sábado, 6 de maio de 2017

INTRODUÇÃO BÍBLICA - ANTIGO TESTAMENTO - AULA 02 [Centro de Estudos da Reforma]



O ANTIGO TESTAMENTO


Sob o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se agora todos os livros do Velho e do Novo Testamento, todos dados por inspiração divina para serem a regra de fé e de prática, os quais são: 

O Velho Testamento - Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis, 2 Reis, I Crônicas, 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, ló, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares, Isaías, lerem ias, Lamentações, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, lonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias. 

O Novo Testamento: Mateus, Marcos, Lucas, loão, Atos, Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, I Tessalonicenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito, Filemon, Hebreus, Tiago, 1 Pedro, 2 Pedro, 1 João, 2 loão, 3 João, Judas, Apocalipse.

Os livros geralmente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do Canon da Escritura; não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos humanos.[1]

O ensino desses parágrafos da Confissão de Fé de Westminster diz respeito especialmente ao cânon das Escrituras. Neles não são indicados os critérios empregados para o reconhecimento do cânon Bíblico. São apenas relacionados os sessenta e seis livros aceitos como canônicos, ou seja, como inspirados por Deus, que compõem a Bíblia protestante. Quanto aos livros apócrifos, que foram incluídos na Bíblia católico-romana, são explicitamente considerados não inspirados e, portanto, não autoritativos, não devendo ser entendidos senão como escritos humanos.

A palavra cânon é mera transliteração do termo grego Kavióv, que significa vara reta, régua, regra. Aplicado às Escrituras, o termo designa os livros que se conformam à regra da inspiração e autoridade divinas. Atanásio (séc. IV) parece ter sido o primeiro a usar a palavra nesse sentido.[2] São chamados de canônicos, portanto, os livros que foram inspirados por Deus, os quais compõem as Escrituras Sagradas - o cânon bíblico.[3]


2.1. O Cânon do Antigo Testamento

a) A Palavra Cânon – Quando falamos do Cânon das Escrituras, a palavra cânon tem um significado simples: é alista de livros contidos nas Escrituras, os livros reconhecidos como digno de serem incluídos entre os escritos sagrados de uma comunidade de adoradores. Num contexto cristão, poderíamos definir a palavra como “a lista dos escritos reconhecidos pela igreja como documentos de revelação divina”. Neste sentido, a apalavra parece ter usada pela primeira vez por Atanásio, bispo de Alexandria, numa carta que circulou em 367 d.C. [4]

A palavra “cânon” entrou em nossa língua (via latim) vinda da palavra grega kanwn (kanon). Em grego, isso significa uma vara, especialmente uma vara reta, usada como régua. Desse uso veio o outro sentido que a palavra normalmente tem em português – regra ou padrão. Antes de vir a ser usada no sentido de “lista”, a palavra cânon foi empregado em outro sentido pela igreja – na expressão “a regra de fé” ou a “regra da verdade”. Em uma perspectiva teológica, a Confissão de Fé de Westminster depois de alistar os 66 livros do Antigo e do Novo Testamento, acrescenta: “Todos os quais foram dados por inspiração de Deus, para serem a regra de fé e vida”. [5]

b) A Coleção de livros do Antigo Testamento - A coleção mais antiga das palavras de Deus eram os Dez Mandamentos. Os Dez Mandamentos, portanto, constituem o início do cânon bíblico. O próprio Deus escreveu sobre duas tábuas de pedra as palavras que ele ordenou ao seu povo: “E, tendo acabado de falar com ele no monte Sinai, deu a Moisés as duas tábuas do Testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus.” (Êx 31:18). Em seguida, lemos: "As tábuas eram obra de Deus; também a escritura era a mesma escritura de Deus, esculpida nas tábuas." (Ex 32:16 cf. Deuteronômio 4:13, 10:4). As tábuas foram depositadas na arca da aliança (Dt 10.5) e constituíam os termos do pacto entre Deus e o seu povo. [6]

Esta coleção de palavras de Deus, dotadas de autoridade absoluta, aumentou ao longo da história de Israel. O próprio Moisés acrescentou palavras para que fossem depositadas ao lado da arca da aliança (Dt 31:24-26). A referência imediata aparentemente é ao livro de Deuteronômio, mas outras referências ao trabalho da escrita de Moisés indicam que os quatro primeiros livros do Antigo Testamento também foram escritos por ele (ver Ex 17:14; 24:4, 34:27; Nm 33:2; Dt 31:22). Após a morte de Moisés, Josué também ampliou à coleção das palavras escritas de Deus: "Josué escreveu estas palavras no Livro da Lei de Deus" (Josué 24:26). 

