sábado, 29 de março de 2014

INTIMIDADE COM DEUS


Quando o sapato aperta, a gente vai em busca de um sapato maior. Um novo momento na vida. Resolução de conflitos e resposta para perguntas. Tenta-se mergulhar, então, no presumível mundo mágico da resposta pronta e descomprometida. Deseja-se a resolução do conflito, mas sem dor e sem compromisso. E é justamente isso que muitos caminhos religiosos de fundo cosmético oferecem: formule a sua pergunta, extravase a sua dor, pague a sua consulta e ganhe a sua resposta da divindade. E assim a gente parte para viver, até a próxima vez, com essa grande mentira. Sem mudanças e sem compromissos. O triste é quando as próprias igrejas se transformam nessas centrais de atendimento a oferecer inexistentes caminhos mágicos.

O salmista não vende respostas fáceis nem aponta para caminhos prontos. Ele entra em contato com suas perguntas mais profundas e conversa com Deus a partir de suas dúvidas e necessidades, sem que elas magicamente desapareçam. E este é um privilégio dos íntimos. O privilégio do relacionamento. O privilégio na caminhada da ausência de respostas prontas.

Às vezes pensamos que íntimo é aquele que consegue o que quer. A verdade, porém, é que intimidade não é uma questão de coisa; é uma questão de relacionamento. Um relacionamento transparente, que vive o encontro com o outro e com a própria realidade.

À medida que o nosso relacionamento se dá em torno de coisas ele é superficial. Coisificado. Quantitativo. Mas quando o relacionamento é real ele visa o encontro e o outro. É assim que Deus nos vê, e é assim que Ele quer que nos relacionemos com Ele. O relacionamento só se torna real, íntimo e profundo quando é construído na presença do outro e no silêncio. Mesmo que na ausência de respostas. No encontro com as perguntas assus-tadoras. O salmista, na ausência de res-postas e no silêncio de Deus, parece questionar a própria essência de Deus. Ele formula as suas perguntas em torno do que Deus tem de mais essencial e precioso: a sua graça e misericórdia.

Rejeita o Senhor para sempre? Acaso não torna a ser propício? Cessou perpetuamente a sua graça? Caducou a sua promessa para todas as gerações? Esqueceu-se Deus de ser benigno? (Sl 77.7-9.)

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