sábado, 31 de outubro de 2015

SÉRIE ESTUDANDO A NATUREZA HUMANA - ESTUDO Nº 01: Orgulho - O Mal Supremo (Lucas 18.9-14)

Ministrado na Igreja Presbiteriana em 
Salgado de São Félix - PB 


INTRODUÇÃO

Qual é o pior de todos os pecados? Os antigos mestres cristãos diziam que o principal pecado, o mal supremo, capaz de deixar a criatura no mais completo estado anti-Deus, é o orgulho.

A tradição cristã, desde inicio da era medieval, fala dos setes pecados mortais, considerado perigosos o bastante para levar quem os pratica deliberada e permanentemente para longe de Deus, que é a fonte da vida.

Santo Agostinho de Hipona (354-430 AD) escreveu: "o princípio de todo pecado é o orgulho” [1] porque foi isso que derrubou o diabo, de quem surgiu a origem do pecado; e depois, quando sua malícia e inveja perseguiram o homem, o qual ainda desfrutava de sua retidão, o inimigo subverteu-lhe da mesma forma em que ele mesmo caiu. Porque a serpente, de fato, apenas buscou uma porta pela qual entrar quando disse: ‘Sereis como deuses'”[2]

Nas palavras do Professor Robert Mounce, a “lista (dos setes pecados) representa uma tentativa de enumerar os instintos primários que tem a maior probabilidade de dar origem ao pecado”. [3]

Os antigos diziam que o orgulho é o primeiro pecado desta triste lista (os outros seis são a cobiça, a lascívia, a inveja, a glutonaria, a ira e a preguiça). Evidentemente, os pecados mortais são mais que sete, e na verdade, mais que os trezes estudos que iremos abordar nas nossas próximas reuniões.

Tomás de Aquino (1225-1274) que foi um teólogo cristão muito importante afirmou que o pecado do orgulho é um super-pecado. É um pecado “mega”-capital. O pecado do orgulho é o pai de todos os pecados. Ele o chamava de vanglória ou vaidade. [4]



I. BREVE ANÁLISE DO TEXTO

A conhecida parábola de Jesus, narrada apenas por Lucas, é contada em um contexto que apresenta o ensino do Senhor sobre oração. Neste texto temos duas ênfases:

a) A ênfase esta na perseverança que se deve ter na oração.
b) A ênfase na condenação de uma arrogância altiva e soberba, que engana, levando quem se deixa dominar por ela a pensar que é melhor que os outros e não precisa nem de Deus, Lc 18.9

Este texto ilustra muito bem o aspecto ridículo do orgulho, e o resultado desastroso produzido na vida de quem se julga auto-suficiente e melhor que os outros.

Vejamos o contexto:

1. Na Palestina os devotos oravam três vezes por dia: às nove da manhã, ao meio dia, e às três da tarde. Considerava-se que a oração era especialmente eficaz se fosse oferecida no templo, de modo que nessas horas muitos foram aos átrios do templo a orar.

Naquele horário havia dois homens
a) Um fariseu. Este foi realmente para orar a Deus. Orava de si para si mesmo. A verdadeira oração é oferecida sempre a Deus e só a Ele. O fariseu em realidade estava dando testemunho de si mesmo perante Deus, v. 11-12
b) O outro era um coletor de impostos. Este se mantinha afastado, e nem sequer elevava os olhos a Deus. As versões comuns não fazem justiça à sua humildade, pois em realidade sua oração foi: "Deus, sê propício a mim – o pecador", como se não fosse meramente pecador, e sim o pecador por excelência, v. 13

Esta parábola nos diz sem dúvida certas coisas a respeito da oração. [5]

A partir desta parábola de Jesus, Barclay percebe três verdades universais:
1) Ninguém que for orgulhoso poderá orar, 11-12;
2) Ninguém que despreze os seus semelhantes poderá orar, 12;
3) A verdadeira oração surgirá ao colocarmos nossa vida no padrão de Deus, 13-14.

Nesta parábola, Jesus utiliza um de seus trocadilhos favoritos: “pois quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”, v. 14 (Mt 23.12; Lc 14.11).


II. ORGULHO – ARGUMENTAÇÃO BÍBLICO-TEOLÓGICA

O que é orgulho? Trate-se da atitude de considerar-se superior e melhor que as outras pessoas, a ponto de desprezá-las. O orgulho é, portanto, a atitude que leva alguém a considerar-se uma pessoa acima de todas as outras. O pecado do orgulho é uma preocupação com o “eu”. O orgulho tem tudo a ver com "eu, meu e eu mesmo", pois o pecado em si também é centrado no "eu". (Lc 18.9,11-12)

1. É um pecado universal da raça humana e natural ao homem pecador. Foi a soberba que tornou o primeiro casal refém da voz da serpente sob a hipótese de que Deus poderia não estar fazendo a coisa certa (ver Gn 3.1-5). As conseqüências todos conhecem.[6]

Andrew Murray escreveu: “O que você tem de orgulho dentro de você é o que você tem de anjo caído vivendo em você; e o que você tem de verdadeira humildade é o que você tem do Cordeiro de Deus dentro de você.”[7]

2. É um pecado inconsciente. Ninguém tem mais orgulho do que aqueles que pensam que não tem nenhum. E uma das atitudes que se não for bem administrado pode levar o homem ao orgulho é o elogio demasiado, Por incrível que pareça o elogio pode produzir Orgulho e exaltação, (At 16.16-18). Você sabe qual era a verdadeira intenção do inimigo? e por que Paulo se perturbava? A intenção era que Paulo recebesse aquele elogio, e aquela glória para si. Paulo e Silas, iria se ensoberbecer, e pecar contra Deus, por isso Paulo se incomodava e se perturbava, Pv 27.21 [8]

3. É um pecado perigoso – Deus resiste aos soberbos e o abate com poder levando-o a ruína de sua existência, Pv 16.18; 29.23.

