sábado, 28 de novembro de 2015

ESTUDO Nº 01 - A PEDAGOGIA DAS TRIBULAÇÕES (2º Coríntios 1.1-11)



INTRODUÇÃO

A 2ª Carta aos Coríntios é a carta mais pessoal do apóstolo Paulo. Essa é a sua carta mais autobiográfica. Nela, o apóstolo conta suas lutas mais renhidas e suas aflições mais agônicas. Nessa carta, Paulo abre as cortinas da alma e mostra suas dores mais profundas, suas tensões mais íntimas e suas experiências mais arrebatadoras.

Robert Gundry afirma corretamente que mais do que qualquer outra epístola de Paulo, 2 Coríntios permite-nos sondar os sentimentos íntimos do apóstolo sobre si mesmo, sobre seu ministério apostólico e sobre seu relacionamento com as igrejas que fundava e nutria.[1] Nessa mesma linha de pensamento, Simon Kistemaker diz que nenhum outro livro do Novo Testamento retrata uma angústia emocional, física e espiritual com tanta profundidade e amplitude.[2]

A lista de sofrimentos de Paulo aparece três vezes nessa carta:
1. A primeira lista demonstra que o sofrimento revela a glória de Deus (4.10-12,13).
2. A segunda lista foi escrita para que o ministério de Paulo não fosse achado culpado e, sim, para que Deus fosse glorificado. 6.4-10;
3. A terceira lista para dizer aos seus leitores que ele serve a Cristo como servo bom e fiel, 11.23-28


LOCAL E DATA DA CARTA

Após ter escrito a primeira epístola aos coríntios de Efeso, Paulo sentiu a necessidade de fazer uma “visita dolorosa” a Corinto e voltar. Dolorosa por causa das relações tensas entre Paulo e os crentes dali, naquela época, 2 Co 2.1.

Paulo escreveu essa carta da província da Macedônia (2.13;7.5;9.2), no decurso da sua terceira viagem missioná­ria, logo depois que recebeu o relato otimista de Tito após sua visita à igreja de Corinto. Simon Kistemaker diz que podemos estar relativamente certos de que a epístola intei­ra foi completada em 56 d.C., provavelmente na segunda metade do ano. Da Macedônia, Paulo foi a Corinto, onde passou o inverno de 56/57, supervisionou a obra da coleta e compôs a epístola aos romanos.[3]


O CONTEÚDO DA CARTA

Paulo escreveu essa carta para falar das suas aflições e da necessidade da igreja perdoar e restaurar o membro in­cestuoso que tumultuava a congregação e liderava a oposi­ção ao seu ministério em Corinto (2.6-11). De igual modo Paulo falou sobre o levantamento da oferta para os pobres da Judeia, ao mesmo tempo em que fez uma sólida defesa do seu apostolado.

A palavra chave dessa carta é consolo. James Hastings diz que o “consolo” é o grande tema de toda a carta. Ela está cheia, do começo ao fim, de sofrimento que se transforma em júbilo, fraqueza que se transforma em força, e derrota que se transforma em triunfo.[4]

Henrietta Mears diz que a epístola começa com consolo (1.3) e termina com consolo (13.11). No meio da epístola temos a razão para o consolo (9.8).[5]

A fonte do consolo era esta gloriosa verdade: “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza”, 12.9.

Warren Wiersbe diz que no original dessa carta, o verbo “consolar” é usado dezoito vezes e o substantivo “consolação”, onze vezes.[6]

Paulo aborda algumas verdades nessa carta que não trata em nenhuma das outras cartas, como a doutrina da nova aliança, o ministério da reconciliação, a habitação celeste, sua experiência de arrebatamento e visão beatífica do céu, seu espinho na carne e a firme defesa do seu apostolado.


APRESENTAÇÃO DO ESTUDO

Por que há tanto sofrimento no mundo? Por que passamos por situações aflitivas? Como explicar o aparecimento de terríveis doenças na vida de pessoas extremamente bondosas? Essas são perguntas, por vezes, são feitas e que nem sempre temos uma resposta adequada para dar.

Primeiro são indagações onde as respostas vão além do nosso limitado conhecimento, e segundo, porque as respostas a estas questões, às vezes, fogem ao campo da lógica e normalidade humana; pertencem aos mistérios do nosso bom Deus.

