sábado, 19 de dezembro de 2015

SERIE ESTUDANDO A NATUREZA HUMANA - ESTUDO Nº 02: Egoísmo - A Prática do Amor Próprio (Mateus 22.34-40)


INTRODUÇÃO
 “Cada um por si e Deus por todos!” – Com certeza, você já ouviu esta frase. Ela traduz o conceito que muitos têm da vida. São aqueles que se preocupam apenas consigo próprios. É não são poucos os que só querem levar vantagem. Esta atitude, tão presente no coração humano, que se manifesta nos relacionamentos é chamada “egoísmo”.
Isso é uma características dos homens nos “últimos dias” que o apostolo Paulo avisou a Timóteo, 2 Tm 3.1-3. Nas de­zenove expressões, com as quais descreve os homens iníquos, res­ponsáveis pelos "tempos difíceis". A primeira diz que são "egoístas", ou "amigos de si próprios" (philautoi); Ao invés de serem em primeiro lugar "ami­gos de Deus" são "egoístas" (amigos de si mesmos).[1]
Egoísmo (ego + ismo) é o hábito ou a atitude de uma pessoa colocar seus interesses, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar, em detrimento (ou não) do ambiente e das demais pessoas com que se relaciona. As três primeiras ampliam o significado do amor egocêntrico. Os homens egoístas tornam-se "jactanciosos", "arrogantes", e "blas­femadores". [2]
Já o egocentrismo caracteriza-se pela fantasia de imaginar que o mundo gira em torno de si, tomando o eu como referência para todas as relações e fatos. A pessoa egocêntrica é egoísta, no sentido de que não consegue imaginar que não seja ela a prioridade no mundo em que vive.
O psicanalista Flávio Gikovate escreveu algo bastante interessante acercad do egoísta. Ele diz que não devemos pensar que ser individualista é o mesmo que ser egoísta. O egoísta não pode ser individualista porque ele tem que ser favorável à vida em grupo já que não tem competência para gerar tudo aquilo que necessita. É do grupo – ou de algumas pessoas pertencentes ao grupo – que irá extrair benefícios. O egoísta é aquele que precisa receber mais do que é capaz de dar. É um fraco e não um esperto. Ou melhor, é esperto porque é fraco e precisa usar a inteligência para ludibriar outras pessoas e delas obter o que necessita e não é capaz de gerar. O egoísta tem que ser simpático e extrovertido. Não é assim porque gosta das pessoas e de estar com elas. É assim porque precisa delas e tem que seduzi-las com o intuito de extrair delas aquilo que necessita.[3]


I. O EGOÍSMO E O MANDAMENTO DO AMOR
         A Ética cristã esta fundada no amor: amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Ai não há espaço para o egoísmo. A parábola do bom Samaritano (Lc 10.25-37) ilustra muito bem o que significa amar ao próximo como a si mesmo.
         O ser humano foi criado por Deus para viver numa saudável interdependência – “não e bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). O salmista declarou: “Oh, como é bom e agradável viveram unidos irmãos”! (Sl 133.1). A igreja do novo testamento se distinguia em virtude de um estilo de vida desprendido e altruísta (At 4.32-37).
         O egoísmo arraigado em tantos corações e mentes, tem sido um grande empecilho para a construção de um mundo mais humano, justo e solidário. Diante da cultura do individualismo e da competitividade que rege o mundo hoje, onde o outro é visto não como irmão e parceiro, mas apenas como concorrente, o povo de Deus é desafiado a deflagrar uma revolução: a revolução do amor (Mt 5.43-48).
Tasker escreveu: “um homem não pode amar a Deus num sentido real sem amar também a seu próximo, feito como ele á imagem de Deus” [4]
Esta é a mensagem de I João 4.20,21.
Enfatizando a centralidade do amor, Jesus declara que “destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (v.40). Mas, por que são estes dois mandamentos os mais importantes?
Hendriksen sugere três razões: [5]
1. A fé e a esperança recebem, o amor dá;
2. Todas as demais virtudes estão incluídas no amor.
3. O amor segue o padrão de Deus, pois Deus é amor
Já nascemos egoístas, odiosos e odiando-nos uns aos outros (Tt 3.3). Jamais amaremos corretamente o nosso próximo enquanto nosso coração não for transformado pelo Espírito Santo. Precisamos nascer de novo. Precisamos despir-nos do velho homem, revestir-nos do novo homem e receber a mente de Cristo. Então, e só então, nosso coração insensível conhecerá o verdadeiro amor que vem de Deus e se estende a todos. O fruto do Espírito é amor (G1 5.22). [6]