Mais tarde, outros em Israel, em geral aqueles que exerciam o ofício de profeta, acrescentaram palavras da parte de Deus, I Sm 10.25; 1 Cr 29:29-30; 2 Cr 20:34, cf. 1 Reis 16:7; 2 Cr 26:22, 32:32; Jr 30:3). [7]

O conteúdo do cânon do Antigo Testamento continuou aumentando até o fim do processo de escrita. Se datarmos Ageu de 520 a.C., Zacarias de 520-518 a.C. (Talvez com material acrescentado depois de 480 aC.) e Malaquias por volta de 435 a.C., teremos ideia das datas aproximadas dos últimos profetas do Antigo Testamento. Coincidindo grosso modo com esse período estão os últimos livros da história do Antigo Testamento – Esdras, Neemias e Ester. 

A história do povo judeu foi registrada em outros escritos, tais como os livros de Macabeus, mas eles não foram considerados dignos de inclusão das palavras de Deus que vinham dos anos anteriores. Contudo, com respeito ao cânon do Antigo Testamento os cristãos hoje não devem ter nenhum receio de que algo necessário tenha sido deixado de lado ou que alguma coisa que não é a Palavra de Deus tenha sido incluída. [8]

2.2. A Língua do Velho Testamento [9]

Com poucas exceções, o Velho Testamento foi escrito na língua hebraica. Esta era a língua do povo de Israel e é chamada “a língua judaica” (II Reis 18.26). Esta língua continuou a ser falada e escrita pelos hebreus ate o cativeiro, quando adotaram a aramaica ou siríaca, a qual e um dialeto da hebraica. Devido a esta mudança de língua, os versados na língua hebraica podem descobrir três períodos em que se divide a historia do desenvolvimento dela. Cada período e distinguido pelo seu estilo e idioma.O período em que foi escrito o Pentateuco, e o da língua hebraica falada no tempo de Moisés. O período em que a língua alcançou o ponto do seu maior desenvolvimento em pureza e refinamento. Neste foram escritos os livros de Juízes, Samuel, Reis, Crônicas, Salmos de Davi, Provérbios e os demais livros de Salomão e as profecias de Isaias, Oséias, Joel, Amos, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum e Habacuque. [10]

O período em que foram escritos os demais livros de profecias, assim como os de Ester, Esdras e Neemias. Durante esta época, palavras, frases e idiossincrasia de línguas estrangeiras tinham sido incorporados a hebraica da segunda época, em conseqüência da comunicação dos judeus com as nações vizinhas. 

As passagens do Velho Testamento que não são escritas em hebraico são as seguintes: Esdras 4.8 a 6.18 e 7.12-26, Jeremias 10.11 e Daniel 2.4 a 7.28. Estas são escritas no dialeto caldaico. Este fenômeno se explica pela residência de Daniel e Esdras na Babilônia e as suas relações com os governadores desses países.

Com 39 livros, foi originalmente escrito em hebraico, com algumas pequenas partes em aramaico. O aramaico foi a língua que Israel trouxe do cativeiro babilônico. Era a língua que se falava em toda a Mesopotâmia, e foi durante muitos anos a língua internacional do comercio. Era também conhecida com siríaco e caldaico e tinha praticamente a mesma estrutura do hebraico. Ha também na Bíblia, algumas palavras persas. [11]

2.3. As Divisões dos Livros do Antigo Testamento

O cânon protestante do Antigo Testamento (composto pelos trinta e nove livros relacionados abaixo) é exatamente igual ao cânon hebraico massorético. O cânon massorético é a Bíblia hebraica em sua forma definitiva, vocalizada e acentuada pelos massoretas. A classificação dos livros do Antigo Testamento como conhecemos, por assunto, não levando em conta a ordem cronológica dos livros, vem da Vulgata e Septuaginta. Calcula-se, por exemplo, que Jó seja o mais antigo dos livros da Bíblia.



