domingo, 26 de maio de 2013

AS SOBRAS DOS ELEMENTOS DA CEIA DO SENHOR (Rev. Ewerton B. Tokashiki)


Por Rev. Ewerton B. Tokashiki

Os diáconos são encarregados da preparação antecipada da Ceia do Senhor. Esta é uma honra que estes servos de Deus têm diante da igreja local. Devem zelar para que os elementos sejam apropriados tanto em qualidade, como o corte do pão e a distribuição do cálice, e ainda a disposição na mesa. Todavia, após o término do culto, eles são responsáveis pelas sobras dos elementos da Ceia. A pergunta é: o que fazer dos elementos que sobraram?

Não há uma prescrição clara quanto a este assunto. Nos Princípios de Liturgia[1] [capítulo VII - Administração da Ceia do Senhor] lemos que no art.17 “os elementos da Santa Ceia são pão e vinho, devendo o Conselho zelar pela boa qualidade desses elementos.” Isto significa apenas que o Conselho supervisiona o preparo e uso dos elementos para que sejam corretamente escolhidos com qualidade. Não há menção quanto às sobras.

É quase impossível estabelecer uma regra absoluta quanto ao assunto. Devemos nos orientar por um princípio geral, isto é, que o preparo, o manuseio, e o eliminar dos elementos devem evitar qualquer superstição, erro doutrinário, ou a prática da veneração do pão e do cálice, antes, durante ou após a celebração da Ceia do Senhor, atribuindo-lhes algum poder inerente, ou valor permanente. A Confissão de Fé de Westminster declara que:

Os elementos exteriores deste sacramento, devidamente consagrados aos usos ordenados por Cristo, têm tal relação com o Cristo Crucificado, que, verdadeiramente, embora só num sentido sacramental, são às vezes chamados pelos nomes das coisas que representam, a saber, o corpo e o sangue de Cristo; se bem que, em substância e natureza, conservam-se verdadeiro e somente pão e vinho, como eram antes.[2]

Há diferentes práticas adotadas pelas igrejas evangélicas:

1. Muitos guardam as sobras, tanto do pão como do cálice, para a próxima realização da Ceia. O problema é que quando a celebração seguinte demora, ou sendo realizada mensalmente, os elementos podem não ter a mesma qualidade, por causa da fermentação, decomposição, ou até mesmo por serem inaproveitáveis por causa da sua inadequada preservação.

2. Em alguns casos há diáconos que após o culto, enterram as sobras do pão e do cálice. Mas, isto apenas aumenta a ignorância e piora o misticismo irracional que, diga-se de passagem, é uma herança do catolicismo romano.

3. Há aqueles que jogam no lixo as sobras da Ceia. O fato de se jogar fora pode ser por não querer aproveitar os elementos, porque uma vez cortados não é possível aproveita-los para uma refeição posterior. Mas, corre-se o risco fazê-lo pelo mesmo motivo daqueles que preferem enterrar.

Esta confusão é desnecessária, mas ofende a consciência de alguns amados e sinceros irmãos que não foram corretamente instruídos sobre a natureza da Ceia do Senhor. Eis alguns motivos desta comum confusão:

1. Por serem instruídos sem base nas Escrituras a divinizar o pão e o cálice inconscientes da heresia que estão praticando.

2. Por esquecerem que o pão e cálice são meros símbolos, e que não há nenhuma mutação essencial nos elementos. Apenas a presença espiritual manifesta-se durante a Ceia nos alimentando com graça (por isso, é um meio de graça). Os elementos da Ceia não se tornam (transubstanciação), nem contém (consubstanciação) o corpo físico de Cristo. Embora separados do uso comum, continuam sendo o que sempre foram, o pão e cálice; não sofrem nenhuma mutação substancial, mas apenas representam uma realidade espiritual presente durante a correta celebração da Ceia. Cristo está presente espiritual e não fisicamente.

3. Por confundirem que o importante na Ceia são as palavras, o ato, e o momento da celebração da comunhão nada acrescentando, nem permanecendo nos elementos de modo que devem ser considerados como objetos de veneração.

Algumas recomendações pastorais sobre "as sobras da Ceia":

1. Não alimente o sentimento pelos elementos como se eles fossem o próprio Cristo! Não podemos cair no sutil erro da idolatria como o fazem os romanistas.

