domingo, 24 de abril de 2011

AMARGURA – UM VIRUS NA ALMA (Hebreus 12.14-17)


INTRODUÇÃO

É possível um crente em Cristo Jesus viver uma vida de amargura e, mesmo assim, crescer em santidade? É possível ser amargo e feliz ao mesmo tempo?

É próprio do ser humano fugir da dor e buscar o prazer, como é próprio gostar mais daquilo que é doce do que é amargo. Razão disto é que, normalmente, serve-se doce nos aniversários, nunca jiló. Por isso, não nos soa bem aos ouvidos palavras como: amargura, amargura, amargo, amargar, amargamente, amargor, amargoso, amargurado... Porém elas existem e, às vezes, é difícil evitá-las. Na Bíblia, tais palavras aparecem cerca de 80 vezes, a maioria delas no Antigo Testamento.

De acordo com o Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, Michaelis, a palavra “amargura” significa: “Sabor amargo, aflição, angústia, desgosto, dor moral, azedumes... dissabores”. etc. Não nos restam duvidas que a amargura é uma questão que desafia, a cada dia, pessoas crentes no Senhor Jesus, na busca da santidade. Ela apresenta uma serie de reações adversas no comportamento humano, alterando as atitudes, aguçando o temperamento e causando danos na vida do crente. Por este motivo, o crente deve estar sempre vigilante quanto às coisas que geram amargura na alma. Vejamos algumas delas, a partir do texto bíblico de Hebreus 12.14-17.

A amargura é um ressentimento guardado, que adoece a alma. Só os loucos fazem do peito um deposito de amargura. Os que buscam uma vida de santificação, são aconselhados pelo autor sagrado a não se contaminarem com esse veneno: “ nem haja alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe, e, por meio dela, muitos sejam contaminados”  (v.15).

Em poucas palavras, o autor fala de algo pernicioso que, quando não é tratado e cresce dentro da igreja, pode causar um grande mal.

Os comentaristas bíblicos são unânimes em afirmar que o autor de Hebreus cita o texto de Deuteronômio 29.18, onde lemos: “ para que entre vós não haja homem, nem mulher... cujo coração hoje se desvie do Senhor nosso Deus, e vá servir aos deuses destas nações; para que não haja entre vós raiz que produza erva venenosa e amarga”.

Em Hebreus, “amargura” é o termo usado para se referir à “erva venenosa e amarga” dita por Moises. Mas o propósito, diz Calvino, é o de apontar uma raiz venenosa e fatal, que brota no meio da igreja e tenta crescer no seu seio, devendo ser cortada para não contaminar o povo.

1. amargura é uma raiz que brota onde o pecado não é vigiado

O versículo 15 diz: “nem haja alguma raiz de amargura que, brotando...” Se olharmos, como cuidadosos estudiosos da Bíblia, fiéis aos princípios de que a Bíblia interpreta a própria Bíblia, veremos, no inicio do versículo 15, as palavras que definem como essa raiz brota, ou de onde ela brota. Diz o próprio texto: “atentando, diligentemente, porque ninguém seja faltoso, separando-se da graça de Deus”. Parece que esta raiz de amargura brota de corações faltosos. Moisés também afirma o mesmo: os que contaminam o povo com o veneno da idolatria são aqueles cujos corações se desviam do Senhor. Para Calvino, em seu comentário de Hebreus, esse sentimento de amargura brota de duas fontes:

a) Desejos pecaminosos: O coração humano é contaminado pelo pecado e os desejos do coração são comprometidos com esta inclinação pecaminosa (Jr. 17.9). 

Jesus adverte aos discípulos de que as coisas que contaminam o homem são aquelas que saem do coração, como fruto de seus desejos (Mt 15.19,20). 

Sendo assim, amargura brota de desejos pecaminosos.

b) Ilusória esperança de impunidade: Esta é outra fonte perigosa de onde brota a amargura. Por se tratar de um ressentimento guardado na alma, muitos se iludem pensando que irão espalhar este sentimento no seio da igreja, e que, no final, ficarão impunes; afinal, não se conhece alguém que tenha sido disciplinado por alguma igreja por semear a amargura no meio do povo. Mas o fiel Juiz de toda a terra sonda os corações ( I Sm 16.7).  Não devemos nos esquecer disto. 

