – está em Cristo - são uma breve, mas profunda declaração de infinita importância do resgate do crente, que inclui o seguinte:
(1) a segurança do crente em Cristo, que carregou em seu corpo o juízo de Deus contra pecado;
(2) a aceitação do crente em Aquele em quem Deus se agrada;
(3) a segurança futura do crente naquele que é a ressurreição para a vida eterna, e que a única garantia da herança do crente no céu, e
(4) a participação do crente na natureza divina de Cristo, a Palavra eterna (2. Pe 1.4).

Ser Nova criatura descreve algo que é criado para um novo nível de excelência. Refere-se a regeneração ou o novo nascimento (Jo 3.3, Ef 2.1-3; Tito 3.5, 1 Pe 1.23, 1 Jo 2.29). O termo inclui o perdão para os cristãos de seus pecados que foram pagos na morte vicária de Cristo. (Gl 6.15; Ef 4.24). 

Coisas antigas já passaram - depois que uma pessoa foi regenerada, sistemas, valores, prioridades, crenças, amores e planos para a velha vida se foram. O mal e o pecado ainda estão presentes, mas o crente vê uma nova luz e não mais controlado. 

Tudo se fez novo - a gramática grega indica que a nova condição é contínua e prática. A nova percepção espiritual que o crente tem de todas as coisas é uma realidade constante para ele, e agora vive por toda a eternidade, as coisas não temporais. 


CONCLUSÃO

Neste pequeno texto fomos confrontados por três aspectos que foram bem elucidados durante explanação da lição: [12]

1. Temor a Deus - Paulo andava de forma íntegra com Deus e com os homens. Ele temia a Deus, por isso, nada tinha a esconder dos homens. Seus motivos e suas ações estavam abertos diante de Deus. 

2. Não se gloriar na aparência - Paulo não se gloriava em suas credenciais nem procurava se auto-afirmar perante os coríntios, mas simplesmente sustentava sua integridade pessoal.

3. O amor de Cristo - Fator determinante que motivou Paulo a abraçar o mi­nistério da nova aliança foi o amor de Cristo. O amor de Cristo o constrangeu, motivou-nos e empurrou-o a entre­gar-se ao ministério da reconciliação. A motivação certa para os atos da vida cristã é o amor, e não o dever (Jo 14.15). 

Enquanto entre os homens, o exemplar Paulo, apóstolo do Senhor Jesus Cristo, marcou sua vida e a de outros de diversas formas. Aliás, ele ainda faz isso através de seus preservados e inspirados escritos para diversas igrejas e pessoas de sua época. Ele foi incontestavelmente um eminente modelo, um exímio mestre e um espetacular mentor.

_____________________
[1] KRUSE, Colin. II Coríntios: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.
[2] WIERSBE, William. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[3] CALVINO, João. 2 Coríntios: Série Comentários Bíblicos . São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2008.
[4] BARCLAY, William. 2 Coríntios: O Novo Testamento Comentado. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1983.
[5] IBID
[6] MACARTHUR, John. Comentários da Bíblia de Estudo de John MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010
[7] KRUSE, Colin. II Coríntios: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.
[8] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
[9] CALVINO, João. 2 Coríntios: Série Comentários Bíblicos . São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2008
[10] Notas da Bíblia de Estudo de Genebra.
[11] WIERSBE, William. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[12] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007

ESTUDO Nº 08 - O TRIBUNAL DE CRISTO (2 Coríntios 5.6-10)



INTRODUÇÃO

Nem todo cristão tem grandes ambições quanto à vida com o Senhor, mas todos terão de comparecer diante do Senhor, e o tempo de se preparar para esse encontro é agora. Pela obra que Cristo, em sua graça, realizou na cruz, os cristãos não serão julgados por seus pecados (Jo 5.24; Rm 8.1), no entanto, terão de prestar contas de suas obras e serviços para o Senhor.

Não existe obra alguma que possa salvar alguém (Tito 3.5). Contudo, depois de ter sido salvo, entende-se que o filho de Deus anda na prática de boas obras, Ef 2.10.

Em todo o Novo Testamento há somente duas citações literais sobre o “Tribunal de Cristo”, 2 Co 5.10 e Rm 14.10. Mas, há em todo o novo testamento nuances e referenciais de que esse julgamento irá acontecer, como por exemplo a parábolas dos talentos, Mt 25.14-30.


I. TRIBUNAL DE CRISTO – CONCEITOS E DEFINIÇÕES TEOLÓGICAS

1. Etimologia da palavra - Duas palavras distintas na língua original do Novo Testamento esclarecem bem o sentido da palavra tribunal: criterion, conforme está em Tg 2.6 e 1Co 6.2,4; e bemá, encontrada em 2 Co 5.10. 

O termo bemá comumente significa uma “plataforma ou um banco de assento onde o juiz julga”. Havia naqueles tempos tribunais militares e, também, o tribunal (bemá ou assento) da recompensa, especialmente utilizado nos jogos gregos de Atenas. Os atletas vencedores eram julgados perante o juiz da arena e galardoados por suas vitórias.

O tribunal de Cristo é o acontecimento futuro no qual o povo de Deus ficará diante do Salvador, e suas obras serão julgadas e recompensadas. Paulo era ambicioso em seu trabalho para o Senhor, pois desejava comparecer diante de Cristo confiante, não envergonhado. A versão NVI traduz o v. 9, assim: “Porém, acima de tudo, o que nós queremos é agradar o Senhor, seja vivendo no nosso corpo aqui, seja vivendo lá com o Senhor”. [1]

Todas as atividades que os crentes realizam durante a sua vida que se relacionam com a sua recompensa eterna e louvar a Deus. Em seus olhos, tudo o que fazem os cristãos em seu corpo temporário terá um impacto para a eternidade. [2]


II. TRIBUNAL DE CRISTO – INTERPRETAÇÕES TEOLÓGICAS

1. Dispensacionalista e pré-milenistas: De acordo com o pensamento, há mais de um julgamento que está por vir. Eles não vêem o Mt 25.31-46 como descrevendo o juízo final (o grande trono branco) mencionado em Ap 20.11-15, mas sim a um julgamento posterior à tribulação e anterior ao início do milênio. [3]

Na perspectiva dispensacionalista há vários tribunais (julgamentos): [4]

a) O julgamento das nações (Mt 25.31-46), para determinar quem entra no milênio. Dizem que este será um "julgamento das nações" em que elas serão julgadas de acordo com o modo pelo qual tiveram tratado o povo judeu durante a tribulação.

b) O julgamento das obras dos crentes (Tribunal de Cristo), será para entrega de galardões aos crentes (2 Co 5.10). As pessoas julgadas nesse tribunal são os santos remidos por Cristo. Só entrarão os salvos, os remidos. Não haverá lugar nesse tribunal para julgamento condenatório. [5]

c) O julgamento do grande trono branco, ao final do milênio, para declarar o castigo eterno para os incrédulos (Ap 20.11-15).