Contudo, podemos afirmar que qualquer tipo de sofrimento, qualquer tribulação, pode ser vista e aproveitada como bênção. Como pode ser isto? Seria uma espécie de “masoquismo”, isto é, sentir prazer com o próprio sofrimento? Cremos que não! Cremos que Deus pode usar as tribulações e os sofrimentos como momentos de provação da própria fé, ou até mesmo para uma aproximação maior à sua divina pessoa.

O presente estudo pretende nos ajudar a enfrentar as tribulações. Como nós, cristãos, podemos enfrentar as tribulações da vida?


ANÁLISE DO TEXTO

O texto que serve de base para nossa reflexão é um clássico registro sobre o consolo nas tribulações. O apóstolo conheceu de perto as perseguições, viu a morte bem próxima e sofreu na pele todo tipo de incompreensão. Não obstante a tudo isso, Paulo aprendeu sempre a dar graças ao senhor.

A ação de graças é feita na certeza no consolo divino. Os termos referentes à consolação aparecem dez vezes no texto, significando o alívio proporcionado ao indivíduo que foi conformado. O texto enfatiza a solidariedade da Igreja no sofrimento e também a comunhão na consolação (v. 6,7 e l Co 12.26).

O texto também fala das tribulações, e nesta análise, devemos perguntar: Que tipo de tribulação e qual a natureza da consolação? Por tribulação, o apóstolo inclui as provações físicas, os diversos perigos, as perseguições e até mesmo as ansiedades que surgem no exercício da missão.


I. AFLIÇÃO E CONSOLO (1.3-7)

1. PAULO, SUA FÉ E GRATIDÃO. A seguir, o apóstolo agradece a Deus usando a seguinte expressão: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. Tal forma de expressar-se fala de sua gratidão a Deus e também comunica uma riqueza doutrinária. Paulo faz três declarações distintas acerca de Deus.

a) Deus é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, v. 3 - O Filho é eter­namente gerado do Pai, a exata expressão do Pai. O Filho é a exegese do Pai. O Filho é co-igual, co-eterno e consubs­tanciai com o Pai. O Filho e o Pai são um, Jo 14.8-10

b) Deus é o Pai de misericórdias, v. 3 - Essa expressão “pai de misericórdias” não significa apenas “pai misericordioso”, mas a fonte inesgotável de todas as misericórdias de que os crentes são e serão objeto. Deus é a fonte das misericórdias. “Misericórdia é um atributo moral de Deus, que o leva a não dar ao pecador o que ele merece. Merecemos seu castigo, mas ele nos dá sua graça imerecida. Todas as misericórdias têm sua origem em Deus e só podem ser recebidas dele”, Lm 3.22; SI 5.7;69.16; Tg 5.11; Nm 14.19; SI 51.1. [7]

c) Deus é o Deus de toda consolação, v. 3-4 - Deus Pai não é apenas um Deus que se compadece de nós em nossas tribulações, mas aquEle que alivia nossos sofrimentos com o bálsamo da consolação do seu Espírito (At 9.31).

O termo conforto, que vem do latim con e forte, significa “fazer forte juntos”. Mostra um aspecto relacional que supera em muito a idéia de conforto individualizado que prevalece hoje. A palavra dá o sentido de que uma parte fortalece a outra. [8]

Colin Kruse, comentando o v. 4, diz que "um ser humano não pode efetuar livramento divino que anule a aflição de alguém, mas lhe é possível compartilhar com outro sofredor o encorajamento que recebeu em meio às suas próprias aflições. O testemunho da graça de Deus na vida do crente é um lembrete poderoso às demais pessoas da habilidade e prontidão de Deus para prover graça e força de que necessitam".[9]


