quinta-feira, 25 de abril de 2013

ESTUDO Nº 21 - OS ATOS DEVOCIONAIS DO REINO DE DEUS – O JEJUM – PARTE I (MT 6.16-18)



INTRODUÇÃO

           As três áreas apontadas por Jesus, representam três aspectos da nossa vida espiritual.
a) Esmola – trata-se da nossa relação com o nosso próximo, ou o bem que fazemos ao próximo;
b) Oração - aponta para a nossa relação com Deus, ou o que fazemos com Deus.
c) Jejum – que é disciplina pessoal na vida espiritual do indivíduo, ou seja, o que fazemos com nós mesmos.

Conceito - Muitas vezes, o jejum é definido meramente como abstenção de comida, ou de comida e bebida, por um período específico de tempo.
Richard Foster define o jejum como “abstenção de comida por motivos espirituais”.[1]
Piper diz que, “a questão engloba qualquer coisa e todas as coisas que poderiam ser um substituto para Deus”.[2] 
Lloyd-Jones diz que o jejum “não deve confinar-se à questão de alimentos sólidos e líquidos; pelo contrário, o jejum, na realidade, deveria incluir a abstinência de qualquer coisa, legítima em si mesma, tendo-se em vista algum propósito espiritual especial”.[3] 
O nosso foco está, especificamente, no jejum como abstenção de comida e, em alguns casos, de bebida, durante um determinado período.

1. POSIÇÕES RELIGIOSAS SOBRE A PRÁTICA DO JEJUM

Existem três posições quanto ao jejum.

a) Os Pentecostais - Que afirmam que o jejum é uma obrigação para o crente em nossos dias. Afirma-se que, “crente que não jejua não é consagrado, não recebe o batismo com o Espírito Santo” e outras coisas mais.
O agravante é que eles acabam tratando o jejum como uma espécie de “varinha de condão”, uma espécie de poder mágica, uma moeda de troca para barganhar com Deus favores pessoais. Charley Finney, inimigo declarado do Calvinismo, defendia essa tese. [4]
Martyn Lloyd-Jones escreveu “Quando jejuamos, não devemos crer no jejum, e sim em Deus”.[5]

b) O Catolicismo Romano - Que ensina o jejum como algo imprescindível e obrigatório para o cristão. Por exemplo, no catolicismo, o jejum é algo ordenado como possuindo várias funções: preparação para a pessoa receber a comunhão, como forma do sacramento da penitência e como mandamento expresso, possuindo caráter obrigatório: “O quarto mandamento (‘Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja’) determina os tempos de ascese e penitência que nos preparam para as festas litúrgicas; contribuem para nos fazer adquirir o domínio sobre nossos instintos e a liberdade de coração”.[6]

Foi exatamente contra esse tipo de postura que o apóstolo Paulo se pronunciou em 1 Timóteo 4.1-3. 

c) Os Protestantes – Em reação ao catolicismo e ao pentecostalismo, os protestantes acabam negligenciando a prática do jejum. Pensam que, porque o jejum não é expressamente ordenado nas Sagradas Escrituras, então, não se deve jejuar de forma alguma.
Martyn Lloyd-Jones afirma que, “tendemos a cair no extremo oposto, deixando inteiramente de lado o jejum, em nossas considerações e em nossa prática diária”. [7]
A Bíblia apresenta uma longa lista de personagens que praticaram o jejum: Moisés, Davi, Elias, Ester, Daniel, a profetisa Ana (Lucas 2.36,37), João Batista, Paulo, Jesus e os cristãos da igreja primitiva.
Igualmente, muitos dos cristãos notáveis da história da Igreja jejuavam e davam testemunho de seu valor. Entre eles, estão Agostinho, bispo de Hipona, Martinho Lutero, João Calvino, John Knox, John Wesley, Jonathan Edwards, David Brainerd, Charles Spurgeon e Ashbel Green Simonton.

