sábado, 12 de maio de 2012

DAVI DANÇOU, EU TAMBÉM QUERO DANÇAR!


Este é um dos argumentos que mais escuto da parte daqueles que defendem a "dança litúrgica" durante os cultos públicos nas igrejas evangélicas. Se o rei Davi dançou diante da arca de Deus, quando a mesma estava sendo trazida de volta para Jerusalém, por que nós não podemos, da mesma forma, expressar nossa alegria diante de Deus em nossos cultos, com danças de caráter religioso? Afinal, a Bíblia menciona não só Davi, mas Miriã e outras pessoas que dançaram de alegria na presença do Senhor (a imagem ao lado de Davi dançando é do famoso pintor francês James Tissot).

Não consigo me convencer com este argumento. Eu sei que existem outros, mas este, em particular, não me convence. Não é que eu seja contra a dança em si. Sinceramente, não vejo como considerar a dança como um ato pecaminoso, como parece que alguns segmentos evangélicos fazem. Se Davi dançou, e com ele outros personagens da Bíblia, isto pode não provar que devemos dançar em nossos cultos, mas no mínimo é uma evidência de que a dança em si não é pecaminosa, errada ou imprópria para o cristão. A não ser, é claro, aquelas danças sensuais, provocativas, eróticas ou, no mínimo, sugestivas, que despertem paixões e a lascívia. Nesse caso, me junto aos Pais da Igreja, como Basílio, João Crisóstomo, Agostinho, Tertuliano, entre outros, que condenaram veementemente este tipo de dança por parte parte dos cristãos.

Mas, nem toda dança é sensual. Quando eu estava estudando para meu doutorado nos Estados Unidos frequentava com minha família uma igreja presbiteriana muito firme biblicamente. Uma vez por mês os casais da igreja se encontravam no salão social num sábado a noite onde, liderados pelo pastor e sua esposa, ouviam música country, jazz, clássica, e eventualmente dançavam (cada um com seu cônjuge, veja bem!). Minha esposa Minka e eu estivemos lá umas poucas vezes. Nós mesmos não chegamos a dançar, sou meio duro nas articulações e daria um espetáculo horroroso, matando a Minka de vergonha... hehehehe. Mas foi uma experiência muito interessante, que me marcou pela alegria, naturalidade e pureza do evento. E serviu para demonstrar o que eu já pensava, que dançar em si não é pecado.

Voltemos a Davi. Por que então não consigo aceitar que o exemplo dele é definitivo como base para as danças litúrgicas, ministérios de coreografia, dança profética e grupos de danças durante os cultos?

Bem, primeiro porque não acredito que devamos fazer normas ou estabelecer princípios gerais para a vida da igreja simplesmente a partir de atos, ações, eventos, incidentes envolvendo os heróis da Bíblia. Nem tudo o que aconteceu na vida deles pode virar paradigma para os cristãos. A não ser aquelas coisas que a própria Bíblia determina. Jesus, por exemplo, recomendou que imitássemos Davi em sua atitude para com a lei cerimonial (Mat 12:3). Davi é citado como homem segundo o coração de Deus (Atos 13:22), que serviu a Deus em sua própria geração (Atos 13:36), no que deveria ser imitado. Sua fé o coloca na galeria dos heróis da fé em Hebreus (11:32) e serve de exemplo para nós. Ainda poderíamos mencionar seu arrependimento e contrição após ter pecado contra Deus (Salmos 32 e 51). Tais coisas são norma e regra geral para todos os cristãos. Isto não significa, todavia, que cada atitude de Davi sirva de modelo para nós.

