segunda-feira, 31 de agosto de 2015

ESTUDO Nº 09 - PARTICIPAÇÃO NA SANTA CEIA (1 Coríntios 11.17-34)



INTRODUÇÃO

Um dos mais solenes e significativos atos da liturgia cristã é a celebração do sacramento da Santa Ceia.  Conforme as palavras da Confissão da fé de Westminster, "Na noite em que foi traído, nosso Senhor Jesus instituiu o sacramento do seu corpo e sangue, chamado Ceia do Senhor, para ser observado em sua igreja até o fim do mundo, a fim de lembrar perpetuamente o sacrifício que em sua morte Ele fez de si mesmo; selar aos verdadeiros crentes os benefícios provenientes desse sacrifício para o seu nutrimento espiritual e crescimento nele e a sua obrigação de cumprir todos os deveres para com Ele; e ser um vínculo e penhor da sua comunhão com Ele e de uns com os outros, como membros do seu corpo místico" (Cap. XXIX, I).[1]

No estudo de hoje serão destacadas algumas questões teológicas e atitudes concernentes à participação na Santa Ceia, tendo como objetivo auxiliar o povo de Deus a participar dignamente do corpo e do sangue de Cristo.


ASPECTOS TEOLÓGICOS ACERCA DA CEIA DO SENHOR[2]

1. O conceito Católico. O pão e o vinho se transformam no corpo e no sangue de Cristo (União Física). Admite-se que, mesmo após a mudança, os elementos têm aparência e gosto de pão e vinho. A doutrina católica romana, foi adotado em 1215 e depois reafirmado no concilio de Trento em 1551.[3]

2. O conceito Luterano. Lutero rejeitou a doutrina da transubstanciação e a substitui pela doutrina correlata da consubstanciação. Segundo ele, o pão e o vinho continuam sendo o que são, mas, não obstante, há na Ceia do Senhor uma misteriosa e miraculosa presença real da pessoa completa de Cristo, corpo e sangue, nos elementos, sob eles e junto deles. Ele e seus seguidores defendem a presença local do corpo e do sangue físicos de Cristo no sacramento.

3. O conceito Zwingliano. o sacramento em foco é um simples sinal ou símbolo, representando ou simbolizando figuradamente verdades ou bênçãos espirituais; e que o seu recebimento é apenas uma comemoração daquilo que Cristo fez pelos pecadores, e, acima, de tudo, uma insígnia da profissão de fé cristã.

4. O conceito reformado (calvinista). Segundo Calvino, o sacramento está vinculado não meramente à obra passada de Cristo, ao Cristo que morreu (como parece que Zwínglio pensava), mas também à presente obra espiritual de Cristo, ao Cristo que agora vive na glória. Ele crê que Cristo, embora não corporal nem localmente presente na Ceia, está, contudo, presente, e é desfrutado em Sua pessoa completa, corpo e sangue. Ele dá ênfase à união mística dos crentes com a pessoa completa do Redentor.


CONTEXTUALIZAÇÃO

Entre os coríntios, a participação na Ceia estava sendo deturpada, trazendo sérios prejuízos para a igreja (v.21). 

Um problema constatado em relação à Santa Ceia hoje, é que há uma acentuada ênfase no aspecto ritualístico do sacramento, em detrimento de seu real significado e os propósitos nele implícitos. O aspecto prático do sacramento, que foi instituído e celebrado nos primeiros tempos da igreja, em um ambiente comunitário festivo, solidário e fraterno, tem sido ignorado ou substituído apenas por um ato simbólico, individualista, e, em muitos aspectos vazio. A igreja precisa resgatar o sentido da participação da Santa Ceia, a exemplo dos primeiros cristãos, fazendo deste sacramento urna autêntica festa de amor, de solidariedade, do partir do pão, de gratidão e de comunhão com Deus e com o irmão.


1. A PARTICIPAÇÃO NA SANTA CEIA PRESSUPÕE UM AMBIENTE DE FRATERNIDADE

O apóstolo Paulo censura os coríntios por causa dos problemas de relacionamento que estavam perturbando a comunidade. O ajuntamento dos crentes para a participação na Ceia estava sendo prejudicado por:
a) Divisões (v.18), 
b) Partidarismo (v. 19),
c) Egoísmo (v.20) e
d) Desconsideração (v.21). 

Esta situação de carnalidade e constrangimento estavam completamente em desacordo com o espírito e a proposta da Ceia - a "festa do amor".  A Santa Ceia deve ser sempre uma festa de fraternidade, mas em corinto não estava sendo. Por isso Paulo toca diretamente na questão, dizendo: "Porquanto vos ajuntais, não para melhor e, sim para pior Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar não é a ceia do Senhor que comeis. Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto certamente não vos louvo" (v.17, 20,22). 

O comportamento dos coríntios estava desprezando a igreja e profanando o sacramento. É interessante notar que, antes de apresentar orientações teológicas sobre a Ceia, Paulo mostra a necessidade de se corrigir as dissensões e a desconsideração para com os irmãos. É preciso entender que, muito mais do que simplesmente uma aprofundada compreensão teológica, a participação na Santa Ceia requer uma atitude de humildade, companheirismo e amor ao próximo (v.33).

Infelizmente, em muitas igrejas a formalidade e o acentuado individualismo na participação da Ceia, tomam o lugar da espontaneidade e do espírito comunitário de fraternidade. Muitas vezes o ambiente chega a adquirir aparências fúnebres. Enfatizam-se mais a morte de Cristo, do que a ressurreição e a esperança de sua segunda vinda. 

