segunda-feira, 21 de março de 2016

ESTUDO Nº 08 - O TRIBUNAL DE CRISTO (2 Coríntios 5.6-10)



INTRODUÇÃO

Nem todo cristão tem grandes ambições quanto à vida com o Senhor, mas todos terão de comparecer diante do Senhor, e o tempo de se preparar para esse encontro é agora. Pela obra que Cristo, em sua graça, realizou na cruz, os cristãos não serão julgados por seus pecados (Jo 5.24; Rm 8.1), no entanto, terão de prestar contas de suas obras e serviços para o Senhor.

Não existe obra alguma que possa salvar alguém (Tito 3.5). Contudo, depois de ter sido salvo, entende-se que o filho de Deus anda na prática de boas obras, Ef 2.10.

Em todo o Novo Testamento há somente duas citações literais sobre o “Tribunal de Cristo”, 2 Co 5.10 e Rm 14.10. Mas, há em todo o novo testamento nuances e referenciais de que esse julgamento irá acontecer, como por exemplo a parábolas dos talentos, Mt 25.14-30.


I. TRIBUNAL DE CRISTO – CONCEITOS E DEFINIÇÕES TEOLÓGICAS

1. Etimologia da palavra - Duas palavras distintas na língua original do Novo Testamento esclarecem bem o sentido da palavra tribunal: criterion, conforme está em Tg 2.6 e 1Co 6.2,4; e bemá, encontrada em 2 Co 5.10. 

O termo bemá comumente significa uma “plataforma ou um banco de assento onde o juiz julga”. Havia naqueles tempos tribunais militares e, também, o tribunal (bemá ou assento) da recompensa, especialmente utilizado nos jogos gregos de Atenas. Os atletas vencedores eram julgados perante o juiz da arena e galardoados por suas vitórias.

O tribunal de Cristo é o acontecimento futuro no qual o povo de Deus ficará diante do Salvador, e suas obras serão julgadas e recompensadas. Paulo era ambicioso em seu trabalho para o Senhor, pois desejava comparecer diante de Cristo confiante, não envergonhado. A versão NVI traduz o v. 9, assim: “Porém, acima de tudo, o que nós queremos é agradar o Senhor, seja vivendo no nosso corpo aqui, seja vivendo lá com o Senhor”. [1]

Todas as atividades que os crentes realizam durante a sua vida que se relacionam com a sua recompensa eterna e louvar a Deus. Em seus olhos, tudo o que fazem os cristãos em seu corpo temporário terá um impacto para a eternidade. [2]


II. TRIBUNAL DE CRISTO – INTERPRETAÇÕES TEOLÓGICAS

1. Dispensacionalista e pré-milenistas: De acordo com o pensamento, há mais de um julgamento que está por vir. Eles não vêem o Mt 25.31-46 como descrevendo o juízo final (o grande trono branco) mencionado em Ap 20.11-15, mas sim a um julgamento posterior à tribulação e anterior ao início do milênio. [3]

Na perspectiva dispensacionalista há vários tribunais (julgamentos): [4]

a) O julgamento das nações (Mt 25.31-46), para determinar quem entra no milênio. Dizem que este será um "julgamento das nações" em que elas serão julgadas de acordo com o modo pelo qual tiveram tratado o povo judeu durante a tribulação.

b) O julgamento das obras dos crentes (Tribunal de Cristo), será para entrega de galardões aos crentes (2 Co 5.10). As pessoas julgadas nesse tribunal são os santos remidos por Cristo. Só entrarão os salvos, os remidos. Não haverá lugar nesse tribunal para julgamento condenatório. [5]

c) O julgamento do grande trono branco, ao final do milênio, para declarar o castigo eterno para os incrédulos (Ap 20.11-15).

