quarta-feira, 23 de março de 2011

HIPOCRISIA – UMA VIDA DE FALSIDADE (Mateus 23.13-29)


INTRODUÇÃO

Você acha que há situações em que a hipocrisia é justificável? Por que?
A sua comunidade tem sido afetada pela hipocrisia?

A palavra “hipocrisia”, na antiguidade, não tinha esta conotação negativa que hoje conhecemos. W. Barclay, em seu livro Palavras Chaves do Novo Testamento (Vida Nova), afirma que hipocrisia, na antiguidade, estava associada com outras realidades:
a) um interprete ou expositor de oráculos ou sonhos;
b) um orador;
c) um recitador de poesias;
d) um ator.

A conotação negativa que a hipocrisia assumiu nos dias atuais vem exatamente deste ultimo uso – ator, o que desempenha um papel, o que se apresenta de uma forma sem, na verdade, ser aquilo que aparenta.

Nos dias de Jesus, esta pratica estava bastante associada á religiosidade dos fariseus. Fariseu era um grupo religioso-politico-social de grande influencia nos dias de Jesus. Eram os “piedosos” da religião, devotos rigorosos e inquiridores da observância da Lei. Na verdade, eles assim desejavam ser conhecidos, mas não eram nada disso. Eram atores da moralidade e da piedade, interpretes de uma falsa santidade. Falavam e não viviam (v.23). Apresentavam-se envoltos em meio a uma redoma de pureza exterior, todavia, eram tão podres em seus desejos e planos, como qualquer outra pessoa (v.27).

Nos versículos 13 e 29, temos as acusações de Nosso Senhor contra os mestres Judeus. Em pé, no templo, e rodeado por uma multidão que o escutava, Jesus denuncia publicamente os erros principais dos escribas e fariseus e, sem poupar palavras, revela a divergência entre o discurso e a pratica destes religiosos dos seus dias.

Por oito vezes ele usa a solene expressão “ai de vos”, e por sete vezes, ele os chama de hipócritas. Atentemos bem a essa passagem bíblica. Ela nos ensina algumas lições.


1. AS MANIFESTAÇÕES DA HIPOCRISIA

Nos evangelhos, percebemos claramente como a hipocrisia se manifestava na vida dos religiosos dos dias de Jesus. O Dr. W. Barclay faz uma analise de como o hipócrita era conhecido:

a) É o homem que se dá a representar publicamente a bondade. É o homem que quer que todos o vejam dar esmolas (Mt 6.2), que o vejam orar (Mt 6.5), que saibam que está jejuando (Mt 6.16). É o homem cuja bondade visa agradar não a Deus, mas aos homens.

b) É o homem que, no próprio nome da religião, quebra as leis de Deus. É o homem que diz que não pode ajudar seus pais, por que já tinha dedicado seus bens ao serviço de Deus (Mt 15.4-6; Mc 7.10-13). É o homem que se recusa a ajudar um enfermo no sábado, embora não descuide do bem-estar de seus animais no mesmo dia (Lc 13.15). É o homem que prefere sua própria idéia de religião à idéia de Deus.

c) É o homem que esconde os seus motivos verdadeiros sob uma máscara de fingimento. Os motivos verdadeiros das pessoas que perguntaram a Jesus acerca do pagamento de tributos não eram obter informações e orientação, mas, sim, embaraçar Jesus nas suas palavras (Mc 12.15; Mt 22.18).

d) É o homem que esconde um coração mau sob a mascara da piedade. Os fariseus eram assim (Mt 23.28). É o que pratica todos os gestos externos da religião, enquanto no seu coração há orgulho e arrogância, amargura e ódio. É tipo de pessoa que nunca deixa de ir à igreja e que nunca deixa de condenar um pecador.

e) O hipócrita acaba ficando cego. Pode interpretar os sinais do clima, mas não pode ler os sinais de Deus (Lc 12.56). Enganou aos outros tão freqüentemente, que acabou enganando a si mesmo.

f) O hipócrita é o homem que, pela causa da religião, afasta outras pessoas do caminho certo (Gl 2.13; Tm 4.2; I Pe 2.1). Persuade os outros a lhe darem ouvidos, em vez de escutarem a Deus.

g) No fim, o hipócrita é o homem sujeito a condenação de Deus (Mt 24.51).