Também as barreiras interpessoais e interconfessionais têm descaracterizado a celebração da Ceia. Lamentavelmente, alguns grupos religiosos são exclusivistas nesta questão, negando a Ceia a irmãos em Cristo, membros de outras comunidades evangélicas. 

É preciso resgatar o aspecto festivo, solidário e fraterno que caracterizam a Ceia do Senhor como a Santa Comunhão, a refeição denominada "ágape" ou "festa do amor". Esse ambiente de fraternidade é fundamental para a unidade implícita no sacramento: "Porque nós, embora muitos somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão" (1 Co 10.17).


2. A PARTICIPAÇÃO NA SANTA CEIA REQUER PREPARAÇÃO INDIVIDUAL

Além do compromisso pessoal com Cristo e o batismo como CONDIÇÕES para a participação na Ceia, há outros aspectos que devem ser observados pelo participante:

2.1 - Reconhecimento da santidade do sacramento - Em Corinto muitos estavam agindo como se a Ceia fosse uma refeição qualquer, desconsiderando o seu aspecto sagrado. A natureza da Santa Ceia precisa ser assimilada pelo participante. Segundo Lewis Bayly: "Discernir o corpo quer dizer reconhecer a santidade do sacrifício, reconhecer o próprio sacrifício de Cristo".[4]

2.2 - Consciência do significado do sacramento - O indivíduo que participa da Ceia precisa ter consciência do significado deste ritual.

a) É o sinal da Nova Aliança - É o próprio Senhor Jesus quem declara: "este é o cálice da nova aliança no meu sangue..." (Lc 22.20). Na Antiga Aliança havia o derramamento de sangue de animais, como sacrifício simbólico pelos pecados do povo. Na Nova Aliança o sangue de Jesus é "a propiciação pelos nossos pecados..." (I Jo 2.1-2). Sendo assim, o sacramento da Santa Ceia se constitui num sinal da Nova Aliança, celebrando a morte expiatória e a redenção que há em Cristo (Hb 9.15-20).

b) É um memorial da morte de Cristo - Nas palavras de instituição da Ceia, Jesus recomenda aos discípulos: "fazei isto em memória de mim" (Lc 22.19). Através da Santa Ceia o crente é relembrado da morte sacrificial de Cristo (Mt 26.26-28). Porém, ao destacarmos este aspecto memorial da Ceia, discordamos da interpretação do Reformador Ulrico Zwinglio, no sentido de que este sacramento seja tão somente um memorial.[5]

c) É um anúncio da vinda de Cristo - Através da Ceia proclama-se a gloriosa esperança de retorno do Senhor Jesus (v.25). Quando da instituição do sacramento, o Senhor preveniu os discípulos acerca desse glorioso dia prenunciado na Ceia (Mt 26.29). 

d) É um meio de graça - Conforme a já citada Confissão de Fé de Westminster, "Os que comungam dignamente, participando dos elementos visíveis deste sacramento, também recebem intimamente os benefícios da sua morte, e nele se alimentam, não carnal ou corporalmente, mas real, verdadeira e espiritualmente...".

No entendimento do teólogo João Calvino, a Ceia é realmente um meio de graça, isto é, um canal por meio do qual Cristo se comunica, nutrindo e fortalecendo espiritualmente. Mediante a ação do Espírito Santo o crente é espiritualmente alimentado do corpo e do Sangue de Cristo. Sobre como compreender isto, Calvino dá o seu testemunho, dizendo: "Eu o experimento mais que entendo".[6]


2.3 - Discernimento espiritual - Nos versículos 27 e 29 Paulo expõe com muita clareza as conseqüências de uma participação irresponsável e leviana. Este sacramento que é um meio de graça, pode se constituir num meio de condenação. quando recebido de modo indigno. 

A participação deve, pois, ser precedida de um profundo exame pessoal (vv.28,29). A solução não é deixar de participar, mas examinar-se, corrigir-se e participar dignamente. 

Não se deve confundir, entretanto, discernimento espiritual com discernimento intelectual. O discernimento espiritual é algo mais profundo, sublime e importante do que o simples conhecimento da história e teologia do sacramento. A preparação é mais do que uma questão de ordem intelectual. 

Deve-se entender também que o discernimento espiritual é interior e pessoal. Ninguém tem o direito de julgar o irmão, no que tange à preparação "Examine-se, pois o homem a si mesmo". Cada um é responsável pela maneira como recebe o sacramento. Daí a importância do discernimento, pois a Ceia do Senhor não pode ser confundida com outra refeição qualquer.

______________________________

[1] A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, Comentada por Charles Hodge. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
[2] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 1990.
[3] HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática – Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.
[4] BAYLY, Lewis A prática da piedade. São Paulo: PES, 2010.
[5] VON ALLMEN, Jean-Jacques. Estudo sobre a Ceia do Senhor. São Paulo, Duas Cidades, 1968.
[6] CALVINO, João. I Coríntios - Comentário à Sagrada Escritura. São Bernardo do Campo, SP: Edições Paracletos, 1996.

sábado, 22 de agosto de 2015

ESTUDO Nº 08 - USOS E COSTUMES: O QUE DIZ A BÍBLIA? (1 Coríntios 11.2-16)


INTRODUÇÃO

A igreja cristã sempre enfrentou o desafio de discernir o que é certo, ou errado. Em se tratando de usos e costumes, existe uma boa maioria que fica dividida. Às vezes, pessoas da mesma comunidade, não chegam a uma harmonia sobre este ou aquele assunto, sobre se é ou não lícito a um cristão. Em geral, a polêmica se estabelece causando muitas vezes rupturas e contendas na comunidade. 