2. Visão Reformada das Escrituras – Amilenistas e pós-milenistas afirmam que o ensino bíblico acerca da ressurreição geral implica em que haverá apenas um único juízo final. Dizem que todos os textos que fazem referência ao juízo escatológico apontam para um evento único, o qual será pronunciado sobre toda a humanidade no último dia, que é visto como um dia singular (Jo 5.28-29; At 17.31; 2 Pe 3.7; 2 Ts 1.7-10; Ap 20.11-14). [6]

Segundo Wayne Grudem Mateus 25.31-46, 2 Co 5.10 e Apocalipse 20.11-15, todas essas três passagens falam dum mesmo juízo final e não de três julgamentos separados.  Com relação a Mt 25.31-46 ele comenta: [7]

1. É improvável que a visão dispensacionalista esteja correta. Não há nenhuma menção de entrada do milênio nessa passagem, além disso os julgamentos pronunciados tratam não da entrada no reino milenar sobre a terra, ou da exclusão deste, mas sim do destino terreno das pessoas, é só ler atentamente os versículos 34, 41 e 46 e isto estará bem claro.

2. Por fim, Deus seria incoerente com os seus costumes revelados através das Escrituras se ele lidasse com o destino eterno das pessoas tomando por base a nação ao qual elas pertencem, pois nações incrédulas têm crentes no meio delas e para com Deus não há acepção de pessoas (Rm 2.11).

3. Embora de fato todas as nações estejam reunidas perante o trono de Cristo nesta cena (Mt 25.32) o quadro do juízo é de julgamento de indivíduos (as ovelhas são separadas dos cabritos) ovelhas e cabritos representam indivíduos e não nações, os indivíduos que tratam com bondade os irmãos de Cristo são acolhidos com alegria no reino, enquanto aqueles que os rejeitam serão rejeitados v 35-40 e v 42-45.

Segundo Berkhof, não haverá três ou mais julgamentos. [8]

Há passagens nas Escrituras que evidenciam abundantemente que os justos e os ímpios comparecerão juntos no juízo para uma separação final (Mt 7.21-23; 25.31-46; Rm 2.5-7; Ap 11.18; Ap 20.11-15).

E finalmente, deve-se ter em mente que Deus não julga nações como nações quando estão em pauta questões eternas, mas somente indivíduos e que uma separação final dos justos e dos ímpios, não tem a menor possibilidade de ser feita antes do fim do mundo. 

Segundo Hoekema, o ensino bíblico acerca da ressurreição geral Implica que haverá apenas um juízo final, não vários julgamentos diferentes, pois é dito que o juízo final se seguirá á ressurreição. [9]


III. TRIBUNAL DE CRISTO - PROCESSO

1. O que será julgado? - Não devemos olhar para o Tribunal de Cristo como Deus julgando nossos pecados, mas sim como Deus nos galardoando por nossas vidas. Sim, como dizem as Escrituras, teremos que dar conta de nossas vidas.  

As obras que fizermos por meio do corpo serão provadas pelo fogo e podem ser aprovadas ou reprovadas (1 Co 3.12-15). Não está em jogo agora o que é moralmente bom ou mau, mas o que foi bom ou mau na edificação da igreja, o que é comparável a “ouro, prata, pedras preciosas”, e o que é comparável a “madeira, feno, palha” (1Co 3.12). [10]

Esse julgamento incluirá o desvendamento e a avaliação dos motivos de nossos corações:
a) Se foi feito por amor ao Senhor, 1 Co 13.3.
b) Se as fizemos de boa vontade, receberemos galardão, 1 Co 9.17-18;
c) Quais as motivações que nos impeliram , 1 Co 4.5
d) Mas se as fizemos com motivos de auto benefício e inveja, nada receberemos, Fp 1.15.

De acordo com essa avaliação, o caráter bom ou mau da vida do cristão é compensado pela retribuição ou falta de retribuição, destacando-se a imparcialidade estrita e a justiça do julgamento. [11]

2. O Senhor julgará - Cada pessoa comparece no tribunal e ouve o veredicto baseado em sua conduta na terra. Quando o Senhor voltar (1Co 4.5), todas as obras, quer boas ou más, serão reveladas. Nessa ocasião, ele determina a recompensa para cada pessoa por ações executadas pela instrumentalidade do corpo enquanto estava na terra. [12]
a) Como usamos os recursos que ele nos deu, Mt 25.19-21
b) O trabalho que fizemos ao Senhor e à igreja, 1 Co 3.8; Hb 6.10; Mt 10.41,42.
c) Nossas relações com nossos irmãos, 1 Jo 2.8-11.
d) Aquilo que sofremos por amor a Cristo, Lc 6.22-23; Ap 2.10.
e) Nossa fidelidade como despenseiros (1 Co 4.1-5).

