quarta-feira, 22 de maio de 2013

ESTUDO Nº 24 - O PAI NOSSO E A NOSSA CONDIÇÃO ESPIRITUAL - PERDÃO (MT 6.9-13)



INTRODUÇÃO
            Quando começamos a estudar este texto de Mateus que faz referencia ao modelo de oração que nos é ensinado pelo Senhor Jesus, observamos que este modelo em si, pode ser dividida em duas partes:

 1. Prioridades aos interesses de Deus, v. 9-10.
          Trata-se dos pedidos referentes à pessoa de Deus: teu nome, teu reino, tua vontade. Portanto, a oração do cristão busca prioritariamente os interesses de Deus.

            2. As necessidades do homem piedoso, v. 11-13.
      Esta parte trata das necessidades do cristão: “nosso pão, nossas dívidas, nosso adversário” [1].

            No versículo 11 (o pão nosso de cada dia dá-nos hoje...) contemplamos a liberalidade de Deus na manutenção diária de nossas necessidades físicas. No versículo 12 suplicamos a sua clemência. Após o pão, pedimos perdão. Stott escreveu: “O perdão é tão indispensável à vida e à saúde da alma como o alimento para o corpo”. [2]
       Antes, temos um homem carente fisicamente, aqui temos um homem inadimplente espiritualmente. Aliás este é o sentido da palavra empregada para “dívida” (ofensa, débito, o que é devido).
            Nesta oração Jesus nos ensina que todos nós estamos endividados; não quem possa dizer que não tenha dívida para com Deus ou para com o seu próximo. Todos sem exceção, somos devedores; por mais que façamos, nunca atingiremos a condição de cidadãos que liquidaram todos os seus débitos.
           
1. PERDÃO – UMA COMPREENSÃO DA NOSSA SITUAÇÃO diante DE DEUS
       “e perdoa-nos as nossas dívidas... assim como nós temos perdoado aos nossos devedores”

            Nesta petição temos importantes aspectos a serem estudados:

            1. A consciência do perdão
         Esta petição só pode ser feita pelo homem que tem consciência de que é pecador. Barclay escreveu: “O fato de Jesus ensinar a todos as pessoas a fazerem esta oração demonstra universalidade do pecado; e para repetir esta oração se requer um sentido de pecado”.[3]
            A Escritura nos diz que:
a)    Todos pecaram, Rm 3.23
b)    O pecado nos fez cativo, Jo 8.34; Rm 6.20, 7.23
c)    Habita em nós, Rm 7.17,20.
            Portanto, negar a nossa condição de pecadores é negar a própria Palavra de Deus (I Jo 1.10). Devido a depravação da nossa natureza, todos pecamos e somos responsáveis diante de Deus. A aproximação e a contemplação da gloriosa santidade de Deus realçam de forma eloqüente a gravidade do nosso pecado.
           Diversos servos de Deus ilustram esse fato: Pedro, Lc 5.8; Paulo, I Tm 1.15; Moisés, Ex 3.6 e Isaías, Is 6.1-5
         Lloyd-Jones escreveu: “Nunca houve um santo sobre a face da terra que não tenha visto a si mesmo como um vil pecador; de modo que se você não sente que é um vil pecador, não é parecido com os santos”.[4]
           Esta petição traz, em seu bojo, a compreensão de quão grave é o nosso pecado diante de Deus. Jamais poderemos entender o sentido da grandiosidade do perdão concedido por Deus sem a percepção adequada da nossa ofensa ao Deus Santo.

            2. A Insatisfação com a prática do pecado
        Esta oração é feita não pelo pecador contente consigo mesmo, mas por aquele que, consciente da sua dívida, se apresenta arrependido diante de Deus, desejoso de deixar de pecar, I Jo 3.6; I Jo 2.1-2.
          Spurgeon, coloca a questão do prazer do pecado nestes termos: “Satanás faz o pecado parecer algo prazeroso, mas a cruz o apresenta tal como ele é, mortal e doloroso. Jesus morreu por causa do pecado. Quando o homem contempla o pecado desta forma, ele faz da prática do pecado assassinato. O poder do pecado é destruidor...” [5]