A Bíblia diz que aquele que encobre as suas transgressões, jamais prosperará (Pv 28.13). 

Muitos corações escondem amarguras e ressentimentos e não sabem porque se desenvolvem tão pouco na vida cristã, na santificação. Quando alguns garotos norte-americanos praticaram um massacre em uma das escolas nos Estados Unidos, o então presidente Bill Clinton expressou, assim, a sua preocupação: “Há um grande numero de outros garotos por ai que estão acumulando ressentimentos dentro de si, e fora do nosso alcance”. Não deixe brotar esse mal em seu coração e nem no meio da igreja. 

É oportuno observar a advertência feita por Deus a Caim (Gn 4.7).

2. a amargura pertuba a harmonia e a paz

No versículo 15, encontramos esta estrutura: “nem haja raiz de amargura que, brotando, vos perturbe”. O menor efeito que podemos ver deste terrível mal é que ele perturba o ambiente onde se instala. A linguagem do autor é para que os seus leitores possam atentar para esse mal que perturba a igreja, envenena almas e desarmoniza comunidades inteiras. A amargura pertuba ao próprio individuo.

Li, certa vez, uma frase que me chamou muito a atenção. Dizia: “Muitos parecem carregar um inferno dentro de si, e onde vão, o inferno vai com eles, porque o inferno esta dentro deles”. A verdade é que algumas pessoas não atentam para o fato de que guardam amarguras dentro de si e, por isso, não conseguem viver em paz e harmonia consigo mesmas. Sua palavra tende a ser sempre depreciativa. Transferem para o outro aquilo que está dentro de si e que as perturbam. Tratam os outros com dureza, parecem até mesmo não terem aprendido a amar.

Paulo exorta a que tenhamos em nós o mesmo sentimento que houve, também, em Cristo Jesus (Fp 2.5).

Jesus disse que um pouco de fermento levada a massa toda. O que Moises chama de “raiz que produz erva venenosa e amarga” é exatamente um tipo de veneno que perturba, incomoda, afeta quem está por perto também. Em vez de produzir a paz, produz a intoxicação.

3. a amargura atinge a comunidade

A amargura é perturbadora, tanto para quem a possui, quanto para os outros. O grande problema da amargura é que ela contamina o ambiente. Assim como o sal, o fermento, o tempero, em geral, a amargura atinge a totalidade. Ela contamina a comunidade com seu efeito maléfico. Quando um membro da igreja fica amargurado com alguma situação, nem sempre consegue guardar aquilo só pra ele, e logo temos uma comunidade contaminada.

No versículo 15, o autor compara tal atitude como procedimento de alguém impuro e profano, e mais, semelhante a Esaú, que vendeu o direito de primogenitura. Mas tarde, querendo herdar a benção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento (Gn 27.32-35).

Parece um caminho sem volta. Contamina-se de tal forma que não encontra saída. Quantas vidas amargas! Quantos corações contaminados por palavras venenosas! Quanta imprudência e ausência de vigilância daqueles que deveriam estar “semeando a paz”! (Tg 3.18). Peça a Deus para te livrar da amargura, porque ela adoece a alma.

4. vencendo a amargura com uma vida de santificação

Encontramos, na Bíblia, todas as coisas que nos conduzem à vida e à santidade. O próprio texto de Hebreus que estamos estudando nos apresenta material de sobra para vencermos a amargura, crescermos em santidade. O autor, nesse contexto, apresenta-nos as seguintes alternativas: “Segui a paz com todos e a santificação (...) atentando diligentemente para que ninguém seja faltoso (...) nem haja impuro ou profano” (vs 14-16).

Numa Igreja onde os membros zelam pela vida de santificação, que, aliás, é uma obra preciosa do Espírito Santo no coração do crente, dificilmente crescerá qualquer raiz de amargura. Mas, onde reina a carnalidade, o descaso com a vida espiritual, esses males desenvolvem juntamente com outros pecados. O crente é desafiado a viver em santificação.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

MENTIRA – UMA FILIAÇÃO DO MAL (Colossenses 3.5-11)


INTRODUÇÃO

Será que é necessário dizer a verdade em qualquer situação?
A retenção da verdade é, necessariamente, uma mentira?