João escrevendo a sua primeira carta, ele falou com muita precisão sobre três desejos peçonhentos (1 Jo 2.16): a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida (Orgulho). A soberba é o desejo de posição. É querer estar acima de todos. Tenho afirmado que este tem sido um dos piores e mais demorado de todos os males a morrer no homem: o orgulho, o egoísmo. O indivíduo torna-se "deus" de si mesmo. Deus é contra os orgulhosos, 1 Pe 5.5-6.

4. O orgulho é o cabeça da iniquidade. Não há nada horrível demais para ser cometido. Ele pega aquilo que é melhor e torna-o contra Deus. Por isso Deus abomina a altivez do coração humano, Sl 101.5

Na teologia, o pecado do orgulho é conhecido como um pecado luciferiano. É o pecado de Lúcifer. E C.S. Lewis diz: “O orgulho é o supremo mal. O orgulho é o mais completo estado de alma anti-Deus”. E diz ainda que esse é o pecado que ele ensinou à raça humana. E a Bíblia diz algo muito preciso sobre esse “coração de Lúcifer”, sobre esse orgulho luciferiano, Is 14.11-15; Ez 28.2-19. [9]

Por causa do orgulho, pessoas desprezam, humilham e oprimem seus semelhantes – racismo e preconceito, por exemplo, são manifestações do orgulho. Por isso, o orgulho é um pecado tão grave e serio: sempre alguém encontrara outro que lhe seja superior em uma outra área. E, acima de tudo, e de todos, há o próprio Deus, Fp 2.3

A pessoa orgulhosa considera-se melhor que as outras pessoas. O orgulho não deixa a pessoa reconhecer que, se tem algo de bom, não é pelo seu próprio mérito, mas pela misericórdia divina. Portanto, é ridículo alguém considerar-se superior a quem quer seja. No lugar do orgulho, é preciso sentir gratidão a Deus pelas boas dádivas que ele concede, Rm 12.3


III. VENCENDO O ORGULHO

È possível vencer o orgulho?  Sim, pela graça de Deus. A humildade é o remédio de Deus contra o orgulho. O problema é que, como sabiamente adverte o Rev. John Haggai, em seu livro Seja um líder de verdade, quem é verdadeiramente humilde não pensa em sua humildade, pois a humildade não tem consciência de si mesmo.

Mesmo assim, é possível cultivar alguns princípios de vida que são úteis para a vitória sobre o orgulho. Um destes princípios é ser dependente de Deus como uma criança. O senhor Jesus disse que quem não se tornar como uma criança não entrara no reino dos céus (Mt 18.1-5). A criança não é arrogante.não se considera melhor que ninguém. Para vencemos o orgulho, imitemos as crianças.

Outro principio de vida importante para derrotar o orgulho é o serviço. Jesus, o senhor, serviu sempre.

Ele não teve problemas em fazer o que ninguém queria, e lavar os pés de seus amigos discípulos (tarefa que, naquele tempo, era destinada aos escravos). “Vós me chamais o Mestre e o senhor, dizeis bem, porque eu sou. Ora, se eu sendo o Senhor e o Mestre vos lavei os pés, também vos deveis lavar os pés uns dos outros. Por que vos dei o exemplo, para que, como eu vou fiz, façais vós também” (Jô 13.13-15).

Quem serve aos seus semelhantes desenvolve espírito de humildade.

A Bíblia nos ensina que não temos motivo algum para nos orgulharmos, pois tudo aquilo que temos, que aparentemente nos destaca dos demais, vem de Deus, 1 Co 4.7.



Para Concluir

Cristo mostrou desprezo pelo orgulho humano.
Ele mostrou Seu desprezo pelo orgulho das riquezas, vindo ao mundo de uma mãe pobre demais, tanto de riqueza como de posição social, para exigir um quarto na hospedaria.
Ele mostrou Seu desprezo pelas bênçãos da comunidade, fazendo Seu lar na menosprezada aldeia de Nazaré.
Também mostrou Seu desprezo pelo orgulho da posição social, comendo com publicanos e pecadores.
Jesus mostrou Seu desprezo pelo poder político, recusando-Se a tornar qualquer partido no governo civil do mundo - recusando-Se, até mesmo, a ajudar a estabelecer um estado.
Ainda mostrou Seu desprezo pelo orgulho da reputação sendo sentenciado à morte como um criminoso, numa cruz romana - Jesus Cristo desprezou a vergonha. (Fp 2.5-11)

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[1] Agostinho está aqui citando Eclesiástico 10:14-15: "O início do orgulho num homem é renegar a Deus, pois seu coração se afasta daquele que o criou, porque o princípio de todo pecado é o orgulho; aquele que nele se compraz será coberto de maldições, e acabará sendo por elas derrubado.
[2] GILSON, Etienne. Introdução ao estudo de Santo Agostinho. São Paulo: Paulus, 2006.
[3] MOUNCE, Robert H. Mateus: O Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. São Paulo: Editora Vida, 1991.
[4] AQUINO, Tomás de. Sobre o Ensino (De Magistro) & Os Sete Pecados Capitais, São Paulo, Martins Fontes, 2001.
[5] BARCLAY, William, Comentário Bíblico do Novo Testamento. Versão em português, domínio publico.
[6] FILHO, Caio Fábio de. A Síndrome de Lúcifer. Venda Nova, MG: Editora Betânia, 1988
[7] MURRAY, Andrew. Humildade: A Beleza da Santidade. São Paulo: Editora dos Clássicos, 2009.
[8] BRIGDES, Jerry. Pecados Intocáveis. São Paulo: Vida Nova, 2012.
[9] LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2014.


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