segunda-feira, 21 de março de 2016

ESTUDO Nº 06 - TESOUROS EM VASOS DE BARRO (2 Coríntios 4.7-18)



INTRODUÇÃO

Pois bem, há sempre uma grande distância entre a sublimidade do chamado de Deus para nossas vidas e a nossa dignidade e capacidade para assumi-lo. A verdade é que Deus nos investe de autoridade, não pelo fato de crer em nós, mas por crer em si mesmo. Tudo o que Ele nos propõe, o faz baseado no seu poder que opera em nós e não na nossa capacidade de realizar. Afinal, Onisciente como é, não estaria enganado a nosso respeito. “Ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó” (Salmos 103.14).

O senso de inadequação que costumamos sentir diante da gigantesca tarefa de mudar o mundo é, na verdade, o requisito que precisamos para encaixar-nos no plano de Deus (1 Co 1.27-29). Sendo assim, eu e você, por não termos nada, temos tudo para ser relevantes no mundo, por meio da graça.

Neste estudo, o apóstolo Paulo discorreu sobre a glória de seu serviço, que se sobressai muito além do ministério de Moisés (Morte e condenação, 2 Co 7-9). E enfatiza que o glorioso Ministério do Espírito e Justiça (2 Co 3.8-9) que é guardado dentro da fragilidade de vasos de barros. 

Passa da grandeza da sua missão à verdadeira miséria da sua fraqueza. Ele está pondo machado na raiz de toda pretensão humana. Ele está nocauteando a tola ideia do culto à personalidade. O importante não é o obreiro, mas a obra. A glória não está no pregador, mas na pregação. O que é valioso não é o vaso, mas o tesouro que está no vaso. 


I. A FRAGILIDADE DOS VASOS DE BARRO (4.7-12)

1. A metáfora do vaso de barro (7a). Paulo extasia-se diante do contraste entre o glorioso Evangelho e a indignidade e fragilidade de seus proclamadores. Em vez de a mensagem de salvação ser revelada mediante uma demonstração sobrenatural, a glória do Evangelho é manifesto através de homens frágeis - vasos de barro. 

a) Tesouro – Esse tesouro consiste da mensagem do evangelho que recebemos do Senhor Jesus Cristo. Paulo nos diz que essa mensagem é uma dádiva inestimável que levamos conosco em vasos de barro.

b) Vasos de Barro - Naquele tempo, se guardavam objetos extremamente preciosos em vasos de barro (Os manuscritos do Mar Morto). O vaso de barro não possuía grande valor, era frágil e descartável. Paulo e sua vida também parecem ser como esses vasos de barro, se observados de fora. Não se pode ver nada de “glória”. Não obstante encontra-se nesse “vaso de barro” o imensurável tesouro do evangelho. [1]

c) Excelência do Poder (7b) - A atuação de Paulo evidenciava uma “excelência do poder”. Nós mantemos o evangelho como se fora em vasos de barro para demonstrar o poder fenomenal de Deus, para que todos possam ver que não somos nós, e sim Deus, que é a fonte. 

O poder de Deus é revelado em seres humanos que, aos olhos do mundo, não têm valor algum. Por exemplo, um bando de pescadores incultos segue Jesus e, então, cheios do Espírito Santo, espalham o evangelho até os confins da terra (At 1.8).

A autoridade do evangelho não é humana em origem; pelo contrário, tem sua fonte em Deus. “Pois dele e por ele e para ele são todas as coisas” (Rm 11.36).[2]

Deus tem poder sobre o barro e sobre os vasos; Ele é o Oleiro. Por isso, Paulo sente-se fraco fisicamente, mas o Senhor toma-lhe a fraqueza, tornando-o capaz de revelar a glória do Evangelho aos judeus e gentios (8,9).

2. O paradoxo dos sofrimentos (8-10). Nos versículos 8 e 9, quatro contrastes são apresentados por Paulo para exemplificar suas experiências (1 Co 4.11-13). Aqui, Paulo rememora suas tribulações sofridas pela causa do evangelho de Cristo.

a. “Em tudo somos atribulados, porém não angustiados.” (1.8-10) – A expressão atribulados, significa também “afligidos”. Paulo foi afligido de muitos modos: física, mental, espiritual e socialmente. O sentido básico de “afligido” é estar numa situação na qual a pessoa sofre as pressões do mundo em volta. A tribulação é uma prova externa, enquanto a angústia é um sentimento interno. A tribulação produz angústia (SI 116.3) [3]

b. “perplexos, porém não desanimados” (6.4-10) – “perplexos”, significa estar em um tipo de dúvida que nos exige uma decisão pronta e imediata. Paulo diz que não se desanima diante da perplexidade da vida. A palavra “desanimados” significa estar completamente perplexo ou em desespero. Essa palavra descreve o desespero em seu estado final.

c. “perseguidos, porém não desamparados” (11.23-27) - Paulo se descreve como um fugitivo caçado por seus adversários, contudo na última hora capaz de escapar. Mas o apóstolo não se sente desamparado, pois sabe que o Senhor nunca abandona quem é dele, Dt 31.6-8.

d. “abatidos, porém não destruídos” (12.10) – Paulo usa aqui, um termo técnico. Assim como um lutador joga ao chão o adversário, assim Paulo é levantado e derrubado ao chão. Novamente é impressionante sua confiança, pois Paulo declara que ele não está morrendo.

