sexta-feira, 9 de junho de 2017

TEONTOLOGIA - A SANTIDADE DE DEUS [Aula 03]



Do ponto de vista da relação, a primeira coisa que tem de ser considerada sobre Deus é sua soberania. Mas, esse primeiro atributo está ligado com um segundo. Na verdade, ambos estão tão próximos que poderíamos até mesmo perguntar se o segundo não deveria ter vindo primeiro: Deus é Aquele que é Santo.[1]

Essas palavras do notável teólogo suíço Emil Brunner refletem a importância da santidade de Deus. A própria Bíblia com diligência confirma a visão de Brunner, já que nela Deus é inúmeras vezes chamado de Santo. Este é o epíteto mais freqüente relacionado ao Seu nome. Também lemos que só o Senhor é Santo.

“Quem te não temerá, ó Senhor, e não magnificará o teu nome? Porque só tu és santo; por isso, todas as nações virão e se prostrarão diante de ti, porque os teus juízos são manifestos.” – Apocalipse 15.4.

Em Êxodo 15.11 está escrito que Deus é glorioso em santidade:

“Ó SENHOR, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu, glorificado em santidade, terrível em louvores, operando maravilhas?”

A santidade de Deus é celebrada sem cessar pelos serafins diante de Seu trono. Isaías os ouviu cantar:

“E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.” - Isaías 6.3

O apóstolo João ouviu os quatro seres no meio e ao redor do trono do Senhor dizerem: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-poderoso, que era, e que é, e que há de vir (Ap 4.8).

O povo de Deus também é chamado a conclamar louvores a Ele: Cantai ao SENHOR, vós que sois seus santos, e celebrai a memória da sua santidade (SL 30.4). Por causa disso, a Igreja ora: santificado seja o teu nome (Mt 6.9c).


1. SEPARADO

Declarar que a santidade é um atributo importante não é afirmar que o entendemos. De todos os atributos de Deus, esse é o mais mal interpretado. Pensar nele com base em concepções humanas é um equívoco. Imaginamos que a santidade ou retidão é algo que possa ser graduado para mais ou para menos. Por exemplo, quando olhamos ao nosso redor, vemos homens que se encontram num nível muito baixo nessa escala: criminosos, pervertidos, entre outros.

Se adotássemos uma pontuação para classificar o grau de retidão, e o seu máximo fosse 100, poderíamos concluir que tais pessoas merecem menos que 10. Acima delas se enquadram os indivíduos medianos de nossa sociedade, pontuados entre 30 e 40. Depois estão as pessoas muito boas, os juízes, filantropos e outros humanitários; podemos imaginar que seriam avaliados entre 60 e 70. Logo, se considerarmos 100 pontos ou mais, chegamos à bondade de Deus.

Muitas pessoas concebem algo assim quando pensam sobre a santidade de Deus. Para elas, trata-se apenas de um aperfeiçoamento da boa índole do ser humano. Todavia, de acordo com a Bíblia, a santidade divina não pode ser colocada na mesma categoria que a benignidade do homem.

Constatamos a veracidade do conceito bíblico quando estudamos um texto como Romanos 10.3, no qual o apóstolo Paulo escreveu sobre dois tipos de justiça. Ele declarou sobre Israel: Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitam à justiça de Deus.

Esse versículo distingue com clareza a justiça de Deus da nossa justiça. Assim, mesmo que pudéssemos reunir toda a justiça que os homens são capazes de exercer, ela sequer se aproximaria da justiça divina, que se enquadra em uma categoria diferente.

O que queremos mostrar sobre a santidade de Deus? Para responder a essa questão, não devemos começar pela ética. Ela está envolvida, como veremos. Contudo, em seu sentido original, santo não é um conceito ético. Na verdade, é um atributo que define a própria natureza de Deus e o que o distingue de tudo o mais. É o que separa Deus de Sua criação. Tem a ver com sua transcendência.

O significado fundamental da palavra santo é preservado no significado da palavra santificar, que é idêntica a ela. Todavia, o sentido do radical de santo e santificar é o mesmo.

