sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ESTUDO Nº 15 - A PUREZA DO CIDADÃO DO REINO DE DEUS (Mateus 5.27-32)


INTRODUÇÃO 

O ser humano não foi criado para viver em meio às impurezas, que tantos prejuízos ocasionam. As impurezas na área sexual tem se tornado algo danoso para os seres humanos. Pois na área sexual é onde o diabo tem intensificado mais a sua ação, visando principalmente a destruição da família. O adultério ou a infidelidade conjugal tem se tornado uma prática comum em nossa sociedade, sendo até incentivada pelos meios de comunicação. Muitos lares têm sido destruídos pelo adultério, trazendo sofrimento para os cônjuges e principalmente para os filhos.

Nesta parte do Sermão, o Sr. Jesus se refere ao 6º mandamento que proíbe o adultério, explicado à luz do 10º mandamento (Ex 20.14; Dt 5.18). A interpretação que Jesus dá aqui, vai muito mais além do contato físico (Mt 5.28). Portanto, Jesus nos ensina que um olhar lascivo é uma forma de adultério. O desejo intencional é igualmente pecaminoso aos olhos de Deus. Daí é possível praticar adultério nos corações e mentes, sendo este princípio uma interiorização da Lei.[1]

O Senhor não está tratando aqui da mera passagem momentânea de um desejo pela mente, mas a concentração com o propósito de cobiçar. O pecado de Davi não estava em ver Bateseba despida, mas em olhar para ela, pondo em mente e, finalmente, na sua desenfreada concupiscência (2 Sm 11.2-5).

Driver escreveu: “O versículo 28 não se refere a uma olhada rápida de admiração, mas a olhada da cobiça. Como no caso de homicídio, torna-se como de partida da ofensa o intento essencial. E neste caso, fitar com desejo lascivo e cobiçoso é algo tão culposo como o próprio adultério”.[2]

É preciso que se cuide dos olhos para se corrigir esta prática impura, pois Jesus considera que os maus desejos do coração já são adultério, assim como considera que o ódio do coração é homicídio.

1. ADULTÉRIO – TERMOS E SIGNIFICADOS. 

O que é adultério? O adultério compreende três ações sexuais ilícitas: adultério, fornicação e prostituição. Estes não são rigorosamente idênticos, embora todos os delitos por eles expressos estão sob juízo e condenação do sétimo mandamento. Vamos separar conforme seus respectivos significados: 

a) Adultério (moicheia) - Relação sexual ilícita entre duas pessoas casadas ou entre uma casada e outra solteira. Este pecado destrói e fere a ordenação divina de união indissolúvel entre marido e mulher.

b) Fornicação (pornéia) - Prática sexual de pessoas solteiras ou viúvas antes e fora do casamento. O sexo pré-matrimonial, especialmente entre adolescentes, passou a ser procedimento com nos tempos modernos. Cabe a Igreja instruir a juventude sobre esse ato pecaminoso.

c) Prostituição (sagrada e venal) - A Prostituição sagrada, era praticada nos tempos neo-testamentários por sacerdotes e sacerdotisas dos cultos pagãos. Acreditava-se que o ato praticado no altar dos deuses promovia a fecundação de todos os seres da natureza. Prostituição venal é a comercialização do sexo e do corpo, transformação dos prazeres sexuais em objetos de consumo (filmes, revistas e outros atos), onde a concupiscências e lascívia e a despudorada pornografia degradam a sociedade (profissionais do sexo e o tal do nu artístico).

A bíblia diz: “Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição” (I Ts 4.3).

2. VENCENDO O ADULTÉRIO A PARTIR DE UM CORAÇÃO PURO, V. 28 

Jesus ao interiorizar a lei declara: “... qualquer que olhar para mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela”. Mais uma vez Jesus está falando de caminhos de sentimento – da fonte de onde podem brotar as coisas boas ou más. Ele não está falando apenas de atos praticados, mas da necessidade que todo ser humano tem de ser transformado interiormente (Mt 15.19-20).