2. O ENSINO BÍBLICO SOBRE O JEJUM

2.1. No Antigo Testamento
Frequentemente, o jejum aparece nas Escrituras como uma expressão de aflição espiritual. Davi é representativo aqui: “Respondeu ele: Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o SENHOR se compadecerá de mim, e continuará viva a criança?” (2 Samuel 12.22).
O jejum foi ordenado por Deus para ser praticado obrigatoriamente uma vez por ano. Isso deveria ocorrer no Dia da Expiação, Levítico 16.29,30.
Através do jejum, Davi disse que afligia a sua alma, Sl 35.13.
Vejam também a pergunta dos israelitas descrentes acerca do efeito do jejum praticado por eles: “Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos a nossa alma, e tu não o levas em conta?” (Isaías 58.3a; cf. v. 5).
Aqui o jejum é praticado como parte de uma grande contrição e tristeza por causa do pecado cometido contra o Senhor. Nesse contexto de confissão de pecados, o jejum deveria funcionar apenas como um sinal visível de uma realidade invisível; um sinal exterior de algo que acontecia no interior do jejuador, Joel 2.12,13.
Acrescenta-se a isso, o fato de que, o jejum sempre era acompanhado de oração. Nunca ninguém jejuava sem orar durante o período em que se abstinha dos alimentos.

2.2. No Novo Testamento
Quando voltamos os nossos olhos para o que o Novo Testamento afirma sobre a prática do jejum, a única diferença que podemos encontrar entre ele e o Antigo Testamento, é que no Novo nós não encontramos nenhum mandamento específico para dias de jejum. Não existe nenhuma promulgação de dias de jejum no Novo Testamento.
Isso quer dizer, então, que, a partir do Novo Testamento o jejum deixa de ser algo válido? De maneira nenhuma! O Novo Testamento toma o jejum como algo praticado sempre pelos discípulos de Jesus Cristo.
Nós podemos encontrar vários exemplos de pessoas jejuando no Novo Testamento: Jesus, Mt 4.1,2; Paulo e Barnabé, At 13.1-3 e a profetisa Ana, Lc 2.37.

Contudo, as palavras mais importante a respeito da continuidade do jejum para os dias posteriores ao Novo Testamento, foram pronunciadas pelo próprio Senhor Jesus Cristo e deixam claro que o jejum é algo esperado dos discípulos de Cristo nos dias de hoje, após a sua ascensão aos céus. Mt 9.14,15.

Piper define o jejum como “uma expressão física do desejo ardente do coração pela volta de Jesus [...] Jesus relaciona o jejum cristão com o nosso anelo pelo retorno do Noivo”.[8] 

Jesus assume que o jejum está intimamente relacionado com o desejo que os seus discípulos trazem em seu coração acerca da sua volta. Então, nós temos um indexador do nosso desejo pelo retorno do nosso Noivo.
Se o jejum é uma constante em nossas vidas significa que o nosso coração tem uma ardente saudade do nosso Noivo. Por outro lado, se não damos o mínimo valor para a prática do jejum, isso, tristemente, indica que o nosso coração não está abrasado de saudades do nosso Noivo, o Senhor Jesus Cristo.
Mais uma vez, a afirmação de John Piper chega a ser dolorosa: “A quase universal ausência de jejum pela volta do Senhor é uma testemunha de nossa satisfação com a presença do mundo e a ausência do Senhor. Isso não deveria ser assim”.[9] 

CONCLUSÃO

Na nova administração do Pacto três usos do jejum recebem destaque:
1) para a piedade pessoal (Mateus 6.16-18);
2) para a eleição, ordenação e instalação da liderança da Igreja (Atos 14.23); e
3) para a ardente expectativa da volta de Cristo (Mateus 9.14,15).


[1] FOSTER, Richard, Celebração da Disciplina. São Paulo: Vida, 2007, p. 85
[2] PIPER, John. Fome de Deus. São Paulo: Cultura Cristã. 2006, p. 87
[3] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel. 1999, p. 325.
[4] Charles Finney, usava o jejum como uma forma de garantir o recebimento de poder do alto. Sempre que percebia que o poder divino o abandonava, ele separava um dia para jejum e oração, de maneira que o poder era, então, renovado. Citado em John Piper, Fome por Deus, (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), 109.
[5] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel. 1999, p. 327.
[6] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA: Edição revisada de acordo com o texto oficial em Latim, (São Paulo: Loyola, 2002), 384, 395-396, 537.
[7] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel. 1999, p. 322.
[8] PIPER, John. Fome de Deus. São Paulo: Cultura Cristã. 2006, p. 90
[9] Ibid, p. 93

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