Uma segunda dificuldade que tenho é com este tipo de interpretação, muito popular hoje entre os evangélicos, que simplesmente transpõe para nossos dias os eventos históricos narrados na Bíblia, sem levar em consideração o contexto cultural, histórico, teológico e literário dos mesmos, e os usa como base para construir ritos, práticas e regras a serem seguidos nas igrejas cristãs. Moisés bateu com a vara na rocha - lá vem a reencenação do episódio nas igrejas como símbolo da vitória. Ouvi falar que a derrubada da muralha de Jericó foi recentemente reencenada numa igreja (usando uma muralha de isopor e gelo seco) como base para se clamar a vitória para o ano de 2009. E por ai vai. A lista é enorme. No caso de Davi, não poderíamos esquecer que na cultura do Antigo Oriente as danças eram usadas como manifestação popular pelas vitórias militares obtidas, e eram geralmente lideradas pelas mulheres. Foi o caso com a dança de Miriã (Ex 15:20), a filha de Jefté (Juízes 11:34), as mulheres de Judá (1Sam 18:6) e a própria dança de Davi (2Sam 6:20). Ao que parece, o povo saia em passeata dançando em roda (sobre dança de roda, veja Juízes 21:21 e 23). Até onde sei, no Brasil não se costuma celebrar as vitórias com danças de roda. As danças têm outra conotação e servem a outros propósitos, nem sempre moralmente neutros.

Tudo bem, vá lá. Vamos supor, por um momento, que a dança de Davi sirva de base para nós, cristãos. O que o evento lúdico do rei de Israel poderia nos autorizar? Com certeza, não autoriza que dancemos nos cultos públicos de nossas igrejas, pois a dança de Davi foi numa passeata religiosa, nas ruas de Jerusalém, algo espontâneo e do momento. Ele não marcou um culto no templo de Jerusalém, que era o local determinado por Deus para os cultos a Ele, onde foi dançar de alegria perante o Senhor. Até onde eu sei, nos cultos determinados por Deus no Antigo Testamento não havia dança alguma. Deus não determinou a dança como elemento de culto, não há qualquer registro de que as mesmas fizessem parte do culto que lhe era oferecido no templo. E acho que os apóstolos e primeiros cristãos entenderam desta forma, pois não há danças nos cultos do Novo Testamento.

Se formos usar o exemplo de Davi como base, chegaremos à conclusão que a dança dele também não autoriza a criação de grupos de dança litúrgica nas igrejas, que se apresentam regularmente nos cultos. Não justifica nem a criação dos ministérios de dança e a descoberta do dom espiritual da dança litúrgica e profética. A dança de Davi foi um evento isolado e individual. Não foi feita por um grupo que treinava e ensaiava para se apresentar regularmente nos cultos do templo. Aliás, não encontro no Antigo Testamento qualquer indicação de que havia em Jerusalém um grupo de levitas que se dedicavam ao ministério da dança litúrgica e que se apresentavam regularmente durante os cultos no templo de Deus. E deve ser por isto que também não encontramos estes grupos no Novo Testamento. Acho que o rei de Israel cairia de costas se ele visse tudo o que se inventou hoje no culto a Deus com base naquele dia em que ele saltou de alegria diante da arca do Senhor.

Por último, acho que este tipo de argumento, "Davi dançou, eu também quero dançar", deixa de lado alguns princípios importantes sobre o culto que devemos prestar a Deus. Primeiro, que embora toda nossa vida seja um culto a Deus (veja 1Cor 10:31), Ele mesmo determinou que seu povo se reunisse regularmente para cultuá-lo, cantar louvores a seu Nome, buscá-lo publicamente em oração e ouvir Sua Palavra. Uma coisa não exclui a outra, mas não devem ser confundidas. Nem tudo que cabe na minha vida diária como culto a Deus caberia no culto público e solene. Por exemplo, posso plantar bananeira para a glória de Deus, mas não vejo como justificar isto no culto público regular das igrejas. Cabia perfeitamente a Davi dançar de alegria naquele dia, na procissão de vitória, nas ruas de Jerusalém. Todavia, não o vemos fazendo isto no templo de Jerusalém, durante os cultos estabelecidos por Deus.