Ao cristão, no mundo de hoje, cabe uma mente equilibrada, uma visão aberta e uma postura tolerante, dentro da liberdade cristã, entendendo que, em se tratando de usos e costumes, haverá sempre variação de um lugar para outro, de um povo para outro e de uma época para outra.


CONTEXTUALIZAÇÃO

Usos e costumes continuam sendo uma questão delicada na comunidade cristã. Em Corinto, a questão girava em torno da mulher e o uso do véu. Para discernirmos o ensino de Paulo sobre a questão do véu, precisamos compreender o contexto cultural em que o véu foi usado.

Leon Morris faz o seguinte comentário: “Nas terras orientais o véu é o poder, a honra e a dignidade da mulher. Com o véu na cabeça, ela pode ir a qualquer lugar com segurança e profundo respeito. Ela não é vista; é sinal de péssimos modos ficar observando na rua uma mulher velada. Ela está só. As demais pessoas à sua volta lhe são inexistente, como ela o é para elas. Ela é suprema na multidão... Porém, sem o véu, a mulher é algo nulo, que qualquer um pode insultar... A autoridade e a dignidade da uma mulher se esvaem com o véu que tudo cobre, quando ela se descarta dele”.[1]

O véu, portanto, representava duas coisas na cultura de Corinto: A honradez e modéstia da mulher e a submissão ao seu marido. Nesse sentido o véu era símbolo da dignidade e da modéstia feminina. Apenas as prostitutas e as sacerdotisas cultuais dos cultos pagãos saíam a público sem véu ou participavam de um culto pagão sem véu. Quando uma mulher era vista sem véu, seja na rua ou em uma cerimônia paga ou mesmo na igreja, essa mulher estava desonrando a si mesma, dando motivo para que sua reputação fosse questionada. Agindo assim, ela também desonrava a seu marido (11.5).

O que aconteceu com as mulheres de Corinto quando elas receberam as boas-novas do evangelho? Elas perceberam que em Cristo eram livres. Não estavam mais debaixo do jugo cultural da cidade de Corinto. Paulo, porém, as exorta dizendo que se elas orarem e profetizarem sem o véu desonrarão a própria cabeça e o cabeça da mulher é o marido.

Uma mulher em Corinto participando do culto público sem véu aconteceria três reações:[2]
a) Por parte da igreja, isso provocaria escândalo e seria absolutamente inconveniente.
b) Por parte dos não crentes, isso causaria uma série de distração para os homens durante o culto, pois a confundiria com prostitutas.
c) Além de representar uma negação da submissão no Senhor que as mulheres casadas deviam ao marido.

David Prior diz que nesse contexto, Paulo trabalha sobre quatro questões importantes para solucionar o problema do comportamento das mulheres no culto público.[3]

1. Submissão, 11.3-6 - O apóstolo Paulo mostra o padrão de relacionamento que Deus estabeleceu na comunidade cristã (11.3). As mulheres têm espaço na igreja. (11.5). Mas essa prática deveria ser exercida reconhecendo a dignidade dela e a sujeição ao seu marido.
2. Glória, 11.7-10 - Depois de falar sobre a questão da submissão, Paulo fala sobre o homem como glória de Deus e a mulher como glória do marido.
3. Interdependência, 11.11-12 - Se a mulher veio do homem, por ter Deus criado a mulher a partir da costela do homem e o homem é nascido da mulher, então eles são interdependentes. O homem é a causa inicial da mulher, ela é a sua causa instrumental, mas ambos devem sua origem a Deus.[4]
4. Natureza, 11.13-16 - Deus fez o homem e a mulher diferentes um do outro. O homem precisa manter sua diferença física da mulher. Seu vestuário deve ser diferente. O papel do homem é diferente do papel da mulher. O homem deve ser verdadeiramente masculino e a mulher verdadeiramente feminina.


1. USOS E COSTUMES E A CULTURA

Na reflexão sobre usos e costumes a sociedade cristã precisa levar em conta a cultura. Por cultura entendemos a "Soma do modo de pensar. sentir e agir de um grupo social". 

C. Peter Wagner[5] em seu livro sobre a Igreja de Corinto dá um exemplo citando a cultura da Tailândia. Lá, sentar-se com as pernas cruzadas é imoral; aqui no Brasil é algo completamente normal. É comum na Escócia o uso de um tipo de saia pelo homem, em outros lugares é possível que tal uso cause escândalo e polêmica.

Com isto a comunidade cristã precisa aprender que muitas questões sobre usos e costumes dependem do contexto cultural. Sem ferir as Escrituras, a cultura precisa ser considerada. Paulo diz: "Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente" (Rm 14.5). 

Em se tratando de usos e costumes sempre existem diversidades, em função da cultura. Contudo, cada um pode ser perfeitamente cristão, qualquer que seja seu tipo de cultura, desde que não entre em contradição com o Evangelho. Há, entretanto, elementos culturais que precisam ser transformados pelo Evangelho.