O “coração” no pensamento hebraico não se refere ao interior, ou ao espiritual no homem; ele é, antes, a sede de sua vontade, de suas intenções, que se traduzem em atos. Jesus nos diz que o problema da humanidade não reside nas emoções, nem tampouco nos sentimentos interiores (ou seja, o coração no sentido moderno), mas na vontade (no coração de acordo com o sentido hebraico).

Portanto, a partir de um coração puro é que o cidadão do Reino de Deus poderá manter um alto grau de pureza, pois do coração procedem às fontes da vida e por isso ele deve ser guardado (Pv 4.23; Sl 119.11; Mt 5.8).

É importante ressaltar que o que é dito ao homem casado, também se aplica a mulher casada. A infidelidade no vinculo matrimonial é sempre ruim. Isso significa que qualquer tendência que suscite tal infidelidade – por exemplo, a intenção de romper um matrimônio para ficar com outra – é igualmente um pecado contra o 7º mandamento.[3]

Diante disso, há um grande desafio para se guardar puro o coração. Quando o Senhor ocupa o trono em nossos corações é sinal de que uma vida pura será percebida de muito real. Aqueles que não possuem um coração puro devem orar como o salmista – “Cria em mim, ó Deus, um coração puro...” (Sl 51.10).

3. VENCENDO O ADULTÉRIO COM ATITUDES RADICAIS, V. 29-30 

Jesus não está ensinando uma doutrina masoquista de automutilação com objetivos espirituais, e tampouco está sugerindo que o caminho para resolver o problema dos maus desejos é infligir cirurgia física radical. É preciso perder algo muito precioso para se ganhar outro mais precioso ainda, que é a aprovação e a benção de Deus. A idéia do texto é a renúncia absoluta e até sacrificial: “arranca-o e lança-o de ti; corta-a e lança-a de ti” (v. 29-30).

a) Se o teu olho direito te faz tropeçar... (v. 29; 18.8,9) – o olhar lascivo é cometer adultério no coração e a única maneira de tratar do problema é na raiz – nos olhos. Jó, foi um homem autodisciplinado nesta área (Jó 31.1,7,9). Diferentemente de Jó, os falsos profetas são descritos como tendo “olhos cheios de adultério...” (II Pe 2.14)

O olhar é uma fonte inspiradora para o bem ou para o mal (Mt 6.22-23). Stott escreveu: “Se o seu olho te faz pecar, então arranque os seus olhos. Isto é, não olhe! Comporte-se como se você realmente tivesse arrancado seus olhos e jogado fora” [4]

b) Se a tua mão direita te faz tropeçar... (v.30) – a mão direita e mencionada porque corresponde ao lugar de honra e de importância. Isso significa refrear-se de certas liberdades por amor a Cristo: queimar o livro obsceno, condenar a novela destruidora do caráter cristão, o controle da internet, eliminar a conversação inconveniente, enfim, pensamentos impuros e tudo aquilo que não contribui para edificação (Fp 4.8).

Privar-se não é o suficiente para que o discípulo elimine a fonte do desejo, mas é possível eliminar o instrumento da ação pecaminosa (Rm 8.13). O contrário de oferecer os nossos corpos ao pecado (Rm 6.13) é oferecê-los ao Senhor como culto racional (Rm 12.1).

c) não seja teu corpo lançado... (v.30,31) – uma vida de impureza acarreta sobre si conseqüências, inclusive de proporções eternas.

Stott escreveu: “é melhor perder algumas das experiências que esta vida oferece, a fim de entrar na vida que é vida realmente; é melhor aceitar alguma amputação cultural, social ou moderna, do que arriscar-se à destruição no outro. A eternidade é mais importante que o tempo, a pureza mais do que a cultura, e que qualquer sacrifício é válido nesta vida se for necessário para assegurar a entrada da outra”.[5]

Para Concluir: 

Estamos sendo intimados a, não somente, remover o ato pecaminoso (impureza física ou impureza do coração), mas quaisquer circunstâncias ou relacionamentos que poderiam facilmente levar a isso. O apóstolo Paulo afirma que os impuros sexuais são incapazes de herdar o Reino de Deus (I Co 6.9-10).