2. No manuseio dos elementos não os vulgarize. Este é o outro extremo, também praticado por ignorância. Não devemos brincar com aquilo que é sério. O símbolo [pão e vinho] mesmo quando não usado na Ceia não deve ser banalizado, se separado para este fim.

3. Não há nenhum problema em se comer as sobras do pão e beber resto do cálice, porque após o término do culto, eles se limitam a ser apenas o que sempre foram, pão e vinho, porque após a celebração perderam o seu significado e eficácia espiritual como meio de graça.

4. Se os diáconos resolverem dar as sobras dos elementos para as crianças (o que acontece em alguns lugares), deve-se inevitavelmente, com clareza, ensina-las que aquilo que elas estão comendo não é a Ceia do Senhor (nem permiti-las brincar de Santa Ceia), mas apenas as sobras do pão e do cálice. Isto deve ser feito, de modo que, seja evitado escândalos, uma concepção errada, e a confusão na mente dos infantes que ainda não possuem discernimento da seriedade da Ceia do Senhor.

A minha real preocupação com este artigo não é com as sobras dos elementos da Ceia, mas com o pressuposto teológico. A crença modela o comportamento. Então, não é apenas durante a Ceia que manifestamos a nossa convicção de fé, mas após o seu término quando vamos nos desfazer das sobras dos elementos. Infelizmente, um expressivo número de igrejas locais são absurdamente incoerentes quanto a este assunto! Mesmo aqueles que durante a Ceia confessam que ela é apenas um mero memorial (zwinglianos), ou, ainda outros que crêem que embora sendo um símbolo representa o corpo e o sangue, a presença de Cristo é somente espiritual, e não física (calvinistas); entretanto, após a Ceia acabam por negar o seu credo com ransos do romanismo. Com isto, não somente negamos a nossa doutrina na prática, mas desonramos o ensino do nosso Senhor.

Notas:
[1] Princípios de Liturgia in: Manual Presbiteriano (São Paulo, Ed. Cultura Cristã, 1999).
[2] Confissão de Fé de Westminster, XXIX. 5.

Por: Rev. Ewerton B. Tokashiki, adaptação para o blog: Rev. Ronaldo P Mendes

quarta-feira, 22 de maio de 2013

ESTUDO Nº 24 - O PAI NOSSO E A NOSSA CONDIÇÃO ESPIRITUAL - PERDÃO (MT 6.9-13)



INTRODUÇÃO
            Quando começamos a estudar este texto de Mateus que faz referencia ao modelo de oração que nos é ensinado pelo Senhor Jesus, observamos que este modelo em si, pode ser dividida em duas partes:

 1. Prioridades aos interesses de Deus, v. 9-10.
          Trata-se dos pedidos referentes à pessoa de Deus: teu nome, teu reino, tua vontade. Portanto, a oração do cristão busca prioritariamente os interesses de Deus.

            2. As necessidades do homem piedoso, v. 11-13.
      Esta parte trata das necessidades do cristão: “nosso pão, nossas dívidas, nosso adversário” [1].

            No versículo 11 (o pão nosso de cada dia dá-nos hoje...) contemplamos a liberalidade de Deus na manutenção diária de nossas necessidades físicas. No versículo 12 suplicamos a sua clemência. Após o pão, pedimos perdão. Stott escreveu: “O perdão é tão indispensável à vida e à saúde da alma como o alimento para o corpo”. [2]
       Antes, temos um homem carente fisicamente, aqui temos um homem inadimplente espiritualmente. Aliás este é o sentido da palavra empregada para “dívida” (ofensa, débito, o que é devido).
            Nesta oração Jesus nos ensina que todos nós estamos endividados; não quem possa dizer que não tenha dívida para com Deus ou para com o seu próximo. Todos sem exceção, somos devedores; por mais que façamos, nunca atingiremos a condição de cidadãos que liquidaram todos os seus débitos.
           
