segunda-feira, 31 de agosto de 2015

ESTUDO Nº 09 - PARTICIPAÇÃO NA SANTA CEIA (1 Coríntios 11.17-34)



INTRODUÇÃO

Um dos mais solenes e significativos atos da liturgia cristã é a celebração do sacramento da Santa Ceia.  Conforme as palavras da Confissão da fé de Westminster, "Na noite em que foi traído, nosso Senhor Jesus instituiu o sacramento do seu corpo e sangue, chamado Ceia do Senhor, para ser observado em sua igreja até o fim do mundo, a fim de lembrar perpetuamente o sacrifício que em sua morte Ele fez de si mesmo; selar aos verdadeiros crentes os benefícios provenientes desse sacrifício para o seu nutrimento espiritual e crescimento nele e a sua obrigação de cumprir todos os deveres para com Ele; e ser um vínculo e penhor da sua comunhão com Ele e de uns com os outros, como membros do seu corpo místico" (Cap. XXIX, I).[1]

No estudo de hoje serão destacadas algumas questões teológicas e atitudes concernentes à participação na Santa Ceia, tendo como objetivo auxiliar o povo de Deus a participar dignamente do corpo e do sangue de Cristo.


ASPECTOS TEOLÓGICOS ACERCA DA CEIA DO SENHOR[2]

1. O conceito Católico. O pão e o vinho se transformam no corpo e no sangue de Cristo (União Física). Admite-se que, mesmo após a mudança, os elementos têm aparência e gosto de pão e vinho. A doutrina católica romana, foi adotado em 1215 e depois reafirmado no concilio de Trento em 1551.[3]

2. O conceito Luterano. Lutero rejeitou a doutrina da transubstanciação e a substitui pela doutrina correlata da consubstanciação. Segundo ele, o pão e o vinho continuam sendo o que são, mas, não obstante, há na Ceia do Senhor uma misteriosa e miraculosa presença real da pessoa completa de Cristo, corpo e sangue, nos elementos, sob eles e junto deles. Ele e seus seguidores defendem a presença local do corpo e do sangue físicos de Cristo no sacramento.

3. O conceito Zwingliano. o sacramento em foco é um simples sinal ou símbolo, representando ou simbolizando figuradamente verdades ou bênçãos espirituais; e que o seu recebimento é apenas uma comemoração daquilo que Cristo fez pelos pecadores, e, acima, de tudo, uma insígnia da profissão de fé cristã.

4. O conceito reformado (calvinista). Segundo Calvino, o sacramento está vinculado não meramente à obra passada de Cristo, ao Cristo que morreu (como parece que Zwínglio pensava), mas também à presente obra espiritual de Cristo, ao Cristo que agora vive na glória. Ele crê que Cristo, embora não corporal nem localmente presente na Ceia, está, contudo, presente, e é desfrutado em Sua pessoa completa, corpo e sangue. Ele dá ênfase à união mística dos crentes com a pessoa completa do Redentor.


CONTEXTUALIZAÇÃO

Entre os coríntios, a participação na Ceia estava sendo deturpada, trazendo sérios prejuízos para a igreja (v.21). 

Um problema constatado em relação à Santa Ceia hoje, é que há uma acentuada ênfase no aspecto ritualístico do sacramento, em detrimento de seu real significado e os propósitos nele implícitos. O aspecto prático do sacramento, que foi instituído e celebrado nos primeiros tempos da igreja, em um ambiente comunitário festivo, solidário e fraterno, tem sido ignorado ou substituído apenas por um ato simbólico, individualista, e, em muitos aspectos vazio. A igreja precisa resgatar o sentido da participação da Santa Ceia, a exemplo dos primeiros cristãos, fazendo deste sacramento urna autêntica festa de amor, de solidariedade, do partir do pão, de gratidão e de comunhão com Deus e com o irmão.


1. A PARTICIPAÇÃO NA SANTA CEIA PRESSUPÕE UM AMBIENTE DE FRATERNIDADE

O apóstolo Paulo censura os coríntios por causa dos problemas de relacionamento que estavam perturbando a comunidade. O ajuntamento dos crentes para a participação na Ceia estava sendo prejudicado por:
a) Divisões (v.18), 
b) Partidarismo (v. 19),
c) Egoísmo (v.20) e
d) Desconsideração (v.21). 

Esta situação de carnalidade e constrangimento estavam completamente em desacordo com o espírito e a proposta da Ceia - a "festa do amor".  A Santa Ceia deve ser sempre uma festa de fraternidade, mas em corinto não estava sendo. Por isso Paulo toca diretamente na questão, dizendo: "Porquanto vos ajuntais, não para melhor e, sim para pior Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar não é a ceia do Senhor que comeis. Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto certamente não vos louvo" (v.17, 20,22). 

O comportamento dos coríntios estava desprezando a igreja e profanando o sacramento. É interessante notar que, antes de apresentar orientações teológicas sobre a Ceia, Paulo mostra a necessidade de se corrigir as dissensões e a desconsideração para com os irmãos. É preciso entender que, muito mais do que simplesmente uma aprofundada compreensão teológica, a participação na Santa Ceia requer uma atitude de humildade, companheirismo e amor ao próximo (v.33).

