domingo, 23 de dezembro de 2012

ONDE JESUS ESTEVE ENTRE OS 13 E 30 ANOS?


Por Augustus Nicodemus Lopes

A revista Aventuras na História da Editora Abril publicou uma matéria onde requenta a velha teoria de que Jesus, dos 13 aos 30 anos, viveu em países estrangeiros aprendendo mágica, filosofia e alquimia, antes de se apresentar em Israel como o esperado Messias dos judeus. Vários evangelhos apócrifos são mencionados como fonte para esta especulação.

A matéria é entediante, além de revelar a mais completa ignorância dos estudos bíblicos e arqueológicos relacionados com a vida de Jesus Cristo. É igual às outras publicações sensacionalistas de fim de ano, que se aproveitam do Natal todo ano para interessar os curiosos e ignorantes tecendo teorias absurdas sobre a vida de Jesus.

A razão pela qual os Evangelhos não nos dizem nada sobre Jesus dos 13 aos 30 anos é por que os Evangelhos não são biografias no sentido moderno do termo, onde se conta toda a história da vida do biografado, desde seu nascimento até a sua morte, dando detalhes da sua infância, adolescência, mocidade, vida adulta e velhice. Os Evangelhos, como o nome já diz, foram escritos para evangelizar, isto é, para anunciar as boas novas da salvação mediante a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto, o que da vida de Jesus interessa aos Evangelhos é seu nascimento sobrenatural, para estabelecer de saída a sua divindade, seu ministério público a partir dos 30 anos, quando fez sinais e prodígios e ensinou às multidões, e sua morte e ressurreição que são a base da salvação que ele oferece. Não há qualquer interesse biográfico na adolescência e mocidade de Jesus, pois nesta época, viveu e cresceu como um rapaz normal.

Assim mesmo, algumas informações dos Evangelhos canônicos - Mateus, Marcos, Lucas e João - nos deixam reconstruir este tempo da vida de Jesus, que passa sem registro direto. Lemos que quando Jesus começou a fazer milagres e a ensinar em sua própria cidade, Nazaré, os moradores estranharam muito pelo fato de que eles conheciam Jesus desde a infância:

"E, chegando à sua terra, ensinava-os na sinagoga, de tal sorte que se maravilhavam e diziam: Donde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes miraculosos? Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto? E escandalizavam-se nele. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, senão na sua terra e na sua casa. E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles". (Mat 13:54-58 ARA)
Percebe-se pela passagem acima que os moradores da cidade conheciam Jesus e toda a sua família. Se Jesus tivesse passado estes 27 anos fora da cidade, certamente não haveria esta reação.

Além do mais, o ensino de Jesus acerca da Lei, dos mandamentos, do Reino de Deus , as suas parábolas e suas ilustrações são todas tiradas do Judaísmo, das Escrituras do Antigo Testamento e das terras da Palestina. Ele está familiarizado com a agricultura, o cuidado de ovelhas, o mercado, o sistema financeiro e legal da Palestina. Estas coisas teriam sido impossíveis se ele tivesse passado todos estes anos recebendo treinamento teológico e místico em outro país, outra cultura, outra religião. Não há absolutamente nada no ensino de Jesus que tenha se originado na religião egípcia, persa, mesopotâmica do da índia, todas elas politeístas, cheias de deuses e totalmente panteístas. O ensino de Jesus, ao contrário é monoteísta e criacionista.

Estas lendas bobas da sua infância são tiradas de "evangelhos" apócrifos e espúrios, cuja análise já fiz e ofereci aos meus leitores aqui. 

É impressionante, todavia, que ainda estão dando importância a este fragmento de um suposto "evangelho da esposa de Jesus" mesmo após autoridades em manuscritologia e papirólogos terem rejeitado sua importância e mesmo sua autenticidade. Escrevi aqui sobre o tal fragmento.

No fundo, a razão para todas estas especulações é a rejeição do quadro simples e claro que os Evangelhos nos pintam acerca de Jesus, como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que nasceu, viveu e morreu para que pudéssemos ter o perdão de pecados e a vida eterna.

O AMOR AO PRÓXIMO - UM MANDAMENTO INCONCEBÍVEL (MT 5.43-48)


INTRODUÇÃO 

Neste estudo estamos encerrando a segunda parte do Sermão do Monte. Durante este período abordamos o sentido espiritual da Lei do Antigo Testamento. Iniciamos com Jesus declarando ter vindo a cumprir a Lei e os profetas, não a revogá-los (Mateus 5.17-19).

Em seguida abordamos o ponto central, no qual o Senhor afirmou que a nossa justiça deve ser muito superior àquela falsa imagem de justiça aparente demonstrada pelos religiosos da época, os fariseus e escribas (Mateus 5.20).

A partir disso, o Senhor passou a ilustrar por meio de vários exemplos (Mateus 5.21-48) a forma errada em que os fariseus e escribas interpretavam a lei de Deus, mostrando também como é que nós, discípulos de Jesus, devemos encarar os ensinamentos de Deus.

Note que todos os ensinamentos sobre homicídio (versos 21-26), sobre o adultério e o divórcio (v.27-32), sobre os falsos juramentos (v.33-37) ou sobre a vingança (v.38-42), se resumem nisto: o amor ao próximo.

O próprio Senhor Jesus ensinou, em outra ocasião, que a lei e os profetas se resumem em duas coisas: amar a Deus por sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (Marcos 12.33). Se tivermos verdadeiro amor não precisamos de instruções detalhadas sobre como agir com as pessoas. É por isto que o amor é a lei de Cristo (João 15.12), a centralidade do evangelho do novo testamento.


1. AS INSTRUÇÕES DO ANTIGO TESTAMENTO E AS INTERPRETAÇÕES DOS MESTRES.

Os mestres da época de Jesus (fariseus e escribas) ensinavam o seguinte: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo”. Ora o interessante deste ensinamento é que a primeira parte dele estava na Lei, mas a segunda não. Não existe nenhum texto do Antigo Testamento que afirme que os judeus deviam odiar seus inimigos (Lv 19.17-18).

Por que então ensinavam assim?


Os mestres da época pensavam assim a respeito deste texto: “como o texto fala de não se vingar nem guardar ira contra os filhos do povo, mas que se deve amar o próximo, então o próximo é apenas o filho do meu povo”.[1] A conseqüência disto é que nem estrangeiros nem inimigos deviam ser considerados como próximos. Contudo, eles ainda continuavam errados, pois a Lei mostrava o modo como deveria ser tratados os estrangeiros e inimigos (Dt 23.7; Êx 23.4-5). 

E qual a justificativa dessa interpretação?


Segundo Lloyd-Jones, elas podem ter sido baseadas em dois aspectos principais da lei do Antigo Testamento: 

a) Motivos históricos: No AT, encontramos ordens de Deus para que os judeus aniquilassem os povos que habitavam na terra de Canaã e inimigos de Israel, Dt 7.2; 20.16; 23.6. 

b) Os salmos imprecatórios: São aqueles nos quais o salmista clama pela justiça e ira divina sobre os seus inimigos. (Ex. 69.24-26).

Que resposta se pode dar a estas justificativas?

O Senhor foi muito claro que não se tratava de vingança e nem ódio, mas que se tratava da aplicação do justo juízo de Deus contra os povos que praticavam coisas abomináveis. Temos como exemplos, o dilúvio nos tempos de Noé, a destruição de Sodoma e Gomorra, a destruição dos cananeus e a deportação de Judá a Babilônia [2]

Contudo, O Senhor não se agrada em ter que aplicar os seus justos juízos (Ez 33.11).

2. AS INSTRUÇÕES DE JESUS, v. 39-42

O ensinamento do Senhor Jesus, além de excluir a interpretação dos escribas e fariseus, vai mais longe ainda dizendo o seguinte: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5.44). Ao invés de odiarmos, como o faziam os religiosos daquela época, Ele nos manda a amar os inimigos. Não nos compete apenas fazermos o bem aos inimigos, mas também amá-los com compaixão.

Quem é o nosso próximo?


Stott, assim definiu: “O nosso próximo, como Jesus exemplificou na parábola do bom samaritano (Lc 10.29-37), não é neces­sariamente um membro de nossa própria raça, classe social ou religião. Pode até nem ter qualquer ligação conosco. Pode ser nosso inimigo, que está à nossa procura com um punhal ou com uma arma de fogo. Nosso "próximo", no vocabulário de Deus, inclui o nosso inimigo. O que o faz ser nosso próximo é simplesmente o fato de ser um ser humano em necessidade, da qual tenhamos tomado conhecimento, estando em nós a possi­bilidade de aliviá-la de alguma forma”.[3] 
Para um melhor entendimento vamos usar textos sinóticos entre Mateus e Lucas: 

a) Amai e fazer o bem os vossos inimigos, v. 44a (Lc 6.27)


Amar a quem nos ama é algo natural que segue uma espontânea correspondência. Amar a quem não nos ama, pelo contrário, nos ofende, demanda esforço (coração) e determinação (vontade), bem como um motivo muito forte – DEUS, Rm 5.6-8,10.[4] 

Mas, mesmo sendo odiado, é dever do cristão buscar o bem-estar material e espiritual do próximo, Rm 12.17-21; Lc 6.35; Ex 23.4-5. 

b) Bendizer e orar pelos que vos perseguem, v. 44b (Lc 6.28)


Para orar por quem nos persegue é necessário amar tal pessoa. Escreveu Bonhoeffer. "Na oração colocamo-nos ao lado do inimigo, es­tamos com ele, junto dele, por ele diante de Deus.” [5] 

Jesus orou por seus atormentadores enquanto os cravos de ferro estavam sendo introduzidos em suas mãos e pés (Lc 23:34). O diácono Estevão orou por aqueles que, enfurecidos, o apedrejavam (At 7.60).

