domingo, 20 de março de 2016

ESTUDO Nº 03 - O CORTEJO TRIUNFAL DE CRISTO (2 Coríntios 2.14-17)



INTRODUÇÃO

Na religiosidade popular brasileira é muito comum a imagem do Cristo agonizante, sofredor e derrotado, que é apresentado como modelo para que os que padecem possam enfrentar as lutas da vida, mais conformados e resignados. Contudo, o Cristo vivo da revelação bíblica não é o Cristo apresentado popularmente, ainda preso à cruz. Pelo contrário, é o Cristo vencedor e triunfante. Este é o assunto a ser considerado no presente estudo, Fp 2.9-11.

Paulo escreve esse trecho usando três "metáforas" (Metáfora é a palavra ou expressão que produz sentidos figurados por meio de comparações implícitas.
1. Metáfora do cortejo - vs. 14;
2. Metáfora do bom perfume - vs. 15-16;
3. Metáfora do mascate - vs. 17;

Fazendo uma análise expositiva do texto nos deparamos com ensinamentos profundo sobre o efeito do Triunfo de Cristo em nossas vidas, a saber:


1 - O ALCANCE DO TRIUNFO DE CRISTO.

v. 14 - Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento. Nos tempos do Império Romano, era comum um general do exército conquistar e anexar territórios aos domínios do imperador. Quando isto acontecia, o Senado promovia uma grande festa em homenagem ao general vitorioso. Esta homenagem era chamada de "triunfo". Em um triunfo, o general vitorioso era saudado e aclamado como um herói.[1]

A palavra triunfo aparece duas vezes no Novo Testamento com o sentido de cortejo, em 2 Coríntios 2.14 e Efésios 4.8. Quando Paulo usa essa metáfora, ele trás o sentido de que Cristo triunfa, ele é o vencedor, e tal vencedor recebe uma cerimônia de cortejo, ou seja, ele carrega os seus cativos e despojos da guerra juntamente com seu exército. 

Cristo vence os seus adversários, os levando à derrota, e esses adversários somos nós. Ele venceu quando foi crucificado, morto e sepultado, ressuscitando ao terceiro dia. Por isso o nosso velho "eu" foi derrotado e agora quem reina sobre nós é Cristo Jesus o vencedor. Esse é o sentido da metáfora do cortejo usado por Paulo na palavra "triunfo".

“Manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento.” (v.14). Portanto, a vitória obtida por Cristo Jesus na cruz tem grande amplitude, isto é, um alcance tremendo. 

Pode-se afirmar que vitória de Cristo tem:

1.1. Alcance Cósmico - Quando Paulo diz "em todo lugar", está afirmando que a vitória de Jesus na cruz tem efeitos que são conhecidos até no mundo espiritual, Cl 2.15

1.2. Alcance Mundial - A vitória de Cristo tem, naturalmente, um alcance mundial, que é manifesto por Ele mesmo em toda parte. O conhecimento de salvação em Cristo deve se espalhar para todas as partes do mundo que Deus amou e ao qual enviou Seu Filho para salvar (Jo 3.16, Ap 7.9)

1.3. Alcance Histórico - "Deus nos conduz em triunfo sempre", diz Paulo. A palavra "sempre" indica que a vitória de Cristo deve ser comunicada em todo tempo. E um anúncio de valor permanente, que atravessa os séculos com o mesmo poder de salvar os que crêem (Mc 16.16).


2 - O RESULTADO DO TRIUNFO DE CRISTO.

v. 15 - Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem.

a) Segundo alguns estudiosos, povo queimava incensos e exalava fragrâncias variadas de flores, enchendo o ar daquele agradável cheiro, para homenageá-lo, e seus soldados marchavam alegres com sua vitória. 

b) O texto diz literalmente; "Porque para Deus somos o bom cheiro de Cristo". O que Paulo estava dizendo à igreja de Corinto era que ele e seus companheiros de ministério eram os agentes que espalhavam a perfumada fragrância de Cristo por onde andavam.

E do projeto de Deus usar o perfume que somos para perfumar o mundo. Na imagem da procissão do triunfo, enquanto ela durava, as pessoas viviam a vitoria do seu general. Nossa vitoria e a garantia da vitoria de Deus no mundo. O conhecimento de Cristo e uma fragrância (um cheiro, um perfume E não ha como tal fragrância ser conhecida senão por nosso intermédio.[2]

v. 16 - Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida. Quem, porém, é suficiente para estas coisas?

a) Diante daquela festa, os soldados derrotados marchavam cabisbaixos, caminhando envergonhados para a escravidão ou a morte. O mesmo incenso que era símbolo de vitória e alegria para uns, era símbolo de derrota e tristeza para outros.[3]

b) O que precisamos entender que para alguns a pregação do Evangelho é cheiro de morte, para outros é cheiro de vida. Morte por rejeitarem a mensagem, e vida por aceitarem a Cristo e sua Palavra l Co 1.18.

“Os crentes verdadeiros exalam um perfume agradável, não somente em termos de seu relacionamento com Deus, mas também em suas interações com aqueles ao seu redor. Por outro lado, a vida dos crentes amedronta os incrédulos, que reconhecem que falta neles mesmo a doçura do aroma espiritual de Cristo”.[4]

Calvino escreve: “O evangelho é pregado para a salvação, pois este é seu real propósito, mas somente os que crêem participam desta salvação; para os incrédulos é uma ocasião de condenação, mas são eles que o fazem assim”.[5]

Observamos aqui uma pergunta crucial e uma resposta sucinta: “Quem, porém, é suficiente para estas coisas?” Quem e como é possível exalar o bom “perfume de Cristo”?

