quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

ESTUDO Nº 14 - O HOMICÍDIO E A QUESTÃO DA IRA (Mateus 5.21-26)


INTRODUÇÃO
Sabe-se que a amizade é uma das maiores riquezas. Quem coleciona amigos é uma pessoa sábia. Se, por um lado, “o homem que tem muitos amigos sai perdendo” – como afirma o provérbio -, por outro, “há amigo mais chegado que um irmão” (Pv 18.24)

O ideal divino é que haja harmonia nos relacionamentos interpessoais. Porém, até mesmo no ambiente das igrejas há pessoas com relacionamentos rompidos, e o pior de tudo é que destes nem todos procuram praticar a lição pregada por Jesus. Para o Evangelho, preservar a ira, manter inimizades, conservara o ódio, enfim, quebrar o relacionamento fraterno sem disposição para praticar o perdão e a reconciliação, constitui-se em pecado que separa as pessoas de Deus.

Como isto tem conseqüências no ambiente da Igreja? Como isto afeta o nosso relacionamento com Deus? Como as pessoas não cristãs recebem a pregação do amor por aqueles que vivem a contender entre si? 

A preciosa lição de Jesus a respeito da reconciliação precisa ser revista pelo povo de Deus.

BREVE ANÁLISE DO TEXTO
A Lei de Deus, entregue a Moisés, proibia, com destaque, o ato de assassinar. O homicídio era severamente condenado por Deus. O Mestre trouxe um novo ponto de vista a respeito do homicídio, ou seja, demonstrou que o crime é possível ocorrer através da mais simples ofensa ao semelhante.

Em Mt 5.21-26 o Mestre ensina que o ódio se constitui em uma violação do sexto mandamento do Decálogo, pois é a raiz do pecado contra a vida humana e pode levar alguém à prática de assassinato.

Jesus amplia a aplicação da proibição indo além do ato de tirar a vida física de uma pessoa. Matamos o próximo não só quando excluímos da convivência de seus familiares e amigos, tirando-lhe a vida. Mas, mesmo quando o deixamos vivos para os outros, o matamos para nós mesmos com nossas palavras, atos, iras e insultos.[1]

Assim sendo, essas atitudes contrárias à lei gera conflitos entre as pessoas dificultando os relacionamentos humanos, pelo sermão de Jesus só há um tratamento para se ajustar os relacionamentos quebrados: a reconciliação.

1. AÇOES GERADORAS DO HOMICIDIO, V. 21-22
Esses mestres ensinavam apenas a questão do homicídio literal. O Senhor Jesus ensina que este mandamento não trata apenas do homicídio literal, mas também a ira sem motivo contra o próximo, seja ela manifesta ou não de uma maneira visível. Segundo Jesus, odiar, nutrir ressentimentos e sentimentos malignos contra uma pessoa é equivalente a cometer um ato de homicídio. Os fariseus e escribas se preocupavam com os aspectos exteriores do homem, mas o Senhor apontou para o coração do ser humano, àquilo que está guardado no seu mais íntimo, “porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mateus 15.19).[2] 

O Senhor destaca aqui diferentes formas de equivalência ao pecado do homicídio. 

a) Irar – Irar significa ficar com raiva de alguém, sentir cólera contra alguma pessoa. A bíblia declara que é possível irar, mas sem pecar (Ef 4.26). Quando a ira é pecaminosa, certamente a inimizade se manifestara. A ira é pecaminosa quando o irado a retém (Ef 4.26,27); ou quando extravasa o seu rancor, em atos concretos, resultando em ofensa e ate agressão. O salmista Davi recomendou deixar a ira e abandonar o furor (Sl 37.8). Tiago declara que “a ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tg 1.19-20)

b) Proferir insulto contra o irmão - A Bíblia Viva cita o versículo 22, da seguinte maneira: “Se vocês chamaram um amigo de idiota, correm o perigo de serem levados perante um tribunal...” Insulto é uma agressão verbal, geradora de inimizade. Para o apostolo João, isso implica em odiar o irmão (I Jo 3.15). Daí o apóstolo Paulo recomendar que os cristãos profiram apenas palavras que edifiquem (Ef 4.29). 

c) Chamar o irmão de tolo – Chamar de tolo tem a ver com a intenção de amaldiçoar o semelhante. A ofensa não é só chamar de tolo; é considerar o outro, tolo. Quando isso acontece, o relacionamento está abalado. Ninguém suporta ser considerado idiota, desmiolado e estúpido.

