sexta-feira, 22 de abril de 2016

ESTUDO Nº 01 - A SALVAÇÃO É PELA GRAÇA (Rm 3.1-31) - Estudos Bíblicos nas Cartas de Paulo


Qual é o fundamento da salvação do pecador? Seriam as obras por ele praticadas? Seria porventura algum mérito nele existente? O homem tem alguma participação em sua própria salvação? Se tem, qual é ela? Se não tem, como ele pode ser salvo? Por que o pecador precisa ser salvo? Salvo de quê? Essas são algumas perguntas que surgem com naturalidade na mente de alguém que se disponha a estudar as causas e objetivos da salvação. Muitas respostas podem ser dadas a essas perguntas, dependendo da referência adotada. Nós, como cristãos, basearemos nossas respostas a essas perguntas tão somente na Palavra de Deus. Nosso intuito é descobrir o que a Escritura nos diz sobre a salvação. Passemos ao nosso estudo.


I. O ALCANCE E OS EFEITOS DO PECADO (Rm 3.23; 6.23)

Antes de falar sobre a salvação graciosa de Deus precisamos compreender o motivo pelo qual precisamos de salvação e por que não podemos ser salvos pelos nossos próprios méritos e esforços, mas somente pela Graça de Deus. [1] Para tanto é necessário que atentemos para a doutrina bíblica sobre o alcance e os efeitos do pecado. Essa doutrina recebe o nome de doutrina da depravação total.

A doutrina da depravação total, que diz que o homem está morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1,2), não significa que todos os homens sejam igualmente maus, nem que o homem é tão mal quanto poderia ser, alcançando, assim, o ápice da maldade, nem que o homem esteja completamente destituído de toda e qualquer virtude, nem que a natureza humana seja má em si mesma. Essa doutrina ensina apenas que, uma vez que o homem segue o curso do pecado (Ef 2. l ,2), ele está completamente sujeito ao pecado, tendo motivações pecaminosas, inclinações pecaminosas, facilidade para pecar, está espiritualmente morto e, por isso, é incapaz de fazer ou querer qualquer coisa que o conduza à salvação, bem como é totalmente incapaz de merecer a salvação mediante suas próprias obras. [2]

O homem não-regenerado, que chamaremos de homem natural, pode, pela aplicação da Graça comum de Deus, amar sua família e ser um bom cidadão, cultivando elevadas virtudes e valores morais, tais como a honestidade, a justiça, a bondade, a coragem, etc. Ele pode exercer atos de misericórdia e caridade, mas não pode agradar a Deus, pois todas essas virtudes e boas obras feitas por alguém que não foi alcançado pela Graça salvadora de Deus apresentam um defeito em sua natureza: Não estão sendo praticadas com vistas à estrita glorificação de Deus. A grande questão que deve ser observada é que Deus aceita primeiro a pessoa, e depois aceita aquilo que ela faz. Quando a pessoa não é aceita, suas obras também não o serão, pois sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11.6). Esse foi o princípio usado por Deus ao aceitar a oferta de Abel e recusar a oferta de Caim. Veja o que diz o relato bíblico: Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta (Gn 4.4). A oferta de Caim, por outro lado, não foi aceita porque o próprio Caim não foi aceito. Veja o que Deus diz a Caim: Se procederes bem, não é certo que serás aceito? (Gn 4.7). Hebreus diz que Deus aprovou as ofertas de Abel porque ele obteve o testemunho de ser justo (Hb 11.4). Como podemos ver, esse é o princípio bíblico para a aceitação das boas obras (o próprio culto é visto como uma boa obra). Primeiro Deus aceita a pessoa, e depois aceita as obras. Se a pessoa não for aceita, isto é, se não for uma pessoa redimida, suas obras não serão aceitas. E por isso que as obras do homem natural não são suficientes para merecer-lhe a salvação. A fé é o fundamento de todas as virtudes, e ela mesma está fundamentada sobre a Graça. Nenhuma obra é aceita por Deus se ela não estiver alicerçada na Graça. [3]

Outro efeito do pecado na vida humana é o de impedir que o pecador compreenda as realidades espirituais necessárias à sua salvação. Paulo explica esse fenômeno dizendo que o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente (I Co 2.14). O homem natural carece de uma capacitação do Espírito para que possa discernir as realidades espirituais. Sem essa capacitação ele jamais compreenderá a extensão e a gravidade de seu pecado e, conseqüentemente, jamais compreenderá a sua necessidade de salvação. O homem natural está cego em seu entendimento e os seus sentimentos estão corrompidos pelo pecado, como Paulo nos ensina em 2 Coríntios 4.3-4. A natureza humana não é má em si mesma, isto é, em essência, porque foi criada por Deus e vista por ele mesmo como sendo muito boa (Gn 1.31). Contudo sua atual condição é de total corrupção ocasionada pelo pecado. Sendo essa corrupção uma condição da natureza humana, está além de seu poder mudá-la. Isso só pode ser feito pela obra regeneradora de Deus na vida do pecador. O contraste entre o efeito da regeneração com o efeito do pecado é claramente ensinado no relato de Paulo a respeito de sua vocação ministerial: Para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus (At 26.18). [4]