[1] MOUNCE, Robert. Mateus: Novo Comentário Bíblico Contemporâneo, Vida: 1996, 57.
[2] DRIVER, John. Ouça Jesus – Comentário sobre o Sermão do Monte, Cristã Unida: 1995, 64.
[3] HENDRIKSEN, Willian. Mateus – Comentário do Novo Testamento, Vol I: Cultura Cristã, 2010 2ª Ed. p. 373
[4]STOTT, Jonh. Contracultura Cristã. São Paulo: ABU Editora, 1982. p. 84.
[5] ___________.  Contracultura Cristã. São Paulo: ABU Editora, 1982. p. 86.

CORAÇÕES CATIVOS, IGREJA ATIVA - Texto de R. C. Sproul


Durante a Reforma Protestante, Martinho Lutero escreveu um pequeno livreto intitulado “O Cativeiro Babilônico Da Igreja”. Nele, Lutero comparou o regime opressor de Roma no século XVI ao suplício de Israel, enquanto era mantido cativo às margens dos rios da Babilônia.

Eu tenho freqüentemente me perguntado como Lutero se posicionaria em nossa presente era e no estado em que a igreja se encontra nos dias de hoje. Eu suspeito que ele escreveria para nosso tempo seu livro, sob o título "O Cativeiro Pelagiano da Igreja". Eu tenho tal suspeita pelo fato de que o próprio Lutero tenha considerado precisamente este como o livro mais importante que já redigiu, sua magnum opus, “A Escravidão da Vontade” (De Servo Arbítrio).

Penso também que Lutero enxergaria a grande ameaça para a igreja de hoje devido ao Pelagianismo, em razão do que se desenrolou depois da Reforma. Historiadores tem dito que apesar de Lutero ter vencido a batalha contra Erasmus no século XVI, ele a perdeu no século XVII e foi afinal demolido no século XVIII, graças às conquistas obtidas pelo Pelagianismo e pelo Iluminismo. Ele veria a igreja de hoje enlaçada pelo Pelagianismo, tendo assim este inimigo da fé conseguido estabelecer uma fortaleza sobre nós.

O Pelagianismo em sua forma pura foi pela primeira vez articulado pelo homem cujo nome cunhou seu ensino, um monge bretão do século Quarto. Pelágio envolveu-se em um feroz debate com Santo Agostinho, um debate provocado pela reação do monge à oração de Agostinho: "Ordena aquilo que Tu desejas, e conceda aquilo que Tu ordenas". Pelágio insistia que uma obrigação moral necessariamente implicava em capacidade moral. Se Deus exigia dos homens que estes vivessem vidas perfeitas então estes homens deveriam ter a capacidade de viver tais vidas perfeitas. Isto levou Pelágio a sua completa negação do pecado original 1. Ele insistia que a queda de Adão tinha afetado somente o homem Adão; não haveria a realidade da natureza humana caída e herdada que afligiria a humanidade. Além disso, refutava a idéia da necessidade da graça como necessária para a salvação; afirmava que o homem seria capaz de ser salvo por suas obras sem a necessidade de assistência da graça. O pensamento de Pelágio foi: a graça pode facilitar a obediência, mas não seria uma condição necessária para tal.

Agostinho triunfou em sua luta contra Pelágio, cujas visões foram conseqüentemente condenadas pela igreja. Ao condenar o Pelagianismo como heresia, a igreja veementemente confirmou a doutrina do pecado original. Na visão de Agostinho, isto sedimentou e alicerçou a noção de que apesar do homem caído ainda possuir um vontade livre no sentido que ele retém a capacidade de escolher, sua vontade é decaída e escravizada pelo pecado a tal ponto, em tamanha magnitude e extensão, que o homem não possui liberdade moral. O homem não pode não pecar.

