sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

LIÇÃO 08 – DISCIPULADO – CONHECENDO A SUPREMACIA JESUS (Mt 16.13-20)



INTRODUÇÃO

Certa ocasião Jesus indagou dos seus discípulos sobre o que as pessoas estavam falando a seu respeito. “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Mt. 16.13.  Eles responderam: uns dizem que o Senhor é João Batista, outros acham que é Elias, outros Jeremias, ou generalizam achando que o Senhor é um dos profetas. É interessante sabermos que o próprio Senhor espera ouvir de nós se temos conhecimento sobre quem Ele é. Porque após as respostas, Ele pergunta: e vós quem dizeis que Eu sou? A única forma de permanecermos na presença de Deus, servindo a Ele em meio a tanta iniqüidade em nossos dias nesse mundo, é procurando conhecer ao Senhor Jesus, dia após dia. O preço para conhecer Jesus é buscar a comunhão diariamente, através da oração, meditação na Palavra consagração, assiduidade nos cultos e escola bíblica, 1 Jo 2.6. 

1. JESUS E SUA INFANCIA[1]

Pouco se sabe sobre a infância de Jesus, contudo, algumas informações dos Evangelhos canônicos - Mateus, Marcos, Lucas e João - nos deixam reconstruir este tempo da vida de Jesus, que passa sem registro direto. A infância de Jesus não era algo desconhecido pelas pessoas da época, Mt 13.54-58. Conhecemos cinco eventos da infância de Jesus, são eles:

a) Circuncisão - Ele foi circuncidado ao oitavo dia e recebeu o nome de Jesus, Lc 2.21.

b) Apresentado no templo - Ele foi apresentado no templo e também foi "redimido" pelo pagamento dos cinco ciclos. Para efeito de sua purificação, Maria fez a oferta dos pobres, Lv 12.8; Lc 2.24.

c) Visita dos Magos - Um grupo de "sábios" apareceu em Jerusalém, inquirindo acerca do nascimento de um "rei dos judeus", Mt 2.2.

d) Fuga para o Egito - Deus disse a José que fugisse para o Egito com toda a família. Após a morte de Herodes, José voltou, e fixou residência em Nazaré.

e) Visita ao Templo - Quando tinha aproximadamente 12 anos, Jesus conversou com os dirigentes religiosos sobre a fé judaica. Ele revelou extraordinária compreensão do verdadeiro Deus, e suas respostas deixaram-nos admirados, Lc 2.41-52.


2. JESUS E A SUA NATUREZA[2]

Jesus não disse que veio trazer uma verdade. Ele disse "Eu sou a verdade", Jo 14.6. Jesus não veio trazer simplesmente uma religião, nem uma filosofia, nem um conjunto de regras como código de conduta. Jesus veio trazer Ele mesmo.  Por isso devemos conhecê-lo e saber o que ele fez por nós.

a) Jesus Existia Antes de Todas as Coisas, Jo 1.1-3.
Sabemos pelas Escrituras que Jesus nasceu em Belém da Judéia. Mas isso não encerra o assunto. Ele existia muito antes de nascer em Belém. Não como homem, mas como o Verbo de Deus. O Verbo nunca foi criado, Ele era Deus e sempre existiu. Foi ele quem criou todas as coisas, Cl 1.15-17.

b) Tornou-se Homem, Jo 1.14; Fp 2.6-8
Quando o Verbo se fez carne foi o próprio criador assumindo a forma de uma de suas criaturas. A humilhação de Jesus não começou na cruz, mas sim em Belém, quando tomou a forma de um simples homem. Quando o Verbo se fez carne Ele se esvaziou de sua glória de Deus (Jo 17.5), isto é, Ele se esvaziou dos atributos (qualidades e capacidades) de Deus, mas nunca deixou de ser a Pessoa do Verbo. Ele continuou sendo o Verbo, mas agora em carne humana esvaziado de sua glória, mas não totalmente. Ele tinha em sua humanidade toda glória possível da verdade e da graça de Deus, Jo1.14.

c) Teve uma Vida Perfeita e Irrepreensível, I Pe 2.22
Primeiro Jesus se esvaziou tornando-se homem. Depois, como homem, continuou se esvaziando. De que forma? Não fazendo nunca a sua própria vontade Fp 2.8.
Jesus veio para fazer sempre a vontade do Pai, Jo 4.34; 8.29.
Por isso as Escrituras dizem que Ele nunca cometeu pecado. Porque nunca fez a sua própria vontade, Hb 4.15, I Jo 3.5.
O diabo tentou Jesus desde o princípio para que Ele fizesse a sua própria vontade, mas Jesus sempre permaneceu obediente ao Pai até a morte e morte de cruz.

d) Fez uma Obra Tremenda e Grandiosa, At 10.38.
Ele curou enfermos, deu a vista aos cegos, ressuscitou mortos, andou sobre as águas, multiplicou alimentos, pregou às multidões, fez discípulos e ensinou-lhes a agradar o pai. Com que poder Ele fez isto? Ele não fez nada como Deus, pois havia se esvaziado da forma de Deus e vivia como homem. Portanto ele precisava do poder do Espírito Santo para fazer a obra de Deus, Mt 12.28; Lc 4.16-19

Tudo que Jesus fez foi pelo poder do Espírito Santo de Deus. Este mesmo Espírito está sobre aqueles que o conhecem Jesus como Senhor e Salvador, At 1.8; Jo 14.12


3. JESUS E O SEU PROPÓSITO REDENTIVO[3]

a) Jesus compartilhou dos nossos sofrimentos em sua vida
Durante a Sua vida na terra, Jesus experimentou todos os problemas da vida que enfrentamos. Assim sendo, Ele compreende os nossos sentimentos, Hb 4.15; Mt 8.17

b) Jesus morreu na cruz por nós
Homens malvados tomaram o Senhor Jesus e O executaram, crucificando-o numa cruz de madeira, como no caso de um criminoso comum. Ele poderia ter salvo a Si Próprio, mas não o fez, pois foi através da Sua morte na Cruz que Deus salvaria o mundo dos eleitos. Jesus morreu por nós! Mc 15:16-39; 1 Pe 2:24; Is 53:5,6.

c) Jesus ressuscitou dos mortos por nós
Depois de permanecer três dias na sepultura, Deus ressuscitou o Seu Filho dos mortos, I Co 15.13-19

d) Jesus abriu a porta do céu para nós
Quando a Sua obra na terra foi completada, Jesus voltou ao Céu para ficar com Deus, o Seu Pai. Mas isto também foi por nós... pois Ele abriu para nós o caminho para a presença de Deus, onde podemos habitar agora e para sempre, Hb 10.19-22; Jo 14.1-3


