segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

ZOOTOPIA - ESSA CIDADE É O BICHO [Resenha]


A Walt Disney Animation Studios é conhecida por desenvolver as suas histórias em cenários descolados da contemporaneidade, sejam eles futuristas (Operação Big Hero) ou retrógrados (Frozen – Uma Aventura Congelante), passando por universos mágicos (Detona Ralph) e fabulares (Enrolados). Zootopia: Essa Cidade é o Bicho representa a trama mais realista do estúdio até então. Embora seus personagens sejam animais, a premissa é desenvolvida de maneira verossímil, com elementos facilmente reconhecíveis pelo público.

Afinal, estamos em um contexto de grandes corporações, violência nas cidades, transporte público superlotado, abusos éticos da polícia. As pessoas se movem entre a casa e o trabalho, os moradores do campo migram para as metrópoles, a publicidade está em todos os lugares e os ícones da música pop se tornam formadores de opinião. Talvez os animais tenham sido a concessão necessária para tornar esta história, de fundo amargo, mais engraçada e palatável ao público infantil. Em outras palavras, os animais humanizados, vestindo roupas modernas, estão muito mais próximos dos seres humanos contemporâneos do que dos bichos selvagens.

Zootopia demonstra grande criatividade no desenvolvimento deste mundo animal. A trama se inicia quando predadores e presas já eliminaram seu “comportamento animalesco ancestral” para viverem em harmonia. Os diretores Rich Moore e Byron Howard se divertem com as diferentes proporções, imaginando lugares grandes demais para caberem girafas, ou pequenos demais para comportarem habitações de camundongos. As espécies funcionam como analogias claras à pluralidade étnica, de orientação sexual e de gênero existente nas grandes cidades. Mas ao invés de caminhar do caos à utopia, como na maioria das animações otimistas, essa faz o caminho inverso, iniciando pela paz absoluta até nascerem os conflitos.

Sem entregar spoilers, basta dizer que o conflito principal diz respeito ao retorno de alguns animais ao comportamento selvagem de antigamente. A bestialidade, a violência e a lei do mais forte são tratados como um passado aberrante que a civilização tratou de eliminar por meio de leis e da moral. É admirável que o duelo central do roteiro se dê entre determinismo biológico e dinamismo cultural, em outras palavras, entre o que se espera de uma pessoa por sua constituição física, e o que ela é capaz de fazer para além dos moldes da sociedade.

A coelha Judy é uma metáfora perfeita para o tema, sendo ao mesmo tempo mulher, de tamanho limitado e apaixonada pela profissão de policial, tipicamente masculina. Seus colegas, a maioria homens grandes e fortes, esperam que ela seja dócil, fraca e incapaz de executar o trabalho, e mesmo os pais amorosos reproduzem o preconceito de gerações anteriores, suplicando à filha que não trabalhe como policial para se poupar dos riscos da profissão. Os preconceitos vão de níveis sutis a ofensivos, e Judy enfrenta-os com um senso de determinação exemplar. Zootopia cita explicitamente as palavras “preconceito”, “biologia”, “cultura”. Em tempos de Jair Bolsonaros e Donald Trumps, o preconceito é combatido de maneira frontal e corajosa. Mesmo a canção tema, ao invés de pregar uma paz genérica, ensina os pequenos a “tentarem de tudo”, experimentarem o que quiserem, mesmo que falhem ou mudem de ideia mais tarde.

A narrativa torna-se ainda melhor porque Zootopia busca a reflexão ao invés da doutrinação. Muitas animações limitam-se a ditar às crianças o que devem fazer: “Preserve a natureza”, “Ame sua família”, “Seja gentil com os colegas”. Mas o roteiro deste filme explica porque as crianças não deveriam ser preconceituosas, mostrando passo a passo como nascem os preconceitos, passando pela cultura do medo e pelo fantasma da tradição, além do já citado “papel biológico” de cada pessoa na sociedade. Estas discussões são embaladas pelas regras do suspense policial, com direito a uma longa investigação, sombria e cheia de significados, que rompe com o aspecto frenético e episódico que tem pautado as histórias infantis. Zootopia respeita o seu público, apostando na capacidade de acompanhar um caso parcimonioso.

Tamanho aprofundamento poderia se tornar aborrecido, mas o filme mantém seu aspecto solar e colorido com ótimo bom humor. Apesar de alguns clichês dispensáveis (o preconceito do servidor público como sinônimo de lentidão), as piadas servem para parodiar nossa pós-modernidade marcada por tecnologia avançada e dificuldades de relacionamento. As piadas são muito divertidas, os personagens principais possuem um aprofundamento exemplar e as citações a Breaking Bad e O Poderoso Chefão devem agradar aos pais. Contribuindo ao acabamento do conjunto, a dublagem brasileira é impecavelmente construída.

É claro que alguns temas não ganham o aprofundamento que mereceriam, e que a solução de ordem médica, rumo à conclusão, não representa com exatidão a aversão às diferenças. Mas numa época de discursos reacionários, é louvável encontrar uma animação infantil que debata, por meio do humor, temas como o preconceito, o machismo, o racismo, a homofobia, o consumo de drogas e as tensões entre classes sociais, sem precisar embutir artificialmente uma história de amor romântico ou familiar. Através da metáfora do comportamento selvagem, a Disney conseguiu representar os perigos que assolam as sociedades intolerantes de hoje em dia.


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