O tribunal de Cristo será meticuloso. Nossas palavras, ações, omissões e pensamentos serão julgados. O que nós semearmos, isso será o que colheremos (Gl 6.7-8). O Senhor retribuirá, a cada um, segundo o seu procedimento (Rm 2.6). [13] 

O tribunal dos homens julga apenas as ações, mas o tribunal de Cristo julga as intenções (l Co 4.3).

3) Que recompensas nós receberemos? - Haverá recompensas entregues e estas serão em forma de coroas: [14]

a) A coroa da vitória, 1 Co 9.25 - A vida crista se constitui numa batalha espiritual contra três inimigos terríveis: a carne, o mundo e o Diabo. Esta coroa é denominada, também, como coroa incorruptível, porque se refere à conquista do domínio do crente sobre o velho homem.

b) A coroa de gozo, 1 Ts 2.19; Fp 4.1 - A palavra gozo significa prazer, alegria, satisfação. Uma das atividades cristã que mais satisfazem o coração do crente é o ganhar almas. Isto é, praticar o evangelismo pessoal e ganhar pessoas para o reino de Deus. 

c) A coroa da justiça, 2 Tm 4.7-8 - É o premio dos fiéis, dos batalhadores da fé, dos combatentes do Senhor, os quais vencendo tudo esperam a Sua vinda;

d) A coroa da vida, Ap 2.10; Tg 1.12 - Não se trata da simples vida que temos aqui. Essa coroa é um prêmio especial porque implica conquista de um tipo de vida superior à vida terrena, ou simples vida espiritual, como a tem os anjos. É o galardão da fidelidade do crente.

e) A coroa de glória, 1 Pe 5.2-4 - Certos eruditos na Bíblia entendem que esta coroa é o galardão dos ministros fiéis que promoveram o reino de Deus na Terra, sem esperar recompensa material.

O próprio Senhor Jesus, Juiz desse tribunal, é quem fará a entrega dos prêmios, galardões, recompensas (2 Co 9.6; Ap 22.12). O apóstolo Paulo declara, também, que todo crente receberá o seu louvor (elogio) da parte de Deus (1 Co 4.5).

O propósito dos galardões não é glorificar quem os recebeu, mas aquele que os entregou. Vivemos para glorificar a Deus, agora e no porvir. Assim, cremos que as coroas serão oferecidas ao Cordeiro (Ap 4.10), como uma oferta de cada crente ao seu Senhor. Assim, o tesouro que ajuntamos no céu será para glorificar ao Mestre e não para exibição dos servos. [15]


CONCLUSÃO

A lição maior que aprendemos acerca do tribunal de Cristo consiste em atentarmos diligentemente para a nossa responsabilidade individual como cristãos no que se refere às ações tanto as de caráter social quanto as espirituais praticadas em benefício do reino de Deus.

_________________________
[1] WIERSBE, William. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[2] MACARTHUR, John. Comentários da Bíblia de Estudo de John MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010
[3] HORTON, Stanley M. Nosso Destino, o ensino bíblico das últimas coisas. Rio de Janeiro, RJ; CPAD, 1998.
[4] PENTECOST, J. Dwight. Manual de Escatologia. São Paulo: Vida, 2006.
[5] BERGSTÉN, Eurico. Introdução à Teologia Sistemática. RJ, 1.ed. CPAD, 1999.
[6] FERREIRA, F; MYATT, A. Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Ediçoes Vida Nova, 2007, p 1073
[7] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1999, p. 975-976.
[8] BERKHOF, LOUIS. Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Cultura Cristã, São Paulo, 1999, p. 673.
[9] HOEKEMA, Anthony . A Bíblia e o Futuro. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 1989, p. 341.
[10] BOOR, Werner. 2 Cartas aos Coríntios – Comentário Bíblico Esperança. Curitiba: Editora Esperança, 2004.
[11] BRUCE. F. F. Comentário Bíblico NVI. São Paulo, SP: Editora Vida, 2009., p. 1952
[12] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
[13] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007.
[14] HOWARD, Rick. O Tribunal de Cristo. Rio de Janeiro, RJ: CPAD, 2000.
[15] CLARK, David S. Compêndio de Teologia Sistemática. Saõa Paulo, SP: Cultura Cristã, São Paulo, 1988.

Nenhum comentário: