sexta-feira, 25 de setembro de 2015

ESTUDO Nº 12 - PROFECIA: DOM OU MINISTÉRIO (1 Coríntios 14)


(Ministrado na Igreja Evangélica Congregacional em 
Salgado de São Félix - PB)


INTRODUÇÃO

Discorrer sobre o dom de profecia na igreja cristã, é um assunto que envolve dificuldades de interpretação, tendo em vista alguns aspectos que parecem não estar bem claros, no texto neotestamentário. Quando se estuda a missão dos profetas, no Antigo Testamento, normalmente, não há grandes questionamentos. Mas, no âmbito do Novo Testamento, persistem algumas indagações. Há dúvidas acerca da correlação entre o dom de “profecia” e o ministério profético. 

Antes de começarmos entendamos três coisas importantes:

1. Deus não muda nunca, Hb 13.8. - Muitos aplicam esse texto para dizer que se Deus agiu ontem de uma forma, ele continuará agindo da mesma forma hoje. Em certo aspecto está certo. Mas, não é isso que o texto está ensinando. Este versículo é similar a Ml 3.6. Este texto trata-se da fidelidade pactual de Deus, porque Ele não varia em seus juramentos e nunca irão perecer aos que ele fez a promessa (caráter e conduta de Deus e não do seu modo de agir).

2. O modelo de ministério profético do Antigo Testamento cessou. - João Batista foi o último profeta do Velho Testamento (Lc 16.16; Hb 1.1-2). Os estudiosos destacam algumas razões pelas quais João Batista é considerado o maior e o último profeta do Antigo Pacto: [1] 
a) Por ter o privilégio de ver o cabal cumprimento das profecias do Antigo Testamento em relação à vinda do Messias; 
b) Por ter sido, ele mesmo, o precursor do Messias, e ser testemunha do Seu ministério; 
c) Por ter batizado o Senhor Jesus nas águas, assumindo a posição de participante do ministério da justiça do Messias; e 
d) Por ter testemunhado o ápice do ministério profético, fechando o ciclo dos profetas do Antigo Pacto (Lc. 16.16). 

3. O dom profético concedido pelo Espírito Santo é superior. - O dom concedido a igreja soberanamente pelo Espírito como lhe apraz, e é bem melhor mais eficaz do que anteriormente, I Ts 5.19-21.


I. PROFETA – SUAS CARACTERÍSTICAS E ATRIBUIÇÕES

1. O profeta no Antigo Testamento - Em momentos cruciais, quando as adversidades ameaçavam a comunidade cristã, homens de Deus eram levantados para transmitir a mensagem de orientação, necessária para sua estabilidade, Dt 18.18; Jr 1.9; Ez 2.7 [2]

O profeta do Antigo Testamento era um homem que, além de transmitir a mensagem de Deus, tinha outras atribuições de ordem nacional. Na unção dos reis, eram os profetas que tinham a incumbência de derramar o azeite santo da unção sobre a cabeça dos governantes (1 Sm 16.1; 1 Rs 19.16). [3]

No Antigo Testamento, o ofício do profeta era de âmbito nacional. Quando Deus levantava um profeta, conferia-lhe a missão de falar em seu Nome para toda a nação e até para povos estranhos.

2. O Profeta do Novo Testamento - O profeta de hoje não tem a missão de ungir reis ou profetas em seu lugar, mas tem a grave responsabilidade de transmitir a mensagem de Deus, nos momentos necessários, no tempo certo, para pessoas ou para a comunidade cristã. 

Os profetas do NT não eram fonte de novas verdades doutrinárias a serem absorvidas pela Igreja e sim expositores da verdade já revelada por Jesus e pelos apóstolos. Eram dotados do dom sobrenatural de conhecer, e com a liberdade de revelar, os “segredos do coração humano”, 1 Co 14.24-25. 

No Novo Testamento, o profeta tem função essencialmente voltada para o âmbito da igreja local. Mas, de modo geral, o profeta da igreja cristã atende à necessidade de edificação, exortação e consolação dos crentes (1 Co 14.3).

Os profetas do Novo Testamento não eram pessoas procuradas por irmãos ou grupos de irmãos, com a finalidade de buscarem orientações pessoais, como ocorre, infelizmente, em alguns lugares, nos dias presentes. 


II. PROFECIA – SUA NATUREZA

1. Significados etimológicos

a) No Antigo Testamento - o termo profecia no Antigo Testamento vem de um verbo hebraico (naba) que significa basicamente anunciar, declarar. Daí, profetizar é “anunciar a mensagem de Deus”. No Antigo Testamento, encontramos dois tipos de profecias: a proclamativa e a preditiva.[4]

O conteúdo da profecia proclamativa pode ser mensagens de exortação, admoestação, ânimo, estímulo, encorajamento, aprovação, promessa, ameaças, aviso, advertência, reprovação, censura, sentença, correção, castigo, julgamento, consolo e conforto.

A profecia preditiva, por sua vez, pode ser literal ou tipológica. A profecia preditiva pode concernir a casos isolados (pessoa, cidade, nação etc) ou pode ser apocalíptica (futurista), podendo ser constituída de casos isolados ou encadeados em conjunto. Quando a profecia preditiva é tipológica, ela utiliza muito tipos, símbolos, figuras e alegorias.

b) No Novo Testamento - Segundo a etimologia da palavra ‘profeta’, o prefixo pro significa em lugar de e phemi (vem do grego) significa falar. Um profeta, então, é alguém que fala em lugar de outra pessoa. Embora toda predição seja uma profecia, nem toda profecia é uma predição. [5]

a) A profecia pode referir-se ao passado (uma palavra inspirada em retrospecto) 
b) A profecia pode referir-se ao presente, assim como ao futuro (uma palavra inspirada em antecipação). 
c) Profecia no sentido de predição é uma declaração do futuro de um modo que seria impossível à sabedoria comum do homem e que só pode vir por inspiração direta de Deus.

2. Significados Bíblicos e teológicos - No Novo Testamento temos a revelação máxima de Deus – Jesus e a revelação máxima da Palavra de Deus, A Bíblia (Hb1.1-2). Desta forma o profeta do Novo testamento não pode mais dizer. Assim diz o Senhor! Afinal se Deus falou é só para obedecer e não questionar.

A profecia fornece um tríplice ministério para a igreja (1 Co 14:3). [6]
– Oikidome, ou edificação, é uma combinação de duas palavras gregas: Oikos (casa), e dome (uma forma da palavra grega que significa construir). Portanto a primeira parte deste tríplice ministério é ajudar a edificar a casa do Senhor (a igreja). O uso desta palavra indica que a profecia contribui para o crescimento espiritual.
- Parakleesis, traduzida por exortação, significa chamar para perto. Seu uso aqui tem o sentido de discurso persuasivo, um pronunciamento comovente, uma palestra instrutiva, admoestadora, consoladora, ou poderosa. A exortação estimula os crentes a atingirem as alturas do tema profético. 
- Paramuthia, traduzida por consolação, significa falar bondosamente ou de forma suave a alguém. A profecia deve ter nela um elemento que procurava suavizar e pacificar, falando de forma persuasiva e com ternura. [7]


III. PROFECIA – O EXERCICIO DO DOM

1. A profecia confirma a Palavra de Deus. Tem como característica principal – “Não falar nada além do que está escrito”, I Co 4.6. [8]

a) O dom de profecia é expor a verdade revelada de Deus conforme está registrada nas Sagradas Escrituras (Gl 1.8-9), O dom de profecia é segundo a proporção da fé E esta fé é o conteúdo das Escrituras – Rm 12:6; 1 Pe 4:1011.

b) A característica do Velho Testamento era de a Bíblia não estar completa, sendo assim Deus ia acrescendo conforme a palavra dos profetas, porém no Novo testamento, nos dias atuais, a Palavra de Deus está completa, Ap 22.18; Gl 1.8; II Tm 3.16-17.

c) O espírito de Profecia é o testemunho de Cristo, Ap 19.10. 

2. A profecia convence os indoutos (os incrédulos ou não instruídos), 1 Co 14.24-25. Os indoutos são aqueles que desconhecem a verdade, o ensinamento ou a adoração. Através da operação da profecia o indouto: [9]
a) Será convencido por todos.
b) Será julgado por todos.
c) Terá os segredos do coração manifestos.
d) Prostar-se-á diante de Deus e entregar-se-á em humildade.
e) Adorará a Deus.
f) Reconhecerá que Deus está de fato no meio de vós.

O efeito da palavra profética é revelar ao homem o seu estado. Todo o seu interior é sondado e exposto. Aquilo que ele escondia no coração, vê reprovado e julgado e ele só podem atribuir isto à atividade de Deus. Reconhece Deus agindo na igreja.[10]

3. Profecia não é para direção pessoal, 1 Co 14.3. Não há nenhuma razão para crer que a característica destacada da profecia é procurar dirigir o futuro pessoal de alguém, se nos basearmos neste versículo. Não é conveniente, então, que você procure uma outra pessoa para lhe dar direção pessoal através dos dons do Espírito. Peça a Deus e ele dará sabedoria a você (Tg 1:5); depois, use seu próprio juízo santificado e seu conhecimento da Palavra de Deus.