1. PERDÃO – UMA COMPREENSÃO DA NOSSA SITUAÇÃO diante DE DEUS
       “e perdoa-nos as nossas dívidas... assim como nós temos perdoado aos nossos devedores”

            Nesta petição temos importantes aspectos a serem estudados:

            1. A consciência do perdão
         Esta petição só pode ser feita pelo homem que tem consciência de que é pecador. Barclay escreveu: “O fato de Jesus ensinar a todos as pessoas a fazerem esta oração demonstra universalidade do pecado; e para repetir esta oração se requer um sentido de pecado”.[3]
            A Escritura nos diz que:
a)    Todos pecaram, Rm 3.23
b)    O pecado nos fez cativo, Jo 8.34; Rm 6.20, 7.23
c)    Habita em nós, Rm 7.17,20.
            Portanto, negar a nossa condição de pecadores é negar a própria Palavra de Deus (I Jo 1.10). Devido a depravação da nossa natureza, todos pecamos e somos responsáveis diante de Deus. A aproximação e a contemplação da gloriosa santidade de Deus realçam de forma eloqüente a gravidade do nosso pecado.
           Diversos servos de Deus ilustram esse fato: Pedro, Lc 5.8; Paulo, I Tm 1.15; Moisés, Ex 3.6 e Isaías, Is 6.1-5
         Lloyd-Jones escreveu: “Nunca houve um santo sobre a face da terra que não tenha visto a si mesmo como um vil pecador; de modo que se você não sente que é um vil pecador, não é parecido com os santos”.[4]
           Esta petição traz, em seu bojo, a compreensão de quão grave é o nosso pecado diante de Deus. Jamais poderemos entender o sentido da grandiosidade do perdão concedido por Deus sem a percepção adequada da nossa ofensa ao Deus Santo.

            2. A Insatisfação com a prática do pecado
        Esta oração é feita não pelo pecador contente consigo mesmo, mas por aquele que, consciente da sua dívida, se apresenta arrependido diante de Deus, desejoso de deixar de pecar, I Jo 3.6; I Jo 2.1-2.
          Spurgeon, coloca a questão do prazer do pecado nestes termos: “Satanás faz o pecado parecer algo prazeroso, mas a cruz o apresenta tal como ele é, mortal e doloroso. Jesus morreu por causa do pecado. Quando o homem contempla o pecado desta forma, ele faz da prática do pecado assassinato. O poder do pecado é destruidor...” [5]

            3. Incapacidade de pagar a Dívida
         Nessa petição estamos também confessando que não temos condições de pagar a nossa dívida, Lc 7.41-42; Mt 18.25-27.
           Estamos inadimplentes espiritualmente; temos consciência de que nossa dívida cada vez aumenta mais. Porque ainda que vivendo como cristãos, vamos aumentando sem cessar nossa dívida e agravando a embrulhada da nossa situação. A dívida cresce de dia em dia. E imagino que à medida que envelhecemos mais conta nos damos de que não temos possibilidade alguma de cancelar essa dívida. As coisas vão de mal a pior. Por isso, só nos resta suplicar o perdão.
            Hendriksen escreveu: “A petição de perdão significa que o suplicante reconhece que não há outro método pelo qual possa cancelar sua dívida, é uma súplica de graça”.[6]
        Portanto, é impossível uma autêntica vida cristã sem esta consciência: de sermos pecadores e da necessidade do perdão de Deus. Enquanto não admitirmos isso, estamos, na realidade, sustentando algum tipo de auto-suficiência.
           
2. PERDÃO E AS NOSSAS ATITUDES PERANTE DEUS E O PRÓXIMO

            1. Viver dignamente
           O perdão não é produzido por boas obras nossas, no entanto, é um forte estímulo a que procuremos viver em consonância com a vontade de Deus. O pecador perdoado é motivado a procurar se harmonizar com o propósito de Deus revelado nas Escrituras.
       John Owen escreveu: “O perdão é o mais forte motivo para se viver piedosamente depois de recebê-lo (...) Aquele que presume tê-lo recebido, e não se sente obrigado a ser obediente a Deus popr causa do perdão que recebeu, na verdade não goza dele”.[7]
           Deus nos diz na sua Palavra que ele nos redimiu para si mesmo a fim de vivermos para Ele, em harmonia com a sua vontade, encontrando assim a felicidade decorrente da nossa obediência a Deus, Is 44.22; Is 55.7.