II. CARACTERISTICAS E MALES DECORRENTES DO EGOÍSMO
         Escrevendo ao jovem Timóteo (II Tm 3.1-9) o apostolo Paulo o preveniu de que nos últimos dias sobreviriam tempos difíceis, quando os homens seriam, entre outras coisas, egoístas. Como já foi exposto na introdução, o egoísmo caracteriza-se pela concentração dos interesses do individuo em si mesmo, em detrimento das necessidades do semelhante.
         As terríveis qualidades da impiedade dos “últimos dias”, não é casual que a primeira delas seja a vida centrada em si mesmo. O amor próprio é o pecado básico, do qual provêm os outros pecados. No momento em que uma pessoa faz com que sua própria vontade e seu próprio desejo sejam o centro de sua vida, destroem-se as relações divinas e humanas. Se o eu for o centro da vida, então Cristo desaparece dela. A essência do cristianismo não é entronizar o eu, antes, aboli-lo. Todo pecado começa com o egoísmo. [7] A corrupção moral procede do amor impropriamente dirigido.
Hendriksen, em seu comentário de sobre este texto, traz um exemplo interessante sobre o egoísta, dizendo-o ser igual ao ouriço que enrola-se sobre si mesmo, formando uma bola, deixando em seu interior a penugem suave e quente (amante de si mesmo, egoísta) e exibe os espinhos agudos para quem estiver do lado de fora (que agrada a si próprio, soberbo, arrogante). [8]
Mattew Henry, comentando este texto, diz: “Quem não ama a si mesmo? Mas, aqui se tem em mente um amor próprio irregular e pecaminoso. As pessoas amam o seu eu carnal mais do que o seu eu espiritual. Elas têm prazer em gratificar seus próprios desejos mais do que agradar a Deus e cumprir seu dever. Em vez da caridade cristã, que cuida do bem-estar dos outros, elas somente se preocupam consigo mesmas e preferem sua própria gratificação à edificação da igreja”.[9]
A Bíblia diz em Marcos 8:36-37: “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida? Ou que diria o homem em troca da sua vida?”
O egoísmo é a causa central dos problemas que há entre pessoas. A Bíblia diz em Tiago 4:3 “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.”
O primeiro (egoísmo), o mais “natural” dos pecados, quando nele insistimos e o associamos ao segundo (avareza), bane Deus da vida. Onde “eu e meu” é o princípio que prevalece, resta pouco para restringir os males aqui “esboçados em uma série medonha” [10]
Os homens egoístas tornam-se "jactanciosos", "arrogantes", e "blas­femadores". As pessoas são narcisistas: amam a si mesmas e só se importam com o próprio bem-estar. Essa tendência à idolatria do eu tem arrebentado com os relacionamentos na família, na igreja e na sociedade. [11]
O egoísmo tem remédio. A Bíblia diz em Gálatas 2:20 “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.”


III. O DESAFIO A UM VIVER ALTRUÍSTA
         Deus ordena que o amemos acima de todas as coisas e que amemos ao próximo como a nós mesmos (Mt 22:34-40), mas se amarmos a nós mesmos acima de tudo, não amaremos a Deus nem ao próximo.
Neste universo, existe Deus e existem pessoas e coisas. Devemos adorar a Deus, amar as pessoas e usar as coisas. Mas se começarmos a adorar a nós mesmos, deixaremos Deus de lado e passaremos a amar as coisas e usar as pessoas. Essa é a fórmula para uma vida infeliz; no entanto, é o que caracteriza muita gente hoje. O anseio mundial por coisas é apenas um dos sinais de que o coração das pessoas está longe de Deus. [12]
         O amor desordenado de nós mesmos leva à morte, como diz o Senhor: “O que ama (desordenadamente) a sua vida perdê-la-á; e quem aborrece (ou mortifica) a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna” (João 12, 25).
“Altruísmo” é o oposto de “egoísmo”. Ser altruísta significa ter amor ao próximo, ser abnegado, estar comprometido com causas filantrópicas.
         O altruísmo deve ser uma marca inconfundível de todo cristão. É deprimente alguém se declarar cristão, e viver egoisticamente. O altruísmo cristão, ordenado por Jesus, transforma-se num veemente testemunho ao mundo (Mt 5.16).
         O nosso compromisso solidário não pode ser limitar á igreja a que pertencemos. Devemos abrir o coração as necessidades que nos rodeiam, e o nosso envolvimento deve ser mais abrangente e efetivo. Muitas ONGs tem ocupado espaços onde quem deveria  estar é a igreja. O evangelho que pregamos muitas vezes se mostra acentuadamente conceitual e teórico, e pouco altruísta. Aprendemos com Jesus! (Mt 9.35-37; 14.13-21).
         A influencia do modo de vida atual atinge também os cristãos. Cada um deve avaliar se está vivendo conforme a ética do Reino de Deus, fundada no amor, ou se esta simplesmente seguindo o curso deste mundo.
         O desafio a um viver altruísta tem implicações não apenas em relação ao bem estar do nosso semelhante. Na verdade, tem implicações também escatológicas. Diante disso, todos quantos desejam viver uma cristã aprovado por Deus, devem atentar para as palavras de Jesus em Mateus 25.31-46. [13]
“Exorta aos ricos do presente século que… pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida”. (1 Timóteo 6.17-19)



[1] STOTT, John. Tu, porém – Mensagem de 2º Timóteo. Coleção A Bíblia fala hoje. São Paulo: ABU Editora, 1983.
[2] IBID
[3] GIKOVATE, Flávio. Individualismo não é egoísmo. Disponível in: Acesso em 19 dez 2015.
[4] TASKER, R.V.G., Evangelho Segundo Mateus, Introdução e Comentário, São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1988.
[5] HENDRIKSEN, William. Mateus: Comentário do Novo Testamento, Vol 2. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.
[6] RYLE, J. C. Meditações no Evangelho de Mateus, São Paulo: Editora Fiel, 2011.
[7] BARCLAY, William. O Novo Testamento Comentado. Trad. Carlos Biagini. São Paulo: Paulinas, 2005.
[8] HENDRIKSEN, 1 e 2 Timóteo e Tito: Comentário do Novo Testamento, Vol 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.
[9] HENRY, Matheus. Atos a Apocalipse: Comentário Bíblico, Vol 6. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
[10] BRUCE, F. F. Comentário Bíblico NVI - Antigo e Novo Testamento, São Paulo: Editora Vida, 2008.
[11] LOPES, Hernandes Dias. 2 Timóteo: O Testamento de Paulo a Igreja. São Paulo: Editora Hagnos, 2014.
[12] WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico do Novo Testamento, Vol 2. São Paulo: Geográfica Editora, 2007.
[13] CARSON, Donald Arthur. O Comentário de Mateus. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2010.

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