A resposta está no final do v. 17 – “falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus”

Este e o grande método de evangelização: ser aquilo que nos somos e falar o que provem de Deus. E isto que é sinceridade. Trata-se de uma meta a ser perseguida. Quanto mais nos somos aquilo que falamos que somos, mais nossa vida vai testemunhar de Deus e exalar o bom “perfume de Cristo”. [6]

Não somos apenas perfume de Cristo, mas o bom perfume de Cristo. Um bom perfume tem quatro características:
1) o bom perfume é precioso.
2) O bom perfume influencia sem alarde. (Jo 12.3).
3) O bom perfume atrai as pessoas.
4) O bom perfume torna o ambiente mais agradável.
Assim somos nós, povo de Deus. Somos o bom perfume de Cristo. [7]


3 - O DESAFIO DO TRIUNFO DE CRISTO.

v. 17 - Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus.

A Bíblia de Jerusalém traduz esta passagem por "falsificar" a Palavra de Deus. Por detrás desta expressão, está a ideia do comerciante desonesto que, para se enriquecer rapidamente, acrescenta água ao vinho (ou leite) que vende. [8]

Paulo revela que, em Corinto e outros lugares, pregadores estavam mascateando o evangelho como mercadoria. Com todos os problemas que os coríntios tinham, eles também tiveram de lidar com esses mascates de religião. Paulo usa o termo mercadejando para aqueles pregadores itinerantes que vendiam um evangelho diluído como se fosse mercadoria, tiravam seu lucro e saíam. Ele não diz quantos havia, mas podemos sugerir que a palavra muitos indica que eles estavam em outros lugares além de Corinto. [9]

Paulo, aqui, está se defendendo daqueles que duvidavam de sua autoridade apostólica, dizendo que não estava buscando lucro pessoal com o anúncio do Evangelho de salvação pela fé em Cristo e expondo os tais “Falsos apóstolos”.

Como é possível que “tantos” cheguem a um comportamento assim? Em Fp 3.17-19 Paulo revelou de forma mais acerba as motivações interiores de tais pessoas. Para elas “o ventre é seu deus” (Cf. Rm 16.18), buscam seu próprio bem-estar. Por essa razão são “inimigos da cruz de Cristo”. 

Todo o seu ministério é dominado pelo eu e por suas reivindicações. Para Paulo é revoltante e terrível que essas pessoas subordinem a palavra de Deus, a mensagem que decide sobre morte eterna e vida eterna, a seus interesses egoístas. 

Em 2 Co 11.13-15 Paulo os designe de servos de Satanás. 

Em 2 Co 11.21s e 13.1-4 Paulo voltará a pronunciar-se contra eles com toda a veemência e determinação. Agora diz aos coríntios, que em parte se deixaram influenciar por eles: não somos como eles! Lidamos de forma santa e pura com a palavra de Deus.

Este não é e nem pode ser o objetivo da pregação do Evangelho. Antes, o anúncio do triunfo de Cristo deve ser feito com temor e tremor, "na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus".

Com respeito a fidelidade na pregação do Evangelho, Calvino escreveu: “Se alguém tiver estes três elementos em mente, não correrá nenhum risco de corromper a Palavra de Deus. Primeiro, devemos ser motivados por legítimo zelo por Deus; segundo, devemos lembrar que a obra que estamos realizando é dEle e que deve ser introduzido só aquilo que vem dEle; terceiro, devemos lembrar que ele vê tudo quanto fazemos e aprender a confiar tudo ao seu juízo”. [10]


CONCLUSÃO

Essas três metáforas usadas por Paulo nos revelam a essência de uma vida Cristã, onde Cristo nos leva em cortejo por ter derrotado nossa velha natureza e nos propondo uma nova vida, que resultara em exalar o bom perfume ao Senhor como sacrifício vivo. Nos leva a exalar também aos que estão à nossa volta salvando ou condenando-os. Assim podemos ter a certeza de que temos o verdadeiro evangelho, aquele ensinado e vivido por Cristo Jesus, que chegou a nós gratuitamente e chegará através de nossas vidas aos outros, também gratuitamente. Que Deus nos use para sua glória. Soli Deo Gloria!

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[1] BOOR, Werner. 2 Cartas aos Coríntios – Comentário Bíblico Esperança. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2004, p. 26.
[2] AZEVEDO, Israel Belo. Pastoreados por Paulo: As mensagens de Romanos a Efésios. Vol 1. São Paulo: Editora Hagnos, 2012, p. 237.
[3] STEDMAN, Ray. A Dinâmica da Vida Autentica. São Paulo: Editora Sepal, 1975
[4] Comentários da Bíblia de Estudo de Genebra. Edição Revista e Ampliada. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.
[5] CALVINO, João. 2 Coríntios: Série Comentários Bíblicos. São Paulo: Editora Fiel, 2008, p. 80, p. 76
[6] AZEVEDO, Israel Belo. Pastoreados por Paulo: As mensagens de Romanos a Efésios. Vol 1. São Paulo: Editora Hagnos, 2012, p. 240.
[7] LOPES, Hernandes Dias Lopes, II Coríntios: O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. São Paulo: Hagnos, 2007, p. 65
[8] BOOR, Werner. 2 Cartas aos Coríntios – Comentário Bíblico Esperança. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2004, p. 28.
[9] SISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 135.
[10] CALVINO, João. 2 Coríntios: Série Comentários Bíblicos. São Paulo: Editora Fiel, 2008, p. 80.

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