            2. Humildade e Gratidão
        A súplica pelo perdão de nossas dívidas aponta para a nossa total incapacidade de pagar-lhe: somos total e irreversivelmente devedores; portanto, a nossa postura é de humildade diante de Deus. O perdão de Deus mostra a nossa necessidade de sua misericórdia e a nossa total incapacidade de atingir o padrão de Deus, por isso, só nos resta suplicar humildemente: “perdoa as nossas dívidas”, e mais, muito agradecido, pelo fato de recebermos o perdão, prosseguindo em nossa caminhada, com plena consciência de que tudo que temos é pela graça de Deus, Sl 103.1-3,8,10,14.

            3. Disposição para perdoar
       O perdão concedido por Deus é um imperativo à concessão de perdão ao nosso próximo. Aquele que foi perdoado é conduzido invariavelmente à disposição de perdoar o seu próximo; e quando perdoamos estamos nos abrindo ao perdão de Deus. A nossa disposição em perdoar é um atestado de nossa gratidão a Deus, Mc 11.25; Lc 17.3-4.
           A base do perdão é o perdão concedido por Deus. Ele não somente nos perdoa, como também nos capacita a perdoar; Deus faz o nosso perdão possível, Cl 3.13; Ef 4.32.
           Hendriksen escreveu: “É Deus quem semeia em nossos corações a semente da fé e o ânimo perdoador”.[8]

            Para Concluir:
      A misericórdia de Deus é o único caminho da remissão... E, todas as vezes que confessamos a Deus os nossos pecados, arrependidos de tê-los cometido, desejosos de não mais praticá-los, podemos ter a certeza de que Deus, por sua graça nos perdoa.
            E este mesmo perdão devemos ao nosso próximo e é resultante da confiança no Deus Justo e Perdoador.




[1] HENDRIKSEN, Willian. Mateus – Comentário do Novo Testamento, Vol I: Cultura Cristã, 2010 2ª Ed. p. 402.
[2] STOTT, John. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo: ABU-Editora. 1993, p. 154.
[3] BARCLAY, William. Comentário Bíblico de Mateus. Texto em PDF, 1985. p.217
[4] LLOYD-JONES, Martyn. O Clamor de um desviado: Estudos sobre o Salmo 51. São Paulo: PES. 1997, p. 40.
[5] SPURGEON, Charles. Batalha Espiritual. Paracatú: Sirgisberto Queiroga da Costa Júnior, editor, 1992, p. 55
[6] HENDRIKSEN, Willian. Mateus – Comentário do Novo Testamento, Vol I: Cultura Cristã, 2010 2ª Ed. p. 350.
[7] Owen, John, citado por A, Booth, in: Somente pela graça, São Paulo: PES, 1986, p. 33
[8] HENDRIKSEN, Willian. Mateus – Comentário do Novo Testamento, Vol I: Cultura Cristã, 2010 2ª Ed. p. 350.

UMA PALAVRINHA SOBRE PALAVRÃO


Por Leonardo Bruno Galdino

Pegando carona num excelente texto escrito pela Norma Braga há uns quatro anos (leitura mais que obrigatória!), vou arriscar aqui mais algumas palavrinhas sobre os palavrões.

"Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para a edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem." Efésios 4.29.

Deveria ser justamente o oposto, mas não é raro ver cristãos simpáticos à ideia de que é perfeitamente válido ao crente falar palavrão, sob a desculpa de que “extravasar faz bem para o corpo e para a alma”, dentre outras coisas. Afinal de contas, “ninguém é de ferro”. De fato, ninguém o é. Mas escusar-se nisso é deveras pecaminoso, visto que o padrão maior, que é Deus, não é contemplado. E é muito triste observar que essa mentalidade é bastante comum em nosso meio. Outro problema é que nem sempre o palavrão é oriundo de um pico de fúria, mas inclusive das conversas amistosas, nas quais um palavrãozinho acaba se tornando “imprescindível” para que o papo fiquem ainda mais “interessante” – o que acaba sendo ainda pior em se tratando de uma rodinha de crentes.

É bem verdade que Paulo fez essa associação entre palavra torpe (“palavrão”) e explosões de raiva, no versículo 26 (não vou discorrer sobre tal verso aqui, visto que já tratei dele em outro post), mas, como já disse, esta não é a única associação possível. E aqui chamo a nossa atenção para a perspicaz observação da Norma Braga: “todos os palavrões, dos menores aos maiores, têm algo em comum: remetem invariavelmente ao sexo”. (Particularmente, não conheço nenhum palavrão que fuja a essa regra). Mas será que é este o sentido empregado por Paulo na referida passagem? Teria ela conexões com aquilo que hoje entendemos por palavrão? Existia palavrão no século I?

