segunda-feira, 6 de julho de 2015

ESTUDO Nº 02 - A PRÁTICA DO ENSINO NA IGREJA (1 Corintios 2.1-5)


INTRODUÇÃO

Algumas inovações litúrgicas observadas no meio evangélico tem contribuído para que a missão docente da igreja fique bastante prejudicada. Além disso, são muitos os profetas e mestres falsos que injetam o seu veneno através de doutrinas estranhas e extravagantes, confundindo e seduzindo muitas pessoas. Por falta de segurança doutrinária e conhecimento bíblico sólido, muitos estão saindo de suas igrejas e abraçando falsos ensinamentos. Diante de tudo isso é preciso revitalizar o ensino na igreja.

Em toda a bíblia percebe-se a preocupação com a tarefa do ensino. No Antigo Testamento os pais tinham o cuidado e o dever de ensinar a Lei aos filhos. Era o ensino doméstico (Dt 6:6-9). A Lei era ensinada também publicamente (Ed 7:10). No Novo Testamento Jesus ordena aos discípulos através do ensino cristão (Mt 28:19). A igreja do Novo Testamento também se dedicava ao ensino (At 15:32).

Na igreja de Corinto, observamos o contraste entre os pregadores:
a) alguns sábios e intelectuais estavam valorizando demasiadamente os métodos filosóficos e retóricos e desprezando a orientação e iluminação do Espírito Santo no ensino cristão. Eram pessoas acostumadas aos debates e discursos baseados unicamente na intelectualidade e saber humano.
b) Paulo esteve entre os coríntios em fraqueza, temor e tremor (v.3). É claro que fraqueza aqui conota total dependência de Deus.[1] O que Paulo está dizendo é que o evangelho é algo tão sublime e maravilhoso que quando ele foi a Corinto, foi na total dependência de Deus. Ele não foi com ufanismo ou com autoconfiança; ele não foi com soberba ou vangloria, mas foi com muita humildade, por entender a grandeza e a majestade da mensagem que ele estava pregando.[2]

Charles Erdman, escreveu: “O evangelho era uma mensagem divina; se assim fosse compreendido não haveria de dar chance à operação de tal espírito de partido na igreja. Cuidara o apóstolo de pregar de tal modo que o caráter e a origem divina de sua mensagem não fossem escurecidas pela demonstração de sabedoria humana. Diante deles, pois, não havia brilhado como orador que arrebatasse pela eloqüência, nem quis passar como filósofo, no testemunho da graça salvadora de Deus em cristo Jesus.”[3]

Nos textos que estão fundamentados o presente estudo, o apóstolo Paulo destaca que o ensino cristão vai muito além da mera capacidade intelectual de uma pessoa. Ele é caracterizado por alguns importantes aspectos que não podem ser negligenciados.


1. ENSINO CENTRALIZADO NA PESSOA DE CRISTO

Percebe-se nitidamente no texto que está sendo enfocado, que Paulo preocupa-se em apresentar um ensino que vá diretamente à pessoa de Cristo Jesus e sua crucificação (2:2; 3:11; 4:1).  Para o apóstolo, Cristo é o centro e não a circunferência. Através das epístolas de Paulo nota-se que ele pregava sobre temas variados, mas tudo subordinava-se a Cristo Jesus. É por esta razão que escrevendo aos efésios ele declara para todas as coisas, tanto as do céu como as da terra, convergem para Jesus (Ef 1:10).

Erdman escreveu: “Sua “palavra” e sua “pregação”, pois, não consistiu em “linguagem persuasiva” de humana “sabedoria”. Não obstante, foram acompanhadas pela demonstração do Espírito e pelo seu poder. Tudo isto de acordo com o propósito divino, para que os ouvintes não depositassem sua fé em qualquer aparato de sabedoria humana, mas no poder manifesto de Deus”.[4]

A igreja, que exerce uma função educadora na vida de seus membros, precisa contextualizar o seu ensino, abordando temas da atualidade e do interesse de todos, mas tendo Jesus como a base ou fundamento de tudo aquilo que é ensinado.  A habilidade retórica e os métodos filosóficos de ensino, por si só não são convincentes. Muitas vezes a mensagem se torna vazia, apesar de sua beleza artística, pois não está centralizada em Cristo. 

Em Gálatas 6:11-17, Paulo apresenta o cerne de sua mensagem, fazendo da Cruz de Cristo o centro do ensino cristão, que é a razão do progresso do cristianismo. Quando o apóstolo afirma “para mim o viver é Cristo” (Fp 1:21), ele está revelando que tudo se resume na pessoa de Jesus.


2. ENSINO ORIENTADO PELO ESPÍRITO SANTO

As pessoas podem ter grande conhecimento teológico concepção sobre a pessoa de Cristo, no entanto, se não houver o ensino do Espírito Santo, confirmando e instruindo, o ensino se torna um mero discurso humano, fruto do intelecto, simplesmente. O Espírito Santo é o grande agente divino da sabedoria na vida da igreja (v.13). 

Antonio Gilberto escreveu: “A despeito de sua vasta e polivalente cultura secular, e de sua grande erudição bíblica, Paulo era cheio do Espírito Santo (l Co 2.4,5; At 9.17). O apóstolo dos gentios ensinava e pregava com graça, unção e muita simplicidade, todavia, sem ser superficial”.[5]

Sobre o ensino orientado pelo Espírito Santo, pode-se destacar que:

2.1 – Quebranta o coração (2.9) – Quando a mensagem é simplesmente resultado de uma capacidade intelectual ou de sabedoria humana, não há quebrantamento de coração. São palavras que se reduzem a nada, afirma Paulo (2:6). 

