domingo, 16 de setembro de 2012

GOSPEL DE RAPINA


Por Walter McAlister

Soube hoje que as Igrejas Cristãs Nova Vida, da qual sou o Bispo Primaz, foram notificadas de que teriam de pagar direitos autorais pela execução de músicas de “louvor” nos seus cultos. Cada uma de nossas igrejas ficaria, assim, responsável por declarar o número de membros e a frequência aos seus cultos, para que fosse avaliado o imposto a ser pago ao Christian Copyright Licensing International (CCLI), sociedade que realiza a arrecadação e a distribuição de direitos autorais decorrentes da execução pública de músicas nacionais e estrangeiras. Por sua vez, o CCLI repassaria o valor devido aos compositores cujas músicas estão cadastradas.

São poucas as vezes em que me vejo sequestrado por um assunto do momento aqui no blog. Tenho como norma pessoal não me deixar levar pelas “últimas”. Já há bastante alvoroço em torno de assuntos efêmeros e não precisam da minha voz para somar à confusão instaurada por “notícias” e controvérsias. Não obstante essa regra que tento seguir, não posso me calar ante esse fato. Já deixei passar algumas horas até que a minha revolta se acalmasse, para que, no seu lugar, pudesse me expressar com clareza e me reportar às Escrituras como regra. Pois, em meio ao transtorno, ninguém se contém e acaba por pecar pelo excesso. Isso não quer dizer que me sinta menos convicto sobre o que tenho a dizer, mas quero realmente trazer uma perspectiva lúcida.

Comecemos pelo que constitui o direito autoral e o porquê da sua existência. Seria justo que alguém lucrasse pelo trabalho, a inspiração e a arte de outro sem que o autor da obra participasse dos lucros? Certamente que não. Cada emissora de rádio, show ou outro tipo de empreendimento com fins lucrativos deve prestar a devida parcela do seu lucro a quem ajudou a produzir essa arte.

Por outro lado, a Igreja é um empreendimento com fins lucrativos? Não – segundo a definição do próprio Estado brasileiro. Ela goza de certos privilégios, na compreensão de que a sua atividade é religiosa, devota e piedosa e, sendo assim, sem fins lucrativos. Que muitos “lucram” em nome da Igreja ninguém duvida. Mas, em termos estritamente definidos pela legislação, não é um empreendimento que tenha como finalidade o lucro.

Louvar a Deus é uma atividade que gera rentabilidade? Também não. Quando cantamos ao Senhor, estamos nos expressando a Deus em sacrifício santo e agradável a Ele (se bem que não caem nesta categoria muitas das músicas que doravante serão objeto de taxação, por decreto-lei). Mas, para manter o fio da meada desta reflexão, suponhamos que as músicas adocicadas, sem fundamento em qualquer real princípio cristão, emotivas e, em alguns casos, passionais (para não dizer sensuais) sejam realmente louvor (algo que tenho tentado ensinar a nossa denominação que não são). Cantar essas músicas traz lucro para a igreja? A resposta é não. A igreja não lucra. Não há um centavo a mais caindo nas salvas porque cantamos uma música de uma dessas cantoras gospel da moda em vez de Castelo Forte. É possível fazer um culto fundamentado apenas nas músicas riquíssimas do Cantor Cristão e da Harpa Cristã (para não falar nos Vencedores por Cristo, cuja maioria das canções não recai sobre este novo decreto-lei).

Esses cantores e essas cantoras têm o apoio de empresários da fé. Homens que também lucram absurdamente às custas da boa-fé de pessoas a quem prometem uma vida de lucro pelo seu envolvimento. Não me surpreende ver a lista de “notáveis” que apoiam essa iniciativa.

Agora, esses cantores que se venderam para emissoras de televisão, que ganham fortunas nas suas turnês “gospel” e pela venda de incontáveis CDs e DVDs, não estão satisfeitos. Querem mais. Querem “enterrar os ossos”. Tornaram-se mercadores da fé, e com essa última cartada, suas máscaras caem por terra. Que máscaras? As que fazem com que acreditemos que eles realmente creem que o culto é para Deus somente. Para eles, a igreja não passa de fonte de lucro. A igreja não passa de um negócio. Sim, porque, por essa ação, afirmam não acreditar que a igreja seja uma assembleia de sacrifício. Para eles, a igreja é uma máquina de dinheiro. Sua eclesiologia é clara. Suas lágrimas de comoção são teatro. Seus gestos de mãos erguidas não passam de encenação.