No grego, a palavra traduzida por torpe é sapros, que significa, literalmente, podre, sem proveito, e foi usada apenas por Jesus e Paulo. Cristo a usou como metáfora para a “árvore ”, a qual produz somente frutos maus (Mt 7.17ss; 12.33; Lc 6.43), e para os peixes “ruins” que são deitados fora do cesto (Mt 13.43). É evidente que o uso que Jesus fez dela não tem conexões diretas com a questão da sexualidade, visto que em suas falas Ele nunca se preocupou em dar esse tipo de especificação. Contudo, Jesus era bem específico numa coisa: em apontar o coração como a fonte de tudo aquilo que arruina o homem, incluindo os pecados sexuais (Mc 7.18-23). Assim sendo, o sentido esposado por Paulo se sustém, pois não há boca que sobreviva com uma dieta a base de palavras podres.

Na realidade, o entendimento de que Paulo, aqui, se refere à linguagem libidinosa pervertida não é novo. Por exemplo, Calvino, comentando a passagem em foco observou que esse termo usado pelo apóstolo se refere a “tudo aquilo que provoca excitamento erótico que costuma infeccionar a mente humana com a luxúria” – o que para nós é um sinal de que nos tempos do reformador os palavrões também estavam ligados ao sexo (ou, à deturpação deste). Alguém poderia argumentar que Calvino, aqui, escreveu pensando em sua própria época, e não na de Paulo. A estes respondo com textos como Romanos 1.26-27, 1 Coríntios 5 e 6.12-20, onde o apóstolo nos dá alguns detalhes do que era a imoralidade sexual de seu tempo, o que me leva a crer que a época em que ele viveu não era menos podre de linguagem do que o século XVI ou o século XXI. No entendimento do reformador, Paulo não está falando apenas de palavras vazias e bobas, mas de palavras podres e carregadas de imagens sexuais. Obviamente, são muitas as palavras e coisas que nos provocam esse tipo de excitamento apontado por Calvino, e é razoável aceitarmos que elas são alvo de Paulo nesse texto. Mas não nos enganemos, pois até mesmo palavras “inocentes” podem assumir a forma de um palavrão, pois o pecado, como já vimos, não começa na boca, e sim no coração. Por esse motivo é que devemos extirpar de nossas disposições mentais tudo aquilo que porventura nos remeta a tais pensamentos (cf. Fp 4.8-9), fugindo, assim, de toda a aparência do mal (1 Ts 5.22).

Em resumo, considerando a admoestação do apóstolo, deveríamos fazer os seguintes questionamentos acerca do palavrão, caso ainda queiramos considerar a sua legitimidade: 

- ele verdadeiramente promove a edificação (pessoal e coletiva)?
- ele verdadeiramente transmite graça aos que o ouvem?

Particularmente, penso que palavras podres e imorais jamais promoverão a edificação pessoal ou coletiva, visto que são fruto de uma árvore mau desde a sua raiz. De um coração tomado de pensamentos impuros não pode sair coisa boa. As obras da carne nada podem edificar senão a própria carne (cf. Gl 5.16-21). Por este motivo, tais palavras são incapazes de transmitir graça às pessoas que nos rodeiam. Em vez de graça, transmitem desgraça: mau testemunho, incitação à violência, ao sexo pervertido e por aí vai. É por esse motivo que Paulo diz para não darmos lugar ao diabo (Ef 4.27), o verdadeiro pai de toda podridão. Estejamos, pois, alertas, antes que o Senhor nos lave a boca com algo muito pior do que o sabão com que nossos pais nos ameaçavam.

Soli Deo Gloria!