2. Visão Reformada das Escrituras – Amilenistas e pós-milenistas afirmam que o ensino bíblico acerca da ressurreição geral implica em que haverá apenas um único juízo final. Dizem que todos os textos que fazem referência ao juízo escatológico apontam para um evento único, o qual será pronunciado sobre toda a humanidade no último dia, que é visto como um dia singular (Jo 5.28-29; At 17.31; 2 Pe 3.7; 2 Ts 1.7-10; Ap 20.11-14). [6]

Segundo Wayne Grudem Mateus 25.31-46, 2 Co 5.10 e Apocalipse 20.11-15, todas essas três passagens falam dum mesmo juízo final e não de três julgamentos separados.  Com relação a Mt 25.31-46 ele comenta: [7]

1. É improvável que a visão dispensacionalista esteja correta. Não há nenhuma menção de entrada do milênio nessa passagem, além disso os julgamentos pronunciados tratam não da entrada no reino milenar sobre a terra, ou da exclusão deste, mas sim do destino terreno das pessoas, é só ler atentamente os versículos 34, 41 e 46 e isto estará bem claro.

2. Por fim, Deus seria incoerente com os seus costumes revelados através das Escrituras se ele lidasse com o destino eterno das pessoas tomando por base a nação ao qual elas pertencem, pois nações incrédulas têm crentes no meio delas e para com Deus não há acepção de pessoas (Rm 2.11).

3. Embora de fato todas as nações estejam reunidas perante o trono de Cristo nesta cena (Mt 25.32) o quadro do juízo é de julgamento de indivíduos (as ovelhas são separadas dos cabritos) ovelhas e cabritos representam indivíduos e não nações, os indivíduos que tratam com bondade os irmãos de Cristo são acolhidos com alegria no reino, enquanto aqueles que os rejeitam serão rejeitados v 35-40 e v 42-45.

Segundo Berkhof, não haverá três ou mais julgamentos. [8]

Há passagens nas Escrituras que evidenciam abundantemente que os justos e os ímpios comparecerão juntos no juízo para uma separação final (Mt 7.21-23; 25.31-46; Rm 2.5-7; Ap 11.18; Ap 20.11-15).

E finalmente, deve-se ter em mente que Deus não julga nações como nações quando estão em pauta questões eternas, mas somente indivíduos e que uma separação final dos justos e dos ímpios, não tem a menor possibilidade de ser feita antes do fim do mundo. 

Segundo Hoekema, o ensino bíblico acerca da ressurreição geral Implica que haverá apenas um juízo final, não vários julgamentos diferentes, pois é dito que o juízo final se seguirá á ressurreição. [9]


III. TRIBUNAL DE CRISTO - PROCESSO

1. O que será julgado? - Não devemos olhar para o Tribunal de Cristo como Deus julgando nossos pecados, mas sim como Deus nos galardoando por nossas vidas. Sim, como dizem as Escrituras, teremos que dar conta de nossas vidas.  

As obras que fizermos por meio do corpo serão provadas pelo fogo e podem ser aprovadas ou reprovadas (1 Co 3.12-15). Não está em jogo agora o que é moralmente bom ou mau, mas o que foi bom ou mau na edificação da igreja, o que é comparável a “ouro, prata, pedras preciosas”, e o que é comparável a “madeira, feno, palha” (1Co 3.12). [10]

Esse julgamento incluirá o desvendamento e a avaliação dos motivos de nossos corações:
a) Se foi feito por amor ao Senhor, 1 Co 13.3.
b) Se as fizemos de boa vontade, receberemos galardão, 1 Co 9.17-18;
c) Quais as motivações que nos impeliram , 1 Co 4.5
d) Mas se as fizemos com motivos de auto benefício e inveja, nada receberemos, Fp 1.15.

De acordo com essa avaliação, o caráter bom ou mau da vida do cristão é compensado pela retribuição ou falta de retribuição, destacando-se a imparcialidade estrita e a justiça do julgamento. [11]

2. O Senhor julgará - Cada pessoa comparece no tribunal e ouve o veredicto baseado em sua conduta na terra. Quando o Senhor voltar (1Co 4.5), todas as obras, quer boas ou más, serão reveladas. Nessa ocasião, ele determina a recompensa para cada pessoa por ações executadas pela instrumentalidade do corpo enquanto estava na terra. [12]
a) Como usamos os recursos que ele nos deu, Mt 25.19-21
b) O trabalho que fizemos ao Senhor e à igreja, 1 Co 3.8; Hb 6.10; Mt 10.41,42.
c) Nossas relações com nossos irmãos, 1 Jo 2.8-11.
d) Aquilo que sofremos por amor a Cristo, Lc 6.22-23; Ap 2.10.
e) Nossa fidelidade como despenseiros (1 Co 4.1-5).

O tribunal de Cristo será meticuloso. Nossas palavras, ações, omissões e pensamentos serão julgados. O que nós semearmos, isso será o que colheremos (Gl 6.7-8). O Senhor retribuirá, a cada um, segundo o seu procedimento (Rm 2.6). [13] 

O tribunal dos homens julga apenas as ações, mas o tribunal de Cristo julga as intenções (l Co 4.3).

