sábado, 23 de fevereiro de 2013

ESTUDO Nº 19 - A ESMOLA - ATO DEVOCIONAL E SOLIDÁRIO DO REINO DE DEUS (MT 6.1-4)



INTRODUÇÃO

Continuando nossa exposição sobre o sermão do monte, iniciamos outra parte do sermão, não apenas porque se inicia um novo capítulo, mas porque tem como foco ensinar-nos a respeito de nossa devocional e piedade cristã. 

Os três exemplos de piedade cristã considerados por Jesus – as esmolas, a oração e o jejum – são tão inerentes à vida do cristão que o propósito de Jesus no Sermão não foi levar os discípulos a não praticarem essas coisas, mas ensinar-lhes a maneira correta diante de Deus. [1]

Em cada caso há um modo certo e outro e errado. Os seguidores de Jesus devem evitar toda a ostentação vaidosa e cumprir suas obrigações em quietude e discrição. 

No texto desta lição, o Senhor Jesus quer nos ensinar, através das esmolas, que todos os nossos atos solidários devem ser de cunho devocional, ou seja, tudo o que damos aos necessitados é, na verdade, dado a Deus em primeiro plano, Mt 25.40. 

Este deve ser um principio norteador para os filhos de Deus, em contraposição ao que os filhos do mundo fazem. Estes buscam a sua glorificação pessoal, visando a satisfação de seu ego depravado. 


1. A ESMOLA CRISTÃ - O QUE DIZ A BÍBLIA?

A esmola (literalmente – ato de misericórdia ou piedade) foi constituída no antigo Israel como um dever sagrado. Portanto, a ajuda ao necessitado é parte integrante da conduta ideal do povo de Deus, Dt 15.11.

Mandava a Lei que os israelitas apresentassem os primeiros frutos da terra diante do Senhor todos os anos. Todo proprietário devia, de três em três anos, repartir os dízimos dos seus produtos com estas pessoas: o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva.[2]

Havia uma benção para aqueles que se lembravam dos pobres, Sl 41.1;
Havia uma maldição para aquele que se esquecia dos pobres, Pv 21.13.

O dever de socorrer os pobres não foi desprezado pelos cristãos, Lc 14.13; At 20.35; Gl 2.10).

Aconselhavam-se os crentes em Jesus Cristo a pôr de parte no domingo, e isto todas as semanas, certa parte dos seus lucros para remediar as faltas dos necessitados, At 11.29,30; Rm 15.25 a 27 - 1 Co 16.1-4. 

Isso implica que o cristão não deve esquecer quer ter sido salvo pela graça mediante a fé e “não por obras” não contradiz a verdade de que foi salvo “para as boas obras”, Ef 2.8-10. 


2. ATO DEVOCIONAL E DISCRETO DIANTE DOS HOMENS, V. 1

Toda a prática da piedade cristã tem como foco primário a glória de Deus. Logo, as atitudes combatidas aqui, típicas dos fariseus devem ser evitadas. Não temos o porquê de sermos vistos pelos homens, mas por Deus.

a) O infiel e as boas obras – Muitos são os homens que se envolvem em obras filantrópicas. Principalmente os mais abastados. Em alguns países estes recebem destaque por isso. Só que geralmente esse destaque tem como objetivo apenas a promoção pessoal, Jo 12.43. 

b) O objetivo do homem religioso – Já o fiel deve aprender que não se recebe galardão neste mundo, mas no vindouro. Alguns pensam que quem ajuda o próximo pode ser recompensado, fazendo uma barganha com Deus, na realidade o crente tem em vista apenas o favor divino, é o agrado de Deus que ele procura, Pv 19.17.


3. O ATO DEVOCIONAL CRITERIOSO EM SUAS AÇÕES, V.2 

Para o exercício da piedade é necessário também um critério comprometido com o reino, por isso o cristão é:

a) Não chama atenção para si – O Senhor ilustra isso falando do oposto, combatendo a prática hipócrita farisaica. Eles faziam o possível para serem vistos, mas o fiel evita tal coisa, visto que não faz por si, mas por graça de Deus.  É o caso aqui dos fariseus, pois os mesmos davam esmolas “a fim de serem vistos por eles”.

