segunda-feira, 21 de setembro de 2015

ESTUDO Nº 11 - VARIEDADES DE LÍNGUA: DOM OU EVIDÊNCIA? (1 Coríntios 14)



INTRODUÇÃO

Creio que não seria exagero afirmar que um dos assuntos onde há maior confusão, hoje, é a questão do batismo com o Espírito Santo e o dom de línguas. Não porque a Escritura não seja clara no seu ensino com respeito ao assunto, mas sim porque a experiência, e não a Palavra de Deus, tem ditado a forma de se compreender essa doutrina tão importante.

O pentecostalismo se fundamenta em alguns pontos essenciais básicos, tais como: (1) a identificação do mover do Espírito Santo de Deus; (2) a aceitação de uma categoria de crentes especialmente agraciada pela graça divina; e (3) a precedência da experiência sobre a revelação objetiva das Escrituras, para a formulação de doutrinas.[1]

O pentecostalismo ensina que há duas classes de cristãos: os batizados e os não batizados no Espírito Santo. Os primeiros são poderosos, espirituais e capacitados para a obra do Senhor, os últimos são “meros” crentes. Mas será que é isso que a Bíblia ensina? Há esse tipo de divisão dentro do Corpo de Cristo? 


I. O BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO E O DOM DE LÍNGUAS

1. Batismo com o Espírito Santo - O pentecostalismo clássico ensina que: “O batismo com o Espírito Santo é um revestimento de poder, com a evidência física inicial das línguas estranhas para o ingresso do crente numa vida de profunda adoração e eficiente serviço a Deus (Lc 24.49; At 1.8; 10.46; l Co 14.15,26). Nesse sentido, todos os salvos são batizados pelo Espírito Santo, mas nem todos são batizados com o Espírito Santo.” [2]

William Seymour, considerado dentro do movimento pentecostal, o pai do pentecostalismo abaixo de Deus, escreveu: "Há uma grande diferença entre a pessoa santificada e a que é batizada com o Espírito Santo e com fogo. O santificado é limpo de seus pecados e cheio do amor divino, mas o batizado no Espírito Santo tem poder de Deus em sua alma, poder com Deus e com os homens e poder sobre todos os demônios de Satanás e todos os seus emissários"[3] 

Fica claro nas presentes definições, que o batismo com (no) Espírito Santo é entendido como um acontecimento distinto da regeneração do Espírito (At 2.14; 8.1217; 19.17).

1.1. Argumentação Bíblico-teológica - A idéia que os cristãos precisam ser batizados com o Espírito Santo em algum momento após sua conversão a Cristo é equivocada. Todos os crentes já foram batizados com o Espírito Santo. Na verdade, você não pode ser um cristão, a menos que tenha o Espírito, Jo 7.39; Rm 8.9-10.

João profetiza um evento futuro, apontando um tempo quando o Messias batizaria (tempo futuro) com o Espírito Santo, Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16; Jo 1.33.

O Senhor Jesus fez esta profecia precisamente antes de Sua ascensão aos céus. O contexto do cumprimento profético encontra-se no Dia de Pentecoste, quando Ele derramou o Seu Espírito Santo sobre os discípulos no Cenáculo (Atos 2). 

É tanto que o Apóstolo Pedro falou, enfatiza que, o batismo com o Espírito Santo é (At 11.16-18):
a) Um cumprimento profético, v. 16.
b) Dom do Espírito Santo que cremos quando recebemos o Senhor Jesus (conversão), v. 17.
c) Um dom que é dado a quem recebe da parte de Deus o arrependimento para a vida, v. 18.

O problema consiste na preposição grega “en” (no ou com). Cristãos pentecostais e carismáticos geralmente falam de "batismo no Espírito" em vez de "batismo com o Espírito". A preposição grega en pode ser traduzida das duas maneiras. A expressão que escolhemos depende da nossa convicção. Contudo, para ser acurado (como alguém sempre dever ser ao interpretar a Bíblia), a expressão comum “Batismo DO Espírito Santo” nunca é usada na Bíblia.

Uma prova de que este dom do Espírito Santo (At 10.45), não é uma segunda benção, e sim, a primeira de uma série, é entendermos que o batismo é um ritual de iniciação. “todo batismo tem quatro partes, teologicamente falando. É isto o que verificamos na Bíblia. Em primeiro lugar, o batismo tem que ter um batizador, um batizando e o elemento com que batizar. Tem que ter também propósito ou finalidade; ou seja, um princípio teológico que o determine”. [4]

O Novo Testamento apresenta quatro batismos diferentes.