4. A profecia está submetido ao crivo de julgamento. - O ministério profético não está isento de erros, por isso, a igreja também deva estar atenta aos falsos mestres, que conduzem muitos ao engano (I Jo. 4.1). A profecia e o profeta têm de ser julgada por outros e não acatada sem restrição como antes, I Co 14.29; II Ts 5.21

Às vezes o dom discernimento de espíritos (I co 12.10) entra em funcionamento nesta hora. Há três possíveis fontes de inspiração de uma profecia: [11]
a) O Espírito Santo.
b) Os espíritos maus, enganadores. A Bíblia nos fala através das quais espíritos de adivinhação se manifestam, Is 8.19-20. Paulo nos chama atenção sobre a sedução que falsos profetas exercem na igreja, 2 Co 11.13-15.
c) O espírito humano. Uma pessoa pode profetizar do seu próprio coração ou deixar suas próprias idéias, pensamentos pessoais, ou opiniões influenciarem suas mensagens proféticas, Jr 14.14; 23.16; Ez 13.2-3. 

A manifestação espiritual de discernimento de espíritos nos capacitará a julgar a fonte das mensagens proféticas.

5. O dom de profecia não é extático – I Co 14.29,31-33 [12] - A concepção pagã da profecia era de uma condição absolutamente passiva no profeta, de modo que, quanto mais inconsciente se mostrava, mais apto estava para receber a mensagem divina, I Rs 18:26 à 28. 

Quando se analisa os escritos proféticos bíblicos observa-se a total impossibilidade de se produzir tais conteúdos em estado de mero êxtase. São escritos com grande escolha de palavras e frases, revelando a vida anterior dos profetas, os seus interesses e ocupações, e apresentando em vários graus a cultura e as circunstâncias do tempo em que cada profecia foi revelada. 

6. O dom de profecia é para todos, I Co 14.1-5 - Nesse trecho das Escrituras, Paulo nos manda procurar com zelo os dons espirituais, mas especialmente que profetizemos. Isso não significa que não devemos desejar os demais dons, mas que devemos colocar esse dom em primeiro lugar. No fim desse capítulo, Paulo repetiu: “Portanto, meus irmãos, procurai com zelo o dom de profetizar”. Dessa maneira, Paulo, escrevendo pela inspiração do Espírito Santo, enfatizou a importância da profecia.


CONCLUSÃO

O dom ministerial e dom espiritual de profecia são imprescindíveis à saúde da Igreja, o Corpo de Cristo. Nesses dias difíceis, a igreja precisa de líderes com o dom ministerial de profecias a fim de denunciar os enganos do mundo e a frieza espiritual da igreja com base na Palavra de Deus. No seio da igreja, também carecemos da manifestação do dom espiritual de profecia a fim de que sejamos edificados, exortados e consolados pela mensagem que provém do Senhor. Busquemos, pois, o dom ministerial e o espiritual de profecia, mas sem esquecer que existe um caminho sobremodo excelente, o do amor cristão (I Co. 12.31).

___________________________
[1] BRUCE, F. F. João: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2007.
[2] SCHULTZ, Samuel J. A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1984.
[3] MERRIL. Eugene, História de Israel no Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. p.85
[4] DOUGLAS, J. D. (org.). O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo,SP: Vida Nova, 1995.
[5] BAXTER, Sidlow. Examinai as Escrituras. Vol. 5. Rio de Janeiro: Ed. Vida Nova
[6] BROWN, Colin & COENEN Lothar. (orgs.); trad. Gordon Chown. 2a ed. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. (2 vol) São Paulo: Vida Nova, 2000.
[7] ORR, Guilherme w.. 27 Chaves para o novo testamento. 2. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1976.
[8] KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 570.
[9] CALVINO, João. 1 Coríntios. 2 ed. São Bernardo do Campo: Edições Parakletos, 2003.
[10] LAHAYE, T., HINDSON, E. Enciclopédia popular de profecia bíblica. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
[11] GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética. São Paulo: Editora Vida, 2002).
[12] GORDON D. Fee e Douglas Stuart. Entendes o que Lês? Edições Vida Nova, 2000


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