3) Que recompensas nós receberemos? - Haverá recompensas entregues e estas serão em forma de coroas: [14]

a) A coroa da vitória, 1 Co 9.25 - A vida crista se constitui numa batalha espiritual contra três inimigos terríveis: a carne, o mundo e o Diabo. Esta coroa é denominada, também, como coroa incorruptível, porque se refere à conquista do domínio do crente sobre o velho homem.

b) A coroa de gozo, 1 Ts 2.19; Fp 4.1 - A palavra gozo significa prazer, alegria, satisfação. Uma das atividades cristã que mais satisfazem o coração do crente é o ganhar almas. Isto é, praticar o evangelismo pessoal e ganhar pessoas para o reino de Deus. 

c) A coroa da justiça, 2 Tm 4.7-8 - É o premio dos fiéis, dos batalhadores da fé, dos combatentes do Senhor, os quais vencendo tudo esperam a Sua vinda;

d) A coroa da vida, Ap 2.10; Tg 1.12 - Não se trata da simples vida que temos aqui. Essa coroa é um prêmio especial porque implica conquista de um tipo de vida superior à vida terrena, ou simples vida espiritual, como a tem os anjos. É o galardão da fidelidade do crente.

e) A coroa de glória, 1 Pe 5.2-4 - Certos eruditos na Bíblia entendem que esta coroa é o galardão dos ministros fiéis que promoveram o reino de Deus na Terra, sem esperar recompensa material.

O próprio Senhor Jesus, Juiz desse tribunal, é quem fará a entrega dos prêmios, galardões, recompensas (2 Co 9.6; Ap 22.12). O apóstolo Paulo declara, também, que todo crente receberá o seu louvor (elogio) da parte de Deus (1 Co 4.5).

O propósito dos galardões não é glorificar quem os recebeu, mas aquele que os entregou. Vivemos para glorificar a Deus, agora e no porvir. Assim, cremos que as coroas serão oferecidas ao Cordeiro (Ap 4.10), como uma oferta de cada crente ao seu Senhor. Assim, o tesouro que ajuntamos no céu será para glorificar ao Mestre e não para exibição dos servos. [15]


CONCLUSÃO

A lição maior que aprendemos acerca do tribunal de Cristo consiste em atentarmos diligentemente para a nossa responsabilidade individual como cristãos no que se refere às ações tanto as de caráter social quanto as espirituais praticadas em benefício do reino de Deus.

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[1] WIERSBE, William. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[2] MACARTHUR, John. Comentários da Bíblia de Estudo de John MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010
[3] HORTON, Stanley M. Nosso Destino, o ensino bíblico das últimas coisas. Rio de Janeiro, RJ; CPAD, 1998.
[4] PENTECOST, J. Dwight. Manual de Escatologia. São Paulo: Vida, 2006.
[5] BERGSTÉN, Eurico. Introdução à Teologia Sistemática. RJ, 1.ed. CPAD, 1999.
[6] FERREIRA, F; MYATT, A. Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Ediçoes Vida Nova, 2007, p 1073
[7] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1999, p. 975-976.
[8] BERKHOF, LOUIS. Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Cultura Cristã, São Paulo, 1999, p. 673.
[9] HOEKEMA, Anthony . A Bíblia e o Futuro. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 1989, p. 341.
[10] BOOR, Werner. 2 Cartas aos Coríntios – Comentário Bíblico Esperança. Curitiba: Editora Esperança, 2004.
[11] BRUCE. F. F. Comentário Bíblico NVI. São Paulo, SP: Editora Vida, 2009., p. 1952
[12] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
[13] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007.
[14] HOWARD, Rick. O Tribunal de Cristo. Rio de Janeiro, RJ: CPAD, 2000.
[15] CLARK, David S. Compêndio de Teologia Sistemática. Saõa Paulo, SP: Cultura Cristã, São Paulo, 1988.

ESTUDO Nº 07 - A NOSSA HABITAÇÃO CELESTIAL (2 Coríntios 5.1-10)



INTRODUÇÃO

O cap. 5 está intimamente relacionado com o precedente (4.16-18), e desenvolve mais a idéia da glória eterna do crente, em contraste com sua presente vida temporal.

Paulo entra em maiores particularidades, quando trata da ressurreição pessoal dos crentes, do que a maioria dos outros escritores do Novo Testamento. [1]

Paulo acabara de falar de um corpo fraco e de um espírito renovado (4.16), de um presente doloroso e de um futuro glorioso (4.17), e de coisas visíveis temporais e coisas invisíveis eternas (4.18). Agora, ele continua sua argumentação mostrando que a morte não é o fim da linha, mas o raiar de uma gloriosa eternidade. A morte não tem a última palavra, mas esperamos o glorio­so corpo da ressurreição.[2]


I. A CASA TERRESTRE E A CELESTIAL, 1-4

Nesta passagem há uma progressão muito significativa do pensamento, progressão que nos dá a própria essência do pensamento de Paulo, com respeito a transformação do corpo na vinda de Jesus.

1. O Conceito de corpo, v.1 - Os gregos, romanos e alguns judeus tinham uma concepção equivocada com respeito ao corpo. os pensadores gregos e romanos desprezavam o corpo. Diziam: "O corpo é uma tumba."

Contudo, Paulo chama este corpo terreno e fisico de “tabernáculo” (templo do Espírito Santo, 1 Co 6.19), que um dia irá se desfazer. Por isso ele, usa a metáfora familiar de um tabernáculo que pode ser desmontado a qualquer tempo (cf. Hb 11.8-10).

Quando isso acontecer, receberemos uma “casa não feita por mãos, eterna, nos céus”, ou seja, um corpo ressurreto prometido aos crentes.

Ray Stedman corretamente diz que uma barraca ou tenda é habitação transitória e temporária, enquanto a casa é uma habitação definitiva e permanente. Quando morrermos, mu­daremos do que é temporário para o que é permanente; da barraca para a casa, eterna nos céus.[3]

Para Paulo será um dia prazeroso aquele em que se desfaça de seu corpo humano. Considera-o simplesmente como uma tenda, um lugar onde se vive transitoriamente, em que residimos até chegar o dia em que se dissolve e entramos na verdadeira morada de nossa alma. [4]

2. Um gemido pelo que é eterno, v. 2-4 – A palavra “gememos” é usada por Paulo por duas vezes (v. 2, 4) e é como ele se expressa para mostrar a sua frustração diante das limitações desta vida, com seu pecado, fraqueza e corrupção. Ele expressa uma forte vontade de ser vestido com a vestimenta que Deus providencia.