Para Concluir:

Sendo Jesus divino, Ele deve ser posto num nível infinitamente superior aos homens que já existiram, principalmente os fundadores de religião: Buda, Maomé, Confúcio, Alan Kardec e outros. A obra realizada por Jesus é singular, definitiva e impar. Somente Ele morreu pelo homem pecador. Logo, o cristianismo não é uma religião de ideias, mas dos atos de Deus na História. Outros líderes religiosos destacam-se por aquilo que ensinaram. Jesus, porém, por aquilo que Ele é: Deus que se tornou homem. Jesus Cristo é o único meio de se chegar até Deus. Ele é caminho para Deus.[4]

O autor aos Hebreus, no preâmbulo de sua carta (Hb 1.1-3) destaca de dez atributos de Jesus, mostrando-nos sua supremacia: Jesus é a última palavra de Deus ao homem; Jesus é o Filho de Deus; Jesus é o Herdeiro de todas as coisas; Jesus é o criador do universo; Jesus é a expressão exata do ser de Deus; Jesus é o resplendor máximo da glória de Deus; Jesus é o sustentador do universo; Jesus é o único que nos purifica do pecado; Jesus depois de morrer e ressuscitar retornou ao céu; Jesus está à destra de Deus, intercedendo pela igreja e governando o universo.[5]



[1] BORCHET, Otto. O Jesus Histórico. São Paulo: Edições Vida Nova, 1985, p. 172.
[2] KISTEMAKER, Simon. Os Milagres de Jesus. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009.
[3] BLOMBERG, Craig. Jesus e os evangelhos: Uma introdução ao estudo dos 4 evangelhos. São Paulo: Editora Vida Nova, 2009.
[4] SPROUL, R. C. A Glória de Cristo. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
[5] LOPES, Hernandes Dias. Colossenses: A suprema grandeza de Cristo, o cabeça da Igreja. São Paulo: Hagnos, 2008. 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A INUTILIDADE DE UMA PROFISSÃO MERAMENTE EXTERNA DO CRISTIANISMO – Mateus 7.21-29


Nem que todos os que dizem “Senhor, Senhor” entrarão no reino dos céus. Nem todos os que professam o cristianismo, ou se dizem cristãos, serão salvos.

Prestemos atenção a este fato: para salvar uma alma é preciso muito mais do que a maioria das pessoas parece julgar necessário. Podemos ate ter sido batizado em nome de Cristo, e nos orgulhar presunçosamente em nossos privilégios eclesiásticos. Podemos ser donos de grande conhecimento intelectual, e estar bem satisfeitos com a nossa condição. Podemos até mesmo ser pregadores e mestres sobre outrem e fazer “muitas obras maravilhosas” em conexão com a Igreja a que pertencemos. Mas, durante esse tempo, temos praticado a vontade do Pai celeste? Temos verdadeiramente nos arrependido? Temos realmente confiado em Cristo e vivido vidas santas e humildes? Se assim não for, a despeito de todos os nossos privilégios,  e do nosso professo cristianismo, perderemos o céu afinal, e se remos rejeitados para todo o sempre. Ouviremos aquelas terríveis palavras: “Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade”.

O dia do juízo final haverá de revelar coisas muito estranhas. As esperanças de muitos dos que foram considerados grandes cristãos, quando em vida, serão totalmente vãs. A corrupção de sua religião será desmascarada e lançada ao opróbrio, perante os olhos do mundo inteiro. E então ficará provado que, para ser salvo, é necessário muito mais  do que apenas “uma profissão de fé”. Devemos praticar o nosso cristianismo, tanto quanto professá-lo. Que nós com frequência nos lembremos desse grande dia do juízo, e nos julguemos a nós mesmos, para não sermos julgados e condenados  (I Co 11.31) pelo Senhor. Sem importar o que mais sejamos, que o nosso alvo consistia em sermos reais, verdadeiros e sinceros.

Extraído do Livro “Meditações no Evangelho de Mateus” de J. C. Ryle
Editora Fiel, pág. 50-51.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

DEVEMOS NOS ACAUTELAR DOS FALSOS PROFETAS – Mateus 7.13-20


A conexão entre esta passagem e a anterior é impressionante. Queremos ficar bem longe do “caminho largo”? Então, devemos estar precavidos contra falsos profetas, pois haverão de surgir. Eles começaram a aparecer já nos dias dos apóstolos. Desde aquele tempo as sementes do erro têm sido lançadas. Desde então, eles tem aparecido continuamente. Precisamos estar preparados contra eles, mantendo-nos sempre em guarda.

Esta advertência de que muito precisamos. Há milhares de pessoas que parecem estar sempre prontas a crer em qualquer coisa que ouvirem, desde que venha dos lábios de alguém que tenha o título de ministro religioso. Esquecem-se que um clérigo pode errar, tanto quanto um leigo. Eles não são infalíveis. O que eles ensinam precisa ser confrontado com os ensinamentos das Sagradas Escrituras. Só devemos seguir tais ministros, e crer no que ensinam enquanto as doutrinas por eles ensinadas concordarem com a Bíblia, e nem um minuto a mais. Devemos fazer prova deles, pelos “seus frutos”. Sã doutrina e a vida santa são sinais característicos dos verdadeiros profetas. Lembremo-nos disto. Os erros dos nossos ministros não justificam os nossos próprios erros. “Se um cego guiar outro cego, cairão ambos no barranco” (Mt 15.14).

Qual a melhor salvaguarda contra falsos ensinamentos? Sem sobra de dúvida, a resposta é o estudo regular da Palavra de Deus, sempre acompanhado de uma oração que rogue a iluminação do Espírito Santo. A Bíblia foi nos outorgada para ser uma Lâmpada para os nossos pés e luz para os nossos caminhos (Sl 119.105).  Deus não permitirá que quem a ler corretamente caia em algum erro irremediável. A negligência para com a Bíblia é que faz tantas pessoas se tornarem presas fáceis do primeiro falso mestre que aparecer. Tais pessoas querem nos fazer acreditar que não são “estudados”, nem têm a “pretensão” de terem opiniões bem formadas. A verdade é que são preguiçosos, negligenciam a leitura da Bíblia, e não querem ter o trabalho de pensar por si mesmos. Não existe nada que forneça tantos seguidores para os falsos profetas do que a preguiça espiritual, disfarçada sob uma capa de humildade.

Que todos nós possamos sempre ter em mente a advertência do Senhor! O mundo, o diabo e a carne não são os únicos perigos no caminho cristão. Há ainda um outro: o “falso profeta”, o lobo disfarçado em pele de ovelha. Feliz é quem estuda a Bíblia e ora, e sabe a diferença entre a verdade e o engodo, na religião! Existe uma diferença, e nós deveríamos reconhecê-la muito bem, fazendo uso do conhecimento que nos foi outorgado.

Extraído do Livro “Meditações no Evangelho de Mateus” de J. C. Ryle
Editora Fiel, pág. 49-50.

domingo, 8 de dezembro de 2013

AFINAL, O QUE ESTÁ DE ERRADO COM A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE? - Rev. Augustus Nicodemus


Apesar de até o presente só ter melhorado a vida dos seus pregadores e fracassado em fazer o mesmo com a vida dos seus seguidores, a teologia da prosperidade continua a influenciar as igrejas evangélicas no Brasil.

Uma das razões pela qual os evangélicos têm dificuldade em perceber o que está errado com a teologia da prosperidade é que ela é diferente das heresias clássicas, aquelas defendidas pelos mórmons e "testemunhas de Jeová" sobre a pessoa de Cristo, por exemplo. A teologia da prosperidade é um tipo diferente de erro teológico. Ela não nega diretamente nenhuma das verdades fundamentais do Cristianismo. A questão é de ênfase. O problema não é o que a teologia da prosperidade diz, e sim o que ela não diz.

- Ela está certa quando diz que Deus tem prazer em abençoar seus filhos com bênçãos materiais, mas erra quando deixa de dizer que qualquer bênção vinda de Deus é graça e não um direito que nós temos e que podemos revindicar ou exigir dele.

- Ela acerta quando diz que podemos pedir a Deus bênçãos materiais, mas erra quando deixa de dizer que Deus tem o direito de negá-las quando achar por bem, sem que isto seja por falta de fé ou fidelidade de nossa parte.

- Ela acerta quando diz que devemos sempre declarar e confessar de maneira positiva que Deus é bom, justo e poderoso para nos dar tudo o que precisamos, mas erra quando deixa de dizer que estas declarações positivas não têm poder algum em si mesmas para fazer com que Deus nos abençoe materialmente.

- Ela acerta quando diz que devemos dar o dízimo e ofertas, mas erra quando deixa de dizer que isto não obriga Deus a pagá-los de volta.

- Ela acerta quando diz que Deus faz milagres e multiplica o azeite da viúva, mas erra quando deixa de dizer que nem sempre Deus está disposto, em sua sabedoria insondável, a fazer milagres para atender nossas necessidades, e que na maioria das vezes ele quer nos abençoar materialmente através do nosso trabalho duro, honesto e constante.

- Ela acerta quando identifica os poderes malignos e demônicos por detrás da opressão humana, mas erra quando deixa de identificar outros fatores como a corrupção, a desonestidade, a ganância, a mentira e a injustiça, os quais se combatem, não com expulsão de demônios, mas com ações concretas no âmbito social, político e econômico.

- Ela acerta quando diz que Deus costuma recompensar a fidelidade mas erra quando deixa de dizer que por vezes Deus permite que os fiéis sofram muito aqui neste mundo.

- Ela está certa quando diz que podemos pedir e orar e buscar prosperidade, mas erra quando deixa de dizer que um não de Deus a estas orações não significa que Ele está irado conosco.

- Ela acerta quando cita textos da Bíblia que ensinam que Deus recompensa com bênçãos materiais aqueles que o amam, mas erra quando deixa de mostrar aquelas outras passagens que registram o sofrimento, pobreza, dor, prisão e angústia dos servos fiéis de Deus.

- Ela acerta quando destaca a importância e o poder da fé, mas erra quando deixa de dizer que o critério final para as respostas positivas de oração não é a fé do homem mas a vontade soberana de Deus.

- Ela acerta quando nos encoraja a buscar uma vida melhor, mas erra quando deixa de dizer que a pobreza não é sinal de infidelidade e nem a riqueza é sinal de aprovação da parte de Deus.

- Ela acerta quando nos encoraja a buscar a Deus, mas erra quando induz os crentes a buscá-lo em primeiro lugar por aquelas coisas que a Bíblia constantemente considera como secundárias, passageiras e provisórias, como bens materiais e saúde.

A teologia da prosperidade, à semelhança da teologia da libertação e do movimento de batalha espiritual, identifica um ponto biblicamente correto, abstrai-o do contexto maior das Escrituras e o utiliza como lente para reler toda a revelação, excluindo todas aquelas passagens que não se encaixam. Ao final, o que temos é uma religião tão diferente do Cristianismo bíblico que dificilmente poderia ser considerada como tal. Estou com saudades da época em que falso mestre era aquele que batia no portão da nossa casa para oferecer um exemplar do livro de Mórmon ou da Torre de Vigia...

Fonte: [ O Tempora, O Mores! ]

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

LIÇÃO 07 – DISCIPULADO – PROSSIGA EM CONHECER A DEUS (Os 6.1-6)


INTRODUÇÃO
            A maior fraqueza na igreja hoje é uma falta do conhecimento de Deus. Muitos são como os samaritanos, de quem Jesus disse: “Vós adorais o que não sabeis;” (João 4:22). João 17:3 mostra a importância de conhecer a Deus: E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”.

O que poderia ser mais importante que isso?
A infalibilidade bíblica é o fundamento da fé cristã e a doutrina de Deus é o fundamento do qual as outras doutrinas dependem. Portanto o cristão deve se esforçar para alcançar o entendimento correto de Deus. E todo entendimento correto que temos a respeito de Deus só pode vir de sua própria palavra, por intermédio de quem temos a apresentação correta sobre a Pessoa e o Ser de Deus.
Através das Escrituras, percebemos as virtudes e os atributos de Deus, os quais nos dizem não quem Ele é em si mesmo, mas, antes, o que Ele é em relação a nós, de sorte que este conhecimento dele consista mais de viva experiência do que vazia e leviana especulação.
A existência de Deus é vista por toda Escritura Sagrada, o que significa que qualquer assunto que quisermos saber a respeito de Deus, só encontraremos nas Escrituras.

1. O CONHECIMENTO DE DEUS
“Há um só Deus vivo e verdadeiro, o qual é infinito em seu ser e perfeições. Ele é um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões; é imutável, imenso, eterno, incompreensível, - onipotente, onisciente, santíssimo, completamente livre e absoluto, fazendo tudo para a sua própria glória e segundo o conselho da sua própria vontade, que é reta e imutável. É cheio de amor, é gracioso, misericordioso, longânimo, muito bondoso e verdadeiro remunerador dos que o buscam e, contudo, justíssimo e terrível em seus juízos, pois odeia todo o pecado; de modo algum terá por inocente o culpado”.[1]

O personagem principal da Bíblia é Deus. O maior mandamento da Bíblia é amar a Deus. O mais alto privilégio que um homem pode ter é conhecer a Deus (Jo 17.3). A Bíblia salienta a importância de conhecer a Deus, Os 4.1; Cl 1.9-10.