Aqui há uma advertência. De todos os pecados, a hipocrisia é aquela no qual é mais fácil cair; e entre todos os pecados, é o mais rigorosamente condenado (Pecador convicto x Santo fingido).

Temos que ter um grande cuidado para que não assumamos, na atualidade, a roupagem dos fariseus dos dias de Jesus. É muito mais fácil para uma pessoa viver uma realidade de hipócrita, mascarada, fingida, do que investir diligentemente, diariamente, vigilantemente em uma espiritualidade verdadeira, em uma religião de vida, em uma santidade autêntica. É por isso que hino “Vencendo vem Jesus” traz entre suas estrofes os seguintes versos: “Da vaidade, fieis servos, lutam por fazer-nos seus! Muitas vezes nos assaltam os modernos fariseus...”

2. HIPOCRISIA É ABOMINÁVEL AOS OLHOS DE DEUS

Atentemos na linguagem usada pelo Senhor no texto. Ela revela, de maneira inequívoca, quão abominável é, aos olhos de Deus, o espírito de escribas e fariseus, não importando a forma em que se manifeste. Em Mateus 23.12-36, encontramos, por 8 vezes, a expressão usada pelos profetas do Antigo Testamento para referir-se à condenação – Ai! 

O primeiro “ai” nesta lista foi dirigido contra a sistemática oposição dos escribas e fariseus ao progresso do evangelho (v.13). 

O segundo “ai” é dirigido contra a cobiça e o espírito de auto-engrandecimento (v.14). 

O terceiro “ai” é dirigido contra o zelo pelo partidarismo (v.15). 

O quarto “ai” é dirigido contra as doutrinas e juramentos anunciados pelos escribas e fariseus (v.16). 

O quinto “ai” é dirigido contra a pratica de exaltação das coisas menos importantes, em detrimento das essenciais (v.23). 

O sexto e o sétimo “ais” são dirigidos contra uma característica geral da religião dos escribas. Para eles, a pureza de coração (vs.25,26). 

E o ultimo “ai” é dirigido contra a veneração fingida que eles demonstravam pela memória dos santos já mortos.

Nesta passagem inteira, podemos ver a deplorável situação em que se encontrava a nação judaica nos dias de Jesus. Se assim eram os mestres, quão grande deve ter sido a escuridão dos que eles eram ensinados.

Com base neste texto, não podemos deixar de reconhecer quão abominável é a hipocrisia aos olhos de Deus. Os escribas e fariseus não foram acusados de serem ladrões ou assassinos e, sim, de serem hipócritas desde o âmago de seu ser.

Temos, em tudo isso, um quadro melancólico que nosso Senhor nos dá acerca dos mestres judeus. Este quadro deveria nos trazer tristeza e humilhação. É um quadro que tem sido reproduzido inúmeras vezes na historia da igreja cristã, e que pode estar manifesto na vida de muitas crentes neste momento.


3. O TRATAMENTO DA HIPOCRISIA


A finalidade desta passagem bíblica é condenar a hipocrisia e mostrar que ela não é o melhor caminho para agradar a Deus. Pelo contrario, Jesus mapeou suas mais intensas manifestações e condenou seus mais seguros praticantes. A perspectiva de vida com Deus, apresentada por Jesus, Traz inerente um remédio contra a realidade da hipocrisia.


Em Mateus 5.8, Jesus, ao dar inicio aos seus ensinamentos, no chamado Sermão do Monte, difere completamente do discurso e da pratica dos fariseus. Ela enaltece a importância de buscarmos a pureza de coração – “Bem-aventurados os limpos de coração, por que verão a Deus”.  Se a hipocrisia traz em si a condenação de Deus, por outro lado, a pureza de coração, a transparência de intenções, e a ausência de contaminação nos desejos garantem a aprovação do Senhor.


O grande desafio da igreja atual é uma pratica coerente, pura, desprovida de jogos de interesse escondidos. Busquemos a pureza de coração e rejeitemos a hipocrisia dos modernos fariseus.


Façamos nossa a oração de Davi: “Bem sei, meu Deus, que tu provas os corações, e que da sinceridade te agradas...” (I Cr 29.17).


