sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

GILEAD - Marilyne Robinson [Resenha]



A autora do livro aqui resenhado é Marilynne Robinson, que nasceu em 1947, em Sandpoint, Idaho. Lançou seu primeiro romance, Housekeeping, em 1981, e foi imediatamente apontada como uma grande promessa da literatura estadunidense. Tanto que sua incursão inicial no universo da ficção lhe valeu o Prêmio PEN/Hemingway. A autora, todavia, nos anos seguintes continuou se dedicando à produção de ensaios acadêmicos ligados às várias universidades nas quais é professora, colaborando, ainda, com publicações como a The New York Times Book Review, Harper’s, Paris Review. Mais de 20 anos após, traz a público um romance, na narrativa saga familiar do reverendo "Gilead" que a faz vencedora da mais acreditada láurea literária dos Estados Unidos: o Prêmio Pulitzer de 2005. Ainda uma referência muito especial à tradução primorosa de Maria Helena Rouanet.

O cenário de romance premiado é Gilead, a pequena cidadezinha rural de Iowa, que empresta o nome ao livro, onde o anoso reverendo John Ames é ministro religioso. Na busca do passado, fica-se conhecendo um rincão ignoto marcado pelo protestantismo conservador do Meio Oeste estadunidense, onde o pastor não é apenas o líder religioso, mas a ‘consciência crítica’ do rebanho. Aqui. deve-se referir a um dos objetos de estudos da professora Marilynne Robinson: o protestantismo rural nos Estados Unidos nos Séculos 18 e 19. Isso traz outro sabor ao romance.

Ames presente à morte, diagnosticada por uma angina que pode parar sua vida a qualquer momento. Contemplando o filho de sete anos, decide, então, escrever-lhe uma longa carta, narrando o passado ligado ao seu devotado ministério eclesiástico que desenvolve e também acerca do mesmo ofício pastoral desempenhado pelo seu pai e pelo seu avô, os dois chamados também John Ames. A história começa na virada do século 19 para o 20, com incursões anteriores a disputas entre escravagistas e anti-escravagistas, na Guerra da Secessão, num ambiente onde a religiosidade compete com uma vida mundana, que vive o impasse entre obedecer ou não aos pastores.

As reminiscências têm início quando o reverendo Ames, em 1892, faz com o filho uma longa peregrinação no meio rural na busca do túmulo de seu avô. Isso dá azo para longas narrativas de como era seu ancestral e suas conflituosas relações com a igreja e as dificuldades que sua vida mundana impõe ao exercício do ministério pastoral, enquanto capelão do exército. A vida de seu pai – um pacifista ardoroso – é trazida para exemplificação do destinatário da carta.

Nas evocações há momentos de intensa ternura, como aquele em que Ames, já com mais de sessenta anos, em uma pregação dominical se encanta por uma jovem fiel, no fundo da igreja. Durante o sermão, ele se envolve numa relação que vai torná-la sua esposa e mãe do filho, de quem agora vive o drama de talvez uma breve separação.

Há alguns outros personagens que dão excelentes temperos à obra: um é o irmão de John, que retorna após estudar na Alemanha e volta imbuído das teses de Feuerbach, expondo ao seu irmão pastor suas convicções agnósticas; os duelos religiosos entre os dois irmãos apimentam gostosamente o livro e são tornados especialmente densos pelos conhecimentos do calvinismo da autora. Há Jack, afilhado do pastor e batizado com seu nome, um jovem desgarrado que o padrinho busca converter.

Na continuada escrita de seus milhares de sermões, John Ames sente saudades antecipadas da mulher e do filho que vai deixar e localiza entre seus paroquianos, durante o sermão, aquele ou aqueles que provavelmente lhe vão tomar o lugar, aproximando-se de sua mulher e do seu filho depois que ele morrer. Isso o faz endereçar para eles suas prédicas. Pode-se facilmente imaginar a angustia que se apossa do pastor.

Acerca desse romance se escreveu com muita objetividade: "Marilynne Robinson não está interessada em fazer com que sua narrativa seja palatável, de fácil degustação: o tom do romance é grave, reflexivo e em momento algum busca emoções rasteiras. Tanto que, para degustá-la, o leitor tem de sorver, palavra a palavra, e sem pressa, a beleza serena que verte das páginas, sem querer devorá-las. É preciso deixar-se conduzir pelo tom confessional e introspectivo adotado pelo protagonista ao falar de sua vida como quem tenta nela encontrar um sentido, diante da perspectiva do inevitável fim". O livro é declaração de amor incondicional a vida e uma lamento por sua brevidade.

ROBINSON, Marilyne. Gilead. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. 

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