Se Paulo tivesse de ensinar esse princípio a uma de nossas igrejas no Ocidente, ele não diria às mulheres que usassem véu na igreja. O véu não faz parte da nossa cultura. William Barclay chega a dizer que o uso do véu tem um significado puramente local e transitório.[6] Porém, o princípio permanece. As mulheres devem ser submissas aos seus maridos e precisam vestir-se com modéstia e pureza.


2. USOS E COSTUMES E O TEMPO

As coisas mudam. O tempo é dinâmico e, principalmente em se tratando de usos e costumes, há uma enorme variação com o passar dos anos. Certamente, se Paulo fosse escrever uma carta para a igreja de hoje, as questões envolvendo usos e costumes seriam outras. 

No século passado as pessoas não entrariam em um templo usando certos modelos que hoje são aceitáveis. O Evangelho é imutável, mas usos e costumes não; eles variam de acordo com a época. Pode-se verificar também que nos relacionamentos entre pais e filhos costumam haver conflitos de gerações, pois as experiências dos filhos são, em muitos aspectos, diferentes das dos pais. É a influência da época sobre os usos e costumes. 

O professor Júlio Andrade Ferreira diz: "Na época em que vivemos nada mais urgente do que tentar viver um Evangelho para a civilização em mudança". [7]

O cristão é desafiado a conhecer os padrões culturais, os usos e costumes e viver plenamente o Evangelho, levando-se em conta um fato inegável: a mudança. 

É muito comum, atualmente, encontrar pontos de vista diferentes sobre questões de usos e costumes na mesma comunidade, ou na mesma denominação, variando de comunidade para comunidade.

A comunidade é diversa e é preciso respeitá-la. Nela as diferentes gerações se encontram e são desafiadas a exercitar a fé no Cristo vivo. É Ele quem nos une. 

Essas diferentes e gerações diversas, apesar de usos e costumes distintos, podem e devem evidenciar a unidade em Cristo Jesus "onde não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre, porém Cristo é tudo e em todos" (Cl 3.11).


3. USOS E COSTUMES E O AMOR

O comportamento do cristão, por mais certo que esteja, precisa ser determinado pelo amor. Quando Paulo começa a tratar dos assuntos referentes à liberdade cristã, envolvendo usos e costumes, ele inicia falando do amor (1 Co 8.1). 

Para que usos e costumes não venham a prejudicar a comunidade cristã, o amor precisa ser o controlador de tudo. Numa comunidade podem existir pessoas "fracas na fé", como também "fortes na fé". Em Corinto, como em quase todas as igrejas do mundo, havia estes dois grupos. 

Segundo C. Peter Wagner, "não é pecado ser fraco ou forte. O corpo de Cristo é composto dos dois. O pecado só entra em questão quando os fracos e os fortes começam a brigar, perturbando a comunhão. Na vida comunitária desses dois grupos precisa existir o amor "que é o vínculo da perfeição" (Cl 3.14). [8]

Quando falta amor, muitos dissabores surgem na comunidade. Por isso, no capítulo do amor o apóstolo é tão enfático: "Se não tiver amor..." (1 Co 13.1-3). 

Na questão dos usos e costumes, o irmão mais forte não pode fazer tropeçar o mais fraco. É oportuna a recomendação do apóstolo Pedro (II Pe 1.3-7).

_______________________
[1] MORRIS, Leon. I Coríntios - Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica, volume 7. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1989.
[2] LOPES, Hernandes Dias Lopes, I Coríntios: Como resolver conflitos na Igreja. São Paulo: Hagnos, 2008.
[3] PRIOR, David. A Mensagem de 1 Coríntios: A vida na igreja local. São Paulo: ABU Editora, 2001
[4] RIENECKER, F. & ROGERS, C. Chave lingüística do Novo Testamento Grego. São Paulo: Editora Vida Nova, 1985.
[5] WAGNER, C. Peter. Se Não Tiver Amor. Curitiba: Luz e Vida, 1982.
[6] BARKLEY, Willian. Comentário do Novo Testamento, I e II Corintios, volume 9. Portugal: La Aurora: 1978.
[7] FERREIRA, Júlio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil (Vol. I e II). São Paulo: CEP, 1992.
[8] WAGNER, C. Peter. Se Não Tiver Amor. Curitiba: Luz e Vida, 1982.


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

ESTUDO Nº 07 - ESCÂNDALOS E PEDRAS DE TROPEÇO (1 Coríntios 8.1-3)


INTRODUÇÃO

Vez por outra, os meios de comunicação noticiam grandes escândalos que envolvem líderes religiosos e Igrejas Evangélicas. São verdadeiras bombas que provocam uma série de danos no meio evangélico e secular. No entanto, no dia a dia da Igreja, muitos escândalos acontecem por causa do mau testemunho de muitos irmãos. Outras vezes, certas atitudes que não são resultado de mau testemunho ou pecado, acabam se constituindo em escândalos para os fracos na fé. 

Há, nas igrejas, os “escandalizáveis" que se tornam um sério problema para um bom relacionamento entre os irmãos, Há, também, os escandalizadores, que não estão nem um pouco preocupados com o bem estar do seu próximo. 

