domingo, 16 de setembro de 2012

ESTUDO Nº 18 - O AMOR AO PRÓXIMO - UM MANDAMENTO INCONCEBÍVEL (MT 5.43-48)


INTRODUÇÃO 

Neste estudo estamos encerrando a segunda parte do Sermão do Monte. Durante este período abordamos o sentido espiritual da Lei do Antigo Testamento. Iniciamos com Jesus declarando ter vindo a cumprir a Lei e os profetas, não a revogá-los (Mateus 5.17-19). 

Em seguida abordamos o ponto central, no qual o Senhor afirmou que a nossa justiça deve ser muito superior àquela falsa imagem de justiça aparente demonstrada pelos religiosos da época, os fariseus e escribas (Mateus 5.20). 

A partir disso, o Senhor passou a ilustrar por meio de vários exemplos (Mateus 5.21-48) a forma errada em que os fariseus e escribas interpretavam a lei de Deus, mostrando também como é que nós, discípulos de Jesus, devemos encarar os ensinamentos de Deus. 

Note que todos os ensinamentos sobre homicídio (versos 21-26), sobre o adultério e o divórcio (v.27-32), sobre os falsos juramentos (v.33-37) ou sobre a vingança (v.38-42), se resumem nisto: o amor ao próximo. 

O próprio Senhor Jesus ensinou, em outra ocasião, que a lei e os profetas se resumem em duas coisas: amar a Deus por sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (Marcos 12.33). Se tivermos verdadeiro amor não precisamos de instruções detalhadas sobre como agir com as pessoas. É por isto que o amor é a lei de Cristo (João 15.12), a centralidade do evangelho do novo testamento. 

1. AS INSTRUÇÕES DO ANTIGO TESTAMENTO E AS INTERPRETAÇÕES DOS MESTRES 
Os mestres da época de Jesus (fariseus e escribas) ensinavam o seguinte: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo”. Ora o interessante deste ensinamento é que a primeira parte dele estava na Lei, mas a segunda não. Não existe nenhum texto do Antigo Testamento que afirme que os judeus deviam odiar seus inimigos (Lv 19.17-18). 

Por que então ensinavam assim? 
Os mestres da época pensavam assim a respeito deste texto: “como o texto fala de não se vingar nem guardar ira contra os filhos do povo, mas que se deve amar o próximo, então o próximo é apenas o filho do meu povo”.[1] A conseqüência disto é que nem estrangeiros nem inimigos deviam ser considerados como próximos. Contudo, eles ainda continuavam errados, pois a Lei mostrava o modo como deveria ser tratados os estrangeiros e inimigos (Dt 23.7; Êx 23.4-5). 

E qual a justificativa dessa interpretação? 
Segundo Lloyd-Jones, elas podem ter sido baseadas em dois aspectos principais da lei do Antigo Testamento: 

a) Motivos históricos: No AT, encontramos ordens de Deus para que os judeus aniquilassem os povos que habitavam na terra de Canaã e inimigos de Israel, Dt 7.2; 20.16; 23.6. 

b) Os salmos imprecatórios: São aqueles nos quais o salmista clama pela justiça e ira divina sobre os seus inimigos. (Ex. 69.24-26). 

Que resposta se pode dar a estas justificativas? 
O Senhor foi muito claro que não se tratava de vingança e nem ódio, mas que se tratava da aplicação do justo juízo de Deus contra os povos que praticavam coisas abomináveis. Temos como exemplos, o dilúvio nos tempos de Noé, a destruição de Sodoma e Gomorra, a destruição dos cananeus e a deportação de Judá a Babilônia [2]

Contudo, O Senhor não se agrada em ter que aplicar os seus justos juízos (Ez 33.11). 

2. AS INSTRUÇÕES DO JESUS, v. 39-42 
O ensinamento do Senhor Jesus, além de excluir a interpretação dos escribas e fariseus, vai mais longe ainda dizendo o seguinte: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5.44). Ao invés de odiarmos, como o faziam os religiosos daquela época, Ele nos manda a amar os inimigos. Não nos compete apenas fazermos o bem aos inimigos, mas também amá-los com compaixão. 