Ref. Bíblica
Batizador
Batizando
Elemento
1 Co 10.1-2
Deus
Povo de Israel
Água da nuvem
Mc 1.5
João
Jerusalem e Judeía
Água do Rio Jordão
At 8.36-38
Felipe
Eunuco
Agua de rio em Gaza
João 1.33
Jesus
Novo Convertido
(no/com) Espírito Santo

Pois bem. O batismo com o Espírito Santo é a sua inserção no corpo de Cristo (12.13). Todo aquele que foi regenerado, também foi batizado pelo Espírito no corpo de Cristo. Não é o falar em línguas que evidencia essa ligação no corpo, mas a conversão.[5]

2. A evidência do dom de línguas. - O batismo com o Espírito Santo é um revestimento de poder, com a evidência física inicial das línguas estranhas para o ingresso do crente numa vida de profunda adoração e eficiente serviço a Deus (Lc 24.49; At 1.8; 10.46; l Co 14.15,26)[6]

Todos os conceitos emitidos pelos escritores pentecostais é que a evidência do batismo com o Espírito santo é o falar em “línguas estranhas” (Arrington, Stronstad, Pearlman, Andrade, Gilberto, Tognini, Deere, Palma, Gee, etc).

2.1 Um atentado a unidade do Corpo de Cristo - Já se fez referência em estudos anteriores que os problemas que a igreja de Corinto estava experimentando quanto ao exercício de dons e ministérios. Um destes problemas era o orgulho: alguns se consideravam melhores que os outros por possuírem dons espetaculares.

Atualmente se um crente que não fala em outras línguas não é uma pessoa espiritual, mas um crente de segunda categoria. Essa posição não tem amparo bíblico. É um equívoco. Todos os salvos são batizados pelo Espírito no corpo de Cristo (12.13), mas nem todos os crentes têm o dom de variedade de línguas (12.30). 

Augustus Nicodemus, escreveu: “Os que insistem que o batismo com o Espírito Santo é uma experiência distinta da bênção da conversão, uma obra especial da graça desfrutada por alguns e não por todos os crentes, deixam de perceber que o que dá unidade ao corpo de Cristo é exatamente o fato de que todos os crentes genuínos foram batizados pelo mesmo Espírito”. [7]

2.2. As línguas faladas no Novo Testamento eram idiomas estrangeiros

a) O termo línguas (Gr. glossa, plural glossais), é usado de três formas: Idiomas humanos existentes; a linguagem de um grupo étnico separado por idioma ou termo descritivo indicando uma figura de linguagem.[8]

b) Quando os apóstolos foram cheios com o Espírito Santo, eles se tornaram os porta vozes do Espírito falando em línguas estrangeiras (At 2.4). Lucas enfatiza o fato que os apóstolos estavam falando idiomas humanos reais e conhecidos (At 2.5-8) e as línguas foram imediatamente entendidas (At 2.6,11). 

c) Em I Co 14, Paulo descreve o uso de línguas na adoração pública porque em Corinto os crentes estavam abusando desse dom. Eles estavam falando em línguas ao mesmo tempo (14.23) e estavam falando em línguas sem terem as línguas interpretadas (14.13)

A palavra interpretar (hermencuo), é usada de duas formas: 
- Interpretar: quando usada para traduzir o que foi falado ou escrito num idioma estrangeiro para o vernáculo
- Expor: quando usado para exposição das Santas Escrituras.

Paulo mesmo nos mostra de que o que eles estavam falando eram idiomas humanos, pelo próprio contexto do texto, I Co 14.10.

Outro argumento forte é quando o apóstolo Paulo usa a própria lei para dizer que o que eles falavam eram idiomas humanos, I Co 14.21. (Is 28.11).

2.3. Línguas Estranhas (Algaravia ou extáticas) - [...] um revestimento e derramamento de poder do Alto, com a evidência física inicial de línguas estranhas [...][9]

Altair Germano (Pentecostal) escreve: “Vale ressaltar, que o termo "estranha" e "outra", acrescentados à "língua" (glossa), que aparecem respectivamente nos textos de 1 Co 14.2, 4, 5, 6, 13, 14, 23, 27 (Almeida Revista e Corrigida, 1995 e Almeida Revista e Atualizada, 1993), não constam no texto grego do Novo Testamento, sendo acrescentados nestas versões para dar ênfase ao caráter distintivo dessas línguas”. [10]

Chiristenson, escreveu: “Sua [de Paulo] implicação não que eles estavam falando algaravia ou discursos estáticos (estranhas), mas em idiomas não conhecidos por nenhum daqueles que estavam adorando juntamente com eles”.[11] Na visão deste pastor pentecostal a manifestação do dom em Corinto eram essencialmente a mesmo do Dia de Pentecostes.

Porém, você precisa olhar a posição que esse dom ocupa na lista dos dons. Ele é o único dom que não é para a edificação do corpo, mas para a auto-edificação. Portanto, na lista dos dons, ele sempre vem em último lugar.


II. LINGUAS E O DOM DE VARIEDADE DE LÍNGUAS

No capítulo 14 o apóstolo Paulo vai tratar fundamentalmente sobre dois dons espirituais: variedade de línguas e profecia.

1. O ensino de Paulo sobre o dom de variedade de línguas.
a) Fala a Deus e não aos homens – v. 2
b) Não é entendido, pois fala em mistério – v. 2
c) Edifica a si mesmo e não à igreja – v. 4, 16-17
d) não se torna entendido, por isso não edifica – v. 5,11
e) Não entende o que fala – v. 13-15.