Mas, o que é escândalo? Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, a palavra significa tropeço, armadilha, cilada, barreira, impedimento. Assim, escândalo é tudo aquilo que faz tropeçar ou que seduz para o pecado. Aquilo que serve para impedir alguém de continuar o seu caminho. É o que desvia de Cristo. A simples admiração, surpresa, decepção ou mal-estar provocado pelas atitudes dos crentes, não devem ser considerados escândalo, pois, escandalizar é se tornar obstáculo no caminho de alguém. 

Porém, o presente estudo trata também do escândalo do modo como ele é entendido no meio evangélico, ou seja, o mal estar que alguns sentem diante do comportamento de muitos irmãos.


CONTEXTUALIZAÇÃO

Em Corinto havia muitos templos dedicados aos deuses greco-romanos. As festas dedicadas a esses demônios eram repletas de música, orgia, comida, bebida e excessos de todos os tipos. Nas oferendas de animais, uma parte era queimada no altar do ídolo, a outra era doada ao sacerdote, e a última era entregue ao ofertante, que quase sempre a vendia no mercado.

Para um novo convertido na cidade de Corinto, a esse respeito havia muitas implicações. A situação era complicada por dois fatos. Primeiro, era uma prática social aceita, tomar refeições num templo, ou em algum lugar associado a um ídolo. “Era parte integrante da etiqueta formal na sociedade”. Em segundo lugar, a maior parte do alimento vendido nos armazéns, era muito difícil saber com certeza se a comida de determinado armazém fizera parte de um sacrifício ou não.[1]

O Comentário Moody destaca os motivos acimas citados e as três dúvidas que existiam entre eles: 
1) Podia um cristão participar da carne que fora oferecido a um falso deus em uma festa pagã? (templo pagão, I co 8.10)
2) Podia um cristão comprar e comer carne oferecida aos ídolos? (Mercado, I Co 10.25)
3) Podia um cristão, quando convidado á casa de um amigo, comer carne, que fora oferecida aos ídolos? (Casa dos amigos idólatras, I Co 10.27-28).[2]

Diante destas questão, nada fácil para os crentes daquela igreja, Paulo identifica o “velho” dos grupos no seio da comunidade cristã:[3]

a) Os abstinentes e legalistas (Fracos). Algumas pessoas, que Paulo identifica como os de consciência mais fraca, diziam: “Nós não podemos comer carne em hipótese nenhuma, pois corremos o grave risco de comer carne sacrificada a ídolos”. Para nao correr riscos, eles decidiram cortar a carne do cardápio. Tornaram-se vegetarianos.

b) Os permissivos e libertinos (Fortes). Paulo os chama de fortes. Eles diziam: “Não! O ídolo é nada! Não passa de um pedaço de barro ou madeira e ele não tem valor algum, vamos comer carne a valer! Não importa o lugar ou a circunstância, vamos comer carne sem qualquer drama de consciência”.


Qual é o princípio que deve reger a questão da liberdade cristã? O princípio geral de Paulo era: “[...] quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu” (Rm 14.3). A orientação de Paulo é que não devemos ser fiscais da vida alheia. E preciso que o crente tenha sabedoria para adotar uma postura coerente dentro da liberdade cristã.

Hoje, os problemas podem ser outros. O “comer carne” pode corresponder àquelas atitudes que estão servindo de embaraço para muitos cristãos que são fracos na fé.


1. O ESCÂNDALO COMO DESAFIO AO FORTALECIMENTO DA FE

Paulo caracteriza aqueles irmãos que se escandalizam, como sendo “fracos na fé”. Nos versículos 7 e 12 ele afirma que estes têm uma “consciência fraca". No versículo 9 declara que não devemos ser tropeço para os fracos. No versículo 10 ele adverte que o fraco é facilmente induzido ao pecado. No versículo 11 ele declara que o irmão fraco pode perecer por causa do escândalo. Assim, percebe-se que os irmãos fracos são aqueles que facilmente se escandalizam. 

Biblicamente, os fracos não escandalizam os que são fortes na fé. É sempre o contrário, embora tal afirmação pareça óbvia, na prática não é o que acontece, pois muitos daqueles que se escandalizam se consideram tão fortes e tão espirituais que não podem admitir o comportamento diferenciado do irmão. Estes afirmam impiedosamente que, aquele cuja atitude se constituiu em motivo de escândalo, é que e fraco na fé. 

Os fracos constantemente se escandalizam, tornando-se revoltados e ameaçam abandonar a igreja e voltar a velha vida. Quase sempre aqueles que têm uma consciência mais fraca criticam, difamam e formam uma rede de intrigas a respeito daquele que o “escandalizou". Pode acontecer de o irmão que foi o motivo de escândalo estar completamente inocente naquilo que fez e nem saber que involuntariamente feriu a frágil consciência de seu irmão. 

O grande desafio que a questão do escândalo apresenta é o fortalecimento da fé. É preciso crescer, amadurecer, aprofundar as raízes, tornar-se como “o monte de Sião que não se abala, firme para sempre” (Sl 125.1). O apóstolo Pedro ensina que é preciso “crescer na graça e no conhecimento de Cristo" (II Pe 3.1 8). 

A busca de um maior e mais profundo conhecimento da Palavra de Deus é o caminho que deve ser seguido por aqueles que desejam fortalecer-se na fé: “Grande paz têm os que amam a tua lei; para eles não há tropeço", diz o salmista (Sl 119.165). A igreja seria muito diferente se todos os crentes possuíssem conhecimento suficiente para reconhecer aquilo que é moralmente indiferente, abandonando os escrúpulos insensatos e sem base.