A despeito do meu repúdio por esse grupo de músicos “cristãos”, fico grato a eles por uma razão. Tenho tentado ensinar a denominação que lidero a ser mais criteriosa na escolha das músicas cantadas nos cultos. Por força da popularidade desses “superastros do louvor” a pressão da juventude e dos músicos da igreja tem sido quase insuportável. Então cantam as músicas sem devocionalidade real deles e delas para o enlevo de pessoas que nem precisavam confessar Jesus para cantá-las com comoção. Graças ao mercantilismo dos tais, vou emitir uma circular para as nossas igrejas em que instruirei todas a pagar os direitos autorais devidos caso queiram insistir em usar as referidas músicas da moda em seus cultos.

Os que não querem fazer parte desse mercado de rapina receberão uma lista compreensiva de músicas que continuam sendo de domínio público, inclusive as que compus e pelas quais nunca recebi nem quero receber um centavo. Graças a Deus, são os bons e velhos hinos que têm conteúdo e substância, confissão e verdadeiro testemunho do Evangelho. Há centenas de hinos antigos que vamos tirar das prateleiras e redescobrir. Podemos aprendê-los e retrabalhá-los para torná-los atuais aos nossos dias, com arranjos interessantes. Músicas escritas por santos e não por crianças. Músicas escritas para a glória de Deus e não para lucro sórdido. Sim, faleisórdido. Pois os atuais já lucraram com o que é legítimo. Agora vão atrás do resto. É um gospel de rapina. Sinto-me na necessidade de tomar um banho, pois essa história me forçou a passear pelo lamaçal onde esses chafurdam para encher a própria barriga – que é o seu deus, afinal.

Que bom que já me acalmei, pois realmente tinha vontade de dizer muito mais.

Na paz,
+W


Fonte: Site do autor

ESTUDO Nº 18 - O AMOR AO PRÓXIMO - UM MANDAMENTO INCONCEBÍVEL (MT 5.43-48)


INTRODUÇÃO 

Neste estudo estamos encerrando a segunda parte do Sermão do Monte. Durante este período abordamos o sentido espiritual da Lei do Antigo Testamento. Iniciamos com Jesus declarando ter vindo a cumprir a Lei e os profetas, não a revogá-los (Mateus 5.17-19). 

Em seguida abordamos o ponto central, no qual o Senhor afirmou que a nossa justiça deve ser muito superior àquela falsa imagem de justiça aparente demonstrada pelos religiosos da época, os fariseus e escribas (Mateus 5.20). 

A partir disso, o Senhor passou a ilustrar por meio de vários exemplos (Mateus 5.21-48) a forma errada em que os fariseus e escribas interpretavam a lei de Deus, mostrando também como é que nós, discípulos de Jesus, devemos encarar os ensinamentos de Deus. 

Note que todos os ensinamentos sobre homicídio (versos 21-26), sobre o adultério e o divórcio (v.27-32), sobre os falsos juramentos (v.33-37) ou sobre a vingança (v.38-42), se resumem nisto: o amor ao próximo. 

O próprio Senhor Jesus ensinou, em outra ocasião, que a lei e os profetas se resumem em duas coisas: amar a Deus por sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (Marcos 12.33). Se tivermos verdadeiro amor não precisamos de instruções detalhadas sobre como agir com as pessoas. É por isto que o amor é a lei de Cristo (João 15.12), a centralidade do evangelho do novo testamento. 

1. AS INSTRUÇÕES DO ANTIGO TESTAMENTO E AS INTERPRETAÇÕES DOS MESTRES 
Os mestres da época de Jesus (fariseus e escribas) ensinavam o seguinte: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo”. Ora o interessante deste ensinamento é que a primeira parte dele estava na Lei, mas a segunda não. Não existe nenhum texto do Antigo Testamento que afirme que os judeus deviam odiar seus inimigos (Lv 19.17-18). 

Por que então ensinavam assim? 
Os mestres da época pensavam assim a respeito deste texto: “como o texto fala de não se vingar nem guardar ira contra os filhos do povo, mas que se deve amar o próximo, então o próximo é apenas o filho do meu povo”.[1] A conseqüência disto é que nem estrangeiros nem inimigos deviam ser considerados como próximos. Contudo, eles ainda continuavam errados, pois a Lei mostrava o modo como deveria ser tratados os estrangeiros e inimigos (Dt 23.7; Êx 23.4-5). 

