segunda-feira, 7 de setembro de 2015

ESTUDO Nº 10 - DONS E MINISTÉRIOS NA IGREJA (1 Coríntios 12.1-31)


INTRODUÇÃO

“Deus não chamou ninguém para ficar de braços cruzados!” Você certamente conhece este ditado popular entre os evangélicos. Ele é especialmente verdadeiro no que diz respeito à vida cristã. Quem quiser viver a vida cristã deverá obrigatoriamente ter uma vida de manifestação de serviço. Isto porque segue àquele que disse: “Eu não vim para ser servido, mas para servir” (Mc 10.45) e: “Meu Pai trabalha ate' agora e eu trabalho também" (Jo 5.17). É bom também lembrar que “quem não vive para servir, não serve para viver”.

O povo de Deus deve ser um povo de ministros, isto e, um povo de servidores (Êx 19.6; I Pe 2.9). Os salvos por Cristo devem servir uns aos outros, na comunhão da igreja, produzindo assim a edificação do corpo de Cristo. Este serviço tem na Bíblia o nome de “ministério”, que significa, literalmente, “serviço”.

Este estudo tem o objetivo de, ainda que resumidamente, apresentar o ensino bíblico sobre os ministérios, na igreja.


ASPECTOS TEOLÓGICOS ACERCA DOS DONS

O Espírito Santo concede certos dons especiais aos crentes dentro do corpo de Cristo. Nos escritos de Paulo, há três listas distintas de tais dons:[1]

Dentro do debate é acerca dos dons espirituais, há um assunto muito polêmico: Os dons miraculosos ou dons sobrenaturais cessaram, ou continuam em nossos dias?

a) Cessacionismo: é a visão cristã de teólogos reformados e batistas fundamentalistas, geralmente de origem puritana. Formulam que alguns dons do Espírito Santo foram úteis apenas para os primórdios da igreja cristã, tendo cessado essa manifestação no período da Igreja Primitiva.

b) Continuísmo: é a crença de que os dons do Espírito Santo são ainda distribuídos hoje, ainda estão em uso, e ainda são necessários na igreja. O mesmo Espírito Santo que habitava o apóstolo Paulo e presenteou-o com habilidades sobrenaturais e que estava presente durante os tempos do Antigo Testamento e também dotado tais habilidades aqueles a quem Deus escolheu especificamente para realizar as suas obras em tempos do Novo Testamento. O continuísmo acredita que este mesmo Espírito ainda se move e trabalha na igreja contemporânea.

c) Um Caminho intermediário: O teólogo reformado Augustus Nicodemus escreveu: “Se por cessacionista você quer dizer uma pessoa que não acredita que o Espírito Santo conceda dons espirituais à sua Igreja nos dias de hoje, é claro que não sou cessacionista. Se, por outro lado, um continuísta seria alguém que acredita que todos os dons espirituais mencionados na Bíblia estão disponíveis hoje à Igreja, bastando ter fé para recebê-los, é claro que também não sou um continuísta. Creio num caminho intermediário para o qual ainda não achei um nome. Não posso ser chamado de cessacionista e nem de continuísta, pois creio que alguns dons continuam como eram no Novo Testamento, outros cessaram e outros continuam apenas em parte”.[2]


CONTEXTUALIZAÇAO

O primeiro problema que encontramos na igreja de Corinto é que ela usou mal os dons. A igreja tinha todos os dons (1.7). Nao lhe faltava dom algum. Porém, ela tentou colocar o dom de variedade de línguas como o dom mais importante, como um símbolo de status espiritual.[3]

E imperativo ressaltar que os dons espirituais não são aferidores de espiritualidade. Você não mede a espiritualidade de uma igreja pela presença dos dons espirituais nela. Se você fosse medir o grau de espiritualidade de uma igreja pelos dons, a igreja de Corinto seria campeã de espiritualidade, pois tinha todos os dons; mas a realidade dessa igreja era outra.

Antonio Gilberto (Pentecostal) escreveu: “Os crentes de Corinto tinham dons espirituais (1.7), mas muitos eram imaturos, insubmissos, ignorantes, além de carnais. Em uma igreja é possível haver crentes fervorosos, que gostam de movimento e agitação sem, contudo, haver espiritualidade real, advinda do Espírito Santo. Às vezes o que parece fervor espiritual é mais emocionalismo, resultante de motivações e mecanismos externos”.[4]

Hernandes Dias Lopes, afirma que: “Os crentes de Corinto não eram espirituais, mas carnais. Eles não eram maduros, mas infantis. Eles tinham carisma, mas não caráter. Eles tinham dons, mas não piedade. Era uma igreja que vivia em êxtase, mas não tinha um testemunho consistente. Tinha uma liturgia extremamente viva, mas a igreja não tinha a prática do evangelho. Faltava amor entre os crentes e santidade aos olhos de Deus. Era uma igreja de excessos, onde faltavam ordem e decência”.[5]

Quando se compreende isso, fica mais fácil tratar deste assunto.


APLICAÇÕES


1. A DIVERSIDADE DOS DONS E MINISTÉRIOS, 12.8-10

Diversidade é a palavra adequada para expressar a enorme variedade que existe quanto aos dons espirituais e ministérios. Esta palavra aparece nos versículos 5 e 6 do capítulo 12. Geralmente, nas igrejas evangélicas, quando se fala em ministério pensa-se apenas em termos de ministério pastoral. Mas o Novo Testamento apresenta uma variedade muito grande quanto a este assunto. (Ver figura anterior)

Ministério é dom em movimento; dom é a capacitação vinda de Deus para o exercício do ministério/serviço. 

Não há crente sem dom nem crente com todos os dons (12.29-31). O Espírito Santo é quem distribui, a fim de que não haja nenhuma falta, necessidade ou carência na Igreja de Deus.


2. A NECESSIDADE DOS DONS E MINISTÉRIOS

No verso 21 Paulo apresenta um curioso raciocínio: “Não podem os olhos dizer à mão: não precisamos de ti; nem ainda a cabeça aos pés: não preciso de vós". O que é dito neste versículo é absolutamente lógico: ninguém pode dizer que os olhos são mais importantes que as mãos, ou o contrário. Todos os órgãos têm sua importância e, por isso, todos são necessários. Dá-se o mesmo na igreja de Jesus: há uma honra que é concedida pelo próprio Deus a cada dom e ministério, sem exceção. 

Sobre isto, o comentarista W. Proctor afirma: “a igreja, tal como o corpo, é um organismo vivo, não uma organização mecânica, e cada membro tem um papel necessário a desempenhar”.[6]

Quando Paulo fala da mutualidade do corpo, exorta a igreja sobre cinco questões importantes.
a) O perigo do complexo de inferioridade, 12.15-16.
b) O perigo do complexo de superioridade, 12.21-24.
c) A necessidade da mútua cooperação, 12.25
d) A necessidade da empatia na alegria e na tristeza, 12.26
e) A necessidade de compreendermos que não somos completos em nós mesmos e que precisamos uns dos outros, 12.27-28.

Quaisquer que sejam os dons que Deus concedeu aos crentes, estes certamente são necessários. Devem ser colocados em prática para a glória de Deus. O Senhor Jesus, que pelo Espírito Santo capacitou todos os crentes para diferentes ministérios (I Co 12.7), deseja que todos trabalhem e que ninguém faça como o servo negligente da parábola, que enterrou o que recebeu sem nada fazer (Mt 2518,24-30).


3. A UNIDADE DOS DONS E MINISTÉRIOS

Já se fez referência neste estudo aos problemas que a igreja de Corinto estava experimentando quanto ao exercício de dons e ministérios. Um destes problemas era o orgulho: alguns se consideravam melhores que os outros por possuírem dons espetaculares.

Há igrejas que ainda ensinam que o dom de variedade de línguas é o selo e a evidência do batismo com o Espírito Santo. Há quem pense que o dom de variedade de línguas é o sinal da verdadeira espiritualidade. Assim, um crente que não fala em outras línguas não é uma pessoa espiritual, mas um crente de segunda categoria. Essa posição não tem amparo bíblico. É um equívoco. Todos os salvos são batizados pelo Espírito no corpo de Cristo (12.13), mas nem todos os crentes têm o dom de variedade de línguas (12.30). 

Porém, você precisa olhar a posição que esse dom ocupa na lista dos dons. Ele é o único dom que não é para a edificação do corpo, mas para a auto-edificação. Portanto, na lista dos dons, ele sempre vem em último lugar.

O batismo com o Espírito Santo é a sua inserção no corpo de Cristo (12.13). Todo aquele que foi regenerado, também foi batizado pelo Espírito no corpo de Cristo. Não é o falar em línguas que evidencia essa ligação no corpo, mas a conversão.[7]

A palavra do apóstolo para estas pessoas é bastante clara: “para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros” (v.25). 

É interessante lembrar que, em Efésios 4, outro texto que trata da questão dos dons e ministérios, há também um forte apelo à unidade interna da igreja (Ef 4.3).

Sobre isto, o Pastor Gerson Fischer diz: “Por meio dos diferentes dons e ministérios damos testemunho da graça salvadora e de nossa unidade".[8]

É neste contexto de luta em prol da unidade interna do corpo de Cristo que o famoso capítulo 13 - o capítulo do amor - deve ser entendido. Os capítulos 12 e 14 falam sobre dons e ministérios, e como devem ser utilizados. O capítulo 13, entre estes dois, fala propositadamente sobre o amor, “que é o vínculo da perfeição” (Cl 3.14). 

O amor é o elemento que manterá unidos os membros do corpo. Neste sentido pode-se dizer que o amor é o sangue do corpo de Cristo. Quando há amor, os dons e ministérios são exercidos na igreja sem que haja traumas ou complexos de qualquer espécie. O amor gera respeito, tolerância e aceitação das diferenças do próximo.

_______________________
[1] ERICKSON, Millard J. Introdução à teologia sistemática. Trad. Lucy Yamakami. São Paulo: Vida Nova, 1997.
[2] NICODEMUS, Augustus. Entrevista sobre Cessacionismo e Continuismo. Publicado In: http://tempora-mores.blogspot.com.br/2013/02/entrevista-sobre-cessacionismo-e.html Aessado em 16/04/2015.
[3] WAGNER, C. Peter. Se Não Tiver Amor. Curitiba: Editora Luz e Vida, 1982.
[4] GILBERTO, Antonio. I Coríntios: Os problemas da igreja e suas soluções. Lições Bíblicas 2T2009. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p.5.
[5] LOPES, Hernandes Dias Lopes, I Coríntios: Como resolver conflitos na Igreja. São Paulo: Hagnos, 2008
[6] PROCTOR W. C. G. B.A., B.D., Pároco de Harold"s Cross, Dublin; Conferencista Assistente no Dinity School, Trinity College, Dublin. I e II Coríntios.
[7] STOTT, John R. W. Batismo e plenitude do Espírito Santo. São Paulo: Vida Nova, 1966.
[8] FISCHER, Gerson. O Paradigma da Palavra: A Educação Cristã Entre a Modernidade e a Pós-Modernidade. São Leopoldo: Sinodal, 1998.


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