Mesmo que eles invoquem o desastre e a catástrofe sobre as nossas cabeças, expressando em palavras o seu desejo de nos ver cair, devemos retribuir invocando as bênçãos dos céus sobre eles, declarando em palavras que só lhes desejamos o bem. (I Pe 3.8-9)

3. A APLICABILIDADE DA PERFEIÇÃO CRISTÃ, v. 45-48

a) Para que vos torneis filhos do vosso Pai Celeste, v. 45.


Os escribas e fariseus faziam do ódio aos inimigos parte integrante de sua religião. Ao contrário disso, o que nos identifica como filhos de Deus é o amor para com todos indistintamente. 

O amor divino é amor indiscriminado, para com os bons e maus. Os teólogos (segundo Calvino) chamam a isto de “graça comum” de Deus. Esta graça comum de Deus expressa-se, então, não no dom da salvação (graça salvadora), mas nos dons da criação, e nas não menos importantes bênçãos da chuva e do sol, sem as quais não poderíamos comer, nem poderia a vida no planeta continuar (At 14.17). 

b) Sede vós perfeitos, v. 48 

1. Não significa impecabilidade – Em parte alguma da Bíblia encontramos que o homem pode alcançar, nesta vida, a perfeição moral (doutrina da perfeição cristã), como ensinado em algumas religiões.

2. Não significa igualdade com Deus – é conveniente dizer e pensar em ser santo ou perfeito porque Deus é santo e perfeito. O texto paralelo de Lc 6.36 ajuda a entendermos que Deus nos chama para sermos perfeitos em amar, ou seja, amarmos até os nossos inimigos com a mesma qualidade do amor de Deus.

3. Significa maturidade – Desde que os seres humanos foram feitos à imagem e semelhança de Deus, tornam-se “perfeitos” (maduros) quando tentam demonstrar em suas vidas as características que revelam a natureza de Deus, Fp 3.12-15.[6]

PARA CONCLUIR:

O mundo mais do que nunca, está precisando de pessoas que ajam assim, e esta é a proposta divina para nós, de “vencer o mal com o bem” (Rm 12.21), de ser perfeitos, ser diferentes. Busquemos esta perfeição. Se não estamos agindo assim, ainda há tempo para à correção... “sede vós perfeitos...” 

_______________________
[1] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel. 1999, p. 254. 
[2] STOTT, John. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 116. 
[3] ___________. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 118. 
[4] MARTINS, Valter Graciano. A Plataforma do Reino. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. p. 18 
[5] BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. Sinodal: 1984, p. 62. 
[6] MOUNCE, Robert H. Mateus – Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. São Paulo: Editora Vida, 1985. p. 62



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

JOÃO CALVINO E PREGAÇÃO DAS ESCRITURAS (Franklin Ferreira)


De humanista a reformador João Calvino nasceu em 10 de julho de 1509, em Noyon, na Província de Picardia (França), na fronteira dos Países Baixos. Seu pai era um advogado que trabalhou para o cônego desta cidade, e sua mãe, uma mulher muito piedosa. Foi enviado para estudar filosofia em Paris, no Collège de Montaigu, mas em 1528, após se desentender com os líderes da igreja, seu pai o enviou para estudar direito em Orléans e grego em Bourges. Em 1531, com a morte do pai, retornou a Paris para dedicar-se ao seu interesse predileto, a literatura clássica.

Em 1533, converteu-se à fé evangélica e a respeito deste fato disse:

"Minha mente, que, a despeito de minha juventude, estivera por demais empedernida em tais assuntos, agora estava preparada para uma atenção séria. Por uma súbita conversão, Deus transformou-a e trouxe-a à docilidade".No final desse ano, teve de fugir de Paris sob acusação de ser coautor de um discurso simpático aos protestantes, proferido por Nicholas Cop, o novo reitor da Universidade de Paris. Refugiou-se na casa de um amigo em Angoulême, onde começou a escrever a sua principal obra teológica. Em março de 1535, foi publicada em Basiléia a primeira edição das Institutas da Religião Cristã, que seria "uma chave para abrir o caminho para todos os filhos de Deus num entendimento bom e correto das Escrituras Sagradas".

Em 1536, ao passar por Genebra, foi coagido por Guillaume Farel a iniciar um trabalho ali. Calvino ficou chocado com a idéia, pois se sentiu despreparado para a tarefa. Ele poderia fazer mais pela igreja através de seus estudos e de seus escritos.

Nesse momento, Farel trovejou a ira de Deus sobre Calvino com palavras que este jamais esqueceria – Deus amaldiçoaria o seu lazer e os seus estudos se, em tão grave emergência, ele se retirasse, recusando-se a ajudar. A primeira estadia de Calvino em Genebra durou menos de dois anos. O seu primeiro catecismo e confissão de fé foram adotados, mas ele e Farel entraram em conflito com as autoridades civis acerca de questões eclesiásticas: disciplina, adesão à confissão de fé e práticas litúrgicas.

De 1538 a 1541, mudou-se para Estrasburgo, onde pastoreou a igreja de refugiados franceses. Um refugiado que visitou a igreja de Calvino fez a seguinte descrição do culto:

"Todos cantam, homens e mulheres; e é um belo espetáculo. Cada um tem um livro de cânticos nas mãos... Olhando para esse pequeno grupo de exilados, chorei, não de tristeza, mas de alegria, por ouvi-los todos cantando tão sinceramente, enquanto agradeciam a Deus por tê-los levado a um lugar onde seu nome é glorificado". Lá se casou com Idelette de Bure e travou contato com Martin Bucer, que influenciou profundamente sua teologia, principalmente acerca da doutrina do Espírito Santo e da disciplina clesiástica.

O erudito de Genebra 

Em 1541, os genebrinos suplicaram que Calvino retornasse à sua igreja. Ele retornou a Genebra no dia 13 de setembro, viu-se nomeado pregador da antiga igreja de St. Pierre e foi "contemplado com um salário razoável, uma casa ampla e porções anuais de 12 medidas de trigo e 250 galões de vinho". Em 1548, Idelette faleceu, e Calvino nunca mais tornou a casar-se. O único filho que tiveram morreu ainda na infância. No entanto, Calvino não ficou inteiramente só. Tinha muitos amigos, inclusive em outras regiões da Europa, com os quais trocava intensa correspondência. Depois de grandes lutas, conseguiu implementar seu programa de reformas, mudando completamente toda a Genebra, tornando-a um exemplo para toda a cristandade, "a mais perfeita escola de Cristo desde os dias dos apóstolos", como o reformador escocês John Knox disse.

Em 6 de fevereiro de 1564, Calvino, muito enfermo, foi transportado para a igreja numa cadeira, pregando então com dificuldade o seu último sermão. No dia de Páscoa, 2 de abril, foi levado pela última vez à igreja. Participou da ceia e, com a voz trêmula, cantou junto com a congregação. Em 28 de abril de 1564, um mês antes de morrer, convocou os ministros de Genebra à sua casa. Tendo-os à sua volta, despediu-se: "A respeito de minha doutrina, ensinei fielmente, e Deus me deu a graça de escrever. Fiz isso do modo mais fiel possível e nunca corrompi uma só passagem das Escrituras, nem conscientemente as distorci. Quando fui tentado a requintes, resisti à tentação e sempre estudei a simplicidade. Nunca escrevi nada com ódio de alguém, mas sempre coloquei fielmente diante de mim o que julguei ser a glória de Deus". Ele faleceu em 27 de maio de 1564. Calvino foi enterrado em um cemitério comum. Devido a seu próprio pedido, não se ergueu lápide alguma sobre o lugar de sua sepultura.


A pregação como Vox Dei

Calvino definiu assim a comunidade cristã: "Onde quer que vejamos a Palavra de Deus ser sinceramente pregada e ouvida, onde vemos serem os sacramentos administrados segundo a instituição de Cristo, não se pode contestar, de modo nenhum, que ali há uma igreja de Deus".

Como o Rev. Paulo Anglada demonstra, o reformador francês elaborou detalhadamente o tema da natureza da pregação como "a voz de Deus". Em seu comentário de Isaías, ele afirma que na pregação "a palavra sai da boca de Deus de tal maneira que ela sai, de igual modo, da boca de homens; pois Deus não fala abertamente do céu, mas emprega homens como seus instrumentos, a fim de que, pela agência deles, possa fazer conhecida a sua vontade".

Comentando a Epístola aos Gálatas, Calvino enfatiza a eficácia do ministério da Palavra, afirmando: visto que Deus "emprega os ministros e a pregação como seus instrumentos para este propósito, apraz-lhe atribuir a eles a obra que ele mesmo realiza, pelo poder do seu Espírito, em cooperação com os labores do homem". Para Calvino, a leitura e a meditação privadas das Escrituras não substituem o culto público, pois, "entre os muitos nobres dons com os quais Deus adornou a raça humana, um dos mais notáveis é que ele condescende em consagrar bocas e línguas de homens para o seu serviço, fazendo com que a sua própria voz seja ouvida neles". Por essa razão, argumenta Calvino, quem despreza a pregação despreza a Deus, porque ele não fala por novas revelações do céu, mas pela voz de seus ministros, a quem confiou a pregação da sua Palavra. Ao falar Deus aos homens, por meio da pregação, Calvino identifica dois benefícios: "Por um lado, ele [Deus], por meio de um teste admirável, prova a nossa obediência, quando ouvimos seus ministros exatamente como ouviríamos a ele mesmo; enquanto, por outro, ele leva em consideração a nossa fraqueza, ao dirigir-se a nós de maneira humana, por meio de intérpretes, a fim de que possa atrair-nos a si mesmo, em vez de afastar-nos por seu trovão".

A importância dada ao sermão se percebe no lugar que ele ocupa na liturgia reformada – o lugar central.

Isso não significa que Calvino tenha dado importância exagerada ao pregador; significa apenas que, para ele, o sermão tem de ser a fiel interpretação da verdade revelada nas Escrituras, dirigida aos problemas do momento. Assim como Calvino cria na presença espiritual de Cristo na administração dos sacramentos, também cria na presença espiritual de Cristo na pregação, salvando os eleitos, edificando e governando sua igreja. Essa concepção sacramental da pregação é afirmada diversas vezes por Calvino nas Institutas. Por exemplo, ao combater o emprego de símbolos visíveis para representar a presença de Cristo no culto, ele afirma que é "pela verdadeira pregação do evangelho", e não por cruzes, que "Cristo é retratado como crucificado diante de nós" (I.11.7).

Citando Agostinho (IV.14.26), que se referia às palavras como sinais, Calvino entendia que na pregação "o Espírito Santo usa as palavras do pregador como ocasião para a presença de Deus em graça e em misericórdia. Neste sentido, as palavras do sermão são comparáveis aos elementos nos sacramentos" (IV.1.6; 4.14.9-19). Por isso, ele escreveu: "A igreja de Deus será educada pela pregação autêntica de sua Palavra, e não pelas invenções dos homens [as quais são madeira, feno e palha]".

A prioridade da pregação expositiva

Calvino escreveu: "A majestade das Escrituras merece que seus expositores façam-na evidente, que tratem-na com modéstia e reverência".

Durante quase 25 anos de ministério na igreja de St. Pierre, em Genebra, seu modelo de pregação foi o mesmo, do começo ao fim, pregando através da Escritura, livro após livro, versículo após versículo.

Uma das mais claras ilustrações de que a pregação seqüencial havia sido uma escolha consciente da parte de Calvino foi este fato: no dia da Páscoa, em 1538, depois de pregar, ele deixou o púlpito da igreja de St. Pierre, banido pelo conselho da cidade; quando retornou, em setembro de 1541, mais de três anos depois, ele continuou a exposição no versículo seguinte.

Como John Piper demonstra, no auge de seu ministério em Genebra, Calvino pregava num livro do Novo Testamento nos domingos pela manhã e à tarde (embora pregasse nos Salmos em algumas tardes) e num livro do Antigo Testamento, nas manhãs, durante a semana. Desse modo, ele expôs a maior parte das Escrituras. Ele começou sua série de pregações expositivas no livro de Atos, em 25 de agosto de 1549 e terminou-a em março de 1554, num total de 89 sermões. Depois, ele prosseguiu para 1 e 2 Tessalonicenses (46 sermões), 1 e 2 Coríntios (186 sermões) e Efésios (48 sermões), até maio de 1558, quando passou um tempo adoentado. Na primavera de 1559, começou a Harmonia dos Evangelhos, série inacabada por conta de sua morte em maio de 1564 (65 sermões). Durante a semana, naquele período, pregou 174 sermões em Ezequiel (1552-1554), 159 sermões em Jó (1554-1555), 200 sermões em Deuteronômio (1555-1556), 353 sermões em Isaías (1556-1559), 123 sermões em Gênesis (1559-1561), 107 sermões em 1 Samuel e 87 sermões em 2 Samuel (1561-1563), e assim por diante. Os livros que ele pregou do primeiro ao último capítulo foram: Gênesis, Deuteronômio, Jó, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, Profetas Maiores e Menores, Evangelhos Sinóticos, Atos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito e Hebreus. Por que este compromisso com a centralidade da pregação expositiva seqüencial? Piper sugere as seguintes espostas:

1. Calvino acreditava que a Escritura era a lâmpada que havia sido tirada das igrejas: "Tua Palavra, que deveria ter brilhado sobre todas as pessoas como uma lâmpada, foi retirada ou, pelo menos, suprimida de nós... E agora, ó Senhor, o que resta a um miserável como eu a não ser... suplicar-te sinceramente que não me julgues de acordo com [meus] desertos, aquele terrível abandono da tua Palavra em que vivi e do qual, na tua maravilhosa bondade, me livraste". Calvino considerou que essa contínua exposição de livros da Bíblia era a melhor maneira de superar o "terrível abandono da Palavra [de Deus]".

2. Calvino tinha aversão a quem pregava suas próprias idéias no púlpito: "Quando adentramos o púlpito, não podemos levar conosco nossos próprios sonhos e fantasias". Acreditava que, expondo as Escrituras por completo, seria forçado a lidar com o que Deus queria dizer, não somente com o que ele talvez gostaria de dizer.

3. Ele acreditava que a Palavra de Deus era, de fato, a Palavra de Deus e que toda ela era inspirada, proveitosa e fulgurante como a luz da glória de Deus: "Que os pastores ousem corajosamente todas as coisas pela Palavra de Deus... Que contenham e comandem todo poder, glória e excelência do mundo, que dêem lugar e obedeçam à divina majestade dessa Palavra. Que encarreguem o mundo todo de fazer isso, desde o maior até ao menor. Que edifiquem o corpo de Cristo. Que devastem o reino de Satanás. Que cuidem das ovelhas, matem os lobos, instruam e exortem os rebeldes. Que amarrem e libertem trovões e raios, se necessário, mas que façam tudo isso de acordo com a Palavra de Deus".

Como Piper destaca, a ênfase aqui é "a divina majestade dessa Palavra". Este sempre foi o assunto fundamental para Calvino. Como poderia expor, da melhor maneira possível, a majestade de Deus? Sua resposta foi dada com uma vida de pregação expositiva contínua. Não havia maneira melhor para manifestar a completa extensão da glória e da majestade de Deus do que difundir toda a Palavra de Deus no contexto do ministério pastoral.


A estrutura do sermão

James Boyce escreveu: "Calvino era antes de tudo um pregador e, como pregador, via-se a si mesmo como um professor da Bíblia... Ele considerava a pregação o seu trabalho mais importante". Cerca de dois mil dos sermões de Calvino foram preservados. Expondo parágrafos e versículos, ele seguia através de um profeta, de um salmo, de um evangelho ou de uma epístola. Como Boyce descreveu: "Ele começava no primeiro versículo do livro e tratava de seções contínuas, de quatro ou cinco versículos, até que chegava ao fim e, neste ponto, dava início a outro livro". Não havia uma palavra de discordância com as Escrituras, nem uma inferência depreciativa, nem uma fuga das dificuldades, embora ele evitasse as especulações infundadas: "Visto que revelar a mente do autor é a única tarefa do intérprete, ele erra o alvo ou, pelo menos, desvia-se de seus limites quando afasta seus leitores do propósito do autor... É... presunção e quase blasfêmia distorcer o significado das Escrituras, agindo sem o devido cuidado, como se isso fosse um jogo que estivéssemos jogando". Por isso, ele enfatizou: "O verdadeiro significado das Escrituras é aquele que é natural e óbvio". Ele renunciou tudo que pudesse trazer-lhe notoriedade, colocando toda sua formação a serviço da fé cristã.

Não é possível descobrir nos sermões de Calvino o arranjo homilético segundo as normas atuais de pregação. Em muitos casos, Calvino tomava o texto, analisava-o e aplicava-o sucessivamente durante cerca de uma hora, o que conferia à mensagem um tom livre e informal.

Como Steven Lawson nota, a introdução do sermão era curta, sucinta e direta, consistindo de um breve comentário que lembrava a congregação o que a passagem anterior dizia, colocava os próximos versículos no contexto ou mostrava o argumento central da passagem pregada, relacionando-a ao contexto da estrutura do livro que estava sendo exposto.