E qual a justificativa dessa interpretação? 
Segundo Lloyd-Jones, elas podem ter sido baseadas em dois aspectos principais da lei do Antigo Testamento: 

a) Motivos históricos: No AT, encontramos ordens de Deus para que os judeus aniquilassem os povos que habitavam na terra de Canaã e inimigos de Israel, Dt 7.2; 20.16; 23.6. 

b) Os salmos imprecatórios: São aqueles nos quais o salmista clama pela justiça e ira divina sobre os seus inimigos. (Ex. 69.24-26). 

Que resposta se pode dar a estas justificativas? 
O Senhor foi muito claro que não se tratava de vingança e nem ódio, mas que se tratava da aplicação do justo juízo de Deus contra os povos que praticavam coisas abomináveis. Temos como exemplos, o dilúvio nos tempos de Noé, a destruição de Sodoma e Gomorra, a destruição dos cananeus e a deportação de Judá a Babilônia [2]

Contudo, O Senhor não se agrada em ter que aplicar os seus justos juízos (Ez 33.11). 

2. AS INSTRUÇÕES DO JESUS, v. 39-42 
O ensinamento do Senhor Jesus, além de excluir a interpretação dos escribas e fariseus, vai mais longe ainda dizendo o seguinte: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5.44). Ao invés de odiarmos, como o faziam os religiosos daquela época, Ele nos manda a amar os inimigos. Não nos compete apenas fazermos o bem aos inimigos, mas também amá-los com compaixão. 

Quem é o nosso próximo? 
Stott, assim definiu: “O nosso próximo, como Jesus exemplificou na parábola do bom samaritano (Lc 10.29-37), não é neces­sariamente um membro de nossa própria raça, classe social ou religião. Pode até nem ter qualquer ligação conosco. Pode ser nosso inimigo, que está à nossa procura com um punhal ou com uma arma de fogo. Nosso "próximo", no vocabulário de Deus, inclui o nosso inimigo. O que o faz ser nosso próximo é simplesmente o fato de ser um ser humano em necessidade, da qual tenhamos tomado conhecimento, estando em nós a possi­bilidade de aliviá-la de alguma forma”.[3]

Para um melhor entendimento vamos usar textos sinóticos entre Mateus e Lucas: 

a) Amai e fazer o bem os vossos inimigos, v. 44a (Lc 6.27) 
Amar a quem nos ama é algo natural que segue uma espontânea correspondência. Amar a quem não nos ama, pelo contrário, nos ofende, demanda esforço (coração) e determinação (vontade), bem como um motivo muito forte – DEUS, Rm 5.6-8,10.[4]
Mas, mesmo sendo odiado, é dever do cristão buscar o bem-estar material e espiritual do próximo, Rm 12.17-21; Lc 6.35; Ex 23.4-5. 

b) Bendizer e orar pelos que vos perseguem, v. 44b (Lc 6.28) 
Para orar por quem nos persegue é necessário amar tal pessoa. Escreveu Bonhoeffer. "Na oração colocamo-nos ao lado do inimigo, es­tamos com ele, junto dele, por ele diante de Deus.” [5]

Jesus orou por seus atormentadores enquanto os cravos de ferro estavam sendo introduzidos em suas mãos e pés (Lc 23:34). O diácono Estevão orou por aqueles que, enfurecidos, o apedrejavam (At 7.60). 

Mesmo que eles invoquem o desastre e a catástrofe sobre as nossas cabeças, expressando em palavras o seu desejo de nos ver cair, devemos retribuir invocando as bênçãos dos céus sobre eles, declarando em palavras que só lhes desejamos o bem. (I Pe 3.8-9) 

3. A APLICABILIDADE DA PERFEIÇÃO CRISTÃ, v. 45-48 

a) Para que vos torneis filhos do vosso Pai Celeste, v. 45. 
Os escribas e fariseus faziam do ódio aos inimigos parte integrante de sua religião. Ao contrário disso, o que nos identifica como filhos de Deus é o amor para com todos indistintamente. 

O amor divino é amor indiscriminado, para com os bons e maus. Os teólogos (segundo Calvino) chamam a isto de “graça comum” de Deus. Esta graça comum de Deus expressa-se, então, não no dom da salvação (graça salvadora), mas nos dons da criação, e nas não menos importantes bênçãos da chuva e do sol, sem as quais não poderíamos comer, nem poderia a vida no planeta continuar (At 14.17). 

b) Sede vós perfeitos, v. 48 

1. Não significa impecabilidade – Em parte alguma da Bíblia encontramos que o homem pode alcançar, nesta vida, a perfeição moral (doutrina da perfeição cristã), como ensinado em algumas religiões. 