Depois do encerramento do conflito, visões modificadas de Pelagianismo voltaram a assombrar a igreja. Essas visões foram aglutinadas sob o nome de semi-Pelagianismo. O semi-Pelagianismo admitiu a Queda como real e uma real transferência do Pecado Original para a descendência de Adão. O homem está arruinado e caído, e precisa da graça a fim de que seja salvo. Contudo, esta visão insiste que nós não estamos tão decaídos a ponto de nos encontrarmos totalmente escravizados pelo pecado ou totalmente depravados em nossa natureza. Uma ilha de justiça permanece no homem decaído por meio da qual tal pessoa ainda possui poder moral para inclinar-se, por si mesmo, sem a intervenção da graça operativa, em direção às coisas de Deus.

Apesar da igreja antiga ter condenado o semi-Pelagianismo tão vigorosamente quanto condenou o próprio Pelagianismo, ele de fato nunca morreu. No século dezesseis os magistrados reformadores ficaram convencidos que Roma havia se degenerado do puro Agostinianismo e abraçado o semi-Pelagianismo. Não é um detalhe histórico insignificante mencionar que o próprio Lutero tenha sido um monge da Ordem Agostiniana. Lutero viu em sua luta contra Erasmus e Roma, um retorno ao conflito titânico entre Agostinho e Pelágio.

No século dezoito, o pensamento Reformado foi desafiado pelo surgimento do Arminianismo, uma nova forma de semi-Pelagianismo. O Arminianismo conseguiu capturar o pensamento de proeminentes homens, como por exemplo John Wesley. A cisão doutrinária entre Wesley e George Whitefield focava-se neste aspecto. Whitefield enfileirou-se então para o lado de Jonathan Edwards na defesa do Agostinianismo clássico durante o "Grande Avivamento" norte-americano.

O século XIX testemunhou o reavivamento do Pelagianismo puro através dos ensinamentos e da pregação de Charles Finney. Finney não dosou palavras acerca de seu Pelagianismo escancarado. Finney rejeitou a doutrina do Pecado Original (junto com a visão ortodoxa da Expiação e a doutrina da Justificação Somente pela Fé). Mas a tremenda bem-sucedida metodologia evangelística de Finney de tal forma marcou e envolveu seu nome, que ele se tornou um modelo reverenciado pelos modernos evangelistas e ainda hoje comumente é considerado um herói da Fé Evangélica, a despeito de sua completa rejeição à própria doutrina evangélica.

Apesar da Fé Evangélica americana não ter abraçado o Pelagianismo puro e direto de Finney (fato que coube aos Liberais o fazerem), tal pensamento infectou profundamente o meio evangélico por meio do pensamento e da teologia semi-Pelagiana,a tal ponto que o semi-Pelagianismo é percebido ostensivamente nos dias modernos de forma aguda e profunda, em diversas camadas do pensamento teológico evangélico. Apesar da maioria dos evangélicos não hesitarem em afirmar que o homem caiu, poucos abraçam a doutrina reformada da Total Depravação.

Trinta anos atrás eu estava ensinando Teologia em uma faculdade evangélica que era pesadamente influenciada pelo semi-Pelagianismo. Eu estava trabalhando sobre os 5 pontos do Calvinismo usando o acróstico TULIP com uma classe com cerca de 30 alunos. Após apresentar uma extensa e detalhada exposição da doutrina da Total Depravação, eu perguntei à classe quantos deles estavam convencidos acerca da doutrina. Todos os 30 levantaram as mãos.

Eu sorri e disse: “Veremos...”