De acordo com o conceito bíblico, um santo não é uma pessoa que atingiu certo nível de bondade, porém alguém separado por Deus. Santos são os chamados que compõem a Igreja. A mesma idéia está presente quando, em Êxodo 40, a Bíblia se refere à santificação dos objetos.

Nesse capítulo de Êxodo, Moisés é instruído a santificar o altar e a pia no meio do tabernáculo. O capítulo não menciona nenhuma mudança na natureza das pedras, elas não se tornam justas. Apenas indica que os objetos deveriam ser separados para um uso especial. De forma semelhante, Jesus orou declarando: E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade (Jo 17.19).

O versículo de João não quer mostrar que Jesus se fez mais justo, pois Ele já o era, mas Ele se separou para uma tarefa especial: trazer a salvação à humanidade por sua morte.

A santidade é a característica de Deus que o distingue das coisas e seres criados. Sendo assim, ela engloba pelo menos quatro elementos.
O primeiro é majestade. Majestade implica honra, dignidade, autoridade e poder soberano, bem como imponência ou grandiosidade. É a característica própria aos monarcas e, é claro, é o atributo supremo daquele que é monarca sobre todos. A majestade é o elemento dominante nas visões de Deus em Sua glória, vistas tanto no Antigo Testamento como no Novo. O elemento da majestade liga a ideia da santidade à soberania.

Um segundo elemento na idéia de santidade é a vontade soberana, o que implica personalidade. Sem isso, a idéia de santidade se torna abstrata, impessoal, é estática, em vez de concreta, pessoal e ativa.

Além disso, se perguntamos em que a vontade de Deus predomina, a resposta é que ela está estabelecida em proclamar Ele mesmo como o totalmente Outro,[2] cuja glória não deve de forma alguma ser diminuída por causa da arrogância e da rebelião deliberada do homem. No elemento da vontade a idéia de santidade se aproxima bem do ciúme de Deus, que o homem moderno acha tão repugnante.

“Eu, o SENHOR, teu Deus, sou Deus zeloso.” (Exodo 20.5)[3]

Bem entendida, a idéia de ciúme é central em qualquer conceito verdadeiro sobre Deus. É como Brunner ressaltou na analogia ao ciúme apropriado dentro do casamento. Uma pessoa casada não deve permitir que uma terceira pessoa entre em seu relacionamento íntimo. De forma semelhante, Deus rejeita qualquer ataque a Seus direitos exclusivos como Senhor da criação.

A santidade de Deus é, portanto, não apenas uma diferença absoluta de natureza, porém é uma autodiferenciação ativa, a energia volitiva com a qual Deus assevera e sustenta o fato de que Ele é o Totalmente Outro contra tudo o mais. A incondicionalidade dessa diferença se torna sem restrições de Sua santa vontade, que é suprema e única.[4]

Em termos mais simples, a santidade de Deus significa que Deus não é indiferente como o homem o considera. Ele não segue um caminho solitário sem prestar atenção à rejeição das pessoas a Ele. Em vez disso, o Senhor delibera e age para que Sua glória seja reconhecida. O reconhecimento vem na hora, em cada caso individual, ou se realizará para cada um no dia do julgamento de Deus.

Um terceiro elemento na idéia de santidade é a ira, que é uma parte essencial da santidade de Deus, porém não devemos compará-la a uma reação emocional, uma reação que em geral consideramos como raiva.  A ira de Deus não é de jeito nenhum igual a qualquer emoção que conhecemos na experiência humana.

Ela é, na verdade, um exemplo necessário e apropriado do Deus santo a tudo que se opõe a Ele. Significa que o Senhor leva a sério a questão de ser Deus, tão a sério que Ele não permitirá que qualquer coisa ou pessoa almeje Seu lugar.

Quando Satanás buscou isso, foi julgado e será julgado ainda. Quando o homem se recusa a ocupar o lugar de Deus designou para ele, ele também será julgado.

Um elemento final na idéia de santidade é um que mencionamos antes: justiça. A justiça está envolvida na santidade não porque é melhor categoria pela qual a santidade pode ser compreendida, porque, ao falar sobre a vontade de Deus, de imediato começamos a ver que o que Deus requer é justiça e santidade em seu sentido ético.