2. O SOFRIMENTO NA EXPERIÊNCIA CRISTÃ (v.5,6). A Bíblia Viva traduz o versículo 5 assim: “Podem estar seguros de que, quanto mais suportarmos sofrimento por causa de Cristo, mais Ele derramara sobre nós o seu consolo e o seu incentivo”

a) Deus permite o sofrimento na vida de seus filhos (1.5) Os sofrimentos de Cristo, aqui, não são os vicários que ele suportou por nós na cruz, pois esses são únicos e não podem ser compartilhados por ninguém, mas o nosso próprio sofrimento por amor a ele. Quando sofremos por Cristo, ele sofre em nós e por nós. Os sofrimentos na vida do cristão não são acidentais. Há determinados sofrimentos que sofremos exatamente porque pertencemos a Cristo. Estamos, assim, preenchendo o que resta dos sofrimentos de Cristo (Cl 1.24)

b) O nosso sofrimento produz consolo e salvação para outros (1.6). As provações que sofremos por Cristo e pelo seu evangelho abrem portas de salvação para outras pessoas. As cadeias e tribulações de Paulo pavimentaram o caminho para a evangelização dos povos.

Quando somos consolados, esse consolo serve de estímulo e exemplo para os demais que estão passando pela tribulação a permanecem firmes, certos de que sua consolação também virá.


II. AMARGURA E LIBERTAÇÃO (1.8-11)

1. A natureza da tribulação (v.8-9). Este versículo está carregado de duas palavras muito forte: (a) “desesperarmos da própria vida” e (b) “Sentença de morte”. Ameaças de morte não faltaram em todo o ministério paulino. O que chama a atenção no texto é que a aflição sofrida foi tão forte que Paulo a considerou algo superioras suas forças. A despeito da tenacidade desse homem, sua estrutura emocional era humana e limitada, e ele parecia não encontrar saída para escapar ao problema, 2 Co 11. 23-28.

Entretanto, Paulo entendeu que essa era uma prova em que ele deveria confiar, não em suas próprias forças, mas em Deus que “ressuscita os mortos” (v.9).

2. Deus livra o apostolo Paulo de uma “tão grande morte” (v.10). A expressão “tão grande morte” indica que o seu fim parecia-lhe inevitável, mas Deus o livrara. A experiência dava-lhe consolo e ânimo para, em todas as situações, crer e esperar em um Deus que é também o nosso Pai amoroso. A palavra sentença sugere que Paulo tinha rogado a Deus, assim como Jesus no jardim de Getsêmani rogou ao seu Pai que retirasse dele o cálice do sofrimento e morte.[10]

3. Paulo confiou em Deus e foi liberto (v.11). O apóstolo agradece a Deus pelo livramento e apela à igreja de Corinto que ore e interceda pelos seus ministros. Paulo estava convencido da eficácia da oração intercessória e, reiteradamente, pedia orações a seus irmãos (Rm 15.30-32; Ef 6.18-20).

a) As orações da igreja ajudam os crentes (1.11). Os coríntios estão rogando a Deus para que livre Paulo de perigo mortal e para que faça isso continuamente. A oração modifica as coisas. Pela oração, cooperamos para que os pregadores anunciem a verdade com ousadia e unção do Espírito. Pela oração, encorajamos uns aos outros a prosseguir em meios às provas.

b) As orações da igreja glorificam a Deus (1.11). As orações dos coríntios deveriam levar outros crentes a darem graças a Deus. Quando a igreja ora, o nome de Deus é exaltado. Quando os joelhos se dobram na terra, o nome de Deus é elevado no céu. Nada exalta tanto a Deus quanto um crente prostrado em oração!


CONCLUSÃO

Nesta lição, aprendemos que o cristão passa por muitas aflições, mas o Senhor sempre o ajuda a enfrentá-las. Ele está conosco, antes, durante e após as provações. O Senhor Jesus Cristo não nos desampara nunca (Mt 28.20).

____________________________
[1]GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. Edições Vida Nova. São Paulo, SP. 1978:
[2]KISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios. Editora Cultura Cristã. São Paulo, SP. 2004.
[3] IBID
[4] Citado in: LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007
[5] MEARS, Henrietta C.. Estudo Panorâmico da Bíblia. Editora Vida. Deenfield, FL. 1982.
[6] WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. Vol. 5. Geográ­fica Editora. Santo André, SP. 2006.
[7] WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. Vol. 5. Geográ­fica Editora. Santo André, SP. 2006
[8] KISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004
[9] KRUSE, Colin. II Coríntios: Introdução e Comentário. Edições Vida Nova. 1994
[10] KISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004