quarta-feira, 18 de maio de 2011

LUXÚRIA – PAIXÕES DESENFREADAS (Gálatas 5.19)



INTRODUÇÃO

Em sua opinião, antigamente as pessoas eram mais, ou menos maliciosas do que hoje?

O assunto do estudo de hoje é “luxuria”, uma palavra com muitos sinônimos que descrevem um mesmo e velho pecado. Para começo de conversa, busquemos definições do dicionário para três palavras que estão relacionados:

Luxúria: incontinência, lascívia, sensualidade, dissolução, corrupção, libertinagem;
Lascívia: Luxúria, libertinagem, sensualidade;
Libertinagem: devassidão, O termo “libertinagem” é explicado da seguinte maneira, em nota da Nova Versão Internacional da Bíblia: “Ato de viver somente para o prazer próprio, de esbanjar a vida em prazeres tolos ou perversos”.

Nas variadas versões da Bíblia, há textos onde uma mesma palavra foi traduzida para o nosso idioma com uma ou outra dessas palavras acima. Por exemplo, em Gálatas 5.19 aparece a palavra lascívia (na edição Almeida Atualizada), e luxúria, com esta mesa idéia de uma vida sem graças e entregue às paixões desenfreadas, onde o corpo é consumido no prazer, sem levar em conta as conseqüências.

Comentando Gálatas 5.19, G. Hendriksen afirma que os três vícios ai mencionados “tem um significado distinto, contudo, os três vícios têm algo em comum, a saber, um desvio da vontade de Deus quanto ao sexo”.

Temos, na Bíblia, um livro voltado para a experiência da sexualidade humana – Cântico dos Cânticos. Mas ali, como de rosto em toda a bíblia, a sexualidade esta colocada dentro de um plano de tal forma elaborado, que a vida humana cresce em dignidade e o sexo ganha em beleza e em sentido. Porem, o que temos na sociedade atual difere bastante da conduta digna e bela na qual o ser humano deveria viver. Há, portanto, grave contraste entre as opções das pessoas e o projeto divino para a vida sexual humana. Há a diferença entre luxuria e dignidade humana na sexualidade.

Ao inserir-se nessa questão, é importante levar em consideração o seguinte:

1. UM MUNDO EM BUSCA DO PRAZER

Não precisamos e não devemos focar com falso saudosismo, sempre a dizer: “Ah, antigamente não era assim...” Em que pese toda a malícia humana que cresce a aparece, há muitos aspectos que são quase permanentes na história da raça humana, e outras coisas são mais ou menos recorrentes (Veja Os 4). Homens e mulheres sempre estiveram em busca do prazer. Há muitas coisas que podem dar prazer. No presente estudo, destaca-se o sexo. A luxúria é o abuso do sexo, quando não se contém e não se controla, mas se corrompe e vive dissolutamente.

Uma das principais características desse tipo de vida é o individualismo. Aí o sexo é usado de forma a satisfazer os apetites de uma única pessoa. Não há uma preocupação mínima com a outra pessoa.

Outra característica da luxúria é a multiplicação das relações sexuais, como se muito sexo com muitas pessoas diferentes capacitasse o ser humano a tornar-se melhor; como se o homem fosse mais masculino e a mulher mais feminina com a multiplicação das relações.

Uma terceira característica é que a prática sexual se torna insaciável. O ser humano não se contém, nunca está satisfeito e pensa no sexo como se fosse capaz de lhe trazer respostas e dignidade; então, nunca pára. Ainda outro ponto, é que essas relações tendem a ser efêmeras. São passageiras, aleatórias e sem qualquer compromisso, pois não há o respeito de convivência.

O livro de Apocalipse nos apresenta a queda da grande Babilônia, o império que dominava e oprimia as pessoas. Riquíssimo e poderoso deixou-se perder na luxúria (a palavra aparece 3 vezes em Apocalipse 18). A derrota, o enfraquecimento moral, a queda são precedidos por uma vida de luxúria.

2. um projeto divino para o ser humano e para o mundo

No livro da criação, Gênesis, encontramos, de modo muito claro, que Deus criou o ser humano macho e fêmea (Gn 1.27,28). Há alguns destaques que devemos fazer com relação ao assunto:

1. Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança. Não é o homem (macho) nem a mulher (fêmea) que isoladamente são apresentados como imagem de Deus. Deus criou homem e mulher como seres iguais em essência.

2. O ser humano, dividido entre homens e mulheres essencialmente iguais, é diferente em determinados aspectos. Estas diferenças não significam superioridade ou inferioridade de um ao outro, mas existem para que homem e mulher se complementem e se completem. E, aqui, a sexualidade humana exerce um papel fundamental. Um aspecto físico dessa complementação que uma parte significa para a outra, é a reprodução humana. Para a geração de uma vida, é necessário o concurso do homem e da mulher.

3. A sexualidade, embora sendo parte da reprodução humana, não pode ser resumida aos aspectos físicos exclusivamente. Isto é, a sexualidade não se refere unicamente aos órgãos sexuais ou órgãos genitais. Conforme o projeto de Deus, são necessários uma mulher e um homem para a reprodução. Porem, deve-se levar em conta que o ser humano é composto de outras partes que se integrem, além da sexualidade. Então, a relação entre os sexos deve também ter outros aspectos, pois, ao ser humano foi dado o privilégio de ter imagem divina, de dominar a terra, de comunicar-se etc. A prática sexual deve, necessariamente, estar ligada ao amor, ao carinho, à afetividade e ao compromisso.

3. um desafio à igreja

Porque somos cristãos e conhecemos o projeto divino para o ser humano e vivemos em uma sociedade que se distancia desse projeto divino para o ser humano e vivemos em uma sociedade que se distancia desse projeto, devemos considerar a tão grande responsabilidade que a Igreja de Jesus Cristo tem perante a sociedade e diante do Deus Eterno que nos chamou para uma missão no mundo. Pois bem, apresentar o desejo divino para a raça humana no que concerne à sexualidade faz parte da missão integral da igreja. Alguns quesitos são aqui propostos:

1. Ter uma teologia clara e correta do corpo humano é fundamental. Devemos erradicar do pensamento cristão a idéia de que o corpo é mau e serve apenas de prisão para uma alma boa que deve voltar-se para Deus. Esta idéia é dos gregos antigos e não é encontrada na Bíblia. Na teologia bíblica, o corpo foi criado por Deus tão bom quanto a parte espiritual. Aliás, para o pensamento hebreu, nem há divisão entre parte material e parte espiritual. O ser humano é perfeitamente uno, integral, numa perfeita unidade: corpo e alma.

2. A igreja deve apresentar um claro ensino sobre sexualidade, a partir da sadia doutrina do corpo humano. Não é possível deixar de falar em sexo com nossos jovens, adolescentes, crianças e adultos. Devemos derrubar tabus para que, aprendendo com uma boa teologia bíblica evangélica, nossos irmãos e irmãs não descubram sobre sexualidade coisas distorcidas, como está cheio na televisão, no rádio, nas rodinhas de bate-papo, nos jornais e nas revistas especialidades (em que pese haver coisas boas aí, eventualmente).

3. É preciso deixar muito claro que a atividade sexual envolve o carinho, a afetividade, o amor e o compromisso entre as pessoas. Este ensino é importante nos dias atuais, em que a moda é “ficar” (como dizem os adolescentes e jovens) apenas para  desfrutar de um prazer eventual e passageiro (às vezes com graves conseqüências), mesmo sem conhecimento prévio do parceiro ou da parceira – prática da luxúria.

4. A Igreja deve ser um espaço de acolhimento, amparo e orientação para aquelas pessoas que, porventura, despencaram na vida emocional e sexual. Muitas vezes agimos mais como punidores e torturadores do que como pessoas amorosas, que amparam e ajudam os outros a levantar, para andar melhor.

5. A igreja deve ter uma clara percepção da ação divina nela e através dela, pois é a ação de Deus que nos capacita a deixar as “obras da carne” e produzir o “fruto do espírito” (Gl 5.16-25). Portanto, forças para agir de modo diferente do mundo vêm de Deus, não de nós mesmos (Rm 8.5-11).

6. a Igreja dirigida pelo Espírito de Jesus Cristo, não pode ter medo ou vergonha de apresentar ao mundo o contraste da Palavra de Deus em relação ao que se faz hoje. Paralela à ação dentro dos muros eclesiásticos, deve-se ter uma ação externa que confronte o mundo e provoque mudanças (Rm 12.2).

segunda-feira, 2 de maio de 2011

TRAPAÇA – UM MAL ENTRE NÓS (Gênesis 25.19-34)


INTRODUÇÃO

No meio de uma cultura marcada pela trapaça, poderemos encontrar orientação segura sobre o assunto?

Se você pegar a Concordância Bíblica, baseada na Edição Revista e atualizada no Brasil, da tradução de João Ferreira de Almeida, editada pela Sociedade Bíblica do Brasil, 1975 (Rio de Janeiro) e procurar a palavra “trapaça”, vai ficar decepcionado. Nas 1101 paginas sobre as palavras usadas nessa versão, você não vai encontrar nenhuma vez essa palavra. Uma conclusão apressada seria que a Bíblia não tem nada a dizer sobre o assunto. Puro engano!

Por outro lado, se você abrir os jornais brasileiros, ficará alarmado. Todos eles, ultimamente, estão cheios de noticias de pessoas que passaram alguém para trás, que enganaram e tiraram vantagens, quer seja de particulares ou dos cofres públicos. Verdadeiras trapaças!

Perguntei a Pr William Lacy Lane, professor de Hebraico no Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas-SP, qual a palavra hebraica que mais se aproximaria da conhecida palavra portuguesa trapaça. Ele respondeu; É a raiz yaaqob, de onde veio o nome de Jacó, derivado de aqeb, calcanhar, e de eqab, enganar.