2.4 – O Cânon Massorético

Embora o conteúdo do cânon protestante seja o mesmo do cânon hebraico, a divisão e a ordem dos livros são diferentes. Os livros da Bíblia hebraica são tradicionalmente 24 em números, dispostos em três divisões. Esses 24 livros são idênticos (em seu conteúdo) aos 39 livros do Antigo Testamento protestante. A diferença na contagem surge ao considerar separadamente os doze que compõem o Livro dos Doze e de dividir Samuel, Reis, Crônicas e Esdras-Neemias em dois livros cada. [12] Eis as divisões

Lei (Em hebraico Torah), que compreende os cinco primeiros livros da Bíblia: Genesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio.

Profetas (Em hebraico Nebiim), agrupados em: Profetas anteriores: Josué, Juízes, Samuel, Reis; Profetas posteriores: Isaias, Jeremias, Ezequiel e os Doze. Os Doze são aqueles comumente denominados Profetas Menores – não por serem menos importantes, mas porque os livros que trazem seus nomes são consideravelmente mais curtos que os dos Profetas maiores (Isaías, Jeremias, Ezequiel).

Escritos (Em hebraico Ketubim): Jó, Salmos, Provérbios, Rute, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Lamentações, Ester, Daniel, Esdras-Neemias, Crônicas. 

O titulo referido, Lei, Profetas e Escritos, aparece reduzido em ocasiões como a Lei e os Profetas ( Mt 5.17) ou, de modo mais singelo, a Lei (Jo 10.34).



2.5. O Cânon católico do Antigo Testamento

O cânon católico, composto pelos trinta e nove livros encontrados no cânon protestante, acrescido das adições a Daniel e Ester, e dos livros de Baruque, Carta de Jeremias, 1 e 2 Macabeus, Judite, Tobias, Eclesiástico e Sabedoria — 3 e 4 Esdras e a Oração de Manassés são acrescentadas depois do NT — origina‐se da Vulgata latina, que por sua vez provém da Septuaginta.

a) A Septuaginta - A primeira versão grega do Antigo Testamento e conhecida como "Septuaginta", termo que vem do latim e significa literalmente "septuagésimo", usado pela primeira vez por Eusébio de Cesaréia em Historia Eclesiástica. Agostinho de Hipona foi o primeiro a chamá-la de "Versão dos Setenta", em A Cidade de Deus. Hoje e conhecido também pelo nome de "Versão dos Setenta, Versão de Alexandria", e identificada pelos algarismos romanos "LXX". [13]

A Septuaginta é uma tradução dos livros judaicos para o grego feita, possivelmente, durante o reinado de Ptolomeu Filadelfo (285‐245 a.C.) ou até meados do século I a.C., para a biblioteca de Alexandria, no Egito. Foi um empreendimento cultural sem precedentes na historia da civilização ocidental, pois a revelação divina saia do confinamento judaico para se tornar universal, era o pensamento religioso semita a disposição do Ocidente numa língua indo-européia.

A LXX e conhecida como o Canon de Alexandria, cidade onde a tradução foi produzida, e difere do Canon Judaico na apresentação e no conteúdo. Contem todos os livros do Canon Judaico, mais os apócrifos e alguns pseudepigrafos. 

A ordem dos livros da LXX e também diferente; os do Pentateuco mantém a mesma seqüência. Depois disso, seguem os históricos, os poéticos ou sapienciais e, em seguida, os proféticos. A diferença e que os apócrifos aparecem intercalados com os livros canônicos e a ordem dos Profetas Menores diverge um pouco da do Canon Judaico, e, conseqüentemente, com o nosso Antigo Testamento. Alem disso, os Profetas Maiores aparecem depois dos Profetas Menores, encerrando, assim, o cânon com o livro do profeta Daniel.