O gemido é uma expressão profunda de dor, desconforto e sofrimento. O gemido expressa nossa fraqueza e impotência.

Em sua Epístola aos Romanos, Paulo menciona os gemidos da criação, dos redimidos e do Espírito. Tanto a criação como os remidos suportam aflição e anseiam pelo dia em que os filhos de Deus serão libertados, isto é, quando experimentarão a redenção do corpo. Enquanto isso, o próprio Espírito Santo geme enquanto intercede em favor do povo de Deus (Rm 8.22, 23, 26). [5]

3. Uma condicional – “se, todavia, formos encontrados vestidos e não nus” (v. 3) - Earle Ellis mantém que o conceito nu deve ser visto no contexto de vergonha, culpa e julgamento, uma interpretação que apresenta o conceito num cenário ético e que antecipa as referências de Paulo ao trono do juízo de Cristo (v. 10).


II. A CONSUMAÇÃO DO PROPÓSITO DE DEUS, 5-8

1. foi o próprio Deus quem nos preparou, v. 5 - Paulo escreve que Deus nos preparou “para esse exato propósito”, mas qual é o propósito? É ser revestido com um corpo ressurreto e a futura glória que Deus já preparou para nós. Em outras palavras, Deus reservou em nosso plano futuro uma existência, da qual a vida pura de Adão e Eva no paraíso é um reflexo. Essa existência é aquela que Deus projetou originalmente, antes de o pecado ter entrado no mundo, aquela que agora ele tem planejado para nós. No fim dos tempos, cada cristão será revestido com um corpo transformado ou ressurreto. [6] 

2. Portanto, sempre bom ânimo, v. 6 – Paulo mais uma vez usa expressões para nos animar com respeito ao futuro glorioso de cada crente (4.1,16; 5.). A despeito de muitas dificuldades, corrupção do corpo, tribulações (4.16-18) ele permaneceu confiante em Deus, ele reiterou várias vezes sua confiança e o fato de que não desanimou. E para vencer o desânimo, o olhar de Paulo se volta para Deus, que nos “prepara para isso”, a fim de desejarmos ser revestidos.

3. Visto que andamos por fé, e não pelo que vemos, v. 7-8 - Isto sugere que enquanto estamos no corpo, Deus não está acessível à nossa vista (e neste sentido estamos ausentes do Senhor), só podemos alcançá-lo mediante a fé (cf. Jo 20:29).

Por mais real que a habitação do Senhor como Espírito possa ser real em nós, por mais que possamos fazer tudo “em Cristo”, ainda assim não o vemos agora “como ele é”.


II. MOTIVAÇÃO PARA O MINISTÉRIO, 9-10

1. Por isso nos esforçamos, para lhe sermos agradáveis, v. 9 – A versão NVI traduz este versículo assim: “Porém, acima de tudo, o que nós queremos é agradar o Senhor, seja vivendo no nosso corpo aqui, seja vivendo lá com o Senhor”.  Paulo não deseja especular a respeito à maneira ou ao tempo que continuará a viver no corpo, ou se vai morrer logo e deixar o corpo. Mas ele pode determinar como vai viver, que vai vier para agradar ao Senhor. 

A palavra Esforçamos (gr philotimoumetha, "fazemos nossa ambição”). Em corpo ou fora do corpo, o alvo de Paulo seria de agradar unicamente a Deus. O esforço de Paulo, então, é agradar ao Senhor, não importa se for chamado a comparecer diante do tribunal dele (v. 10) ou se continuar pregando o evangelho (v. 11). 

O magnífico capítulo da ressurreição em 1Co 15 encerra com o encorajamento: “Sede abundantes na obra do Senhor!” [1Co 15.58].

2. Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, v.10 - Paulo determinou que vai viver para agradar o Senhor porque sabe que todos os crentes deverão comparecer perante o tribunal de Cristo. A palavra grega, aí, significa "trono para a concessão de prêmios" e era empregada com relação aos jogos olímpicos. 

Este tribunal é o momento de benção e alegria para todos os fiéis. Aqui é a recompensa do cristão, embora ele seja salvo pela graça pura (Ef 2.8), é a qualidade resultante da sua própria vida, vista como um todo' (Ef 6.8; cf. Lc 19.16-27; 1 Co 3.10-15). [7]

O tribunal de Cristo será meticuloso. Nossas palavras, ações, omissões e pensamentos serão julgados. O que nós se­mearmos, isso será o que colheremos (G16.7,8). O Senhor re­tribuirá, a cada um, segundo o seu procedimento (Rm 2.6).

O tribunal dos homens julga apenas as ações, mas o tribunal de Cristo julga as intenções (l Co 4.3).

3. Para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo, v. 10 - Deus avaliará as vidas e ministérios de seus filhos, e recompensará aos que agiram com fidelidade, enquanto os infiéis sofrerão a perda de todas as recompensas. – Rm 14.12

O que a pessoa fez por meio do corpo é que será avaliado no tribunal de Cristo. Ações que ocorreram durante a vida do crente em Seu ministério terreno. Isso não inclui o julgamento de pecados, porque eles são executados na cruz de Cristo (Ef 1.7). Paulo estava se referindo a todas as atividades que os crentes realizam durante a sua vida que se relacionam com a sua recompensa eterna e louvar a Deus. Em seus olhos, tudo o que fazem os cristãos em seu corpo temporário terá um impacto para a eternidade. [8]

O tribunal de Cristo será retribuidor. Será um lugar de prestação de contas, em que daremos um relatório de nos­sas obras (Rm 14.10-12). Será um lugar de recompensa e de reconhecimento para os fiéis (I Co 3.10-15; 4.1-6) e de condenação dos infiéis.[9]


CONCLUSÃO

O crente não somente está bem seguro pela fé de que existe outra vida ditosa, depois desta; tem boa esperança, pela graça, do céu como morada, um lugar de repouso, um esconderijo. Na casa de nosso Pai há muitas moradas, cujo arquiteto e fazedor é Deus. 

A felicidade do estado futuro é o que Deus tem preparado para os que o amam: habitações eternas, não como os tabernáculos terrenos, as pobres choças de barro em que agora habitam nossas almas; que apodrecem e se deterioram, cujos cimentos estão no pó. O corpo de carne é uma carga pesada, as calamidades da vida são uma carga pesada, porém os crentes gemem carregados com um corpo de pecado, e devido às muitas corrupções remanescentes que rugem dentro deles. 

A morte nos despirá das roupas de carne, e de todas as bênçãos da vida, e acabará com todos nossos problemas daqui embaixo. Mas as almas fiéis serão vestidas com roupas de louvor, com mantos de justiça e glória. [10]

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[1] DAVIDSON, F. O Novo Comentário da Bíblia. São Paulo, SP: Ediçoes Vida Nova, 1997.
[2] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007.
[3] STEDMAN, Ray. A Dinâmica da Vida Autentica. São Paulo: Editora Sepal, 1975
[4] BARCLAY, William. 2 Coríntios: O Novo Testamento Comentado. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1983.
[5] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
[6] IBID.
[7] BEACON. Comentário Bíblico: Romanos, 1 e 2 Coríntios – Vol 8 – Rio de Janeiro, RJ: CPAD,
[8] MACARTHUR, John. Comentários da Bíblia de Estudo de John MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010
[9] WIERSBE, William. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[10] HENRY, Mathews. Comentário Bíblico, vol 6. Rio de Janeiro, RJ: CPAD, 2004.

ESTUDO Nº 06 - TESOUROS EM VASOS DE BARRO (2 Coríntios 4.7-18)



INTRODUÇÃO

Pois bem, há sempre uma grande distância entre a sublimidade do chamado de Deus para nossas vidas e a nossa dignidade e capacidade para assumi-lo. A verdade é que Deus nos investe de autoridade, não pelo fato de crer em nós, mas por crer em si mesmo. Tudo o que Ele nos propõe, o faz baseado no seu poder que opera em nós e não na nossa capacidade de realizar. Afinal, Onisciente como é, não estaria enganado a nosso respeito. “Ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó” (Salmos 103.14).

O senso de inadequação que costumamos sentir diante da gigantesca tarefa de mudar o mundo é, na verdade, o requisito que precisamos para encaixar-nos no plano de Deus (1 Co 1.27-29). Sendo assim, eu e você, por não termos nada, temos tudo para ser relevantes no mundo, por meio da graça.

Neste estudo, o apóstolo Paulo discorreu sobre a glória de seu serviço, que se sobressai muito além do ministério de Moisés (Morte e condenação, 2 Co 7-9). E enfatiza que o glorioso Ministério do Espírito e Justiça (2 Co 3.8-9) que é guardado dentro da fragilidade de vasos de barros. 

Passa da grandeza da sua missão à verdadeira miséria da sua fraqueza. Ele está pondo machado na raiz de toda pretensão humana. Ele está nocauteando a tola ideia do culto à personalidade. O importante não é o obreiro, mas a obra. A glória não está no pregador, mas na pregação. O que é valioso não é o vaso, mas o tesouro que está no vaso. 


I. A FRAGILIDADE DOS VASOS DE BARRO (4.7-12)

1. A metáfora do vaso de barro (7a). Paulo extasia-se diante do contraste entre o glorioso Evangelho e a indignidade e fragilidade de seus proclamadores. Em vez de a mensagem de salvação ser revelada mediante uma demonstração sobrenatural, a glória do Evangelho é manifesto através de homens frágeis - vasos de barro. 

a) Tesouro – Esse tesouro consiste da mensagem do evangelho que recebemos do Senhor Jesus Cristo. Paulo nos diz que essa mensagem é uma dádiva inestimável que levamos conosco em vasos de barro.

b) Vasos de Barro - Naquele tempo, se guardavam objetos extremamente preciosos em vasos de barro (Os manuscritos do Mar Morto). O vaso de barro não possuía grande valor, era frágil e descartável. Paulo e sua vida também parecem ser como esses vasos de barro, se observados de fora. Não se pode ver nada de “glória”. Não obstante encontra-se nesse “vaso de barro” o imensurável tesouro do evangelho. [1]

c) Excelência do Poder (7b) - A atuação de Paulo evidenciava uma “excelência do poder”. Nós mantemos o evangelho como se fora em vasos de barro para demonstrar o poder fenomenal de Deus, para que todos possam ver que não somos nós, e sim Deus, que é a fonte. 

O poder de Deus é revelado em seres humanos que, aos olhos do mundo, não têm valor algum. Por exemplo, um bando de pescadores incultos segue Jesus e, então, cheios do Espírito Santo, espalham o evangelho até os confins da terra (At 1.8).

A autoridade do evangelho não é humana em origem; pelo contrário, tem sua fonte em Deus. “Pois dele e por ele e para ele são todas as coisas” (Rm 11.36).[2]

Deus tem poder sobre o barro e sobre os vasos; Ele é o Oleiro. Por isso, Paulo sente-se fraco fisicamente, mas o Senhor toma-lhe a fraqueza, tornando-o capaz de revelar a glória do Evangelho aos judeus e gentios (8,9).

2. O paradoxo dos sofrimentos (8-10). Nos versículos 8 e 9, quatro contrastes são apresentados por Paulo para exemplificar suas experiências (1 Co 4.11-13). Aqui, Paulo rememora suas tribulações sofridas pela causa do evangelho de Cristo.

a. “Em tudo somos atribulados, porém não angustiados.” (1.8-10) – A expressão atribulados, significa também “afligidos”. Paulo foi afligido de muitos modos: física, mental, espiritual e socialmente. O sentido básico de “afligido” é estar numa situação na qual a pessoa sofre as pressões do mundo em volta. A tribulação é uma prova externa, enquanto a angústia é um sentimento interno. A tribulação produz angústia (SI 116.3) [3]

b. “perplexos, porém não desanimados” (6.4-10) – “perplexos”, significa estar em um tipo de dúvida que nos exige uma decisão pronta e imediata. Paulo diz que não se desanima diante da perplexidade da vida. A palavra “desanimados” significa estar completamente perplexo ou em desespero. Essa palavra descreve o desespero em seu estado final.

c. “perseguidos, porém não desamparados” (11.23-27) - Paulo se descreve como um fugitivo caçado por seus adversários, contudo na última hora capaz de escapar. Mas o apóstolo não se sente desamparado, pois sabe que o Senhor nunca abandona quem é dele, Dt 31.6-8.

d. “abatidos, porém não destruídos” (12.10) – Paulo usa aqui, um termo técnico. Assim como um lutador joga ao chão o adversário, assim Paulo é levantado e derrubado ao chão. Novamente é impressionante sua confiança, pois Paulo declara que ele não está morrendo.

Estas quatro situações citada por Paulo revela um grau cada vez maior de severidade desde o ser atribulado até não ser abatido (destruído). Todos os particípios estão na voz passiva, deixando implícito que os adversários são os agentes. Contudo, Paulo é capaz de vencer todas suas provações porque sabe que Deus lhe dá a Excelência do poder (v. 7).

3. Sofrer pela Igreja (11-15). - No sofrimento físico de Paulo, Deus o aperfeiçoou, produzindo no apóstolo um senso de total dependência (11). Se, por um lado, os sofrimentos experimentados por Paulo fizeram-no chegar bem próximo da morte física, por outro, serviram para beneficiar a Igreja de Cristo (15). Paulo, aliás, não tinha dificuldade em enfrentar a morte por amor à Igreja: “De maneira que em nós opera a morte, mas em vós, a vida” (12).

Notemos que as vidas de Estêvão e de Tiago, filho de Zebedeu, foram cedo ceifadas por pregarem a boa-nova, mas a vida de Paulo foi poupada repetidas vezes. Jesus avisou que o sofrimento seria a marca do seu ministério, (At 9.15-16). 

Paulo demonstra sua disposição de sofrer fisicamente pelo seu Senhor e pela sua igreja (Rm 8.36). No final do v. 12, ele cita o Salmo 116.10, para manifestar a razão e certeza de sua fé e confiança em Deus.

a) Estava certo da vitória final (14). Se Jesus conquistou a morte, o último inimigo, por que temer qualquer outra coisa? A morte é o grande divisor, mas em Cristo temos a certeza de que seu povo será reunido em sua presença (1 Ts 4.13-18).

b) Estava certo de que Deus seria glorificado (15). Este versículo é paralelo a Romanos 8.28 e nos dá a certeza de que os sofrimentos não são desperdiçados: Deus usa a dor para ministrar a outros e também para glorificar seu nome. 

As cicatrizes do apóstolo eram prova convincente de seu sofrimento. Concordo com Warren Wiersbe quando diz que a prova do verdadeiro ministério não está em suas condecorações, mas, sim, em suas escoriações. “Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque eu trago no corpo as marcas de Jesus” (G1 6.17). [4]


II. PAULO FALA DA GLORIFICAÇÃO FINAL DESSES VASOS DE BARRO (4.13-18)

Os versículos 13 e 14 indicam que o ato de crer e anunciar baseia-se na verdade de que, assim como Jesus ressuscitou, os crentes também um dia ressuscitarão. Seus corpos transitórios e corruptíveis serão transformados em corpos gloriosos. Vasos de barros a corpos glorificados.

Paulo afirma Em 2 Co 4.1, que não desanima porque percebe a grandeza do ministério que lhe fora confiado. Agora, ele reafirma a sua convicção, dizendo que “não desanimemos (4.16), porque, embora as aflições afetem o seu corpo, o seu espírito se renova a cada dia.

Paulo fala agora sobre três contrastes que enaltecem sua maravilhosa convicção: [5]

a) “pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia” (4.16). O nosso homem exterior é o nosso corpo; o nosso homem interior é o nosso espírito. O corpo fica cansado, doente e envelhecido, mas o espírito mais maduro, mais forte, mais renovado.  O homem exterior está exposto a “tentações, perigos e putrefação”, enquanto o ser interior é renovado pela comunhão diária com Cristo, e é fortalecido pelo Espírito Santo. O novo eu é transformado progressivamente pelos princípios do conhecimento espiritual, da verdadeira justiça e de santidade singular (Ef 4.24; Cl 3.10).

b) “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (4.17). As aflições são pesadas e contínuas, mas vistas sob a perspectiva da eternidade são leves e momentâneas.  Toda a tribulação que Paulo passou nesta vida, tudo não passa de “uma leve e momentânea tribulação” comparada a vida na glória. A tribulação por mais pesada e constante posta sob a ótica da eternidade torna-se leve e momentânea. No presente enfrentamos tribulação, mas no futuro es­taremos na glória. Agora, há choro e dor, mas, então, Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima. Os sofrimentos do tempo presente não são para ser comparados com as glórias por vir a ser reveladas em nós (Rm 8.18).

c) “não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.” (4.18). Paulo diz que quando focalizamos nossa atenção em coisas invisíveis, nós minimizamos as dificuldades e maximizamos a glória eterna. (Cl 3.1-2). A fé não se apega às glórias do mundo porque vê um mundo invisível superior a este. Abraão não se encantou com a planície de Sodoma, (Hb 11. 9-10). Moisés abandonou as glórias do Egito para receber uma recompensa superior (Hb 11.27).


CONCLUSÃO

O apostolo fala de seus sofrimentos como a contrapartida dos sofrimentos de Cristo, para que as pessoas possam ver o poder da ressurreição de Cristo e da graça no Jesus vivo, e por meio dEle. Comparados com eles, os demais cristãos estiveram em circunstancias prosperas naquele tempo. [6]

Nesta lição, aprendemos a enxergar nossos corpos como frágeis vasos de barro. Todavia, em sua fragilidade, guardam um tesouro incomparável - o conhecimento do Evangelho. Portanto, compartilhe este tesouro com aqueles que ainda não o possuem.