Quem é o nosso próximo? 
Stott, assim definiu: “O nosso próximo, como Jesus exemplificou na parábola do bom samaritano (Lc 10.29-37), não é neces­sariamente um membro de nossa própria raça, classe social ou religião. Pode até nem ter qualquer ligação conosco. Pode ser nosso inimigo, que está à nossa procura com um punhal ou com uma arma de fogo. Nosso "próximo", no vocabulário de Deus, inclui o nosso inimigo. O que o faz ser nosso próximo é simplesmente o fato de ser um ser humano em necessidade, da qual tenhamos tomado conhecimento, estando em nós a possi­bilidade de aliviá-la de alguma forma”.[3]

Para um melhor entendimento vamos usar textos sinóticos entre Mateus e Lucas: 

a) Amai e fazer o bem os vossos inimigos, v. 44a (Lc 6.27) 
Amar a quem nos ama é algo natural que segue uma espontânea correspondência. Amar a quem não nos ama, pelo contrário, nos ofende, demanda esforço (coração) e determinação (vontade), bem como um motivo muito forte – DEUS, Rm 5.6-8,10.[4]
Mas, mesmo sendo odiado, é dever do cristão buscar o bem-estar material e espiritual do próximo, Rm 12.17-21; Lc 6.35; Ex 23.4-5. 

b) Bendizer e orar pelos que vos perseguem, v. 44b (Lc 6.28) 
Para orar por quem nos persegue é necessário amar tal pessoa. Escreveu Bonhoeffer. "Na oração colocamo-nos ao lado do inimigo, es­tamos com ele, junto dele, por ele diante de Deus.” [5]

Jesus orou por seus atormentadores enquanto os cravos de ferro estavam sendo introduzidos em suas mãos e pés (Lc 23:34). O diácono Estevão orou por aqueles que, enfurecidos, o apedrejavam (At 7.60). 

Mesmo que eles invoquem o desastre e a catástrofe sobre as nossas cabeças, expressando em palavras o seu desejo de nos ver cair, devemos retribuir invocando as bênçãos dos céus sobre eles, declarando em palavras que só lhes desejamos o bem. (I Pe 3.8-9) 

3. A APLICABILIDADE DA PERFEIÇÃO CRISTÃ, v. 45-48 

a) Para que vos torneis filhos do vosso Pai Celeste, v. 45. 
Os escribas e fariseus faziam do ódio aos inimigos parte integrante de sua religião. Ao contrário disso, o que nos identifica como filhos de Deus é o amor para com todos indistintamente. 

O amor divino é amor indiscriminado, para com os bons e maus. Os teólogos (segundo Calvino) chamam a isto de “graça comum” de Deus. Esta graça comum de Deus expressa-se, então, não no dom da salvação (graça salvadora), mas nos dons da criação, e nas não menos importantes bênçãos da chuva e do sol, sem as quais não poderíamos comer, nem poderia a vida no planeta continuar (At 14.17). 

b) Sede vós perfeitos, v. 48 

1. Não significa impecabilidade – Em parte alguma da Bíblia encontramos que o homem pode alcançar, nesta vida, a perfeição moral (doutrina da perfeição cristã), como ensinado em algumas religiões. 

2. Não significa igualdade com Deus – é conveniente dizer e pensar em ser santo ou perfeito porque Deus é santo e perfeito. O texto paralelo de Lc 6.36 ajuda a entendermos que Deus nos chama para sermos perfeitos em amar, ou seja, amarmos até os nossos inimigos com a mesma qualidade do amor de Deus. 

3. Significa maturidade – Desde que os seres humanos foram feitos à imagem e semelhança de Deus, tornam-se “perfeitos” (maduros) quando tentam demonstrar em suas vidas as características que revelam a natureza de Deus, Fp 3.12-15.[6]

PARA CONCLUIR
O mundo mais do que nunca, está precisando de pessoas que ajam assim, e esta é a proposta divina para nós, de “vencer o mal com o bem” (Rm 12.21), de ser perfeitos, ser diferentes. Busquemos esta perfeição. Se não estamos agindo assim, ainda há tempo para à correção... “sede vós perfeitos...” 


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[1] LLOYD-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel. 1999, p. 254.
[2] STOTT, John. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 116.
[3] ___________. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo:ABU-Editora. 1993, p. 118.
[4] MARTINS, Valter Graciano. A Plataforma do Reino. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. p. 18
[5] BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. Sinodal: 1984, p. 62.
[6] MOUNCE, Robert H. Mateus – Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. São Paulo: Editora Vida, 1985. p. 62


Um comentário:

Presbítero Maurício disse...

Caríssimo, saudações fraternas em Cristo!
Parabéns, o blog é riquíssimo em instrução bíblica. Essa noite sonhei com o mandamento "Amar ao próximo", por isso, encontrei o seu, para melhor compreensão da mensagem. Mais uma vez, parabéns! Saudações fraternas!