Em outras palavras, quando perguntamos o que é certo, o que é moral, respondemos à questão não apelando para algum padrão moral independente, como se pudesse haver um padrão para qualquer coisa separado de Deus, e sim apelando para a vontade e natureza do próprio Deus. O certo é o que Deus é e revela para nós.

A natureza de Deus é um fundamento essencial para qualquer moralidade verdadeira e que perdura. Como conseqüência, onde Deus não é reconhecido, não importa o quanto se fale sobre a moralidade, pois ela declina, como tem sido na civilização ocidental contemporânea. É o desejo de obedecer a Deus que em última instância torna o comportamento ético possível.


2. O TABERNÁCULO

Temos uma dramatização da santidade de Deus nas leis dadas na construção do tabernáculo judeu. Sob um aspecto, o tabernáculo foi construído para ensinar a iminência de Deus, a verdade de que Deus está sempre presente com Seu povo. No entanto, por outro lado, ele também ensinou que Deus é separado de Seu povo por causa de Sua santidade e dos pecados do povo, e só pode ser abordado da maneira como Ele determina.

Não devemos pensar que o povo judeu tinha uma maior compreensão da vontade de Deus do que nós, pois não tinha. Era necessário para Deus ensiná-lo sobre isso. O ponto principal do tabernáculo era que um homem pecador não poderia entrar sem pedir licença Àquele que é Santo.

Entendia-se que Deus simbolicamente habitava na câmara mais interior do tabernáculo, conhecida como o Santo dos Santos. As pessoas não podiam entrar lá. Um grego poderia entrar em qualquer um dos templos da Grécia e rezar diante de um deus ou deusa pagãos. Um romano poderia entrar em qualquer um dos templos de Roma. No entanto, um judeu não poderia entrar no Santo dos Santos.

Na verdade, só uma pessoa poderia entrar; essa pessoa era o sumo sacerdote de Israel; e mesmo ele só podia entrar uma vez por ano e apenas após ter feito sacrifícios por ele mesmo e pelas pessoas no pátio exterior. O Santo dos Santos, a câmara mais interior do tabernáculo, era separado do Lugar Santo, a câmara exterior do tabernáculo, por um espesso véu.

Aquilo não era tudo. Assim como havia um véu entre o Santo dos Santos e o Lugar Santo, que dividia aquelas duas câmaras dentro do tabernáculo, havia também outro véu espesso separando o Lugar Santo do pátio anterior. E também havia um terceiro véu fechando a entrada do pátio do circundante arraial dos israelitas.

O significado da palavra véu é separar, e posterior esconder. Assim, o significado dos véus foi que Deus, embora tivesse escolhido habitar com Seu povo, estava, não obstante, separado ou escondido dele por causa de Sua santidade e do pecado do povo.

A comunhão com Deus só acontecia dentro do Santo dos Santos.

No entanto, a fim de entrar, três cortinas deveriam ser atravessadas, cada uma contribuindo com o enorme abismo que existia entre Deus e a humanidade: primeiro, a cortina entre o arraial e o pátio; segundo, a que cobria a entrada do Lugar Santo; terceiro, a cortina separando o Lugar Santo da câmara mais interior.

Da mesma forma, a fim de entrar no Santo dos Santos, o sumo sacerdote tinha de rezar um sacrifício no altar de bronze do pátio, lavar-se na pia do pátio, e então passar pelo Lugar Santo à luz do castiçal de ouro de sete braços e por meio do incenso que estava sempre queimando sobre um altar dentro daquela sala.

O que aconteceria se um homem ignorasse essas barreiras? A resposta é que ele seria de imediato consumido, como alguns que entraram lá. A ira de Deus se inflamaria contra aquele pecado que tencionava daquela forma invadir ou comprometer Sua santidade. Ao reconhecer a santidade de Deus, começamos a entender um pouco do pecado humano e da necessidade da morte propiciatória de Cristo na cruz.


3. ATRAÇÃO E TERROR

A santidade de Deus é outro atributo que o faz indesejável e até mesmo ameaçador para muitos. Já ressaltamos que os homens não gostam da soberania de Deus porque ela lhes parece uma ameaça ao seu desejo por autonomia. Eles não gostam de um Deus soberano e agradável. Reações negativas são ainda mais aparentes em relação à santidade divina.