2. Não significa igualdade com Deus – é conveniente dizer e pensar em ser santo ou perfeito porque Deus é santo e perfeito. O texto paralelo de Lc 6.36 ajuda a entendermos que Deus nos chama para sermos perfeitos em amar, ou seja, amarmos até os nossos inimigos com a mesma qualidade do amor de Deus. 

3. Significa maturidade – Desde que os seres humanos foram feitos à imagem e semelhança de Deus, tornam-se “perfeitos” (maduros) quando tentam demonstrar em suas vidas as características que revelam a natureza de Deus, Fp 3.12-15.[6]

PARA CONCLUIR
O mundo mais do que nunca, está precisando de pessoas que ajam assim, e esta é a proposta divina para nós, de “vencer o mal com o bem” (Rm 12.21), de ser perfeitos, ser diferentes. Busquemos esta perfeição. Se não estamos agindo assim, ainda há tempo para à correção... “sede vós perfeitos...” 


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[1] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel. 1999, p. 254.
[2] STOTT, John. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 116.
[3] ___________. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 118.
[4] MARTINS, Valter Graciano. A Plataforma do Reino. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. p. 18
[5] BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. Sinodal: 1984, p. 62.
[6] MOUNCE, Robert H. Mateus – Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. São Paulo: Editora Vida, 1985. p. 62


ENTÃO DEUS FALOU COM VOCÊ? NÃO ME DIGA

Por Alexandre Milhoranza

Como cristãos, cremos que Deus fala. João inclusive escreveu sobre a voz do Bom Pastor (João 10:1-5). Entretanto, num mundo tão dissonante, com tantas vozes alegando ter recebido de Deus uma revelação “especial” devemos tomar certos cuidados.

Já ouvi o caso de um rapaz que disse ter ouvido a voz de Deus para que determinada moça se casasse com ele. Inflado de coragem e determinação, este rapaz procurou a referida moça e contou-lhe o ocorrido. A jovem, meio desnorteada, disse que Deus não havia falado nada com ela sobre isso e, além de tudo, ele deveria conversar com o marido dela, antes deste suposto casamento.

O problema começa pela forma como Deus fala conosco. A Bíblia registra inúmeras maneiras pelas quais Deus se manifesta: voz audível, visão, sonho, profetas, e, nos dias do Novo Testamento, percebemos a ação do Espírito Santo na igreja, além do tempo que Jesus gastou em oração.

Para tentar colocar um pouco de ordem neste falatório vamos verificar o que disseram alguns cristãos e teólogos ao longo da história sobre ouvir a voz de Deus.


Orígenes (Século II) – Em seu trabalho sobre a oração disse que quando sentimos paz em nosso espírito, é um indício da voz de Deus, o bom pastor.

Bernardo de Claravau (Século XI) – Destacou tanto o papel da mente (intelecto), quanto do coração (sentimentos) para discernir a voz de Deus. Ele disse que o conhecimento nos faz eruditos, e o sentimento nos faz sábios.

Lutero e Calvino (Século XVI) – Disseram que a voz de Deus precisa estar de acordo com as Escrituras. Deus não falaria algo que contradissesse o que ele já disse. Além disso, o papel da comunidade é importante para a audição da voz de Deus. Dificilmente Deus falaria algo para alguém e não confirmasse para outra pessoa.

John Wesley (Século XVIII) – Destacou o papel interno do Espírito Santo no cristão. Afirmou também que Deus não iria ferir os princípios da nossa moral e razão.

Jonathan Edwards (Século XVIII) - Afirmou que para ouvir a voz de Deus é necessário uma vida devocional constante, humildade e transformação de vida.

Para ouvirmos a voz de Deus, além das dicas acima, dadas em momentos diversos da história da Igreja podemos destacar também:
a) O amor que ele derramou em nossos corações nos ajuda a percebermos sua voz (Rm. 5:5-8);
b) O arrependimento de certas atitudes que tomamos;
c) Ler e obedecer as Escrituras.

Portanto, chega de falatório, ore mais e leia mais a Bíblia.