O filosofo Aristóteles distingue duas espécies fundamentais de mentira. JACTÂNCIA, que consiste em exagerar a verdade; e a IRONIA, que consiste em diminuí-la. Nestes dois casos não se trata de simples mentira, mas de vícios mais graves.

Conforme os dicionários, mentira é engano, impostura, fraude, falsidade, erro, ilusão, juízo falso, fábula, ficção etc. Mentir é contar ao próximo aquilo que se sabe ser falso, como sendo verdadeiro. É interessante lembrar que há no calendário, o “Dia da Mentira”. 01 de Abril.

Pior é que a mentira faz parte do cotidiano de muitas pessoas, de uma forma até costumeira ou inconsciente, tornando-se um costume ou um habito negativo, gerando sérios prejuízos.

Paulo, dirigindo-se aos cristãos de colossos, que estavam ameaçadas por ensinos errôneos difundidos pelos falsos mestres (Cl 2.16-23), apresenta verdades de suma importância em forma de mandamentos, dentre as quais encontra-se esta: “Não mintais uns aos outros” (V.9). Esta recomendação está inserida no contexto do “novo homem que refaz para o pleno conhecimento, seguro a imagem daquele que o criou” (v.10).

O apóstolo realça, neste trecho bíblico, uma serie de imperativos relativos à conduta cristã, convocando cada um a demonstrar, na pratica, que o cristão está morto para o pecado e vivo para Deus. O desejo e as orientações paulinas dizem respeito aqueles que haviam se convertido do paganismo e que, agora deveriam revelar uma nova vida, colocando em pratica aquela profissão de fé no ato da conversão (Cl 2.13).

É nesse sentido que ele fala sobre “fazer morrer a natureza terrena”, “se despojar” e “se despir do velho homem com os seus feitos”, pois agora a vida não é mais como “noutro tempo” (vv.8,9).

Na língua original, a idéia paulina refere-se ao ato de despir e ao ato de vestir. Isso porque os cristãos são convocados a demonstrar que não pertencem mais ao “reino das trevas”, mais sim, que foram “transportados para o reino do filho” (Cl 1.13).

Trata-se do grande desafio de renunciar a vida antiga, ou seja, abrir mão dos velhos hábitos e viver o agora, de modo novo. Nesse contexto, ele menciona, de modo inicial, o mandamento “Não mintais”.

Esse mandamento, que ocorre também em Efésios 4.25, é o assunto central deste estudo, o qual tem como objetivo mostrar que o cristão, que é nova criatura, precisa ter uma postura diferente, eliminando qualquer tipo de mentira em sua vida, revelando-se uma pessoa comprometida com a verdade.

1. TIPOS DE MENTIRA

Olhando para a própria Bíblia, verificamos a menção de alguns tipos de mentira, os quais são obstáculos que precisam ser transpostos:

a) Falsas acusações contra o próximo (Pv 6.16-19; Mt 5.11);
b) “Mentirinhas”, ou meia verdade (At 5.3,4);
c) Enfeitar ou exagerar a verdade (Pv 30.6);
d) Gabar-se de atitudes que, na realidade, não foram executadas (Pv 25.14);
e) Desculpar o pecado praticado (Pv 17.15);
f) Brincadeiras enganadoras e que prejudicam o próximo (Pv 26.18,19);
g) Deixa de cumprir as promessas feitas a Deus e ao próximo (Ec 5.4-6; Tg 5.12);
i) Inversão da verdade divina (Rm 1.25).

Entretanto, aqui é necessário focalizar alguns casos bíblicos onde mentira parece justificada, apesar de tudo. Este é um assunto de difícil compreensão, mas que precisa ser mencionado num estudo como este:

a) no caso de Abrão, quanto a Sara ser sua irmã (Gn 12.20);
b) no caso de Raabe, para proteger os espias de Israel (Js 2.3-6);
c) e no caso das parteiras do Egito, visando proteger as crianças dos hebreus (Ex 1.15-22).

Estes são alguns tipos especiais de mentira, considerados como exceções á regra. Mas, como afirmou D.W. Gill: “essas são mentiras aparentemente justificáveis pelo motivo aparentemente justificáveis pelo motivo de salvar vidas e defender os interesses nacionais” (Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol.II). Esses casos especiais não servem de regra geral, mas precisam ser citados pois estão relatados na Palavra, que é um livro verdadeiro e autêntico. Ninguém deve usar esses exemplos para justificar o hábito de mentir.