Segundo, não podemos inventar maneiras de cultuar a Deus além daquelas que Ele nos revelou em Sua Palavra. Os elementos que compõem o culto a Deus, até onde eu entendo a Bíblia, são a oração, o cantar louvores, a ação de graças, a leitura e pregação da Palavra, as contribuições voluntárias de seu povo, o batismo e a Ceia (quando houver). É claro que a Bíblia não estabelece ritmos musicais, não nos dá orações fixas e nem mesmo uma ordem litúrgica a ser seguida. Mas, ela nos dá os princípios e os elementos do culto que Deus aceita. A questão, portanto, não é se Davi e outros heróis da fé dançaram, mas sim se as danças litúrgicas fazem parte daquele culto que Deus determinou em Sua Palavra. E mesmo que eu não tenha nada contra o dançar em si, não vejo como as danças possam ser enquadradas como elementos de culto.

Enfim. Ao ler a história da dança de Davi o que aprendo é o amor que ele tinha ao Senhor, e a alegria que o dominava pelas coisas de Deus. Aprendo que devo amar ao Senhor e me alegrar com as coisas dele à semelhança de Davi. Todavia, não creio que a maneira com que Davi expressou estes sentimentos seja elemento de culto para os cristãos. O texto está muito longe de requerer isto. Sei que vou escandalizar muita gente ao dizer que eu não veria problemas com grupos de coreografia para evangelizar ou mesmo para participar em reuniões sociais dos jovens e adolescentes de nossas igrejas (sobre boate evangélica, falaremos em outra oportunidade). Mas o culto público a Deus, quer nos templos, quer em qualquer outro lugar, é regido pela regra: "só devemos adorar publicamente a Deus com aqueles elementos de culto que encontramos na Bíblia".

Termino lembrando que neste post estou interessado apenas no uso do episódio da dança de Davi como base para as danças litúrgicas. Há vários outros argumentos usados para defender esta prática, cada vez mais comuns nas igrejas evangélicas (como por exemplo o Salmo 150), que não receberam atenção aqui, mas que podem ser alvo de uma futura postagem sobre o assunto.
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Fonte: O Tempora, O Mores
Via: Blog do Artur Ribeiro e Ministério Beréia

sexta-feira, 11 de maio de 2012

ESTUDO Nº 16 - A PALAVRA DE HONRA DO CIDADÃO DO REINO DE DEUS - (MT 5.33-37)


INTRODUÇÃO

Temos neste estudo um problema muito atual. Muitos de vocês já devem ter escutado alguma pessoa idosa falar sobre a importância da sua palavra. “Eu dei minha palavra para fulano que faria tal coisa, portanto vou cumpri-la” ou, por exemplo: “O Sr. Fulano é uma pessoa de palavra”. Contudo, hoje, ninguém mais se atreve a realizar um acordo sem ter, de por meio, um contrato por escrito.

Até aqui. temos visto que o Senhor criticou três erros de interpretação dos mestres da lei: a questão do homicídio, o adultério e o divórcio. Vamos agora considerar o quarto erro que o Senhor destaca: Os juramentos.

O que é um Juramento ou votos?

a) O Juramento, quando lícito, é uma parte do culto religioso pelo qual o crente, em ocasiões necessárias e com toda a solenidade, chama a Deus por testemunha do que assevera ou promete; pelo juramento ele invoca a Deus para julgá-lo segundo a verdade ou falsidade do que jura.[1]

b) O voto é da mesma natureza que o juramento promissório; deve ser feito com o mesmo cuidado religioso e cumprindo com igual fidelidade.[2]

Jesus não condenou os juramentos na vida do cristão e propôs um padrão mais elevado, que é a credibilidade em tudo o que falamos e não apenas no que juramos. “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mateus 5.20).

1. os juramentos e o ensino antigo, v. 33

Os juramentos em si mesmo não eram maus. Inclusive, eles estavam regulamentados na lei de Moisés (Dt 23.21-23). Além disso, podemos ver vários exemplos de homens santos de Deus que juraram e isto não foi considerado como um ato pecaminoso. 

A principal preocupação, quando se tratava de juramentos, era a de não quebrar o terceiro mandamento: “Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” (Êxodo 20.7). A questão toda do juramento estava ligada com a honra do nome de Deus (Dt 6.13).