Consideremos também a exortação de Hebreus 10.22: “Aproximemo-nos com sincero coração, em plena certeza de fé...”

sexta-feira, 18 de março de 2011

INVEJA – A RAIZ DE TODOS OS MALES (Romanos 1.18-32)


INTRODUÇÃO

Será que é pecado desejar possuir bens, boa aparência física, posição social etc.? Ou o pecado é não lutar por alcançá-los de modo correto?

A inveja é o desejo de possuir estas e outras coisas por meios ilícitos, tendo como ponto de partida o olhar fixo no que é dos outros, desejando para si, lamentando por que ainda não esta em seu poder. È um ressentimento profundo, que se aninha na mente da pessoa e passa logo a gerar outras ações, tais como a cobiça, a ganância, a maledicência. O dolo entra em cena e tudo termina em contendas, e ate em morte, tal como aconteceu com Abel (Gn 4.8) e com Nabote (I Rs 21, 1-16).

A inveja e os outros males surgiram no éden (Gn 3.5), e se fazem presentes em todos os lugares, causando contendas e guerras (Tg 4.1,2), sendo sua primeira vitima o seu possuidor, depois aqueles que são o seu alvo. È algo que acontece ate com nações que se apoderam dos recursos econômicos de outras menos capazes de administração.

O texto básico registra a mudança ocorrida no ser humano, sua degeneração. Os homens passaram a valorizar as obras da criação, fazendo delas o seu deus, desentronizando de suas vidas o Deus Criador, e tentando ocupar o lugar do mesmo. Pela concupiscência dos seus corações, diz Paulo: “Deus entregou tais homens á imundície” (v.24), “a paixões infames” (v.26), “A uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes” (v.28).

Na relação de tais coisas, em numero de 21, não sendo uma lista completa, pois em Gálatas 5.21, o apóstolo afirma: “e cousas semelhantes a estas”, ele inclui o tema deste estudo.

Algo sério no texto básico é que tal pratica é feita com conhecimento da verdade (v.21) e ate mesmos os gentios assim agem. Não há exceção para ninguém.


1. DEFINIÇÃO E ASSOCIAÇÃO

Provérbios 14.30b diz que “a inveja é a podridão dos ossos”. Todo o corpo não possui firmeza. A inveja é a doença da alma, uma doença espiritual. Diz C. Hodge: “É um câncer da alma” (Teologia Sistemática, Vol. III. P.464).

Caracteriza-se como realmente é:
a) Um sentimento de desgosto ou pesar pelo bem dos outros;
b) Um desejo violento de possuir o bem alheio;
c) Um sentimento de ódio para com os mais favorecidos;
d) Um desejo de impedi-los de possuir tais bens e de vê-los destruídos.

A inveja colocada na mente humana é como um germe que se encarrega de criar outros males que, agrupados ao redor de si, formarão um exército em guerra, lutando para conseguir os fins por ele propostos. Esta força de ação é tão elevada que Provérbio 27.4 diz: “Cruel é o furor e impetuosa a ira, mas quem pode resistir á inveja?” Ela não atua só, pois se assim fosse, ninguém seria atingido; não passaria de um pensamento, sendo o invejoso a única vitima. Entretanto, o que se conhece é que o pensamento invejoso está integrado por outros companheiros ofensivos.

A historia do comportamento de Saul em relação a Davi é uma das evidencias desta associação de males, pois, após a morte de Golias efetuada por Davi, e sua aclamação feita pelas mulheres, Saul passa a ter um sentimento de inveja e, “daquele dia em diante, Saul não via Davi com bons olhos”; e procurou elimina-lo (I Sm 18.6-16).

È tão real esta integração de males que provem do coração humano ainda não regenerado, que o Senhor Jesus, em Marcos 7.21-23 e Paulo, Tiago e Pedro, em vários textos (II Co 12.20; Gl 5.19-21; I Tm 6.4; Tt 3.3; Tg 3.14; I Pe 2.1), os mencionam, estando a inveja entre eles, quer a palavra declinada ou os seus efeitos descritos nos demais componentes. 

2. CONSEQÜÊNCIAS DA INVEJA

Sendo a inveja um ressentimento aninhado no coração do homem, conclui-se que o invejoso vive em torturas da sua alma, tendo em si a destruição de alguns bons princípios de vida (Sl 73.2,3). A condição de vida do invejoso é marcada por reclamações, por expressões de revoltas visíveis no próprio rosto (Gn 4,5; I Rs 21.4-7). È a batalha interna do coração, por não ver seus intentos realizados. A luta continua e outros atos maus vão sendo levados a efeito, ate que se consiga o proposto. Os meios usados, sejam quais forem se justificam pelos fins propostos.