É preciso ser vigilante nesta área, pois uma mentira sempre leva a outras mentiras, isso para que se encubra  primeira. Porém, seja qual for o tipo de mentira, ela dever ser enquadrada neste mandamento: “Não mintais”.

2. PREJUÍZOS DA MENTIRA

São vários os prejuízos que a mentira provoca, e aquele que profere mentiras não escapa deles (Pv 19.5). Torna-se impossível mencionar todos eles, mas é preciso destacar os seguintes:

2.1. Prejudica o relacionamento com Deus – Deus é verdadeiro e abomina a mentira, pois ele é a própria verdade (Jo 17.3). Ele não pode mentir (Hb 6.28). A Bíblia afirma que Jesus é verdade (Jo 14.6) e que o Espírito Santo é o “Espírito da verdade” (Jo 16.13). Portanto, quando a mentira prevalece o relacionamento com Deus fica prejudicado. O profeta Isaias disse que os pecados fazem separação entre as pessoas e Deus (Is 59.2,3). È impossível relacionar-se bem com Deus, usando de mentira.

2.2. Dificulta o relacionamento com o próximoA mentira possui a faculdade de colocar as pessoas em situação conflituosa. Ela promove inimizades, contendas e separações. Muitos relacionamentos interpessoais estão quebrados por causa da mentira (Pv 25.18; 26.18,19,28).

A mentira provoca a perda da confiança mútua, prejudicando o bom relacionamento com o próximo. Isso ocorre entre muitas pessoas, que chegam ate a dizer: “Agora eu não confio mais em ninguém. Eu não confio mais em você”. Conforme o comentarista Ralph P.Martin, “a mentira leva ao rompimento da comunhão cristã, por que engendra a suspeita e a desconfiança, e assim destrói a vida em comum no corpo de Cristo, mediante qual somos membros uns dos outros”.

2.3. Destrói o próprio mentiroso Com certeza, o prejuízo mais drástico que a mentira causa é a morte. Isso está claríssimo no episodio bíblico de Ananias e safira. Este era um casal, ate certo ponto bem intencionado. Mas, devido a pratica da mentira, ele tombou morto aos pés de Pedro (At 5.1-11).

A palavra profética de Oseías apresenta um povo rebelde, corrupto e mentiroso, e, por causa disto, ele declara: a “terra esta de luto”  (Os 4.1-3).

Quantos tentam adquirir riquezas utilizando a mentira como sua arma principal! Mais a Bíblia diz que isso é laço mortal (Pv 21.8; 22.15). Aqui está a seriedade deste delito, levando à morte e ao castigo final (Ap 21.8; 22.15).

Realmente, a mentira não pode ser tolerada dentro da comunidade cristã.

3. A VERDADE NO LUGAR DA MENTIRA

O ensino central deste estudo reside aqui, pois a vontade de Deus, os princípios bíblicos e aquilo que promove a felicidade entre o povo de Deus, é que a verdade reine absoluta. 

O sábio Salomão disse que os lábios mentirosos são abomináveis ao Senhor (Pv 6.16-19; 12.22).

Paulo oferece o seu exemplo pessoal, declarando; “não minto” (Gl 1.20).

Jesus disse, com clareza, que a palavra do cristão é esta: “sim, sim; não, não” (Mt 5.37).

É bom lembrar que a recomendação paulina quanto ao perfil de um oficial de igreja tem muito a ver com uma vida integra, verdadeira e sem falsidade; ele diz que os diáconos devem ser “de uma só palavra” (I Tm 3,8).

Fica evidente que toda pessoa que se chama pelo nome de cristão possui o dever de refletir a natureza e o caráter do Deus que é verdadeiro, e não a imagem de Satanás, o enganador e o pai da mentira (Jo 8.44).

Deus escolhe cada um para ser semelhante à imagem do seu Filho (Rm 8.29).

Quando a mentira dá lugar a verdade, é possível perceber:
a) Paz com Deus, com os outros e consigo mesmo.
b) União, amor e alegria na igreja.
c) Pleno funcionamento do Corpo de Cristo.
d) Autoridade e capacitação para se pregar o evangelho ao mundo.
e) Progresso humano e a preservação da vida.

Finalmente, não se pode esquecer que é impossível se esconder de Deus. Ele sabe e ouve tudo o que se fala. Por isso, mais cedo ou mais tarde, a mentira será descoberta (Pv 12.19).

segunda-feira, 11 de abril de 2011

MALEDICÊNCIA – UM VENENO NA PONTA DA LÍNGUA (Tiago 4.11,12)


INTRODUÇÃO

Você acha que falar mal dos outros pode transformar-se num habito? Há algum problema nisso?

A maioria dos problemas enfrentados numa comunidade tem a ver com a maledicência. O ser humano é a única criatura com a capacidade de articular as palavras. Ele se comunica através da fala. Isto é uma benção! Contudo, o que é benção pode transforma-se em maldição. Depende do uso. Um estudo mais acurado mostrará, com clareza, a intensidade do ensino das Escrituras quanto a esta questão. Uma advertência seríssima vem do próprio Senhor Jesus Cristo, no Sermão da Montanha (Mt 5.21,22). É preciso ter cuidado com a maledicência? A Bíblia afirma que, se alguém consegue controlar sua língua, consegue controlar todas as outras partes de sua personalidade (Tg 3.2).

O texto de Tiago pode ser entendido, basicamente, como uma divisão independente, sem muita ligação com o seu contexto. Porém, estes versículos retomam um dos temas preferidos de Tiago (1.19,26; 3.1-12). Parece que Levitico 19.16 – “não andaras como mexeriqueiro entre o teu povo; não atentarás contra a vida do teu próximo. Eu Sou o Senhor” – esta na mente de Tiago. O texto é claro e a justificava de Tiago para condenar a maledicência também o é: falar mal (julgar) de um irmão é falar (julgar) da lei. Esta é a Tônica do versículo 11. o versículo 12 mostra que julgar é tarefa de Deus, não nossa. Nós não somos nem o legislador, nem o juiz; por isso, não temos nem o direito e nem a capacidade de julgar ou falar mal de quem quer seja.

1. A MALEDICÊNCIA É PROIBIDA

Nem sempre pensamos em maledicência como algo proibido na lei (Lv 19.11,16). Nós Salmos (Sl 34.13), nos profetas (Zc 8.16,17), nos evangelhos (Mt 5.22), nas epistolas (Ef 4.25,29; Tg 3.1-12) encontramos orientações, admoestações e proibições quanto à maledicência. Estamos diante de algo que Deus proíbe e abomina. Sabemos que a linguagem é um meio fantástico para a comunicação entre as pessoas, porem é por demais perigosa. Ela pode construir, mas também pode destruir. Pode abençoar, mas também pode amaldiçoar (Tg 3.10).

Maledicência é difamação de alguém: falar mal de alguém – postura condenada por Tiago (Tg 4.11). Vale registrar o que disse o comentarista William Hendrisksen, afirmando que “o Cristianismo não é uma religião do mero ‘não fazer’, e os crentes não devem se contentar em ser meros zeros. Em lugar disso, devem imitar o exemplo de seu Mestre, cujas palavras eram tão cheias de graça, que as multidões se maravilhavam (Lc 4.22)”.

Por que será que Deus proibiu a maledicência? Certamente porque ele sabe dos prejuízos que ela pode causar na vida de um povo ou de uma família. É bom lembrar que, quando nosso Senhor interpreta a lei, introduz um novo conceito de “não matarás”. Podemos trazer a morte ao nosso próximo, apenas com o mal uso de nossa língua. Tomemos cuidado, pois a maledicência mata.



2. A MALEDICÊNCIA TORNA VÃ A RELIGIÃO

“Se alguém supõe ser religioso, deixando de refrear a língua, antes, enganando o próprio coração, a sua religião é vã” (Tg 1.26). O cristão que deixa de refrear a sua língua engana o seu próprio coração, perdendo a autenticidade de sua espiritualidade.

