domingo, 23 de dezembro de 2012

ONDE JESUS ESTEVE ENTRE OS 13 E 30 ANOS?


Por Augustus Nicodemus Lopes

A revista Aventuras na História da Editora Abril publicou uma matéria onde requenta a velha teoria de que Jesus, dos 13 aos 30 anos, viveu em países estrangeiros aprendendo mágica, filosofia e alquimia, antes de se apresentar em Israel como o esperado Messias dos judeus. Vários evangelhos apócrifos são mencionados como fonte para esta especulação.

A matéria é entediante, além de revelar a mais completa ignorância dos estudos bíblicos e arqueológicos relacionados com a vida de Jesus Cristo. É igual às outras publicações sensacionalistas de fim de ano, que se aproveitam do Natal todo ano para interessar os curiosos e ignorantes tecendo teorias absurdas sobre a vida de Jesus.

A razão pela qual os Evangelhos não nos dizem nada sobre Jesus dos 13 aos 30 anos é por que os Evangelhos não são biografias no sentido moderno do termo, onde se conta toda a história da vida do biografado, desde seu nascimento até a sua morte, dando detalhes da sua infância, adolescência, mocidade, vida adulta e velhice. Os Evangelhos, como o nome já diz, foram escritos para evangelizar, isto é, para anunciar as boas novas da salvação mediante a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto, o que da vida de Jesus interessa aos Evangelhos é seu nascimento sobrenatural, para estabelecer de saída a sua divindade, seu ministério público a partir dos 30 anos, quando fez sinais e prodígios e ensinou às multidões, e sua morte e ressurreição que são a base da salvação que ele oferece. Não há qualquer interesse biográfico na adolescência e mocidade de Jesus, pois nesta época, viveu e cresceu como um rapaz normal.

Assim mesmo, algumas informações dos Evangelhos canônicos - Mateus, Marcos, Lucas e João - nos deixam reconstruir este tempo da vida de Jesus, que passa sem registro direto. Lemos que quando Jesus começou a fazer milagres e a ensinar em sua própria cidade, Nazaré, os moradores estranharam muito pelo fato de que eles conheciam Jesus desde a infância:

"E, chegando à sua terra, ensinava-os na sinagoga, de tal sorte que se maravilhavam e diziam: Donde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes miraculosos? Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto? E escandalizavam-se nele. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, senão na sua terra e na sua casa. E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles". (Mat 13:54-58 ARA)
Percebe-se pela passagem acima que os moradores da cidade conheciam Jesus e toda a sua família. Se Jesus tivesse passado estes 27 anos fora da cidade, certamente não haveria esta reação.

Além do mais, o ensino de Jesus acerca da Lei, dos mandamentos, do Reino de Deus , as suas parábolas e suas ilustrações são todas tiradas do Judaísmo, das Escrituras do Antigo Testamento e das terras da Palestina. Ele está familiarizado com a agricultura, o cuidado de ovelhas, o mercado, o sistema financeiro e legal da Palestina. Estas coisas teriam sido impossíveis se ele tivesse passado todos estes anos recebendo treinamento teológico e místico em outro país, outra cultura, outra religião. Não há absolutamente nada no ensino de Jesus que tenha se originado na religião egípcia, persa, mesopotâmica do da índia, todas elas politeístas, cheias de deuses e totalmente panteístas. O ensino de Jesus, ao contrário é monoteísta e criacionista.

Estas lendas bobas da sua infância são tiradas de "evangelhos" apócrifos e espúrios, cuja análise já fiz e ofereci aos meus leitores aqui. 

É impressionante, todavia, que ainda estão dando importância a este fragmento de um suposto "evangelho da esposa de Jesus" mesmo após autoridades em manuscritologia e papirólogos terem rejeitado sua importância e mesmo sua autenticidade. Escrevi aqui sobre o tal fragmento.

No fundo, a razão para todas estas especulações é a rejeição do quadro simples e claro que os Evangelhos nos pintam acerca de Jesus, como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que nasceu, viveu e morreu para que pudéssemos ter o perdão de pecados e a vida eterna.

