quarta-feira, 22 de maio de 2013

ESTUDO Nº 23 - O PAI NOSSO E AS NECESSIDADES DO HOMEM PIEDOSO - O PÃO NOSSO (MT 6.9-13)


INTRODUÇÃO


            Na primeira parte desta preciosa lição, aprendemos que em nossas orações as nossas necessidades estão sempre em segundo plano. Os versículos 9-10 nos ensina sobre as “prioridades e interesses de Deus” em nossa oração, agindo com reverência e submissão.
            Os pronomes usados com os motivos dessa parte: teu nome, teu reino, tua vontade, confirma que a oração do cristão busca prioritariamente os interesses de Deus.
            Isso não significa que as nossas necessidades não sejam do interesse de Deus. Visto que o próprio Senhor Jesus nos ensinou a oração, ele mesmo mostra que Deus está interessado em nós. O que devemos frisar é que toda a oração tem como objetivo central a pessoa de Deus. Conseqüentemente, nós também somos beneficiados. A segunda parte tem como principio orientador o texto de Mateus 6.8: “... porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais”. Deus é Pai que supre nossas necessidades. Ele atende nossa oração

            Nesta segunda parte, iremos estudar o primeiro tópico sobre as “necessidades do homem piedoso” em nossa oração, agindo com dependência total.
                       
1. PAI NOSSO – UM MODELO DE DEPENDÊNCIA EM ORAÇÃO, V. 11

            “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje...” v. 11

            Algo surpreendente nesta petição é a passagem da consideração da majestade de Deus e da vinda do seu reino (Mt 6.10)  para o “pão nosso”. Isso nos mostra, que o Deus que habita o alto e sublime, o Deus soberano, cuja majestade não pode ser contida por todo o universo, também se preocupa com as nossas necessidades e nos ensina a pedir por aquilo que também é necessário para a nossa existência, Is 57.15.
            Lloyd-Jones escreveu: “Esse é o milagre da redenção. Esse é o sentido mesmo da encarnação, a qual nos ensina que o Senhor Jesus Cristo cuida de nós aqui na terra, ligando-nos com o Todo-Poderoso Deus da glória. O reino de Deus e o meu pão diário”.[1]
            Uma das coisas fascinantes que este texto de um modo especial nos ensina é que o Deus que cuida do universo, dos seus diversos sistemas e galáxias, sustentando todas as coisas com o seu poder, também cuida de nós, das nossas necessidades, por mais irrelevantes que elas possam parecer. Isso nos enche de reverente gratidão e conforto.
            Calvino comenta com sensibilidade que: “Seja qual for a maneira em que Deus se agrada em socorrer-nos, ele não exige nada mais do que nós senão que sejamos agradecidos pelo socorro e o guardemos na memória”. [2]

            Qual o significado desta expressão: “o pão nosso”?
            Herminsten Maia escreveu: “O sentido básico desta petição é – o pão que é-nos necessário, dá-nos hoje, dia após dia - estando implícita nesta oração a certeza da providência de Deus, bem como a necessidade de estarmos sempre atentos a este fato, certos de que o Senhor cuida de nós dia após dia”. (Sl 37.5).[3]
            Portanto, o significado de “pão” aqui, é:
a)    Nossa comida em geral, Lc 15.17
b)    Nossas necessidades físicas, Lc 4.4
            Desta forma, o “pão deve ser entendido, neste contexto, como tudo aquilo que é necessário à nossa vida: alimento, saúde, lar, esposa, filhos, bom governo, paz, vestuário, bom relacionamento social, etc.” [4]
            Aprendemos, de forma decorrente, que Deus não menospreza o nosso corpo: ele não desconsidera as nossas necessidades vitais; Jesus nos ensina a orar também por elas. Deus cuida do homem inteiro; considera-nos como de fato somos, seres integrais, que tem carências próprias que precisam ser supridas.

            Analisemos agora algumas outras lições que podemos aprender com esta petição.