2. O ESCÂNDALO E AS ATITUDES DOS ESCANDALIZADOS

Escandalizar proposital e inconseqüentemente um irmão é uma atitude reprovável. Aquele que e culpado de escândalo torna-se, muitas vezes, pedra de tropeço para aqueles que estão se iniciando na fé. É preciso estar atento ao que Jesus disse: “Qualquer que fizer tropeçara um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fôra que pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar" (Mt l8.6). 

Afirma Adam Clarke: “Prejudicar um homem quanto as suas circunstâncias é algo serio; prejudicá-lo em sua reputação, mais ainda; mas prejudicá-lo na alma é o pior de tudo. Nenhuma iniqüidade, nenhuma malícia pode ser mais grave do que a injúria e a destruição da alma: a conduta descaridosa só pode chegar a esse ponto. Portanto, quem age assim, torna-se um perigoso criminoso aos olhos de Deus”. [4]

Se, por um lado, ha aqueles que são novos na fé e precisam de cuidados especiais para crescer ou para continuar o seu caminho, há também, aqueles que já têm muitos anos de vida cristã e se escandalizam como os neófitos. Mas, não apenas isto; as suas atitudes para com os que se tornaram motivo de escândalo é impiedosa e maliciosa. São atitudes que se tornam pecaminosas. Os fariseus se escandalizaram muitas vezes com Jesus, apesar de Jesus não ter pecado nem ter tido alguma atitude reprovável (Mt 15.12). 

Ainda hoje, percebe-se que muitos daqueles que ficam escandalizados, agem de forma semelhante. Não são capazes de perdoar, espalham boatos e comentários maldosos, criticam duramente, afastam-se da Igreja, renunciam cargos, ficam revoltados, fazem julgamentos precipitados etc. Essas atitudes também levam outros a se escandalizar e um circulo vicioso vai se formando. 

A mulher que foi apanhada em adultério provocou um grande escândalo (Jo 8.1-11), mas atitude daqueles que queriam apedrejá-la foi pior ainda. 

Comentando esta passagem, o Rev. Augusto Gotardelo diz: “Naquele tribunal improvisado, Jesus era a única pessoa habilitada para apedrejar a pobre mulher porque Ele não tinha pecado. Contudo, cobriu-a com as flores da simpatia e do amor e entregou-lhe a mensagem que, atravessando os séculos, tem causado mal-estar aos fariseus de todos os matizes: “Eu também não te condena. “Vai e não peques mais”. [5]


3. O ESCÂNDALO E A PREOCUPAÇÃO COM O BEM-ESTAR DO IRMÃO.

Não são raras vezes em que, involuntariamente, alguém escandaliza o seu irmão em questões secundárias ou indiferentes. Outras vezes, com o seu pecado voluntário e consciente muitos se tornam pedra de tropeço ou embaraço para eles. 

Pelo texto de I Coríntios 8.1-13, observa-se que os fortes na fé estavam prejudicando os fracos com a sua liberdade cristã, Para os fortes, comer a carne, sem se preocupar se era sacrificada ou não aos ídolos, era algo que não lhes afetava espiritualmente. Paulo não os condena por comerem aquela carne. O que ele não aprova é a maneira negligente e descuidada com que a questão era tratada. A ambos os grupos, fortes e fracos, estava faltando o amor cristão. 

Aos fortes, Paulo faz a recomendação: “Vede, porém, que esta vossa liberdade não venha de algum modo a ser tropeço para os fracos” (v.9). É preciso que os mais fortes preocupem com o bem-estar daqueles que não têm maturidade suficiente para lidar com certas questões. Se determinadas atitudes vão servir de cilada ou armadilha para um crente fraco cair em pecado, é preciso evitar, pelo bem do irmão e por amor a ele, até que e perceba que nas coisas que não são pecados, cada um deve ter “opinião bem definida e sua própria mente " (Rm 14.5). É preciso deixar que esse amor se torne o elemento motivador de todas as nossas atitudes. “E por isso, se a comida serve de escândalo a meu irmão nunca mais comerei carne, para que não venha a escandalizá-lo”, diz o apóstolo (v.l3). 

Leon Morris afirma: “Os feitos dos fortes não devem ser tais que causem estorvo. progresso dos fracos. O que está certo para um homem pode estar errado para o outro. Ninguém deve querer impor os seus padrões do certo e do errado a outros, cuja consciência reage diferentemente”. [6]

É preciso agir para com o fraco sempre com a consideração e amor cristãos. “Fiz-me fraco para com os fracos”, argumenta Paulo (I Co 9.22).

Espera-se também que os fracos se fortaleçam e evitem tolher a liberdade dos outro deixando de ser “pedra no sapato” para aqueles que não se condenam no que fazem.

_____________________
[1] BITTENCOURT, Benedito de Paula. Problemas de uma Igreja Local. 2 ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1986.
[2] PFEIFFER, Charles; HARRISON, Everett. Comentário Bíblico Moody (V.5). 3. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1988.
[3] LOPES, Hernandes Dias Lopes, I Coríntios: Como resolver conflitos na Igreja. São Paulo: Hagnos, 2008.
[4] CLARKE, Adam. Adam Clarke's Commentary on the Whole Bible, GraceWorks Multimedia, 2008.
[5] GOTARDELO, Augusto, Português para Pegadores Evangélicos, São Paulo: Vida Nova, 1979.
[6] MORRIS, Leon. I Coríntios - Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica, volume 7. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1989.


domingo, 16 de agosto de 2015

ESTUDO Nº 06 - VIDA CONJUGAL (1 Coríntios 7)


INTRODUÇÃO

Antes de perguntar se “a igreja vai bem", talvez seja importante perguntar: “e a família, vai bem?" Isto, porque a igreja nasce na família e, quando esta não vai bem, a igreja também sofre as conseqüências. Para que a família vá bem, é fundamental que haja harmonia na vida conjugal.

