domingo, 16 de setembro de 2012

ESTUDO Nº 17 - O RESSENTIMENTO E A VINGANÇA NO REINO DE DEUS (MT 5.38-42)


INTRODUÇÃO

Nesta lição estudaremos um dos mais controversos assunto, quando se trata de aplicação prática do Sermão do Monte. Trata-se da lei de talião ou da reciprocidade do crime, mais conhecido pela célebre frase “olho por olho, dente por dente”. Muitas pessoas têm interpretado este texto de diversas formas fazendo com que em alguns casos ele seja ridicularizado.

O Senhor quer nos mostrar quão longe estamos da vida espiritual que agrada a Deus. O nosso instinto natural é de revide e vingança, não de perdão e amor ao inimigo. Até a pessoa mais tímida e medrosa acumula ira no seu coração quando se sente injustiçada, embora ela não tenha coragem de manifestá-la. Somos muito sensíveis quando se trata de situações nas quais nos sentimos injustiçados. É por isso que Jesus destaca que, se queremos viver uma vida realmente cristã, devemos negar-nos a nós mesmos, a nossos sentimentos e desejos, sendo capazes de perdoar e amar aqueles que nos fazem mal.

Como fizemos com os estudos anteriores, vamos dividir o nosso trabalho em três etapas: analisar as instruções registradas no Antigo Testamento, em seguida como os escribas e fariseus entendiam e praticavam e, por último, o que Jesus nos ensinou.

1. AS INSTRUÇÕES DO ANTIGO TESTAMENTO 

Vamos verificar a instrução no AT, a partir de três textos: Êxodo 21.22-27, Levítico 24.19-21 e Deuteronômio 19.15-21. A análise do conteúdo desses registros bíblicos nos mostra que:

a) A Humanidade está sempre disposta a reagir diante das agressões e a lutar pelos seus direitos. Era necessário colocar um freio na tendência para reações agressivas e tratadas com ira e ódio, sem pensar na exata proporção do que havia acontecido, Ex 21.22-27

b) O princípio que norteava estas instruções era claro: pelo dano causado pode haver indenização de igual valor, Lv 24-19-21

c) As instruções incluíam ainda a questão dos estrangeiros. A Lei equiparava os direitos e deveres de ambos, Lv 24.22

d) Aqui temos nova provisão para proteger o inocente: a instrução o protege contra a falsa acusação, Dt 19.15-21.

Esses textos tratam de uma série de “ordenanças” nas quais os padrões dos 10 mandamentos são aplicados à vida da jovem nação.

Estas punições eram atribuídas às autoridades constituídas (os juízes) e ao próprio Deus (Ex 21.22; Sl 94.1). É uma expressão da “lex talionis”, o princípio da retribuição exata, cujo propósito era estabelecer o fundamento da justiça, especificando o castigo que o culpado merecia e limitar a compensação de sua vítima. Tinha o duplo efeito de caracterizar a justiça e refrear a vingança.

2. AS INSTRUÇÕES DOS ESCRIBAS E FARISEUS, v. 38

Uma vez considerado o que a lei tratava sobre a questão da vingança e da justiça, vejamos agora o que estava acontecendo na época de Jesus. Qual era o problema dos fariseus e escribas sobre esta questão? O Senhor disse: “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente”, lembrem que já havíamos falado em estudos anteriores que isto se referia ao que estava sendo dito não pela lei do Antigo Testamento, mas pela tradição dos mestres da época.

Vimos no ponto anterior que as punições para as infrações morais e legais eram atribuídas unicamente aos juízes e a Deus e jamais era de iniciativa pessoal. Eles criam que toda pessoa tinha o direito de se vingar e retribuir a seu inimigo com a mesma sorte de mal com que tinha sido prejudicada. Assim eles estavam encorajando a vingança, indo de encontro a Lei, Lv 19.18.

Lloyd-Jones, escreveu: Os escribas e fariseus estendiam este princípio da justa retribuição dos tribunais legais (aos quais Pertencia) para o reino dos relacionamentos pessoais (ao qual não pertencia). Assim fazendo, burlavam a lei que proibia terminantemente qualquer vingança pessoal. Toda a série de instruções tinha o propósito justamente de inibir a vingança pessoal [1].

3. AS INSTRUÇÕES DE JESUS, v. 39-42

Uma vez que os fariseus trouxeram uma lei civil à aplicação pessoal, Jesus contradisse este ensinamento (“Eu, porém, vos digo”), mostrando como cada indivíduo deve viver. Contudo, não se trata de qualquer indivíduo, mas do crente, daquele que já foi regenerado e vive uma vida em comunhão com Deus.