Aqui somos assistidos com profundidade por uma cuidadosa análise de idéia de sagrado pelo teólogo alemão Rudolf Otto. Ele escreveu um livro que em alemão se chama Das Heilige, e, em inglês, The Idea of the Holy [A idéia do sagrado], no qual busca entender a natureza específica, não racional ou super-racional da experiência religiosa a partir de uma perspectiva fenomenológica. Otto chama o elemento super-racional de o numinoso[5] ou o sagrado.

Há muita diferença entre o numinoso ou sagrado como conceito abstrato nas religiões não cristãs e o sagrado como pessoal dentro do judaísmo e do cristianismo. Todavia, quanto a isso, a análise ajuda muito, pois mostra que os homens acham o Deus verdadeiro ameaçador.

Em sua análise, o autor distingue três elementos no sagrado. O primeiro é ser tremendo, pelo que queremos afirmar aquilo que faz tremer em profundidade. Usamos a palavra tremendo para significar muito ruim ou terrível, essa é uma idéia diferente. O elemento tremendo do sagrado é que é tão estarrecedor que produz medo ou tremor no adorador. O segundo elemento é a majestade.

O poder supremo e majestoso inevitavelmente engendra uma sensação de impotência e de total debilidade no adorador. O elemento final é a energia, pela qual Rudolf Otto fala do elemento dinâmico presente no encontro.

O ponto é que a experiência de confrontar o sagrado é suprema e ameaçadora. O adorador é atraído pelo sagrado, todavia ao mesmo tempo é aterrorizado por ele. A energia admirável e dominadora do sagrado ameaça destruí-lo.

Devemos também observar que encontramos o mesmo fenômeno na Bíblia, embora a Escritura o explique, já que não cristãos não o fazem. O relato de Jó é um exemplo. Jó havia sofrido a perda de suas posses, família e saúde.

Quando seus amigos foram convencê-lo de que sua perda era por causa de algum pecado, admitido ou escondido, Jó, resoluto, defendia-se das acusações deles. Jó estava certo ao fazê-lo, pois estava sofrendo sendo um homem justo.

Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem sincero, e reto, e temente a Deus, e desviando-se do mal. (Jó 1.8)

É óbvio, se alguém pudesse ter ficado diante da santidade de Deus, esse seria Jó. Chegando ao final do livro, após Deus ter colocado para Jó uma série de questões e declarações planejadas para ensinar um pouco da Sua verdadeira majestade àquele servo sofredor, Jó ficou quase sem fala e em situação de colapso. Ele respondeu Deus:

“Eis que sou vil; que te responderia eu? A minha mão ponho na minha boca. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza.” (Jó 40.4; 42.6)

Vemos o mesmo fenômeno em Isaías, que recebeu uma visão do Senhor assentado sobre um alto e sublime trono. Ele ouviu o louvor dos serafins. No entanto, o efeito da visão sobre Isaías, longe de ser uma causa de autossatisfação ou orgulho de que tal visão tivesse sido concedida a ele, na verdade foi devastador. Ele respondeu:

“Ai de mim, que vou perecendo! Porque eu sou um homem de lábios impuros lábios; e os meus olhos viram o rei, o SENHOR dos Exércitos!” (Isaías 6.5)

Isaías se viu como arruinando ou inacabado. Só quando uma brasa viva foi tirada do altar e usada para purificar seus lábios ele foi capaz de colocar-se de pé de novo e responder de forma afirmativa ao chamado para o serviço de Deus.

Habacuque também teve uma visão de Deus. Ele havia ficado angustiado com a impiedade do mundo ao seu redor e perguntara a si mesmo como o ímpio poderia de certo triunfar sobre a pessoa que era mais justa. O profeta então entrou em sua torre de vigia e esperou pela resposta de Deus. Quando Deus respondeu, Habacuque foi dominado pelo medo.

“Ouvindo-o eu, o meu ventre se comoveu, à sua voz tremeram os meus lábios; entrou a podridão nos meus ossos, e estremeci dentro de mim.” (Habacuque 3.16)

Habacuque era um profeta. No entanto, mesmo assim, um confronto com Deus era estarrecedor.