Paulo, escrevendo aos Efésios, dá mais um bom motivo pelo qual o homem natural é incapaz de obter a salvação por seus próprios méritos. Ele diz que Deus vos deu vida, estando vós mortos em seus delitos e pecados (Ef 2.1). O fato de o homem natural estar morto em seus delitos e pecados significa que ele é incapaz de tomar qualquer atitude espiritual. Se uma pessoa está morta no sentido físico, não há qualquer possibilidade de que essa pessoa tome qualquer atitude física. Um cadáver nada pode fazer neste mundo, nem mesmo a seu próprio favor, no intuito de tirá-lo da morte. O mesmo acontece quando uma pessoa está espiritualmente morta. Ela é totalmente incapaz de fazer ou mesmo de querer qualquer coisa, mesmo que seja para que ela saia da morte.

Podemos concluir essa parte deste estudo dizendo que as Escrituras ensinam que o homem é totalmente incapaz de, por si mesmo, livrar-se de seu pecado e dos efeitos que o pecado produz em sua vida, inclusive no que diz respeito à salvação. Ele é incapaz de entender e, conseqüentemente, de fazer as realidades espirituais. Na verdade, ele é incapaz de fazer ou querer qualquer coisa, por menor que seja, na dimensão espiritual, pois está espiritualmente morto. Diante dessa realidade, sua única possibilidade de salvação está na Graça de Deus. [5]


II. SALVAÇÃO PELA GRAÇA (Rm 3.24,28)

A Escritura declara que a salvação do pecador só é possível pela manifestação da Graça salvadora de Deus em favor do homem. Em Efésios 1.3-14 o apóstolo Paulo ensina que o propósito Deus na salvação do pecador é mostrar a glória de sua Graça ao expressá-la imerecidamente àqueles que não têm direito a ela. Todos os homens estavam em um tal estado de pecado e miséria (Rm 3.23) que nada podiam fazer para alcançar sua própria salvação.

Por serem todos os homens igualmente pecadores, eram todos merecedores da mesma recompensa, a saber, a recompensa do pecado, que é a morte (Rm 6.23). É oportuno observar, a essa altura, que os pecadores em sua condição caída e afastada de Deus não são cidadãos de um determinado Estado, onde todos têm direito aos mesmos benefícios, como por exemplo, uma chance de salvação. Eles são pecadores culpados e condenados, merecedores da pena que corresponde aos seus delitos. Paulo diz que essa pena é a morte (Rm 6.23). Ninguém tem direito à salvação. No entanto, o Senhor, em seus inescrutáveis decretos eternos, determinou, baseado em sua livre e soberana Graça, salvar um grupo de pecadores, dentre todos os que mereciam o inferno e a morte. Desta forma ele não se faz culpado pela condenação daqueles aos quais sua Graça não foi concedida, pois eles são condenados pelo seu próprio pecado. Por outro lado, Deus é o autor e consumador da fé (Hb 12.2) daqueles que ele escolheu para conceder sua Graça salvadora. Para viabilizar a redenção de seu povo (Mt 1.21) Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, que assumiu a natureza humana e levou sobre si a culpa pelos pecados do seu povo, e também seu Espírito, que é quem aplica em nós a redenção adquirida por Jesus. Ao aplicar no coração do pecador a redenção garantida por Jesus, o Espírito imputa a Jesus os nossos pecados, para que sejam cobertos e perdoados, e imputa-nos a justiça de Jesus, que pagou por nós o que devíamos (Rm 3.20-28; 5.18,19; Fp 3.8,9). [6]

A palavra Graça, em seu sentido bíblico, significa o livre e imerecido amor de Deus expresso em favor do pecador digno de condenação. Isso significa que a Graça de Deus não reconhece no homem qualquer tipo de merecimento, pois onde há merecimento não pode haver graciosidade (Rm 4.4,5). A salvação do pecador depende única e exclusivamente da soberana Graça de Deus.

A doutrina da salvação pela Graça não invalida a doutrina da santificação, pelo contrário, fortalece-a ainda mais, ensinando que aqueles que foram imerecidamente salvos pela Graça devem responder a essa Graça com santidade e obediência. A santidade do pecador redimido provém da justiça imaculada de Cristo, que lhe é imputada pelo Espírito. Quando Deus olha para o pecador salvo ele o vê vestindo as vestiduras brancas (Ap 7.13,14) lavadas no sangue do Cordeiro. [7]

Uma vez que Deus obteve a salvação do pecador à sua própria custa, é perfeitamente natural que em sua soberania ele escolha aqueles aos quais ele quer concedê-la. Nada é mais enfatizado na Escritura do que o caráter gracioso da salvação (Is 53.4-5,11-12; 2 Co 5.21; I Pe 2.24; 3.18). A doutrina bíblica da salvação pela Graça elimina toda possibilidade de merecimento humano da salvação, e por isso é geralmente vista com reservas, mas o ensino bíblico deve ser recebido pelo povo de Deus exatamente como é, e não como criaturas sujeitas a erros e falhas gostariam que ele fosse. O profeta Isaías fala sobre a justiça humana nos seguintes termos: Todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidade, como um vento, nos arrebatam (Is 64. 6. Veja também Is 59.1-21 e Rm 1.18-27). Da mesma forma, quando Isaías diz “Ah! Todos vós, que tendes sede, vinde às águas, e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite”, ele está anunciando a Graça através da qual pecadores que nada merecem (não possuem dinheiro, ou seja, não possuem méritos para adquirir aquilo de que necessitam), fartar-se-ão daquilo que lhes é concedido pela Graça. [8]