2. RECURSOS PARA VENCER O HOMICIDIO, V.23-24
Jesus apresentou não apenas as causas geradoras de inimizade, mas também ofereceu soluções praticas para essa questão. Ele não apenas fez uma sondagem do problema; foi além, apresentando alternativas para vencer tal situação: 

a) Lembrar de ofensa praticada (v.23) - O Mestre apela à consciência dos cristãos para que não se esqueçam de atos pecaminosos praticados, ou mesmo aqueles efetuados contra a própria pessoa. Existe a tendência de se deixar de lado, de esquivar-se, ou de não querer lembrar dos erros. Contudo, isso implica em problema sério: A falta de perdão ou do ato de perdoar, faz com que as nossas orações serão bloqueadas, (Is 1.15-18 e I Tm 2.8).[3]

b) Ir ao encontro do irmão (v.24) - O discípulo de Jesus quer tenha sido o ofensor, quer seja o ofendido e inocente, precisa ter a coragem de dar o primeiro passo para reconciliar-se com o inimigo. Isso mostra a necessidade de ação.

A vida cristã não é estática, e sim, dinâmica em todos os seus aspectos. Essa atitude dinâmica deve ser praticada quantas vezes forem necessárias, pois não há limites para a reconciliação (Mt 18.21,22; Cl 3.13). Jesus recomenda que se deve ir ao encontro do próximo, com a intenção de acabar com a inimizade (Mt 18.15-17).

3. O VALOR DOS RELACIONAMENTOS 
O ensino do Mestre é completo, pois além do diagnostico e das diretrizes para a solução do problema da inimizade, ele conclui apresentando alguns dos benefícios de uma vida cristã isenta de inimizades:

a) Vida de culto que agrada a Deus (v.24) - Quando Jesus se refere à oferta ele fala a respeito de culto. Seu ensino refere-se a um culto sincero, verdadeiro, onde o mais importante é um adorador de bem com o seu próximo. O que Deus deseja é: antes misericórdia do que sacrifício (Mt 9.13).

Por conseguinte, ele ordena “deixar a oferta” e correr para se reconciliar com o semelhante. A inimizade, com certeza, constitui-se em um obstáculo à vida de culto e oração (Mc 11.25.26).

b) Vida isenta de julgamento (vv.25,26) - O texto é claro em afirmar que, se não houver a eliminação do mal da inimizade, haverá julgamento, ou seja, dura condenação. Portanto, uma vida de inimizade é possível de severo julgamento. Aos corintios, o apostolo Paulo recomendou a busca da reconciliação entre os irmãos, sem a intervenção dos tribunais humanos, para que não ocorra a condenação ( I Co 6.6-8).

Nesse texto, Paulo declara que o fato de haver demandas entre os irmãos já é completa derrota.

c) Fortalecimento da vida comunitária - Os cristãos, conforme Atos dos Apóstolos deixaram os exemplos de um estilo de vida caracterizado pela união, amizade e solidariedade (At 2.44,45; 4.22)

Jesus declarou: “todo reino dividido contra si mesmo ficara deserto, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá” (Mt 12.25).

É oportuna a declaração do salmista: “Oh! Como é bom e agradável viveram unidos os irmãos! (...) Ali derrama o Senhor a sua Benção e a vida para sempre” (Sl 133).


[1] STOTT, Jonh. Contracultura Cristã. São Paulo: ABU Editora, 1982. P. 76.
[2] TASKER, R. G. V. Mateus: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 1991. p.68
[3] BOYER, Orlando. Mateus – O Evangelho do Rei. São Paulo: EMPREVAN Editora, 1973, p. 89.


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