Orlando Boyer, escreveu: “Se ostentamos os nossos atos de justiça diante dos homens, somos tão insensatos como as galinhas que cacarejam ao pôr seus ovos. Satanás, avisado por nosso alarido, ao praticar uma boa obra, vem logo, incita em nós o orgulho e consegue tirar de nós a recompensa”.[3]

É essa a prática que o Senhor condena. Os homens que tinham essa desvirtude foram chamados por Jesus de Hipócritas, porque pretendiam em dar, quando na verdade, tinham a intenção de receber, ou seja, as honrarias dos homens.[4]

b) Espera para mais adiante a recompensa – Como já foi dito a recompensa vem no porvir, quanto ao incrédulo, recebe os méritos e a fama de ser filantropo hoje, por seus pares, mas isso é tudo que receberá. Agindo assim, estão se privando da verdadeira recompensa, aquele que vem de Deus... “não tereis galardão junto de vosso Pai Celeste”. 


4. O HOMEM RELIGIOSO TEM EM VISTA APENAS O SENHOR, v. 3-4

Por fim, a glória de Cristo é o que move o crente a ser bondoso para com aqueles que precisam, por isso ele:

a) Deve ignorar em sua consciência o ato (v.3) – Isso não significa dar pouco crédito. A ilustração da mão aqui é apenas alegórica, visto que a mão não tem consciência.

Stott, escreveu: “A mão direita é normalmente a mão da atividade. Assim, Jesus presume que vamos usá-la ao dar a esmola. Então, ele acrescenta que a nossa mão esquerda não deve ficar olhando. Não é difícil captar o significado. Não só não devemos contar a outras pessoas sobre a nossa contribuição cristã mas, num certo sentido, não devemos sequer contar a nós mesmo”. [5]

Certamente o Senhor está nos querendo chamar atenção para o ufanismo (louvor a si mesmo) desnecessário, como se nos achássemos os mais bondosos dos homens. O homem religioso credita este ato a graça e misericórdia agindo nele, que o compele a isso.

Calvino escreveu: "Com esta expressão ele quis dizer que devemos ficar satisfeitos por termos a Deus como única teste­munha". [6]

b) Deve agir em secreto porque é visto em secreto (v.4) – Nada no crente é espalhafatoso e afetado. Ele busca o reconhecimento não de seus pares, mas daquele que vê em secreto. Por isso ao fazer qualquer boa obra não conta vantagens, nem tão pouco pede audiência para si, mas busca um reconhecimento apenas em secreto. E Aquele que vê em secreto tem capacidade para recompensar (Mt 25.34-40). 

CONCLUSÃO

Todo o procedimento do cristão é pensado meticulosamente para a glória de Deus. Ele não é religioso que solta fogos para ser visto, nem tão pouco busca o reconhecimento daqueles que apenas vê a aparência, mas o daquele que vê o coração. Diante disso, na próxima vez que você fizer uma boa obra para com o pobre ou para a igreja, lembre-se dessas palavras e busque o reconhecimento daquele que vê em secreto e somente Ele pode te recompensar da maneira dele, amém.

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[1] BARNETT, John D. Um ensino desafiador – Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Editora Cristã Evangélica, 2009. p.45. [2] CHAMPLIN, Russel Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 8. ed. São Paulo: Hagnos, 2006
[3] BOYER, Orlando. Mateus – O Evangelho do Rei. São Paulo: EMPREVAN Editora, 1973, p. 99.
[4] HENDRIKSEN, Willian. Mateus – Comentário do Novo Testamento, Vol I: Cultura Cristã, 2010 2ª Ed. p. 396.
[5] STOTT, Jonh. Contracultura Cristã. São Paulo: ABU Editora, 1982. P. 132.
[6] CALVINO, João. Comentários do Livro de Gálatas, São Paulo, Parakletos, 1998, p.173