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[1] BOOR, Werner. 2 Cartas aos Coríntios – Comentário Bíblico Esperança. Curitiba: Editora Esperança, 2004.
[2] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 190.
[3] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007.
[4] WIERSBE, William. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[5] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007.
[6] HENRY, Mathews. Comentário Bíblico, vol 6. Rio de Janeiro, RJ: CPAD, 2004.

ESTUDO Nº 05 - A EXCELÊNCIA DO MINISTÉRIO (2 Coríntios 4.1-6)



INTRODUÇÃO

Na lição anterior, observamos que o apóstolo havia exposto objetivamente a natureza do “evangelho” em seu contraste com a natureza da “lei”. Explicitou de imediato que disso resulta necessariamente uma atitude completamente diferente em Moisés, o grande servo da antiga aliança, do que nele, o apóstolo de Jesus na nova aliança.

Nos versículos que serão estudados, observamos que o apóstolo Paulo retorna ao tema do seu ministério apostólico e a sua auto-recomendação. Segundo, Sistemaker, “os adversários de Paulo acusaram-no de apresentar um evangelho que era encoberto e ineficaz. Com isso, reivindicavam que o evangelho deles era aberto, digno de nota e que estava ganhando muitos seguidores.”[1]

Apesar de o apóstolo Paulo estar descrevendo o seu ministério específico, pode-se afirmar que a descrição apresentada neste capítulo 4, aplica-se ao testemunho cristão de todo aquele que, pela misericórdia de Deus, converteu-se a Cristo Jesus.

O testemunho sustentado corajosamente tem como objetivo levar outras pessoas ao conhecimento da verdade e à rejeição de toda mentira e falsidade (v.2). Muitos não são alcançados com o Evangelho, pois Satanás lhes cegou o entendimento e, consequentemente, não podem ver a luz de Cristo, ficando, portanto, o Evangelho encoberto para eles (vv.3,4).

Percebe-se nos versículos 5 e 6 que o testemunho da fé é Cristocêntrico, ou seja, ele está centrado na pessoa de Cristo e não na pessoa humana, pois o cristão é apenas servo em cujo coração a glória de Deus resplandeceu.


1. AS IMPLICAÇÕES DO MINISTÉRIO

No primeiro versículo do capítulo 4, Paulo declara: ''Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos'' (2 Co 4.1)

Temos aqui três palavras que deve produzir um efeito em nosso vida:

1. Nossa riqueza: “tendo este ministério” – Este ministério é o Evangelho da nova Aliança (3.6) que tanto foi enfatizado no capítulo 3, que ele diz que recebeu “segundo a misericórdia” de Deus e que ele chamou ainda de “Ministério do espírito” (3.8), “ministério da justiça” (3.9). Este é um ministério glorioso que oferece às pessoas vida, salvação e justificação; um ministério capaz de transformar vidas. Esse ministério é uma dádiva que recebemos de Deus. Ele nos é concedido pela misericórdia de Deus, não por algum mérito nosso (ver 1 Tm 1:12-17).[2]

2. Nosso lembrete – “segundo a misericórdia que nos foi feita” - Paulo foi um implacável perseguidor da Igreja. Respirava ameaça contra os discípulos de Cristo. Ele não buscava a Cristo, mas Cristo o buscou, transformou-o, capacitou-o, comissionou- o e o fez ministro da nova aliança (l Tm 1.12-17). 

Paulo sabia que o conteúdo deste glorioso ministério que recebera de Deus, vinha permeado pela MISERICÓRDIA de Deus. Misericórdia ministrada a ele no caminho de Damasco e que deveria ser estendida a todos os homens que estão cego pelo “deus deste século” (v. 4)

Se a graça de Deus vê o homem como culpado diante de Deus e, portanto, necessitado de perdão, a misericórdia de Deus o vê como um ser que está suportando as conseqüências do pecado, que se acha em lastimável condição, e que, portanto, necessita do socorro divino. Pode-se definir a misericórdia divina como a bondade ou amor de Deus demonstrado para com os que se acham na miséria ou na desgraça, independentemente dos seus méritos. Outros termos empregados para expressar a misericórdia de Deus são “piedade”, “compaixão”, “benignidade”. [3]

3. Nosso recurso – não desfalecemos (desanimamos) – O verbo desanimar não tem que ver com fadiga física, mas com cansaço espiritual. A despeito das aflições e dos sofrimentos que Paulo teve de enfrentar como apóstolo de Jesus Cristo, ele não está desanimado. Deus concede a Paulo e seus companheiros misericórdia para que vençam a exaustão espiritual e obtenham êxito em seu ministério (v. 16) [4]


II. A INTEGRIDADE DE PAULO NO MINISTÉRIO

Sem dúvida, ao escrever essas palavras, Paulo está se referindo aos judaizantes. Paulo deixa transparecer que eles pregavam as glórias da antiga aliança baseada na lei de Moisés como superior ao Evangelho de Paulo. Ao fazer isto, eles astutamente “adulteravam” a Palavra de Deus (2 Co 4.2) e pregavam a si mesmos e não a Cristo (2 Co 4.5). 

Muitos falsos mestres de hoje afirmam que suas doutrinas são baseadas na Palavra de Deus, mas tais mestres usam a Palavra de maneira enganosa. Podemos provar qualquer coisa pela Bíblia, distorcendo as Escrituras fora de contexto e rejeitando o testemunho da própria consciência. A Bíblia é uma obra literária, sobre a qual devem ser aplicadas as regras fundamentais de interpretação. Se as pessoas tratassem outros livros da maneira como tratam a Bíblia, jamais aprenderiam coisa alguma.

Dentro deste principio de fidelidade a Palavra de Deus, temos aqui três termos:

1. Rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam (v.2a) - "Rejeitar" significa "afastar-se" ou "arrepender-se", e "vergonhoso" significa “repulsivo" ou "infame". A frase "por vergonhosas, se ocultam", alude as imoralidades e hipocrisias secretas e aos pecados ocultos no mais profundo das trevas da vida de uma pessoa. Na salvação, todo cristão se arrepende, abandona tais pecados e dedica a sua vida a buscar a piedade. [5]

Nem sempre é fácil revelar coragem para rejeitar e combater publicamente tudo o que é vergonhoso. Não se trata aqui apenas de pecados morais, mas também pecados sociais, doutrinários, etc. O testemunho cristão implica em rejeição de tudo aquilo que o próprio Deus rejeita (Fp 4.8.9).