O AMOR AO PRÓXIMO - UM MANDAMENTO INCONCEBÍVEL (MT 5.43-48)


INTRODUÇÃO 

Neste estudo estamos encerrando a segunda parte do Sermão do Monte. Durante este período abordamos o sentido espiritual da Lei do Antigo Testamento. Iniciamos com Jesus declarando ter vindo a cumprir a Lei e os profetas, não a revogá-los (Mateus 5.17-19).

Em seguida abordamos o ponto central, no qual o Senhor afirmou que a nossa justiça deve ser muito superior àquela falsa imagem de justiça aparente demonstrada pelos religiosos da época, os fariseus e escribas (Mateus 5.20).

A partir disso, o Senhor passou a ilustrar por meio de vários exemplos (Mateus 5.21-48) a forma errada em que os fariseus e escribas interpretavam a lei de Deus, mostrando também como é que nós, discípulos de Jesus, devemos encarar os ensinamentos de Deus.

Note que todos os ensinamentos sobre homicídio (versos 21-26), sobre o adultério e o divórcio (v.27-32), sobre os falsos juramentos (v.33-37) ou sobre a vingança (v.38-42), se resumem nisto: o amor ao próximo.

O próprio Senhor Jesus ensinou, em outra ocasião, que a lei e os profetas se resumem em duas coisas: amar a Deus por sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (Marcos 12.33). Se tivermos verdadeiro amor não precisamos de instruções detalhadas sobre como agir com as pessoas. É por isto que o amor é a lei de Cristo (João 15.12), a centralidade do evangelho do novo testamento.


1. AS INSTRUÇÕES DO ANTIGO TESTAMENTO E AS INTERPRETAÇÕES DOS MESTRES.

Os mestres da época de Jesus (fariseus e escribas) ensinavam o seguinte: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo”. Ora o interessante deste ensinamento é que a primeira parte dele estava na Lei, mas a segunda não. Não existe nenhum texto do Antigo Testamento que afirme que os judeus deviam odiar seus inimigos (Lv 19.17-18).

Por que então ensinavam assim?


Os mestres da época pensavam assim a respeito deste texto: “como o texto fala de não se vingar nem guardar ira contra os filhos do povo, mas que se deve amar o próximo, então o próximo é apenas o filho do meu povo”.[1] A conseqüência disto é que nem estrangeiros nem inimigos deviam ser considerados como próximos. Contudo, eles ainda continuavam errados, pois a Lei mostrava o modo como deveria ser tratados os estrangeiros e inimigos (Dt 23.7; Êx 23.4-5). 

E qual a justificativa dessa interpretação?


Segundo Lloyd-Jones, elas podem ter sido baseadas em dois aspectos principais da lei do Antigo Testamento: 

a) Motivos históricos: No AT, encontramos ordens de Deus para que os judeus aniquilassem os povos que habitavam na terra de Canaã e inimigos de Israel, Dt 7.2; 20.16; 23.6. 

b) Os salmos imprecatórios: São aqueles nos quais o salmista clama pela justiça e ira divina sobre os seus inimigos. (Ex. 69.24-26).

Que resposta se pode dar a estas justificativas?

O Senhor foi muito claro que não se tratava de vingança e nem ódio, mas que se tratava da aplicação do justo juízo de Deus contra os povos que praticavam coisas abomináveis. Temos como exemplos, o dilúvio nos tempos de Noé, a destruição de Sodoma e Gomorra, a destruição dos cananeus e a deportação de Judá a Babilônia [2]

Contudo, O Senhor não se agrada em ter que aplicar os seus justos juízos (Ez 33.11).

2. AS INSTRUÇÕES DE JESUS, v. 39-42

O ensinamento do Senhor Jesus, além de excluir a interpretação dos escribas e fariseus, vai mais longe ainda dizendo o seguinte: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5.44). Ao invés de odiarmos, como o faziam os religiosos daquela época, Ele nos manda a amar os inimigos. Não nos compete apenas fazermos o bem aos inimigos, mas também amá-los com compaixão.

Quem é o nosso próximo?


Stott, assim definiu: “O nosso próximo, como Jesus exemplificou na parábola do bom samaritano (Lc 10.29-37), não é neces­sariamente um membro de nossa própria raça, classe social ou religião. Pode até nem ter qualquer ligação conosco. Pode ser nosso inimigo, que está à nossa procura com um punhal ou com uma arma de fogo. Nosso "próximo", no vocabulário de Deus, inclui o nosso inimigo. O que o faz ser nosso próximo é simplesmente o fato de ser um ser humano em necessidade, da qual tenhamos tomado conhecimento, estando em nós a possi­bilidade de aliviá-la de alguma forma”.[3] 
Para um melhor entendimento vamos usar textos sinóticos entre Mateus e Lucas: 

a) Amai e fazer o bem os vossos inimigos, v. 44a (Lc 6.27)


Amar a quem nos ama é algo natural que segue uma espontânea correspondência. Amar a quem não nos ama, pelo contrário, nos ofende, demanda esforço (coração) e determinação (vontade), bem como um motivo muito forte – DEUS, Rm 5.6-8,10.[4] 

Mas, mesmo sendo odiado, é dever do cristão buscar o bem-estar material e espiritual do próximo, Rm 12.17-21; Lc 6.35; Ex 23.4-5. 

b) Bendizer e orar pelos que vos perseguem, v. 44b (Lc 6.28)


Para orar por quem nos persegue é necessário amar tal pessoa. Escreveu Bonhoeffer. "Na oração colocamo-nos ao lado do inimigo, es­tamos com ele, junto dele, por ele diante de Deus.” [5] 

Jesus orou por seus atormentadores enquanto os cravos de ferro estavam sendo introduzidos em suas mãos e pés (Lc 23:34). O diácono Estevão orou por aqueles que, enfurecidos, o apedrejavam (At 7.60).

Mesmo que eles invoquem o desastre e a catástrofe sobre as nossas cabeças, expressando em palavras o seu desejo de nos ver cair, devemos retribuir invocando as bênçãos dos céus sobre eles, declarando em palavras que só lhes desejamos o bem. (I Pe 3.8-9)

3. A APLICABILIDADE DA PERFEIÇÃO CRISTÃ, v. 45-48

a) Para que vos torneis filhos do vosso Pai Celeste, v. 45.


Os escribas e fariseus faziam do ódio aos inimigos parte integrante de sua religião. Ao contrário disso, o que nos identifica como filhos de Deus é o amor para com todos indistintamente. 

O amor divino é amor indiscriminado, para com os bons e maus. Os teólogos (segundo Calvino) chamam a isto de “graça comum” de Deus. Esta graça comum de Deus expressa-se, então, não no dom da salvação (graça salvadora), mas nos dons da criação, e nas não menos importantes bênçãos da chuva e do sol, sem as quais não poderíamos comer, nem poderia a vida no planeta continuar (At 14.17). 

b) Sede vós perfeitos, v. 48 

1. Não significa impecabilidade – Em parte alguma da Bíblia encontramos que o homem pode alcançar, nesta vida, a perfeição moral (doutrina da perfeição cristã), como ensinado em algumas religiões.

2. Não significa igualdade com Deus – é conveniente dizer e pensar em ser santo ou perfeito porque Deus é santo e perfeito. O texto paralelo de Lc 6.36 ajuda a entendermos que Deus nos chama para sermos perfeitos em amar, ou seja, amarmos até os nossos inimigos com a mesma qualidade do amor de Deus.

3. Significa maturidade – Desde que os seres humanos foram feitos à imagem e semelhança de Deus, tornam-se “perfeitos” (maduros) quando tentam demonstrar em suas vidas as características que revelam a natureza de Deus, Fp 3.12-15.[6]

PARA CONCLUIR:

O mundo mais do que nunca, está precisando de pessoas que ajam assim, e esta é a proposta divina para nós, de “vencer o mal com o bem” (Rm 12.21), de ser perfeitos, ser diferentes. Busquemos esta perfeição. Se não estamos agindo assim, ainda há tempo para à correção... “sede vós perfeitos...” 

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[1] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel. 1999, p. 254. 
[2] STOTT, John. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 116. 
[3] ___________. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 118. 
[4] MARTINS, Valter Graciano. A Plataforma do Reino. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. p. 18 
[5] BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. Sinodal: 1984, p. 62. 
[6] MOUNCE, Robert H. Mateus – Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. São Paulo: Editora Vida, 1985. p. 62