Os usos de juramentos eram feitos na confirmação de pactos (Gn 26.28), em decisões nos tribunais (Ex 22.10-11), na obrigação de se realizar os deveres sagrados (Nm 30.22) e em muitas outras circunstâncias.

Os juramentos muitas vezes eram precipitados. A Bíblia mostra vários exemplos de pessoas que se precipitaram em seus juramentos, como Esaú (Gn 25.33). Josué (Js 9.15-16), Jefté (Jz 11.30-36), Saul (I Sm 14.27,44).

Os juramentos exigiam o cumprimento. Ninguém era obrigado a jurar ou fazer votos, mas se obrigava a cumprir quando os fazia (Dt 23.21-23). Usar nos juramentos expressões como “juro pelo Senhor” (2 Sm 19.7), “Tão certo como vive Deus” (2 Sm 2.27), e depois deixar de cumprir o voto, era questionar a realidade da própria existência de Deus.[3]
           
2. os juramentos e o ensino de jesus, V. 34-36

Existem denominações e seitas cristãs que não realizam nenhum tipo de voto para não quebrantar este ensinamento. Eles se recusam a fazer juramentos patrióticos por causa deste texto (TJ).

O Senhor está enfatizando que as simples palavras dos seus discípulos devem ser verdadeiras, sem a necessidade de juramentos para validar a palavra. Não é o juramento o problema, o problema é a falta de compromisso e verdade nas palavras proferidas sem juramento.

Então, o que podemos aprender com o ensinamento de Jesus? Vejamos os seguintes pontos:

a) O Senhor está mostrando como os juramentos levam a usar o nome de Deus em vão (v. 34)
Os juramentos feitos apressadamente, sem reflexão, podem fazer com que zombemos de Deus. É melhor sermos corretos e comprometidos com o que falamos do que fazermos pactos e votos que depois não teremos certeza de cumprir, usando assim o nome do Senhor em vão (Ec 5.4-5; Tg 5.12).

b) O Senhor Jesus está mostrando que não existem níveis diferentes de juramentos, todos eles tem que ser cumpridos (v. 35-36).
Os fariseus e escribas consideravam, por exemplo, o juramento pelo templo pouco importante, mas pelo ouro do templo muito importante (Mt 23.16-22).

Diante de Deus pouco importa se juramos pela nossa mãe, pelos nossos filhos ou se simplesmente nos comprometemos a fazer algo sem ter dito: “eu te juro”.

c) O Senhor Jesus está ensinando que os juramentos apressados desconsideram a soberania de Deus sobre a nossa vida (v. 36).
Isto significa que somos incapazes de mudar alguma coisa em base a nossos juramentos. Muitas vezes juramos apressadamente sem considerar que o futuro não está em nossas mãos. Aquele que é ciente que o futuro está nas mãos de Deus pensará duas vezes antes de prometer algo que talvez não o consiga cumprir (Tg 4.13-15).[4]

d) O Senhor Jesus está colocando nossas palavras no nível de promessas e juramentos (v. 37).
O que o Senhor está dizendo neste texto é que devemos ser diretos, sinceros e comprometidos. Quando o crente diz “sim”, ele está se comprometendo. Uma pessoa que tem temor do Senhor não precisa jurar e prometer, pois ela sabe que o que ela disse fará, ela já tem um compromisso diante do Senhor. O crente deve ser uma pessoa de palavra, é isso o que o Senhor está ensinando aqui. Não devemos prometer o tempo todo, mas devemos ser comprometidos sempre.[5]

3. os juramentos e o cidadão do reino de deus, V. 37

O que Jesus nos pede nesse versículo é que a nossa palavra seja sincera e normal, pois todo e qualquer exagero já constitui uma mentira. Devemos falar sempre como quem vive na presença de Deus. Uma das características do cidadão dos céus, segundo o salmista, é que ele encara com seriedade os seus compromissos, e em fazer valer a palavra empenhada, mesmo que isso lho ocorra prejuízo: “Aquele que, mesmo que jure com dano seu, não muda”  (Sl 15.4b).