A espiritualidade do individuo e a da comunidade cristã não se mede pela intensidade das praticas devocionais. Não é pelo tempo gasto com oração e jejuns. Nem mesmo pelo mero conhecimento das Escrituras. Alem destas praticas, a espiritualidade é evidenciada e validada por uma linguagem sadia. Como diz Paulo, uma linguagem “agradável, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um” (Cl 4.6; ver também Cl 3.16).

Euclides Martins Balancin comenta que “o verdadeiro culto é a entrega de si mesmo a Deus para viver a justiça na pratica: não difamar o próximo”. Toda a pratica religiosa cai por terra com a pratica da maledicência. Tiago detecta a incoerência de uma linguagem (religiosa) que bendiz a Deus, mas amaldiçoa os homens – criados à semelhança de Deus (Tg 3.9). Não adianta ser membro assíduo de uma igreja, freqüentar os cultos, ser um dizimista fiel, cantar no “louvor” da igreja. Tudo isso perde o valor e o sentido se não conseguimos refrear nossa língua quanto a maledicência (Tg 3.10).

3. A MALEDICÊNCIA PRODUZ CONSEQÜÊNCIAS DESASTROSAS

Numa comunidade cristã, uma pessoa “linguaruda” causará terríveis danos á saúde da igreja. Como já foi dito, a língua tem um potencial destruidor. A maledicência atinge o ser humano por inteiro.

É necessário refletir sobre os pecados da língua e sobre o nosso dever de refreá-la. O apostolo Pedro, citando e interpretando o Salmo 34, revela o segredo para aqueles que desejam ver dias felizes: guardar a língua do mal, ou seja, evitar a maledicência e falar sempre a verdade (I Pe 3.10)

Destruição, intrigas, inimizades, invejas, ira, fofocas são conseqüências desastrosas que podem surgir numa comunidade, se não atentarmos cuidadosamente sobre a nossa maneira de falar, igrejas são divididas, famílias são desfeitas, amizades são destruídas, guerras surgem por causa de um mal uso da capacidade de articular as palavras. É bom refletir antes de falar (Tg 1.19). Nossas palavras, se proferidas maldosamente, tem conseqüências desastrosas. Sejamos cuidadosos (II Tm 2.16,17).

4. A MALEDICÊNCIA PODE SER VENCIDA

Embora Tiago mostre que a língua “é mal incontido, carregado de veneno mortífero” (Tg 3.8), cremos que a maledicência pode ser vencida. O Espírito Santo, nosso ajudador, auxilia-nos no cumprimento dos preceitos da Lei de nosso Deus. Temos as Escrituras e seus numerosos ensinamentos. Sejamos “praticantes da palavra, e não apenas ouvintes” (Tg 1.22). Apropriemo-nos de suas verdades, de “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro tudo o que é amável tudo o que é de boa fama” (Fp 4.8). Com certeza, esta apropriação nos auxiliará a evitar cometer o pecado da maledicência.

Ademais, temos o exemplo maior, nosso Senhor Jesus Cristo. “Jamais Alguém falou como este homem” (Jo 7.46). Aprendamos com ele, pois seu exemplo e sua vida nos garantem que a maledicência pode ser vencida. Nosso Senhor nunca precisou pedir desculpas por uma palavra mal colocada. Ele nunca cometeu equívocos quanto á sua fala.

Portanto, concluímos que a maledicência pode ser evitada; e deve ser vencida por aqueles que têm um compromisso genuíno com o Senhor Jesus Cristo.

Que nosso linguajar demonstre nosso fiel compromisso com o Senhor. Lembremos que a maledicência é pecado condenado por Deus. Ao ser praticada por aqueles que professam a fé no Senhor Jesus, toma inútil esta profissão de Fé. Ela produz conseqüências terríveis para as pessoas nos seus relacionamentos. E por fim, cremos fervorosamente que pode ser vencida com a preciosa ajuda do Espírito Santo de nosso Senhor.

domingo, 10 de abril de 2011

MURMURAÇÃO – A FALTA DE CONFIANÇA EM DEUS (Números 14.1-12)


INTRODUÇÃO

Tem gente que vê dificuldade em tudo, só dá contra, e diz- “Eu sou realista!” O que você acha desta atitude?

No capitulo 10 da primeira Carta aos Corintios, Paulo relembra alguns pecados cometidos por Israel, no deserto, e as tristes conseqüências da infidelidade. No versículo 10 ele faz a seguinte advertência: “Nem murmureis, como alguns deles murmuraram e foram destruídos pelo exterminador”. Este versículo é uma referencia ao episodio narrado no texto básico deste estudo – Números 14 – quando os filhos de Israel foram duramente castigados pelo Senhor, por causa da murmuração.

“Murmurar”, conforme o dicionário, é soltar queixumes, lastimar-se, queixar-se em voz baixa, falar mal, apontar faltas, formar mau juízo de alguém ou de alguma coisa. Foi exatamente isto que aconteceu com o povo de Israel, após o relatório trazido do pelos homens que foram espiar a terra (Nm 13.25-33). O Senhor indignou-se ante a atitude do povo: “ate quando sofrerei esta má congregação que murmura contra mim? Tenho ouvido as murmurações que os filhos de Israel proferem contra mim” (v.26)

O objetivo deste estudo é alertar quanto ao pecado da murmuração e incentivar os presbiterianos a uma vida de inteira confiança em Deus, de gratidão, e de apoio aos lideres.

Diante dos desafios da caminhada, Israel se pôs a murmurar (v.1). As soluções que começaram a se desenhar, como fruto da murmuração, apontavam para um fim desastroso: a rejeição à autoridade de Moises e Arão e sua substituição; o retorno ao opressor; o apedrejamento de Josué e Calebe por não compartilharem do pessimismo do povo (vs. 2-10).

Mas Deus intervém, manifestando-se em gloria sobre o tabernáculo (v.10). A condenação divina aos murmuradores é severa (vs. 11,12,23,29,33,34). O nosso Deus é misericordioso e providente. Ele conduz o seu povo e supre as suas necessidades. Por isso, reprova a murmuração. A murmuração é sinal de incredulidade, de ingratidão e de um agir irrefletido.

Conforme o texto, Moisés, tendo consciência da grande ofensa praticada pelo povo, mais uma vez intercede (vs.13-23). Deus se dispõe a perdoar o povo, mas não o livra das conseqüências do seu pecado. 

Observa Gordon J. Wenhan que “como é típico da ironia desta historia, o seu castigo é feito de forma comparativa com o seu crime. Eles queriam morrer no deserto e voltar para o Egito; de maneira um tanto diferente do que eles desejavam, Deus acede aos seus pedidos. O programa há muito esperado de entrar em Canaã será adiado para permitir que a geração rebelde morra onde deseja. (...) Eles disseram: Oxalá tivéssemos morrido neste deserto! (v. 2). Quatro vezes eles são avizados: Neste deserto irão cair vossos cadáveres (29, 32, 33, 35). Os seus filhos, que eles disseram que iriam perecer em Canaã, mais tarde chegarão ali e tomarão posse da terra (3, 31, 33). Como imediata confirmação desses avisos, todos os espias infiéis morrem em uma praga enviada dos céus. Só Josué e Calebe, cuja entrada em Canaã é garantida, sobrevivem a ela ( 30, 36-38)”. (Números – Introdução e Comentário, Mundo Cristão/ Vida nova).

A atitude dos murmuradores, narrada nos versículos 39 a 45, mostra que, embora entristecidos, não reconheciam a autoridade de Moisés, o seu legitimo representante. Também não estavam levando Deus a serio. Na verdade, os murmuradores não gostam de ser submeter, agem por conta própria. 

1. A AÇÃO DOS MURMURADORES CONSISTE EM PUXAR PARA TRÁS

O tema da murmuração, focalizado em números 14, não é novo na caminhada de Israel. A murmuração esta vinculada à incredulidade do povo e, em diversas circunstâncias, verifica-se tal atitude. Na ocasião narrada no texto eles estavam acampados em Cades Barneia. A anteriormente, o povo já havia murmurado, conforme relatam as passagens de Êxodo 14.11,12; 15.24; 16.2,3 12; 17.2 e Números 11.1. tudo isso se deu logo após a saída do Egito. Por causa da murmuração, Deus fez com que eles permanecessem no deserto cerca de 38 anos (Dt 2.14,15).