Aquele que ensina na igreja pode ser alguém dotado de extrema sabedoria e revelar uma mente intelectualizada e até mesmo impressionar os seus ouvintes, mas, se o Espírito Santo de Deus não orientar o seu ensino, tudo não passará de um entretenimento para a mente dos ouvintes. Somente o Espírito Santo de Deus pode penetrar o coração do ser humano e produzir quebrantamento e salvação.

São muitos os exemplos de pessoas que tiveram poucas condições de estudar e não revelam sabedoria intelectual, mas que ao pregar a palavra de Deus revelam profunda sabedoria espiritual e trazem conforto ao coração e orientação para a vida. 

É bom lembrar que isso não significa que os estudos, a técnica, a cultura e o conhecimento, etc., sejam dispensáveis. Paulo era um homem de grande cultura e capacidade intelectual, mas tudo isso era submetido à orientação do Espírito Santo.

2.2 Contrapõe-se à sabedoria humana – Na cidade de Corinto e até mesmo na igreja que ali existia, muitos filósofos e sábios apresentavam as suas teses e idéias. Eram homens que ensinavam que o mais importante é o conhecimento, a sabedoria humana. Chegavam a pregar que a salvação se adquiria por meio do saber (Gnose– gnosticismo). 

Paulo corrige isso dizendo que esta sabedoria é loucura e insensatez diante de Deus (v.19). Para o mundo, a mensagem do Evangelho é que é loucura, mas o Espírito Santo revela que ela se constitui numa poderosíssima mensagem de salvação para o ser humano, algo que a sabedoria humana jamais pode fazer. Nas palavras de Paulo, o Evangelho é o “poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1:16).


3. ENSINO CUJOS RESULTADOS SÃO CONSISTENTES

Paulo mostra que o ensino cristão apresenta resultados consistentes quando é fundamentado em Cristo e orientado pelo Espírito Santo. Em I Coríntios 3:10-17, o apóstolo declara que um ensino baseado em coisas perecíveis, à semelhança de “ouro, prata, pedras preciosas, madeiras, feno e palha” não há de permanecer no momento da provação (Vs. 12-13).  Pelo texto, observa-se que um ensino consistente tem as seguintes características:

3.1 Requer prudência (3.10) – A ideia aqui é de um hábil construtor que antes de erguer um prédio lança os alicerces com toda segurança possível. Jamais ele constrói sobre um alicerce errado. Muitos são imprudentes na forma e no conteúdo da mensagem que pregam. Não são cuidadosos ou zelosos na apresentação da verdade de Deus. Vale à pena relembrar a palavra de Salomão que diz: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria e o conhecimento do Santo é prudência” (Pv 4:10). A verdadeira sabedoria está associada à prudência (Ef 1:7-8).

3.2 Será provado – Para saber se o ensino é ou não consistente ele será testado, provado; enfrentará provas de fogo (3:13). Embora o texto se refira à provação no dia final, pode-se entender que a obra da igreja é provada a cada dia. Uma igreja bem doutrinada e que ensina com prudência terá a benção de após ser provada, revelar perseverança. 

Vivemos numa época em que os ventos de doutrinas têm soprado pelas igrejas e levado muitos crentes para outras direções. Muitos são os que ficam trocando de igreja ou até abandonam a fé. Isso não significa dizer que o ensino fundamentado em Cristo impedirá totalmente que alguém saia da igreja. As chances é que são menores.

3.3 Exige fidelidade (4.2) – Para que os resultados sejam consistentes, exige-se de todos aqueles que ensinam, toda fidelidade ao Senhor. Essa fidelidade precisa ser observada em todas as áreas da vida. Sendo um servo, o despenseiro deve ser fiel ao seu Senhor. João Calvino afirma que: “Só é fiel aquele que deseja de todo o coração servir ao Senhor e fazer progredir o reino de Cristo”.[6]

Alguns dos que ensinam na igreja nem sempre são fiéis ao Senhor e acabam tendo um discurso distanciado da prática. Aquele que ensina pode ter muita habilidade e sabedoria, mas se não for fiel a Deus em todos os aspectos da vida, o seu ensino cairá no descrédito.  A fidelidade à Palavra de Deus, que é fidelidade doutrinária, indispensável para que o ensino na igreja apresente resultados consistentes. Os cristãos de Jerusalém nos dão o exemplo dessa fidelidade, pois “Perseveravam na doutrina dos apóstolos” (At 2:42).

3.4. Produz resultados positivos[7] (Rm 10.17) - A "fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus". Logo, a Palavra de Deus é a fonte que origina a fé salvadora Jo 5.24; 20.31; At 4.4. Porém, para que a fé seja gerada no ouvinte da Palavra é necessário que a exposição do texto sagrado seja centrada unicamente na bendita pessoa de Jesus, o Salvador, "autor e consumador da fé" Hb 12.2. Não pode haver genuína conversão sem a fé em Cristo e por Cristo (At 20.21; Rm 5.1,2; Ef 2.8). 

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[1] GILBERTO, Antonio. I Coríntios: Os problemas da igreja e suas soluções. Lições Bíblicas 2T2009. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p. 8
[2] LOPES, Hernandes Dias Lopes, I Coríntios: Como resolver conflitos na Igreja. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 40
[3] ERDMAN, Charles R. Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1957.
[4] IBID.
[5] GILBERTO, Antonio. I Coríntios: Os problemas da igreja e suas soluções. Lições Bíblicas 2T2009. Rio de Janeiro: CPAD, 2009. P. 9
[6] CALVINO, João. I Coríntios - Comentário à Sagrada Escritura. São Bernardo do Campo, SP: Edições Paracletos, 1996.
[7] GILBERTO, Antonio. I Coríntios: Os problemas da igreja e suas soluções. Lições Bíblicas 2T2009. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p. 10

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