Eu escrevi o número 30 no canto esquerdo do quadro-negro. Enquanto eu prosseguia com a doutrina da eleição incondicional, muitos dos estudantes então começaram a pular e reagir. Fui subtraindo do número original 30 os que iam manifestando sua insatisfação e desacordo. Quando atingi a doutrina da Expiação Limitada, o número tinha caído de trinta para três.

Então eu tentei mostrar aos estudantes que se eles realmente abraçassem a doutrina da Total Depravação, então as outras doutrinas descritas nos 5 Pontos deveriam simplesmente na verdade ser consideradas como notas de rodapé. Os alunos logo descobriram que de fato eles realmente não acreditavam na total depravação do homem, no final das contas. Eles acreditavam em depravação, mas não no sentido total. Eles ainda desejavam reter a convicção sobre uma ilha de justiça que não tinha sido afetada pela Queda por meio da qual pecadores poderiam ainda manter uma capacidade moral para se inclinarem por si próprios a Deus. Eles acreditavam, sim, que a fim de ser regenerados, eles precisavam primeiro exercer fé por meio do exercício de suas vontades. Eles não criam que a divina e sobrenatural ação do Espírito Santo seria uma pré-condição necessária para fé.

Os autores da introdução ao ensaio sobre “A Escravidão da Vontade” escreveram:

“Qualquer um que terminar este livro sem ter percebido que a teologia evangélica mantém-se em pé ou cai com a doutrina da Escravidão da Vontade, o leu inutilmente. A doutrina da justificação livre unicamente pela fé, que se tornou o olho do furacão de tamanha controvérsia surgida no período da Reforma Protestante, é considerada com freqüência como o coração da Teologia dos Reformadores, mas isto é dificilmente preciso. A verdade é que o pensamento de tais homens estava realmente concentrado sobre esta contenda...que a completa salvação do pecador tem lugar pela livre e soberana graça unicamente...é pois a nossa salvação completamente da parte de Deus, ou a final de contas depende de algo que depende de nós mesmos? Aqueles que afirmam a segunda opção (os Arminianos o fazem) portanto negam a declarada incapacidade do homem advinda do pecado, e também confirmam que uma forma de semi-Pelagianismo é verdadeiro, de alguma maneira. Não é de se admirar, portanto, que a primitiva teologia Reformada condenou o Arminianismo, como sendo em princípio um retorno a Roma... e uma traição à Reforma... o Arminianismo foi, verdadeiramente, aos olhos dos Reformadores, uma renúncia ao Cristianismo do Novo Testamento em favor do Judaísmo neotestamentário; pelo fato de alguém se garantir a si mesmo por fé, não ser afinal diferente em nada do princípio de se repousar nas suas própria obras, sendo anti-Cristão tanto um pensamento quanto o outro”.

Estas são palavras severas. Verdadeiramente para alguns são até palavras contenciosas. Mas de uma coisa eu estou certo: elas espelham e refletem com precisão os sentimentos de Agostinho e dos Reformadores. A questão da magnitude e extensão do Pecado Original está atrelado inseparavelmente à nossa compreensão da doutrina da Sola Fide. Os Reformadores compreenderam claramente que existe uma imprescindível ligação entre Sola Fide e Sola Gratia. Justificação unicamente pela fé significa pela graça unicamente.

Assim sendo, o semi-Pelagianismo em seu formato Erasmiano cria uma ruptura entre as duas e apaga o fator SOLA do temo Sola Gratia.

NOTAS:
1. Entenda-se pelo termo teológico PECADO ORIGINAL, não o próprio ato de desobediência que Adão e Eva cometeram no jardim, ao comerem do fruto da árvore sobre a qual o Senhor Deus os havia advertido, mas às conseqüências abrangentes deste ato sobre toda a sua posteridade.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

ESTUDO Nº 14 - O HOMICÍDIO E A QUESTÃO DA IRA (Mateus 5.21-26)


INTRODUÇÃO
Sabe-se que a amizade é uma das maiores riquezas. Quem coleciona amigos é uma pessoa sábia. Se, por um lado, “o homem que tem muitos amigos sai perdendo” – como afirma o provérbio -, por outro, “há amigo mais chegado que um irmão” (Pv 18.24)

O ideal divino é que haja harmonia nos relacionamentos interpessoais. Porém, até mesmo no ambiente das igrejas há pessoas com relacionamentos rompidos, e o pior de tudo é que destes nem todos procuram praticar a lição pregada por Jesus. Para o Evangelho, preservar a ira, manter inimizades, conservara o ódio, enfim, quebrar o relacionamento fraterno sem disposição para praticar o perdão e a reconciliação, constitui-se em pecado que separa as pessoas de Deus.

Como isto tem conseqüências no ambiente da Igreja? Como isto afeta o nosso relacionamento com Deus? Como as pessoas não cristãs recebem a pregação do amor por aqueles que vivem a contender entre si? 

A preciosa lição de Jesus a respeito da reconciliação precisa ser revista pelo povo de Deus.

BREVE ANÁLISE DO TEXTO
A Lei de Deus, entregue a Moisés, proibia, com destaque, o ato de assassinar. O homicídio era severamente condenado por Deus. O Mestre trouxe um novo ponto de vista a respeito do homicídio, ou seja, demonstrou que o crime é possível ocorrer através da mais simples ofensa ao semelhante.

Em Mt 5.21-26 o Mestre ensina que o ódio se constitui em uma violação do sexto mandamento do Decálogo, pois é a raiz do pecado contra a vida humana e pode levar alguém à prática de assassinato.

Jesus amplia a aplicação da proibição indo além do ato de tirar a vida física de uma pessoa. Matamos o próximo não só quando excluímos da convivência de seus familiares e amigos, tirando-lhe a vida. Mas, mesmo quando o deixamos vivos para os outros, o matamos para nós mesmos com nossas palavras, atos, iras e insultos.[1]

Assim sendo, essas atitudes contrárias à lei gera conflitos entre as pessoas dificultando os relacionamentos humanos, pelo sermão de Jesus só há um tratamento para se ajustar os relacionamentos quebrados: a reconciliação.

1. AÇOES GERADORAS DO HOMICIDIO, V. 21-22
Esses mestres ensinavam apenas a questão do homicídio literal. O Senhor Jesus ensina que este mandamento não trata apenas do homicídio literal, mas também a ira sem motivo contra o próximo, seja ela manifesta ou não de uma maneira visível. Segundo Jesus, odiar, nutrir ressentimentos e sentimentos malignos contra uma pessoa é equivalente a cometer um ato de homicídio. Os fariseus e escribas se preocupavam com os aspectos exteriores do homem, mas o Senhor apontou para o coração do ser humano, àquilo que está guardado no seu mais íntimo, “porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mateus 15.19).[2] 

O Senhor destaca aqui diferentes formas de equivalência ao pecado do homicídio. 

a) Irar – Irar significa ficar com raiva de alguém, sentir cólera contra alguma pessoa. A bíblia declara que é possível irar, mas sem pecar (Ef 4.26). Quando a ira é pecaminosa, certamente a inimizade se manifestara. A ira é pecaminosa quando o irado a retém (Ef 4.26,27); ou quando extravasa o seu rancor, em atos concretos, resultando em ofensa e ate agressão. O salmista Davi recomendou deixar a ira e abandonar o furor (Sl 37.8). Tiago declara que “a ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tg 1.19-20)

b) Proferir insulto contra o irmão - A Bíblia Viva cita o versículo 22, da seguinte maneira: “Se vocês chamaram um amigo de idiota, correm o perigo de serem levados perante um tribunal...” Insulto é uma agressão verbal, geradora de inimizade. Para o apostolo João, isso implica em odiar o irmão (I Jo 3.15). Daí o apóstolo Paulo recomendar que os cristãos profiram apenas palavras que edifiquem (Ef 4.29). 

c) Chamar o irmão de tolo – Chamar de tolo tem a ver com a intenção de amaldiçoar o semelhante. A ofensa não é só chamar de tolo; é considerar o outro, tolo. Quando isso acontece, o relacionamento está abalado. Ninguém suporta ser considerado idiota, desmiolado e estúpido.

2. RECURSOS PARA VENCER O HOMICIDIO, V.23-24
Jesus apresentou não apenas as causas geradoras de inimizade, mas também ofereceu soluções praticas para essa questão. Ele não apenas fez uma sondagem do problema; foi além, apresentando alternativas para vencer tal situação: 

a) Lembrar de ofensa praticada (v.23) - O Mestre apela à consciência dos cristãos para que não se esqueçam de atos pecaminosos praticados, ou mesmo aqueles efetuados contra a própria pessoa. Existe a tendência de se deixar de lado, de esquivar-se, ou de não querer lembrar dos erros. Contudo, isso implica em problema sério: A falta de perdão ou do ato de perdoar, faz com que as nossas orações serão bloqueadas, (Is 1.15-18 e I Tm 2.8).[3]

b) Ir ao encontro do irmão (v.24) - O discípulo de Jesus quer tenha sido o ofensor, quer seja o ofendido e inocente, precisa ter a coragem de dar o primeiro passo para reconciliar-se com o inimigo. Isso mostra a necessidade de ação.

A vida cristã não é estática, e sim, dinâmica em todos os seus aspectos. Essa atitude dinâmica deve ser praticada quantas vezes forem necessárias, pois não há limites para a reconciliação (Mt 18.21,22; Cl 3.13). Jesus recomenda que se deve ir ao encontro do próximo, com a intenção de acabar com a inimizade (Mt 18.15-17).

3. O VALOR DOS RELACIONAMENTOS 
O ensino do Mestre é completo, pois além do diagnostico e das diretrizes para a solução do problema da inimizade, ele conclui apresentando alguns dos benefícios de uma vida cristã isenta de inimizades:

a) Vida de culto que agrada a Deus (v.24) - Quando Jesus se refere à oferta ele fala a respeito de culto. Seu ensino refere-se a um culto sincero, verdadeiro, onde o mais importante é um adorador de bem com o seu próximo. O que Deus deseja é: antes misericórdia do que sacrifício (Mt 9.13).

Por conseguinte, ele ordena “deixar a oferta” e correr para se reconciliar com o semelhante. A inimizade, com certeza, constitui-se em um obstáculo à vida de culto e oração (Mc 11.25.26).

b) Vida isenta de julgamento (vv.25,26) - O texto é claro em afirmar que, se não houver a eliminação do mal da inimizade, haverá julgamento, ou seja, dura condenação. Portanto, uma vida de inimizade é possível de severo julgamento. Aos corintios, o apostolo Paulo recomendou a busca da reconciliação entre os irmãos, sem a intervenção dos tribunais humanos, para que não ocorra a condenação ( I Co 6.6-8).

Nesse texto, Paulo declara que o fato de haver demandas entre os irmãos já é completa derrota.

c) Fortalecimento da vida comunitária - Os cristãos, conforme Atos dos Apóstolos deixaram os exemplos de um estilo de vida caracterizado pela união, amizade e solidariedade (At 2.44,45; 4.22)

Jesus declarou: “todo reino dividido contra si mesmo ficara deserto, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá” (Mt 12.25).

É oportuna a declaração do salmista: “Oh! Como é bom e agradável viveram unidos os irmãos! (...) Ali derrama o Senhor a sua Benção e a vida para sempre” (Sl 133).


[1] STOTT, Jonh. Contracultura Cristã. São Paulo: ABU Editora, 1982. P. 76.
[2] TASKER, R. G. V. Mateus: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 1991. p.68
[3] BOYER, Orlando. Mateus – O Evangelho do Rei. São Paulo: EMPREVAN Editora, 1973, p. 89.