Por isso, pode-se perceber que há uma ordem e um arranjo lógico e um desenvolvimento progressivo nas suas mensagens. Seus sermões não são exemplos de beleza e estilo por duas razões: ele pregava sem esboço, pois tinha de pregar quase diariamente; e tinha um profundo respeito para com a Palavra de Deus, a ponto de pensar que um estilo excessivamente elaborado poderia prejudicar a clareza da mensagem.

Neste caso, a pregação sem anotações era uma reação ao costume daquela época, quando os sermões eram lidos e se tornavam frios, sem entusiasmo e sem energia. Por outro lado, de acordo com Lawson, ainda que pregasse sem anotações, seus sermões testemunham um uso impressionante de frases curtas compostas de sujeito, verbo e predicado e fáceis de assimilar, palavras simples e expressões coloquiais, figuras de linguagem, perguntas retóricas, paráfrases e repetições, ironia mordaz e linguagem instigante.

Carl G. Kromminga afirmou que Calvino viveu e trabalhou como se estivesse na presença de Deus. Por isso, o empenho de Calvino era trazer os homens à presença de Deus.

Isto é ainda mais evidente em seus sermões, que eram sempre cruciais e decisivos. T. H. L. Parker escreveu: "A pregação expositiva consiste na explanação e aplicação de uma passagem das Escrituras. Sem explanação, ela não é expositiva; sem aplicação, ela não é pregação". Por isso, Calvino escreveu que os ouvintes do sermão deveriam cultivar um "desejo de obedecer a Deus de forma completa e incondicional". E acrescentou: "Não assistimos à pregação meramente para ouvir o que não sabemos, mas para sermos encorajados a fazer nossa obrigação".

Por isso, seus sermões partiam das Escrituras para a situação concreta e presente em Genebra, incluindo exortação pastoral, exame pessoal, repreensão amorosa, confrontação, usando muitas vezes pronomes na primeira pessoa do plural.

Nem sempre Calvino usou ilustrações, e, quando as usava, elas eram raramente de fora da Escritura. No entanto, ele estabelecia comparações com o quadro da vida diária para tornar bem accessível ao seu ouvinte a mensagem da Palavra de Deus. Kromminga aponta as metáforas, as exclamações e outros recursos da oratória que contribuíram para tornar efetiva a sua mensagem.

E, na conclusão de cada sermão, ele fazia primeiramente um resumo da verdade que explicara num parágrafo curto; depois, instava de forma direta seus ouvintes a que se submetessem ao Senhor, em arrependimento, obediência e humildade.

Finalmente, ele concluía com uma oração, confiando seu rebanho a Deus.

Precisa ser ressaltado que Calvino acreditava que Paulo havia providenciado um modelo para o ministério da Palavra, quando falou sobre como ele, Paulo, não cessava de admoestar tanto "publicamente" quanto de "casa em casa". Por ter uma verdadeira preocupação pastoral por aqueles para quem estava pregando, Calvino procurou visitá-los em seus lares. "O que quer que os outros pensem", Calvino escreveu, "não julgaremos o nosso ofício como algo que possui limites tão estreitos, que, terminado o sermão, possamos descansar achando que concluímos a nossa tarefa. Aqueles cujo sangue será requerido de nós, se os perdermos por causa de nossa preguiça, devem receber cuidado mais íntimo e mais vigilante". Portanto, a pregação requer ser suplementada com uma entrevista pastoral. "Não é suficiente que, do púlpito, um pastor ensine todas as pessoas conjuntamente, pois ele não acrescenta instrução particular de acordo com a necessidade e as circunstâncias específicas de cada caso". Calvino insistiu que o pastor precisa ser um pai para cada membro da congregação.

O papel do pregador

O centro da atenção de Calvino era a vontade de Deus, era a revelação da face de Deus e o empenho em trazer o ouvinte à presença do Senhor. Ou na pregação da mais profunda doutrina, ou em algum tema ligado à vida prática, Calvino chamava continuamente os seus ouvintes à face de Deus. Em 1537, aos 29 anos, num de seus primeiros livros, Breve Instrução Cristã, ele escreveu:

Como o Senhor desejou que tanto a Sua Palavra como as Suas ordenanças fossem dispensadas ou administradas por meio do ministério de homens, é necessário que haja pastores ordenados nas igrejas, para ensinarem ao povo a sã doutrina, pública e privadamente; administrarem as ordenanças e darem a todos o bom exemplo de uma vida pura e santa... Lembremo-nos, contudo, que a autoridade que as Escrituras atribuem aos pastores está plenamente contida nos limites do ministério da Palavra, pois o fato é que Cristo não deu esta autoridade a homens, e sim à Palavra da qual Ele faz esses homens servos.
Portanto, que os ministros da Palavra se disponham a fazer todas as coisas por meio dessa Palavra que eles foram designados a apresentar.

Que eles façam com que todos os poderes, todas as celebridades e todas as pessoas de alta posição no mundo se humilhem, a fim de obedecerem à majestade dessa Palavra.

Por meio dessa Palavra, que eles dêem ordens a todo o mundo, do maior ao menor; que edifiquem a casa de Cristo, ponham abaixo o reino de Satanás, pastoreiem as ovelhas, matem os lobos, instruam e encorajem os que se deixam ensinar; acusem, repreendam e convençam os rebeldes dos seus pecados – mas tudo pela Palavra de Deus.

Se alguma vez eles se apartarem dessa Palavra, para seguirem as fantasias e invenções da sua própria cabeça, daí em diante não devem ser recebidos como pastores; ao contrário, são lobos perniciosos que devem ser postos fora! Pois Cristo estabeleceu que não devemos dar ouvidos a ninguém, exceto àqueles que nos ensinam o que extraíram de Sua Palavra.

Não será disso que necessitamos com urgência hoje? Porventura, será que não precisamos hoje de uma revitalização da mensagem ao estilo de Calvino, de modo a colocar a comunidade cristã face a face com Deus?

__________________
.
- Sobre o autor: Franklin Ferreira é Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. É diretor e professor de teologia sistemática e história da igreja no Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos, São Paulo, e consultor acadêmico de Edições Vida Nova. Autor dos livros Teologia Cristã e Teologia Sistemática (este em coautoria com Alan Myatt), publicados por Edições Vida Nova, e Gigantes da Fé e Agostinho de A a Z.


sábado, 3 de novembro de 2012

CARROS FURIOSOS E OS NOSSOS FILHOS




"Os carros andam furiosamente nas ruas; cruzam as praças em todas as direções; parecem como tochas, e correm como os relâmpagos" Naum 2.4.
A perda de um filho é tão antinatural que não há em nossa língua um termo que defina essa situação.

Porém, o paradoxo em nosso país é que, por mais antinatural que seja o trânsito está matando como nunca os nossos jovens.

Para nós, pais, parentes e amigos de vítimas de trânsito, a dor intensa do primeiro momento, aumenta a cada dia. Em primeiro lugar, pela certeza de que não teremos mais nossos jovens juntos de nós. Em segundo lugar, pela constatação cruel de que, pelo descaso e omissão de autoridades e de parcela expressiva da sociedade, novos pais órfãos de filhos juntar-se-ão ao já gigantesco contingente de eternas vítimas da violência do trânsito.

Contudo, dessa indescritível dor, há que tirarmos uma lição. A família, nesse momento, deve continuar firme nos seus propósitos. Permanecer forte e seguir em frente, sem jamais virar as costas para a vida. Não há alternativa para aqueles que são alcançados por tragédias tão marcantes como a perda de um filho de maneira prematura. Nossa missão passa a ser: não desanimar, ser solidário, ter fé e permanecer produtivo… Esse deve ser sempre o nosso lema.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012


O SENTIMENTO DE PERDA

Um dos sentimentos mais perturbadores que pode nos afligir é o sentimento de perda. São poucos os que ainda não foram visitados por esse inquilino, que teima eu residir na alma, trazendo-nos tristezas, destruindo os sonhos, desanimando-nos na caminhada, desfalecendo as forças e matando nossas esperanças.

No Evangelho de São Marcos (16.5-10), fala de um tempo difícil para os
discípulos de Jesus. Eles estavam sofrendo pela perda repentina de seu mestre Jesus, que havia sido crucificado. O texto diz que eles estavam tristes e choravam pela perda. “…se achavam tristes e choravam.” Mc 16.10.

Hoje, passamos por este mesmo sentimento (lágrimas e choro) com perda repentina de um amigo estimável. Antes eu orava para que Deus o livrasse daquele leito e nos devolvesse o meu amigo ARILSON... 

Hoje, porém a minha oração é para que Deus conforte e família, os amigos e nos ajude a administrar este sentimento de perda e que conserve vivo em nossa memória os bons momentos que passamos com este nobre Filho de Deus!


domingo, 16 de setembro de 2012

GOSPEL DE RAPINA


Por Walter McAlister

Soube hoje que as Igrejas Cristãs Nova Vida, da qual sou o Bispo Primaz, foram notificadas de que teriam de pagar direitos autorais pela execução de músicas de “louvor” nos seus cultos. Cada uma de nossas igrejas ficaria, assim, responsável por declarar o número de membros e a frequência aos seus cultos, para que fosse avaliado o imposto a ser pago ao Christian Copyright Licensing International (CCLI), sociedade que realiza a arrecadação e a distribuição de direitos autorais decorrentes da execução pública de músicas nacionais e estrangeiras. Por sua vez, o CCLI repassaria o valor devido aos compositores cujas músicas estão cadastradas.

São poucas as vezes em que me vejo sequestrado por um assunto do momento aqui no blog. Tenho como norma pessoal não me deixar levar pelas “últimas”. Já há bastante alvoroço em torno de assuntos efêmeros e não precisam da minha voz para somar à confusão instaurada por “notícias” e controvérsias. Não obstante essa regra que tento seguir, não posso me calar ante esse fato. Já deixei passar algumas horas até que a minha revolta se acalmasse, para que, no seu lugar, pudesse me expressar com clareza e me reportar às Escrituras como regra. Pois, em meio ao transtorno, ninguém se contém e acaba por pecar pelo excesso. Isso não quer dizer que me sinta menos convicto sobre o que tenho a dizer, mas quero realmente trazer uma perspectiva lúcida.

Comecemos pelo que constitui o direito autoral e o porquê da sua existência. Seria justo que alguém lucrasse pelo trabalho, a inspiração e a arte de outro sem que o autor da obra participasse dos lucros? Certamente que não. Cada emissora de rádio, show ou outro tipo de empreendimento com fins lucrativos deve prestar a devida parcela do seu lucro a quem ajudou a produzir essa arte.

Por outro lado, a Igreja é um empreendimento com fins lucrativos? Não – segundo a definição do próprio Estado brasileiro. Ela goza de certos privilégios, na compreensão de que a sua atividade é religiosa, devota e piedosa e, sendo assim, sem fins lucrativos. Que muitos “lucram” em nome da Igreja ninguém duvida. Mas, em termos estritamente definidos pela legislação, não é um empreendimento que tenha como finalidade o lucro.

Louvar a Deus é uma atividade que gera rentabilidade? Também não. Quando cantamos ao Senhor, estamos nos expressando a Deus em sacrifício santo e agradável a Ele (se bem que não caem nesta categoria muitas das músicas que doravante serão objeto de taxação, por decreto-lei). Mas, para manter o fio da meada desta reflexão, suponhamos que as músicas adocicadas, sem fundamento em qualquer real princípio cristão, emotivas e, em alguns casos, passionais (para não dizer sensuais) sejam realmente louvor (algo que tenho tentado ensinar a nossa denominação que não são). Cantar essas músicas traz lucro para a igreja? A resposta é não. A igreja não lucra. Não há um centavo a mais caindo nas salvas porque cantamos uma música de uma dessas cantoras gospel da moda em vez de Castelo Forte. É possível fazer um culto fundamentado apenas nas músicas riquíssimas do Cantor Cristão e da Harpa Cristã (para não falar nos Vencedores por Cristo, cuja maioria das canções não recai sobre este novo decreto-lei).

Esses cantores e essas cantoras têm o apoio de empresários da fé. Homens que também lucram absurdamente às custas da boa-fé de pessoas a quem prometem uma vida de lucro pelo seu envolvimento. Não me surpreende ver a lista de “notáveis” que apoiam essa iniciativa.

Agora, esses cantores que se venderam para emissoras de televisão, que ganham fortunas nas suas turnês “gospel” e pela venda de incontáveis CDs e DVDs, não estão satisfeitos. Querem mais. Querem “enterrar os ossos”. Tornaram-se mercadores da fé, e com essa última cartada, suas máscaras caem por terra. Que máscaras? As que fazem com que acreditemos que eles realmente creem que o culto é para Deus somente. Para eles, a igreja não passa de fonte de lucro. A igreja não passa de um negócio. Sim, porque, por essa ação, afirmam não acreditar que a igreja seja uma assembleia de sacrifício. Para eles, a igreja é uma máquina de dinheiro. Sua eclesiologia é clara. Suas lágrimas de comoção são teatro. Seus gestos de mãos erguidas não passam de encenação.

A despeito do meu repúdio por esse grupo de músicos “cristãos”, fico grato a eles por uma razão. Tenho tentado ensinar a denominação que lidero a ser mais criteriosa na escolha das músicas cantadas nos cultos. Por força da popularidade desses “superastros do louvor” a pressão da juventude e dos músicos da igreja tem sido quase insuportável. Então cantam as músicas sem devocionalidade real deles e delas para o enlevo de pessoas que nem precisavam confessar Jesus para cantá-las com comoção. Graças ao mercantilismo dos tais, vou emitir uma circular para as nossas igrejas em que instruirei todas a pagar os direitos autorais devidos caso queiram insistir em usar as referidas músicas da moda em seus cultos.

Os que não querem fazer parte desse mercado de rapina receberão uma lista compreensiva de músicas que continuam sendo de domínio público, inclusive as que compus e pelas quais nunca recebi nem quero receber um centavo. Graças a Deus, são os bons e velhos hinos que têm conteúdo e substância, confissão e verdadeiro testemunho do Evangelho. Há centenas de hinos antigos que vamos tirar das prateleiras e redescobrir. Podemos aprendê-los e retrabalhá-los para torná-los atuais aos nossos dias, com arranjos interessantes. Músicas escritas por santos e não por crianças. Músicas escritas para a glória de Deus e não para lucro sórdido. Sim, faleisórdido. Pois os atuais já lucraram com o que é legítimo. Agora vão atrás do resto. É um gospel de rapina. Sinto-me na necessidade de tomar um banho, pois essa história me forçou a passear pelo lamaçal onde esses chafurdam para encher a própria barriga – que é o seu deus, afinal.

Que bom que já me acalmei, pois realmente tinha vontade de dizer muito mais.

Na paz,
+W


Fonte: Site do autor

ESTUDO Nº 18 - O AMOR AO PRÓXIMO - UM MANDAMENTO INCONCEBÍVEL (MT 5.43-48)


INTRODUÇÃO 

Neste estudo estamos encerrando a segunda parte do Sermão do Monte. Durante este período abordamos o sentido espiritual da Lei do Antigo Testamento. Iniciamos com Jesus declarando ter vindo a cumprir a Lei e os profetas, não a revogá-los (Mateus 5.17-19). 

Em seguida abordamos o ponto central, no qual o Senhor afirmou que a nossa justiça deve ser muito superior àquela falsa imagem de justiça aparente demonstrada pelos religiosos da época, os fariseus e escribas (Mateus 5.20). 

A partir disso, o Senhor passou a ilustrar por meio de vários exemplos (Mateus 5.21-48) a forma errada em que os fariseus e escribas interpretavam a lei de Deus, mostrando também como é que nós, discípulos de Jesus, devemos encarar os ensinamentos de Deus. 

Note que todos os ensinamentos sobre homicídio (versos 21-26), sobre o adultério e o divórcio (v.27-32), sobre os falsos juramentos (v.33-37) ou sobre a vingança (v.38-42), se resumem nisto: o amor ao próximo. 

O próprio Senhor Jesus ensinou, em outra ocasião, que a lei e os profetas se resumem em duas coisas: amar a Deus por sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (Marcos 12.33). Se tivermos verdadeiro amor não precisamos de instruções detalhadas sobre como agir com as pessoas. É por isto que o amor é a lei de Cristo (João 15.12), a centralidade do evangelho do novo testamento. 

1. AS INSTRUÇÕES DO ANTIGO TESTAMENTO E AS INTERPRETAÇÕES DOS MESTRES 
Os mestres da época de Jesus (fariseus e escribas) ensinavam o seguinte: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo”. Ora o interessante deste ensinamento é que a primeira parte dele estava na Lei, mas a segunda não. Não existe nenhum texto do Antigo Testamento que afirme que os judeus deviam odiar seus inimigos (Lv 19.17-18). 

Por que então ensinavam assim? 
Os mestres da época pensavam assim a respeito deste texto: “como o texto fala de não se vingar nem guardar ira contra os filhos do povo, mas que se deve amar o próximo, então o próximo é apenas o filho do meu povo”.[1] A conseqüência disto é que nem estrangeiros nem inimigos deviam ser considerados como próximos. Contudo, eles ainda continuavam errados, pois a Lei mostrava o modo como deveria ser tratados os estrangeiros e inimigos (Dt 23.7; Êx 23.4-5). 

E qual a justificativa dessa interpretação? 
Segundo Lloyd-Jones, elas podem ter sido baseadas em dois aspectos principais da lei do Antigo Testamento: 

a) Motivos históricos: No AT, encontramos ordens de Deus para que os judeus aniquilassem os povos que habitavam na terra de Canaã e inimigos de Israel, Dt 7.2; 20.16; 23.6. 

b) Os salmos imprecatórios: São aqueles nos quais o salmista clama pela justiça e ira divina sobre os seus inimigos. (Ex. 69.24-26). 

Que resposta se pode dar a estas justificativas? 
O Senhor foi muito claro que não se tratava de vingança e nem ódio, mas que se tratava da aplicação do justo juízo de Deus contra os povos que praticavam coisas abomináveis. Temos como exemplos, o dilúvio nos tempos de Noé, a destruição de Sodoma e Gomorra, a destruição dos cananeus e a deportação de Judá a Babilônia [2]

Contudo, O Senhor não se agrada em ter que aplicar os seus justos juízos (Ez 33.11). 

2. AS INSTRUÇÕES DO JESUS, v. 39-42 
O ensinamento do Senhor Jesus, além de excluir a interpretação dos escribas e fariseus, vai mais longe ainda dizendo o seguinte: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5.44). Ao invés de odiarmos, como o faziam os religiosos daquela época, Ele nos manda a amar os inimigos. Não nos compete apenas fazermos o bem aos inimigos, mas também amá-los com compaixão. 

Quem é o nosso próximo? 
Stott, assim definiu: “O nosso próximo, como Jesus exemplificou na parábola do bom samaritano (Lc 10.29-37), não é neces­sariamente um membro de nossa própria raça, classe social ou religião. Pode até nem ter qualquer ligação conosco. Pode ser nosso inimigo, que está à nossa procura com um punhal ou com uma arma de fogo. Nosso "próximo", no vocabulário de Deus, inclui o nosso inimigo. O que o faz ser nosso próximo é simplesmente o fato de ser um ser humano em necessidade, da qual tenhamos tomado conhecimento, estando em nós a possi­bilidade de aliviá-la de alguma forma”.[3]

Para um melhor entendimento vamos usar textos sinóticos entre Mateus e Lucas: 

a) Amai e fazer o bem os vossos inimigos, v. 44a (Lc 6.27) 
Amar a quem nos ama é algo natural que segue uma espontânea correspondência. Amar a quem não nos ama, pelo contrário, nos ofende, demanda esforço (coração) e determinação (vontade), bem como um motivo muito forte – DEUS, Rm 5.6-8,10.[4]
Mas, mesmo sendo odiado, é dever do cristão buscar o bem-estar material e espiritual do próximo, Rm 12.17-21; Lc 6.35; Ex 23.4-5. 

b) Bendizer e orar pelos que vos perseguem, v. 44b (Lc 6.28) 
Para orar por quem nos persegue é necessário amar tal pessoa. Escreveu Bonhoeffer. "Na oração colocamo-nos ao lado do inimigo, es­tamos com ele, junto dele, por ele diante de Deus.” [5]

Jesus orou por seus atormentadores enquanto os cravos de ferro estavam sendo introduzidos em suas mãos e pés (Lc 23:34). O diácono Estevão orou por aqueles que, enfurecidos, o apedrejavam (At 7.60). 

Mesmo que eles invoquem o desastre e a catástrofe sobre as nossas cabeças, expressando em palavras o seu desejo de nos ver cair, devemos retribuir invocando as bênçãos dos céus sobre eles, declarando em palavras que só lhes desejamos o bem. (I Pe 3.8-9) 

3. A APLICABILIDADE DA PERFEIÇÃO CRISTÃ, v. 45-48 

a) Para que vos torneis filhos do vosso Pai Celeste, v. 45. 
Os escribas e fariseus faziam do ódio aos inimigos parte integrante de sua religião. Ao contrário disso, o que nos identifica como filhos de Deus é o amor para com todos indistintamente. 

O amor divino é amor indiscriminado, para com os bons e maus. Os teólogos (segundo Calvino) chamam a isto de “graça comum” de Deus. Esta graça comum de Deus expressa-se, então, não no dom da salvação (graça salvadora), mas nos dons da criação, e nas não menos importantes bênçãos da chuva e do sol, sem as quais não poderíamos comer, nem poderia a vida no planeta continuar (At 14.17). 

b) Sede vós perfeitos, v. 48 

1. Não significa impecabilidade – Em parte alguma da Bíblia encontramos que o homem pode alcançar, nesta vida, a perfeição moral (doutrina da perfeição cristã), como ensinado em algumas religiões. 

2. Não significa igualdade com Deus – é conveniente dizer e pensar em ser santo ou perfeito porque Deus é santo e perfeito. O texto paralelo de Lc 6.36 ajuda a entendermos que Deus nos chama para sermos perfeitos em amar, ou seja, amarmos até os nossos inimigos com a mesma qualidade do amor de Deus. 

3. Significa maturidade – Desde que os seres humanos foram feitos à imagem e semelhança de Deus, tornam-se “perfeitos” (maduros) quando tentam demonstrar em suas vidas as características que revelam a natureza de Deus, Fp 3.12-15.[6]

PARA CONCLUIR
O mundo mais do que nunca, está precisando de pessoas que ajam assim, e esta é a proposta divina para nós, de “vencer o mal com o bem” (Rm 12.21), de ser perfeitos, ser diferentes. Busquemos esta perfeição. Se não estamos agindo assim, ainda há tempo para à correção... “sede vós perfeitos...” 


__________________________________

[1] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel. 1999, p. 254.
[2] STOTT, John. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 116.
[3] ___________. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 118.
[4] MARTINS, Valter Graciano. A Plataforma do Reino. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. p. 18
[5] BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. Sinodal: 1984, p. 62.
[6] MOUNCE, Robert H. Mateus – Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. São Paulo: Editora Vida, 1985. p. 62


ENTÃO DEUS FALOU COM VOCÊ? NÃO ME DIGA

Por Alexandre Milhoranza

Como cristãos, cremos que Deus fala. João inclusive escreveu sobre a voz do Bom Pastor (João 10:1-5). Entretanto, num mundo tão dissonante, com tantas vozes alegando ter recebido de Deus uma revelação “especial” devemos tomar certos cuidados.

Já ouvi o caso de um rapaz que disse ter ouvido a voz de Deus para que determinada moça se casasse com ele. Inflado de coragem e determinação, este rapaz procurou a referida moça e contou-lhe o ocorrido. A jovem, meio desnorteada, disse que Deus não havia falado nada com ela sobre isso e, além de tudo, ele deveria conversar com o marido dela, antes deste suposto casamento.

O problema começa pela forma como Deus fala conosco. A Bíblia registra inúmeras maneiras pelas quais Deus se manifesta: voz audível, visão, sonho, profetas, e, nos dias do Novo Testamento, percebemos a ação do Espírito Santo na igreja, além do tempo que Jesus gastou em oração.

Para tentar colocar um pouco de ordem neste falatório vamos verificar o que disseram alguns cristãos e teólogos ao longo da história sobre ouvir a voz de Deus.


Orígenes (Século II) – Em seu trabalho sobre a oração disse que quando sentimos paz em nosso espírito, é um indício da voz de Deus, o bom pastor.

Bernardo de Claravau (Século XI) – Destacou tanto o papel da mente (intelecto), quanto do coração (sentimentos) para discernir a voz de Deus. Ele disse que o conhecimento nos faz eruditos, e o sentimento nos faz sábios.

Lutero e Calvino (Século XVI) – Disseram que a voz de Deus precisa estar de acordo com as Escrituras. Deus não falaria algo que contradissesse o que ele já disse. Além disso, o papel da comunidade é importante para a audição da voz de Deus. Dificilmente Deus falaria algo para alguém e não confirmasse para outra pessoa.

John Wesley (Século XVIII) – Destacou o papel interno do Espírito Santo no cristão. Afirmou também que Deus não iria ferir os princípios da nossa moral e razão.

Jonathan Edwards (Século XVIII) - Afirmou que para ouvir a voz de Deus é necessário uma vida devocional constante, humildade e transformação de vida.

Para ouvirmos a voz de Deus, além das dicas acima, dadas em momentos diversos da história da Igreja podemos destacar também:
a) O amor que ele derramou em nossos corações nos ajuda a percebermos sua voz (Rm. 5:5-8);
b) O arrependimento de certas atitudes que tomamos;
c) Ler e obedecer as Escrituras.

Portanto, chega de falatório, ore mais e leia mais a Bíblia.

(*) Este post foi inteiramente baseado na pregação do Pr. Ivo Gomes de Almeida.
Fonte: Crentassos

ESTUDO Nº 17 - O RESSENTIMENTO E A VINGANÇA NO REINO DE DEUS (MT 5.38-42)


INTRODUÇÃO

Nesta lição estudaremos um dos mais controversos assunto, quando se trata de aplicação prática do Sermão do Monte. Trata-se da lei de talião ou da reciprocidade do crime, mais conhecido pela célebre frase “olho por olho, dente por dente”. Muitas pessoas têm interpretado este texto de diversas formas fazendo com que em alguns casos ele seja ridicularizado.

O Senhor quer nos mostrar quão longe estamos da vida espiritual que agrada a Deus. O nosso instinto natural é de revide e vingança, não de perdão e amor ao inimigo. Até a pessoa mais tímida e medrosa acumula ira no seu coração quando se sente injustiçada, embora ela não tenha coragem de manifestá-la. Somos muito sensíveis quando se trata de situações nas quais nos sentimos injustiçados. É por isso que Jesus destaca que, se queremos viver uma vida realmente cristã, devemos negar-nos a nós mesmos, a nossos sentimentos e desejos, sendo capazes de perdoar e amar aqueles que nos fazem mal.

Como fizemos com os estudos anteriores, vamos dividir o nosso trabalho em três etapas: analisar as instruções registradas no Antigo Testamento, em seguida como os escribas e fariseus entendiam e praticavam e, por último, o que Jesus nos ensinou.

1. AS INSTRUÇÕES DO ANTIGO TESTAMENTO 

Vamos verificar a instrução no AT, a partir de três textos: Êxodo 21.22-27, Levítico 24.19-21 e Deuteronômio 19.15-21. A análise do conteúdo desses registros bíblicos nos mostra que:

a) A Humanidade está sempre disposta a reagir diante das agressões e a lutar pelos seus direitos. Era necessário colocar um freio na tendência para reações agressivas e tratadas com ira e ódio, sem pensar na exata proporção do que havia acontecido, Ex 21.22-27

b) O princípio que norteava estas instruções era claro: pelo dano causado pode haver indenização de igual valor, Lv 24-19-21

c) As instruções incluíam ainda a questão dos estrangeiros. A Lei equiparava os direitos e deveres de ambos, Lv 24.22

d) Aqui temos nova provisão para proteger o inocente: a instrução o protege contra a falsa acusação, Dt 19.15-21.

Esses textos tratam de uma série de “ordenanças” nas quais os padrões dos 10 mandamentos são aplicados à vida da jovem nação.

Estas punições eram atribuídas às autoridades constituídas (os juízes) e ao próprio Deus (Ex 21.22; Sl 94.1). É uma expressão da “lex talionis”, o princípio da retribuição exata, cujo propósito era estabelecer o fundamento da justiça, especificando o castigo que o culpado merecia e limitar a compensação de sua vítima. Tinha o duplo efeito de caracterizar a justiça e refrear a vingança.

2. AS INSTRUÇÕES DOS ESCRIBAS E FARISEUS, v. 38

Uma vez considerado o que a lei tratava sobre a questão da vingança e da justiça, vejamos agora o que estava acontecendo na época de Jesus. Qual era o problema dos fariseus e escribas sobre esta questão? O Senhor disse: “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente”, lembrem que já havíamos falado em estudos anteriores que isto se referia ao que estava sendo dito não pela lei do Antigo Testamento, mas pela tradição dos mestres da época.

Vimos no ponto anterior que as punições para as infrações morais e legais eram atribuídas unicamente aos juízes e a Deus e jamais era de iniciativa pessoal. Eles criam que toda pessoa tinha o direito de se vingar e retribuir a seu inimigo com a mesma sorte de mal com que tinha sido prejudicada. Assim eles estavam encorajando a vingança, indo de encontro a Lei, Lv 19.18.

Lloyd-Jones, escreveu: Os escribas e fariseus estendiam este princípio da justa retribuição dos tribunais legais (aos quais Pertencia) para o reino dos relacionamentos pessoais (ao qual não pertencia). Assim fazendo, burlavam a lei que proibia terminantemente qualquer vingança pessoal. Toda a série de instruções tinha o propósito justamente de inibir a vingança pessoal [1].

3. AS INSTRUÇÕES DE JESUS, v. 39-42

Uma vez que os fariseus trouxeram uma lei civil à aplicação pessoal, Jesus contradisse este ensinamento (“Eu, porém, vos digo”), mostrando como cada indivíduo deve viver. Contudo, não se trata de qualquer indivíduo, mas do crente, daquele que já foi regenerado e vive uma vida em comunhão com Deus.

As ilustrações mencionadas neste texto não podem ser entendidas literalmente, elas são usadas para destacar o fato de que o cristão, diferente das demais pessoas e todo este ensinamento estão nos enfatizando a necessidade que o crente tem de renunciar-se a si mesmo, de se despojar de si e do seu “eu”, Lc 9.23.

Antes de tudo, precisamos entender sobre quem o termo “perverso”. O termo aqui trata-se de uma pessoa e não o mal abstrato, "ao maligno" (que significa o diabo), mas à pessoa má, ou "os que fazem mal a vocês", Mt 5.44 (BLH).[2]

O Senhor Jesus dá instruções sérias que envolvem quatro exemplos:

a) Relações interpessoais: A outra face, v. 39 – “bater na face direita, com as costas das mãos, continua sendo até hoje, no Oriente, um golpe insultuoso”[3]. Aqui não se trata de uma questão de defesa pessoal e segurança diante de algum risco, e sim, de vingança.
Nossa tendência natural quando ofendidos é revidar imediatamente, se possível, aplicando um sofrimento maior o que aquele que recebemos. Jesus nos ensina que devemos estar preparados para sofrer sem responder com vingança (I Pe 2.21-23). Voltar a outra face significa mostrar em palavras, atitudes e atos que alguém está cheio não do espírito de rancor, e, sim, de amor, Rm 12.19-21.[4]

b) Relações legais: A capa, v. 40 - A segunda questão que o Senhor Jesus aborda é a demanda pela nossa vestimenta. Aqui se trata da nossa reação diante de um mal causado a nossos bens pessoais. Observem que Jesus coloca um bem de não muito valor. Ele não disse: quando alguém te demandar a tua casa, ou as tuas plantações, mas a tua túnica. Muitas vezes em coisas de pequeno valor queremos fazer valer os nossos direitos e brigamos e perdemos amizade por causa de pequenas coisas, I Co 6.7.

Ora, isto não significa, por exemplo, que não possamos exigir o cumprimento da garantia de um produto estragado de uma empresa ou pedir alguém um livro que tínhamos emprestado. Mas trata-se de questões mais pessoais.

c) Relações Políticas: A segunda milha, v. 41 - Trata-se de ser obrigado por uma autoridade a fazer um trabalho ou serviço forçado[5]. Cumpre -nos fazer aquilo que de nós for exigido e mais do que nos for exigido. O ensino diz respeito ao ressentimento de um homem face às exigências que as autoridades governamentais procuram fazer. Alude à nossa aversão a legislação que não aprovamos.

d) Relações econômicas: O empréstimo, v. 42 – O contexto pressupõe que esse pedido e seria uma exigência violenta, não baseada no direito (Lc 6.30). Contudo, mais uma vez, está em pauta a negação do próprio “eu”, mostrando o quanto está errada a nossa tendência natural de agarrar as coisas e dizer: o que é meu, é meu. Aqui não se trata e dar indiscriminadamente, pois existem muitos aproveitadores e devem ser tratados como merecem (2 Ts 3.10). Se a pessoa estiver Passando por necessidade real, cumpre- me o dever de ajudá-la, se é que tenho a possibilidade de fazê-lo, Gl 6.9-10; I Jo 3.17-18; Lc 6.34.

Quanto a emprestar, assim diz Carter: “Muitas vezes o empréstimo e mais benéfico do que a dádiva gratuita. Lisonjeia menos a vaidade daquele que dá; suaviza o constrangimento de quem recebe; não encoraja a preguiça, como é o caso da doação; e ainda assim supre para a necessidade do momento”.[6]

PARA CONCLUIR:

Jesus claramente proíbe a vingança entre seus discípulos. Apresentou-lhes quatro exemplos do que a aplicação de um espírito livre de vingança pode significar na vida deles. O apóstolo Paulo captou bem a intenção de Jesus quando escreveu aos irmãos de Roma: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.18-21).


[1] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel. 1999, p. 254.
[2] ___________. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 103
[3] STOTT, John. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 104.
[4] HENDRIKSEN, Willian. Mateus – Comentário do Novo Testamento, Vol I: Cultura Cristã, 2010 2ª Ed. p. 383.
[5] STERN, David. Comentário Judaico do Novo Testamento. Belo Horizonte: Atos. 2008, p. 182
[6] CARTER, Warren. O Evangelho de São Mateus – Comentário Sociopolítico e Religioso a partir das margens. São Paulo: Paulus. 2002



sábado, 12 de maio de 2012

DAVI DANÇOU, EU TAMBÉM QUERO DANÇAR!


Este é um dos argumentos que mais escuto da parte daqueles que defendem a "dança litúrgica" durante os cultos públicos nas igrejas evangélicas. Se o rei Davi dançou diante da arca de Deus, quando a mesma estava sendo trazida de volta para Jerusalém, por que nós não podemos, da mesma forma, expressar nossa alegria diante de Deus em nossos cultos, com danças de caráter religioso? Afinal, a Bíblia menciona não só Davi, mas Miriã e outras pessoas que dançaram de alegria na presença do Senhor (a imagem ao lado de Davi dançando é do famoso pintor francês James Tissot).

