segunda-feira, 21 de março de 2016

ESTUDO Nº 05 - A EXCELÊNCIA DO MINISTÉRIO (2 Coríntios 4.1-6)



INTRODUÇÃO

Na lição anterior, observamos que o apóstolo havia exposto objetivamente a natureza do “evangelho” em seu contraste com a natureza da “lei”. Explicitou de imediato que disso resulta necessariamente uma atitude completamente diferente em Moisés, o grande servo da antiga aliança, do que nele, o apóstolo de Jesus na nova aliança.

Nos versículos que serão estudados, observamos que o apóstolo Paulo retorna ao tema do seu ministério apostólico e a sua auto-recomendação. Segundo, Sistemaker, “os adversários de Paulo acusaram-no de apresentar um evangelho que era encoberto e ineficaz. Com isso, reivindicavam que o evangelho deles era aberto, digno de nota e que estava ganhando muitos seguidores.”[1]

Apesar de o apóstolo Paulo estar descrevendo o seu ministério específico, pode-se afirmar que a descrição apresentada neste capítulo 4, aplica-se ao testemunho cristão de todo aquele que, pela misericórdia de Deus, converteu-se a Cristo Jesus.

O testemunho sustentado corajosamente tem como objetivo levar outras pessoas ao conhecimento da verdade e à rejeição de toda mentira e falsidade (v.2). Muitos não são alcançados com o Evangelho, pois Satanás lhes cegou o entendimento e, consequentemente, não podem ver a luz de Cristo, ficando, portanto, o Evangelho encoberto para eles (vv.3,4).

Percebe-se nos versículos 5 e 6 que o testemunho da fé é Cristocêntrico, ou seja, ele está centrado na pessoa de Cristo e não na pessoa humana, pois o cristão é apenas servo em cujo coração a glória de Deus resplandeceu.


1. AS IMPLICAÇÕES DO MINISTÉRIO

No primeiro versículo do capítulo 4, Paulo declara: ''Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos'' (2 Co 4.1)

Temos aqui três palavras que deve produzir um efeito em nosso vida:

1. Nossa riqueza: “tendo este ministério” – Este ministério é o Evangelho da nova Aliança (3.6) que tanto foi enfatizado no capítulo 3, que ele diz que recebeu “segundo a misericórdia” de Deus e que ele chamou ainda de “Ministério do espírito” (3.8), “ministério da justiça” (3.9). Este é um ministério glorioso que oferece às pessoas vida, salvação e justificação; um ministério capaz de transformar vidas. Esse ministério é uma dádiva que recebemos de Deus. Ele nos é concedido pela misericórdia de Deus, não por algum mérito nosso (ver 1 Tm 1:12-17).[2]

2. Nosso lembrete – “segundo a misericórdia que nos foi feita” - Paulo foi um implacável perseguidor da Igreja. Respirava ameaça contra os discípulos de Cristo. Ele não buscava a Cristo, mas Cristo o buscou, transformou-o, capacitou-o, comissionou- o e o fez ministro da nova aliança (l Tm 1.12-17). 

Paulo sabia que o conteúdo deste glorioso ministério que recebera de Deus, vinha permeado pela MISERICÓRDIA de Deus. Misericórdia ministrada a ele no caminho de Damasco e que deveria ser estendida a todos os homens que estão cego pelo “deus deste século” (v. 4)

Se a graça de Deus vê o homem como culpado diante de Deus e, portanto, necessitado de perdão, a misericórdia de Deus o vê como um ser que está suportando as conseqüências do pecado, que se acha em lastimável condição, e que, portanto, necessita do socorro divino. Pode-se definir a misericórdia divina como a bondade ou amor de Deus demonstrado para com os que se acham na miséria ou na desgraça, independentemente dos seus méritos. Outros termos empregados para expressar a misericórdia de Deus são “piedade”, “compaixão”, “benignidade”. [3]