Quando prometemos servir a Cristo durante todos os dias de nossa vida devemos assumir nossa responsabilidade com zelo.

Um exemplo: marca-se um horário para haver uma reunião, um encontro. A pessoa aparece muito atrasada, ou não comparece e não apresenta justificativa. Isso tem três implicações
a) Significa uma tremenda falta de consideração para com o próximo.
b) Significa que, pouco a pouco, aquela pessoa vai perdendo o seu grau de confiabilidade.
c) Estamos ensinando, com o nosso exemplo, a outros a não serem pontuais e dignos de palavra.

Portanto não há necessidade de fazermos juramentos para confirmar a credibilidade de nossas palavras, pois temos consciência de que o pai da mentira é o diabo (Jo 8.44). Um exemplo de cidadão do Reino de Deus é a sua autenticidade, Sl 15.1-4

Para Concluir:

Se considerarmos que a nossas palavras devem ser “Sim, sim; não, não”, acho que chegaremos à conclusão que devemos viver como pessoas sábias (Pv. 17.27; 29.20; Ec 5.7).

Nas muitas palavras nunca falta o pecado. Facilmente prometemos, juramos e exageramos por falarmos demais. Talvez seja bom cuidarmos mais nossa língua e os excessos nas conversas, de maneira que nos identifiquemos com o que escreveu Tiago: “Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo o corpo” (Tg 3.2).

Portanto, no sermão do monte Jesus nos ensina que a qualidade de vida do cristão deve exceder em muito a dos religiosos fariseus. Essa diferença entre outras coisas, se manifesta naquilo que falamos, mostrando assim que a mudança é de dentro para fora. Ele mesmo disse: “a boca fala do que está cheio o coração” (Mt 12.34).

“Cuide as suas palavras, pois delas você terá que prestar contas diante do Senhor” (Mt 12.36-37)[6]


[1] Confissão de Fé de Westminster, cap. 22, item I, p. 119. Cultura Cristã.
[2] __________________________, cap. 22, item V, p. 121. Cultura Cristã.
[3] COUTO, Geremias. A Transparência da vida cristã, CPAD: p. 211.
[4] QUEIROZ, Carlos. Ser é o Bastante. Ultimato: 2003, p. 139.
[5] BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. Sinodal: 1984, p. 55.
[6] FRANK, Alejandro G. Os juramentos e as palavras do crente. Disponível in: www.base-biblica.blogspot.com

É MELHOR VIVER DO QUE CONHECER?


Muitos defendem que é melhor viver os ensinamentos bíblicos do que conhecer a Bíblia através de estudos teológicos e acadêmicos.

Eu não teria dificuldade alguma em concordar com essa proposta se ela não escondesse uma tentativa de menosprezar o zelo de alguns pelo conhecimento acadêmico do conteúdo bíblico. Quem vai para o seminário ou faz investimento em dinheiro e tempo por conta própria para estudar geografia bíblica, teologia sistemática/bíblica, etc., acaba sendo discriminado sem motivo.

Puro preconceito! Dizer que é preciso “ter vida com Deus” é o argumento mais apelativo dos ignorantes. Quem pode medir “a vida com Deus” do crente? Não é possível, graças a Deus, medir a espiritualidade de cada pessoa na igreja; se fosse possível, seria difícil esconder-se por trás de falsa religiosidade... Se quem estuda é acusado em não apresentar um ou muitos elementos do fruto do Espírito como medida dessa espiritualidade esperada com sua “vida com Deus”, eu pergunto: Estamos em uma disputa por produção de fruto? Alguém está em condição de gabar-se por santidade maior do que a de outro irmão qualquer? Somos biblicamente recomendados a medir os outros pela nossa medida? Somos recomendados a tomar quais medidas quando nos deparamos com as fraquezas dos irmãos? Se o irmão que estuda e busca conhecimento não apresenta algum fruto que você julga ser sinal de falta de “vida com Deus”, olhe primeiro para a sua própria vida e veja se você tem condições de fazer esse julgamento.