Há limitações em nosso esforço para conhecer a Deus. Os homens não podem ver a face de Deus, Êx 33.18-23. Isto significa que o homem não somente não pode enxergar a aparência física de Deus, mas significa também que nesta vida jamais poderemos totalmente conhecer a Deus, Rm 11.33. Nossas limitações, contudo, não deverão impedir-nos de conhecer a Deus o quanto pudermos, Sl 145:1-5.

2. AS ESCRITURAS REVELAM QUEM É DEUS [2]
Deus nos revela nas Escrituras, suas muitas qualidades: 

1. Deus é eterno, Sl 90.2; Jd 25 - É difícil até mesmo imaginar um ser que sempre existiu e sempre existirá, eterno e imutável. Tudo o mais teve um começo, terá um fim e sempre está mudando. 

2. Deus é onisciente. Ele sabe tudo: tudo o possível, tudo real, todos os eventos e todas as criaturas, do passado, o presente e o futuro. Ele está perfeitamente familiarizado com cada detalhe na vida de cada ser no céu, na terra e no inferno, (Dn 2.22). Nada escapa à Sua atenção, nada pode ser escondido dEle, nada é esquecido por ele, (Sl 139.6) . Seu conhecimento é perfeito. Ele nunca erra, nunca muda, nunca esquece nada, (Hb 4.13).
3. Deus tem todo o poder. Ele é, frequentemente, descrito como "Todo-poderoso". Que grande e espantoso Deus! Deus impera sobre tudo. "Sabei que o Senhor é Deus: foi ele quem nos fez e dele somos; somos o seu povo, e rebanho do seu pastoreio" (Salmo 100:3). Esta é a razão mais fundamental para obedecer a Deus. Ele nos possui; ele tem o direito de mandar e imperar. Foi-nos dada por Deus a capacidade, porém não o direito, de desobedecer, Rm 9.12-23.

3. CONHECENDO DEUS ATRAVÉS DE SEUS NOMES [3]
Dr John Gill, que com muita clareza e sobriedade, nos dá um entendimento relevante a respeito do estudo dos nomes de Deus e de sua necessidade de apresentação.

“Tratar sobre a existência de Deus, e das coisas de Deus, é próprio começar com seus nomes e onde o nome de Deus não é conhecido, ele mesmo não pode ser conhecido e por isso a consideração de seu nome, ou nomes, é digno de respeito, porque eles servem para conduzir-nos a respeito de algum conhecimento de sua natureza e perfeições…”[4]

NOME
SIGNIFICADO
REFERENCIAS BÍBLICAS
Elohim
Soberano Criador
Gn1.26,27
El-Shaddai
Deus Todo Poderoso, Onipotente.
Gn 17.1
El-Elyon
Deus Altíssimo
Dn 4.2 e 5.18
Adonai
Deus como Governante todo-poderoso
Pv 9.10
Jehovah/Yhaweh
“EU SOU” Aquele que se revela
Êx 3.14
Jehovah Jireh
O Senhor proverá
Gn 22.14.
Jehovah Rapha
O Senhor que cura
Ex 15.25,26.
Jehovah Nissi
O Senhor é a nossa bandeira
Ex 17.15
Jehovah Shalom
O Senhor é a minha paz
Jz 6.24
Jehovah Rohi
O Senhor é meu pastor
Sl 23.1
Jehovahtsidkenu:
O Senhor é a nossa Justiça
Jr 23.6.
Jehovah-Shammah
O Senhor está aqui
Ez 48.35.
Jeová-M’kadesh
Deus que santifica
Lv 20.7-8
Jeová-Tsebaô
Senhor dos Exércitos
Sl 46.7
Fonte [5]

4. NOSSA RESPOSTA AO CONHECIMENTO DE DEUS.
Cada vez que as Escrituras mencionam que homens encontraram a Deus, lemos que eles caíram diante dele em temor e reverência (Is 6). Aqueles que chegam a entender a natureza de Deus, se humilham diante dele, Hb 12.28-29.

1. Temos que ser reverentes quando falamos sobre Deus.Jamais devemos falar de Deus por brincadeira; não devemos sequer falar dele negligentemente; e não devemos nunca tomar seu santo nome em vão. Frequentemente dizem, "Ó meu Deus" ou "Ó meu Deus do céu", sem pensar, Ex 20.7: Sl 39.3.

2. Temos que ser reverentes quando falamos a Deus. A magnificência de Deus deverá certamente levar-nos a adorá-lo de forma correta, o contrário produz morte, Lv 10.1-2.
Adorar a Deus com os lábios, enquanto a mente se distrai, e adorar a Deus de acordo com fórmulas e modelos inventados pelos homens é expressamente proibido, Mt 15.8-9. 

3. Temos que ser reverentes quando ouvimos as palavras de Deus. Em Neemias 8, Esdras lia a lei desde manhã cedo até o meio dia, enquanto todo o povo, de pé, ouvia atentamente. Eles, então, estavam querendo obedecer, em cada detalhe, a palavra que lhes era lida, Ec 5.1.

Para Concluir:
O Senhor Jesus chega a dizer que aqueles que conhecem a Ele e ao Pai, não são chamados de servos, mas sim de amigos, ou seja, o conhecimento muda o tipo de relacionamento, de senhor e servo para um relacionamento de amizade com Deus!
Conhecer a Deus ultrapassa a linha do que pode ser ensinado ou aprendido de forma didática. Conhecer a Deus é fruto de intimidade e relacionamento, de abertura e acolhimento. Conhecer a Deus e ser conhecido por ele é o único caminho para a mais completa e real experiência transformadora. Se Deus te chama para esta jornada põe-te a caminho e vai, a liberdade te espera.


[1] A Confissão de Fé, O Catecismo Maior, O Breve Catecismo. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1991, pág. 12
[2] PINK, A. W. Os Atributos de Deus. São Paulo, PES, 1990. 
[3] BANCROFTE. H. Teologia Elementar. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 2005.
[4] GILL, John. A Body of Doctrinal 7 Pratical Divinity,  Chaper 3, Of ther  Names of God, Book
[5] HICKEY, Marilyn, Os Nomes de Deus. Rio de Janeiro: Editora Adhonep, 1994, pág  211.