3. Nosso recurso – não desfalecemos (desanimamos) – O verbo desanimar não tem que ver com fadiga física, mas com cansaço espiritual. A despeito das aflições e dos sofrimentos que Paulo teve de enfrentar como apóstolo de Jesus Cristo, ele não está desanimado. Deus concede a Paulo e seus companheiros misericórdia para que vençam a exaustão espiritual e obtenham êxito em seu ministério (v. 16) [4]


II. A INTEGRIDADE DE PAULO NO MINISTÉRIO

Sem dúvida, ao escrever essas palavras, Paulo está se referindo aos judaizantes. Paulo deixa transparecer que eles pregavam as glórias da antiga aliança baseada na lei de Moisés como superior ao Evangelho de Paulo. Ao fazer isto, eles astutamente “adulteravam” a Palavra de Deus (2 Co 4.2) e pregavam a si mesmos e não a Cristo (2 Co 4.5). 

Muitos falsos mestres de hoje afirmam que suas doutrinas são baseadas na Palavra de Deus, mas tais mestres usam a Palavra de maneira enganosa. Podemos provar qualquer coisa pela Bíblia, distorcendo as Escrituras fora de contexto e rejeitando o testemunho da própria consciência. A Bíblia é uma obra literária, sobre a qual devem ser aplicadas as regras fundamentais de interpretação. Se as pessoas tratassem outros livros da maneira como tratam a Bíblia, jamais aprenderiam coisa alguma.

Dentro deste principio de fidelidade a Palavra de Deus, temos aqui três termos:

1. Rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam (v.2a) - "Rejeitar" significa "afastar-se" ou "arrepender-se", e "vergonhoso" significa “repulsivo" ou "infame". A frase "por vergonhosas, se ocultam", alude as imoralidades e hipocrisias secretas e aos pecados ocultos no mais profundo das trevas da vida de uma pessoa. Na salvação, todo cristão se arrepende, abandona tais pecados e dedica a sua vida a buscar a piedade. [5]

Nem sempre é fácil revelar coragem para rejeitar e combater publicamente tudo o que é vergonhoso. Não se trata aqui apenas de pecados morais, mas também pecados sociais, doutrinários, etc. O testemunho cristão implica em rejeição de tudo aquilo que o próprio Deus rejeita (Fp 4.8.9).

2. Não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus (2b) – A astúcia é atributo do diabo, não dos apóstolos e seus ajudantes. A palavra grega panourgia (astúcia, esperteza) aparece cinco vezes no Novo Testamento, sempre com conotação exclusivamente negativa (Lc 20.23; 1Co 3.19; 2 Co 4.2; 11.3; Ef 4.14). A referência de Paulo à astúcia da serpente no Paraíso é uma ilustração apropriada.

Adulterando. Essa palavra grega significa "perverter" e era usada em fontes não bíblicas para falar a respeito da pratica comercial desonesta de diluir o vinho com água.

Paulo quis dizer que ao anunciar o evangelho de Cristo, ele não se utilizava de argumentos falazes, de interpretações distorcidas, e nem de qualquer modo falsificava a sua mensagem, contradizendo as revelações que recebera. Neste ponto Paulo ataca de modo bem definido seus adversários, alguns dos quais haviam transformado o evangelho de Cristo em uma mera filosofia intelectual, ao passo que outros faziam dele apenas uma extensão do legalismo judaico, conforme aprendemos na primeira epistolam aos Coríntios.[6]

3. Manifestação da verdade (2c) –Paulo reivindica para si mesmo a honra de ter proclamado a sã doutrina do evangelho de forma simples e despretensiosa e afirma ter a consciência de todo homem por testemunha na presença de Deus.

O contraste entre a prática da astúcia e a recomendação à consciência, e entre a palavra de Deus, que teria sido adulterada, e a verdade pura, é muito claro. Pela sua apresentação franca e sincera da verdade, Paulo se recomenda à consciência de todo homem. 

4. A Negação do Evangelho (v. 3-4) - Em Corinto, havia homens que achavam ser necessário produzir resultados visíveis e instantâneos a fim de parecerem bem-sucedidos em seu ministério. Paulo, se defende e fala a respeito daqueles que se negaram a receber o evangelho. Afirma que proclamou a palavra de tal maneira que todo homem, seja qual for sua consciência, está obrigado a admitir sua proclamação e seu chamado. 

Paulo enfatiza duas verdades aqui:

a) Há muitos que fazem ouvidos surdos ao chamado do evangelho e estão cegos diante de sua glória (v.3) - Barclay, diz: “Aqueles que não podem crer nem aceitar as boas novas do evangelho são os que se entregaram ao mal deste mundo de maneira tal que já não podem ouvir o convite de Deus quando chega. Não é que Deus os tenha afastado ou abandonado. O que acontece é que eles através de sua própria conduta se afastaram de Deus”. [7]

Precisamos aprender que estamos lidando com pessoas a caminho do inferno (1 Co 2.14). Só o Espírito de Deus em quem pode convencer as pessoas, só Deus pode fazer este trabalho de convicção (Jo 16.8)

b) Diz que o deus deste mundo cegou suas mentes para que não creiam (v.4) - Através de toda a Bíblia os escritores são conscientes de que este mundo está em poder do mal. (Jo 12.31; 14.30; 16.11). 

Satanás cega os homens para a verdade de Deus por meio do sistema do mundo criado por ele. Sem uma influencia piedosa, o homem entregue a si mesmo seguira esse sistema, o qual conduz a depravação dos incrédulos e aprofunda as suas trevas morais (cf. Mt 13.19). Em ultima analise, e Deus quem permite tal cegueira (Jo 12.40; Is 6.9-10; 2 Ts 2.11-12 ). Lembrando que esta profecia de Isaías é citada 5 vezes no Novo Testamento, Mt 13.14-15; Mc 4.12; Lc 8.10; Jo 12.39-40; At 28.25-27. 

Entretanto, devemos lembrar-nos de que Satanás só consegue desenvolver tais funções mediante permissão divina, e que a cegueira mental que lhe é permitido infligir em qualquer época pode ser desfeita por um raio de luz, se Deus assim o desejar. É claro que isto constituía experiência própria de Paulo. Em sua cegueira ele perseguiu a igreja de Deus até o momento em que Deus foi servido revelar nele seu Filho (cf. At 9.1-19; Gl 1.13-17).[8]

O Deus que criou a luz natural no universo e o mesmo Deus que deve criar a luz sobrenatural na alma e conduzir os cristãos do reino das trevas para o seu reino de luz (C l 1.131. A luz e expressa com o "o conhecimento da gloria de Deus" Isso significa saber que Cristo e Deus encarnado. Para ser salva, a pessoa deve entender que a gloria de Deus resplandece em Jesus Cristo. Esse e o tema do Evangelho de João, Jo1.4-5.[9]

c) “Iluminação do conhecimento da glória de Deus” (v.6). Como testifica o apóstolo João: “Deus é luz; e não há nele treva nenhuma” (1Jo 1.5). Por intermédio de Jesus Cristo, Deus deixa sua luz brilhar em nosso coração para efetuar a regeneração. Paulo não diz que Deus faz brilhar sua luz para dentro de nosso coração. Ele declara que Deus nos ilumina em nosso ser interior, para que nós (todos os crentes) possamos difundir a luz. Enquanto Satanás cega a mente humana (v. 4), Deus ilumina o coração, que é a fonte da vida (Pv 4.23). Satanás impede a iluminação, mas Deus a providencia.[10]

__________________________________
[1] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 190.
[2] WIERSBE, William. Comentário Bíbico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[3] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1990, p. 75.
[4] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 193.
[5] MACARTHUR, John. Comentários da Bíblia de Estudo de John MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p. 1585.
[6] CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Editora Candeia, 1995, p. 322.
[7] BARCLAY, William. 2 Coríntios: O Novo Testamento Comentado. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1983.
[8] KRUSE, Colin. II Coríntios: Introdução e Comentário. Edições Vida Nova. 1994, p. 108
[9] MACARTHUR, John. Comentários da Bíblia de Estudo de John MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p. 1585
[10] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 193.


Um comentário:

Alex Vieira disse...

Excelente!!!

Soli Deo Gloria