Sendo a salvação uma obra da livre e soberana Graça de Deus, ela não pode ser creditada às obras do homem. Nem mesmo o ato de crer pode ser visto como uma obra do homem a favor de sua própria salvação porque até mesmo a fé é apresentada nas Escrituras como uma dádiva de Deus (Ef 2.8,9). A fé é aquilo que podemos chamar de causa instrumental da salvação, ou o instrumento usado por Deus para que o homem creia. A causa meritória, contudo, é a Graça de Deus. O que Deus enxerga no pecador não é o mérito do pecador, mas a fé, que é dádiva do próprio Deus. No livro de Atos podemos ver a fé sendo apresentada como obra da Graça (18.27). Vemos também que a vida eterna é decorrente da Graça (13.48) e que é prerrogativa de Deus abrir o coração do pecador para que este responda ao Evangelho (16.14). [9]

O efeito imediato da aplicação da Graça de Deus ao coração do pecador é a purificação de sua natureza, fazendo com que o redimido passe a amar a justiça de Deus e creia em Cristo para sua salvação. Antes da ação da Graça na natureza humana, o elemento natural do pecador era o pecado. Depois da ação da Graça seu elemento passa a ser a santidade. Isso significa que o pecado se torna repulsivo ao redimido. A Graça transforma a vida do pecador e cria nele uma semente de santificação, que deve ser cultivada mediante os meios de Graça oferecidos por Deus.

A redenção, em um certo sentido, completou-se quando Cristo morreu na cruz. Em outro sentido ela se completa quando é aplicada pelo Espírito ao coração do pecador. Mas ela tem também um sentido escatológico, futuro, que se completará quando Cristo vier buscar sua Igreja.

A doutrina bíblica da salvação pela Graça não é uma doutrina fria, nem uma teoria especulativa, nem um sistema de ensinos doutrinários estranhos, como muitas pessoas costumam pensar. Ela é a mais quente, viva e dinâmica doutrina bíblica a respeito do relacionamento de Deus com o homem. O cristão que tem essa doutrina em seu coração sabe que está em um caminho que seguramente o conduzirá ao reino de Deus. Ele sabe que seu caminho é abençoado e que nada poderá roubar os tesouros para ele reservados no Reino de Deus (IPe 1.3-5). Quando o cristão se vê como um escolhido de Deus ele pode compreender com facilidade que todos os seus atos possuem um significado eterno e que deve ser grato ao Senhor por ter sido tirado do império das trevas e conduzido para o Reino da Luz, o que é uma grande alavanca motora para o desenvolvimento de sua vida de santidade.


CONCLUSÃO

O estudo que fizemos nas Escrituras sobre a salvação conduz-nos à seguinte conclusão: A salvação não está fundamentada sobre qualquer mérito humano, pois não existem méritos no pecador perdido pelos quais possa salvar-se. O fundamento da salvação do pecador é a Graça de Deus, o que significa que o homem é totalmente passivo em sua própria salvação.

A necessidade de salvação do homem repousa sobre o fato de ser ele um
pecador, o que faz com que ele seja totalmente incapaz de fazer algo  para restaurar sua comunhão com Deus. Diante da impossibilidade do pecador salvar-se, Deus, graciosamente, decidiu redimir um grupo de pecadores dentre todos os que mereciam, igualmente, a morte eterna





[1] SPROUL, R. C. Salvo de quê? Compreendendo o significado da salvação. São Paulo: Ed. Vida, 2006
[2] BAREN, Gise Van. Depravação Total. Fireland Missions: janeiro de 2013 
[3] MACARTHUR, J. SPROUL, R. C., BEEKE, Joel. Justificação pela fé somente. São Paulo: Editora Cultura cristã, 2013.
[4] MURRAY, John. Comentário da Epístola aos Romanos. São José dos Campos: Editora Fiel, 2003.
[5] EDWARDS, Jonathan. A soberania de Deus na salvação dos homens. São Paulo: Editora O Estandarte de Cristo, S/D.
[6] HOEKEMA, Anthony. Salvos Pela Graça: A Doutrina Bíblica da Salvação, 2ª ed. Revisada, São Paulo: Cultura Cristã, 2002
[7] BOICE, James Montgomery. O Evangelho da Graça: A aventura de restaurar a vitalidade da igreja com as doutrinas bíblicas que abalaram o mundo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
[8] CALVINO, João. Exposição de Romanos. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Edições Paracletos, 1997.
[9] BOICE, James Montgomery. O Evangelho da Graça: A aventura de restaurar a vitalidade da igreja com as doutrinas bíblicas que abalaram o mundo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

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