(*) Este post foi inteiramente baseado na pregação do Pr. Ivo Gomes de Almeida.
Fonte: Crentassos

ESTUDO Nº 17 - O RESSENTIMENTO E A VINGANÇA NO REINO DE DEUS (MT 5.38-42)


INTRODUÇÃO

Nesta lição estudaremos um dos mais controversos assunto, quando se trata de aplicação prática do Sermão do Monte. Trata-se da lei de talião ou da reciprocidade do crime, mais conhecido pela célebre frase “olho por olho, dente por dente”. Muitas pessoas têm interpretado este texto de diversas formas fazendo com que em alguns casos ele seja ridicularizado.

O Senhor quer nos mostrar quão longe estamos da vida espiritual que agrada a Deus. O nosso instinto natural é de revide e vingança, não de perdão e amor ao inimigo. Até a pessoa mais tímida e medrosa acumula ira no seu coração quando se sente injustiçada, embora ela não tenha coragem de manifestá-la. Somos muito sensíveis quando se trata de situações nas quais nos sentimos injustiçados. É por isso que Jesus destaca que, se queremos viver uma vida realmente cristã, devemos negar-nos a nós mesmos, a nossos sentimentos e desejos, sendo capazes de perdoar e amar aqueles que nos fazem mal.

Como fizemos com os estudos anteriores, vamos dividir o nosso trabalho em três etapas: analisar as instruções registradas no Antigo Testamento, em seguida como os escribas e fariseus entendiam e praticavam e, por último, o que Jesus nos ensinou.

1. AS INSTRUÇÕES DO ANTIGO TESTAMENTO 

Vamos verificar a instrução no AT, a partir de três textos: Êxodo 21.22-27, Levítico 24.19-21 e Deuteronômio 19.15-21. A análise do conteúdo desses registros bíblicos nos mostra que:

a) A Humanidade está sempre disposta a reagir diante das agressões e a lutar pelos seus direitos. Era necessário colocar um freio na tendência para reações agressivas e tratadas com ira e ódio, sem pensar na exata proporção do que havia acontecido, Ex 21.22-27

b) O princípio que norteava estas instruções era claro: pelo dano causado pode haver indenização de igual valor, Lv 24-19-21

c) As instruções incluíam ainda a questão dos estrangeiros. A Lei equiparava os direitos e deveres de ambos, Lv 24.22

d) Aqui temos nova provisão para proteger o inocente: a instrução o protege contra a falsa acusação, Dt 19.15-21.

Esses textos tratam de uma série de “ordenanças” nas quais os padrões dos 10 mandamentos são aplicados à vida da jovem nação.

Estas punições eram atribuídas às autoridades constituídas (os juízes) e ao próprio Deus (Ex 21.22; Sl 94.1). É uma expressão da “lex talionis”, o princípio da retribuição exata, cujo propósito era estabelecer o fundamento da justiça, especificando o castigo que o culpado merecia e limitar a compensação de sua vítima. Tinha o duplo efeito de caracterizar a justiça e refrear a vingança.

2. AS INSTRUÇÕES DOS ESCRIBAS E FARISEUS, v. 38

Uma vez considerado o que a lei tratava sobre a questão da vingança e da justiça, vejamos agora o que estava acontecendo na época de Jesus. Qual era o problema dos fariseus e escribas sobre esta questão? O Senhor disse: “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente”, lembrem que já havíamos falado em estudos anteriores que isto se referia ao que estava sendo dito não pela lei do Antigo Testamento, mas pela tradição dos mestres da época.

Vimos no ponto anterior que as punições para as infrações morais e legais eram atribuídas unicamente aos juízes e a Deus e jamais era de iniciativa pessoal. Eles criam que toda pessoa tinha o direito de se vingar e retribuir a seu inimigo com a mesma sorte de mal com que tinha sido prejudicada. Assim eles estavam encorajando a vingança, indo de encontro a Lei, Lv 19.18.

Lloyd-Jones, escreveu: Os escribas e fariseus estendiam este princípio da justa retribuição dos tribunais legais (aos quais Pertencia) para o reino dos relacionamentos pessoais (ao qual não pertencia). Assim fazendo, burlavam a lei que proibia terminantemente qualquer vingança pessoal. Toda a série de instruções tinha o propósito justamente de inibir a vingança pessoal [1].

3. AS INSTRUÇÕES DE JESUS, v. 39-42

Uma vez que os fariseus trouxeram uma lei civil à aplicação pessoal, Jesus contradisse este ensinamento (“Eu, porém, vos digo”), mostrando como cada indivíduo deve viver. Contudo, não se trata de qualquer indivíduo, mas do crente, daquele que já foi regenerado e vive uma vida em comunhão com Deus.