Ha uma lista extensa desses livros apócrifos e pseudo epígrafos, classificados em: históricos, poéticos e sapienciais (alguns classificam como "didáticos") e apocalípticos. No total são 15 livros apócrifos na LXX, dos quais sete são atualmente os conhecidos apócrifos anexados as edições católicas da Bíblia. Jerônimo inseriu-os na Vulgata Latina como apêndice histórico e informativo e não como inspirados por Deus.[14]


b) Vulgata - Em 382 o papa Dâmaso chamou um padre, Eusébio Sofrônio Jerônimo, para fazer uma revisão dos evangelhos da Vetus Latina (tradução feita apartir do texto grego da Septuaginta, que, por sua vez, é a mais antiga e importante tradução da Bíblia Hebraica), produzindo assim um texto uniforme para ser usado nas igrejas. Foi assim que começou a nascer a tradução da Bíblia conhec­ida como Vulgata Latina.

A Vulgata foi produzida para ser mais exata e mais fácil de compreender do que suas predecessoras. Dos livros deuterocanônicos, que não constam na Bíblia Hebraica, traduziu apenas Tobias e Judite. A Vulgata tornou-se a tradução latina em uso da Igreja Latina.[15]

Seguido a Vulgata com a LXX (Septuaginta), o cânon católico incorporou os apócrifos após a Reforma. Quando a Vulgata os inseriu, distinguiu-os dos outros, que chamaram de canônicos. Ao Todo são doze livros ou enxertos: Contêm os livros de I Esdras, II Esdras, Tobias, Judite, Adição a Ester (do capítulo 10:4 ao capítulo 16), Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, adições a Daniel (chamada de apêndice, os capítulos 12 e 13, contendo a História de Suzana, História de Bel, Daniel Matando o Dragão, Daniel novamente no Lago dos Leões e o Rei dando Glória ao Senhor), Oração de Manassés, I Macabeus e II Macabeus. [16]

Após o Concílio Vaticano II a Vulgata passou por uma revisão chamada Neovulgata. A Bíblia da CNBB e os textos litúrgicos se baseiam nesta última revisão da Vulgata.

2.6. Livros Apócrifos

No grego clássico, a palavra apocrypha significava “oculto” ou “difícil de entender”. Posteriormente, tomou o sentido de “esotérico” ou algo que só os iniciados podem entender; não os de fora. Na época de Irineu e de Jerônimo (séculos III e IV), o termo apocrypha veio a ser aplicado aos livros não-canônicos do Antigo Testamento, mesmo aos que foram classificados previamente como pseudepigrafos.

Nem sempre a Igreja Católica Apostólica Romana aceitou os Apócrifos como inspirados. Isto significa dizer que enquanto os reformadores não declararam "sola Scriptura" não provocou a resposta da Igreja Católica Romana sobre o que ela considerava "Escritura Sagrada". Ulrico Zwinglio foi um dos primeiros a declarar formalmente o princípio da sola Scriptura em seu texto conhecido como as "67 Conclusões", considerada a primeira confissão doutrinária da Reforma. [17]

No Concílio de Trento (1545-1563) na 4ª sessão de 8 de Abril de 1546 no Decreto Concernente às Escrituras Canônicas lemos a decisão: “Mas se alguém não recebê-los [os apócrifos] como sagrados e canônicos os livros completos e em todas as suas partes, conforme têm sido usados para leitura na Igreja Católica, como se contém na velha edição Vulgata; e conhecendo-a, conscientemente condenar as tradições citadas, que seja anátema.” [18]

Esta decisão da Igreja Romana implicou que ao adotar a Vulgata Latina como texto padrão oficial, ela endossou todos os livros apócrifos que esta tradução continha. [19] Algumas informações: 

a) Artes mágicas e feitiçaria como método de exorcismo, Tobias 6.5-9
b) Esmolas como método de salvação, Tobias 12.8-9
c) Oração pelos mortos, 2ª Macabeus 12:43-46
d) Intercessão pelos mortos, Baruque 3.4
e) Purgatório, Sabedoria 3.1-4
f) Pré-existência das almas, Sabedoria 8.19-20