            3. Incapacidade de pagar a Dívida
         Nessa petição estamos também confessando que não temos condições de pagar a nossa dívida, Lc 7.41-42; Mt 18.25-27.
           Estamos inadimplentes espiritualmente; temos consciência de que nossa dívida cada vez aumenta mais. Porque ainda que vivendo como cristãos, vamos aumentando sem cessar nossa dívida e agravando a embrulhada da nossa situação. A dívida cresce de dia em dia. E imagino que à medida que envelhecemos mais conta nos damos de que não temos possibilidade alguma de cancelar essa dívida. As coisas vão de mal a pior. Por isso, só nos resta suplicar o perdão.
            Hendriksen escreveu: “A petição de perdão significa que o suplicante reconhece que não há outro método pelo qual possa cancelar sua dívida, é uma súplica de graça”.[6]
        Portanto, é impossível uma autêntica vida cristã sem esta consciência: de sermos pecadores e da necessidade do perdão de Deus. Enquanto não admitirmos isso, estamos, na realidade, sustentando algum tipo de auto-suficiência.
           
2. PERDÃO E AS NOSSAS ATITUDES PERANTE DEUS E O PRÓXIMO

            1. Viver dignamente
           O perdão não é produzido por boas obras nossas, no entanto, é um forte estímulo a que procuremos viver em consonância com a vontade de Deus. O pecador perdoado é motivado a procurar se harmonizar com o propósito de Deus revelado nas Escrituras.
       John Owen escreveu: “O perdão é o mais forte motivo para se viver piedosamente depois de recebê-lo (...) Aquele que presume tê-lo recebido, e não se sente obrigado a ser obediente a Deus popr causa do perdão que recebeu, na verdade não goza dele”.[7]
           Deus nos diz na sua Palavra que ele nos redimiu para si mesmo a fim de vivermos para Ele, em harmonia com a sua vontade, encontrando assim a felicidade decorrente da nossa obediência a Deus, Is 44.22; Is 55.7.

            2. Humildade e Gratidão
        A súplica pelo perdão de nossas dívidas aponta para a nossa total incapacidade de pagar-lhe: somos total e irreversivelmente devedores; portanto, a nossa postura é de humildade diante de Deus. O perdão de Deus mostra a nossa necessidade de sua misericórdia e a nossa total incapacidade de atingir o padrão de Deus, por isso, só nos resta suplicar humildemente: “perdoa as nossas dívidas”, e mais, muito agradecido, pelo fato de recebermos o perdão, prosseguindo em nossa caminhada, com plena consciência de que tudo que temos é pela graça de Deus, Sl 103.1-3,8,10,14.

            3. Disposição para perdoar
       O perdão concedido por Deus é um imperativo à concessão de perdão ao nosso próximo. Aquele que foi perdoado é conduzido invariavelmente à disposição de perdoar o seu próximo; e quando perdoamos estamos nos abrindo ao perdão de Deus. A nossa disposição em perdoar é um atestado de nossa gratidão a Deus, Mc 11.25; Lc 17.3-4.
           A base do perdão é o perdão concedido por Deus. Ele não somente nos perdoa, como também nos capacita a perdoar; Deus faz o nosso perdão possível, Cl 3.13; Ef 4.32.
           Hendriksen escreveu: “É Deus quem semeia em nossos corações a semente da fé e o ânimo perdoador”.[8]

            Para Concluir:
      A misericórdia de Deus é o único caminho da remissão... E, todas as vezes que confessamos a Deus os nossos pecados, arrependidos de tê-los cometido, desejosos de não mais praticá-los, podemos ter a certeza de que Deus, por sua graça nos perdoa.
            E este mesmo perdão devemos ao nosso próximo e é resultante da confiança no Deus Justo e Perdoador.




[1] HENDRIKSEN, Willian. Mateus – Comentário do Novo Testamento, Vol I: Cultura Cristã, 2010 2ª Ed. p. 402.
[2] STOTT, John. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo: ABU-Editora. 1993, p. 154.
[3] BARCLAY, William. Comentário Bíblico de Mateus. Texto em PDF, 1985. p.217
[4] LLOYD-JONES, Martyn. O Clamor de um desviado: Estudos sobre o Salmo 51. São Paulo: PES. 1997, p. 40.
[5] SPURGEON, Charles. Batalha Espiritual. Paracatú: Sirgisberto Queiroga da Costa Júnior, editor, 1992, p. 55
[6] HENDRIKSEN, Willian. Mateus – Comentário do Novo Testamento, Vol I: Cultura Cristã, 2010 2ª Ed. p. 350.
[7] Owen, John, citado por A, Booth, in: Somente pela graça, São Paulo: PES, 1986, p. 33
[8] HENDRIKSEN, Willian. Mateus – Comentário do Novo Testamento, Vol I: Cultura Cristã, 2010 2ª Ed. p. 350.

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