Nos tempos atuais a vida conjugal tem sido; para muitos casais, uma experiência tumultuada em função de incompreensões, indiferença, infidelidade e, em muitos casos, falta de responsabilidade. Não são poucos os lares que terminam destruídos, gerando frustrações e traumas para os cônjuges e especialmente para os filhos. 

Uma experiência de vida conjugal bem sucedida, salutar e compensadora, exige a atenção às orientações da Palavra de Deus. O texto de I Coríntios 7 oferece orientações nesse sentido.


CONTEXTUALIZAÇÃO

Havia dúvidas entre os crentes de Corinto sobre o casamento e o relacionamento familiar em geral. Foi então que eles resolveram escreverão apóstolo Paulo a fim de se esclarecerem sobre esses assuntos (v.l). Nesta lição, estaremos estudando o capítulo sete da primeira epístola de Paulo aos Coríntios, o texto mais rico da Bíblia acerca do casamento em seus diversos aspectos: o casal e a vida conjugal; os filhos; o estado de solteiro; a separação e o divórcio; a viuvez e o novo casamento etc.[1]

Outra questão que também envolve as orientações (ou concessões) de Paulo é a expectativa escatológica que determinava o viver dos cristãos naqueles dias (V. 29-31). Além disso, as perseguições e os sofrimentos estavam se intensificando e o tempo para a evangelização se abreviava. 

Todos esses elementos contextuais influenciam e determinam as orientações de Paulo acerca da vida conjugal. É por isso que ele enaltece a vocação celibatária (vv. 1, 8, 40) e também recomenda a fidelidade e a pureza no casamento (v.2). 

Não obstante as circunstâncias que cercavam os primeiros destinatários da carta, a sua mensagem é perfeitamente aplicável ainda hoje.

Quais os aspectos importantes deste capítulo.1. O casamento é monogâmico (poligamia/poliandria), v.2
2. Paulo proíbe a relação homossexual (sua própria mulher), v. 2
3. Paulo proíbe o celibato compulsório (imposição)[2], v. 1
4. Paulo estabelece a duração do casamento, v. 10-11, 39-40.
5. Paulo também instrui sobre a dissolução do casamento, v. 15-16.
6. Paulo aconselha aos solteiros, virgens e viúvas que não se casem novamente, 7.25-40


1. A VIDA CONJUGAL DEVE SER UMA OPÇÃO VOLUNTÁRIA E CONSCIENTE

Conforme o ensino bíblico, a vida conjugal se concretiza com o casamento e esta opção deve ser voluntária (arranjados ou forçado) e também consciente. Ao optar pelo casamento o indivíduo precisa estar consciente das implicações desta decisão. Embora seja uma opção pessoal, a orientação divina deve ser sempre buscada. Paulo recomenda “casar somente no Senhor”, isto é, Deus precisa aprovar a escolha. Se, por um lado, o celibato é um dom, o casamento também o é. É por isso que esta escolha deve ser submetida à vontade do Senhor (Pv 18.22; 19.14). 

Os pais não devem forçar o casamento dos filhos, pois é uma opção voluntária, mas podem e devem orientá-los. A ação pastoral nesse sentido é também indispensável. 

Por sua vez, o jovem e a jovem devem refletir sobre quais estão sendo as suas motivações para o casamento. É pressão familiar, paixão sexual, busca de prestígio, aventura, fuga da realidade, libertação do domínio dos pais, sentimento de inferioridade, competição...? É preciso se perguntar: as minhas motivações refletem uma opção voluntária e consciente?

Ninguém é obrigado a casar, mas quem opta pelo casamento tem o dever de honrar o seu casamento (Hb 13.4).

Em I Tm 4.1-3, o mesmo apóstolo profetiza, pelo Espírito Santo, que um dos sinais do fim dos tempos é a proibição do casamento. Há por toda parte uma multidão de casais vivendo sem serem casados sob o rótulo de "união estável" protegida pelo Estado.

O matrimônio foi instituído por Deus e é um estado honroso (Hb l 3.4), mas o celibato também é uma opção de vida perfeitamente natural (v.38). l O casal cristão que vive no temor de Deus simboliza Cristo e sua Igreja (Ef 5.31,32).[3]


2. A VIDA CONJUGAL EXIGE RESPONSABILIDADE

A voluntariedade e a consciência que conduzem o indivíduo ao casamento encontram o desafio da responsabilidade, a qual se constitui numa expressão do verdadeiro amor que “não se conduz inconvenientemente” (I Co 13.4-8). 

Sob a ótica da responsabilidade a vida conjugal deve ser vivida como:

2.1 - Uma relação exclusiva - Conhecendo o ambiente social dos coríntios, que favorecia o desregramento moral e a promiscuidade, Paulo orienta os casados quanto à fidelidade e o compromisso que fazem da vida conjugal uma relação exclusiva (v.2).