            1. Moderação
            Jesus nos ensina aqui a ser moderados em nossos desejos e petições; ele nos ensina a orar pedindo o pão, não o luxo, o supérfluo; mas, sim, o que é necessário à nossa vida, Tg 4.2; I Tm 6.8-10.
            A moderação é um aprendizado que deve nos acompanhar em toda a nossa vida. Por isso, Jesus nos ensina a começar a disciplinar as nossas orações naquilo que pedimos a Deus, pois somente assim poderemos aprender a estar contentes e a descobrir o quanto Deus nos tem dado, Fp 4.11-13.
            Aqui não há recriminação à riqueza, todavia somos alertados quanto ao seu perigo, Pv 30.8-9.
            Para Calvino, a riqueza residia em não desejar mais do que se tem e a pobreza, o oposto. Também, entendia que a prosperidade poderia ser uma armadilha para a nossa vida espiritual. Escreveu: “A nossa riqueza está em Deus, aquele que soberanamente nos abençoa. Portanto, é uma tentação muito grave, ou seja, avaliar alguém o amor e o favor divino segundo a medida da prosperidade terrena que ele alcança”.[5]

            2. Confiança
            Esta petição nos desafia a confiar no Pai Celeste, a confiar diariamente no cuidado providente de Deus. Esta oração não nos ensina a pedir para o futuro, mas, sim, a pedir para as nossas necessidades diárias; para o nosso hoje, Mt 6.25,34; Fp 4.6.
            No deserto, Deus desafiou o povo a aprender esta lição por meio do maná que lhes era concedido diariamente, Ex 16.4-5.
            Alguns homens, mais “previdentes”, tentaram ir além da ordem divina, guardaram o maná para o dia seguinte, resultado: deu bicho e apodreceu, Ex 16.20.
            O desafio de Deus era para que o povo, manhã após manhã renovasse a sua confiança nele, aprendendo a descansar nas suas promessas, sabendo que Deus não falharia, I Pe 5.7.

            3. Dependência Total
            Todos os homens por mais ricos que sejam, dependem de solo, água, clima, saúde do corpo. Todos estão sujeitos ao estado geral da economia, juntamente com outros fatores sociais, políticos, etc. Estes fatos indicam o quanto dependemos de Deus, o Senhor do universo, Sl 104.13-14, At 14.17, Mt 5.45.
            Portanto, pedir a Deus que nos dê pão significa recorrer à sua graça, para que nos sustente e não nos deixe perecer. Nesta oração está implícita a certeza de que a vida pertence a Deus. Deus é o Senhor da vida; tudo que temos e somos provém dele, por isso a ele oramos: o pão nosso de cada dia dá-nos hoje, At 17.24-28.

            4. Humildade
            Esta petição nos ensina também que, apesar de trabalharmos arduamente, sabemos que é Deus quem nos dá pão; é ele quem provê a nossa subsistência; é Deus quem nos propicia, de forma muitas vezes imperceptível, as condições para que exerçamos os nossos talentos ou, em outras circunstâncias, ele inclina o coração de outras pessoas para nos socorrer nos momentos de maior carência... o nosso sustento, seja de que modo for, vem do Senhor, a quem oramos de forma consciente: “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”, Sl 127.1-2; Tg 1.17, I Co 15.10; II Co 3.5.

            5. Generosidade
            A oração diz: “Dá-nos” e não “Dá-me”. Aqui, em nossas petições, se incluem as necessidades dos crentes em todo o mundo; quando assim oramos, estamos evidenciando que os filhos de Deus suplicam ao Pai pela manutenção de todo o seu povo espalhado por toda a face da terra, Gl 6.10; I Jo 3.17-18.
            Aqui aprendemos a não ser egoístas, preocupando-nos apenas com as nossas necessidades. Jesus nos ensina, ao mesmo tempo, a pedir e interceder; a suplicar a Deus por nós e pelo nosso próximo.
            Deste modo, temos uma lição de generosidade a ser aprendida, por isso oramos: o pão nosso de cada dia dá-nos hoje.

            Para Concluir
            Este texto: “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje” nos desafia a moderação, confiantes, em total dependência, humildes e generosos. Portanto, com esta lição, concluímos a primeira parte sobre as “necessidades do homem piedoso”.      




[1] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel. 1999, p. 355.
[2] CALVINO, João. O Livro de Salmos, São Paulo, Edições Parakletos, Vol 2, p. 213.
[3] COSTA, Herminsten Maia Pereira da. O Pai Nosso. Editora Cristã, 2001, p. 42
[4] MERKEL, F. Pão: in: BROWN, Colin. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova. 2000, Vol 3, p. 444.
[5] CALVINO, João. O Livro de Salmos, São Paulo, Edições Parakletos, Vol 1, p. 346.



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