A respeito dos apócrifos, diz Norman Geisler: “Que os apócrifos, seja qual for o valor devocional ou eclesiástico que tiveram não são canônicos, comprova-se pelos seguintes fatos”: A comunidade judaica jamais os aceitou como canônicos. Não foram aceitos por Jesus, nem pelos autores do Novo Testamento.[20]

Desde cedo a Igreja Cristã rejeitou estas obras, pois não preenchiam o critério de canonicidade: não foram escritas pelos apóstolos ou por alguém ligado a eles, contradiziam a doutrina cristã, tinham exemplos e recomendações morais e éticas pouco recomendáveis, e seus autores falsamente atribuíram a autoria aos apóstolos, como por exemplo, o Evangelho de Tomé, de Pedro, de Bartolomeu, de Filipe. Além do mais, suas histórias fantásticas acerca de Cristo claramente revelavam seu caráter especulativo e supersticioso, ao contrário da sobriedade e da seriedade dos evangelhos bíblicos. Não é de admirar, portanto, que eles não aparecem em nenhuma das listas canônicas, onde os 4 evangelhos canônicos aparecem.

Aqui cabe-nos mencionar o testemunho de Eusébio em sua História Eclesiástica, ao falar do Evangelho de Pedro, Tomé e Matias:

"Nenhum desses livros tem sido considerado digno de menção em qualquer obra de membros de gerações sucessivas de homens da Igreja. A fraseologia deles difere daquela dos apóstolos; e opinião e a tendência de seu conteúdo são muito dissonantes da verdadeira ortodoxia e claramente mostram que são falsificações de heréticos. Por essa razão, esse grupo de escritos não deve ser considerado entre os livros classificados como não autênticos, mas deveriam ser totalmente rejeitados como obras ímpias". [21]


2.7. A VERACIDADE DO CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO PROTESTANTE

Jesus e os apóstolos não questionaram o cânon hebraico da época. Eles o citaram cerca de seiscentas vezes, de modo autoritativo, incluindo praticamente todos os livros do cânon hebraico. Entretanto, não citam nenhuma vez os livros apócrifos. Pode-se concluir, portanto, que Jesus e os apóstolos deram o seu imprimatur ao cânon hebraico e, conseqüentemente, ao cânon protestante.

a) A Aprovação de Cristo - Jesus cria no Antigo Testamento e ensinava as verdades que ali se encontram. Isso, por si, já é suficiente. Através do relato bíblico, fica claro que Cristo realmente cria e ensinava que o Antigo Testamento é a Palavra de Deus. 

A conversa de Cristo com os dois discípulos, na estrada para Emaús depois de sua ressurreição, é de importância fundamental. Leia Lucas 24.13-31. Nesse relato, percebemos claramente que aqueles indivíduos não haviam· acolhido plenamente o testemunho das mulheres, que afirmavam que Cristo havia ressuscitado. A eles Jesus disse: "Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!" (v. 25). E então passou a citar muitas passagens do Antigo Testamento, mostrando como as Escrituras traziam a previsão daqueles acontecimentos. O texto diz ainda: "E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras" (v. 27). Notemos como Cristo baseou seus argumentos no livro conhecido como "as Escrituras" e também como "Moisés e os Profetas". Este último é um designativo do Antigo Testamento comumente encontrado nos manuscritos do mar Morto e também no Novo Testamento. Esse termo ou "a Lei e os Profetas" aparece várias vezes no Novo Testamento, com pequenas variações. Jesus estava declarando que os discípulos deveriam ter crido naqueles escritos.