Estas quatro situações citada por Paulo revela um grau cada vez maior de severidade desde o ser atribulado até não ser abatido (destruído). Todos os particípios estão na voz passiva, deixando implícito que os adversários são os agentes. Contudo, Paulo é capaz de vencer todas suas provações porque sabe que Deus lhe dá a Excelência do poder (v. 7).

3. Sofrer pela Igreja (11-15). - No sofrimento físico de Paulo, Deus o aperfeiçoou, produzindo no apóstolo um senso de total dependência (11). Se, por um lado, os sofrimentos experimentados por Paulo fizeram-no chegar bem próximo da morte física, por outro, serviram para beneficiar a Igreja de Cristo (15). Paulo, aliás, não tinha dificuldade em enfrentar a morte por amor à Igreja: “De maneira que em nós opera a morte, mas em vós, a vida” (12).

Notemos que as vidas de Estêvão e de Tiago, filho de Zebedeu, foram cedo ceifadas por pregarem a boa-nova, mas a vida de Paulo foi poupada repetidas vezes. Jesus avisou que o sofrimento seria a marca do seu ministério, (At 9.15-16). 

Paulo demonstra sua disposição de sofrer fisicamente pelo seu Senhor e pela sua igreja (Rm 8.36). No final do v. 12, ele cita o Salmo 116.10, para manifestar a razão e certeza de sua fé e confiança em Deus.

a) Estava certo da vitória final (14). Se Jesus conquistou a morte, o último inimigo, por que temer qualquer outra coisa? A morte é o grande divisor, mas em Cristo temos a certeza de que seu povo será reunido em sua presença (1 Ts 4.13-18).

b) Estava certo de que Deus seria glorificado (15). Este versículo é paralelo a Romanos 8.28 e nos dá a certeza de que os sofrimentos não são desperdiçados: Deus usa a dor para ministrar a outros e também para glorificar seu nome. 

As cicatrizes do apóstolo eram prova convincente de seu sofrimento. Concordo com Warren Wiersbe quando diz que a prova do verdadeiro ministério não está em suas condecorações, mas, sim, em suas escoriações. “Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque eu trago no corpo as marcas de Jesus” (G1 6.17). [4]


II. PAULO FALA DA GLORIFICAÇÃO FINAL DESSES VASOS DE BARRO (4.13-18)

Os versículos 13 e 14 indicam que o ato de crer e anunciar baseia-se na verdade de que, assim como Jesus ressuscitou, os crentes também um dia ressuscitarão. Seus corpos transitórios e corruptíveis serão transformados em corpos gloriosos. Vasos de barros a corpos glorificados.

Paulo afirma Em 2 Co 4.1, que não desanima porque percebe a grandeza do ministério que lhe fora confiado. Agora, ele reafirma a sua convicção, dizendo que “não desanimemos (4.16), porque, embora as aflições afetem o seu corpo, o seu espírito se renova a cada dia.

Paulo fala agora sobre três contrastes que enaltecem sua maravilhosa convicção: [5]

a) “pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia” (4.16). O nosso homem exterior é o nosso corpo; o nosso homem interior é o nosso espírito. O corpo fica cansado, doente e envelhecido, mas o espírito mais maduro, mais forte, mais renovado.  O homem exterior está exposto a “tentações, perigos e putrefação”, enquanto o ser interior é renovado pela comunhão diária com Cristo, e é fortalecido pelo Espírito Santo. O novo eu é transformado progressivamente pelos princípios do conhecimento espiritual, da verdadeira justiça e de santidade singular (Ef 4.24; Cl 3.10).

b) “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (4.17). As aflições são pesadas e contínuas, mas vistas sob a perspectiva da eternidade são leves e momentâneas.  Toda a tribulação que Paulo passou nesta vida, tudo não passa de “uma leve e momentânea tribulação” comparada a vida na glória. A tribulação por mais pesada e constante posta sob a ótica da eternidade torna-se leve e momentânea. No presente enfrentamos tribulação, mas no futuro es­taremos na glória. Agora, há choro e dor, mas, então, Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima. Os sofrimentos do tempo presente não são para ser comparados com as glórias por vir a ser reveladas em nós (Rm 8.18).

c) “não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.” (4.18). Paulo diz que quando focalizamos nossa atenção em coisas invisíveis, nós minimizamos as dificuldades e maximizamos a glória eterna. (Cl 3.1-2). A fé não se apega às glórias do mundo porque vê um mundo invisível superior a este. Abraão não se encantou com a planície de Sodoma, (Hb 11. 9-10). Moisés abandonou as glórias do Egito para receber uma recompensa superior (Hb 11.27).


CONCLUSÃO

O apostolo fala de seus sofrimentos como a contrapartida dos sofrimentos de Cristo, para que as pessoas possam ver o poder da ressurreição de Cristo e da graça no Jesus vivo, e por meio dEle. Comparados com eles, os demais cristãos estiveram em circunstancias prosperas naquele tempo. [6]

Nesta lição, aprendemos a enxergar nossos corpos como frágeis vasos de barro. Todavia, em sua fragilidade, guardam um tesouro incomparável - o conhecimento do Evangelho. Portanto, compartilhe este tesouro com aqueles que ainda não o possuem.

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[1] BOOR, Werner. 2 Cartas aos Coríntios – Comentário Bíblico Esperança. Curitiba: Editora Esperança, 2004.
[2] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 190.
[3] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007.
[4] WIERSBE, William. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[5] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007.
[6] HENRY, Mathews. Comentário Bíblico, vol 6. Rio de Janeiro, RJ: CPAD, 2004.

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