A Bíblia nos apresenta inúmeros exemplos das conseqüências causadas pela inveja e os seus integrantes. 

Eis alguns:
a) Abel é assassinado pelo próprio irmão, Caim, que, possuído de inveja, irou-se e dolosamente, mesmo advertido por Deus (Gn 4.5-8), Praticou um crime, tornando-se exemplo negativo para todas as gerações (Hb 11.4; I Jô 3.12 e Jd 11);
b) Isaque é expulso de Gerar por te se enriquecido (Gn 26.12-17);
c) Os irmãos de José tentam mata-lo e de pois o vendem (Gn 37.11,20;26-28;At 7.9);
d) Nabote é julgado e assassinado, sem ter o direito de defesa ( I Rs 21.1-16);
e) O próprio Cristo foi entregue pelos invejosos lideres religiosos ( Mt 27.18);
f) Os apóstolos sofreram também, da mesma classe de pessoas, perseguições (At 5.17,18; 13.45)

A inveja conduz o ser humano a um miserável estado de vitima, impedindo-o de reparar suas próprias deficiências, corrigindo-as e se tornando capaz de conseguir, por meios lícitos, as mesmas condições de vida.

O invejoso é governado por diretrizes por ele elaboradas, e não sob as normas divinas, pois de Deus está alienado. Da sua linguagem é modo de vida, a pratica da lei Áurea estabelecida por Deus, registrada em Deuteronômio 6.5, levitico 19.18 e Matheus 22.37-39, não faz parte, pois para ele Deus e o próximo não existem.

Mas a pior conseqüência é a eterna, pois Paulo afirma: “São passiveis de morte os que tais coisas praticam” (v.32).


3. LIBERTAÇÃO ESPIRITUAL

Para todas as espécies de males espirituais, Deus preparou os meios suficientes para a cura e libertação. Ele não deseja que o pecador seja vitima eterna de Satanás, alienado de sua presença. Deus, No Éden, prometeu a vinda de seu filho para pagar o preço desta libertação com sua morte. Não há corrupto, por pior que seja, que não possa ser transformado; nem pecado sem perdão em Cristo.

Zaqueu é uma prova evidente desta transformação, pois, por meios ilícitos, enriquecera-se, mas dispôs-se a corrigir as fraudes cometidas (Lc 19.8).

Deus veio em Jesus Cristo para nos libertar do império das trevas e o próprio Cristo declarou como obter tal libertação (Jo 8.32,36; Cl 1.13,14). Há libertação a disposição de todos os que são vitimas dos males do coração.

Para que isto ocorra, é necessário conhecer a Palavra de Deus e aceitá-la, pois o Espírito Santo está executando a sua missão de convencer o mundo do pecado, da justiça é do juízo (Jo 16.8-11). Ele ilumina o Cristão (Rm 14.26), intercedendo pelos regenerados (Rm 8.26,27), Concedendo a Convicção de “Ser nova criatura’ (II Co 5.16) e de poder viver seguro de que “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1). Pois cumpre-se nele a mensagem de Romanos 8.30.

O coração do pecador, cheio de inveja e demais males por ela gerados e a ela associados, pode ser purificado e torna-se lugar especial de guardar a Palavra de Deus (Sl 119.9,11, 97). Onde há lugar para o amor de Deus, este o conduz à pratica das boas obras.

Este mal tão terrível, conforme observou o sábio (Pv 14.30; 27.4), Continua sendo uma realidade constante, até mesmo com boa aparência (Fp 1.15), procurando aninhar-se totalmente no coração do crente.

O que fazer? Paulo ensina:
a)      Encher-se do Espírito Santo e não entristecê-lo (Ef 4.30; 5.18);
b)      Viver de modo digno da vocação (Ef 4.1-3);
c)      Lançar distante tais males (Ef 4.31);
d)      Exercitar o domínio próprio (Gl 5.22).

Em I Pedro 2.1 e 2, o apóstolo determina o despojamento destes males e o desejo de alimentar-se espiritualmente. Para que tudo se efetue, é necessário enquadrar-se  na bem-aventurança proposta por Cristo em apocalipse 1.3, que é ler, ouvir, aguardar o que está escrito. Não se pode descuidar da oração como ato de vigilância (I Pe 5.8), sabendo que o adágio popular declara: “Mente vazia, oficina de Satanás”.

quinta-feira, 10 de março de 2011

EGOÍSMO – O INDIVIDUALISMO EM AÇÃO (Mateus 22.34-40)


INTRODUÇÃO

“Cada um por si e Deus por todos!” – Com certeza, você já ouviu esta frase. Ela traduz o conceito que muitos têm da vida. São aqueles que se preocupam apenas consigo próprios. É não são poucos os que só querem levar vantagem. Esta atitude, tão presente no coração humano, que se manifesta nos relacionamentos é chamada “egoísmo”.

O dicionário define egoísmo como sendo “o amor exclusivo de pessoa e de seus interesses”. De fato, o egoísta não se preocupa com os outros, mas trata só dos seus próprios interesses.

A ética crista, emanada do novo testamento, é contundentemente contrária às atitudes egoístas. Diante disso, o presente estudo tem como objetivo enfatizar a ética crista centrada no amor, e despertar os presbiterianos salgadenses para um viver altruísta, o que  sem dúvida, representa um positivo testemunho a esta cidade tão carente de Jesus.

A passagem tomada por base para este estudo apresenta o relato de mais uma das tentativas de conspiração dos saduceus e fariseus contra Jesus. A intenção de um dos interpretes da lei, ao formular a Jesus a pergunta sobre qual seria o maior mandamento da lei, era criar uma situação em que Jesus a viesse a blasfemar. Certamente, o interprete da lei se surpreendeu com a resposta de Jesus, pois ele se valeu de Deuteronômio 6.4,5 e afirmou que o maior mandamento consiste em amar a Deus sem reservas. Jesus prossegue e recorre e Levitico 19.18 para dizer que há um segundo mandamento ligado ao primeiro o qual consiste em amar ao próximo como a si mesmo.

Conforme R.G.V. Tasker, “um homem não pode amar a Deus num sentido real sem amar também a seu próximo, feito como ele á imagem de Deus” (Mateus: introdução e comentário, Mundo Cristão/Vida Nova). Esta é a mensagem de I João 4.20,21.

Os evangelistas Marcos e Lucas também relatam o episódio (Mc 12.28-34 e Lc 10.25-37), mas não dizem que o interprete da lei estava experimentando a Jesus.

Enfatizando a centralidade do amor, Jesus declara que “destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (v.40). Mas, por que são estes dois mandamentos os mais importantes?

Guilhermo Hendriksen (biblista presbiteriano) sugere três razões:
1. A fé e a esperança recebem, o amor dá;
2. Todas as demais virtudes estão incluídas no amor.
3. O amor segue o padrão de Deus, pois Deus é amor

Há uma canção, cuja letra diz: “amor! Ser cristão e ter amor. Ama o teu próximo com a ti mesmo. Deus é amor” O egoísmo é incompatível com a vida no reino de Deus.



1. CARACTERÍSTICAS E MALES DECORRENTES DO EGOÍSMO

Escrevendo ao jovem Timóteo (II Tm 3.1-9) o apostolo Paulo o preveniu de que nos últimos dias sobreviriam tempos difíceis, quando os homens seriam, entre outras coisas, egoístas. Como já foi exposto na introdução, o egoísmo caracteriza-se pela concentração dos interesses do individuo em si mesmo, em detrimento das necessidades do semelhante.


O ser humano foi criado por Deus para viver numa saudável interdependência – “não e bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). O salmista declarou: “Oh, como é bom e agradável viveram unidos irmãos”! (Sl 133.1). A igreja do novo testamento se distinguia em virtude de um estilo de vida desprendido e altruísta (At 4.32-37).

Na sociedade moderna verifica-se um acentuado individualismo. Em vez de aproximar as pessoas, como pareceria lógico, a globalização acaba promovendo o isolamento e o distanciamento. O modelo econômico neoliberal interfere diretamente em nossas relações. O mercado transforma-se numa selva, e “salve-se quem puder”. O resultado disso é que retrocedemos á mentalidade de Caim: acaso, sou eu tutor de meu irmão? Os homens deixam de ser irmãos e parceiros e transformam-se em concorrentes.

A lógica capitalista, cujo fim supremo é o acumulo, oferece forte respaldo para o desenvolvimento de uma cultura do egoísmo. E o pior, é que a teoria capitalista é capaz de entorpecer e aplacar a consciência, tornando-nos insensíveis ante o seu subproduto que é a miséria. Alguns, para justificar a sua apatia, chegam a fazer um uso cínico da Bíblia, citando, por exemplo, fora do seu contexto, passagens como Marcos 14.7: “porque os pobres, sempre os tendes convosco...”

A riqueza produzida no mundo e os recursos disponíveis são suficientes para garantir uma condição de vida digna a todos os habitantes do planeta, com acesso ao básico: alimentação, moradia, saúde e educação. Não faltam recursos. O problema é que sobre egoísmo. O egoísmo é o grande responsável pelas cruéis e brutais desigualdades entre pessoas, povos e nações. Mas a palavra de Deus garante um severo juízo contra aqueles que pensam só em si (Is 5.8; Lc12.20,21; Tg 5.1-6).



2. O EGOÍSMO E O MANDAMENTO DO AMOR

A Ética cristã esta fundada no amor: amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Ai não há espaço para o egoísmo. A parábola do bom Samaritano (Lc 10.25-37) ilustra muito bem o que significa amar ao próximo como a si mesmo.

Aonde prevalece o egoísmo não há amor, nem ao próximo nem a Deus. É por isso que Jesus condenou os Fariseus e sua falsa devoção (Mc 12.38-40).

O amor abre caminho para o encontro e harmonia do ser humano com o Criador, com o próximo, consigo mesmo e com o meio-ambiente. O amor gera vida e liberdade. Quando o amor determina as nossas relações, ai se estabelecem a fraternidade, a partilha, a cooperação e a justiça.

O egoísmo arraigado em tantos corações e mentes, tem sido um grande empecilho para a construção de um mundo mais humano, justo e solidário. Diante da cultura do individualismo e da competitividade que rege o mundo hoje, onde o outro é visto não como irmão e parceiro, mas apenas como concorrente, o povo de Deus é desafiado a deflagrar uma revolução: a revolução do amor (Mt 5.43-48).



3. O DESAFIO AO VIVER ALTRUÍSTA

“Altruísmo” é o oposto de “egoísmo”. Ser altruísta significa ter amor ao próximo, ser abnegado, estar comprometido com causas filantrópicas.

O altruísmo deve ser uma marca inconfundível de todo cristão. É deprimente alguém se declarar cristão, e viver egoisticamente. Em seu livro “Ética do Novo Testamento” (editora Sinodal), Heinz Dietrich Wendland declara: “Não há amor verdadeiro e pleno, do coração todo a Deus, sem o amor ao próximo”.

O altruísmo cristão, ordenado por Jesus, transforma-se num veemente testemunho ao mundo (Mt 5.16).

O nosso compromisso solidário não pode ser limitar á igreja a que pertencemos. Devemos abrir o coração as necessidades que nos rodeiam, e o nosso envolvimento deve ser mais abrangente e efetivo. Muitas ONGs tem ocupado espaços onde quem deveria  estar é a igreja. O evangelho que pregamos muitas vezes se mostra acentuadamente conceitual e teórico, e pouco altruísta. Aprendemos com Jesus! (Mt 9.35-37; 14.13-21).

A influencia do modo de vida atual atinge também os cristãos. Cada um deve avaliar se está vivendo conforme a ética do Reino de Deus, fundada no amor, ou se esta simplesmente seguindo o curso deste mundo.