O anti-intelectualismo é como uma catarata da visão espiritual, que vai cegando o crente aos poucos, transformando as verdades cristalinas do evangelho em imagens cada vez mais opacas e indiscerníveis... Quem não se aprofunda no conhecimento paralelo ao conhecimento bíblico não tem condições de apreciar as riquezas mais escondidas da Bíblia! Não está impossibilitado de viver plenamente o evangelho, não será por isso um crente de segunda categoria, mas perde em muita coisa na compreensão do que a Bíblia tem para nos ensinar.

Qual seria a sua perda se você não soubesse ler? A mínima deficiência na leitura pode causar prejuízos irreparáveis. Vale lembrar-se daquele homem casado que considerou ter um caso com a mulher de um membro de sua igreja porque leu incorretamente na Bíblia uma ordem para adulterar. Se a deficiência na leitura do texto em sua língua causa perda de compreensão com implicações em sua “vida com Deus”, por que julgar quem se esmera para ler bem a Bíblia em sua própria língua? Ou nas línguas originais? Por que isso faz alguém ser menos santo, ou ter menos “vida com Deus”? Se minha dedicação resulta em melhor compreensão do que Deus espera de mim, minha “vida com Deus” está mais próxima possível de Seus preceitos revelados na Palavra. Portanto, o pensamento deveria ser o contrário do que comumente nos deparamos nas igrejas: Viver é melhor do que conhecer a Bíblia...

Eu não teria dificuldade algum em concordar com essa proposta do “viver é melhor do que conhecer” se essa proposta não fosse impossível e contrária ao ensinamento bíblico! Se é impossível conhecer a Deus sem que Ele se revele ao homem, como eu poderia “ter vida com Deus” sem antes conhecê-lO bem pela leitura e estudo do que Ele revelou? Como poderia obedecer a um mandamento sem antes conhecer e entender o que o mandamento exige de mim?

Os deuses eram difíceis de agradar. Saber como aplacar a ira dos deuses era um desafio, quem poderia saber o que os deuses queriam? O grande louvor de todo Israel pela Lei estava baseada nesta graça de ter a Lei do SENHOR escrita para ser estudada e conhecida. Conhecer exatamente o que Deus esperava de cada um dos seus era uma dádiva! Saber como levar uma vida justa diante de Deus não tem preço!

A lei do SENHOR é perfeita e nos dá novas forças. Os seus conselhos merecem confiança e dão sabedoria às pessoas simples. Os ensinos do SENHOR são certos e alegram o coração. Os seus ensinamentos são claros e iluminam a nossa mente. O temor ao SENHOR é bom e dura para sempre. Os seus julgamentos são justos e sempre se baseiam na verdade. Os seus ensinos são mais preciosos do que o ouro, até mesmo do que muito ouro fino. São mais doces do que o mel, mais doces até do que o mel mais puro. Senhor, os teus ensinamentos dão sabedoria a mim, teu servo, e eu sou recompensado quando lhes obedeço. Salmo 19:7-11

Que valor haveria na Lei se ela não fosse clara e compreensível? Como seria possível obedecer a Lei e fazer a vontade de Deus sem entender o que Ele revelou? Como posso “ter vida com Deus” sem conhecer e entender os Seus preceitos? Como pode ser melhor viver aquilo que não conheço e não entendo? Cristo não criticou a falha dos saduceus em não conhecer as Sagradas Escrituras? Você acha que esse “conhecer” era um “decorar”, ou apenas “ler”, ou “entender”?


Mas, André, o testemunho bíblico é que os seus leitores apenas meditavam e guardavam a Palavra em seus corações, e isso basta. Bem, meu irmão, bastava para eles! A Bíblia foi escrita na língua deles, na época deles, na cultura deles.

Hoje, precisamos nos esforçar um pouco mais para compreender o que tudo isso significava no contexto deles para não abrir a boca e falar besteira, ensinar errado e ainda correr o risco de não só errar o caminho na sua caminha de “vida com Deus”, mas também arrastar alguns com você!

Autor: André R. Fonseca
www.andrerfonseca.com
Fonte: [ Teologia et cetera ]