A CENSURA É PROIBIDA; A ORAÇÃO É ENCORAJADA - Mt 7.1-12


A primeira parte destes versículos é uma das passagens bíblicas que precisamos ter o cuidado de não forçar para além do seu devido significado. Esta parte e freqüentemente corrompida e aplicada de modo errôneo pelos inimigos da verdadeira religião. É possível pressionar de tal maneira as palavras da Bíblia que elas acabam produzindo não o remédio espiritual, e, sim, veneno. Nosso Senhor não intenciona de modo algum dizer que é errado proferir um juízo desfavorável sobre a conduta e a opinião de outras pessoas. Precisamos de opiniões bem formadas e decididas. Devemos julgar “todas as cousas” (1 Ts 5.21). Devemos provar “os espíritos” (1 Jo 4.1). Nem, tampouco, Cristo quis dizer que seja errado reprovar os pecados e as faltas de outras pessoas, enquanto nós mesmos não tenhamos atingido a perfeição e não estejamos destituídos de falta. Tal interpretação seria uma contradição a outras passagens da Escritura. Isso tornaria impossível condenar o erro e as falsas doutrinas. Seria um impedimento para qualquer um que desejasse ser ministro do evangelho ou juiz. A terra estaria nas mãos dos perversos (Jó 9.24). As heresias se espalhariam. Os malfeitores se multiplicariam por toda a parte. O que nosso Senhor condena é um espírito crítico que em tudo encontra alguma falta. A prontidão em condenar as pessoas por causa de pequenas coisas ou questões de pouca importância, o hábito de fazer julgamentos duros e precipitados, e de sempre pensar o pior – isso tudo nosso Senhor nos proíbe. Essas coisas eram comuns entre os fariseus, e continuam sendo comuns desde aquela época, até hoje. Todos precisam vigiar para não cairmos em tal erro. O amor “tudo crê, tudo espera” das outras pessoas, e nós deveríamos ser muito vagarosos em procurar defeitos no nosso próximo. Esse é o verdadeiro amor cristão (1 Co 13).

Extraído do Livro Meditações no Evangelho de Mateus de J. C. Ryle
Editora Fiel, pág. 45.
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OS RICOS ENCORAJAMENTOS À ORAÇÃO


OS RICOS ENCORAJAMENTOS À ORAÇÃO

Existe uma maravilhosa conexão entre esta lição e aquele que lhe antecede. Queremos saber quando estar em “silencio” e quando “falar”? quando devemos apresentar as coisas “santas” e quando expor as nossas “pérolas”? Então devemos orar. Este é um assunto ao qual o Senhor Jesus evidentemente atribui grande importância. A linguagem que ele usa é uma prova clara. Ele emprega três vocábulos diferentes para exprimir a idéia de oração: “pedi... buscai... batei...” Jesus reserva as maiores e mais ricas promessas para os que oram. “pois todo o que pede, recebe”. Ele ilustra a disposição de Deus em ouvir as nossas orações, mediante um argumento extraído da prática corriqueira dos pais para com os seus filhos. Ainda que os pais sejam maus e egoístas por natureza, não negligenciam as necessidades de seus filhos segundo a carne. Muito mais um Deus de amor e misericórdia atenderá aos clamores daqueles que são seus filhos, mediante a graça. Será que sabemos pedir, buscar e bater? Por que razão não saberíamos? Nada existe tão simples e claro quanto a oração, se o homem tem o desejo de orar. Mas, infelizmente, não existe nada que os homens menos se disponham a fazer. Eles fazem uso de muitas formas de religiosidade, cumprem muitas ordenanças e fazem muitas coisas que estão certas, mas não estão dispostos a orar. Todavia, sem oração, nenhuma alma jamais se salvará.

Extraído do Livro Meditações no Evangelho de Mateus de J. C. Ryle
Editora Fiel, pág. 47.
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POR QUE NÃO ACEITO OS EVANGELHOS APÓCRIFOS - Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Vamos iniciar perguntando o que é um “evangelho”. O termo é a tradução da palavra grega euaggelion, “boas novas”, usada a princípio para se referir ao conteúdo da mensagem de Jesus Cristo e dos seus apóstolos. Posteriormente, a palavra veio se referir a um gênero literário específico que nasceu com o Cristianismo no séc. I. Lembremos que o Cristianismo, em termos culturais, ocasionou o surgimento, não somente de novas músicas, mas também de gêneros literários como epístolas e evangelhos.

Esse novo gênero literário tinha algumas características distintas. Incluía obras escritas entre o séc. I e o séc. IV por autores cristãos que giravam em torno da pessoa de Cristo, sua obra e seus ensinamentos. Essas obras reivindicam autoria apostólica ou de alguma outra personagem conhecida da tradição cristã. Reivindicavam também que seu conteúdo remontava ao próprio Jesus.

Existem centenas de “evangelhos” conhecidos. Alguns são apenas mencionados na literatura dos Pais da Igreja e deles não temos qualquer amostra do conteúdo. Outros sobreviveram em fragmentos ou reproduzidos em parte em outras obras, como, por exemplo:
  • Evangelho dos Hebreus
  • Evangelho dos Ebionitas (ou dos Doze Apóstolos)
  • Evangelho dos Egípcios
  • Evangelho Desconhecido
  • Evangelho de Pedro, para mencionar alguns.

Já outros, sobreviveram em cópias completas ou quase, como:
  • Os Evangelhos canônicos de Mateus, de Marcos, Lucas e de João,
  • Evangelho de Tomé
  • Evangelho de Judas
  • Evangelho de Nicodemus
  • Proto-Evangelho de Tiago
  • Evangelho de Tomé o Israelita
  • Livro da Infância do Salvador
  • História de José, o Carpinteiro
  • Evangelho Árabe da Infância
  • História de José e Asenate
  • Evangelho Pseudo-Mateus da Infância
  • Descida de Cristo ao Inferno
  • Evangelho de Bartolomeu
  • Evangelho de Valentino, entre outros.
Esses evangelhos são tradicionalmente classificados em canônicos e apócrifos.

Evangelhos Canônicos

Nessa primeira categoria se enquadram somente 4 evangelhos, os Sinóticos e João. Conforme a tradição patrística e da Igreja em geral, eles foram escritos no séc. I pelos apóstolos de Jesus Cristo ou alguém do círculo apostólico. Marcosteria sido o primeiro a ser escrito, no início da década de 60, por João Marcos, que segundo a tradição, registrou o testemunho ocular de Simão Pedro. Ele escreveu aos cristãos de Roma para ajudá-los e fortalecê-los diante das perseguições.

Mateus teria sido escrito em meados da década de 60 por Mateus, o publicano apóstolo, para evangelizar os judeus, a partir do seu testemunho ocular e usando talvez o Evangelho de Marcos como base para a estrutura da narrativa.

Lucas, escrito pelo médico gentio Lucas, convertido ao Cristianismo, que foi companheiro de viagem de Paulo e que freqüentava o círculo apostólico, teria produzido esse evangelho pelo final da década de 60, a partir de pesquisa que fez da tradição oral e escrita que remontava aos próprios apóstolos. Seu objetivo, conforme declaração no início da obra Lucas-Atos, era firmar na fé um nobre romano chamado Teófilo.

Já o Evangelho de João teria sido escrito pelo apóstolo amado por volta da década de 70 ou 80, com aparentemente vários objetivos, entre eles combater o crescimento do gnosticismo. João escreve a partir de seu testemunho ocular, a partir do seu entendimento acerca da pessoa e da obra de Cristo.

Esses 4 evangelhos cedo foram reconhecidos pela Igreja cristã nascente como inspirados por Deus e autoritativos, como Escritura Sagrada, visto que seus autores foram apóstolos, a quem Jesus havia prometido o Espírito Santo para os guiar em toda a verdade (Mateus e João), ou alguém proximamente relacionado com eles (Lucas e Marcos). Assim, eles aparecerem em listas importantes dos livros recebidos como canônicos pela igreja, como o Cânon Muratório (170 d.C.), a lista de Eusébio de Cesareia (260-340) e a lista de Atanásio (367).

Os demais evangelhos, chamados de apócrifos, implicitamente reconhecem a validade do critério canônico da apostolicidade, ao reivindicar para si também a autoria apostólica e o conhecimento de segredos que não foram revelados aos apóstolos.

Evangelhos Apócrifos

O nome vem do grego apocryphon, “oculto”, “difícil de entender”. Esses evangelhos são geralmente classificados em narrativas da infância de Jesus, narrativas da vida e da paixão de Jesus, coleção de ditos de Jesus e diálogos de Jesus.

As narrativas da infância mais conhecida são o Proto-Evangelho de Tiago, Evangelho de Tomé o Israelita, o Livro da Infância do Salvador, a História de José, o Carpinteiro, o Evangelho Árabe da Infância, a história de José e Asenate e o Evangelho Pseudo-Mateus da Infância. Entre as narrativas da vida ou paixão de Cristo mais importantes se destacam o Evangelho de Pedro, o Evangelho de Nicodemus, o Evangelho dos Nazarenos, o Evangelho dos Hebreus, o Evangelho dos Ebionitas e o Evangelho de Gamaliel.

Existem apenas dois que se enquadram na categoria de coleção de ditos de Jesus, o Evangelho de Tomé e o suposto documento Q (quelle, “fonte” em alemão), do qual não se tem prova concreta da existência. Na categoria de diálogos de Jesus com outras pessoas e revelações que ele fez em secreto mencionamos o Diálogo com o Salvador e o Evangelho de Bartolomeu.

Essas obras são chamadas de evangelhos apócrifos por que não são considerados como obras genuínas, produzidas pelos apóstolos ou pelos supostos autores. Além disso, pretendem transmitir um conhecimento esotérico, oculto, além daquele conhecimento dos apóstolos. Em grande parte, esses evangelhos foram escritos por autores gnósticos com o propósito de difundirem as suas idéias no meio da igreja, usando para isso a autoridade dos evangelhos canônicos e dos apóstolos. Alguns deles foram encontrados século passado em Nag Hammadi, norte do Egito.

O Proto-evangelho de Tiago, por exemplo, escrito no século II, que descreve o nascimento e a infância de Jesus e a juventude da Virgem Maria, é tipicamente uma tentativa de satisfazer à curiosidade popular em torno de coisas não mencionadas nos evangelhos canônicos. A teologia desse "evangelho" é a de um docetismo popular: Jesus tem um corpo não sujeito às leis do espaço e do tempo. O escrito não tem valor como fonte histórica sobre Jesus.

Outro exemplo é o Evangelho da Verdade. Esse não é um evangelho no sentido costumeiro da palavra; é antes uma meditação, uma espécie de sermão sobre a redenção pelo conhecimento (gnosis) de Deus. É atribuído ao gnóstico Valentino, que viveu em meados do século II e por conseguinte, não ajuda em nada a pesquisa sobre o Jesus histórico. Na mesma linha vai o Evangelho de Filipe, escrito antes de 350. É, evidentemente, uma compilação de materiais mais antigos. O texto causou certo sensacionalismo quando da sua publicação, porque sugere uma relação amorosa entre Jesus e Maria Madalena. O Evangelho de Pedro – um fragmento que se conservou – descreve o processo contra Jesus, sua execução e sua ressurreição. Sua cristologia é a do docetismo: aquele que sofre e morre é apenas uma aparição do verdadeiro Jesus, que é divino e por isso não pode sofrer e morrer. Conforme esse evangelho, o corpo de Jesus se volatiliza na cruz antes de subir ao céu.

É preciso dizer que existem vários destes evangelhos apócrifos que foram compostos por autores cristãos desconhecidos, não gnósticos, e que aparentam refletir um tipo de cristianismo popular marginal. A maior parte deles pretende suprir a falta de informação histórica nos evangelhos canônicos, fornecendo detalhes sobre a infância de Jesus, diálogos dele com os apóstolos, informações sobre Maria e demais personagens que aparecem nos evangelhos tradicionais. Em alguns casos, parece que foram escritos para defender doutrinas não apostólicas e que estavam começando a ganhar corpo dentro do Cristianismo, como por exemplo, o conceito de que Maria é mãe de Deus e medianeira. O Proto-Evangelho de Tiago, já do séc. III, explica porque Maria foi a escolhida: por sua virgindade e santidade, e a defende como mãe de Deus e medianeira.

Alguns contém exemplos morais não recomendáveis. Por exemplo, o Evangelho de Tomé, o Israelita, narra diversos episódios em que o menino Jesus amaldiçoa e mata quem fica em seu caminho. Quase todos são recheados de histórias lendárias e bobas, como o Evangelho de Nicodemus, que narra como José de Arimatéia, Nicodemus e os guardas do sepulcro se tornaram testemunhas da ressurreição de Jesus. É um livro cheio de lendas, fantasias e histórias fantásticas.

Os evangelhos apócrifos usaram diversas fontes em sua composição: o Antigo Testamento, os próprios evangelhos canônicos e as cartas de Paulo. Usaram também tradições cristãs extra-canônicas, de origem desconhecida e suas próprias idéias e conceitos.