A orientação bíblica referente à instituição do casamento (Gn 2.18-25) encerra este princípio da exclusividade: “... deixa o homem pai e mãe, e se une a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”. Esse ato de deixar pai e mãe abrange um rompimento físico, geográfico, emocional e econômico em função da nova união para que a mesma se torne exclusiva. 

Os compromissos conjugais devem ser prioritários em face de quaisquer outros compromissos sociais. E esta exclusividade requer maior atenção especialmente quando o problema é a possibilidade de infidelidade conjugal.

2.2 - Uma relação recíproca - Quanto à reciprocidade que deve existir na vida conjugal, Paulo apresenta um conceito revolucionário para a época, ao considerar a mulher em situação de igualdade com o homem em termos de direitos e deveres na vida conjugal (v. 3-5). Esta reciprocidade abrange todos os aspectos da vida conjugal, pois o verdadeiro amor “não procura os seus interesses”, mas os interesses da pessoa amada.

2.3 - Uma relação permanente - Conforme o texto de Mateus 19.3-8, ao ser interrogado acerca do divórcio Jesus apresenta uma resposta que expressa o ideal de Deus para o casamento: “... o que Deus ajuntou não o separe o homem". No texto básico (vv. 10-15), 20 Paulo reforça o conceito da indissolubilidade do casamento: “Aos casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido... e que o marido não se aparte de sua mulher”. 

Há, porém, algumas condições em que os vínculos matrimoniais podem ser desfeitos:
a) Abandono por parte do cônjuge não crente (v.15);
b) Morte ou desaparecimento do cônjuge (v. 39; Rm 7.2,3);
c) Relação sexual ilícita (Mt 5:32; 19.9)

John Stott esclarece: “Se o cônjuge incrédulo desejar permanecer casado, então o crente não deve recorrer ao divórcio. Mas se o cônjuge incrédulo não quiser ficar e decidir partir, então o outro ficará livre para se divorciar e casar novamente”[4]

A separação por incompatibilidade de gênios ou outros motivos além dos expostos aqui, carece de fundamentação bíblica. O ideal divino para o casamento é a permanência. O divórcio – prática amparada por lei - é uma concessão que existe e é tolerada mais em função da dureza do coração humano do que da vontade de Deus (Mt 19.6-8). 

Segundo o teólogo David J. Atkinson: “A igreja deve ser um refúgio de apoio, para aqueles cujos relacionamentos estão em dificuldades, e uma agência de reconciliação e de ministério de perdão sempre que possível”.[5]


3. A VIDA CONJUGAL NÃO DEVE PREJUDICAR OS COMPROMISSOS COM O SENHOR

O apóstolo levanta uma questão séria que é a falta de equilíbrio na administração dos compromissos familiares e eclesiásticos (vv. 32-35). Paulo esclarece que não deseja impedir que as pessoas se casem; o seu propósito é claro: “Digo isto porque quero ajudá-los. Não estou querendo atrapalhar ninguém. Ao contrário, quero que faça o que é direito e que se entreguem ao serviço do Senhor com toda dedicação" (vv.35. BLH). 

Em função das circunstâncias já referidas nesse estudo, Paulo entendia que era mais viável não constituir família. Paulo está mostrando isso por causa de fatores circunstanciais daqueles dias em que estava vivendo.
a) Angustiosa situação presente e angústia na carne, v. 26 
b) Preocupações, v. 32
c) A vinda iminente do Senhor Jesus, v. 29-31

Entretanto, no pensamento global de Paulo e no ensino geral das Escrituras, constatamos que o casamento é visto como sublime, elevado e digno de honra; sendo até mesmo tomado para ilustrar a relação de Cristo com a igreja. Contudo, é preciso entender que, apesar do valor e da atenção que merecem, os compromissos conjugais não devem prejudicar os compromissos com o Senhor. 

O casal que não valoriza os compromissos com o Senhor, em função da família, às vezes nem imagina que, com esta atitude está prejudicando a própria família e ameaçando o seu futuro (Sl 127.1; 128). Para que tudo mais vá bem, o nosso primeiro compromisso deve ser com Deus.



[1] GILBERTO, Antonio. I Coríntios: Os problemas da igreja e suas soluções.  Lições Bíblicas 2T2009. Rio de Janeiro:  CPAD, 2009, p.33
[2] O celibato teve sua origem no clero romano, após 304 d.C. nos concílios de Elvira e Nicéia que proibiam os Ministros religiosos casarem-se após a ordenação. A Igreja Católica adotou o celibato dos padres e freiras na Idade Média, para defender o seu patrimônio, a fim de evitar que se tornasse objeto de disputas por herdeiros, tornando-se obrigatório para o clero a partir de 1537, durante o papado de Gregório VII, onde um sacerdote romano que se casasse incorria na excomunhão e ficava impedido de todas as funções espirituais. LIVER JR., O. G. Celibato. Em ELWELL, Walter A.  (Ed.). Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 1988-1990. Vol. I, p. 270s.
[3] GILBERTO, Antonio. I Coríntios: Os problemas da igreja e suas soluções.  Lições Bíblicas 2T2009. Rio de Janeiro:  CPAD, 2009, p.34
[4] STOTT, John. Grandes questões sobre sexo. São Paulo: ABU Editora, 1993.     
[5] ATKINSON, David. A Mensagem de Rute. São Paulo: ABU Editora, 1ª Ed. 1991