Embora a providência divina fosse inconfundível durante aquela jornada, o povo estava constantemente duvidando. A liderança e a autoridade de Moisés eram questionadas (v.4). Em diversas ocasiões Deus já havia se manifestando a Moisés, o qual desempenhava a importante função de mediador. Apesar disso, eles se opunham a Moisés, contendiam, lastimavam-se. Os desejos, em vez de estarem projetados para a terra da promessa, estavam fixados no Egito. Tinham grande desejo das comidas dos egípcios (Ex 16.3; Nm 11.4-6). Em vez de olhar para frente, olhavam para trás. O comodismo do passado sobrepunha-se aos riscos e possibilidades do futuro. Eles diziam “não nos seria melhor voltar para o Egito?” (v.3).

A murmuração é tipicamente pessimista. Os murmuradores estão sempre a reclamar e a dar contra. Os versículos 39 a 45 comprovam isto. Quando era para subir a terra prometida, eles se recusaram. Quando era para retroceder e aguardar, eles teimaram em prosseguir. Eles estão sempre em descompasso. Parece que é pelo simples prazer de ser contra. O próprio Senhor Jesus conviveu com esta situação.

A murmuração é fruto da incredulidade, pois os murmuradores, como já foi exposto, não crêem, não confiam. Na igreja, infelizmente, é possível encontrar pessoas assim. Vivem a criticar, acham que todos estão errados, tudo é difícil, nenhuma idéia ou projeto vai funcionar. Em vez de colaborar, torcem para que as coisas dêem erradas. Tal atitude alem de antiética, depõe contra a causa cristã e trás prejuízos a toda a comunidade.

2.  A MURMURAÇÃO TEM EFEITO CONTAGIOSO NA COMUNIDADE

O texto diz que “todos os filhos de Israel murmuraram contra Moises e contra Arão” (v.2). A murmuração é um mal que rapidamente envolve a todos. De uma hora para outra, a liderança bem sucedida de Moises e Arão se vê ameaçada: “E diziam uns aos outros: Levantemos um capitão e voltemos para o Egito” (v.4).

A ação destrutiva dos murmuradores continua fazendo estragos entre o povo de Deus e arruinando a vida de lideres. Muitas vezes, pessoas crentes e ingênuas, acabam sendo usadas e manipuladas em conflito de interesses. Líderes íntegros e comprometidos com Deus são desonrados e injustiçados como aconteceu com Moisés. Comunidades inteiras são afetadas, experimentando inimizades, divisões e enfraquecimento.

A conduta pouco ética dos murmuradores faz com que, em pouco tempo, muitas sejam contagiados. A ferramenta deles é a língua, a palavra. A propósito, vale a pena considerar as advertências contidas no capitulo 3 da Carta de Tiago, quanto aos pecados da língua e o dever de refrea-la.

3.  É PRECISO RESISTIR A MURMURAÇÃO

A murmuração é uma tentação sempre presente diante de nós. Pode até torna-se um habito. Conter a língua, ou falar o que é certo, de maneira correta, na hora apropriada e com que deve ouvir, é uma arte que nem todos dominam. A formula indicada por Tiago é muito útil para nos disciplinar neste sentido: “todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar” (Tg 1.19).

Não se pode confundir o questionamento bem intencionado e a critica construtiva, com a murmuração. Esta inclui más intenções; é insensível e traiçoeira; é negativa e destrutiva. Somos desafiados a rever a maneira como tratamos nossos lideres, pois o alvo dos murmuradores é sempre a liderança (Fp 2.25,29; I Ts 5.12,13; Hb 13.17).

A murmuração é incompatível com uma vida cristã marcada por fidelidade, confiança e cooperação. Conforme já foi mencionado na introdução, o texto de I Corintios 10 – que recorda experiências de Israel no deserto – contém advertências quanto a uma serie de erros que devemos evitar, dentre eles, a murmuração (I Co 10.10).

A murmuração afasta a benção e atrai o juízo de Deus. Mas, quando a murmuração cede ligar à confiança em Deus, a união e cooperação entre os irmãos ”Ali derrama o Senhor a sua benção e a vida para sempre” (Sl 133).

Devemos tomar cuidado para não incorrermos no pecado da murmuração. Ela pode ser extremamente prejudicial, tanto para nós, quanto para a igreja. È por isso que a Palavra de Deus recomenda: “Fazei tudo sem murmurações nem contendas, para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo...” (Fp 2.14-16).