Observação importante: Paulo chama atenção o racionalismo no culto. O crente precisa está lúcido. Precisa usar a mente em cinco áreas:
a)    Na oração (v.15),
b)   Nos cânticos (v.15),
c)    Na ação de graças (v.1617),
d)   Na instrução (v.19)
e)    e no juízo (v.20).

f) A variedade de línguas não é para pregação – v. 18-19
g) Escandaliza os incrédulos – v. 23
h) O uso do dom no culto público precisa ser com ordem – v. 27-28
i) O dom de variedade de línguas não deve ser proibido – v. 39

2. Erros relacionados ao uso do dom de variedade de línguas
a) Dar mais valor a este dom do que aos outros, v. 5
b) Pensar que é prova de espiritualidade abundante – 1.7; 3.3; 13.1
c) Pensas que este dom é o selo e a evidência do batismo com o Espírito, 12.13
d) Pensar que todos os crentes devem ter este dom – 12:30
e) Falar todos ao mesmo tempo em culto público, v. 27
f) Falar em estado de êxtase – v. 32
g) Falar em público sem interpretação, v. 2,5,9,11,13,16,27,28,40.
h) Pensar que a oração em línguas é superior à oração no vernáculo, v. 13,15

3. Recomendações do apóstolo
a) Não proíbam que se falem em línguas – v. 39 .
b) Em culto público, falar em línguas só com interpretação – v. 27,28
c) Falar em línguas em particular tem o seu valor, v. 2,4,28

Línguas tem três procedências: dom do Espírito, 12.10; psiquê humana (extático), o diabo (1 Co 12:3).

Para Concluir

Todos nós temos de ser gratos a Deus pelo que ele tem feito no Brasil por meio do movimento pentecostal, que surgiu no início do século XX. Inegavelmente, por meio das igrejas pentecostais, o Evangelho se fez ouvir, de uma forma ou de outra, praticamente no Brasil todo, inclusive em lugares onde as igrejas históricas jamais conseguiram abrir trabalhos. Ao mesmo tempo, é de se lamentar as divisões eclesiásticas que têm acompanhado regularmente esse movimento, que agora já está tão ramificado e dividido, que é praticamente impossível para alguém estar atual
izado quanto ao número de igrejas pentecostais, carismáticas, neo-pentecostais, igrejas de libertação e outras afins, existentes pelo Brasil afora. Os pentecostais, neo-pentecostais e carismáticos têm sido incapazes de convencer a todos os evangélicos da total contemporaneidade dos dons e de continuar convivendo com os discordantes. Da mesma forma, os que têm uma posição mais restrita com relação aos dons espirituais têm se mostrado incapazes de explicar convincentemente todos os aspectos do fenômeno pentecostal e ainda conviver com os não-convencidos. E os que procuram se colocar numa posição intermediária, raramente acabam convencendo alguém dos dois extremos. [12]




[1] PORTELA, Solano. Pentecostalismo, Neopentecostalismo e o Trabalho do Espírito Santo In: Acessado em 20/04/2015.
[2] GILBERTO, Antonio. Verdades Pentecostais: como obter e manter um genuíno avivamento
pentecostal nos dias de hoje. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
[3] BARTLEMAN, Frank. A história do Avivamento da Rua Azusa. Americana: Editora Sena, 2001. OBSERVAÇÃO: Por mais santa que seja esta definição, há termos que precisam ser entendidos. a) pessoas santificadas (Hb 12.14); e b) Tem poder de Deus em sua vida. O que dizer da missão dos Setentas? (Lc 10.17-20).
[4] FILHO, Caio Fábio de A. Espírito Santo: O Deus que habita em nós. São José dos Campos-SP. CLC Editora,1991.
[5] STOTT, John R. W. Batismo e plenitude do Espírito Santo. São Paulo: Vida Nova, 1966.
[6] GEE, Donald. Como receber o batismo no Espírito Santo. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.
[7] LOPES, Augustus Nicodemus. O culto espiritual: um estudo em 1 Coríntios sobre questões atuais e diretrizes bíblicas para o culto cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
[8] FRIBERG, Barbara & FRIBERG, Timothy. O Novo Testamento Grego Analítico. Introdução e Apêndice traduzidos do inglês por Adiel Almeida de Oliveira. São Paulo: Vida Nova, 1987.
[9] GILBERTO, Antonio. Verdades Pentecostais: como obter e manter um genuíno avivamento
pentecostal nos dias de hoje. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
[10] GERMANO, Altair. O Batismo com (no) Espírito Santo perspectivas diversas sob um olhar pentecostal clássico. In; http://www.altairgermano.net/2010/12/o-batismo-com-no-espirito-santo.html Acessado  20/04/2015
[11] CHRISTENSON, Larry. Speaking in Tongues a gift for the Body oh Christ. Fontains Trust, 1907, p.12.
[12] LOPES, Augustus Nicodemus. O culto espiritual: um estudo em 1 Coríntios sobre questões atuais e diretrizes bíblicas para o culto cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

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