O texto de Lucas 16.29-31 apresenta esse ensinamento de maneira veemente. Na parábola sobre o homem rico e Lázaro, Jesus dá grande ênfase à necessidade de crermos na Palavra de Deus. O homem rico foi condenado ao tormento eterno, do qual não havia escapatória nem alívio. Lázaro, o mendigo, por sua vez, encontrava-se em um lugar de bênção eterna. O homem rico rogou que Abraão enviasse Lázaro de volta, para alertar seus cinco irmãos. Cristo cita a resposta do patriarca demonstrando sua óbvia aprovação: "Eles têm Moisés e os Profetas", isto é, o Antigo Testamento. O homem condenado ao tormento eterno implorou novamente que seus irmãos recebessem um testemunho especial e miraculoso. Abraão respondeu: "Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos" (v. 31.). "Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?" (Jo 5.46, 47). Nessa passagem, Cristo refere-se a Moisés como o autor dos primeiros cinco livros do Antigo Testamento - também chamados Pentateuco, e afirma que devemos crer nesses escritos. 

Atitude de Jesus com relação ao Antigo Testamento também é clara em muitas referências genéricas. 

Ele citou as Escrituras para expulsar Satanás (Mt 4.4, 7, 10). Deu início ao seu ministério em Cafarnaum, ao ler Isaías na sinagoga (Lc 4.16-19). Ele declarou à congregação reunida: "Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir" (Lc 4.21). Disse aos saduceus que estes erravam "não conhecendo as Escrituras" (Mt 22.29). 

Apelou para o Antigo Testamento com o intuito de justificar suas ações no sábado (Mt 12.5), sua atitude ao expulsar os cambistas do templo (Mt 21.13) e o fato de ter aceitado o louvor do povo em sua entrada triunfal em Jerusalém (Mt 21.16). Declarou que deveria sofrer, como estava previsto nas profecias (Lc 18.31-34). Afirmou também que a ação de Judas havia sido profetizada (Mt 14.21; Jo 13.18; 15.25). Jesus recusou-se até mesmo a recorrer à ajuda dos anjos, pois do contrário não "se cumpririam as Escrituras" (Mt 26.54). 

Suas atitudes como um todo demonstravam que ele era submisso à Palavra. Isso fica claro em um versículo notável: "Para que se cumpram as Escrituras" (Me 14.49). Logo, se Jesus aceitava o Antigo Testamento, quem somos nós para questioná-lo ou negá-lo? Os cristãos devem crer na Palavra de Deus e prestar-lhe obediência.

b) A Aprovação dos Apóstolos - Um exemplo magnífico está na segunda epístola de Paulo a Timóteo. Essa foi a última carta do apóstolo e contém muitas advertências sérias. Paulo incumbiu Timóteo de realizar uma tarefa solene: "Prega a palavra" (2 Tm 4.2). Para frisar essa ordem, ele relembra a Timóteo que "toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça" (2 Tm 3.16). O apóstolo fazia alusão ao Antigo Testamento como um todo, a respeito do qual Timóteo fora instruído por sua mãe, uma senhora judia.

A segunda epístola de Pedro é igualmente clara. Prevendo sua morte iminente (2 Pe 1.14), ele ansiava por deixar um legado valioso. Para manter seus amigos firmes na fé, o apóstolo lhes recomenda a revelação profética das Escrituras, que jamais "foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo" (2 Pe 1.21).

Os demais apóstolos citaram o Antigo Testamento da mesma maneira que Jesus. Ele declarou que foi Davi quem escreveu o texto de Salmos 110, inspirado pelo Espírito Santo (Me 12.36). Pedro afirmou que Davi era um profeta e, portanto, previu o advento de Cristo em Salmos 16 (At 2.30, 31). Paulo citou o texto de Isaías 6 e confirmou que o Espírito Santo falara através do profeta (At 28.25). O autor de Hebreus afirma o mesmo: "Havendo Deus [ ... ] falado [ ... ] pelos profetas" (Hb 1.1).

A prova é cabal e satisfatória. Cristo e os apóstolos, a quem ele ensinou, aceitavam o Antigo Testamento como a Palavra de Deus, verdadeira e confiável.

Cristo ensinou ainda que os 39 livros do Antigo Testamento, conhecidos como "a Lei e os Profetas", eram a Palavra de Deus revelada, verdadeira e inerrante em seus mínimos detalhes.