Infelizmente, em muitas igrejas a formalidade e o acentuado individualismo na participação da Ceia, tomam o lugar da espontaneidade e do espírito comunitário de fraternidade. Muitas vezes o ambiente chega a adquirir aparências fúnebres. Enfatizam-se mais a morte de Cristo, do que a ressurreição e a esperança de sua segunda vinda. 

Também as barreiras interpessoais e interconfessionais têm descaracterizado a celebração da Ceia. Lamentavelmente, alguns grupos religiosos são exclusivistas nesta questão, negando a Ceia a irmãos em Cristo, membros de outras comunidades evangélicas. 

É preciso resgatar o aspecto festivo, solidário e fraterno que caracterizam a Ceia do Senhor como a Santa Comunhão, a refeição denominada "ágape" ou "festa do amor". Esse ambiente de fraternidade é fundamental para a unidade implícita no sacramento: "Porque nós, embora muitos somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão" (1 Co 10.17).


2. A PARTICIPAÇÃO NA SANTA CEIA REQUER PREPARAÇÃO INDIVIDUAL

Além do compromisso pessoal com Cristo e o batismo como CONDIÇÕES para a participação na Ceia, há outros aspectos que devem ser observados pelo participante:

2.1 - Reconhecimento da santidade do sacramento - Em Corinto muitos estavam agindo como se a Ceia fosse uma refeição qualquer, desconsiderando o seu aspecto sagrado. A natureza da Santa Ceia precisa ser assimilada pelo participante. Segundo Lewis Bayly: "Discernir o corpo quer dizer reconhecer a santidade do sacrifício, reconhecer o próprio sacrifício de Cristo".[4]

2.2 - Consciência do significado do sacramento - O indivíduo que participa da Ceia precisa ter consciência do significado deste ritual.

a) É o sinal da Nova Aliança - É o próprio Senhor Jesus quem declara: "este é o cálice da nova aliança no meu sangue..." (Lc 22.20). Na Antiga Aliança havia o derramamento de sangue de animais, como sacrifício simbólico pelos pecados do povo. Na Nova Aliança o sangue de Jesus é "a propiciação pelos nossos pecados..." (I Jo 2.1-2). Sendo assim, o sacramento da Santa Ceia se constitui num sinal da Nova Aliança, celebrando a morte expiatória e a redenção que há em Cristo (Hb 9.15-20).

b) É um memorial da morte de Cristo - Nas palavras de instituição da Ceia, Jesus recomenda aos discípulos: "fazei isto em memória de mim" (Lc 22.19). Através da Santa Ceia o crente é relembrado da morte sacrificial de Cristo (Mt 26.26-28). Porém, ao destacarmos este aspecto memorial da Ceia, discordamos da interpretação do Reformador Ulrico Zwinglio, no sentido de que este sacramento seja tão somente um memorial.[5]

c) É um anúncio da vinda de Cristo - Através da Ceia proclama-se a gloriosa esperança de retorno do Senhor Jesus (v.25). Quando da instituição do sacramento, o Senhor preveniu os discípulos acerca desse glorioso dia prenunciado na Ceia (Mt 26.29). 

d) É um meio de graça - Conforme a já citada Confissão de Fé de Westminster, "Os que comungam dignamente, participando dos elementos visíveis deste sacramento, também recebem intimamente os benefícios da sua morte, e nele se alimentam, não carnal ou corporalmente, mas real, verdadeira e espiritualmente...".

No entendimento do teólogo João Calvino, a Ceia é realmente um meio de graça, isto é, um canal por meio do qual Cristo se comunica, nutrindo e fortalecendo espiritualmente. Mediante a ação do Espírito Santo o crente é espiritualmente alimentado do corpo e do Sangue de Cristo. Sobre como compreender isto, Calvino dá o seu testemunho, dizendo: "Eu o experimento mais que entendo".[6]


2.3 - Discernimento espiritual - Nos versículos 27 e 29 Paulo expõe com muita clareza as conseqüências de uma participação irresponsável e leviana. Este sacramento que é um meio de graça, pode se constituir num meio de condenação. quando recebido de modo indigno. 

A participação deve, pois, ser precedida de um profundo exame pessoal (vv.28,29). A solução não é deixar de participar, mas examinar-se, corrigir-se e participar dignamente. 

Não se deve confundir, entretanto, discernimento espiritual com discernimento intelectual. O discernimento espiritual é algo mais profundo, sublime e importante do que o simples conhecimento da história e teologia do sacramento. A preparação é mais do que uma questão de ordem intelectual. 

Deve-se entender também que o discernimento espiritual é interior e pessoal. Ninguém tem o direito de julgar o irmão, no que tange à preparação "Examine-se, pois o homem a si mesmo". Cada um é responsável pela maneira como recebe o sacramento. Daí a importância do discernimento, pois a Ceia do Senhor não pode ser confundida com outra refeição qualquer.

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[1] A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, Comentada por Charles Hodge. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
[2] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 1990.
[3] HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática – Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.
[4] BAYLY, Lewis A prática da piedade. São Paulo: PES, 2010.
[5] VON ALLMEN, Jean-Jacques. Estudo sobre a Ceia do Senhor. São Paulo, Duas Cidades, 1968.
[6] CALVINO, João. I Coríntios - Comentário à Sagrada Escritura. São Bernardo do Campo, SP: Edições Paracletos, 1996.

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