2. Não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus (2b) – A astúcia é atributo do diabo, não dos apóstolos e seus ajudantes. A palavra grega panourgia (astúcia, esperteza) aparece cinco vezes no Novo Testamento, sempre com conotação exclusivamente negativa (Lc 20.23; 1Co 3.19; 2 Co 4.2; 11.3; Ef 4.14). A referência de Paulo à astúcia da serpente no Paraíso é uma ilustração apropriada.

Adulterando. Essa palavra grega significa "perverter" e era usada em fontes não bíblicas para falar a respeito da pratica comercial desonesta de diluir o vinho com água.

Paulo quis dizer que ao anunciar o evangelho de Cristo, ele não se utilizava de argumentos falazes, de interpretações distorcidas, e nem de qualquer modo falsificava a sua mensagem, contradizendo as revelações que recebera. Neste ponto Paulo ataca de modo bem definido seus adversários, alguns dos quais haviam transformado o evangelho de Cristo em uma mera filosofia intelectual, ao passo que outros faziam dele apenas uma extensão do legalismo judaico, conforme aprendemos na primeira epistolam aos Coríntios.[6]

3. Manifestação da verdade (2c) –Paulo reivindica para si mesmo a honra de ter proclamado a sã doutrina do evangelho de forma simples e despretensiosa e afirma ter a consciência de todo homem por testemunha na presença de Deus.

O contraste entre a prática da astúcia e a recomendação à consciência, e entre a palavra de Deus, que teria sido adulterada, e a verdade pura, é muito claro. Pela sua apresentação franca e sincera da verdade, Paulo se recomenda à consciência de todo homem. 

4. A Negação do Evangelho (v. 3-4) - Em Corinto, havia homens que achavam ser necessário produzir resultados visíveis e instantâneos a fim de parecerem bem-sucedidos em seu ministério. Paulo, se defende e fala a respeito daqueles que se negaram a receber o evangelho. Afirma que proclamou a palavra de tal maneira que todo homem, seja qual for sua consciência, está obrigado a admitir sua proclamação e seu chamado. 

Paulo enfatiza duas verdades aqui:

a) Há muitos que fazem ouvidos surdos ao chamado do evangelho e estão cegos diante de sua glória (v.3) - Barclay, diz: “Aqueles que não podem crer nem aceitar as boas novas do evangelho são os que se entregaram ao mal deste mundo de maneira tal que já não podem ouvir o convite de Deus quando chega. Não é que Deus os tenha afastado ou abandonado. O que acontece é que eles através de sua própria conduta se afastaram de Deus”. [7]

Precisamos aprender que estamos lidando com pessoas a caminho do inferno (1 Co 2.14). Só o Espírito de Deus em quem pode convencer as pessoas, só Deus pode fazer este trabalho de convicção (Jo 16.8)

b) Diz que o deus deste mundo cegou suas mentes para que não creiam (v.4) - Através de toda a Bíblia os escritores são conscientes de que este mundo está em poder do mal. (Jo 12.31; 14.30; 16.11). 

Satanás cega os homens para a verdade de Deus por meio do sistema do mundo criado por ele. Sem uma influencia piedosa, o homem entregue a si mesmo seguira esse sistema, o qual conduz a depravação dos incrédulos e aprofunda as suas trevas morais (cf. Mt 13.19). Em ultima analise, e Deus quem permite tal cegueira (Jo 12.40; Is 6.9-10; 2 Ts 2.11-12 ). Lembrando que esta profecia de Isaías é citada 5 vezes no Novo Testamento, Mt 13.14-15; Mc 4.12; Lc 8.10; Jo 12.39-40; At 28.25-27. 

Entretanto, devemos lembrar-nos de que Satanás só consegue desenvolver tais funções mediante permissão divina, e que a cegueira mental que lhe é permitido infligir em qualquer época pode ser desfeita por um raio de luz, se Deus assim o desejar. É claro que isto constituía experiência própria de Paulo. Em sua cegueira ele perseguiu a igreja de Deus até o momento em que Deus foi servido revelar nele seu Filho (cf. At 9.1-19; Gl 1.13-17).[8]

O Deus que criou a luz natural no universo e o mesmo Deus que deve criar a luz sobrenatural na alma e conduzir os cristãos do reino das trevas para o seu reino de luz (C l 1.131. A luz e expressa com o "o conhecimento da gloria de Deus" Isso significa saber que Cristo e Deus encarnado. Para ser salva, a pessoa deve entender que a gloria de Deus resplandece em Jesus Cristo. Esse e o tema do Evangelho de João, Jo1.4-5.[9]

c) “Iluminação do conhecimento da glória de Deus” (v.6). Como testifica o apóstolo João: “Deus é luz; e não há nele treva nenhuma” (1Jo 1.5). Por intermédio de Jesus Cristo, Deus deixa sua luz brilhar em nosso coração para efetuar a regeneração. Paulo não diz que Deus faz brilhar sua luz para dentro de nosso coração. Ele declara que Deus nos ilumina em nosso ser interior, para que nós (todos os crentes) possamos difundir a luz. Enquanto Satanás cega a mente humana (v. 4), Deus ilumina o coração, que é a fonte da vida (Pv 4.23). Satanás impede a iluminação, mas Deus a providencia.[10]

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[1] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 190.
[2] WIERSBE, William. Comentário Bíbico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[3] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1990, p. 75.
[4] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 193.
[5] MACARTHUR, John. Comentários da Bíblia de Estudo de John MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p. 1585.
[6] CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Editora Candeia, 1995, p. 322.
[7] BARCLAY, William. 2 Coríntios: O Novo Testamento Comentado. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1983.
[8] KRUSE, Colin. II Coríntios: Introdução e Comentário. Edições Vida Nova. 1994, p. 108
[9] MACARTHUR, John. Comentários da Bíblia de Estudo de John MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p. 1585
[10] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 193.