Fonte: 5 Calvinistas

Além deste excelente artigo do Leonardo, recomendamos a leitura de outros importantes artigos a respeito, segue abaixo:



ESTUDO Nº 23 - O PAI NOSSO E AS NECESSIDADES DO HOMEM PIEDOSO - O PÃO NOSSO (MT 6.9-13)


INTRODUÇÃO


            Na primeira parte desta preciosa lição, aprendemos que em nossas orações as nossas necessidades estão sempre em segundo plano. Os versículos 9-10 nos ensina sobre as “prioridades e interesses de Deus” em nossa oração, agindo com reverência e submissão.
            Os pronomes usados com os motivos dessa parte: teu nome, teu reino, tua vontade, confirma que a oração do cristão busca prioritariamente os interesses de Deus.
            Isso não significa que as nossas necessidades não sejam do interesse de Deus. Visto que o próprio Senhor Jesus nos ensinou a oração, ele mesmo mostra que Deus está interessado em nós. O que devemos frisar é que toda a oração tem como objetivo central a pessoa de Deus. Conseqüentemente, nós também somos beneficiados. A segunda parte tem como principio orientador o texto de Mateus 6.8: “... porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais”. Deus é Pai que supre nossas necessidades. Ele atende nossa oração

            Nesta segunda parte, iremos estudar o primeiro tópico sobre as “necessidades do homem piedoso” em nossa oração, agindo com dependência total.
                       
1. PAI NOSSO – UM MODELO DE DEPENDÊNCIA EM ORAÇÃO, V. 11

            “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje...” v. 11

            Algo surpreendente nesta petição é a passagem da consideração da majestade de Deus e da vinda do seu reino (Mt 6.10)  para o “pão nosso”. Isso nos mostra, que o Deus que habita o alto e sublime, o Deus soberano, cuja majestade não pode ser contida por todo o universo, também se preocupa com as nossas necessidades e nos ensina a pedir por aquilo que também é necessário para a nossa existência, Is 57.15.
            Lloyd-Jones escreveu: “Esse é o milagre da redenção. Esse é o sentido mesmo da encarnação, a qual nos ensina que o Senhor Jesus Cristo cuida de nós aqui na terra, ligando-nos com o Todo-Poderoso Deus da glória. O reino de Deus e o meu pão diário”.[1]
            Uma das coisas fascinantes que este texto de um modo especial nos ensina é que o Deus que cuida do universo, dos seus diversos sistemas e galáxias, sustentando todas as coisas com o seu poder, também cuida de nós, das nossas necessidades, por mais irrelevantes que elas possam parecer. Isso nos enche de reverente gratidão e conforto.
            Calvino comenta com sensibilidade que: “Seja qual for a maneira em que Deus se agrada em socorrer-nos, ele não exige nada mais do que nós senão que sejamos agradecidos pelo socorro e o guardemos na memória”. [2]

            Qual o significado desta expressão: “o pão nosso”?
            Herminsten Maia escreveu: “O sentido básico desta petição é – o pão que é-nos necessário, dá-nos hoje, dia após dia - estando implícita nesta oração a certeza da providência de Deus, bem como a necessidade de estarmos sempre atentos a este fato, certos de que o Senhor cuida de nós dia após dia”. (Sl 37.5).[3]
            Portanto, o significado de “pão” aqui, é:
a)    Nossa comida em geral, Lc 15.17
b)    Nossas necessidades físicas, Lc 4.4
            Desta forma, o “pão deve ser entendido, neste contexto, como tudo aquilo que é necessário à nossa vida: alimento, saúde, lar, esposa, filhos, bom governo, paz, vestuário, bom relacionamento social, etc.” [4]
            Aprendemos, de forma decorrente, que Deus não menospreza o nosso corpo: ele não desconsidera as nossas necessidades vitais; Jesus nos ensina a orar também por elas. Deus cuida do homem inteiro; considera-nos como de fato somos, seres integrais, que tem carências próprias que precisam ser supridas.

            Analisemos agora algumas outras lições que podemos aprender com esta petição.

