sábado, 22 de agosto de 2015

ESTUDO Nº 08 - USOS E COSTUMES: O QUE DIZ A BÍBLIA? (1 Coríntios 11.2-16)


INTRODUÇÃO

A igreja cristã sempre enfrentou o desafio de discernir o que é certo, ou errado. Em se tratando de usos e costumes, existe uma boa maioria que fica dividida. Às vezes, pessoas da mesma comunidade, não chegam a uma harmonia sobre este ou aquele assunto, sobre se é ou não lícito a um cristão. Em geral, a polêmica se estabelece causando muitas vezes rupturas e contendas na comunidade. 

Ao cristão, no mundo de hoje, cabe uma mente equilibrada, uma visão aberta e uma postura tolerante, dentro da liberdade cristã, entendendo que, em se tratando de usos e costumes, haverá sempre variação de um lugar para outro, de um povo para outro e de uma época para outra.


CONTEXTUALIZAÇÃO

Usos e costumes continuam sendo uma questão delicada na comunidade cristã. Em Corinto, a questão girava em torno da mulher e o uso do véu. Para discernirmos o ensino de Paulo sobre a questão do véu, precisamos compreender o contexto cultural em que o véu foi usado.

Leon Morris faz o seguinte comentário: “Nas terras orientais o véu é o poder, a honra e a dignidade da mulher. Com o véu na cabeça, ela pode ir a qualquer lugar com segurança e profundo respeito. Ela não é vista; é sinal de péssimos modos ficar observando na rua uma mulher velada. Ela está só. As demais pessoas à sua volta lhe são inexistente, como ela o é para elas. Ela é suprema na multidão... Porém, sem o véu, a mulher é algo nulo, que qualquer um pode insultar... A autoridade e a dignidade da uma mulher se esvaem com o véu que tudo cobre, quando ela se descarta dele”.[1]

O véu, portanto, representava duas coisas na cultura de Corinto: A honradez e modéstia da mulher e a submissão ao seu marido. Nesse sentido o véu era símbolo da dignidade e da modéstia feminina. Apenas as prostitutas e as sacerdotisas cultuais dos cultos pagãos saíam a público sem véu ou participavam de um culto pagão sem véu. Quando uma mulher era vista sem véu, seja na rua ou em uma cerimônia paga ou mesmo na igreja, essa mulher estava desonrando a si mesma, dando motivo para que sua reputação fosse questionada. Agindo assim, ela também desonrava a seu marido (11.5).

O que aconteceu com as mulheres de Corinto quando elas receberam as boas-novas do evangelho? Elas perceberam que em Cristo eram livres. Não estavam mais debaixo do jugo cultural da cidade de Corinto. Paulo, porém, as exorta dizendo que se elas orarem e profetizarem sem o véu desonrarão a própria cabeça e o cabeça da mulher é o marido.

Uma mulher em Corinto participando do culto público sem véu aconteceria três reações:[2]
a) Por parte da igreja, isso provocaria escândalo e seria absolutamente inconveniente.
b) Por parte dos não crentes, isso causaria uma série de distração para os homens durante o culto, pois a confundiria com prostitutas.
c) Além de representar uma negação da submissão no Senhor que as mulheres casadas deviam ao marido.

David Prior diz que nesse contexto, Paulo trabalha sobre quatro questões importantes para solucionar o problema do comportamento das mulheres no culto público.[3]

1. Submissão, 11.3-6 - O apóstolo Paulo mostra o padrão de relacionamento que Deus estabeleceu na comunidade cristã (11.3). As mulheres têm espaço na igreja. (11.5). Mas essa prática deveria ser exercida reconhecendo a dignidade dela e a sujeição ao seu marido.
2. Glória, 11.7-10 - Depois de falar sobre a questão da submissão, Paulo fala sobre o homem como glória de Deus e a mulher como glória do marido.
3. Interdependência, 11.11-12 - Se a mulher veio do homem, por ter Deus criado a mulher a partir da costela do homem e o homem é nascido da mulher, então eles são interdependentes. O homem é a causa inicial da mulher, ela é a sua causa instrumental, mas ambos devem sua origem a Deus.[4]
4. Natureza, 11.13-16 - Deus fez o homem e a mulher diferentes um do outro. O homem precisa manter sua diferença física da mulher. Seu vestuário deve ser diferente. O papel do homem é diferente do papel da mulher. O homem deve ser verdadeiramente masculino e a mulher verdadeiramente feminina.


1. USOS E COSTUMES E A CULTURA

Na reflexão sobre usos e costumes a sociedade cristã precisa levar em conta a cultura. Por cultura entendemos a "Soma do modo de pensar. sentir e agir de um grupo social". 

C. Peter Wagner[5] em seu livro sobre a Igreja de Corinto dá um exemplo citando a cultura da Tailândia. Lá, sentar-se com as pernas cruzadas é imoral; aqui no Brasil é algo completamente normal. É comum na Escócia o uso de um tipo de saia pelo homem, em outros lugares é possível que tal uso cause escândalo e polêmica.

