terça-feira, 29 de setembro de 2015

ESTUDO Nº 13 - A ORDEM E DECÊNCIA NO CULTO (1 Coríntios 14.26-40)


INTRODUÇÃO

O culto cristão é um dos mais agradáveis e significativos momentos da vida da igreja. A adoração comunitária é de vital importância para a igreja é a sua alma ou seu pulmão. A música e o louvor, as orações de gratidão e súplica, a leitura e a exposição da Palavra, as ofertas e apelos, a ministração do Batismo e a celebração de Ceia, enfim, tudo o que acontece na reunião pública da igreja é determinante para todos os seus demais atos. 

O termo “culto” tanto no Antigo (’ābad) quanto em o Novo Testamento (latreuō), significa “servir”, “serviço”, referindo-se ao “serviço sagrado oferecido a uma divindade” (Êx 20.5; Mt 3.10).

O culto de adoração a Deus é a mais sacra reunião da igreja, em gratidão ao Senhor por todas as bênçãos salvíficas (Sl 116.12,13). A pessoa principal do culto não é o pregador, o cantor, os conjuntos, os obreiros, mas o Senhor Jesus Cristo. A Ele toda glória! (Ap 15.3,4). Portanto, devemos prestar nosso culto a Deus com ordem e decência (1 Co 14.40). Evitando o formalismo do ritual, da liturgia seca e mecânica que impede a ação do Espírito, mas também, fugir da irracionalidade e do descomedimento, que escandaliza e impede a edificação coletiva (1 Co 14.26-40).

Por trás de muitas manifestações cúlticas (derivado de culto), pode haver problemas vários que vão desde motivações erradas até a carnalidade. Muitas igrejas sofrem uma crise litúrgica devido ao menosprezo a questões que merecem um tratamento adequado. Em Corinto, os problemas exigiram uma postura corretiva através do apóstolo Paulo. 

Vamos abrir os corações e mentes e examinar as instruções do apóstolo e aprender a cultuar ao Senhor com decência e ordem.

Conforme já observamos, os capítulos 12 a 14 foram escritos por Paulo para responder as perguntas feitas pelos coríntios sobre a atividade dos “espirituais” nos cultos. Além das perguntas dos coríntios, Paulo deve ter tomado conhecimento, pelos enviados de Cloe, de irregularidades relacionadas com a participação dos “espirituais” nos cultos (1.11)

Uma das perguntas feitas pelos coríntios, provavelmente, havia sido “como reconhecer a participação de alguém no culto que está sendo verdadeiramente movido pelo Espírito Santo?” Segundo Hobbs, o que havia nos cultos em Corinto era: “individualismo estrelismo, confusão no uso dos dons, ênfase nas experiências pessoais e a falta de discernimento entre o sacro, o humano e o diabólico”.[1]

O apóstolo Paulo observa a desordem e o desentendimento dos irmãos e sugere algumas posturas disciplinares que pretendiam corrigir e orientar os crentes em um culto que agrada a Deus. Então, constata-se a existência de uma rica e participativa liturgia (um tem salmo...) Porém, cada um agia por si só, ao seu bel prazer, buscando o seu próprio interesse, perdendo completamente a noção da verdadeira adoração.

Segundo o apóstolo, o culto da igreja deve ser celebrado com “decência e ordem”. Isto é indispensável à igreja em todas as épocas. O princípio defendido pelo apóstolo pode nortear todos os nossos atos e aperfeiçoar a adoração comunitária da igreja. O desconhecimento dos princípios básicos relacionados com a obra do Espírito na comunidade e no culto estava na raiz dos problemas litúrgicos da comunidade.

A partir do texto, podemos concluir que:


I. ORDEM NO CULTO: DECÊNCIA E PROPRIEDADE.

A palavra decência significa: Qualidade de decente, decoro, dignidade, honestidade, adequado, que tem modos. Cremos que Deus é Santo e sendo Santo não compactua com coisas erradas e com o pecado. O culto para Deus deve ser feito com muita reverência e ordem, pois Deus não é Deus de confusão senão de paz (I Co 14. 33).

a) Um culto que glorifica o Senhor Jesus - O Espírito Santo, atuando na igreja por meio dos dons espirituais, sempre exalta a pessoa de Cristo. Em palavras simples, Cristo é o centro do culto prestado a Deus em Espírito e verdade., I Co 12.1-3.

O Espírito Santo falando por meio dos crentes, por meio dos dons espirituais, sempre exalta a Cristo como Senhor, sempre guia os crentes à Cristo, a reconhecer a sua glória! Paulo não está dizendo nenhuma novidade, o próprio Senhor Jesus já havia estabelecido este ponto, Jo 16.13-15. O culto é voltado para Deus. É teocêntrico - e nisso, cristocêntrico, não antropocêntrico. Nem mesmo manifestações espirituais extraordinárias como curas, milagres e línguas, devem ocupar o lugar de Cristo no culto. “se alguém ou algum movimento, de alguma forma, diminui a pessoa de Cristo, se de alguma forma subtrai a glória de Cristo, se de alguma forma Cristo é colocado nos bastidores, a inspiração por detrás dessa pessoa, movimento ou manifestação não é do Espírito Santo”[2]

Na expressão do comentarista David Prior, “Quando o Espírito está realmente no controle, Ele produz paz, não confusão. Este é o maior desafio para que a congregação siga em frente, descobrindo e usando todos os dons do Espírito”.[3] 


b) A forma do culto provém do próprio Deus - O culto é a resposta do homem a Deus, com fé e gratidão. Isto indica que é Deus quem dá o primeiro passo na forma como ele deve e quer ser adorado (Êx 29.38-46). Devemos ter sempre diante de nós a convicção e o propósito de que o culto é oferecido a Deus. O próprio Deus estabelece os métodos de adoração em sua Palavra – A Arca: Ex 37.1-5; Nm 7.9, 2 Sm 6.3-6; 1 Cr 15.13-15). Pode parecer estranho o que estamos dizendo, visto que podemos simplesmente pensar que o culto que prestamos é obviamente dirigido a Deus. No entanto, no verso 14 do salmo 50, o escritor enfatiza: “Oferece a Deus sacrifício de ações de graça”.
[1] SCHWERTLEY, Brian. O Princípio Regulador do Culto [4]



II. ORDEM NO CULTO: ORDEM E CONTROLE DOS EXCESSOS

Pelo texto, observa-se que em Corinto cada membro da igreja oferecia a sua contribuição, participando ativamente do culto: “um tem salmo, outro doutrina, este traz revelação, aquele outro língua, e ainda outro interpretação" (v.26). O apóstolo não condena a disposição e envolvimento de todos no culto. Porem, isto requer ordem, harmonia e entendimento. É como se Paulo tivesse dizendo que o culto tem que ter ordem, seqüência lógica e entendimento. O culto precisa ter ordem e não formalismo. O apóstolo da algumas orientações que beneficiam a coletividade. Para o bem-estar e crescimento de todos, ele recomenda:

1. No caso de haver línguas
a) Apenas dois, no máximo três, poderíam falar. Determinando que apenas dois falem por vez, Paulo está resumindo o número total de participações no culto a dois.
b) Cada um por sua vez. Literalmente, “por partes” (ana meros), isto é, numa seqüência, um após o outro (cf. Vulgata, “et per partes”).
c) Tinha de haver intérprete. Tudo que fosse falado em línguas no culto tinha de ser interpretado.
d) Caso não houvesse intérprete, deveria ficar calado na igreja. A construção da frase no grego deixa implícito que nem sempre havería um intérprete presente.

Leon Morris escreveu: “Isto nos mostra que não devemos pensar que falar “línguas” é resultado de um irresistível impulso do Espírito, empurrando o homem, quer este o queira quer não, a um linguajar extático. Se ele quiser, poderá ficar calado, e isto Paulo o instrui a fazer quando for oportuno”.[5]

2. Quantos aos profetas
a) Apenas dois ou três deveríam falar (14.29ª) - Como no caso das línguas, Paulo estabelece o número máximo de profetas em três. Nem todos os cristãos eram profetas (12.29). E mesmo que os profetas tenham sido colocados por Deus na Igreja (12.28), isso não significava que todos poderíam falar como e quando quisessem.
b) A profecia deveria ser julgada. Embora não se devesse desprezar as profecias (1 Ts 5.20), era necessário julgar se provinham do Espírito de Deus.
c) Em caso de revelação dada a outro, o profeta que falava deveria calar-se (14.30).
d) Os profetas deveríam falar cada um por sua vez. A semelhança das línguas, a profecia deveria ser dada uma por uma, isto é, que os profetas falassem um após o outro.
e) “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas'” (14.32). Leon Morris escreveu: “Exatamente como os que falavam com “línguas” tinham a capacidade de ficar em silêncio quando queriam, assim com a profecia. Esta não é uma compulsão irresistível sobrevinda a um homem. A profecia é um meio de iluminação divina, mas o profeta pode manter silêncio”. [6]

3. A participação das mulheres

Paulo passa em seguida a regular a participação das mulheres (I Co 14.33b-35). Ele já havia determinado que as profetizas participassem do culto cobrindo a cabeça com o véu. Agora, ele impõe uma restrição à fala das mulheres no culto. No meu entender, a interpretação que traz menos problemas é a que defende que Paulo tem em mente um tipo de “fala” pelas mulheres nas igrejas que implique uma posição de autoridade. Elas podiam falar nos cultos, mas não de forma que parecessem insubmissas (ver v. 34b).[7]

Sobre este assunto, concordo plenamente com Barclay quando escreve: “Com toda a probabilidade, o que ocupava mais que tudo a sua mente era o lasso estado moral de Corinto, e a convicção de que não se deveria fazer nada que trouxesse à novel igreja a mais leve suspeita de despudor. Certamente seria errôneo tirar estas palavras de Paulo do contexto para o qual foram escritas”.[8]

Infelizmente temos visto um falso espiritualismo que já penetrou em muitas igrejas, vemos pessoas rodopiando, caindo no chão e até rolando dizendo-se cheias do Espírito Santo, outras se retorcendo, crentes recebendo “o anjo Miguel, anjos de guerra, anjos de todos os tipos”. A distorção do culto bíblico chegou a tal nível que criam movimentos para dar evasão a carnalidade exebicionista. O Pastor Manoel Gonçalves disse: “Eu sou Pentecostal há mais de 36 anos, nunca vi nos tempos da minha conversão pessoas dançando, pulando, caindo no chão e fazendo coisas horríveis como os crentes de agora!” [9]

Quando lemos Atos 2 não vemos eles rodopiando, pulando, rolando no chão, mas estavam todos assentados (At 2.2b).


III. ORDEM NO CULTO: PROMOVE A EDIFICAÇÃO

Hernandes Dias Lopes, escreveu: “O culto tem três aspectos: Deus é adorado, o povo de Deus é edificado e os incrédulos são convencidos de seus pecados. Se formos à igreja para adorar com o propósito de demonstrarmos a nossa espiritualidade, estaremos laborando em erro. O culto é para a edificação e não para exibição. Mas a igreja de Corinto estava transformando o culto num palco de exibição em vez de um canal para edificação”.[10]

O culto deve ser voltado para a edificação da coletividade e a instrução do povo de Deus na Palavra deve receber a prioridade. 

Na parte final do texto, o apóstolo faz um comentário interessante a respeito da verdadeira espiritualidade. Ele reivindica a sua autoridade apostólica esperando a total submissão dos seus leitores: “Se alguém se considera profeta, ou espiritual, reconheça ser mandamento do Senhor o que vos escrevo” (v.37). 

A disposição de aprender a servir à Causa deve estar em primeiro lugar. Muita gente tem dificuldade em entrar no Templo para ouvir as instruções do Senhor. Alguns se consideram dispensados de aprender alguma coisa, por se julgarem muito capacitados e preparados. Na igreja, há até os que se julgam os únicos certos do grupo. Para o apóstolo esta reivindicação (ainda que seja somente interior) é sinal de insubmissão e carnalidade. Deus merece o melhor de todos nós! No culto devemos demonstrar isso, pois “tudo deve ser feito de maneira tão decente quanto possível, e com a devida consideração pela ordem. A falta de decoro e a inovação indevida são igualmente desencorajadas".[11] 

Participemos, pois, intensivamente dos cultos, não esquecendo a recomendação de Paulo: Tudo, porem, seja feito com decência e ordem ”(v.40).

____________________
[1] HOBBS, Herschel h. The Epistles to the Corinthians. Michigan: Baker Book House, 1960.
[2] LOPES, Augustus Nicodemus. O culto espiritual: um estudo em 1 Coríntios sobre questões atuais e diretrizes bíblicas para o culto cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
[3] PRIOR, David. A Mensagem de 1 Coríntios: A vida na igreja local. São Paulo: ABU Editora, 2001.
[4] SCHWERTLEY, Brian. O Princípio Regulador do Culto. Disponível in: Acesso 10 mai 2015.
[5] MORRIS, Leon. I Coríntios - Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica, volume 7. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1989.
[6] MORRIS, Leon. I Coríntios - Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica, volume 7. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1989.
[7] LOPES, Augustus Nicodemus. O culto espiritual: um estudo em 1 Coríntios sobre questões atuais e diretrizes bíblicas para o culto cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
[8] BARCLAY, William, Comentário Bíblico do Novo Testamento. Versão em português, domínio publico.
[9] GONÇALVES, Manoel. Culto Estranho. Disponível em:
[10] LOPES, Hernandes Dias, I Coríntios: Como resolver conflitos na Igreja. São Paulo: Hagnos, 2008.
[11] MORRIS, Leon. I Coríntios - Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica, volume 7. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1989.

Um comentário:

Salomão Pereira de Souza Junior disse...

Paz de Cristo, boa essa publicação gostaria de obter mais estudos de uma forma geral, o senhor pode me mandar pelo meu Email?

Muito obrigado.