O desafio a um viver altruísta tem implicações não apenas em relação ao bem estar do nosso semelhante. Na verdade, tem implicações também escatológicas. Diante disso, todos quantos desejam viver uma cristã aprovado por Deus, devem atentar para as palavras de Jesus em Mateus 25.31-46.

segunda-feira, 7 de março de 2011

ORGULHO - O MAL SUPREMO (Lucas 18.9-14)



INTRODUÇÃO


Qual é o pior de todos os pecados?
Os antigos mestres cristãos diziam que o principal pecado, o mal supremo, capaz de deixar a criatura no mais completo estado anti-Deus, é o orgulho. Há uma tradição comum entre os evangélicos brasileiros que afirmam não haver diferença entre “pecado”, “pecadinho” e “pecadão”. Mas há pecados que são piores que os outros em suas conseqüências (o que, evidentemente, não quer dizer que é permitido pecar de propósito os pecados “menos” piores). A Teologia Reformada, por exemplo, na Segunda Confissão Helvética (1562), em seu capitulo VIII, afirma: “confessamos também que os pecados não são iguais: embora surjam da mesma fonte de corrupção e incredulidade, alguns são mais graves que os outros”.

Você concorda com esta afirmação?
A tradição cristã, desde inicio da era medieval, fala dos setes pecados mortais, considerado perigosos o bastante para levar quem os pratica deliberada e permanentemente para longe de Deus, que é a fonte da vida. Nas palavras do Professor Robert Mounce, a “lista (dos setes pecados) representa uma tentativa de enumerar os instintos primários que tem a maior probabilidade de dar origem ao pecado”. Os antigos diziam que o orgulho é o primeiro pecado desta triste lista (os outros seis são a cobiça, a lascívia, a inveja, a glutonaria, a ira e a preguiça). Evidentemente, os pecados mortais são mais que sete, e na verdade, mais que os trezes estudos que iremos abordar nas nossas próximas reuniões.

A conhecida parábola de Jesus, narrada apenas por Lucas, é contada em um contexto que apresenta o ensino do Senhor sobre oração (Lc 18.1-8 - comparar com a seção paralela de Lc 11.1-13. na qual o assunto principal também é a oração).

Em Lucas 18.1-8, a ênfase esta na perseverança que se deve ter na oração. Já no texto que é o objeto da atenção do presente estudo, a ênfase é dupla: a condenação de uma arrogância altiva e soberba, que engana, levando quem se deixa dominar por ela a pensar que é melhor que os outros e não precisa nem de Deus: e a apreciação de uma altitude humilde, que leva a depender apenas de Deus, e não dos méritos próprios.

Este texto ilustra muito bem o aspecto ridículo do orgulho, e o resultado desastroso produzido na vida de quem se julga auto-suficiente e melhor que os outros. Nesta parábola, Jesus utiliza um de seus trocadilhos favoritos: “pois quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado” (Lc 18.14, Nova Versão Internacional). Jesus cita este mesmo trocadilho em Mateus 23.12 e em Lucas 14.11.

A idéia de Deus exaltar os humildes e derrubar os orgulhosos era conhecida, há muito tempo, pelos sábios orientais (cf. Jó 5.11 e 22.29, citada por Elifaz de Temã) e evidentemente, pelos filhos de Israel (cf.Sl 113.7; Pc 3.34; Is 57.15).

Portanto, é tema presente também em outros trechos do novo testamento (Tg 4.10; I Pedro 5.5,6). À luz de tantas referencias bíblicas, não é difícil concluir que o assunto é da mais elevada importância para a vida dos que querem seguir o senhor Jesus com fidelidade e obediência. Fazemos bem em prestar a máxima atenção a tão importância questão.

1. O QUE É O ORGULHO?

O que é orgulho? Trate-se da atitude de considerar-se superior e melhor que as outras pessoas, a ponto de desprezá-las. O orgulho é, portanto, a atitude que leva alguém a considerar-se uma pessoa acima de todas as outras.

C.S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples (ABU Editora), afirma: “o orgulho é essencialmente competidor; é competidor por sua própria natureza, enquanto que os outros pecados são, por assim dizer, competidores apenas por acaso. O orgulho não sente prazer em possuir algo, mais apenas em possui mais do que o próximo. Dizemos que alguém tem o orgulho de ser rico, ou de ser inteligente ou de ter boa aparência, mas não é assim. A pessoa tem o orgulho de ser mais rica, mais inteligente ou de melhor aparência do que os outros. Se todo o mundo se tornasse igualmente rico, inteligente ou de boa aparência, não haveria nada do que se orgulhar. É a comparação que nos toma orgulhosas: o prazer de estar acima dos outros. Não havendo o fator competição, o orgulho desaparece”.