Com isto a comunidade cristã precisa aprender que muitas questões sobre usos e costumes dependem do contexto cultural. Sem ferir as Escrituras, a cultura precisa ser considerada. Paulo diz: "Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente" (Rm 14.5). 

Em se tratando de usos e costumes sempre existem diversidades, em função da cultura. Contudo, cada um pode ser perfeitamente cristão, qualquer que seja seu tipo de cultura, desde que não entre em contradição com o Evangelho. Há, entretanto, elementos culturais que precisam ser transformados pelo Evangelho.

Se Paulo tivesse de ensinar esse princípio a uma de nossas igrejas no Ocidente, ele não diria às mulheres que usassem véu na igreja. O véu não faz parte da nossa cultura. William Barclay chega a dizer que o uso do véu tem um significado puramente local e transitório.[6] Porém, o princípio permanece. As mulheres devem ser submissas aos seus maridos e precisam vestir-se com modéstia e pureza.


2. USOS E COSTUMES E O TEMPO

As coisas mudam. O tempo é dinâmico e, principalmente em se tratando de usos e costumes, há uma enorme variação com o passar dos anos. Certamente, se Paulo fosse escrever uma carta para a igreja de hoje, as questões envolvendo usos e costumes seriam outras. 

No século passado as pessoas não entrariam em um templo usando certos modelos que hoje são aceitáveis. O Evangelho é imutável, mas usos e costumes não; eles variam de acordo com a época. Pode-se verificar também que nos relacionamentos entre pais e filhos costumam haver conflitos de gerações, pois as experiências dos filhos são, em muitos aspectos, diferentes das dos pais. É a influência da época sobre os usos e costumes. 

O professor Júlio Andrade Ferreira diz: "Na época em que vivemos nada mais urgente do que tentar viver um Evangelho para a civilização em mudança". [7]

O cristão é desafiado a conhecer os padrões culturais, os usos e costumes e viver plenamente o Evangelho, levando-se em conta um fato inegável: a mudança. 

É muito comum, atualmente, encontrar pontos de vista diferentes sobre questões de usos e costumes na mesma comunidade, ou na mesma denominação, variando de comunidade para comunidade.

A comunidade é diversa e é preciso respeitá-la. Nela as diferentes gerações se encontram e são desafiadas a exercitar a fé no Cristo vivo. É Ele quem nos une. 

Essas diferentes e gerações diversas, apesar de usos e costumes distintos, podem e devem evidenciar a unidade em Cristo Jesus "onde não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre, porém Cristo é tudo e em todos" (Cl 3.11).


3. USOS E COSTUMES E O AMOR

O comportamento do cristão, por mais certo que esteja, precisa ser determinado pelo amor. Quando Paulo começa a tratar dos assuntos referentes à liberdade cristã, envolvendo usos e costumes, ele inicia falando do amor (1 Co 8.1). 

Para que usos e costumes não venham a prejudicar a comunidade cristã, o amor precisa ser o controlador de tudo. Numa comunidade podem existir pessoas "fracas na fé", como também "fortes na fé". Em Corinto, como em quase todas as igrejas do mundo, havia estes dois grupos. 

Segundo C. Peter Wagner, "não é pecado ser fraco ou forte. O corpo de Cristo é composto dos dois. O pecado só entra em questão quando os fracos e os fortes começam a brigar, perturbando a comunhão. Na vida comunitária desses dois grupos precisa existir o amor "que é o vínculo da perfeição" (Cl 3.14). [8]

Quando falta amor, muitos dissabores surgem na comunidade. Por isso, no capítulo do amor o apóstolo é tão enfático: "Se não tiver amor..." (1 Co 13.1-3). 

Na questão dos usos e costumes, o irmão mais forte não pode fazer tropeçar o mais fraco. É oportuna a recomendação do apóstolo Pedro (II Pe 1.3-7).

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[1] MORRIS, Leon. I Coríntios - Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica, volume 7. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1989.
[2] LOPES, Hernandes Dias Lopes, I Coríntios: Como resolver conflitos na Igreja. São Paulo: Hagnos, 2008.
[3] PRIOR, David. A Mensagem de 1 Coríntios: A vida na igreja local. São Paulo: ABU Editora, 2001
[4] RIENECKER, F. & ROGERS, C. Chave lingüística do Novo Testamento Grego. São Paulo: Editora Vida Nova, 1985.
[5] WAGNER, C. Peter. Se Não Tiver Amor. Curitiba: Luz e Vida, 1982.
[6] BARKLEY, Willian. Comentário do Novo Testamento, I e II Corintios, volume 9. Portugal: La Aurora: 1978.
[7] FERREIRA, Júlio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil (Vol. I e II). São Paulo: CEP, 1992.
[8] WAGNER, C. Peter. Se Não Tiver Amor. Curitiba: Luz e Vida, 1982.


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