As ilustrações mencionadas neste texto não podem ser entendidas literalmente, elas são usadas para destacar o fato de que o cristão, diferente das demais pessoas e todo este ensinamento estão nos enfatizando a necessidade que o crente tem de renunciar-se a si mesmo, de se despojar de si e do seu “eu”, Lc 9.23.

Antes de tudo, precisamos entender sobre quem o termo “perverso”. O termo aqui trata-se de uma pessoa e não o mal abstrato, "ao maligno" (que significa o diabo), mas à pessoa má, ou "os que fazem mal a vocês", Mt 5.44 (BLH).[2]

O Senhor Jesus dá instruções sérias que envolvem quatro exemplos:

a) Relações interpessoais: A outra face, v. 39 – “bater na face direita, com as costas das mãos, continua sendo até hoje, no Oriente, um golpe insultuoso”[3]. Aqui não se trata de uma questão de defesa pessoal e segurança diante de algum risco, e sim, de vingança.
Nossa tendência natural quando ofendidos é revidar imediatamente, se possível, aplicando um sofrimento maior o que aquele que recebemos. Jesus nos ensina que devemos estar preparados para sofrer sem responder com vingança (I Pe 2.21-23). Voltar a outra face significa mostrar em palavras, atitudes e atos que alguém está cheio não do espírito de rancor, e, sim, de amor, Rm 12.19-21.[4]

b) Relações legais: A capa, v. 40 - A segunda questão que o Senhor Jesus aborda é a demanda pela nossa vestimenta. Aqui se trata da nossa reação diante de um mal causado a nossos bens pessoais. Observem que Jesus coloca um bem de não muito valor. Ele não disse: quando alguém te demandar a tua casa, ou as tuas plantações, mas a tua túnica. Muitas vezes em coisas de pequeno valor queremos fazer valer os nossos direitos e brigamos e perdemos amizade por causa de pequenas coisas, I Co 6.7.

Ora, isto não significa, por exemplo, que não possamos exigir o cumprimento da garantia de um produto estragado de uma empresa ou pedir alguém um livro que tínhamos emprestado. Mas trata-se de questões mais pessoais.

c) Relações Políticas: A segunda milha, v. 41 - Trata-se de ser obrigado por uma autoridade a fazer um trabalho ou serviço forçado[5]. Cumpre -nos fazer aquilo que de nós for exigido e mais do que nos for exigido. O ensino diz respeito ao ressentimento de um homem face às exigências que as autoridades governamentais procuram fazer. Alude à nossa aversão a legislação que não aprovamos.

d) Relações econômicas: O empréstimo, v. 42 – O contexto pressupõe que esse pedido e seria uma exigência violenta, não baseada no direito (Lc 6.30). Contudo, mais uma vez, está em pauta a negação do próprio “eu”, mostrando o quanto está errada a nossa tendência natural de agarrar as coisas e dizer: o que é meu, é meu. Aqui não se trata e dar indiscriminadamente, pois existem muitos aproveitadores e devem ser tratados como merecem (2 Ts 3.10). Se a pessoa estiver Passando por necessidade real, cumpre- me o dever de ajudá-la, se é que tenho a possibilidade de fazê-lo, Gl 6.9-10; I Jo 3.17-18; Lc 6.34.

Quanto a emprestar, assim diz Carter: “Muitas vezes o empréstimo e mais benéfico do que a dádiva gratuita. Lisonjeia menos a vaidade daquele que dá; suaviza o constrangimento de quem recebe; não encoraja a preguiça, como é o caso da doação; e ainda assim supre para a necessidade do momento”.[6]

PARA CONCLUIR:

Jesus claramente proíbe a vingança entre seus discípulos. Apresentou-lhes quatro exemplos do que a aplicação de um espírito livre de vingança pode significar na vida deles. O apóstolo Paulo captou bem a intenção de Jesus quando escreveu aos irmãos de Roma: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.18-21).


[1] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel. 1999, p. 254.
[2] ___________. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 103
[3] STOTT, John. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 104.
[4] HENDRIKSEN, Willian. Mateus – Comentário do Novo Testamento, Vol I: Cultura Cristã, 2010 2ª Ed. p. 383.
[5] STERN, David. Comentário Judaico do Novo Testamento. Belo Horizonte: Atos. 2008, p. 182
[6] CARTER, Warren. O Evangelho de São Mateus – Comentário Sociopolítico e Religioso a partir das margens. São Paulo: Paulus. 2002



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