De forma semelhante, embora a glória de Deus estivesse velada na pessoa de Jesus Cristo, de vez em quando aqueles que eram Seus discípulos percebiam de maneira sutil quem Ele era, e tinham reações semelhantes.

Assim, após Pedro ter reconhecido a glória de Deus no milagre de Cristo ao conceder uma grande pesca na Galileia, Pedro respondeu: Senhor ausenta-te de mim, por que sou um homem pecador (Lc 5.8c).

Quando o apóstolo João recebeu a revelação da glória de Cristo, vendo o Senhor ressurreto de pé em meio aos sete castiçais de ouro, ele caiu aos pés dele como morto e levantou- se apenas depois que o Senhor o tocara e lhe dera a comissão de escrever o livro de Apocalipse. João só pôde ficar diante do Senhor após ter experimentado algo como uma ressurreição.

É isso que significa estar face a face com o sagrado. Não é uma experiência agradável. É profunda e ameaçadora, pois o sagrado não pode coexistir no mesmo espaço com o que não é santo. Deus deve destruir o que não é santo ou purificar o pecado.

Além disso, se é verdade para aqueles que Deus escolheu para serem profetas e que Ele até mesmo chama de justos, como seria para aqueles que antagonizam com Deus? Para eles, a experiência seria esmagadora.

Como resultado eles resistem, tentam fazer pouco ou fugir de Deus.

Tozer escreveu: “O choque moral sofrido por nós por meio do forte rompimento com o desejo superior do céu nos deixou com um trauma permanente que afeta todas as partes de nossa natureza.” [6]

Ele está certo. Como conseqüência, os homens não irão a Deus, e aquilo que deveria ser a sua grande alegria é detestável para eles.

4. UM POVO SANTO

Então o que faremos, nós que somos pecadores e que ainda assim somos confrontados pelo Deus santo? Vamos continuar nosso caminho? Fazer o melhor que pudermos? Virar as costas ao Sagrado? Se não fosse pelo fato de que Deus escolheu fazer alguma coisa por nossa difícil situação, seria tudo o que poderíamos fazer.

A glória do cristianismo é a mensagem de que o santo Deus fez o que precisava ser feito para nos salvar. Ele preparou para nós um caminho de acesso - o Senhor Jesus Cristo - à Sua presença. Como resultado, o que não é santo é santificado e recebe permissão para habitar com o Eterno.

Aqui podemos voltar à ilustração proporcionada pelo tabernáculo no deserto. O tabernáculo foi planejado para ensinar sobre o grande abismo que existia entre o homem em sua santidade e a humanidade em seu pecado.

Todavia, também ensinava o caminho por meio do qual o abismo poderia ser atravessado. Nos tempos do Antigo Testamento esse caminho era simbólico. Era pelo sacrifício de animais que o pecado das pessoas era transferido para a vítima inocente, que então morria no local de adoração. Por isso se exigia do sumo sacerdote que realizasse primeiro um sacrifício por si mesmo e depois pelo povo, antes que ele pudesse entrar no Santo dos Santos no Dia da Expiação.

Embora o simbolismo fosse importante e vívido, não era a morte dos animais, não importa quantos, que purificava dos pecados. A verdadeira e única expiação estava para ser providenciada pelo Senhor Jesus Cristo, como o verdadeiro Cordeiro de Deus, morto no lugar de pecadores.

Além disso, não foram apenas os sacrifícios que prefiguraram sua obra. Estava em cada parte do tabernáculo, o altar, a pia, o castiçal, o incenso, o pão da proposição dentro do Lugar Santo e tudo mais.

Em outras palavras, Jesus Cristo é aquele pelo qual somos lavados do pecado; Ele é a luz do mundo, o pão da vida; Ele é à base da adoração por meio da oração, assim como o nosso sacrifício suficiente e definitivo.