As ilustrações mencionadas neste texto não podem ser entendidas literalmente, elas são usadas para destacar o fato de que o cristão, diferente das demais pessoas e todo este ensinamento estão nos enfatizando a necessidade que o crente tem de renunciar-se a si mesmo, de se despojar de si e do seu “eu”, Lc 9.23.

Antes de tudo, precisamos entender sobre quem o termo “perverso”. O termo aqui trata-se de uma pessoa e não o mal abstrato, "ao maligno" (que significa o diabo), mas à pessoa má, ou "os que fazem mal a vocês", Mt 5.44 (BLH).[2]

O Senhor Jesus dá instruções sérias que envolvem quatro exemplos:

a) Relações interpessoais: A outra face, v. 39 – “bater na face direita, com as costas das mãos, continua sendo até hoje, no Oriente, um golpe insultuoso”[3]. Aqui não se trata de uma questão de defesa pessoal e segurança diante de algum risco, e sim, de vingança.
Nossa tendência natural quando ofendidos é revidar imediatamente, se possível, aplicando um sofrimento maior o que aquele que recebemos. Jesus nos ensina que devemos estar preparados para sofrer sem responder com vingança (I Pe 2.21-23). Voltar a outra face significa mostrar em palavras, atitudes e atos que alguém está cheio não do espírito de rancor, e, sim, de amor, Rm 12.19-21.[4]

b) Relações legais: A capa, v. 40 - A segunda questão que o Senhor Jesus aborda é a demanda pela nossa vestimenta. Aqui se trata da nossa reação diante de um mal causado a nossos bens pessoais. Observem que Jesus coloca um bem de não muito valor. Ele não disse: quando alguém te demandar a tua casa, ou as tuas plantações, mas a tua túnica. Muitas vezes em coisas de pequeno valor queremos fazer valer os nossos direitos e brigamos e perdemos amizade por causa de pequenas coisas, I Co 6.7.

Ora, isto não significa, por exemplo, que não possamos exigir o cumprimento da garantia de um produto estragado de uma empresa ou pedir alguém um livro que tínhamos emprestado. Mas trata-se de questões mais pessoais.

c) Relações Políticas: A segunda milha, v. 41 - Trata-se de ser obrigado por uma autoridade a fazer um trabalho ou serviço forçado[5]. Cumpre -nos fazer aquilo que de nós for exigido e mais do que nos for exigido. O ensino diz respeito ao ressentimento de um homem face às exigências que as autoridades governamentais procuram fazer. Alude à nossa aversão a legislação que não aprovamos.

d) Relações econômicas: O empréstimo, v. 42 – O contexto pressupõe que esse pedido e seria uma exigência violenta, não baseada no direito (Lc 6.30). Contudo, mais uma vez, está em pauta a negação do próprio “eu”, mostrando o quanto está errada a nossa tendência natural de agarrar as coisas e dizer: o que é meu, é meu. Aqui não se trata e dar indiscriminadamente, pois existem muitos aproveitadores e devem ser tratados como merecem (2 Ts 3.10). Se a pessoa estiver Passando por necessidade real, cumpre- me o dever de ajudá-la, se é que tenho a possibilidade de fazê-lo, Gl 6.9-10; I Jo 3.17-18; Lc 6.34.

Quanto a emprestar, assim diz Carter: “Muitas vezes o empréstimo e mais benéfico do que a dádiva gratuita. Lisonjeia menos a vaidade daquele que dá; suaviza o constrangimento de quem recebe; não encoraja a preguiça, como é o caso da doação; e ainda assim supre para a necessidade do momento”.[6]

PARA CONCLUIR:

Jesus claramente proíbe a vingança entre seus discípulos. Apresentou-lhes quatro exemplos do que a aplicação de um espírito livre de vingança pode significar na vida deles. O apóstolo Paulo captou bem a intenção de Jesus quando escreveu aos irmãos de Roma: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.18-21).


[1] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel. 1999, p. 254.
[2] ___________. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 103
[3] STOTT, John. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 104.
[4] HENDRIKSEN, Willian. Mateus – Comentário do Novo Testamento, Vol I: Cultura Cristã, 2010 2ª Ed. p. 383.
[5] STERN, David. Comentário Judaico do Novo Testamento. Belo Horizonte: Atos. 2008, p. 182
[6] CARTER, Warren. O Evangelho de São Mateus – Comentário Sociopolítico e Religioso a partir das margens. São Paulo: Paulus. 2002