Por causa do orgulho, pessoas desprezam, humilham e oprimem seus semelhantes – racismo e preconceito, por exemplo, são manifestações do orgulho. Por isso, o orgulho é um pecado tão grave e serio: sempre alguém encontrara outro que lhe seja superior em uma outra área. E, acima de tudo, e de todos, há o próprio Deus.

Citando Lewis, mais uma vez “Em Deus vamos contra algo que nos e infinitamente superior em todos os aspectos. A menos que reconheçamos a Deus como tal, e portanto, que reconhecemos a nos mesmos como uma nada em comparação a Ele, não conheceremos a Deus absolutamente. Enquanto permanecermos orgulhosos, não poderemos conhecer a Deus. Um orgulhoso está sempre olhando de cima para pessoas e coisas; e é claro, quem está olhando para baixo não pode ver o que esta acima de si mesmo”. A ruína espiritual proveniente do orgulho reside no fato do orgulhoso amar-se mais que deus a Deus e, evidentemente, mais que às outras pessoas.

Eis o grande problema do orgulho: a pessoa orgulhosa considera-se melhor que as outras pessoas. O orgulho não deixa a pessoa reconhecer que, se tem algo de bom, não é pelo seu próprio mérito, mas pela misericórdia divina. Portanto, é ridículo alguém considerar-se superior a quem quer seja. No lugar do orgulho, é preciso sentir gratidão a Deus pelas boas dádivas que ele concede.

2. O QUE NÃO É ORGULHO

È preciso distinguir alguns pontos, para que não se entenda uma questão tão importante como esta, de maneira errada. Há pessoas que não querem ser orgulhosas, mas acabam manifestando uma humildade deturpada. Eis alguns exemplos: a alegria que alguém sente ao receber um elogio não é orgulho. Jesus nos dá a impressionante promessa que Deus mesmo elogiará seus servos fiéis (Mt 25.21-23).

Quando alguém diz algo de bom ao nosso respeito, Devemos dar graças a Deus, que nos possibilitou a característica pessoal ou a realização que nos fez receber o elogio. O problema é quando uma pessoa é tão orgulhosa que nem dá valor a quem a elogiou, por considerar-se superior a tudo e a todos.

Também não é errado ter ”orgulho” de uma pessoa especial, como um pai, ou uma filha, ou por ser aluno de uma determinada escola ou funcionário de uma determinada empresa. Nestes casos, o que se sente não é exatamente “orgulho”, mas uma grande afeição e/ou admiração, pela pessoa ou instituição, ou seja, lá o que for. Esta afeição e admiração não são pecaminosas em si. Mas devemos tomar cuidado para que não amemos pessoas ou coisas mais que a Deus. Afinal “se alguém vem a mim e ama o seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs e ate sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14.26, Nova Versão Internacional).

3. VENCENDO O ORGULHO


È possível vencer o orgulho? Sim, pela graça de Deus. A humildade é o remédio de Deus contra o orgulho. O problema é que, como sabiamente adverte o Rev. John Haggai, em seu livro Seja um líder de verdade, quem é verdadeiramente humilde não pensa em sua humildade, pois a humildade não tem consciência de si mesmo.


Mesmo assim, é possível cultivar alguns princípios de vida que são úteis para a vitória sobre o orgulho. Um destes princípios é ser dependente de Deus como uma criança. O senhor Jesus disse que quem não se tornar como uma criança não entrara no reino dos céus (Mt 18.1-5). A criança não é arrogante.não se considera melhor que ninguém. Para vencemos o orgulho, imitemos as crianças.


Outro principio de vida importante para derrotar o orgulho é o serviço. Jesus, o Senhor, serviu sempre.


Ele não teve problemas em fazer o que ninguém queria, e lavar os pés de seus amigos discípulos (tarefa que, naquele tempo, era destinada aos escravos). “Vós me chamais o Mestre e o senhor, dizeis bem, porque eu sou. Ora, se eu sendo o Senhor e o Mestre vos lavei os pés, também vos deveis lavar os pés uns dos outros. Por que vos dei o exemplo, para que, como eu vou fiz, façais vós também” (Jo 13.13-15).


Quem serve aos seus semelhantes desenvolve espírito de humildade.

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Este mesmo estudo está disponível em:
http://ieconfamiliaviva.blogspot.com.br/2013/12/orgulho-o-mal-supremo-lucas-18-914-prof.html