Não consigo me convencer com este argumento. Eu sei que existem outros, mas este, em particular, não me convence. Não é que eu seja contra a dança em si. Sinceramente, não vejo como considerar a dança como um ato pecaminoso, como parece que alguns segmentos evangélicos fazem. Se Davi dançou, e com ele outros personagens da Bíblia, isto pode não provar que devemos dançar em nossos cultos, mas no mínimo é uma evidência de que a dança em si não é pecaminosa, errada ou imprópria para o cristão. A não ser, é claro, aquelas danças sensuais, provocativas, eróticas ou, no mínimo, sugestivas, que despertem paixões e a lascívia. Nesse caso, me junto aos Pais da Igreja, como Basílio, João Crisóstomo, Agostinho, Tertuliano, entre outros, que condenaram veementemente este tipo de dança por parte parte dos cristãos.

Mas, nem toda dança é sensual. Quando eu estava estudando para meu doutorado nos Estados Unidos frequentava com minha família uma igreja presbiteriana muito firme biblicamente. Uma vez por mês os casais da igreja se encontravam no salão social num sábado a noite onde, liderados pelo pastor e sua esposa, ouviam música country, jazz, clássica, e eventualmente dançavam (cada um com seu cônjuge, veja bem!). Minha esposa Minka e eu estivemos lá umas poucas vezes. Nós mesmos não chegamos a dançar, sou meio duro nas articulações e daria um espetáculo horroroso, matando a Minka de vergonha... hehehehe. Mas foi uma experiência muito interessante, que me marcou pela alegria, naturalidade e pureza do evento. E serviu para demonstrar o que eu já pensava, que dançar em si não é pecado.

Voltemos a Davi. Por que então não consigo aceitar que o exemplo dele é definitivo como base para as danças litúrgicas, ministérios de coreografia, dança profética e grupos de danças durante os cultos?

Bem, primeiro porque não acredito que devamos fazer normas ou estabelecer princípios gerais para a vida da igreja simplesmente a partir de atos, ações, eventos, incidentes envolvendo os heróis da Bíblia. Nem tudo o que aconteceu na vida deles pode virar paradigma para os cristãos. A não ser aquelas coisas que a própria Bíblia determina. Jesus, por exemplo, recomendou que imitássemos Davi em sua atitude para com a lei cerimonial (Mat 12:3). Davi é citado como homem segundo o coração de Deus (Atos 13:22), que serviu a Deus em sua própria geração (Atos 13:36), no que deveria ser imitado. Sua fé o coloca na galeria dos heróis da fé em Hebreus (11:32) e serve de exemplo para nós. Ainda poderíamos mencionar seu arrependimento e contrição após ter pecado contra Deus (Salmos 32 e 51). Tais coisas são norma e regra geral para todos os cristãos. Isto não significa, todavia, que cada atitude de Davi sirva de modelo para nós.

Uma segunda dificuldade que tenho é com este tipo de interpretação, muito popular hoje entre os evangélicos, que simplesmente transpõe para nossos dias os eventos históricos narrados na Bíblia, sem levar em consideração o contexto cultural, histórico, teológico e literário dos mesmos, e os usa como base para construir ritos, práticas e regras a serem seguidos nas igrejas cristãs. Moisés bateu com a vara na rocha - lá vem a reencenação do episódio nas igrejas como símbolo da vitória. Ouvi falar que a derrubada da muralha de Jericó foi recentemente reencenada numa igreja (usando uma muralha de isopor e gelo seco) como base para se clamar a vitória para o ano de 2009. E por ai vai. A lista é enorme. No caso de Davi, não poderíamos esquecer que na cultura do Antigo Oriente as danças eram usadas como manifestação popular pelas vitórias militares obtidas, e eram geralmente lideradas pelas mulheres. Foi o caso com a dança de Miriã (Ex 15:20), a filha de Jefté (Juízes 11:34), as mulheres de Judá (1Sam 18:6) e a própria dança de Davi (2Sam 6:20). Ao que parece, o povo saia em passeata dançando em roda (sobre dança de roda, veja Juízes 21:21 e 23). Até onde sei, no Brasil não se costuma celebrar as vitórias com danças de roda. As danças têm outra conotação e servem a outros propósitos, nem sempre moralmente neutros.

Tudo bem, vá lá. Vamos supor, por um momento, que a dança de Davi sirva de base para nós, cristãos. O que o evento lúdico do rei de Israel poderia nos autorizar? Com certeza, não autoriza que dancemos nos cultos públicos de nossas igrejas, pois a dança de Davi foi numa passeata religiosa, nas ruas de Jerusalém, algo espontâneo e do momento. Ele não marcou um culto no templo de Jerusalém, que era o local determinado por Deus para os cultos a Ele, onde foi dançar de alegria perante o Senhor. Até onde eu sei, nos cultos determinados por Deus no Antigo Testamento não havia dança alguma. Deus não determinou a dança como elemento de culto, não há qualquer registro de que as mesmas fizessem parte do culto que lhe era oferecido no templo. E acho que os apóstolos e primeiros cristãos entenderam desta forma, pois não há danças nos cultos do Novo Testamento.

Se formos usar o exemplo de Davi como base, chegaremos à conclusão que a dança dele também não autoriza a criação de grupos de dança litúrgica nas igrejas, que se apresentam regularmente nos cultos. Não justifica nem a criação dos ministérios de dança e a descoberta do dom espiritual da dança litúrgica e profética. A dança de Davi foi um evento isolado e individual. Não foi feita por um grupo que treinava e ensaiava para se apresentar regularmente nos cultos do templo. Aliás, não encontro no Antigo Testamento qualquer indicação de que havia em Jerusalém um grupo de levitas que se dedicavam ao ministério da dança litúrgica e que se apresentavam regularmente durante os cultos no templo de Deus. E deve ser por isto que também não encontramos estes grupos no Novo Testamento. Acho que o rei de Israel cairia de costas se ele visse tudo o que se inventou hoje no culto a Deus com base naquele dia em que ele saltou de alegria diante da arca do Senhor.

Por último, acho que este tipo de argumento, "Davi dançou, eu também quero dançar", deixa de lado alguns princípios importantes sobre o culto que devemos prestar a Deus. Primeiro, que embora toda nossa vida seja um culto a Deus (veja 1Cor 10:31), Ele mesmo determinou que seu povo se reunisse regularmente para cultuá-lo, cantar louvores a seu Nome, buscá-lo publicamente em oração e ouvir Sua Palavra. Uma coisa não exclui a outra, mas não devem ser confundidas. Nem tudo que cabe na minha vida diária como culto a Deus caberia no culto público e solene. Por exemplo, posso plantar bananeira para a glória de Deus, mas não vejo como justificar isto no culto público regular das igrejas. Cabia perfeitamente a Davi dançar de alegria naquele dia, na procissão de vitória, nas ruas de Jerusalém. Todavia, não o vemos fazendo isto no templo de Jerusalém, durante os cultos estabelecidos por Deus.

Segundo, não podemos inventar maneiras de cultuar a Deus além daquelas que Ele nos revelou em Sua Palavra. Os elementos que compõem o culto a Deus, até onde eu entendo a Bíblia, são a oração, o cantar louvores, a ação de graças, a leitura e pregação da Palavra, as contribuições voluntárias de seu povo, o batismo e a Ceia (quando houver). É claro que a Bíblia não estabelece ritmos musicais, não nos dá orações fixas e nem mesmo uma ordem litúrgica a ser seguida. Mas, ela nos dá os princípios e os elementos do culto que Deus aceita. A questão, portanto, não é se Davi e outros heróis da fé dançaram, mas sim se as danças litúrgicas fazem parte daquele culto que Deus determinou em Sua Palavra. E mesmo que eu não tenha nada contra o dançar em si, não vejo como as danças possam ser enquadradas como elementos de culto.

Enfim. Ao ler a história da dança de Davi o que aprendo é o amor que ele tinha ao Senhor, e a alegria que o dominava pelas coisas de Deus. Aprendo que devo amar ao Senhor e me alegrar com as coisas dele à semelhança de Davi. Todavia, não creio que a maneira com que Davi expressou estes sentimentos seja elemento de culto para os cristãos. O texto está muito longe de requerer isto. Sei que vou escandalizar muita gente ao dizer que eu não veria problemas com grupos de coreografia para evangelizar ou mesmo para participar em reuniões sociais dos jovens e adolescentes de nossas igrejas (sobre boate evangélica, falaremos em outra oportunidade). Mas o culto público a Deus, quer nos templos, quer em qualquer outro lugar, é regido pela regra: "só devemos adorar publicamente a Deus com aqueles elementos de culto que encontramos na Bíblia".

Termino lembrando que neste post estou interessado apenas no uso do episódio da dança de Davi como base para as danças litúrgicas. Há vários outros argumentos usados para defender esta prática, cada vez mais comuns nas igrejas evangélicas (como por exemplo o Salmo 150), que não receberam atenção aqui, mas que podem ser alvo de uma futura postagem sobre o assunto.
_________________________________

Fonte: O Tempora, O Mores
Via: Blog do Artur Ribeiro e Ministério Beréia