A Atitude da Igreja para com os Evangelhos Apócrifos

No período pós-apostólico alguns desses Evangelhos chegaram a ser recebidos por um tempo, como leitura proveitosa, como o Evangelho de Pedro, a princípio recomendado por Serapião, bispo de Antioquia em 191 d.C., mas depois, ele mesmo reconhece que ele tem elementos estranhos e o desrecomenda. Assim, nenhum deles jamais foi reconhecido como autêntico e apostólico.

Desde cedo a Igreja Cristã rejeitou estas obras, pois não preenchiam o critério de canonicidade: não foram escritas pelos apóstolos ou por alguém ligado a eles, contradiziam a doutrina cristã, tinham exemplos e recomendações morais e éticas pouco recomendáveis, e seus autores falsamente atribuíram a autoria aos apóstolos, como por exemplo, o Evangelho de Tomé, de Pedro, de Bartolomeu, de Filipe. Além do mais, suas histórias fantásticas acerca de Cristo claramente revelavam seu caráter especulativo e supersticioso, ao contrário da sobriedade e da seriedade dos evangelhos bíblicos. Não é de admirar, portanto, que eles não aparecem em nenhuma das listas canônicas, onde os 4 evangelhos canônicos aparecem.

Aqui cabe-nos mencionar o testemunho de Eusébio em sua História Eclesiástica, ao falar do Evangelho de Pedro, Tomé e Matias:
"Nenhum desses livros tem sido considerado digno de menção em qualquer obra de membros de gerações sucessivas de homens da Igreja. A fraseologia deles difere daquela dos apóstolos; e opinião e a tendência de seu conteúdo são muito dissonantes da verdadeira ortodoxia e claramente mostram que são falsificações de heréticos. Por essa razão, esse grupo de escritos não deve ser considerado entre os livros classificados como não autênticos, mas deveriam ser totalmente rejeitados como obras ímpias".
Essa postura prevaleceu até a Reforma Protestante e o período posterior chamado de ortodoxia protestante. Com a chegada do método histórico-crítico, filho do Iluminismo e do racionalismo, passou-se a negar a autoria apostólica e a inspiração divina dos Evangelhos canônicos. Os mesmos passaram a ser vistos como produção da fé da Igreja, sem valor real para a reconstrução do Jesus histórico. Dessa perspectiva, os evangelhos apócrifos chegaram então a ser considerados como literatura tão válida como os canônicos para nos dar informações sobre o Cristianismo nascente, embora não sobre o Jesus histórico.

O renascimento do interesse pelos evangelhos apócrifos, em particular, os gnósticos.

A partir da visão crítica defendida pelo liberalismo teológico e pelo método histórico-crítico, em anos recentes os evangelhos escritos pelos gnósticos passaram a receber grande atenção e importância nos estudos neotestamentários das origens do Cristianismo e na chamada busca do Jesus histórico.

Vários fatos têm contribuído para isso. Primeiro, o surgimento do Jesus Seminarnos Estados Unidos, considerada a 3ª. etapa da busca do Jesus histórico iniciada pelos liberais do século XVIII. Um de seus membros mais conhecidos, cujas obras têm sido traduzidas e publicadas no Brasil é John Dominic Crossan. Em sua obra O Jesus Histórico: A vida de um camponês judeu do mediterrâneo de 1991, ele emprega os apócrifos Evangelho de Pedro e especialmente o Evangelho de Tomé para a reconstrução do Jesus histórico. Segundo Crossan, essas duas obras são mais antigas que os Evangelhos canônicos e contém informações importantes que não foram incluídas em Mateus, Marcos, Lucas e João. Essa atitude de Crossan é característica dos demais membros do Jesus Seminar e de muitos outros eruditos neotestamentários, que aceitam a autoridade dos evangelhos apócrifos, especialmente os gnósticos, acima daquela dos canônicos. Aqui podemos mencionar Elaine Pagels, cuja obra Os Evangelhos Gnósticos, recentemente traduzida e publicada em português, vai nessa mesma direção.

Segundo, a publicidade e o sensacionalismo da grande mídia em torno da descoberta e publicação dos textos dos evangelhos gnósticos, como o Evangelho de Judas e de Tomé. A mídia tem difundido a teoria de que a Igreja cristã teria ocultado e guarda até hoje outros evangelhos que remontam à época de Jesus e que contradiriam e refutariam totalmente o Cristianismo tradicional e ortodoxo. A veiculação pela mídia vai na mesma linha de propaganda e especulações anticristãs voltadas mais diretamente contra a Igreja Católica Romana e que acaba respingando nos protestantes, especialmente as igrejas históricas. Em 2004 foi o Evangelho de Tomé. Em 2006 foi a vez do Evangelho de Judas ganhar a capa de revistas populares pretensamente científicas. A ignorância dos articulistas, o preconceito anticristão, a busca do sensacionalismo, tudo isso contribuiu para que a publicação do manuscrito copta do Evangelho de Judas recebesse uma atenção muito maior do que a devida. Em 2007 foi a suposta sepultura de Jesus, uma inscrição antiga contendo o nome de Tiago, irmão de Jesus, e outras “descobertas” arqueológicas, fizeram a festa da mídia em anos mais recentes.

Não se deve pensar que essa atitude é um fenômeno atual. Desde os primórdios do Cristianismo, escritores pagãos como Celso e Amiano Marcelino publicam material atacando as Escrituras e o Cristianismo. Estou acostumado a assistir, anos a fio, a exploração sensacionalista dessas descobertas. Quando da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto e das polêmicas e questões inclusive legais que envolveram a tradução e a publicação dos primeiros rolos, a imprensa da época especulava que os Manuscritos representariam o fim do Cristianismo, pois traria informações que contradiriam completamente o Evangelho. Os anos se passaram e verificou-se a precipitação da imprensa. Os rolos na verdade tiveram o efeito contrário, confirmando a integridade e autenticidade do texto massorético do Antigo Testamento.

Terceiro, produções de Hollywood como “O Código da Vinci”, “O Corpo”, “Estigmata”, “A última Ceia de Cristo” que se baseiam nesses evangelhos gnósticos têm servido para difundi-los popularmente.

O Evangelho de Judas

Examinemos mais de perto os dois evangelhos gnósticos que têm atraído recentemente a atenção da academia e do público em geral, que são os evangelhos de Judas e de Tomé.

Evangelho de Judas preservou-se em um manuscrito copta do século IV, que supostamente conteria uma tradução do evangelho apócrifo grego de Judas, cuja origem é estimada em meados do século II. A restauração e a tradução do manuscrito copta foram anunciados em 6 de abril de 2006, pela National Geographic Society em Washington.

Não se trata da descoberta do Evangelho de Judas. O mesmo já é um velho conhecido da Igreja cristã. Elaborado em meados do século II, provavelmente na língua grega, era conhecido de Irineu, um dos pais apostólicos. Na sua obraContra as Heresias, Irineu o menciona explicitamente, como sendo uma obra espúria produzida pelos gnósticos da seita dos Cainitas. No século V o bispo Epifânio critica o Evangelho de Judas por tornar o traidor em um feitor de boas obras.

Não se trata também da descoberta de um manuscrito antes desconhecido contendo essa obra. Acredita-se que o único manuscrito conhecido, escrito em copta, foi descoberto em meados da década de 1950 e depois de uma longa peregrinação nas mãos de colecionadores, bibliotecas, comerciantes de antiguidades e peritos, chegou às mãos das autoridades. Sua existência foi anunciada ao mundo em 2004. Trata-se de um códice com 25 páginas de papiro, envoltas em couro, das 62 páginas do códice original. Somente essas 25 páginas foram resgatadas pelos especialistas. A tradução que veio a lume em 2006 é dessas páginas.

O que é de fato novo é a tradução do texto desse apócrifo, texto até então desconhecido. Contudo, o ponto central que a mídia tem destacado com sensacionalismo, já era conhecido mediante as citações de Irineu e Epifânio, ou seja, que esse evangelho procura reabilitar Judas da pecha de traidor, transformando-o em vítima e herói.

Várias matérias publicadas na mídia diziam que Judas Iscariotes é o autor desse evangelho. Contudo, não existe prova alguma disso. Segundo o relato dos quatro Evangelhos canônicos, Judas suicidou-se após a traição. Como poderia ser o autor dessa obra? Irineu, no século II, atribuía a autoria do evangelho de Judas aos Cainitas, uma seita gnóstica. No códice descoberto e agora publicado, não consta somente o evangelho atribuído a Judas, mas duas obras a mais: a “Carta a Filipe” atribuída ao apóstolo Pedro e “Revelação de Jacó”, relacionado com o patriarca hebreu. A presença do evangelho de Judas em meio a essas duas obras apócrifas é mais uma prova da autoria espúria desse evangelho. Chega a ser irritante o preconceito da mídia, que sempre veicula matérias que negam a autoria tradicional dos Evangelhos canônicos, mas que rapidamente atribui a Judas Iscariotes a autoria desse apócrifo.

O manuscrito que agora foi traduzido não data do século II, mas do século IV. Especula-se que é uma tradução para o copta de uma obra mais antiga escrita em grego, que por sua vez dataria de meados do século II. Daí a inferir a autoria de Judas Iscariotes, que morreu na primeira parte do século I, vai uma grande distância. A seita dos Cainitas, segundo Irineu em Contra as Heresias, era especialista em reabilitar personagens bíblicas malignas, como Caim, os sodomita e Judas. A produção de um evangelho reabilitando o traidor se encaixa perfeitamente no perfil da seita.

Ao final, pesando todos os fatos e filtrando o sensacionalismo e o preconceito anticristão, a publicação do evangelho de Judas em nada contribuirá para nosso conhecimento do Judas Iscariotes histórico e muito menos do Jesus histórico – servirá apenas para nosso maior conhecimento das crenças gnósticas do século II. Não representa qualquer questionamento sério do relato dos Evangelhos canônicos, cuja autoria e autenticidade são muito mais bem atestadas, datam do século I e receberam reconhecimento e aceitação universal pelos cristãos dos primeiros séculos.

O Evangelho de Tomé

Esse Evangelho consiste numa coleção de 114 ditos que Jesus supostamente teria ditado a seu irmão gêmeo, Tomé. Ele faz parte da livraria gnóstica descoberta em Nag Hammadi em meados do século passado. O que temos é um manuscrito copta, tradução de uma versão em grego desse Evangelho, datada do séc. III. Calcula-se que o evangelho original deve ter sido escrito no séc. II.

Não se trata de um evangelho no sentido usual do termo, visto que não contém qualquer narrativa sobre o nascimento, ministério ou paixão de Cristo. Trata-se de uma coleção de ditos de Jesus sem qualquer moldura geográfica, temporal ou histórica que nos permita localizar quando, onde e em que contexto Jesus os teria pronunciado. Calcula-se que foi escrito na região da Síria, onde existem tradições sobre o apóstolo Tomé e onde se sediava a seita dos encratitas, ascéticos que defendiam uma forma heterodoxa de Cristianismo.

Apesar de trazer muitas citações dos evangelhos canônicos, a teologia do Evangelho de Tomé é abertamente gnóstica. Defende a salvação através do conhecimento secreto e esotérico que Jesus revelou a seu discípulo Tomé. Está eivado das dicotomias e dualismos característicos do pensamento gnóstico mais evoluído do séc. II. Trata-se claramente de uma produção dos mestres gnósticos, que se valeram dos evangelhos canônicos e do nome do apóstolo Tomé para divulgar e espalhar suas crenças.

Como reagimos a tudo isso?

Apesar de todos os esforços da mídia e dos liberais, não se consegue provar que os evangelhos gnósticos foram escritos no primeiro século. Eles são produções posteriores aos canônicos e que se valeram dos canônicos como fontes. O maior argumento dos liberais para provar que o Evangelho de Tomé, contendo ditos de Jesus, foi escrito no séc. I antes dos canônicos depende da existência do suposto proto-Evangelho “Q”, a qual nunca foi provada.

O testemunho dos pais apostólicos é unânime em rejeitar esses evangelhos e atribuí-los a falsificações feitas pelos gnósticos com o propósito de espalhar suas ideais e ensinamentos. O conteúdo deles é distintamente diferente dos evangelhos canônicos e da religião ensinada no Antigo Testamento.

As reconstruções do Jesus histórico feitas pelos que dão prioridades aos apócrifos, especialmente os evangelhos gnósticos, deixam sem explicação o surgimento das tradições escatológicas a respeito dele que hoje encontramos nos Evangelhos canônicos. Nem mesmo a tese da “imaginação criativa da comunidade” defendida pela crítica da forma pode explicar satisfatoriamente como um camponês judeu, com idéias e estilo de vida de um filósofo cínico, praticando o curandeirismo entre o povo simples, cheio de idéias gnósticas, acabou por ser transformado no Cristo que temos nos Evangelhos em tão curto espaço de tempo, e ainda com as testemunhas oculares dos eventos ainda vivas.

Fonte: O Tempora, O Mores!