O nome de Jacó ficou associado ao conceito de “suplantador” desde o seu nascimento, ou seja, “trapaceiro”, alguém que desde o ventre materno já queria passar alguém para trás. (Se bem que haja um outro sentido de Jacó “possa Deus te proteger”, mas que foi esquecido).

O texto básico deste estudo, Gênesis 25.19-34, faz parte de um contexto maior que merece ser considerado: Gênesis 25,19 a 36.19.

A figura de Jacó ocupa grande parte dessa historia. Podemos dividir o texto (Gn 25.19-34) em dois cenários: o primeiro, do versículo 19 a 26 – o nascimento de Jacó; e o segundo, do versículo 27 a 34 – o crescimento de Jacó, estaremos sempre falando do seu irmão Esaú, que, de acordo com o oráculo de Rebeca (v. 23) ficaria sempre em 2º lugar.

1º CENÁRIO É O DO NASCIMENTO - O nascimento de um trapaceiro. Isaque, o pai de Esaú e Jacó, tinha 60 anos. Tendo casado com 40 anos, havia passado 20 anos sem filhos, a esposa, Rebeca, era estéril. A narrativa insinua a intervenção de Deus, na sua soberania, dando ao casal a capacidade de ter filhos. O pai era temente a Deus. Levou o problema a Deus em oração. Rebeca também confiava no Senhor e o consultou sobre o assunto. O versículo 22 descreve o conflito uterino. Quando os gêmeos nasceram, Jacó segurava o calcanhar de Esaú. Esaú era ruivo e peludo. Jacó nasceu trapaceando.

2º CENÁRIO É O DO CRESCIMENTO DOS MENINOS – São comparados os dois: um gostava de caçar e o outro ficava mais em casa. Os educadores discutem até hoje o “favoritismo” dos pais: Isaque gostava mais de Esaú; Rebeca, mais de Jacó. Seria possível falar de “educação para a trapaça”? Até que um dia, o mesmo Jacó que trapaceava desde o ventre, engana Esaú e retira-lhe o direito de primogenitura.

O livro de Gênesis, com certa leveza, registra que Esaú desprezou seu direito de primogenitura. Já o escritor da epístola aos Hebreus, no Novo testamento, é mais rigoroso (Hb 12.16). Jacó passa o irmão para trás numa questão de direito. A vida de Jacó transcorreu sempre no meio da trapaça. Ele passou muita gente para trás, mas muita gente também o trapaceou. Trapaça contra trapaça. Ate que um dia tem um encontro com Deus e, de Jacó, ele se transforma em Israel, o “campeão de Deus” (Gn 32.22-32).


1.  A TRAPAÇA É OBRA DA CARNE

Pela leitura de Gálatas 5.19-21, percebemos que há algumas coisas que tornam a vida crista bem difícil. Aquela galeria de obras da carne, em aberto, conforme a expressão “e coisas semelhantes” nos levam a colocar a trapaça como uma obra da carne.

Ela é uma expressão do pecado na vida humana. Esta centralizada na capacidade humana de obter resultados, baseada na esperteza humana, na astúcia dos homens. Ela é altamente egoísta e anti-valores morais. Não vê nada alem da sua vontade de obter vantagem em tudo sem pensar nos meios. Como conduta ética, a trapaça pratica o principio de que fins egocêntricos justificam os meios. A trapaça é tão terrível que envolve tanto a mente como a alma no dizer da Bíblia de Genebra, em nota para explicar o sentido da palavra “carne” na epístola aos Gálatas.

2. A TRAPAÇA É CONTAGIANTE

Pela vida de Jacó, vemos que ele enriqueceu trapaceando. Mas onde ia, a trapaça era usada por outros contra ele. Seu próprio sogro Labão trapaceou Jacó naquilo que um homem tem de mais intimo: o amor de sua esposa. Serviu 7 anos pensando em casar com Raquel, mas Labão, usando de “cautela”, em vez de Raquel, “lhe dava lia”; e Jacó, trapaceiro, foi trapaceado e ficou mais 7 anos servindo Labão. Nesse ponto, é verdadeira a palavra Bíblica: “pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7b)

3. A TRAPAÇA PODE SER VENCIDA

A lição maior deste estudo é que Deus, na sua soberania e graça, pode resgatar um trapaceiro e usa-lo na realização de seus planos.

Jacó teve um encontro com Deus no vale de Jaboque. Tornou-se um homem. Começou uma nova vida de serviço e obediência ao Senhor, tornando-se o pai do povo da aliança, Israel. Nesse encontro, o velho homem foi vencido por Deus e surgiu o novo homem para o serviço de Deus. Foi tão forte o impacto deste encontro que Jacó chamou aquele lugar bendito de Peniel, afirmando: “Vi a Deus face a face, e a minha vida foi salva” (Gn 32.20)

Hoje, em nossa pátria, o povo espera melhores dias, em que a trapaça desapareça da vida brasileira. A forma de o povo evangélico contribuir para isso é pregar e viver o evangelho para que novas criaturas venham a exercer influência maior na vida nacional. Essa mudança só é possível quando uma pessoa, pela fé, tem um encontro com o Senhor Jesus Cristo.