A essa doutrina, transmitida pelo próprio Jesus, chamamos inspiração verbal. E, a partir de sua autoridade, nós a aceitamos. Os primeiros cristãos também defendiam esse ensinamento, ao se referirem à Bíblia como infalível ou ao falar sobre a inspiração plenária (completa, total) das Escrituras. Esse conceito tem sido acatado pelos cristãos de todas as épocas. E o argumento que lhe serve como base é o melhor de todos: o testemunho do próprio Cristo.

A Bíblia e um livro singular, inspirado por Deus. Escribas, Sacerdotes, Reis, Profetas e Poetas, homens das mais diversas culturas a escreveram, num período aproximado de 1.500 anos. Foram mais de 40 pessoas a escreverem as paginas da Bíblia e notadamente vê a mão de Deus na sua unidade. Estes textos foram copiados e recopilados de geração para geração em diversos idiomas, tais como: Hebraico, Aramaico e grego; ate chegar a nos.

O estudo da Bibliologia auxilia grandemente a compreensão dos fatos bíblicos. Ela nos mostra, por exemplo, como a Bíblia chegou ate nos. Pela Bíblia Deus fala em linguagem humana, para que o homem possa entendê-lo. Por isso ela faz alusão a tudo que e terreno e humano. Ela menciona países, rios, mares, plantas, comercio, dinheiro, produtos, costumes, raças, usos, línguas, etc. 

O autor da Bíblia é Deus, mas os escritores foram homens. Na linguagem figurada de diversas partes da Bíblia o próprio Deus age e é descrito como homem. E comum, por exemplo, encontrarmos na Bíblia antropopatismos (Ato de atribuir sentimentos humanos a Deus. Ex.: A ira de Deus, Deus arrependeu-se, etc.) e antropomorfismos (Ato de atribuir formas humanas a Deus. Ex: Os olhos de Deus, a mão do Senhor, etc.). A Bíblia chega a esse ponto para que o homem melhor compreenda o que Deus quer lhe dizer.

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[1] HODGE, A. A. Confissão de Fé de Westminster Comentada, Cap. 1, seção II. São Paulo, SP: Os Puritanos, 1999, p. 55
[2] BENTZEN, A. Introdução ao Antigo Testamento, vol. 1. São Paulo: ASTE, 1968, p.29
[3] ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura – A doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo: Os Puritanos, 1998, p. 34
[4] BRUCE, F. F. O Cânon das Escrituras. São Paulo: Hagnos, 2011, p. 17.
[5] Ibid, p. 18
[6] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 28-29
[7] COMFORT, Philip Wesley. A Origem da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 1998, p. 86.
[8] GEISLER, Norman. Apócrifos, em Enciclopedia de Apologética. São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 932.
[9] ARNOLD, Bill T. Descobrindo o antigo testamento São Paulo. Editora: Cultura Cristã, 2001. p. 30.
[10] ARCHER Jr„ Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? São Paulo: Vida Nova, 1979, p.111
[11] SCHULTZ, Samuel J. A história de Israel no Antigo Testamento. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1984, p. 413.
[12] BRUCE, F. F. O cânon das escrituras. São Paulo: Hagnos, 2011, p. 29
[13] SOARES, Esequias. Septuaginta: Guia histórico e literário. São Paulo: Hagnos, 2009, p. 11.
[14] Ibid, p. 31-32
[15] GEISLER, Norman L & NIX, William E. Introdução Bíblica: Como a Bíblia chegou até nós. São Paulo: Editora Vida, 1997, p.220.
[16] RENDTORFF, R. A formação do Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1998, p. 91.
[17] MATOS, Alderi Souza de. A Caminhada Cristã na História: A Bíblia, a Igreja, a Sociedade ontem e hoje. Viçosa: Ultimato, 2005, p. 52.
[18] SELLIN, E. / FOHRER, G. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas 1978, p. 106
[19] Catecismo da Igreja Católica, Parte I, cap. II, art. 3. iv, (Editora Vozes), p. 43
[20] GEISLER, Norman L & NIX, William E. Introdução Bíblica: Como a Bíblia chegou até nós. São Paulo: Editora Vida, 1997, p.221.
[21] EUSÉBIO DE CESAREIA, História eclesiástica. São Paulo: Editora Novo Século, 2002, p. 92

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