            1. Moderação
            Jesus nos ensina aqui a ser moderados em nossos desejos e petições; ele nos ensina a orar pedindo o pão, não o luxo, o supérfluo; mas, sim, o que é necessário à nossa vida, Tg 4.2; I Tm 6.8-10.
            A moderação é um aprendizado que deve nos acompanhar em toda a nossa vida. Por isso, Jesus nos ensina a começar a disciplinar as nossas orações naquilo que pedimos a Deus, pois somente assim poderemos aprender a estar contentes e a descobrir o quanto Deus nos tem dado, Fp 4.11-13.
            Aqui não há recriminação à riqueza, todavia somos alertados quanto ao seu perigo, Pv 30.8-9.
            Para Calvino, a riqueza residia em não desejar mais do que se tem e a pobreza, o oposto. Também, entendia que a prosperidade poderia ser uma armadilha para a nossa vida espiritual. Escreveu: “A nossa riqueza está em Deus, aquele que soberanamente nos abençoa. Portanto, é uma tentação muito grave, ou seja, avaliar alguém o amor e o favor divino segundo a medida da prosperidade terrena que ele alcança”.[5]

            2. Confiança
            Esta petição nos desafia a confiar no Pai Celeste, a confiar diariamente no cuidado providente de Deus. Esta oração não nos ensina a pedir para o futuro, mas, sim, a pedir para as nossas necessidades diárias; para o nosso hoje, Mt 6.25,34; Fp 4.6.
            No deserto, Deus desafiou o povo a aprender esta lição por meio do maná que lhes era concedido diariamente, Ex 16.4-5.
            Alguns homens, mais “previdentes”, tentaram ir além da ordem divina, guardaram o maná para o dia seguinte, resultado: deu bicho e apodreceu, Ex 16.20.
            O desafio de Deus era para que o povo, manhã após manhã renovasse a sua confiança nele, aprendendo a descansar nas suas promessas, sabendo que Deus não falharia, I Pe 5.7.

            3. Dependência Total
            Todos os homens por mais ricos que sejam, dependem de solo, água, clima, saúde do corpo. Todos estão sujeitos ao estado geral da economia, juntamente com outros fatores sociais, políticos, etc. Estes fatos indicam o quanto dependemos de Deus, o Senhor do universo, Sl 104.13-14, At 14.17, Mt 5.45.
            Portanto, pedir a Deus que nos dê pão significa recorrer à sua graça, para que nos sustente e não nos deixe perecer. Nesta oração está implícita a certeza de que a vida pertence a Deus. Deus é o Senhor da vida; tudo que temos e somos provém dele, por isso a ele oramos: o pão nosso de cada dia dá-nos hoje, At 17.24-28.

            4. Humildade
            Esta petição nos ensina também que, apesar de trabalharmos arduamente, sabemos que é Deus quem nos dá pão; é ele quem provê a nossa subsistência; é Deus quem nos propicia, de forma muitas vezes imperceptível, as condições para que exerçamos os nossos talentos ou, em outras circunstâncias, ele inclina o coração de outras pessoas para nos socorrer nos momentos de maior carência... o nosso sustento, seja de que modo for, vem do Senhor, a quem oramos de forma consciente: “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”, Sl 127.1-2; Tg 1.17, I Co 15.10; II Co 3.5.

            5. Generosidade
            A oração diz: “Dá-nos” e não “Dá-me”. Aqui, em nossas petições, se incluem as necessidades dos crentes em todo o mundo; quando assim oramos, estamos evidenciando que os filhos de Deus suplicam ao Pai pela manutenção de todo o seu povo espalhado por toda a face da terra, Gl 6.10; I Jo 3.17-18.
            Aqui aprendemos a não ser egoístas, preocupando-nos apenas com as nossas necessidades. Jesus nos ensina, ao mesmo tempo, a pedir e interceder; a suplicar a Deus por nós e pelo nosso próximo.
            Deste modo, temos uma lição de generosidade a ser aprendida, por isso oramos: o pão nosso de cada dia dá-nos hoje.

            Para Concluir
            Este texto: “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje” nos desafia a moderação, confiantes, em total dependência, humildes e generosos. Portanto, com esta lição, concluímos a primeira parte sobre as “necessidades do homem piedoso”.      




[1] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel. 1999, p. 355.
[2] CALVINO, João. O Livro de Salmos, São Paulo, Edições Parakletos, Vol 2, p. 213.
[3] COSTA, Herminsten Maia Pereira da. O Pai Nosso. Editora Cristã, 2001, p. 42
[4] MERKEL, F. Pão: in: BROWN, Colin. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova. 2000, Vol 3, p. 444.
[5] CALVINO, João. O Livro de Salmos, São Paulo, Edições Parakletos, Vol 1, p. 346.