E Cristo é verdadeiro e suficiente. No momento em que Ele levou sobre si nosso pecado e foi separado da presença do Pai em nosso lugar, o próprio Deus rasgou o véu do templo em dois, de cima a baixo, assim indicando que o caminho para Sua presença, para o Santo dos Santos, estava agora aberto a todos que iriam a Ele pela fé em Cristo, como Ele exige.

Nunca seremos santos no sentido do Totalmente Outro, como Ele é. Mas somos primeiro separados para Ele por Jesus Cristo, como Seus santos, e depois santificados de maneira prática e cada vez maior à medida que a natureza dele transforma nosso ser.

Haverá várias conseqüências para aqueles que chegam ao conhecimento do sagrado. Primeiro, aprenderão a odiar o pecado. Não odiamos o pecado com naturalidade. De fato, o contrário é verdade. Em geral amamos o pecado e relutamos em abandoná-lo. No entanto, precisamos aprender a odiar o pecado, senão aprenderemos a odiar Deus, que exige uma vida santa daqueles que são seguidores de Cristo.

Vemos uma grande tensão durante a vida do Senhor Jesus Cristo. Alguns viram a santidade dele, vieram a odiar o pecado e tornaram-se Seus seguidores. Outros o viram, vieram a odiá-lo e, por fim, crucificaram-no.

Segundo, aqueles que chegaram ao conhecimento do Santo pela fé em Jesus Cristo aprenderão a amar a justiça e a lutar por ela. Tais pessoas com freqüência precisam de exortação.

O apóstolo Pedro escreveu a estas em sua época mostrando o seguinte: “Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver, porquanto escrito está: Sede santos, porque eu sou santo.” (1 Pedro 1.15,16)

O versículo não declara: “Sejam santos como eu sou santo”. Nenhum de nós poderia fazer isso. Não podemos ser santos no mesmo sentido em que Deus o é. Todavia, podemos ser santos no sentido de uma caminhada justa e reta diante dele.
           
Terceiro, precisamos aguardar pelo dia em que Deus será plenamente conhecido em Sua santidade pelos homens, e podemos regozijar-nos em antecipação àquele dia. Se não tivéssemos conhecido Deus pela fé em Cristo, aquele dia seria terrível. Significaria a exposição do nosso pecado e nosso julgamento.

Ao chegar, significará na verdade a finalização de nossa salvação para que possamos ser feitos como Jesus. Seremos como Ele, em santidade e em todas as outras formas: seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos (1 Jó 3.2d).

__________________________________________
Fundamentos da Fé Cristã: Uma Manual de teologia ao alcance de todos. James Montgomery Boice. São Paulo: Central Gospel, 2011, p. 110-117.


[1] BRUNNER, Emil. The Christian Doctrine of God: Dogmatics [ A doutrina cristã de Deus: teologia dogmatic]. Vol 1. Philadelphia: Westminster, 1950
[2] De acordo com Karl Barth, o homem nada pode saber e dizer a respeito de Deus por si mesmo. A pessoa que pretende falar de Deus a partir de seus sentimentos e seu raciocínio esta na verdade falando de um ídolo. O verdadeiro Deus é totalmente Outro em relação ao ser humano, em tudo o que Ele pensa, deseja, elabora e compreende. (Fonte: HTTP://wikipedia.org/wiki/Teologia_de_Karl_Barth)
[3] A maioria das traduções da Bíblia em português emprega a palavra zelo no lugar da palavra ciúme, que é a tradução literal de jealous.
[4] BRUNNER, Emil. The Christian Doctrine of God: Dogmatics [ A doutrina cristã de Deus: teologia dogmatic]. Vol 1. Philadelphia: Westminster, 1950
[5] Rudolf Otto trabalha em seu livro o sagrado em direção ao aspecto não racional, sem deixar de lado os aspectos do racional, já que sua intenção é fazer uma interação entre o não racional e o racional. Para identificar o sagrado no seu aspecto não racional, ele cunha a palavra numinoso. (In: OTTO, Rudolf. O Sagrado: um estudo do Elemento não racional na idéia do divino e a sua relação com o racional. Trad. Procóro Velasquez Filho. São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista, 1985).
[6] TOZER, A. W. The Knowledge of the Holy (O Conhecimento do Sagrado). New York: Harper & Row, 1961.

Nenhum comentário: