segunda-feira, 21 de março de 2016

ESTUDO Nº 04 - A IMPORTÂNCIA DAS DUAS ALIANÇAS (2 Corintios 3.1-18)



INTRODUÇÃO

Havia um conhecimento da parte dos coríntios acerca de Paulo, que substituía qualquer documento comprobatório de seu apostolado. Paulo fundara aquela igreja durante a primavera do ano 50 d.C., permanecendo na cidade, inicialmente, por 18 meses (At 18.1,8-11). Os irmãos reuniam-se em casas particulares como a de Tito Justo (At 18.7), e então, começaram a surgir os primeiros líderes daquela igreja (1 Co 1.1,1 16.17). Esta se fortaleceu, e Paulo teve o cuidado de enviar-lhe obreiros experientes como Timóteo, Silas e Apolo, a fim de a confirmarem doutrinariamente (At 18.5,27,28).

Portanto, o pai espiritual da comunidade cristã de Corinto era Paulo, não havendo necessidade de qualquer carta de recomendação vinda de Jerusalém. Entretanto, o apóstolo deparou-se com uma forte oposição, que colocava em dúvidas a legitimidade de seu ministério. Ele então apresenta uma justificativa que se constitui na maior e melhor recomendação que existe: o ministério que recebeu diretamente de Jesus Cristo e o modo como cumpria tal chamada. A prova de sua aprovação apostólica era a própria existência da igreja coríntia (v.2).


I. PAULO JUSTIFICA SUA AUTO-RECOMENDAÇÃO (3.1-5)

1. A recomendação requerida (3.1). Era hábito dos judeus que viajavam com frequência, levarem cartas de recomendação para que, assim, ao chegar a lugares onde não eram conhecidos, pudessem ser hospedados durante o período em que ali estivessem. Era mais ou menos o que conhecemos como boas referências (At 18.27). 

Contudo, Paulo declara que não necessita tal recomendação. Imagine o fundador da igreja, conhecido de todos, ter de cumprir a exigência de ser portador de “cartas de recomendação”, apenas para satisfazer o espírito opositor que dominava alguns judeus-cristãos, que estavam com dúvidas acerca da autenticidade do seu apostolado!

Todos em Corinto sabiam que Paulo, mesmo não tendo sido um dos doze que estiveram com Jesus, recebera um chamado de Cristo para ser apóstolo. Seu testemunho pessoal era a prova concreta de que não lhe era necessário nenhuma recomendação. Seus sofrimentos por Cristo evidenciavam seu apostolado entre os gentios e, especialmente, em Corinto, dispensando, portanto, qualquer tipo de recomendação por escrito.

2. A mútua e melhor recomendação (3.2-3) - Para o apóstolo Paulo, nem os coríntios precisavam de recomendação escrita, porque, dizia: “vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens (v.2). A maior e melhor recomendação que um servo de Cristo pode ter é a evidência do seu ministério no coração e na vida daqueles que foram por ele alcançados para o Senhor Jesus. Destacamos três preciosas verdades desse texto.[1]

a) A verdade escrita no coração é a mais legível mensagem de Deus (3.2,3). O mundo nem sempre lê as Escrituras, mas ele está sempre nos lendo. Somos o quinto evangelho lido pelo mundo. Cada crente é uma espécie de tradução do Evangelho.

b) A verdade escrita no coração é a mais duradoura mensagem de Deus (3.3). A mensagem do evangelho não escrita não em tábuas de pe­dra, mas no coração. Quando uma pessoa se converte a Cristo, ela é selada pelo Espírito Santo e batizada no corpo de Cristo. Ninguém pode desfazer a obra que Deus faz.

c) A verdade escrita no coração é a mensagem mais convincente de Deus (3.2). Uma vida transformada pelo evangelho é um argumento irresistível, irrefutável e irrevogável em favor da verdade. I Co 6.9-11. Cada cristão, goste ou não, é uma propaganda para Cristo e o cristianismo. A honra da Igreja, a honra de Cristo descansa nas mãos dos que o seguem. Julgamos uma igreja pelo tipo de homens que cria; e portanto os homens julgam a Cristo por seus seguidores.[2]

3. A suficiência que vem de Deus, v. 5. Após fazer a defesa de sua auto-recomendação perante os coríntios, Paulo declara que a Sua suficiência provinha de Deus. A razão de tudo o que ele “imagina” ou “planeja” como apóstolo, suas “opiniões”, nunca residem nele mesmo. Toda “suficiência” para seu poderoso serviço “vem de Deus”.


II. A DISTINÇÃO ENTRE AS DUAS ALIANÇAS (3.6-11)

Com o propósito de tratar o assunto de forma teológica, com respeito ao vers. 2: “Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens”, Paulo também cita Moisés porque havia na igreja em Corinto grupos importantes direcionados pelas idéias “judaico-cristãs”. Já em sua primeira carta aparece um grupo de cristãos que se reporta a Pedro (1Co 1.12). De At 15 e da carta aos Gálatas sabemos com qual intensidade uma certa corrente “judaico-cristã” se alastrava pelo novel cristianismo. [3]

Pois bem, Paulo usa a figura metafórica da lei escrita em tábuas de pedra, pelo próprio Deus (Êx 31.18; Dt 5.22), e a compara à nova aliança, o novo pacto, predito pelos profetas, que afirmaram que Deus a escreveria no coração do seu povo (Jr 31.31-34; Ez 36.26-27).

As duas alianças são provenientes de Deus, mas o segundo é superior, porque veio mediante a pessoa de Jesus Cristo, que consumou todas as coisas do Antigo Pacto, em um único ato sacrificial (Hb 7.27; 12.24; 1 Pe 1.2).

A palavra nova que Paulo utiliza ao falar da nova aliança, é a mesma que utilizou Jesus e é muito significativa, 1 Co 11.25

1. A distinção entre as duas Alianças (3.6). Paulo mostra aos coríntios que a “velha aliança” ou o velho pacto” tinha em seu conteúdo a sentença de morte sobre o moralmente culpado, por isso, a Antiga Aliança era da “letra: gravado com letras em pedras (2 Co 3.7). Observamos aqui o modo como Paulo ajuda o cristianismo de todos os tempos a encontrar as constatações necessárias e decisivas na questão “antiga e nova aliança”, “lei e evangelho”, “Moisés e Paulo”.

2. A “letra” que mata (3.6). Por muito tempo, a interpretação desse texto provocou receio quanto ao estudo secular e mesmo o teológico. Entretanto, como ficou claro, tal passagem não se refere ao estudo, mas à aplicabilidade das sanções, sentenças e penalidades da lei mosaica que, contrastava-se com o Novo Concerto, o qual tem como propósito único vivificar e absolver. Colin Kruse interpreta esta expressão: “[...] porque a letra mata [...]” (3.6), dizendo que o código escrito (a lei) mata quando usada de modo impróprio, isto é, como um sistema de regras que devem ser observadas a fim de estabelecer a auto-retidão do indivíduo (Rm 3.20; 10-14). Usar a lei dessa forma inevitavelmente conduz à morte, visto que ninguém pode satisfazer às suas exigências e, portanto, todos ficam sob sua condenação.[4]

3. A antiga aliança, o apóstolo chamou de o “Ministério da Morte e Condenação” (v 7,9). Era mortífera porque matava certas coisas. [5]
a) Matava a esperança. Ninguém cria que um homem podia cumpri-la em sua totalidade. Devido à natureza humana, fazê-lo era e é impossível. Portanto só podia produzir uma frustração desesperançada, Ex 34.7
b) Matava a vida. Sob ela o homem não podia alcançar nada mais que a condenação. Estava destinado a isso por sua falta de cumprimento, e isto significava a morte, Ez 18.4; Rm 7.10
c) Matava a força. Era perfeitamente capaz de dizer a um homem o que tinha que fazer, mas não podia ajudá-lo a fazê-lo. Podia diagnosticar a enfermidade, mas não curá-la, Tg 2.10; Gl3.10

Contudo, afirmamos que o problema não é a lei. Ela é santa, justa e boa (Rm 7.12,14). Contudo, o homem é rendido ao pecado, é escravo do pecado e não pode satisfazer as demandas da lei.

AS DIFERENÇAS ENTRE AS ALIANÇAS[6]
ANTIGA ALIANÇA
NOVA ALIANÇA
1. Entregue aos israelitas por intermédio de Moisés.
1. Entregue a humanidade mediante a pessoa de Jesus Cristo (3.4-5)
2. Da letra
2. Do Espírito (3.6)
3. Ministério de Morte
3. Ministério de Vida (3.6)
4. Ministério de Condenação
4. Ministério de Justiça (3.9)
5. Transitória
5. Permanente (3.11)
6. Simbolizada por um véu
6. Simbolizada por um espelho (3.13-18)
7. Não podiam modificar os sentidos embotados
7. Transforma-nos na imagem do Senhor pelo Espírito (3.18)

Warren Wiersbe comentando o texto em apreço esclarece que em sua epístola aos Gálatas, Paulo ressalta as deficiên­cias da lei:
a) ela não é capaz de justificar o pecador (G1 2.16),
b) não tem poder de conceder o Espírito Santo (G1 3.2),
c) não tem como dar uma herança (G1 3.18),
d) Não oferece vida (G1 3.21)
e) Não concede liberdade (Rm 4.8-10).
Concluindo: A glória da lei é, na verdade, a glória de um ministério de morte.[7]

Observe como Paulo entendia que a velha Aliança não o levava a lugar algum, que ele chegou a denominar de “refugo”, Fp 3.4-11.


III. A GLÓRIA DA NOVA ALIANÇA (3.12-18)

1. A superioridade da Nova Aliança sobre a Antiga Aliança. Quando Paulo fala das alianças, ele utiliza paralelos entre a Antiga e a Nova, a fim de esclarecer os crentes quanto às diferenças entre o que era transitório e o que é permanente; entre a lei que condenava e a que liberta. A revelação que veio a Moisés era verdadeira e grandiosa, mas era parcial. A que veio em Jesus Cristo era total, final e completa. Como o assinalou sabiamente Santo Agostinho há muito tempo: "Ficamos em falta com o Antigo Testamento se negarmos que provém do mesmo Deus bom e justo que o Novo. Por outro lado interpretamos mal o Novo, se pusermos o Antigo no mesmo nível." Um é um degrau rumo à glória; o outra é a cúpula da glória. [8]

2. A glória com rostos desvendados (3.13-16). Agora a idéia do véu se apodera da mente de Paulo e ele a utiliza de diversas maneiras. Quando Paulo usa a figura da glória resplandecente da face de Moisés, ele reforça o fato de que tal glória teve que ser coberta com véu e que se desvaneceu com o tempo, portanto, era transitória (Ex 34.33). Porém, a glória da Nova Aliança manifestou-se descoberta, sem véu, porque Cristo a revelou no Calvário. Trata-se da liberdade que temos mediante a obra expiatória de Cristo. “Na antiga aliança, a face de um homem brilhou - na nova, todas brilham.” No vers. 15-16 lemos: “Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles.  Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu lhe é retirado.” Isso significa que, unicamente a conversão a Jesus cria a visão desimpedida para o verdadeiro reconhecimento da antiga aliança. Quem encontrou a vida em Jesus não precisa mais tentar, orgulhosa ou desesperadamente, encontrar na lei a palavra e o caminho da vida. É capaz de reconhecer e admitir que a lei não nos torna pessoas devotas e agradáveis a Deus, mas malditas perante Deus (Gl 3.10).[9]

3. A liberdade do Espírito e a nossa permanente transformação (3.17,18) - Esse versículo tem sido usado, muitas vezes, fora do seu contexto para justificar todo tipo de excessos litúrgicos na igreja, dizendo que temos a liberdade do Espírito para fazermos no culto o que achamos melhor. Isso é um engano. A liberdade que o Espírito nos dá não é para torcermos as Escrituras nem para vivermos ao arrepio da sua lei, mas para vivermos vitoriosamente sobre o pecado.[10]

Paulo diz que onde estiver o Espírito há liberdade.
a) Enquanto nossa obediência a Deus esteja dominada e condicionada por um livro ou um código de leis, estamos na posição de um servo involuntário e um escravo (legalismo).
b) Mas quando provém da obra do: Espírito em nossos corações o centro de nosso ser não tem outro desejo que o de servir e obedecer a Deus devido ao fato de que o amor o obriga e não a lei (liberdade, Rm 8.14).

A liberdade do Espírito livrou-nos das amarras das tradições religiosas, que nos impediam de um relacionamento direto com o Senhor. Tal relacionamento é fundamental para que possamos ser transformados e conformados à imagem do homem perfeito e completo: Jesus Cristo (Rm 8.29; Ef 4.13).


CONCLUSÃO

A lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé (G1 3.24). O fim da lei é Cristo (Rm 10.4). A lei aponta o pecado, mas não o remove. O ministério sob a nova aliança, sob a qual os pecados são perdoados para nunca mais serem lembrados, e as pessoas são motivadas e capacitadas pelo Espírito a fim de realizar aquilo que a aplicação imprópria da lei jamais poderia conseguir (Jr 31.31-34; Ez 36.25-27; Rm 8.3,4).

A lei como expressão da vontade de Deus para a conduta humana ainda é válida. De fato, Paulo diz que o propósito de Deus ao inaugurar a nova aliança do Espírito era exatamente este: que as exigências justas da lei pudessem ser cumpridas nas pessoas que andam segundo o Espírito (Rm 8.4).

Hoje, a glória que reflete em nossa vida não é a dos rostos, mas é aquela glória interior, que reflete a transformação na semelhança de Cristo, de forma gradual, de glória em glória, mediante a presença do Espírito de Cristo em cada um de nós.




[1] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007.
[2] BARCLAY, William. 2 Coríntios: O Novo Testamento Comentado. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1983.
[3] BOOR, Werner. 2 Cartas aos Coríntios – Comentário Bíblico Esperança. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2004.
[4] KRUSE, Colin. II Coríntios: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.
[5] BARCLAY, William. 2 Coríntios: O Novo Testamento Comentado. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1983.
[6] RICHARDS, L. O. Comentário Histórico-Cultural do Novo testamento. 1.ed. RJ: CPAD, 2008, p.35
[7] WIERSBE, William. Comentário Bíbico Expositivo: Novo Testamento, Vol 1. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
[8] BARCLAY, William. 2 Coríntios: O Novo Testamento Comentado. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1983.
[9] BOOR, Werner. 2 Cartas aos Coríntios – Comentário Bíblico Esperança. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2004.
[10] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007

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